30 de agosto de 2017

Capítulo sete

ISSO FEZ COM QUE SHERLOCK sentisse seu coração congelar de repente, e que o menor movimento poderia fazê-lo se quebrar.
— Ele está doente? — Sherlock repetiu. — Mas... mas ele estava bem ontem. Eu o vi. — Apesar da paralisia gelada em seu coração, ele descobriu que sua mente estava a mil. Fatos e memórias giravam por seu olhar mental. Wu Chung não parecia doente no Gloria Scott. Quando ele caminhara pela ponte e descera em terra, ele parecia bem – feliz com a perspectiva de ver sua família, talvez um pouco nervoso. Se houvesse alguma doença derrubando os marinheiros, então certamente deveria ter se alastrado a bordo do navio, enquanto estavam no mar – e Sherlock deveria estar mal também. Todos os marinheiros deveriam estar mal – eles ficaram juntos no mar durante semanas a fio. Não, se ele estava doente, então o mais provável era que o cozinheiro tivesse pego alguma doença local no momento em que pisou no cais. Mas poderia uma doença agir tão rapidamente?, Sherlock se perguntou.
A mulher puxou-o pela manga.
— Por favor, você tem que ajudar!
Cameron deu um passo para trás.
— Olha, Sherlock, se há alguma doença aqui, então devemos ficar longe. Já vi doenças passarem de pessoa para pessoa nessa cidade tão rápido que você teria que correr para acompanhá-la.
Sherlock olhou em volta desesperadamente, esperando que alguém surgisse com uma oferta de ajuda, talvez um médico que estivesse passando, mas todos os moradores ignoravam o que acontecia. Eles sequer faziam contato visual.
— Alguém mais está doente? — perguntou Sherlock, ignorando a sugestão de Cameron.
A mulher balançou a cabeça.
— Ninguém. — Ela deu um passo de volta para a casa, obviamente esperando que Sherlock a seguisse. — Nem eu, nem o nosso filho, e nenhum dos vizinhos da rua, até onde eu sei. — Ela olhou ao redor com amargura. — Não que eles estejam dando alguma atenção agora — ela falou mais alto. — Eles estão com medo de que Wu Chung tenha trazido alguma doença estranha de lugares estrangeiros. Covardes!
Sherlock virou-se para olhar Cameron.
— Olha — ele falou com urgência para o menino americano. — Wu Chung é um amigo meu. Provavelmente, o melhor amigo que fiz por um bom tempo, além de você. Se ele precisa da minha ajuda, então tenho que ajudar.
— Se quer fazer algo para ajudar — Cameron respondeu, balançando a cabeça — então procure curandeiros para dar uma olhada nele. Você não pode fazer nada sozinho.
O olhar de Sherlock se moveu da expressão implacável de Cameron para o quase pânico no rosto da esposa de Wu Chung, às suas costas.
— Vamos pelo menos dar uma olhada. Pode ser algo que ele comeu.
Ele gesticulou para a mulher chinesa liderar o caminho para a casa. Ela assentiu com a cabeça, um brilho de gratidão momentâneo sobrepondo o de preocupação.
— E você pode dizer a diferença entre uma dor de estômago e uma doença contagiosa de maneira exata? — Cameron perguntou a Sherlock enquanto o seguia até a entrada escura.
Sherlock olhou por cima do ombro.
— Não — admitiu ele — mas tenho que fazer alguma coisa para ajudar. Mesmo que seja apenas para tranquilizá-lo. Ou tranquilizá-la.
Cameron hesitou, deu de ombros e seguiu Sherlock para dentro.
— Isso é estúpido — ele falou em voz baixa. — Isso é tão estúpido. Minha mãe explodiria se soubesse.
O interior da casa era frio e escuro. Havia um cheiro estranho, como uma fumaça doce. As paredes eram feitas de reboco áspero e havia quadros pendurados nelas – não telas emolduradas como eram na Inglaterra, mas em rolos de papel com bastões de madeira nas partes superior e inferior para impedir que enrolassem. Nos cantos dos cômodos, em nichos nas paredes, havia estatuetas de madeira – dragões e homens gordos com tangas. Não havia cadeiras, apenas almofadas no chão de azulejos, e as mesas eram baixas para que as pessoas pudessem se ajoelhar ou sentar-se de pernas cruzadas junto a elas.
