7 de agosto de 2017

Capítulo treze

SHERLOCK PREPAROU-SE PARA UMA ATERRISSAGEM dolorosa em um chão de pedra ou cimento, mas caiu na água. Água gelada e corrente.
Não tinha nem um metro de profundidade. Suas costas tocaram o fundo e Sherlock se debateu até emergir, tossindo e sufocando. Resistiu à correnteza colocando um pé diante do outro.
A escuridão o cercava. Sherlock levantou-se. A água gelada roubava o calor e a força de seu corpo. Tentou tocar as laterais do canal ou escoadouro onde havia caído, mas não encontrou nada. O barulho da água também era estranho: não ecoava como deveria se corresse por um túnel de tijolos.
Quando seus olhos habituaram-se à escuridão, ele percebeu que havia luz ali embaixo, afinal. A tampa do bueiro era perfurada, de modo que finos raios de luz penetravam. Mais adiante, e olhando para trás, percebeu que havia iluminação semelhante. Apesar de não saber onde estava, pelo menos assim poderia se localizar.
Estava em um riacho que fluía rapidamente. Dos dois lados, a três metros de distância, em vez das paredes curvas de tijolos que esperaria ver em um esgoto ou escoadouro, havia uma margem de terra lamacenta e pedras em que cresciam uma vegetação anêmica e tufos de grama pálida e fantasmagórica. No alto das encostas, alguns metros de parede sustentavam o teto de tijolos que se estendia sobre o rio.
O musgo descia do teto em longos ramos. Sherlock achou que eles pareciam os tentáculos de alguma criatura bizarra que tateava às cegas, à procura de suas presas.
Um arrastar repentino o assustou. Diretamente acima dele, a tampa do bueiro foi aberta. Uma coluna de luz brilhante desceu até a correnteza por onde ele andava. Rápido, ele deu alguns passos seguindo a corrente para não ser visto.
— Onde ele está? — sussurrou uma voz vinda de cima. Ela falava em francês, mas Sherlock detectou um forte sotaque. O homem devia ser russo. — Será que ele desceu?
— Não estou vendo — respondeu outra voz, essa mais áspera, no mesmo idioma mas sem sotaque. — O que é isso? Um esgoto?
— Você não sabe de nada? — cochichou a primeira voz. — Isso é o velho rio Neglinnaia. Ele encontra o rio Moscou a pouco mais de um quilômetro daqui. Foi coberto há uns cinquenta anos, quando reconstruíram a cidade.
Sherlock olhou em volta. Um rio, não um esgoto? Fazia sentido. Em algum lugar o Neglinnaia ainda devia correr a céu aberto, mas, naquela parte, fora trancafiado na escuridão cinquenta anos antes.
O rio Moscou estava próximo. Um quilômetro seguindo a correnteza. Podia conseguir!
— O garoto deve ter descido — insistiu a voz áspera. — Não há outro lugar para onde possa ter ido. Mas ele subiu ou desceu o rio?
— Desceu — sussurrou o outro homem. — Ele vai seguir a correnteza. É inútil lutar contra ela. — O homem parou para pensar. — Desça e vá atrás dele. Mate-o, se puder; deixe o corpo apodrecer no rio.
— Por que não o agarramos na rua? — perguntou a voz áspera. — Por que causar toda aquela confusão fingindo que o garoto era um ladrão?
— Pegá-lo na rua atrairia muita atenção — cochichou o outro. — Alguém poderia ter interferido. Há policiais por toda a cidade. As instruções foram para tirá-lo do caminho. Prendê-lo era a melhor opção, mas agora, que está fora das vistas, podemos aproveitar para tirá-lo do caminho... de uma vez por todas. Desça e vá procurá-lo.
— Está brincando? A água deve estar congelando!
— Tem uma ideia melhor?
— Sim. Você vai!
O homem que sussurrava bufou.
— Quer falar com o policial, vá em frente. Ele não vai ouvir você como me ouviria; eu, um russo nativo! Além do mais, já estabelecemos que o garoto roubou minha carteira. Que sentido fará se, de repente, eu desaparecer e você assumir meu lugar?
— Tudo bem. — O homem de voz áspera parecia conformado. — E o que você vai fazer?
— Vou chamar aquele policial idiota para organizar uma busca nas ruas, ao longo do curso do Neglinnaia. Encontro você no escoadouro do rio Moscou.
A mente de Sherlock estava a mil. Tinha de seguir em frente, tinha de se mexer agora, antes que o bandido de voz áspera começasse a descer a escada!
Ele deu alguns passos, tentando não fazer barulho. A água gelada envolvia seus tornozelos, penetrava nos sapatos e encharcava as meias, que faziam barulho a cada passo. Sentia um cheiro rançoso: talvez aquilo fosse um rio, e não um esgoto, mas Sherlock imaginava que algumas pessoas o usavam dessa forma.
