7 de agosto de 2017

Capítulo três

A VIAGEM ATÉ WATERLOO PARECEU mais curta do que Sherlock se lembrava. Crowe manteve-se afiado o tempo todo, fazendo deduções sobre as diversas pessoas que entravam e saíam do vagão e nas estações por onde passavam. Às vezes, só para provocar, ele puxava conversa com elas e as induzia a falar sobre as coisas que ele já deduzira. O desconforto entre os dois relativo à conversa sobre Rufus Stone parecia ter desaparecido.
Quando o trem reduziu a velocidade e parou na plataforma de Waterloo, os dois desembarcaram e atravessaram o saguão até a saída da estação, para conseguir uma charrete de aluguel.
Sherlock já havia enfrentado o intenso movimento da estação de Waterloo antes, mas, quando ele e Amyus Crowe passaram por uma área particularmente agitada e cheia de homens usando cartola, ele se imaginou atravessando uma paisagem ameaçadora de chaminés industriais brotando de fábricas sombrias. A fumaça dos trens que passavam pela estação só tornava a comparação ainda pior. Irritado, ele tentou se livrar da imagem. Nem sempre tinha esses lampejos de imaginação, e não gostava nada quando isso acontecia. Não havia uma explicação lógica para transformar cartolas em fumacentas paisagens industriais. Essa era uma comparação poética, não analítica. Amyus Crowe não aprovaria.
Por outro lado, Rufus Stone adoraria. Pensar nisso o deixou desconfortável.
Crowe chamou a carruagem do lado de fora da estação. Eles não tinham bagagem, já que passariam apenas um dia, então embarcaram e partiram.
A charrete era pouco mais que uma caixa sobre duas rodas, com o condutor sentado no topo e o cavalo preso por arreios e rédeas de couro. Ela sacudia e balançava terrivelmente pelas ruas esburacadas de Londres.
— Diogenes Club — informou Crowe ao condutor.
— Onde fica isso, senhor? — gritou o condutor de volta.
— Vá para o Almirantado — respondeu Crowe. — De lá eu indico o caminho. — Recostando-se no assento quando o veículo partiu, ele disse em tom casual: — O clube existe há um ano, mais ou menos. Pelo que entendi, seu irmão foi um dos fundadores, ou pelo menos foi o que ele me contou. O nome vem do filósofo grego Diógenes de Sínope. Diógenes foi um dos fundadores da filosofia cínica, ou cinismo, como se tornou conhecida.
— Já ouvi a palavra “cínico” — disse Sherlock —, mas não sei ao certo o que significa.
— Os cínicos sugeriam que o propósito da vida é ter uma existência de virtude em consonância com a natureza, o que, na prática, significa rejeitar todos os desejos convencionais de riqueza, poder, saúde e fama, e levar uma vida simples livre de todas as posses. Não se pode criticá-los por isso, embora essa filosofia inviabilize, de certa forma, todo e qualquer progresso industrial na sociedade. Os cínicos também acreditavam que o mundo pertencia a todos igualmente, e que o sofrimento era causado por falsos julgamentos do que era valioso e por costumes e convenções inúteis que cercavam a sociedade. — Ele fez uma pausa. — Não sei bem como isso se aplica ao seu irmão, ou ao clube, mas você precisa saber que o Diogenes Club tem uma regra muito rigorosa. Ninguém pode falar lá dentro. Nem uma palavra. A única exceção é a Sala dos Visitantes, onde, presumo, seu irmão vai nos receber. Caso contrário, devemos nos preparar para um dia desconfortável.
A charrete seguiu aos solavancos pela ponte de Westminster, e Sherlock notou vários barcos a remo que deslizavam pela correnteza turva do rio.
— Diógenes e Platão viveram na mesma época? — perguntou ele, lembrando-se do livro que o irmão lhe dera de presente para sua viagem de navio aos Estados Unidos, A República, de Platão.
— Sim — respondeu Crowe —, e eles não se davam bem. Qualquer dia eu conto a história.
