18 de agosto de 2017

Capítulo sete

SOMENTE NO DIA SEGUINTE OS três puderam partir para Edimburgo.
Depois de convencerem Rufus Stone a acompanhá-los, como o adulto responsável – tarefa que Sherlock achou surpreendentemente fácil, considerando a situação – Matty foi providenciar alguém que tomasse conta de Albert enquanto Sherlock voltava à mansão Holmes, para conversar com os tios. Como já esperava, eles ainda estavam deslumbrados e distraídos pela derrocada da Sra. Eglantine e pela consequente liberdade adquirida subitamente. O menino introduziu a questão da viagem como fato consumado, e, como previra, eles concordaram. Afinal, já haviam aceitado que ele viajasse aos Estados Unidos e à Rússia antes. Edimburgo, em comparação, era logo ali ao lado. Ou logo ali em cima.
Tio Sherrinford quase pôs o plano inteiro a perder quando pediu para ser apresentado a Rufus Stone.
— Minha consciência — proclamou ele — não me permite que eu deixe meu sobrinho atravessar o país com um homem que não conheço. Não sei nada sobre ele.
Pensando no estilo boêmio das roupas de Rufus Stone e em seu brinco e dente de ouro, Sherlock reprimiu uma careta de preocupação. Se Sherrinford conhecesse Rufus Stone, provavelmente proibiria o sobrinho de manter qualquer contato com ele em Farnham, que dirá viajar em sua companhia até a Escócia. Sherlock passara a sentir grande respeito pelos tios – algo que beirava o amor familiar – mas eles não eram as pessoas mais compreensivas do mundo. Nervoso, o menino disse:
— Se serve de alguma coisa, Mycroft conhece o Sr. Stone há anos e o contratou recentemente para me dar aulas de violino.
— Ah — respondeu Sherrinford, assentindo com a cabeça. — Nesse caso, retiro meu pedido. Seu irmão é um homem perspicaz, e confio em seu julgamento no que tange ao caráter de alguém. — Ele olhou de esguelha para a esposa. — Sabe, lembro-me de Mycroft dizer que havia algo errado com a Sra. Eglantine assim que ele a conheceu. Talvez eu devesse ter contado a ele o que a mulher estava fazendo conosco. Mycroft talvez pudesse ter ajudado.
— O que está feito, está feito — respondeu Anna, tocando a mão dele. — O Bom Senhor não deposita em nossos ombros um fardo que não possamos carregar, e os que Ele deposita, nos fortalecem.
Sherlock jantou com os tios aquela noite. A comida não estava no mesmo nível de sempre – as ondas de choque da demissão da Sra. Eglantine pareciam ter se propagado até a cozinha – e não houve muita conversa. Tio Sherrinford e tia Anna pareciam abalados pela magnitude do que havia acontecido. Não havia sequer o fluxo contínuo de opiniões, fofocas e comentários da tia sobre os eventos do dia. Assim que terminou de comer, Sherlock pediu licença e foi se deitar. O dia havia sido cheio, e ele precisava recuperar as energias para o que viria a seguir.