Atrás dele, barulhos indicavam que o homem de voz áspera descia a escada devagar. Ele também devia ter escorregado, porque gritou, um berro que ecoou pelo canal um segundo antes do baque do corpo mergulhando na água. Uma onda passou por Sherlock, empurrando-o para frente. Ele comemorou por dentro. Talvez estivesse com sorte; o homem podia ter se afogado! Em seguida, ouviu uma voz gaguejando na escuridão, e o entusiasmo momentâneo desapareceu. Teria de resolver o problema da maneira mais difícil.
Mais sentindo do que vendo as margens do rio, Sherlock se perguntou se não poderia escalar uma delas e sair da água, mas logo rejeitou a ideia. Pelo que vira, as encostas eram íngremes e lamacentas. Era provável que ele escorregasse e caísse na água, o que o faria perder um tempo precioso. Não: por mais que a opção parecesse atraente, tinha de continuar andando pela água. Pela água gelada e fétida.
Sherlock percebeu que se aproximava de outro bueiro. Se não tomasse cuidado, os raios de sol o iluminariam e delatariam sua posição. Ele se aproximou da margem direita.
Na luz fraca que se infiltrava como chuva, Sherlock conseguiu identificar os degraus da escada que descia do bueiro. Estava presa ao teto e provavelmente descia até o leito do rio. Os degraus e corrimãos pareciam corroídos, enferrujados e úmidos. Por um segundo, Sherlock pensou em subir a escada e tentar abrir a tampa, mas logo desistiu. Havia muitas coisas que poderiam dar errado. O perseguidor o veria no momento em que se colocasse na luz, e ele só teria de puxá-lo da escada.
Mesmo que tivesse a sorte de chegar ao topo, ainda havia a possibilidade de não conseguir afastar a tampa do bueiro, ou, se conseguisse, de simplesmente emergir no meio do grupo que o procurava na rua lá em cima. Não; por mais que detestasse a situação, precisava seguir em frente.
Os dedos de Sherlock tocavam a água enquanto ele caminhava pelo leito do rio. Alguma coisa roçou nele e ele retirou a mão com um movimento brusco, sufocando um grito. Imaginou que fosse um rato nadando na água poluída, mas talvez fosse só lixo jogado por um buraco na rua. Talvez. Mas seu coração ainda batia acelerado, e suas mãos tremiam.
O leito do rio era irregular e lamacento. Seus pés afundavam e ficavam presos, e ele precisava se esforçar para soltá-los. Impossível prever em que estado estariam seus sapatos quando saísse dali – se saísse. Também havia plantas na água, mato que se enroscava o tempo todo em seus tornozelos e retardava o ritmo da caminhada. Precisava puxar os pés para arrancar a vegetação pela raiz. Pensou nos calçados cobertos de lama, arrastando tufos de plantas a cada vez que ele se movia.
Os sons atrás dele eram mais regulares agora: pegadas constantes indicando que o perseguidor seguia em frente. Sua respiração era ofegante, chiada e áspera, um ruído que se repetia como se fosse uma máquina prestes a dar defeito.
Sherlock se esforçava para enxergar melhor na escuridão, esperando identificar o escoadouro do rio adiante. Imaginava que a passagem fosse um arco ou uma abertura circular para o rio Moscou, que ele imaginava ser uma corrente larga e caudalosa cruzada por pontes. Mas não conseguia ver nada. A escuridão à sua frente era intensa e ininterrupta.
E se a abertura ficasse sob o nível da água, e acima da superfície não houvesse nada além de uma simples parede de tijolos indicando o ponto onde um rio desaguava no outro? E se houvesse uma grade separando os dois rios? E se não conseguisse passar e tivesse de voltar, passando pelo homem que o seguia, o homem que tinha ordens para matá-lo? Os pensamentos giravam em círculos em sua mente, sem nunca chegar a nenhuma conclusão, colidindo uns com os outros e provocando ondas de choque que reverberavam pelo cérebro.
Precisava se controlar. Tinha de se concentrar, ou não sobreviveria.
Alguma coisa tocou seu rosto. Ele se encolheu, quase gritando de horror, mas conseguiu sufocar o som apertando a boca com o dorso da mão e mordendo com força. Havia sentido algo frio e escorregadio. Ele balançou a mão na frente do rosto e alguma coisa molhada envolveu seu pulso.
Sherlock percebeu, aliviado, que era apenas um musgo como os que vira anteriormente pendendo do teto. Sherlock puxou a mão e a planta se soltou do teto com um barulho de sucção.
Quando voltou a caminhar, percebeu que havia perdido completamente a sensibilidade nos dedos dos pés.