— Você disse que conhece o meu marido? Nós ainda não nos conhecemos, não é? Você não vive em Xangai?
— Eu estava no navio com ele — Sherlock respondeu. — O Gloria Scott. Eu disse que viria visitá-lo, uma vez que ele tinha resolvido voltar para casa.
— Ah – então você é o Sherlock! Ele nos contou sobre você. — Ela sorriu brevemente antes de seu rosto assumir as linhas de preocupação. — Ele disse que esperava que você se juntasse a nós para uma refeição, porque ele tinha uma notícia para lhe dar... mas de repente ele entrou em colapso.
— Sim, eu sou Sherlock. E este é meu amigo Cameron.
Ela assentiu, o pequeno gesto com a cabeça parecia envolver os ombros também.
— Eu sou Tsi Huen.
Ela os liderou por um corredor que levava, obviamente, a um quarto. A cama, como as mesas do primeiro cômodo, era bem próxima do chão – em contraste com as janelas altas, bem acima da altura da cabeça de um homem.
Wu Chung estava deitado na cama. Suor cobria o rosto cheio de marcas, e ele tremia. Quando Sherlock chegou mais perto, pôde ver que os olhos do cozinheiro estavam vermelhos.
— Meu amigo Sherlock! — ele exclamou. Ele tentou, obviamente, soar saudável, mas sua voz estava fina e tensa.
— Wu Chung, o que aconteceu?
Ele balançou a cabeça.
— Eu não sei. Fui dormir ontem à noite. E acordei com um susto de manhã, antes de o sol nascer. Eu não sei o que me acordou, mas quando tentei sair da cama, constatei que minhas pernas não me suportavam. Eu desmaiei e comecei a tremer. Parece que tem fogo correndo em minhas veias! E minha boca está mais seca do que um deserto!
Um rapaz entrou pela porta. Ele tinha por volta da idade de Sherlock e Cameron; era chinês – o filho mais velho de Wu Chung, Sherlock assumiu. Ele carregava um copo de água, que estendeu na direção de seu pai. A expressão de seu rosto era igual ao de sua mãe: pânico, mal mantendo o controle.
— Aqui, beba isso. Peguei para você do poço.
Wu Chung pegou o copo e esvaziou-o em três grandes goles. Ele enxugou sua boca úmida com a mão.
— Isso ajuda, obrigado — ele olhou para Sherlock, e sorriu. — Eu esperava poder vê-lo. — Ele deu um tapinha ao lado na cama. — Venha, Sherlock, sente-se. Há algo que quero te dizer, uma mensagem que preciso que leve para mim.
— O que foi? — Sherlock perguntou.
— Eu não estarei no Gloria Scott quando ele zarpar.
— Eu sei que você pensa assim — disse Sherlock, tentando soar reconfortante — mas você vai passar por isso. Eu prometo.
— Não, quero dizer que me foi oferecido outro emprego.
— Como cozinheiro? — perguntou Sherlock, surpreso.
— Sim. A bordo do navio grande que vimos no porto ontem. O norte-americano.
— O USS Monocacy? — Sherlock balançou a cabeça, tentando imaginar Wu Chung cozinhando para centenas de pessoas da marinha americana, em vez de algumas dezenas de marinheiros ingleses. — Como isso aconteceu?
Wu Chung olhou para sua esposa, e sorriu.
— Conversando com Tsi Huen ontem, quando cheguei em casa, ela me convenceu a não ir embora por um período tão longo de novo. Ela me disse que eu precisava estar aqui para Wu Fung-Yi, enquanto ele está crescendo. — Wu tossiu, bloqueando a boca com as costas da mão. — Eu sabia que ela estava certa, por isso, enquanto ela preparava o jantar, voltei para o porto para ver se alguém estava à procura de um cozinheiro. Em um bar perto do cais, descobri que o navio de guerra americano procurava um assistente de cozinha. Eu me inscrevi imediatamente. — Ele sorriu. — Eles precisam desesperadamente de um homem que saiba o que está fazendo. Descobri que o novo cozinheiro chefe solicitou barris de água doce demais. Centenas deles! O navio está se dirigindo ao rio Yangtzé – que terá toda a água doce que eles querem! Eu disse a ele que era demais, mas ele não quis me ouvir.
— Você avisou ao capitão Tollaway que não voltaria?
