30 de agosto de 2017

Capítulo três

LARCHMONT COMEÇOU A ANDAR e estalou os dedos para Sherlock e Gittens.
— Vocês dois — ele berrou. — Olho vivo agora, e tragam para fora as armas do arsenal. Distribuam-nas entre a tripulação. — Ele retirou um cordão de seu pescoço, onde estava pendurada uma chave enferrujada, e o entregou a Gittens. — Peguem-nas agora, rápido. Mandarei uns homens para trazê-las. Quando terminarem com as armas, comecem a trazer os pinos de amarração. Depois disso, tragam os ganchos e as correntes.
— Arsenal? — Sherlock questionou conforme Larchmont se afastava para gritar com outro marinheiro. — Eu nem sabia que tínhamos um arsenal.
Gittens riu amargamente.
— Não comece a ter ideias. Não é como se esse fosse um navio de guerra. O arsenal é apenas um armário perto da cabine do capitão, e as armas foram coletadas em várias viagens nos últimos dois anos. Há espadas, algumas facas, e um par de mosquetes e rifles enferrujados. Portanto eles vão provavelmente explodir nas mãos de algum homem assim que o gatilho for puxado. Há também alguns machados que usamos para cortar a madeira e os cabos de emenda, e há rumores de que o capitão possui um revólver do Exército que ele adquiriu num bazar em algum lugar e que ele guarda debaixo do travesseiro, em caso de motim. — Ele riu novamente, mas não havia humor no som. — Oh, suponho que podemos também contar com as facas de cozinha do Wu Chung. Vamos esperar que ele as esteja afiando com regularidade.
— Não é muito para se lutar contra piratas — disse Sherlock ansiosamente.  —Não temos um canhão, ou qualquer coisa assim?
— Este é um navio comercial. Transportamos carga. Canhões são pesados e ocupam espaço que poderia ser usado para empilhar caixas ou sacas. Não, nossa melhor chance é navegar com as velas ao máximo e esperar que a gente se mantenha à frente deles.
Sherlock franziu o cenho.
— Mas estamos em posse de muita carga. Isso vai nos atrasar. — Ele olhou ao redor. — O Sr. Larchmont tem que pedir à tripulação para lançar as caixas ao mar! Precisamos estar o mais leve possível – é a única maneira de obtermos velocidade suficiente!
Ele começou a se mover na direção aonde Larchmont gritava com os marinheiros para desfraldar as velas e apertar as cordas, mas Gittens segurou seu braço.
— Não seja estúpido — ele sibilou. — Nós não navegamos ao outro lado do mundo para despejar nossa carga no mar ao primeiro sinal de problemas. É com ela que o capitão faz seu dinheiro. Ele prefere ordenar que metade da tripulação salte na água do que lançar a carga fora. Marinheiros são baratos. Podem ser apanhados em qualquer porto. Perder a carga significa perder dinheiro. — Ele olhou para o mar. — E com base no que ouvi sobre os piratas chineses, eu seria o primeiro da fila a pular. Eu preferiria me arriscar com os tubarões, realmente preferiria.
Gittens puxou Sherlock, levando-o consigo para a escotilha mais próxima. Eles andaram rapidamente no interior do navio, e Gittens liderou o caminho para uma porta anônima trancada no meio de um longo corredor. Homens trombavam além deles, expressões de alarme no rosto. Alguns deles começaram a formar uma fila do lado do arsenal – presumivelmente por ordem de Larchmont. Gittens conseguiu destrancar o cadeado emperrado e os marinheiros de repente apertaram-se nas paredes do corredor, e Sherlock viu o capitão Tollaway caminhando no centro. A expressão em seu rosto era intimidadora, mas Sherlock pensou poder identificar um tom cinza de preocupação em seu olhar sombrio.
Um revólver pendia de sua mão.
— Tenham coragem, rapazes — ele disse a ninguém em particular quando passou. — Não deixaremos esses bárbaros selvagens colocarem as mãos em nossa carga! Vamos lutar até o último homem antes de deixar que isso aconteça! Um xelim para aqueles que matarem um dos piratas!