O tempo todo, atrás dele, seguiam as pegadas e a respiração pesada do homem que o perseguia. Quando olhou para trás, tudo que viu foi a escuridão. A qualquer segundo poderia sentir a mão em seu ombro, puxando-o para trás, forçando-o sob o rio Neglinnaia, onde ele se afogaria na escuridão completa e seu corpo nunca seria encontrado.
De repente um pensamento lhe ocorreu, e ele hesitou.
Talvez pudesse escalar a margem nesse ponto e esperar seu perseguidor passar. Quando chegou ao bueiro seguinte, ele se aproximou mais uma vez da lateral do rio, onde a margem começava a subir, para que não fosse visto. Esticou as mãos e agarrou um tufo de grama clara que poderia usar para facilitar a subida.
Alguma coisa saiu das sombras e rosnou.
Andava em quatro patas curtas e tinha um focinho pontudo na cabeça triangular que se projetava para trás, com duas orelhas grandes. Os olhos eram pequenos e escuros, e a boca estava retraída, exibindo muitos dentes afiados como cacos de vidro. O pelo marrom e preto que cobria seu corpo era manchado e cheio de falhas.
Atrás dele, três outras criaturas semelhantes se aproximaram. Sherlock percebeu que eram cachorros, mas não pareciam com nenhum cachorro que já tinha visto. Deviam viver ali embaixo, no escuro, geração após geração, descendentes de vira-latas que conseguiram encontrar o caminho para o rio subterrâneo, alimentando-se de ratos e talvez de peixes. Sem nada para ver, seus olhos haviam sumido e deixado de funcionar, mas as orelhas haviam aumentado para substituir o sentido perdido.
Sherlock desconfiava que, para eles, o som era tudo.
Por um momento, ele se lembrou dos túneis sob a estação de Waterloo e das crianças selvagens que lá viviam. Sherlock teve pena delas, uma emoção que estivera ocupado demais para sentir durante a fuga. Aquelas crianças haviam sido forçadas a viver como animais selvagens, mas pelo menos os cachorros de Moscou tinham as garras e os dentes para garantir sua sobrevivência. As crianças não tinham nada além da inteligência, e Sherlock achava que até isso perderiam em pouco tempo.
O líder da matilha franziu o focinho. Era como se tentasse farejar o ar, mas o cheiro de podridão que subia como um gás do rio tornava o esforço inútil. As orelhas balançaram ao, também em vão, tentar determinar para onde Sherlock fora. Estava bem em frente, com a mão estendida, mas, enquanto não se movesse, o animal não poderia ouvi-lo.
Bem, essa era a teoria, pelo menos.
Sua mão estava tão fria que precisou cerrar o punho para conter o tremor, mas era difícil suportar o torpor. Seus dedos sofreram um espasmo repentino. O ruído de sua mão se movendo, apenas um sussurro para Sherlock, deve ter sido como uma explosão aos ouvidos dos cachorros. O líder saltou para a frente. Sherlock tirou a mão do caminho, e os dentes afiados do animal se fecharam sem atingi-lo.
O cachorro inclinou a cabeça para trás e começou a latir. Os outros três o imitaram. O som ecoava pelo túnel.
Sherlock recuou, mas o barulho que fez ao vadear o rio delatou sua posição, facilitando o ataque dos cães.
O líder deu alguns passos e saltou por cima de Sherlock com a boca aberta.
Um braço envolveu o pescoço de Sherlock e o apertou com força, girando-o na água.
— Peguei!
Seu perseguidor só teve tempo de gritar aquela palavra antes que o líder da matilha o atingisse como uma bala de canhão, cravando os dentes em seu braço. O alvo do animal não era esse, mas ele não era exigente. Mordeu com força.
O perseguidor de Sherlock gritou, um som estridente e agudo demais para um homem de voz tão áspera. O braço em torno do pescoço do menino enfraqueceu, e ele se libertou.
A luz que penetrava pelos buracos nas tampas dos bueiros permitiu que Sherlock visse o homem se debatendo na água, tentando livrar-se do cachorro. Dois dos três que ainda estavam na margem também pularam na direção dele. Um mordeu a perna do homem enquanto o outro caía em seu peito e abocanhava a garganta. O homem caiu para trás no rio sujo, os braços se debatendo loucamente.
Sherlock se afastou com cuidado pela água quando o último cachorro mergulhou e desapareceu.
Por um segundo, ele pensou em subir a margem, mas podia haver mais cachorros escondidos.
Relutante, seguiu em frente.