— Enviei uma mensagem ao Sr. Larchmont. Sei que ele e o capitão vão entender — ele olhou para a esposa. — Já passei tempo demais longe. Perdi tanto de suas vidas. O navio americano navegará o rio Yangtzé pelas próximas semanas. Estarei de volta antes que alguém sinta falta de mim, e então procurarei outras oportunidades em Xangai.
— Mas quando ele partirá? — perguntou Sherlock. Ele sentia-se triste com o fato de que não compartilharia a viagem de volta a Inglaterra com o amigo.
— Amanhã — disse Wu. Seu rosto estava pálido. — Mas eu não serei capaz de fazer isso. Não do jeito que estou me sentindo agora. E um cozinheiro doente é um cozinheiro que ninguém quer preparando seus alimentos. Preciso que você leve uma mensagem ao capitão do Monocacy. Diga-lhe que ele terá que encontrar outro assistente de cozinha.
Se ele conseguisse em um prazo tão curto, pensou Sherlock, mas sorriu tranquilizadoramente para Wu Chung.
— Levarei sua mensagem — ele respondeu. — Tenho certeza que você encontrará outro emprego por aqui sem muitos problemas.
Wu balançou a cabeça.
— Não do jeito que estou me sentindo agora.
— Você comeu alguma coisa que possa ter causado isso? — perguntou Sherlock.
— Nada que minha família não tenha comido também. — Seu rosto espasmou, e de repente ele se virou para o lado e vomitou a água que tinha bebido momentos antes no chão. Tsi Huen adiantou-se para segurar seus ombros.
Quando ele se acomodou na cama, pálido e tremendo, Sherlock notou algo em suas costas. Ele só viu por um momento, conforme a camisa de algodão de Wu Chung se deslocou, mas chamou sua atenção.
— Incline-se para frente — pediu.
— O quê?
— Incline-se para frente!
Tsi Huen e seu filho se entreolharam, intrigados. Wu Chung encarou Sherlock por um momento, então concordou. Sua esposa e seu filho vieram ajudá-lo quando ele se sentou na cama e se inclinou para frente. Sherlock puxou o tecido úmido para longe do ombro dele.
Ali, abaixo do pescoço de Wu Chung e acima de seu ombro direito, havia duas marcas vermelhas. Uma era pequena e lisa, enquanto a outra era maior e tinha bordas irregulares.
As duas marcas estavam a cerca de dois centímetros de distância, e a pele ao redor delas estava marcada com uma erupção vermelha.
Tsi Huen engasgou.
— Picada de cobra! — ela exclamou. Ela saltou para trás da cama, olhando horrorizada para o chão de azulejos. — Fung-Yi – vá! Pode estar debaixo da cama.
O corpo de Sherlock queria se afastar também, mas sua mente estava fascinada com a ideia de que pudesse haver um réptil venenoso sob a cama baixa. Com o combate entre o corpo e a mente, ele congelou no lugar. Foi necessário Cameron agarrar seu ombro e puxá-lo para ele se mover.
Wu Chung trouxe seus joelhos contra seu peito e olhou nervosamente.
— Eu não senti nenhuma picada — ele falou. Em segurança a um metro e meio da escuridão debaixo da cama, Sherlock se ajoelhou e olhou para as sombras, pronto para o caso de algo atacá-lo. Mas não havia nada. O espaço debaixo da cama estava vazio. Ele se levantou, balançando a cabeça. — Se havia uma cobra lá, então já foi embora.
— Claro que havia uma cobra! — Tsi Huen exclamou. — Você viu as marcas! — Ela gemeu em angústia. — Como isso pôde acontecer conosco?
Olhando ao redor, Sherlock se perguntou a mesma coisa.
— As janelas são tão altas que não posso ver como uma cobra poderia entrar por lá — ele pensou — e este quarto fica no final de um corredor. A cobra teria que percorrer um longo caminho para chegar até aqui, e depois percorrer o mesmo caminho para voltar. Por que ela faria algo assim?
— Talvez ela tenha se enfiado em algum buraco — Cameron sugeriu.
Sherlock olhou ao redor do quarto, na linha onde as paredes encontravam o piso de cerâmica.
— Olhe por aí — ele disse. — Não consigo avistar qualquer buraco.
— Não há buracos — o filho de Wu Chung, Wu Fung-Yi, disse orgulhosamente. — Mamãe me fez enchê-los todos com argila para que ratos e camundongos não pudessem entrar. Eu verifico toda semana para ver se mais buracos surgiram.
