18 de agosto de 2017

Capítulo três

CHOCADO, SHERLOCK SENTIU O QUEIXO cair. Ele sabia que a Sra. Eglantine o odiava, mas o fato de que o sentimento fosse suficiente para querer que ele morresse, a ponto de chegar a pedir que alguém o matasse... isso foi um choque. O que Sherlock havia feito contra ela? Isto é, além de questionar sua posição e desafiar sua autoridade.
O homem de cabelo oleoso estava falando alguma coisa, e o menino se concentrou para ouvir.
— Vou pensar no assunto — respondeu ele —, vou mesmo, mas o problema é que eu poderia ter um bom rendimento em cima do que sei sobre aqueles arrogantes dos Holmes, mas estou me contendo. Em vez de fazê-los me pagar um guinéu por semana para guardar o segredo, tô usando essa influência para manter você trabalhando para eles. — O homem deu uma risada de deboche. — Vamos falar a verdade, quem contrataria uma megera mal-humorada como você sem ser obrigado? Tô perdendo dinheiro com esse acordo enquanto você desfruta um belo empreguinho e um salário.
A Sra. Eglantine começou a falar, mas o homem levantou uma das mãos e ela se calou.
— Eu sei o que você vai dizer — prosseguiu ele. — Vai falar que quando encontrar esse seu tesouro que tá escondido na casa vai rachar comigo, e vamos ficar ricos. O problema é que esse tesouro é o que se chama de “hipotético”... Eu nunca vi e não tô convencido de que existe. Por outro lado, o dinheiro que a família Holmes poderia me pagar pelo segredo deles é real. Dinheiro na mão... ou cerveja na barriga, no meu caso. Então preciso decidir: é melhor eu ter um pouco de dinheiro real ou um monte de dinheiro hipotético?
A Sra. Eglantine fungou.
— Nós temos um acordo, Sr. Harkness — disse ela. — Se voltar atrás agora, ninguém mais acreditará em você.
— Sou um chantagista — observou Harkness, tranquilo. — A única coisa em que as pessoas acreditam é que eu vou revelar seus segredos se não for pago com regularidade. — Ele suspirou. — Olhe, nós temos nos dado bem ao longo dos anos, querida. Você desenterra segredos familiares nos lugares onde trabalha e os traz para mim, e eu os uso para ganhar algumas pratas de vez em quando. Mas, desde que você ouviu falar desse suposto tesouro, a coisa toda foi para o saco. Por que não podemos voltar ao que era antes?
— Em primeiro lugar — disse a Sra. Eglantine, com um tom gélido —, eu não sou sua “querida”, nem nunca vou ser, e, em segundo, suas chantagens triviais sobre as pessoas da cidade por causa de roubos ridículos e romances ainda piores mal lhe rendem dinheiro suficiente para bancar aquelas apostas que você gosta de fazer nos cavalos e nas lutas ilegais. Se quer ter algum futuro, sou sua única chance.
Harkness suspirou.
— Você tem uma língua afiada, mas também persuasiva nessa sua boca, Betty. Tudo bem... vou deixar rolar por mais um mês. Mas só um mês, ouviu? Depois disso, vou cravar meus dentes na família Holmes e arrancar todo o dinheiro que eu puder.
— Para você — retrucou ela —, eu sou Sra. Eglantine. Nunca tome a liberdade de me chamar pelo primeiro nome. — Ela pareceu degelar um pouco, estendendo a mão para tocar o braço dele. — Estou quase encontrando, Josh... sei que estou. Só preciso de mais tempo. — Hesitou por um instante. — E preciso que aquele pivete intrometido do Sherlock fique fora do meu caminho. Você pode fazer isso por mim?
— Vou mandar um dos meus rapazes cuidar disso — prometeu ele. — Você tem tempo para um rango?
Ela balançou a cabeça.
— Aquela família maldita está esperando a refeição da noite. Juro, Josh, às vezes a vontade que dá é de envenenar todos eles e vê-los se contorcer em agonia no tapete da sala de jantar. Mas ainda não. Preciso voltar.
— Mantenha contato. — Ele riu. — E avise se achar os tais pratos de ouro de que vive falando.