A fila de marinheiros soltou um sonoro grito quando ele passou, mas Sherlock suspeitava que eles imaginavam quem seria o último homem.
Gittens puxou a porta do arsenal. Lá dentro, Sherlock viu espadas e facas penduradas em ganchos. Algumas estavam enferrujadas. Gittens gesticulou para Sherlock pegá-las e começar a entregar aos homens na fila. O próprio Gittens puxou um pano oleado dos fundos do armário e desembrulhou-os para revelar algumas armas longas e antiquadas. Sherlock tinha visto agricultores em Farnham usarem armas mais modernas para espantar aves.
Não foi uma boa visão. Ele podia sentir um nó de apreensão apertando e afrouxando-se em seu estômago. Será que depois de ter sobrevivido à tempestade, ele morreria aqui, no meio do oceano, a milhares de quilômetros de tudo o que amava?
Havia coisas que ele precisava fazer em casa. E quanto a Virgínia?
Depois de as armas terem sido distribuídas, Gittens fechou e trancou o arsenal. Ele manteve duas facas para si, prendendo-as em seu cinto. Uma era curta e robusta, com o punho revestido de couro. A outra era uma lâmina curvada com o fio no formato de uma onda – não era uma faca inglesa, isso era certo.
Gittens fez menção de voltar para a escada, então hesitou. Ele puxou a primeira faca de seu cinto e a entregou a Sherlock.
— Aqui — disse ele asperamente. — Fique com isso. Pode ser de ajuda. Se algo for, além de rezar.
Antes que Sherlock pudesse dizer qualquer coisa, Gittens apressou-se para fora.
No convés, a tensão era tão grande que parecia pairar como um véu acima da tripulação. Metade dos homens estava acima no cordame ou puxava cordas no convés; a outra metade estava armada e agrupada ao longo da lateral do navio em que as velas tinham sido avistadas anteriormente.
Sherlock atravessou o convés para se ajuntar a eles, costurando seu caminho através da pressão dos corpos até estar contra a balaustrada. O navio cortava rapidamente as ondas, e água espirrava no rosto de Sherlock. As velas de seus perseguidores despontavam no horizonte vinte minutos atrás, mas agora eles estavam visivelmente mais perto. Sherlock esticou o pescoço para dar uma olhada.
O navio inimigo era diferente de tudo o que Sherlock já vira antes. Seu casco era curvado de modo que a proa e a popa eram projetados para cima, elevados acima do mar, e parte do meio cavalgava mais abaixo nas ondas. As velas eram de uma cor castanho-avermelhada, onduladas como leques, e em vez de estarem presas apenas na parte superior, eram divididas e presas em mais lugares. Era difícil ver a popa do navio, mas pelo pouco que Sherlock podia dizer, o leme era muito maior que o do Gloria Scott – eram necessários três ou quatro homens para movê-lo.
Quaisquer que fossem os princípios de design que os projetistas do navio tinham seguido, bastante diferentes dos utilizados na Inglaterra.
Sherlock conseguiu distinguir figuras agrupadas ao longo do navio perseguidor. Todas seguravam espadas, que eram balançadas acima de suas cabeças.
Os dedos de Sherlock apertaram o punho coberto de couro de sua faca. Não era muito para defender sua vida.
O vento que soprava na direção da popa trouxe consigo o som das vozes. Os piratas cantavam uma espécie de canto de guerra.
Sherlock e o resto da tripulação observavam enquanto a perseguição transcorria. Apesar de cada vela que o Gloria Scott possuía tivesse sido posta em uso, apesar de cada corda ser apertada até ranger, o navio perseguidor gradualmente diminuiu a distância entre eles. Sherlock podia ver os rostos dos piratas chineses: tatuados e rosnando. Metades deles era careca, enquanto a outra metade possuía cabelos longos que caíam selvagemente em torno dos ombros ou eram amarrados em tranças penduradas nas costas.
A voz do Sr. Larchmont subiu acima do rugido do vento e do canto dos piratas.