Do lado norte do rio, a charrete virou à esquerda, depois à direita e entrou em uma grande avenida de três faixas. No fim dela, Sherlock reconheceu a Trafalgar Square com seu memorial a Lorde Nelson. Estivera ali em sua visita anterior a Londres.
Alguns segundos mais tarde, o transporte parou. Os dois passageiros saltaram, e Crowe pagou pela corrida.
Eles ainda estavam na calçada da larga avenida, mas já no fim, onde a via pública descrevia uma curva e se transformava em outra estrada. Havia uma pequena porta no muro diante deles. Uma placa de bronze ao lado da porta identificava The Diogenes Club em letras cursivas elegantes.
Crowe usou a bengala para bater à porta, e momentos depois ela se abriu. Crowe entrou primeiro, abaixando a cabeça para evitar o batente baixo. Sherlock o seguiu.
Estavam em um corredor estreito com paredes revestidas de painéis de carvalho e piso de mármore. Uma escada levava ao primeiro andar, e uma porta aberta em um dos lados dava acesso ao que parecia ser um grande salão cheio de poltronas de couro verde. O silêncio era tão opressor que Sherlock quase podia senti-lo pressionando seus ouvidos. O tique-taque de algum relógio ecoava pelo salão.
O homem que abriu a porta era franzino, com rosto fino e pontudo. Vestia um impecável uniforme azul e tinha o porte de um ex-militar. Sherlock não era especialista no assunto, mas o homem se mantinha rígido e ereto, e suas botas brilhavam tanto que Sherlock provavelmente poderia ver seu reflexo nelas. Crowe entregou um cartão ao criado. Depois de lê-lo, o homem assentiu e convidou Crowe e Sherlock a segui-lo para o salão de poltronas verdes no fim do corredor. Os assentos estavam ocupados por homens que liam jornal, e o criado foi, desviando-se das poltronas, até os fundos do aposento, onde havia uma porta. Ele bateu.
Algumas pessoas levantaram os olhos de suas leituras e lançaram olhares aborrecidos para a origem do barulho.
Sherlock escutou com atenção, mas não houve resposta. Ele se censurou mentalmente: se ninguém podia falar no clube, era de se esperar que ninguém gritasse: “Entre!” O criado estava esperando alguém abrir a porta.
Nada aconteceu. O criado bateu outra vez.
Então houve movimento do outro lado. Algo se chocou na porta. O ferrolho foi destrancado e a porta se abriu.
Mycroft Holmes estava na soleira, bloqueando a entrada com seu corpo largo. Parecia confuso.
Ele levantou a mão como se pretendesse tocar a testa e pareceu tão surpreso quanto Sherlock, Crowe e o criado ao perceber que segurava uma faca.
Mycroft olhou para a faca em sua mão como se nunca a houvesse visto antes. Depois olhou para trás, para a sala. Ao se virar, acabou dando um passo para o lado, permitindo que Sherlock enxergasse o interior do cômodo.
A sala era revestida por painéis de madeira, como o restante do clube, mas não tinha janelas. No centro havia uma grande mesa. Cadeiras estofadas estavam posicionadas em torno dela de forma simétrica.
Um homem ocupava uma das cadeiras. A julgar pela mancha de sangue que se espalhava por sua camisa e pelo olhar vidrado, fixo no lustre que pendia do teto alto, ele estava morto.
— Mycroft? — chamou Sherlock.
Uma onda de surpresa vibrou pela sala, seguida por sussurros de desaprovação pelo evidente desrespeito às regras, mas ele não se importava. Só queria saber o que tinha acontecido.
O criado deu um passo para trás, com os olhos arregalados. Crowe estalou os dedos diante de seu rosto e imitou um gesto de soprar um apito. O homem assentiu, virou-se e correu.
Crowe agarrou Sherlock pelo braço e o empurrou para a Sala dos Visitantes, fechando a porta ao passar. O garoto notou que a parte interna da porta era revestida com um material espesso, certamente para impedir que o som das conversas vazasse para as outras dependências do clube.