— Eu vou achar. — A Sra. Eglantine se virou, e então voltou a olhar para o homem. — Ah, quase esqueci. Achei isto no quarto de uma das criadas. — Ela enfiou a mão em um bolso escondido da saia de crinolina e tirou uma carta. — É um bilhete de um garoto que se diz apaixonado por ela.
— Não estou interessado em fofocas — respondeu Harkness.
— Você estaria se soubesse que o garoto em questão é o filho mais velho do prefeito de Farnham.
Harkness inclinou a cabeça, subitamente interessado.
— O filho do prefeito namorando uma criadazinha sem-vergonha? Isso deve valer umas pratas. O prefeito é muito preocupado com as companhias do rapaz. Fala para todo mundo que o filho vai se casar com uma nobre. Ele vai querer que esse segredo fique muito bem-guardado. — Harkness franziu o cenho. — A carta tá escrita na letra do garoto? E ele assinou?
— Com amor e beijos.
Harkness sorriu.
— As pessoas não aprendem, não é? Por via das dúvidas, nunca registro nada por escrito. — Ele estendeu a mão e pegou a carta da Sra. Eglantine. — Obrigado por isto. Quer o dinheiro agora, ou eu ponho na conta?
— Pague depois. Só não esqueça.
— Ah, não vou esquecer. Tenho uma excelente memória.
Eles se separaram, e a Sra. Eglantine seguiu para um lado enquanto Josh Harkness foi para outro.
Sherlock quase esperou que o homem tentasse dar um beijo na bochecha dela, com base naquela sugestão de amizade no final da conversa, mas, se ele pensou nisso, não chegou a tentar.
O olhar do menino passou, incerto, de um para o outro. Deveria seguir a Sra. Eglantine ou Josh Harkness? Ele pensou que não precisava seguir nenhum dos dois – poderia simplesmente ir procurar Matty e passar o resto do dia em Farnham –, mas sabia que deveria aproveitar aquela oportunidade. Havia mais em jogo do que ele imaginara: não apenas sua própria segurança, mas também o futuro de sua família. Ele tinha que descobrir o que estava acontecendo e resolver o problema. Se pudesse.
Depois de alguns segundos, decidiu que o melhor era seguir o homem de cabelo oleoso. A Sra. Eglantine estava voltando para a mansão – ela mesma dissera isso. Sherlock sabia onde ela estaria e tinha uma boa ideia do que a mulher estaria fazendo. O sujeito é que era o fator de incerteza no momento, e era sobre ele que Sherlock precisava descobrir muito mais. Qualquer ameaça imediata contra ele, Sherlock, viria daquela direção.
Harkness agora possuía alguma informação incriminadora envolvendo uma das criadas da mansão Holmes. Quem seria? Sherlock não sabia o nome de nenhuma, e raramente falava algo com elas, mas todas pareciam bastante simpáticas e trabalhavam bem. E daí que uma delas encontrara felicidade com um garoto de classe social diferente? Sherlock não entendia por que alguém precisava ser punido por isso, que dirá o pai do garoto.
Mais uma vez, ocorreu-lhe que o sistema inglês de classes operária, média e alta era não só inútil e arcaico, como também prejudicial para a própria essência da sociedade.
Depois de conferir se a Sra. Eglantine não se virara para voltar por algum motivo, Sherlock esgueirou-se pela multidão para ir atrás do amigo dela.
O menino manteve-se bem afastado, para o caso de Harkness olhar por cima do ombro. Ele provavelmente não conhecia o rosto de Sherlock, mas parecia o tipo de homem que sempre verificava se não estava sendo seguido. Enquanto os dois avançavam pela multidão, Sherlock não pôde deixar de perceber que algumas pessoas – em geral, as mais bem-vestidas – se afastavam do caminho do homem e viravam o rosto para não olhá-lo. Harkness parecia ser conhecido por muita gente – e não no bom sentido. Sherlock lembrou-se no mesmo instante de alguns dos garotos mais velhos na Escola Deepdene que implicavam com os mais novos. Eles desfilavam pelos corredores da escola mais ou menos do mesmo jeito, e os outros saíam do caminho como peixinhos pequenos fugindo de um maior.