— Fiquem firmes, rapazes! Estaremos rindo sobre esta aventura e bebendo nas tabernas de Xangai antes que percebam!
Mas não estariam. Sherlock tinha certeza disso. O navio pirata chinês fora construído para ser rápido, enquanto o Gloria Scott tinha o peso extra da carga. O navio pirata corria como um galgo através do oceano, enquanto o Gloria Scott revolvia nas ondas feito um buldogue gordo. Sherlock percebeu que Wu Chung estava em pé ao lado dele. O cozinheiro chinês olhou impassível para o navio atrás deles.
— Eles são chamados “junco” em seu idioma — disse baixinho depois de um tempo. — Apesar de não ser a nossa palavra para ela. Juncos são mais rápidos e melhor equipados do qualquer outro navio no mar. Já navegávamos com eles há milhares de anos enquanto seu povo apenas olhava para o oceano querendo saber como andar através dele.
— O que farão conosco se nos pegarem? — perguntou Sherlock.
— Roubar nossa carga, com certeza — disse Chung. — Se tivéssemos muitos passageiros, então eles poderiam capturá-los em troca de resgate por parte das autoridades chinesas em Xangai, mas só temos um e eu não acho que traria muito dinheiro. Estes piratas são camaradas supersticiosos. Uma olhada no rosto dele e vão querer jogá-lo ao mar.
— E o resto de nós?
— Se tivermos sorte, nos deixarão trancados no porão, à deriva, com as velas rasgadas e toda nossa comida tomada.
— E se não estivermos com sorte? — Sherlock se viu obrigado a fazer a pergunta, mas ele sabia que não gostaria da resposta.
Wu Chung obviamente sentia o mesmo.
— Nem pergunte — ele respondeu calmamente. — Você descobrirá em breve.
— Mas você fala cantonês — Sherlock ressaltou. — É chinês como eles. Você não pode falar com eles, negociar? Deve haver algo que possamos oferecer para que eles vão embora.
Wu balançou a cabeça.
— Posso até falar a mesma língua, mas eu não sou como eles. Talvez a minha aparência salve a minha vida, talvez não. O fato de estar neste navio com vocês significa que serei tratado como vocês. Pior, talvez, já que deixei minha casa e estou trabalhando com demônios estrangeiros. Não há nada que eu possa oferecer-lhes que eles não possam tomar sozinhos.
Sherlock olhou para a mão de Wu. O cozinheiro segurava uma grande faca. Os nós dos dedos estavam brancos tamanha a força com que ele apertava o cabo.
Wu viu que Sherlock olhava para a faca.
— Tentarei lutar com vocês — ele falou calmamente. — E, se essa for a vontade do universo, morrerei com vocês.
Sherlock estremeceu.
— Estou realmente esperando que não chegue a este ponto.
Enquanto Sherlock e Wu conversavam, o junco se aproximou mais. Sherlock conseguia distinguir as vozes individualmente, e podia ver as armas dos piratas claramente. Alguns deles seguravam espadas curvas; alguns tinham lanças longas com lâminas perversamente farpadas na extremidade. Alguns seguravam formas de metal estranhas que pareciam nada mais do que duas espadas amarradas e recobertas de espinhos de metal salientes. O convés do junco era uma floresta de lâminas afiadas.
Ele nunca se sentira tão intimidado, ou tão impotente, em toda a sua vida. Podia ver a ferocidade das expressões dos piratas e a selvageria de suas roupas. Muitos deles usavam turbantes feitos de pano vermelho ou azul. Alguns deles estavam de peito nu, outros usavam camisas ásperas ou coletes. A maioria também tinha cintos largos de couro onde estavam penduradas uma série de facas, espadas e pistolas antigas sobre calças largas enfiadas em botas de couro.
Sherlock notou que muitos deles usavam joias. Isso fazia sentido. Não era como se eles pudessem guardar o tesouro em um banco na costa, e escondê-lo em algum lugar a bordo do junco significava correr o risco de outro pirata roubá-lo. A única solução segura era levar consigo o máximo de sua riqueza pessoal tanto quanto pudessem.