Mycroft recuou, com o olhar confuso e ainda segurando a faca.
— Eu não... entendo — ele falou, hesitante.
— Sr. Holmes — disparou Crowe —, você precisa se concentrar. O que aconteceu? Conte-nos tudo.
— Eu estava... esperando por vocês — respondeu Mycroft. Sua voz adquiria força à medida que ele falava. — Havia calculado a hora em que chegariam com base nos horários do trem e no tráfego habitual entre a estação de Waterloo e o clube a esta hora do dia. Alguém bateu à porta. O criado, Brinnell, entregou-me um cartão em uma bandeja. Aparentemente, um homem desejava me ver. Eu não sabia quem ele era e já me preparava para dizer que não o receberia quando notei algumas palavras rabiscadas no verso do cartão. Eram palavras com... com as quais já havia deparado outras vezes durante o exercício da minha função. Palavras de importante significado. Pedi a Brinnell que trouxesse o homem aqui, à Sala dos Visitantes.
Ele parou e franziu o cenho, dando a impressão de que tentava lembrar-se de algo que lhe escapava.
— Esperei aqui — continuou Mycroft. — Ouvi alguém bater à porta. Em vez de autorizar a entrada, fui abrir a porta pessoalmente. Este é o costume aqui no Diogenes Club. Serve para evitar conversas desnecessárias, algo que a maioria dos membros considera desagradável. Havia um homem do lado de fora...
— Aquele homem? — perguntou Crowe, apontando para o corpo imóvel na cadeira.
— Sim — Mycroft confirmou, estremecendo. — Aquele homem. Convidei-o a entrar com um gesto, e assim ele fez. Fechei a porta em seguida, e...
Ele se calou. Sua mão – a que não segurava a faca – ergueu-se como se quisesse tocar a própria cabeça.
— Isso é tudo de que me lembro até ouvir alguém bater à porta novamente. Pensei estar vivendo um daqueles momentos que os franceses chamam de déjà-vu, quando se acredita que o que está acontecendo já aconteceu antes. Abri a porta esperando encontrar Brinnell e o visitante, mas eram vocês. Fiquei confuso. Virei, esperando encontrar o visitante atrás de mim. — Mycroft apontou o corpo sem vida na cadeira. — E encontrei — acrescentou, com um tom de voz seco que Sherlock conhecia muito bem. — Mas não como imaginava.
— Sr. Holmes — disse Crowe —, para não deixarmos nada de fora e porque esta é, evidentemente, uma pergunta que a polícia fará: você matou aquele homem?
— Não tenho nenhuma lembrança de tê-lo matado — respondeu Mycroft, com cautela.
— Sugiro que na próxima vez que ouvir essa pergunta responda apenas com um simples “não”. Não que isso vá adiantar alguma coisa. — Crowe suspirou. — Conhece um bom advogado?
— Há um contratado pelo Diogenes — respondeu Mycroft. — Brinnell pode lhe dar os contatos do homem.
— Então, o que quer que aconteça no futuro próximo, tenha certeza de que vamos procurar o advogado do Diogenes e fazer de tudo para libertá-lo.
Mycroft virou-se para olhar o corpo.
— Isso talvez seja difícil — disse ele em um tom pesaroso. — Há poucas evidências, e as poucas que existem parecem estar contra mim.
— Você não matou esse homem — afirmou Sherlock com segurança. — Não sei o que aconteceu aqui, mas tenho certeza disso.
Mycroft sorriu fracamente e deu um tapinha no ombro de Sherlock.
— Obrigado — disse. — Acho que precisava ouvir isso.
Uma comoção do lado de fora os alertou para a chegada da polícia.
— Sugiro que deixe a faca sobre a mesa — disse Crowe. — Não é muito aconselhável estar armado quando a polícia chega.