Sherlock sentiu uma presença a seu lado. Virou a cabeça ligeiramente, sem saber se queria descobrir quem era. Talvez a Sra. Eglantine tivesse olhado para trás e o visto. Mas não – era Matty.
Ele sorriu para Sherlock, comendo uma couve-flor crua.
— O guê gue tá acontecendo? — perguntou de boca cheia.
— Estamos seguindo uma pessoa.
— Quem? A Sra. Eglantine?
Sherlock balançou a cabeça.
— Não. Um homem com quem ela estava conversando. Acho que o nome dele é Harkness. Josh Harkness.
O rosto de Matty pareceu congelar. Ele arregalou os olhos, preocupado.
— Josh Harkness? Um sujeito baixo com cabelo que parece lavado com querosene?
— Esse mesmo.
Matty balançou a cabeça.
— Melhor não se meter com esse homem, Sherlock. Já ouvi histórias sobre ele. O pessoal dos barcos no canal fala dele aos sussurros. Ele fica com parte dos lucros da maioria dos ladrões que atuam na cidade. Pega cinco por cento dos rendimentos, uma vez por semana. E se alguém não pagar, ele pega cinco por cento do corpo deles... Corta fora. Dedos das mãos, dos pés, orelhas, nariz... o que for necessário para formar cinco por cento do peso da pessoa. É a regra, e ele nunca varia. — Matty estremeceu. — A gente conversou, eu e ele, um pouco depois que cheguei a Farnham. Ele me pegou pelo ombro no mercado e falou baixinho: “Percebi que você não se incomoda de surrupiar punhados de comida aqui e ali, meu jovem. Não tem problema... que ninguém diga que Josh Harkness priva um menino de seu alimento. Mas aceite o conselho de um amigo: se algum dia você evoluir para pegar dinheiro em vez de frutas e pães, eu fico com parte. Pergunte a qualquer um. E se eu não receber minha parte...” — Matty fez um sinal de corte com os dedos. — “Bom, de um jeito ou de outro, eu fico com uma parte, se é que você me entende.” Ele é do mal, Sherlock. Mesmo em uma lista de pessoas que não são boas, ele fica quase no topo.
Sherlock assentiu, pensativo, enquanto os dois avançavam pela multidão.
— Entendo. Fiquei com a sensação de que o sujeito não tinha muitos escrúpulos, mas ele sabe algo sobre minha família... alguma informação que está usando para ameaçá-los.
— É, o homem mexe com chantagem também. Ele coleciona todo tipo de segredinho das pessoas e toda semana as obriga a pagar o que puderem para ele não falar nada. — Matty balançou a cabeça. — São uns pence aqui, uns xelins ali, e algumas libras a cada semana, mas no final acumula. Ele tá fazendo uma fortuna sem nenhum trabalho.
— E está lucrando com a infelicidade das pessoas — disse Sherlock, sério. Ele percebeu que a ideia o enfurecia. — Harkness é um parasita da raça humana, e alguém precisa fazer algo. Por que ninguém faz nada?
— As pessoas chantageadas têm muito medo de ir à polícia, porque seus segredos vão ser revelados se elas fizerem isso. Além do mais, ele provavelmente tá chantageando metade dos guardas de Farnham. A última coisa que fariam é denunciá-lo.
— Então acho que precisarei agir por minha conta.
Sherlock ficou surpreso ao ouvir as próprias palavras, mas elas pareciam transmitir o que era o certo a se fazer.
Matty estava prestes a acrescentar algo, mas, lá na frente, Josh Harkness dobrou uma esquina, saindo do mercado. Ele ainda segurava a carta roubada. Sherlock fez um gesto para que Matty ficasse quieto. Juntos, os dois se afastaram da multidão e foram até a mesma esquina. Sherlock se esgueirou até o canto da parede de tijolos e espiou com cuidado, quase esperando ficar cara a cara com o chantagista, mas o homem estava mais adiante, andando por uma rua vazia. Ele esperou até Harkness chegar quase no final da rua. Se Sherlock e Matty fossem atrás quando o homem estivesse ainda na metade do caminho, ele acabaria vendo os dois imediatamente, caso se virasse. Só haveria eles na rua. Harkness chegou ao fim da via e virou à esquerda. Assim que ele sumiu de vista, Sherlock puxou Matty e começou a correr.