Sherlock, Matty e Rufus Stone encontraram-se na estação de Farnham bem cedo na manhã seguinte. Os três traziam, cada um, uma mala com roupas, objetos de higiene pessoal e outros itens necessários em viagens.
— Esta ideia — disse Rufus Stone, com uma expressão grave — é extraordinariamente ruim. Meu surto inicial de entusiasmo se desfez como uma poça de água da chuva absorvida pela terra. Edimburgo é uma cidade grande, cheia de gente. O que vocês pretendem fazer é mais ou menos como procurar uma formiga específica em um formigueiro. Não será fácil.
— Nada que vale a pena é fácil — observou Sherlock.
— Touché.
Stone sorriu. Ele pagou pelas passagens; comprou os bilhetes com destino a Londres, considerando que poderiam comprar as passagens para Edimburgo lá e que seria constrangedor e potencialmente perigoso deixar rastros, considerando todo o cuidado que Amyus Crowe tivera. Sherlock oferecera parte do dinheiro que Mycroft havia mandado, mas Stone deu de ombros.
— Seu irmão paga o meu salário regularmente para ensinar você a tocar violino — comentou ele. — De qualquer jeito é o dinheiro dele que está comprando as passagens. Não faz diferença quem de nós o entrega.
O trem só partiria dali a uma hora, então Rufus sugeriu que tomassem uma xícara de chá e comessem um sanduíche. Os meninos concordaram, animados. A casa de chá mais próxima ficava do outro lado da rua. Enquanto os três comiam, Sherlock viu pela janela dois homens parados diante da estação e olhando em volta. Um deles tinha cabelo preto, preso em um rabo de cavalo; o outro tinha as faces e a testa cobertas de marcas de varíola.
— Aqueles dois são os homens que estão atrás de Amyus Crowe? — perguntou Rufus, seguindo o olhar de Sherlock.
Matty assentiu.
Eles viram os homens irem até a bilheteria e fazerem uma pergunta ao atendente. O sujeito balançou a cabeça em negativa. Um dos homens fez mais uma pergunta e passou um punhado de dinheiro pelo balcão. O atendente destacou dois bilhetes e lhes entregou.
— Eles compraram passagens — indicou Rufus. — Quer dizer que provavelmente embarcarão no mesmo trem que nós. Ou sabem de Edimburgo, ou estão se dirigindo a Guildford. Qualquer que seja o destino, precisamos ficar longe deles.
Depois de terminarem os sanduíches e o chá, os três atravessaram a rua de volta à estação. Após alguns minutos, o trem se arrastou pela plataforma – um monstro de ferro negro envolvido por vapor e chiando como um demônio bíblico. Eles ocuparam um dos compartimentos. Sherlock tentou encontrar os americanos, mas não viu onde eles haviam entrado no trem – ou mesmo se entraram.
Àquela altura, o menino já estava acostumado a viajar de trem. Passou um tempo distraindo-se com a paisagem que corria pela janela, mas, quando se cansou disso, esperou chegar à próxima grande estação – que acabou sendo Guildford – e saiu rapidamente do trem para comprar o jornal de um vendedor na plataforma. Era uma edição londrina do Times, provavelmente parte de uma remessa grande que chegara de trem mais cedo.
A locomotiva soltava uma nuvem branca de vapor pela plataforma quando o menino voltou do jornaleiro. Enquanto ele seguia junto às paredes de madeira dos vagões, uma brisa repentina dispersou o vapor, e Sherlock viu um dos americanos caminhando pela plataforma. Era o mais alto, o de cabelo preto com traços grisalhos e uma cicatriz enrugada no lugar da orelha direita. Ele vinha da bilheteria. Seu companheiro – o sujeito com marcas de varíola no rosto – estava parado diante da porta do vagão, mantendo-a aberta para que o trem não saísse antes que o amigo voltasse. Quando se aproximou do outro, o homem de cabelo preto balançou a cabeça. O que quer que ele estivesse procurando – Sherlock desconfiava de que fossem informações sobre Amyus Crowe – o homem estava desapontado.
Eles voltaram para dentro do trem, e Sherlock foi ao vagão onde estavam seus amigos, pensando se os homens saberiam sobre ele, Matty e Rufus Stone. Rufus não passara muito tempo com o Sr. Crowe, mas Sherlock e Matty o acompanhavam com frequência. A maioria das pessoas em Farnham provavelmente vira Sherlock e o Sr. Crowe juntos em algum momento, e habitantes de cidades pequenas eram fofoqueiros inveterados – algo com o que Josh Harkness havia lucrado. Bastariam alguns pence ou uma caneca de cerveja para eles descobrirem que Amyus Crowe passava tempo com alguém mais além da filha. Se os sujeitos tivessem uma descrição de Sherlock e Matty, poderiam reconhecê-los no trem. O trio precisaria tomar cuidado.
Sherlock chegou ao vagão no mesmo instante em que o vigia da plataforma soprava o apito para avisar aos passageiros que o trem estava prestes a sair. O menino se acomodou no assento. Matty parecia dormir, e Rufus Stone estava ocupado tentando decorar uma partitura, reproduzindo com os dedos as notas que lia. Como não queria interrompê-los, Sherlock se recostou no assento e abriu o jornal.
As páginas apresentavam matérias sobre política e relatos do que havia acontecido em outros países. Como Mycroft falara com desprezo sobre jornalistas e o pouco que eles sabiam de fato sobre os motivos verdadeiros de tudo que acontecia, Sherlock fez apenas uma leitura rápida das matérias.
Certa vez seu irmão lhe dissera que ler um artigo de jornal sobre política era como ler uma crítica literária escrita por alguém que, em vez de ler o livro, apenas se baseara no que ouvira de pessoas encontradas na rua.
O menino procurou algum relato sobre a presença do Exército britânico na Índia, mas não havia nada. Já fazia algum tempo desde que Sherlock não tinha notícias do pai. O menino sabia que a situação estava agitada por lá, mas ficava preocupado. Não conseguia evitar.
A primeira página do jornal era cheia de anúncios pessoais, e Sherlock estava prestes a ignorá-los quando algo estranho chamou sua atenção. Eram textos curtos, em geral de dez ou vinte palavras – escritos por leitores que haviam pagado para publicá-los – mas Sherlock percebeu que abriam pequenas janelas para um mundo do qual ele provavelmente não descobriria mais nada. “Cachorro perdido, região de Chelsea, atende pelo nome Abednego. Recompensa generosa pela restituição, vivo ou morto.” O menino achava compreensível que alguém amasse um animal a ponto de oferecer dinheiro para recuperá-lo se ele desaparecesse, mas que tipo de pessoa batizaria o cachorro em homenagem a um personagem obscuro da Bíblia e desejaria recuperá-lo mesmo que morto? Não fazia sentido. E quanto ao “Precisa-se urgentemente de criado, essencial apresentar boas referências. Deve saber tocar ocarina”? Era óbvio que as pessoas precisavam de bons empregados, mas por que alguém desejaria um criado com habilidades musicais, e ainda por cima com um instrumento tão inusitado? Cada anúncio era um recorte da vida, e Sherlock queria saber mais sobre as circunstâncias que cercavam cada um. Era evidente que alguns estavam em código – conjuntos aparentemente aleatórios de letras e números – e ele tentou usar as habilidades que aprendera com o irmão e Amyus Crowe para decifrá-los. Em alguns casos, o menino até teve sucesso. A maioria tratava de encontros discretos, provavelmente de pessoas que se amavam mas por algum motivo não podiam se ver em público; no entanto, outros eram mais estranhos. Um específico fez o sangue do menino gelar. Depois de decifrá-lo, as palavras diziam simplesmente: “Joseph Lamner, você vai morrer amanhã. Ponha seus negócios em ordem. Prepare-se para conhecer o Criador.”
Relutante, Sherlock parou de ler os anúncios pessoais para não ficar obcecado demais com isso e passou os olhos pelo restante do jornal. Duas páginas continham breves notícias sobre o país, e a atenção do menino foi atraída por um relato em especial, que se referia à cidade para a qual eles se dirigiam.