Mycroft aproximou-se da mesa e deixou a faca nela no mesmo instante em que a porta se abriu.
Um grupo de homens vestindo uniformes azuis entrou no local. Crowe deu um passo à frente, encobrindo o movimento de Mycroft.
— Houve um assassinato — disse ele. — O corpo está perto da mesa, assim como a faca que provavelmente foi usada no crime.
— E quem é você? — quis saber o chefe do grupo.
— Meu nome é Amyus Crowe. E você, quem é?
— Um estrangeiro — comentou o policial, olhando com ar significativo para os companheiros. — Onde estava quando o crime aconteceu?
— Perguntei seu nome — insistiu Crowe, educado, mas firme.
— Sou o sargento Coleman — respondeu o policial, estufando o peito. — Talvez agora você possa responder à minha pergunta. — Ele fez uma pausa. — Senhor.
— Estava do lado de fora — respondeu Crowe —, com o rapaz aqui. O criado é testemunha disso.
— E quem é o jovem?
— Sherlock Holmes — respondeu o próprio.
— Então, quem estava no aposento? — quis saber o sargento.
Crowe hesitou, revelando algum desconforto.
— Creio que aquele cavalheiro estava lá — disse ele, indicando Mycroft com um movimento de cabeça.
O sargento deu um passo à frente.
— Isso é verdade, senhor? — perguntou ele.
Mycroft assentiu.
— Sim, eu estava no salão — afirmou com clareza.
— Qual é seu nome?
— Mycroft Siger Holmes.
— Matou esse homem, senhor?
— Não, eu não matei esse homem.
Sherlock notou que um dos cantos dos lábios de Crowe ergueu-se ligeiramente, como se aprovasse a firmeza da resposta de Mycroft. O sargento pareceu surpreso.
— Creio que terei de prendê-lo, senhor. Será levado à Scotland Yard, onde será interrogado sob juramento. — Ele olhou para o cadáver, depois para um de seus subordinados. — Mande alguém buscar o legista. O velho Murdoch está de plantão hoje. Traga-o para vir buscar o corpo. E pegue aquela faca, vamos mostrá-la ao juiz.
As palavras eram como o badalar dissonante de um grande sino aos ouvidos de Sherlock.
Horrorizado, ele viu Mycroft ser conduzido para fora da Sala dos Visitantes, passando pelo salão principal do clube até o corredor. Um dos policiais pegou com cuidado a faca pelo cabo e a levou.
— Sr. Crowe... — começou Sherlock.
— Agora não — interrompeu Crowe. — Compreendo que esteja nervoso. É a reação esperada. O problema é que, se quisermos limpar o nome de seu irmão e livrá-lo da prisão, temos de agir depressa, com total precisão e eficiência. Neste momento, emoções só vão servir para nos atrasar e prejudicar nosso discernimento. Entende o que estou dizendo?
— Sim — sussurrou Sherlock.
— Suprima qualquer tristeza ou choque que esteja sentindo. Imagine que está envolvendo esses sentimentos em um cobertor, amarrando-os com firmeza e guardando-o no fundo da mente. Não peço que esqueça definitivamente essas emoções; é só por enquanto. Vai poder recuperá-las mais tarde, quando for seguro, e dedicar-se a elas pelo tempo que quiser. Mas não agora.
— Sim. Tudo bem. — Sherlock fechou os olhos e tentou fazer o que Crowe sugeria. Tentou imaginar a mistura de sentimentos como uma esfera inflamável pairando em sua cabeça, e depois pensou em um tecido à prova de fogo, negro como a noite, envolvendo aquela esfera. Cordas e correntes surgiram da escuridão e envolveram o conjunto, apertando-o até deixá-lo bem pequeno.
Depois, imaginou tudo isso mergulhando nas sombras até chegar ao fundo da mente, em um armário empoeirado no porão das lembranças. E então fechou a porta.