Os dois levaram apenas alguns segundos para chegar ao final. Ali, da mesma forma que antes, Matty esperou enquanto Sherlock espiava pela esquina. Harkness estava a uns seis metros de distância, ainda caminhando, ignorando tudo à sua volta. Sherlock supôs que o homem tinha muita confiança em si mesmo.
O menino começou a sentir um cheiro atacar-lhe as narinas: um odor intenso, uma mistura de produtos químicos de limpeza e algo mais desagradável, como esgoto. Seus olhos começaram a lacrimejar, irritados pelo vapor do que quer que fosse aquilo.
No final da rua, em vez de entrar em outra rua ou viela, Harkness parou diante de uma porta e a abriu com uma chave. Ele deu uma olhada desconfiada para os dois lados, ainda segurando a carta roubada. Sherlock recuou para não ser visto, tentando reprimir um espirro insistente. Quando achou que seria seguro dar mais uma olhada pela esquina, o homem já havia desaparecido.
— O que tem ali? — perguntou a Matty.
O amigo olhou pela esquina também, por baixo de Sherlock. E fungou.
— Um curtume — respondeu ele, com firmeza. — Eles pegam as peles de vaca que vêm das fazendas e dos abatedouros e curam para transformar em couro.
— Curam?
Ele já ouvira a palavra antes, mas não sabia direito o que significava.
— É. — Matty lhe lançou um olhar de deboche. — Você deveria sair mais vezes. “Curar” é o que eles fazem para transformar pele em couro. A pele fica mais rígida e dura mais, não apodrece.
— E como eles fazem isso?
— Usam umas facas afiadas para raspar o máximo possível da carne, depois banham as peles com um troço químico.
Sherlock fungou de novo, sentindo uma fisgada no fundo do nariz e da garganta, provocada pelo amoníaco.
— Sim, estou sentindo o cheiro da química.
Matty fez uma careta.
— Dá para sentir em toda Farnham. São uns produtos bem horríveis.
Sherlock franziu o cenho.
— Como assim?
— Bom, um cara me falou que o produto era chamado “ureia”.
Sherlock pensou por um instante. Ureia. Parecia inócuo. Parecia... ah. Sim. Parecia “urina”. Ele olhou para Matty, franzindo a testa.
— Está me dizendo que eles tratam couro com urina?
Matty confirmou com a cabeça.
— E com outras coisas, mas você provavelmente não quer nem pensar nisso. Só aceite um conselho: tape o nariz sempre que passar por aquele lugar. — Ele balançou a cabeça. — Ouvi uma história sobre um dos homens que trabalhavam ali. Ele estava tentando usar uma vara comprida para mexer as peles em um tanque grande que tem lá, mas perdeu o equilíbrio e caiu dentro dele.
Sherlock arregalou os olhos.
— Caiu dentro do...?
— Exatamente.
— E o que aconteceu?
— Ele morreu afogado.
— Afogado em...?
— É. — Matty estremeceu. — Quando eu morrer, quero que seja tranquilamente, durante o sono. Não afogado em uma banheira de...
— Precisamos entrar lá — disse Sherlock, determinado.
— O quê?
— Eu falei que precisamos entrar lá.
— Tá maluco?
— Josh Harkness entrou lá.
— Sim. Eu sei. Por isso mesmo. O lugar é mais fedido que aquela cabana de onde você me resgatou naquela estação ferroviária americana no ano passado, que aliás fedia como se alguém tivesse ficado preso e morrido lá, e ainda por cima neste lugar aqui tá um dos homens mais perigosos em um raio de centenas de quilômetros. Às vezes eu me pergunto se você bate bem, Sherlock.
Sherlock suspirou.
— Olhe, bem que eu queria que não fosse necessário, mas ele possui alguma informação sobre minha família. Está chantageando meus tios. Eles são boas pessoas. Nunca prejudicaram ninguém, e já faz mais de um ano que cuidam de mim e me alimentam. Preciso fazer algo para retribuir. — Sherlock olhou a rua com uma expressão séria. — Concluí que não gosto de chantagistas.