— Bom garoto — disse Wu Chung fracamente, deitando-se na cama. Seu rosto estava cinza e pálido.
— Quando foi a última vez que você verificou? — perguntou Sherlock.
— Ontem — respondeu o garoto.
Cameron olhou em volta. Ele se endireitou.
— Vou procurar nos outros cômodos, caso a cobra ainda esteja aqui. — Ele olhou para Tsi Huen. — Quero dizer, se estiver tudo bem para você.
Ela assentiu.
— Tenha cuidado.
— Olhe sob todos os móveis — Sherlock advertiu.
O filho de Wu Chung avançou.
— Eu vou ajudar — ele anunciou. — Dois pares de olhos são melhores do que um. — Ele assentiu de maneira sombria para Cameron.
Tsi Huen parecia prestes a protestar, mas um olhar de seu marido a fez fechar a boca.
— Deixe-o ir — Wu Chung disse, a voz fraca. — Ele é um garoto corajoso, e tenho muito orgulho dele.
Cameron e Wu Fung-Yi saíram do quarto, com cautela e olhando ao redor. Wu Chung gesticulou para Sherlock e Tsi Huen se aproximarem da cama.
— Melhor que ele não esteja aqui, não quero que ele me veja assim.— Ele tossiu, e Sherlock ficou chocado ao ver sangue em seus lábios. — Talvez fosse melhor se eu estivesse doente. Para picada de cobra não há recuperação. Não o deixe voltar aqui. Nenhuma criança deveria assistir o pai morrer.
Tsi Huen gritou, em seguida, abafou o grito com as costas da mão. Seus olhos estavam arregalados e assustados.
— Você não vai morrer — disse Sherlock, com mais firmeza do que realmente sentia. Olhando para Wu, ele pensou que o homem podia estar certo, e de repente sentiu lágrimas brotando de seus olhos. — Precisamos arrumar um curandeiro. Onde podemos encontrar um? — ele chamou a atenção de Tsi Huen. — Cameron e eu buscaremos o curandeiro. Levaremos Wu Fung-Yi com a gente.
Tsi Huen assentiu sua gratidão, lágrimas em seus olhos. Sherlock percebeu que ela entendia o que ele estava fazendo – dando-lhe a chance de dizer adeus a seu marido, se de fato ele estava morrendo.
Cameron e Wu Fung-Yi voltaram ao quarto.
— Nada de cobras — o filho de Wu anunciou com orgulho. — Checamos em toda parte. — Ele olhou para o pai, e seus olhos de repente entristeceram. Ele suspeitava o que acontecia também.
— Nós vamos buscar um curandeiro — Sherlock anunciou.
Tsi Huen escreveu uma breve nota usando tinta e pincel em um pedaço de papel.
— Aqui — ela disse, entregando a Cameron. — Este é o endereço, e um bilhete para o curandeiro. Sejam rápidos. O mais rápido possível. — Ela franziu o cenho para Cameron. — Você sabe ler hanzi?
Ele acenou com a cabeça, e examinou a nota.
— Eu sei onde é — ele confirmou.
Sherlock olhou para Wu Chung, acenando um adeus. O cozinheiro acenou de volta, sorrindo fracamente.
— Vamos lá então.
A luz do dia do lado de fora era ofuscante, e levou um momento para seus olhos se ajustarem. Cameron liderou o caminho rapidamente pela rua. Wu Fung-Yi seguia na retaguarda, olhando para a casa onde seu pai estava doente. Possivelmente morrendo.
— Há muitas cobras venenosas na China? — Sherlock perguntou para Cameron enquanto corriam.
— Algumas — respondeu Cameron por cima do ombro. — Geralmente na zona rural. Não ouvi falar de nenhuma que entrasse nas cidades. Não sem terminar em uma panela, de qualquer modo.
— Os chineses comem cobras? — Sherlock questionou.
Cameron assentiu.
— Os chineses comem qualquer coisa.
No início Cameron liderou o caminho através das ruas lotadas, mas Wu Fung-Yi continuava tentando ultrapassá-lo.
— Eu sei onde estamos indo! — ele gritou.
Cameron abriu caminho de volta para a liderança algumas vezes mas, eventualmente, Sherlock segurou-o pelo ombro.
— Deixe-o ir na frente — pediu ele. — Ele precisa sentir que está fazendo algo para ajudar o pai.