Apesar de seu terror, Sherlock percebeu que um dos piratas segurava algo. Era do tamanho e da forma de um nabo, e ele o erguia como se pretendesse jogá-lo.
Sherlock queria saber o que exatamente ele achava que estava fazendo. Atirar pedras, ou algum equivalente mais próximo, não ajudaria exatamente os piratas a tomarem o Gloria Scott, ajudaria?
Então ele percebeu que vários dos piratas seguravam objetos semelhantes.
O restante da tripulação do Gloria Scott ficou igualmente intrigado. Sherlock podia ouvir discussões febris de todos ao seu redor com seus companheiros especulando amplamente sobre o que os piratas planejavam.
Eles tiveram sua resposta mais cedo do que gostariam. Quando os navios ficaram dentro do espaço de arremesso, três dos piratas brincavam com os objetos em suas mãos. Levou um momento para Sherlock descobrir o que eles estavam fazendo, mas quando os piratas se equilibraram como no críquete e jogaram os objetos do tamanho de nabos – no sentido do Gloria Scott, Sherlock pôde ver que cada um deles levava atrás de si um pedaço de corda que havia sido aceso.
Um pavio.
— Cuidado, rapazes! — a voz de Larchmont subiu acima do tumulto. — É a obra do Diabo!
Os objetos fizeram um arco para cima. Um deles atingiu um mastro e ricocheteou, caindo de volta para a faixa do mar entre os dois navios. Os outros dois bateram no convés, saltaram algumas vezes e, em seguida, rolaram até parar.
Antes que alguém pudesse chegar até lá, eles explodiram.
Eram algo como fogos de artifício e como pequenas bombas.
Chamas amarelas e escarlate espalharam-se rapidamente sobre o convés como uma espécie de substância oleosa respingando em toda a madeira e embebendo0-a. Faíscas espalharam-se como enxames de insetos de fogo. Os marinheiros correram para jogar baldes de água do mar no óleo inflamado. Vapor subiu do convés, mas as chamas apenas silvaram e, em seguida, continuaram a arder.
— Areia! — Larchmont gritou de algum lugar do convés. — Abram os sacos de areia! Atirem-nas nas chamas se dão valor às suas vidas.
Mais cinco bolas de fogo irromperam no convés, derramando óleo, chamas e faíscas em todas as direções. Um marinheiro que corria com um balde de água escorregou e caiu na conflagração. Sherlock o viu rolar novamente, mas a sua camisa estavam em chamas. Sem pensar, Sherlock correu para ele e tentou apagá-las, mas o óleo tinha embebido o tecido e não se extinguiria facilmente. Outro marinheiro juntou-se a Sherlock e, juntos, conseguiram rasgar as costas da camisa do homem e jogá-la ao mar, chamuscando os dedos no processo.
A fumaça preta em todo o convés obscurecia a visão de Sherlock. A fumaça grudou no interior de sua garganta e ele engasgou. Seus olhos ardiam.
Pânico tomou conta do navio.
Mas só por um momento, e então a disciplina reafirmou-se, reforçada por ordens gritadas do Sr. Larchmont. Um grupo de marinheiros apareceu com sacos de areia, arrastados de algum lugar de dentro do navio. Arrancaram as costuras com facas e espalharam areia em todo o óleo que queimava. Isso sufocou as chamas instantaneamente. Fumaça escura percorria o convés, mas o brilho infernal do fogo tinha ido embora. A disciplina reafirmou-se.
Talvez porque perceberam que a tripulação do Gloria Scott estava em pé pronta com mais sacos de areia, ou porque os piratas não tinham mais munição, mas não havia mais bolas de fogo voando do convés do junco. O tom dos gritos dos piratas mudou também, de um riso triunfante para uma coleção negra de maldições e ameaças.