— Tudo bem. — Matty olhou em volta. — Mas tentar aquela porta seria perda de tempo. Harkness provavelmente trancou depois de entrar, e mesmo que não tenha trancado, não sabemos onde vai dar. Pode ser bem no meio de uma sala cheia de gente. Tem uma janela quebrada depois da esquina. Acho que podemos entrar por ali.
— Como é que você sabe que tem uma janela quebrada depois da esquina?
Matty fitou Sherlock com uma expressão exasperada.
— Eu sei onde ficam todas as janelas quebradas de Farnham... só para o caso de eu precisar. Você nem imagina o que as pessoas deixam em cima das mesas de cozinha. Mas, nesse caso aqui, decidi nunca usar a janela assim que descobri o que havia ali dentro e quem era o dono.
Sherlock franziu o cenho.
— Por que será que Harkness não a consertou?
Matty deu de ombros.
— Talvez ele saiba que ninguém em sã consciência invadiria o lugar, sabendo quem ele é e tal. Talvez a janela deixe entrar um pouco de ar fresco. Deus sabe que aquele local precisa de uma ventilação.
Sherlock assentiu e saiu com Matty pela esquina, caminhando pela rua e passando pela porta fechada por onde Harkness havia entrado. Por via das dúvidas, o menino evitou olhar para o lado, para o caso de a porta estar ligeiramente aberta e Harkness estar olhando para fora, vigiando para ver se alguém o havia seguido. A confiança com que o homem caminhara desde o mercado sugeria que ele não esperava estar sendo seguido, ou que não se importava, mas Sherlock não podia correr o risco. Talvez o sujeito fosse mais esquivo do que parecia.
O menino sentiu um arrepio ao passar em frente à porta. Quase esperava que ela se abrisse de repente.
Deixando-a para trás e chegando à esquina, deu um suspiro silencioso de alívio. Matty estava logo ao seu lado. Juntos, os dois entraram em um beco de paralelepípedos deserto.
A parede do curtume formava um dos lados do beco. Sherlock viu a janela de que Matty falara. Ficava a mais de dois metros de altura, e o vidro estava todo rachado. A moldura do canto inferior direito estava vazia.
O cheiro que saía do buraco na janela fez Sherlock ter vontade de se virar e vomitar. Mas ele contraiu os músculos da barriga e engoliu em seco algumas vezes. Não podia se dar ao luxo de ser traído pelo próprio corpo. Tinha trabalho a fazer.
Sherlock olhou para a janela: era alta demais para subir sozinho, e o reboco da parede tinha tudo para esfarelar se ele tentasse usá-la para firmar o pé. Teria que pensar em outra forma de entrar.
— Suba nos meus ombros que eu dou impulso — disse Sherlock. — Você abre a janela e entra, e depois me puxa.
— Não vai dar certo — respondeu Matty, seguro do que dizia. — Acredite, sou especialista em entrar nos lugares. Posso subir e passar pela janela sem problema, mas não vou aguentar seu peso pelo tempo de puxar você para cima. — Ele fez uma careta. — Vai ter que ser o contrário. Eu me abaixo, você sobe em mim, entra pela janela e me puxa para cima.
O olhar de Sherlock se alternou entre a janela alta e o corpo franzino de Matty. Ele assentiu, relutante.
— Tem razão — disse —, mas não quero machucá-lo.
Matty deu de ombros.
— Acontece — respondeu ele, em tom casual. — Arranhões e hematomas saram. Juro, se uma bota no rosto for a pior parte do meu dia hoje, vou ficar feliz como pinto no lixo.
— Pintos gostam de lixo? — perguntou Sherlock.
Matty o encarou.
— É só uma expressão — respondeu ele. — As pessoas falam isso o tempo todo.
— Nunca ouvi.
— Como eu disse, você deveria sair mais. Ver gente. — Matty sorriu. — Agora vamos. Você tá perdendo tempo. — Ele se abaixou, firmando as mãos nas coxas. — Suba logo. Você tá tão magro quanto no dia em que nos conhecemos, mas acho que ganhou um pouco de músculo, e isso pesa.