Abriu os olhos e respirou fundo. Sentia-se melhor. Menos apavorado. Sabia que os sentimentos ainda estavam ali, no armário, mas não os sentia. Podia tirá-los de lá quando quisesse, mas nesse momento não sabia se desejaria fazer isso algum dia.
— Tudo bem?
— Sim, estou bem. O que temos que fazer?
— Precisamos revistar o corpo e o cômodo também. Eu cuido do cadáver, você olha a sala.
— Certo. — Ele refletiu por um momento. — Por que a polícia nos deixou aqui sozinhos com... o corpo?
Crowe fez uma expressão de impaciência.
— O problema dos profissionais que lutam contra o crime é que gostam de respostas simples e diretas. Encontram duas pessoas em uma sala fechada, uma delas morta, a outra, viva. Para eles, a resposta é simples e tenho de admitir que, se não conhecesse seu irmão como conheço, a situação também me pareceria assim. Então, até onde sabem, já pegaram o culpado. A faca é mais como um troféu para eles, porque podem exibi-la no julgamento e assustar o júri. O cadáver... Bem, o homem está morto, não vai a lugar nenhum enquanto o legista não chegar para levá-lo. E isso vai nos dar tempo suficiente para ver o que eles poderiam ter encontrado se tivessem se incomodado em procurar. Agora chega de conversa. Vamos trabalhar!
Enquanto Crowe se ocupava do corpo, Sherlock começou a revista em um canto da sala e foi prosseguindo metodicamente, centímetro por centímetro. Ele não sabia o que estava procurando, por isso olhava tudo que parecesse ser fora do comum. Checou os painéis de madeira e os quadros pendurados, e também pegou uma das cadeiras em torno da mesa e arrastou-a até a parede para inspecionar os ganchos que seguravam as molduras, posicionados pouco abaixo do teto. Depois dedicou-se ao chão, analisando o carpete em busca de coisas que pudessem ter caído da mão ou do bolso de alguém e ficado preso entre as fibras.
— Encontrou alguma coisa? — perguntou Crowe depois de um tempo.
— Nada até agora — respondeu ele, desanimado.
Sherlock continuou se movendo pela sala, olhando para toda e qualquer coisa. Quando chegou ao canto da mesa, percebeu que havia algo no chão: uma pequena caixa revestida de couro deixada atrás de um dos pés da mesa, como se alguém houvesse tentado se livrar dela rapidamente.
— Encontrei alguma coisa — anunciou Sherlock, pegando a caixa e colocando-a sobre a mesa.
Crowe se aproximou para ver o que era e examinou o objeto de forma crítica.
— Estrutura simples de madeira, revestimento de couro, dobradiças, fechadura e pés de latão — murmurou. — Nada especial ou incomum. Não há marcas de uso nos pés nem desgaste na fechadura, o que indica que a caixa é nova. Ah, veja o puxador... Percebe o fio amarrado nele? A etiqueta de preço devia estar presa aqui. Esse homem, ou quem quer que seja, removeu a etiqueta, mas se esqueceu de tirar o fio também. Foi um erro. — Ele abriu a fechadura. — Destrancada, o que é bom para nós.
Crowe levantou a tampa para que pudessem ver o interior da caixa. Era forrada por um tecido vermelho, provavelmente seda ou cetim. O tecido era bastante acolchoado, de forma que qualquer coisa ali guardada ficasse bem presa quando a tampa fosse fechada.
— Duas depressões no acolchoado, está vendo? — Crowe apontou para as duas áreas onde o tecido estava afundado, sugerindo que a caixa havia guardado dois itens, mas Sherlock já havia notado. — É impreciso demais para sabermos a forma dos objetos, mas parece que eram diferentes.
— O acolchoado em torno de uma das depressões é de cor diferente — comentou Sherlock. — Um pouco mais escuro.
— Pode ser apenas desgaste — resmungou Crowe.
— Mas a caixa é nova, acaba de ser comprada.
— Tem razão. — Crowe tocou a superfície do tecido vermelho. — Está meio úmido. Isso é estranho. Havia alguma coisa molhada aqui dentro, talvez uma garrafa contendo um líquido que vazou.