Um movimento no convés do junco atraiu a atenção de Sherlock. Ele olhou atentamente. Piratas se concentravam no ponto mais próximo do Gloria Scott. Carregavam ganchos. Vendo que eles se safaram das bolas de fogo, os piratas preparavam-se para embarcar no Gloria Scott. Sherlock podia jurar que alguns deles olhavam diretamente para ele, e sorriam com os dentes expostos.
Ele sentiu um arrepio involuntário. Seu estômago se agitou, e houve um gosto ácido, metálico na parte anterior a sua garganta. Parte dele desejava desesperadamente que a perseguição cessasse, para que alguma coisa acontecesse.
Como estava, tudo que ele podia fazer era esperar, e a espera era insuportável. Por outro lado, outra parte dele temia a batalha inevitável e esperava que a perseguição continuasse até que atingissem a terra. Tudo o que ele tinha era uma pequena faca para oferecer contra espadas, lanças e armas como aquelas que ele nunca vira antes. Se chegasse a esse ponto, seria uma luta que não duraria trinta segundos.
Então o primeiro pirata lançou seu gancho. Este arqueou através da distância entre os navios, arrastando uma corda atrás de si, como uma linha de lápis riscando a página azul do céu. A distância era muito grande. O gancho atingiu a lateral do Gloria Scott e ricocheteou, mas foi um sinal que acionou o restante dos piratas para a ação. Enquanto o primeiro puxava seu gancho para fora da água, pronto para tentar novamente, os outros balançaram seus ganchos ao redor de suas cabeças, deixando-os voar. O ar encheu-se com metal afiado e corda molhada. A maioria dos ganchos perdeu o alvo, mas quatro ou cinco deles passaram pela grade e acertaram o convés. Um grande grito subiu dos piratas. As cordas foram puxadas bruscamente antes que qualquer um da tripulação do Gloria Scott pudesse chegar até eles – puxaram com força suficiente para que a curva dos ganchos se prendesse na balaustrada. As cordas bem tensionadas formaram uma ponte precária sobre a qual os piratas poderiam escalar como macacos, mas antes que qualquer um deles pudesse chegar ao navio, a tripulação do Gloria Scott começou a serrar as cordas com espadas e facas, ou acertando-as com o machado. Alguns tentaram a sorte tentando arrancar os ganchos da madeira usando as mãos. Nenhuma dessas primeiras cordas durou mais que trinta segundos, fazendo com que os piratas que subiam ao longo dela caíssem na faixa estreita de água entre os dois navios, mas por essa altura, havia mais de vinte ganchos se acoplando nas grades do convés e nos mastros do Gloria Scott, ou se emaranhando no cordame do navio. Sherlock olhou ao redor desesperado.
Muito em breve haveria mais ganchos e cordas do que a tripulação pudesse lidar.
— Olho vivo! — O Sr. Larchmont gritou. — Se quiserem ver suas esposas e namoradas de novo, não deixem que esses bárbaros ponham os pés cheios de varíola no navio!
Sherlock viu que as cordas tinham dupla função: eram usadas como meio de alcançar seu convés e também para tentar diminuir a distância entre os navios. E parecia funcionar. O Gloria Scott e o navio pirata estavam quase lado a lado agora, e havia apenas cerca de cinco metros entre eles.
Um gancho caiu ao lado de Sherlock. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa a corda foi puxada, e o gancho chicoteou para longe dele, prendendo-se no aro de madeira em torno de uma das escotilhas. Sherlock saltou em direção a ela, desesperadamente serrando as fibras com a faca, mas sua lâmina estava cega e escorregava na superfície molhada. Ele pegou o gancho e tentou arrancá-lo da madeira. Estava difícil para seus dedos conseguirem segurá-lo.
Ele olhou para cima. Já havia piratas a bordo, lutando corpo a corpo com a tripulação! Tentando ignorá-los da melhor maneira possível, ele deixou seu olhar traçar o caminho da corda até onde esta se cruzava com a grade. Um pirata com aparência selvagem, cabelo na altura dos ombros e um enorme cicatriz na lateral do rosto já estava na metade do caminho!