Atrás dele, ouviu ruídos de luta na água e grunhidos, depois só os movimentos na água, depois nada. Adiante dava para ver uma luz fraca, como uma lamparina a óleo pendurada em uma porta em uma noite escura. Sherlock continuou andando, vendo a água formar ondas a sua frente enquanto corria. A luz tornou-se mais brilhante, ferindo seus olhos, e assumiu a forma de um arco – um arco pelo qual era possível ver a água azul-acinzentada de um rio maior correndo perpendicular àquele em que ele estava.
Seus olhos já se haviam habituado à luz do dia quando ele alcançou o arco. Não havia grades nem quaisquer obstáculos impedindo a passagem. O rio Neglinnaia desaguava no rio Moscou por uma abertura nas margens a cerca de trinta centímetros de altura, formando uma pequena cachoeira.
Sherlock continuou andando. Segurando-se à abertura na parede com uma das mãos, debruçou-se e olhou para o lado, para as margens do rio Moscou.
O rio corria entre muros de pedras. Se havia algum solo, areia ou outro tipo de piso, estava escondido sob a água. Ao olhar para cima, Sherlock percebeu que o leito pelo qual o Neglinnaia corria ficava uns dois metros abaixo do nível da rua. Uma escada de ferro com a pintura preta soltando flocos vermelhos de ferrugem subia ao lado da abertura. O problema, Sherlock sabia, era que, se subisse aquela escada, poderia acabar nos braços do policial e do homem que o acusara de roubar sua carteira.
Ele olhou para o rio outra vez e notou uma coisa que não percebera antes: uma altura em que as pedras recuavam cerca de trinta centímetros. Parecia acontecer a intervalos de dois metros e provavelmente era uma tentativa do arquiteto de garantir que o espaço sobre o rio se tornasse mais largo conforme o nível da água subisse, talvez para evitar que transbordasse. Qualquer que fosse o motivo, isso dava a Sherlock uma saída. Tudo o que tinha de fazer era seguir por aquela faixa de pedras como se andasse na corda bamba.
Foram necessários trinta minutos de manobras cuidadosas, durante os quais ele quase caiu três vezes nas águas do rio Moscou, que fluía sob ele. No começo estava molhado e com frio, mas no final estava seco porém congelado, embora não soubesse se o vento encanado que corria pelas margens do rio secara suas roupas ou se as roupas ensopadas haviam congelado. Quando finalmente encontrou a escada enferrujada que o levou à superfície, também teve a sorte de encontrar um braseiro a poucos metros, cheio de carvões em brasa, em que um russo assava castanhas. Por alguns kopeks, o homem deixou Sherlock se aquecer ao lado das brasas.
Passada meia hora e depois de comer dois sacos de castanhas torradas, Sherlock sentia-se decente o bastante de novo para voltar ao hotel. Tinha quase certeza de que agora estava seguro: não vira ninguém andando pela margem do rio à sua procura e, pelo que pudera compreender, os bandidos o haviam encontrado por acidente, como os de Londres. Ele acenou agradecido para o vendedor de castanhas e se afastou. As pernas doíam, a cabeça também, e as roupas estavam duras, muito diferentes do jeito como eram antes, mas pelo menos estava relativamente aquecido e seco.
A caminhada de volta levou apenas vinte minutos e, quando finalmente viu a porta de entrada do Hotel Slavianski Bazar, Sherlock suava por causa do esforço. O vento frio de Moscou transformou a umidade em sua testa suada em gelo após poucos instantes.
Acontecia alguma coisa na frente do hotel. Uma carruagem negra puxada por cavalos, sem marcas ou brasões visíveis, estava parada na rua. As portas ficavam na parte traseira do veículo, e não nas laterais. O condutor usava roupas cinzentas simples e chapéu de pele, assim como os dois homens que saíram do hotel e se dirigiram à carruagem. A diferença, porém, era que esses últimos arrastavam um terceiro homem entre eles. Ele vestia um terno preto de qualidade e colete.
Era Mycroft.
Ele protestava em voz alta e resistia, mas Sherlock não conseguiu ouvir o que dizia.
O condutor desceu do seu lugar para ajudar os dois homens a empurrar Mycroft para o veículo. Os outros entraram depois e fecharam a porta. Parecia que o condutor passara um ferrolho para trancar a porta por fora.
Então o condutor voltou a seu lugar e estalou o chicote acima da cabeça dos cavalos. Os animais afastaram-se trotando, levando a carruagem para longe de Sherlock.
O desânimo o dominou. Tudo o que havia enfrentado nas últimas horas, nas últimas semanas, tudo levara àquele momento: estava sozinho na rua de uma cidade estrangeira enquanto seu irmão era levado pela polícia secreta. Sherlock tentou pensar em alguma forma, em alguma pequena semente que pudesse tornar-se um plano para trazer Mycroft de volta, mas não conseguiu nada. Ele literalmente não fazia a menor ideia do que fazer em seguida.

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