Sherlock olhou em volta, procurando pela sala.
— Uma garrafa de quê?
— Ainda não sei ao certo. Vamos apenas guardar a informação para voltar a ela mais tarde. — Ele fechou a caixa e olhou em volta. — E aqueles painéis na parede? Encontrou alguma porta oculta? Algum sinal de que possa haver uma janela ou passagem sob o revestimento? Alguém deve ter entrado e saído desta sala sem ser visto.
— Pensei nisso, mas não há sinais de dobradiças ou emendas. Bati nas paredes, mas nenhuma delas soou oca.
— Tudo bem.
— Quer verificar?
— Por que deveria? — Crowe soava surpreso. — Você tem bons olhos em uma cabeça boa. E o carpete?
— Parece que é limpo todos os dias, e não encontrei nada que pudesse ter caído no chão hoje.
— Então, não há nada — resumiu Crowe, taciturno.
— Exceto... — começou Sherlock.
— Exceto o quê?
— Exceto uma mancha de umidade que acabei de notar no carpete, bem aqui. E está fria.
Crowe virou-se e olhou para Sherlock.
— Uma o quê?
— Uma mancha de umidade. Talvez alguém tenha derrubado um copo de água.
Crowe levantou as sobrancelhas.
— Interessante. Temos uma caixa que pode ter contido uma garrafa de alguma coisa e uma mancha de umidade onde a mesma garrafa pode ter derrubado seu conteúdo, mas não temos a garrafa, nem o que havia na caixa além dela. Isso é uma anomalia e é exatamente o que precisávamos encontrar agora. Coisas que não se encaixam.
Sherlock não estava tão confiante.
— Então, o que isso significa?
O tutor deu de ombros.
— Ainda não sei, mas vou arquivar todas essas informações para análise posterior e sugiro que faça o mesmo. Agora, continue procurando. O fato de ter encontrado uma coisa não significa que não há mais a ser encontrado.
Sherlock passou os dez minutos seguintes vasculhando o restante da sala, mas, quando voltou ao canto onde começara a revista, parou. Amyus Crowe também parecia ter terminado de examinar o cadáver; estava de pé, olhando em volta com interesse.
— Encontrou alguma coisa? — perguntou Sherlock.
Crowe deu de ombros.
— Alguns detalhes que podem ser interessantes. Para começar, esse homem não estava saudável. Emagreceu demais recentemente e recebia cuidados médicos. Encontrei isto aqui — apontou ele, segurando um pequeno frasco de vidro com uma válvula spray. — Acho que é algum tipo de medicamento, mas vou precisar mandar para análise.
— Posso ver? — pediu Sherlock.
Crowe entregou o recipiente, que era do tamanho do polegar de Sherlock, e cuja válvula parecia ser usada para borrifar seu conteúdo. O garoto cheirou o bocal do frasco e se encolheu. Havia algo de familiar no cheiro forte, mas ele não conseguia identificar o que era.
— As roupas indicam que ele era um cavalheiro — continuou Crowe —, mas as tatuagens nos braços sugerem o contrário.
Sherlock guardou o frasco de vidro no bolso e parou ao lado de Crowe. O homem era magro, e veias finas e avermelhadas podiam ser vistas em suas bochechas. A cabeça estava inclinada para trás, e os olhos arregalados e injetados encaravam o teto. A pele era muito branca, mas Sherlock não sabia se a palidez era natural ou resultado da morte recente.
A frente da camisa branca agora estava completamente marrom-avermelhada por causa do sangue seco. Havia um rasgo na altura do coração: fora ali que a lâmina havia acertado, Sherlock pensou.
Mas quem empunhara a faca?
Ele se aproximou. Havia alguma coisa naquele rasgo que chamava sua atenção, mas não sabia o que era.
— Viu alguma coisa? — perguntou Crowe.
Sherlock hesitou.