Sherlock redobrou seus esforços. O gancho deslocou sob suas mãos e sob o esforço de cada fibra de seus músculos – os que ele usou para fazer força, é claro – a ponta afiada não tinha penetrado muito na madeira ressecada pelo sol.
Sherlock fez um último esforço, e o gancho se moveu até que apenas uma ponta ainda estivesse presa no alçapão de madeira. Ele olhou para cima. O pirata sorridente estava quase na balaustrada agora.
Sherlock chutou o gancho, tentando desesperadamente desprendê-lo.
Em algum lugar do navio uma arma disparou, e disparou novamente. O capitão?
Ainda chutando o gancho, Sherlock olhou para cima novamente.
Era tarde demais. O pirata tinha chegado ao convés do Gloria Scott. Ele deu um passo em direção a Sherlock, erguendo a espada ameaçadoramente.
Ele tinha um dragão tatuado em seu antebraço – uma bela criatura, ondulando sinuosamente sobre seu músculo e pintada em azul iridescente. Por uma fração de segundo que pareceu durar uma eternidade, Sherlock encontrou-se admirando a arte.
O lábio superior do pirata esticou em um sorriso irônico de triunfo. Seus poucos dentes espaçados como lápides eram manchados de preto.
Mais por pura frustração do que por esperança, Sherlock chutou o gancho novamente uma última vez. Ele desprendeu-se da escotilha levando junto uma ripa de madeira e uma nuvem de farpas. Ao mesmo tempo, uma repentina arrebentação das ondas separou os navios em uns dois metros ou mais. A corda instantaneamente tensionou e o gancho foi arremessado de volta para onde tinha vindo. As pontas afiadas pegaram o pirata no ombro. Seu rosto assumiu uma expressão de dor e espanto quando a corda puxou ainda mais, erguendo-o do convés e puxando-o de volta para a grade. Suas costas atingiram o topo da balaustrada com um baque terrível, e ele desapareceu por sobre a borda.
Apesar dos sons de confronto com aço, gritos e tiros que enchiam o ar, Sherlock poderia jurar ter ouvido um grito aterrorizado interrompido por um splash.
Enquanto os navios se aproximavam, Sherlock não deu a ele muita chance de subir de volta. Se o pirata não se afogou imediatamente, os cascos provavelmente o esmagaram como um inseto entre dois gigantes.
E já fora tarde também.
Em um momento de relativa calma, Sherlock olhou ao redor, tentando se orientar. Sua impressão era de que a batalha estava equilibrada. Parecia haver tantos piratas quanto marinheiros em seu navio lutando corpo a corpo, e uma rápida olhada na desocupada teia de cordas que agora ligava os dois navios sugeria que todos os piratas que iriam confrontá-los já tinham chegado. O restante era presumivelmente necessário para conduzir o navio pirata, impedir, por exemplo, que ele virasse repente e se chocasse contra o Gloria Scott.
Sherlock avistou o Sr. Arrhenius. O homem velado tinha saído de sua cabine para ver o que acontecia. Ele estava de pé meio escondido pelo mastro médio. Ele ergueu a mão, e Sherlock viu que ele segurava uma pistola. Cuidadosamente, ele mirou e disparou. Um pirata do outro lado do convés de repente se virou e caiu.
Arrhenius olhou para Sherlock e assentiu. Sherlock levantou o polegar em reconhecimento pela ajuda do passageiro.
Conforme Sherlock girava no lugar, um movimento chamou sua atenção. Um pirata saíra do meio da luta e se arrastava ao longo do convés para a elevação na traseira do navio, direcionando-se para a entrada no centro – a entrada que levava às cabines. Ele era pequeno, e o pouco cabelo que tinha estava puxado para trás em um rabicho lustroso. Foi a maneira oculta como se movia que atraiu a atenção de Sherlock. Em meio a um caos de selvagens agitando armas e figuras lutando, este homem se movia como se não quisesse ser notado.
Amyus Crowe muitas vezes disse a Sherlock para procurar por coisas que se destacavam, coisas que não pertencem ao cenário. Essas eram as coisas que têm uma história para contar.
Então Sherlock o seguiu.