Antes que tivesse tempo de reconsiderar a ideia, Sherlock apoiou o joelho direito nas costas de Matty e levantou a perna esquerda, alçando-se até ficar de pé. Matty grunhiu, mas manteve as costas firmes. Sherlock logo enfiou a mão no buraco da janela e tateou à procura da trava. Soltou-a, recolheu a mão e abriu a janela. Deu um pulo para subir e sentiu Matty vacilar sob seus pés. Apoiou a barriga na moldura da janela e se contorceu para entrar. A madeira raspou em sua pele. Antes de cair no chão, ele se segurou ali na janela e se encolheu, olhando em volta.
Estava em um cômodo pequeno, sem ninguém, mas cheio de caixas. Apoiada de pé em uma das paredes havia uma calha de madeira parecida com um escorrega infantil. O piso ficava a mais ou menos um metro e meio da beira da janela – obviamente construído um pouco acima do nível do chão. Isso facilitava as coisas. Sherlock desceu até o assoalho, virou-se e se inclinou para fora da janela. Matty olhava para cima na expectativa. Quando viu Sherlock, estendeu a mão. Sherlock a pegou e puxou o menino. Matty era surpreendentemente pesado, e Sherlock sentiu os músculos das costas, mas conseguiu içar o garoto pela janela sem muitos problemas.
Os dois passaram pelas caixas até uma porta no meio da parede. Estava fechada. Sherlock girou a maçaneta e abriu-a ligeiramente.
Pela fresta, viu uma sala grande que ocupava o centro da construção. Havia uma plataforma suspensa que contornava o cômodo, com várias portas saindo para outros aposentos e uma passagem à direita que supostamente levava à porta principal, mas quase tudo ficava no mesmo nível da rua. No meio do espaço havia quatro tanques de madeira, que pareciam barris imensos cortados pela metade. Todos continham algum líquido. Em dois dos barris, o líquido era claro e embolotado, como uma sopa, com bolhas surgindo devagar na superfície, mas nos outros era algo mais límpido, mais parecido com água.
O cheiro que emergia dos tanques era tão forte que Sherlock podia jurar que o próprio ar estava borbulhando acima deles.
— Agora vou ficar uma semana sem comer — reclamou Matty, sussurrando.
— Respire pelo nariz — sugeriu Sherlock.
— Eu tô respirando pelo nariz. O que preciso é respirar pelas orelhas.
Não havia sinal de Josh Harkness, mas dois outros sujeitos estavam na sala. Andavam de um tanque para outro, usando pedaços compridos de madeira do tamanho do corpo deles para mexer os líquidos. Cada vez que faziam isso, o cheiro ficava pior por um momento.
— Conheço aqueles caras — disse Matty. — Eles andam pela cidade recolhendo dinheiro para Harkness. São gente do mal.
Sherlock olhou para as várias portas fechadas. Em uma delas devia estar Josh Harkness. O menino não se atreveria a explorar o local até que soubesse onde estava o chantagista.
Enquanto Sherlock pensava nisso, uma porta do outro lado da sala se abriu e Harkness apareceu. Não segurava mais a carta.
— Continuem mexendo os couros — gritou ele para os homens junto aos tanques. — Aquele último lote saiu mole e cheio de manchas. Não pago vocês para ficarem à toa.
— Não faz diferença se a gente mexe ou não mexe, chefe — respondeu um dos homens, também gritando. — Tem a ver com a qualidade das peles. As vacas que o senhor tá usando são tão velhas quanto minha vó. As peles é que são moles e cheias de marcas. Se o senhor quer couro melhor, tem que trazer peles melhores.
— Não discutam comigo! — berrou Harkness. — Se vocês acham que sabem fazer melhor, então abram seus próprios curtumes! Até lá, vão trabalhar com o que receberem!
Os homens deram de ombros, trocaram um olhar e voltaram a mexer os tanques. Harkness os encarou com uma expressão raivosa por uns instantes, depois saiu pisando duro pela plataforma até uma escada que dava no centro do salão. Ele se aproximou de um dos tanques e ficou na ponta dos pés para olhar lá dentro. O cheiro não parecia incomodá-lo.