— Acho que sim — Cameron concordou, dando de ombros. — Eu provavelmente sentiria o mesmo.
Eventualmente, eles chegaram a um pequeno barraco que era separado para além de outras construções da área. Amuletos e quinquilharias estavam pendurados em cordões no teto, balançando suavemente com a brisa. Sherlock percebeu que o jardim em torno dele, na frente e atrás, continha plantas que diferiam dos arbustos floridos que seus vizinhos pareciam cultivar. Aquelas plantas especialmente não tinham flores, ou se tinham, então eram maçantes e pouco destacadas. Eram inexpressivas, coisas finas, mais como ervas daninhas do que qualquer coisa que alguém quereria manter por sua beleza.
Wu Fung-Yi correu até a entrada. Não havia porta, apenas um cobertor fino que pendia sobre a entrada. Ele bateu na moldura da porta.
— Por favor! — ele chamou. — Honorável senhor, precisamos da sua ajuda!
Quando Sherlock e Cameron se juntaram a Wu Fung-Yi, um homem idoso afastou o cobertor. Ele era, talvez, o ser humano mais idoso que Sherlock já vira. Sua pele tinha a textura de couro que fora amarrotado e deixado para secar ao sol. Seus olhos eram quase invisíveis por trás de uma fronte de rugas que lembrou a Sherlock as rachaduras na lama de um lago seco. Ele era magro e possuía um bigode branco que pendia de cada lado da sua boca até suas clavículas. Sua cabeça era quase careca a não ser por um rabo de cavalo preso à nuca pouco mais longo que os fios do seu bigode. Quando ele abriu a boca para falar, Sherlock viu que ele só tinha um dente à esquerda, e suas gengivas eram negras.
— Quem são vocês, que perturbam meu sono? — ele resmungou em voz alta.
Wu Fung-Yi se curvou rapidamente.
— Minhas desculpas, venerável curandeiro. Meu pai está doente. Minha me mandou para implorar por sua ajuda.
O velho olhou para Wu Fung-Yi por um longo momento, seus olhos meros reflexos de luz sob as dobras escuras de suas pálpebras. Saindo para o jardim, ele moveu a cabeça para olhar para Sherlock e Cameron. Ele segurava uma vara de madeira, usando-a para suportar o seu peso. Ela era torcida, como a raiz de uma árvore.
— Então, demônios estrangeiros também — ele disse casualmente. — Dias interessantes. Dias interessantes, de fato.
Wu Fung-Yi virou-se para olhar os dois meninos.
— São visitantes — disse ele, meio em tom de desculpa. — Eles me seguiram até aqui.
Cameron parecia prestes a discutir, porém Sherlock o cutucou nas costas. Ele fechou a boca, e entregou o papel que Tsi Huen lhe dera.
O velho o desdobrou e leu. Ele balançou a cabeça lentamente.
— Picada de cobra, hein? Muito sério. Muito caro o tratamento.
Wu Fung-Yi eriçou-se.
— Podemos pagar! — ele protestou.
— Se ele não puder pagar, eu posso — disse Cameron. Ele se virou para olhar Sherlock. — Ei, posso até pensar que essa coisa toda é uma estupidez, mas não vou deixar seu amigo morrer se eu puder ajudá-lo.
— Obrigado — disse Sherlock. — Eu aprecio isso.
— Deixe-me ver as coisas de que vou precisar — respondeu o velho.
Em vez de voltar para dentro do barraco, como Sherlock esperava que ele fizesse, ele caminhou até seu jardim.
Curvando-se com a flexibilidade de um homem com um terço de sua idade, ele olhou várias plantas, verificando suas folhas e caules, e puxava-as para fora da terra ou as deixava e seguia em frente. Por fim, ele tinha mais ou menos dez plantas pendendo de sua mão.
— Ervas medicinais — disse ele, acenando com as plantas para os meninos. — Muito bom para picadas de cobras e insetos.
A viagem de regresso foi mais lenta do que a viagem até lá. O velho andava mais rápido do que Sherlock tinha esperado por sua aparência, mas não podia correr. Ou, não queria, Sherlock não tinha certeza. Ele até parou uma ou duas vezes para falar com as pessoas que reconheceu no caminho, e Wu Fung-Yi teve que praticamente arrastá-lo para longe da conversa a fim de fazê-lo andar novamente.