— Estava apenas tentando lembrar como era a faca... A que estava na mão de Mycroft.
— Devo confessar que não cheguei a vê-la de perto — admitiu o tutor.
— Mas eu, sim — respondeu Sherlock. — Era fina, como um abridor de cartas, e o rasgo na camisa do morto é bem grande. Maior do que a faca que vi quando chegamos.
— Interessante. — Crowe refletiu. — Também examinei rapidamente o ferimento. É bem grande. Sugere uma faca de lâmina larga, mas se você está dizendo que a faca que foi levada pela polícia tem a lâmina fina... Bem, essa é outra anomalia que precisa de explicação.
— O homem pode ter resistido? — sugeriu Sherlock. — Os movimentos poderiam ter causado um rasgo maior na camisa e... na pele?
— É possível. — Crowe pensou por um momento. — Esse é o tipo de coisa que exige um experimento.
— O quê? — reagiu Sherlock, assustado. — Está falando em esfaquear alguém e esperar que a pessoa resista?
Crowe riu.
— Não, estou sugerindo que encontremos um porco morto e então podemos vesti-lo com uma camisa, um de nós o esfaqueia com um abridor de cartas enquanto o outro sacode um pouco o animal. Vamos ver se conseguimos reproduzir o rasgo na camisa e o ferimento no peito desse pobre coitado. Deduções só podem nos levar até determinado ponto, depois disso precisamos de provas. — Ele apontou para a porta. — Vá procurar o criado que nos recebeu, Brinnell. Traga-o aqui. Quero fazer algumas perguntas a ele.
Sherlock foi para o salão do clube. Os frequentadores acompanhavam sua passagem com olhares irritados; haviam visto a polícia, e obviamente sabiam que algo incomum estava acontecendo, mas pareciam determinados a fingir que tudo permanecia calmo como sempre no clube. Sherlock tentou passar despercebido, sem fazer barulho. Enquanto se desviava das poltronas de couro verde, tentava entender por que o irmão se interessava pelo clube. Excetuando-se o assassinato, aquele era o lugar mais chato que ele já havia visitado, e suspeitava que o Diogenes Club não tinha o hábito de acolher assassinos.
Ele encontrou Brinnell no saguão. O criado parecia preocupado. Sherlock se preparava para convidá-lo a voltar à Sala dos Visitantes quando Brinnell levou o dedo aos lábios pedindo silêncio.
Sherlock apontou para Brinnell, depois para a Sala dos Visitantes. O criado assentiu, passou por Sherlock e pela escada e desapareceu por uma porta que devia levar a uma área restrita aos empregados. Momentos depois ele voltou com outro criado uniformizado, mais velho e mais calvo.
Deixando o homem no saguão para atender à porta e impedir a entrada de desconhecidos barulhentos, Brinnell seguiu Sherlock de volta à sala onde o crime havia acontecido.
Crowe estava exatamente no mesmo lugar onde Sherlock o deixara.
— Agradeço por ter aceitado falar conosco — disse ele ao empregado do clube quando Sherlock fechou a porta. — Entendo que esteja muito ocupado no momento, com toda a agitação provocada pelo assassinato.
— É chocante — desabafou Brinnell. — Chocante. — Ele olhou para o cadáver. — E é claro que nós teremos de limpar tudo isso.
— Você trouxe o cavalheiro até aqui, certo?
— Sim, senhor. Fui eu.
— Como ele chegou ao clube?
Brinnell pensou por um momento.
— Ele chegou pela porta da frente, como vocês dois. Entregou-me um cartão. No verso, ele havia anotado o nome do Sr. Holmes e mais algumas palavras que não reconheci de imediato.
— Que palavras eram essas?
Brinnell franziu o cenho, tentando lembrar.
— Creio que era o nome de outro clube — respondeu —, mas não sei dizer qual. Por um momento, pensei que o cavalheiro estivesse no lugar errado, mas então vi o nome do Sr. Holmes.