— Não tem peles suficientes neste aqui — gritou ele. — Joguem mais algumas.
Os dois sujeitos foram até um lugar que Sherlock não conseguia enxergar, pois sua visão estava atrapalhada pelos tanques. Harkness foi até eles pisando duro. Por um momento a sala pareceu vazia.
Sherlock aproveitou a oportunidade. Saiu rápido e em silêncio para a plataforma de madeira e correu até a porta de onde Harkness havia surgido pouco antes. Matty o seguiu sem fazer barulho.
Ele chegou à porta, abriu-a às pressas e entrou, fechando-a antes que os três sujeitos reaparecessem de trás dos tanques. Parte da mente de Sherlock, a emocional, estava preocupada pensando em como sair dali, mas o restante, a parte lógica, dizia que, se os homens haviam sumido uma vez, então era provável que sumissem de novo. Ele só precisava esperar. Por enquanto, o importante era vasculhar os segredos daquele cômodo.
Sherlock olhou à sua volta. Em uma parede estavam apoiadas várias das traves de madeira, cada uma com um gancho na ponta – provavelmente para tirar o couro dos tanques. As outras paredes tinham prateleiras repletas de caixas de papelão identificadas por letras: ABe assim por diante. Ele foi até a primeira caixa, puxou-a da prateleira e tirou a tampa.
Estava cheia de papéis: recortes de jornal, cartas, documentos que pareciam oficiais e uma ou outra fotografia. Sherlock passou os olhos por alguns. Os recortes de jornal eram uma combinação estranha de reportagens sobre atividades criminosas – roubos, assassinatos e outros delitos – e matérias de natureza mais social – nascimentos, casamentos e óbitos. Os documentos oficiais eram muito parecidos: algumas atas de tribunal ou depoimentos de testemunhas, com um punhado de folhas autenticadas de papel ofício e algumas certidões de nascimento e de casamento. Uma ou duas pareciam ter sido arrancadas dos livros de registro de uma igreja. As cartas iam de declarações manuscritas de amor ou ódio a propostas comerciais datilografadas, além de uns desafios a duelo. Algumas das fotografias eram retratos simples, inocentes até, normalmente com o nome da pessoa anotado no verso, enquanto outras eram do tipo que fez Sherlock virar o rosto de repente, envergonhado. No geral, a caixa era uma amostra completa da vida humana.
Ele pensou por um momento. Ainda que a maior parte do que havia dentro da caixa – com exceção de algumas fotografias – fosse completamente inocente, devia ter algum significado mais sério nos seus respectivos contextos. A carta que a criada da mansão Holmes recebera do namorado – e que Sherlock presumia que estivesse agora em outra caixa naquela sala – parecia apenas uma simples declaração de amor, até que se visse quem a escrevera: o filho do prefeito, um homem que não pertencia à classe da criada. Devia ser o mesmo caso com todas as outras. Um nascimento podia ser apenas um nascimento – ou não, se a mãe não fosse casada. Isso seria um escândalo. Um casamento poderia ser bastante inocente – a menos que o noivo já tivesse se casado antes e sua primeira esposa ainda estivesse viva. Então seria bigamia. Até uma morte – principalmente uma morte – podia ser suspeita se parentes fossem herdar dinheiro de acordo com o testamento. Então seria assassinato.
Sherlock olhou em volta, sério. Se fosse divulgado, o conteúdo daquelas caixas poderia destruir vidas em um instante; no entanto, destruiria vidas mais lentamente se não fosse. Josh Harkness sugaria dinheiro das pessoas que ameaçava até deixá-las na miséria, dormindo na rua.
Ele fixou os olhos na caixa com a letra H. Em algum lugar ali dentro estava o segredo que a Sra. Eglantine havia descoberto sobre a família Holmes. Se quisesse, Sherlock poderia dar uma olhada rápida. Descobrir o que ela sabia – um segredo tão poderoso que seus tios prefeririam manter aquela víbora peçonhenta por perto a se livrar dela e correr o risco de vê-lo revelado.
Ou o menino podia destruir aquela, e todas as outras, e libertar centenas de pessoas desse flagelo.
Vendo por esse lado, havia mesmo alguma opção?
A única questão era: como?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)