Quando chegaram a East Renmin Street, Tsi Huen estava do lado de fora da porta da casa. Suas mãos tremiam como pássaros enquanto passava os olhos ao longo da rua. Quando viu os três rapazes e o curandeiro idoso, suas mãos se ergueram de alívio até o pescoço.
— Como está o papai? — Wu Fung-Yi perguntou quando ela chegou mais perto.
Ela fez uma careta.
— Nada bem. — Ela juntou suas mãos e se inclinou para o curandeiro ancião quando ele chegou à entrada. — Agradeço por ter vindo. Estou em dívida com você.
Ele inclinou a cabeça para ela.
— Veremos o que pode ser feito — respondeu ele. — Eu não faço promessas.
Ele entrou na casa, usando a vara para se apoiar. Tsi Huen o seguiu, as mãos ainda tremendo. Wu Fung-Yi moveu-se para a porta, mas Sherlock colocou a mão em seu ombro.
— Espere aqui com a gente — sugeriu ele. — O curandeiro precisa trabalhar, e você pode distraí-lo. Além disso, sua mãe precisa se preocupar com seu pai, e não com você.
Wu Fung-Yi virou-se para olhar Sherlock. Seus olhos brilhavam com lágrimas.
— Mas... ele pode morrer.
Sherlock assentiu.
— Sim, pode, e se acontecer você não deve estar lá. Deve se lembrar dele do jeito como ele era.
O tempo parecia passar lentamente. Os três se sentaram do lado de fora, esperando. A certa altura Cameron se afastou e voltou alguns minutos depois com uma melancia que ele começou a cortar com uma faca de bolso. Os meninos sorveram a umidade das fatias. Houve pouca conversa.
Tsi Huen saiu de casa pouco tempo depois de terem terminado a melancia. Ela parecia cansada, tensa.
— Como...? — Wu Fung-Yi começou a perguntar, mas não conseguiu terminar.
Tsi Huen deu de ombros.
— Ele está muito doente — ela falou em voz baixa. — O curandeiro está fazendo tudo o que pode.
Ela voltou para dentro, e os meninos voltaram a esperar.
Depois de mais outra hora ou por volta disso, o curandeiro chegou à porta. Ele gesticulou para Sherlock.
— Você, diabo estrangeiro, você parece inteligente. Se lembra aonde é minha casa?
— Sim, senhor — Sherlock respondeu. — Eu penso que sim.
— Muito importante – você precisa ir lá agora, rápido, e pegar uma planta do jardim. É uma planta alta, do tamanho da sua cintura, com pequenas flores azuis e folhas que são enroladas para cima. Entendeu?
— Entendi. — Sherlock falou. Ele acenou com a cabeça na direção de Wu Fung-Yi. — Mas ele não deveria ir? Quero dizer, ele conhece a cidade melhor do que eu. Ela não se perderia.
O curandeiro olhou para Wu Fung-Yi com uma expressão indecifrável no rosto.
— Ele precisa estar aqui — disse ele em voz baixa. — Caso...
— Entendo. — Sherlock olhou para Cameron. — Mas mesmo ele conhece a cidade melhor do que eu.
— Sim — devolveu o curandeiro — mas ele não parece tão inteligente quanto você. Ele poderia voltar com a planta errada. Agora vá.
— Sim, senhor.
Sherlock partiu, refazendo a viagem que ele e os outros meninos tinham feito antes. Ele correu o mais rápido que pôde, o coração batendo em seu peito e as veias pulsando em seu pescoço e nas têmporas. Quando chegou ao barraco do velho, ele parou por um segundo, as mãos nos joelhos enquanto sugava o máximo de ar possível para seus pulmões que queimavam. Assim que foi capaz de se mover mais uma vez, ele correu para o jardim e rapidamente serpenteou entre as plantas.
Alta demais... curta demais... flores não azuis... folhas não curvadas... sim! Havia uma planta, mais perto da casa, que combinava com a descrição do curandeiro. Sherlock arrancou-a do solo e correu de volta com ela.
Quando chegou à casa de Wu Chung, Cameron e Wu Fung-Yi estavam parados do lado do fora de fora com Tsi Huen. Ela estava sentada no degrau da frente, chorando. A mão de Wu Fung-Yi descansava em seu ombro. Ele também chorava.
Cameron caminhou até Sherlock.
— Ele está morto — disse ele, e o som dessas três simples palavras foram como pedras caindo pesadamente no chão.

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