Outro clube. Por algum motivo, as palavras chamaram a atenção de Sherlock. Outro clube... Ele arquivou a informação para poder analisá-la mais tarde, quando tivesse mais detalhes.
— Então, ele conhecia o funcionamento do Diogenes Club, evidentemente — apontou Crowe. — Sabia o suficiente para ficar em silêncio.
— Suponho que soubesse, senhor. Suponho que sim.
— O que você fez, então?
— Pus o cartão em uma bandeja e o levei ao Sr. Holmes. Ele já esperava aqui nesta sala. Parecia nervoso, como se não esperasse esse homem, mas outra pessoa. Sim, nervoso, era como parecia estar. Creio que pretendia dispensar o recém-chegado, mas virou o cartão e leu a anotação no verso, e então tive a impressão de que mudou de ideia. Falou: “Traga o camarada aqui, Brinnell”, então fui buscá-lo e o conduzi até esta sala.
— Quanto tempo se passou entre esse momento e o de nossa chegada?
O criado pensou por um momento.
— Não pode ter sido mais do que cinco minutos — disse em seguida. — Ou dez, talvez.
— Algum barulho ou agitação?
— Nada, senhor.
Crowe assentiu.
— E qual foi sua impressão desse visitante? Qual foi sua opinião?
Brinnell balançou a cabeça.
— Não cabe a mim dizer, senhor — resmungou ele.
Crowe levantou a mão. Uma moeda de ouro brilhou entre seus dedos.
— Eu valorizo sua opinião — disse ele. — Ninguém mais vai saber. Só nós.
Brinnell considerou a proposta por um momento.
— Não é necessário — respondeu ele, finalmente. — Gosto do Sr. Holmes. Ele sempre foi bom para mim. Sempre foi. Se está tentando ajudá-lo, pode contar comigo.
— Fico feliz em saber — aprovou Crowe, e a moeda de ouro desapareceu em sua enorme mão.
— Acho que o homem que veio visitar o Sr. Holmes vestia-se com certo exagero para sua posição social, se entende o que quero dizer — declarou o criado.
— Entendo perfeitamente, e aprecio sua honestidade.
— O homem estava carregando alguma coisa? — perguntou Sherlock de repente.
Amyus Crowe assentiu.
— Boa pergunta.
Brinnell franziu o cenho, tentando lembrar.
— Sim, creio que ele carregava uma caixa pequena. Lembro-me de ter tentado convencê-lo a deixá-la na chapelaria, mas ele a agarrou como se fosse muito valiosa. Deduzi que precisava daquilo para a reunião com o Sr. Holmes.
— Muito esclarecedor — disse Crowe.
A porta se abriu de repente, e um dos policiais voltou.
— O Sargento Coleman quer que vá até a Scotland Yard prestar depoimento — anunciou ele.
— Com prazer — respondeu Crowe. — Vai ser interessante verificar como a investigação está sendo conduzida.
— Investigação? — repetiu o policial com um sorriso. — Não vai ser necessário. Já pegamos nosso homem, com certeza.
O policial os seguiu da Sala dos Visitantes até a saída do clube. Quando estavam saindo, Brinnell pareceu que ia dizer alguma coisa, mas, em vez disso, se aproximou de Sherlock e entregou-lhe um pedaço de papel. Nele, Sherlock leu as palavras: Orville Jenkinson, Advogado, e um endereço.
Devia ser o advogado que Mycroft mencionara — o contratado pelo Diogenes Club. Ele sorriu para Brinnell e assentiu em agradecimento.
Do lado de fora, com o policial caminhando a passos largos pela calçada, Sherlock virou-se para Amyus Crowe e formulou a pergunta que ocupava seus pensamentos há meia hora.
— Sr. Crowe, se não conseguirmos provar a inocência de meu irmão, o que vai acontecer?
— Haverá um julgamento — respondeu Crowe, sombrio —, e se ele for considerado culpado, receio que o pendurem pelo pescoço até a morte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)