No momento em que ele chegou à porta, o pirata havia desaparecido nas sombras do corredor. Sherlock ficou parado por um momento, para o caso de o homem se virar e sair, mas depois de alguns segundos o seguiu.
O clamor da luta lá fora extinguiu-se rapidamente. Sherlock pausou um pouco enquanto seus olhos se acostumavam à escuridão relativa. O pirata fora diretamente para a porta da cabine do Sr. Arrhenius. Mas Arrhenius estava no convés lutando – Sherlock o vira. O que, por Deus, o pirata procurava?
Havia uma fresta aberta, e Sherlock moveu-se silenciosamente para perto. Ele olhou para dentro.
O pirata era um contorno escuro iluminado apenas pela luz escassa que entrava pela escotilha, mas Sherlock podia vê-lo debruçado sobre uma mesa. Ele parecia olhar fixamente para alguma coisa.
Sherlock desejou poder ver o que era. Como se o destino o tivesse ouvido, o navio de repente balançou para um lado e Sherlock foi lançado contra a porta da cabine. Ela se abriu com o peso e ele cambaleou para dentro do cômodo.
A cabeça do pirata se ergueu. Seu olhar fuzilou Sherlock. Seus dedos, que estavam segurando um conjunto de documentos sobre a mesa, soltaram os papéis, permitindo que o homem os fechasse em punho, mas Sherlock teve tempo de ver que a coisa que o pirata examinava era um conjunto de diagramas que pareciam linhas como teias de aranha.
O que estava acontecendo?
O pirata pegou os papéis e deu a volta na mesa na direção de Sherlock. Ele resmungou algo em chinês, e levou um momento para Sherlock traduzir.
— Saia do meu caminho garoto, ou vou arrancar o seu coração e comê-lo. — Pelo menos foi o que Sherlock pensou que ele disse.
Sherlock endireitou-se.
— Ponha isso de volta. — Ele encontrou-se dizendo.
O pirata zombou. Ele deu um passo na direção de Sherlock, segurando o maço de papéis na mão esquerda. Ele levantou sua mão direita, e Sherlock viu surpreso que ele segurava uma faca. O pirata a atirou, visando o peito de Sherlock.
Sem pensar, Sherlock bloqueou a investida da faca com um movimento de sua mão esquerda entendida, em seguida, lançou a outra mão à frente, acertando o braço direito do pirata com a palma. O impacto paralisou temporariamente os músculos do pirata. Seus dedos espasmaram, e ele deixou cair a faca.
Sherlock percebeu com espanto que tinha realizado um clássico movimento de Tai Chi Chuan, mas mais rápido do que nunca.
O pirata deu um passo para trás. Ainda segurando os papéis, ele se virou e atacou com o pé direito, alto o suficiente para acertar o nariz de Sherlock e quebrá-lo. Seu corpo se inclinou para trás, para manter o equilíbrio.
Antecipando o que aconteceria, Sherlock se abaixou, apoiando o peso na mão e na perna esquerda dobrada, e movimentou a outra perna em paralelo ao chão, acertando o tornozelo do pirata – que caiu desajeitadamente de costas, fazendo os papéis que segurava voarem pelos ares.
Sherlock ficou surpreso. Era como se seu corpo já soubesse o que fazer sem o seu cérebro ter que instruí-lo. Graças aos céus pela gentil instrução de Wu Chung.
O pirata se arrastou pelo chão, buscando recolher os papéis. O que quer que fossem, ele realmente os queria. E cabia a Sherlock detê-lo. O rapaz agarrou o pé direito do pirata e o puxou para trás. Os dedos do homem agarraram-se ao tapete, mas quando se tornou óbvio que ele não conseguia impedi-lo, ele rolou e chutou violentamente. O calcanhar da bota acertou Sherlock no rosto. Um raio de abrasante agonia acertou sua cabeça, apagando todos os seus sentidos e todos os seus pensamentos.
Mãos o agarraram pelo pescoço e começaram a apertar.

Um comentário:

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Boa leitura :)