EDIMBURGO. Sir Benedict Ventham, empresário proeminente, foi encontrado morto ontem à noite em sua casa nos arredores da cidade. A polícia declarou suspeitar de assassinato por envenenamento, devido à expressão distorcida no rosto da vítima e à cor de sua língua, e anunciou que está prestes a efetuar uma prisão. Ao longo dos anos, o estilo empresarial agressivo de Sir Benedict lhe rendeu diversos inimigos. Nos últimos tempos, o empresário temia por sua vida e comia apenas o que era preparado por sua leal e confiável cozinheira, que trabalhou para ele durante quase duas décadas.

Frustrado com a escassez de detalhes, Sherlock se perguntou como poderia descobrir mais sobre esse assassinato em Edimburgo. Ele duvidava que tivesse algo a ver com o desaparecimento de Amyus Crowe – seria uma coincidência muito grande se uma matéria de um jornal que ele comprara por acaso em uma estação intermediária estivesse diretamente relacionada com o motivo de ele estar no trem – mas queria aprender algo sobre o lugar aonde estava indo, ter uma noção de como era Edimburgo e que tipo de coisa acontecia por lá. Um dos ensinamentos que Amyus Crowe lhe inculcara durante suas caminhadas regulares pelos bosques nos arredores de Farnham era que, quanto mais se pudesse saber sobre determinado ambiente, mais possível seria controlá-lo. Caso se perdesse em uma floresta, a maioria das pessoas ficaria com fome ou sede dentro de uma ou duas horas e não teria a menor ideia de como sair dali. Graças ao Sr. Crowe, porém, Sherlock agora sabia quais plantas poderia comer e quais deveria evitar, sabia seguir rastros de animais para encontrar água, e também como descobrir para que lado ficava o norte.
Ao pensar em técnicas de sobrevivência em terrenos desconhecidos, veio-lhe à mente uma lembrança de Nova York e de quando ele chegara lá, mais ou menos um ano antes. Na época, o menino ficara impressionado com a quantidade de jornais que eram vendidos nas esquinas. Ele agora se perguntava quantos jornais havia em Londres, e se todos publicavam as mesmas matérias. Supunha que não – cada um devia ter estilo e enfoque próprios. Se ele quisesse mesmo saber mais sobre o histórico e os detalhes daquele assassinato em Edimburgo, talvez fosse uma boa ideia comprar o maior número possível de jornais diferentes, recortar as matérias relevantes e compará-las, procurando divergências e elementos mencionados por uma matéria mas ignorados por outras.
O trem já estava a certa distância de Guildford, e Sherlock perdera a oportunidade de voltar à plataforma e comprar mais alguns jornais. Fez uma anotação mental para se lembrar de comprá-los na estação de Waterloo assim que chegasse lá.
Ao terminar de ler o jornal, Sherlock recortou cuidadosamente a reportagem sobre o assassinato em Edimburgo, dobrou-a várias vezes e a guardou no bolso. A comparação de matérias variadas seria no mínimo um exercício interessante.
Matty dormia encolhido no assento, com a cabeça apoiada na janela. Rufus Stone também estava de olhos fechados, mas, pela maneira como suas mãos se mexiam, estava ensaiando mentalmente a parte de violino da partitura.
Sherlock olhou pela janela de novo, mas a paisagem rural que passava rapidamente lá fora não o interessava. Ele abriu sua mala e pegou um livro sobre maquiagem para teatro – como fazer e como usá-la para produzir efeitos variados.
O menino mergulhou no livro, decorando os detalhes de como preparar pasta de maquiagem e aplicá-la para que a pessoa ficasse irreconhecível a menos que fosse vista de perto. O livro também descrevia como a mudança da postura podia fazer alguém parecer mais alto ou mais baixo. Sherlock se esqueceu do trem e da viagem, até que o vagão passou por um conjunto particularmente barulhento de agulhas, e então o menino ergueu os olhos e viu que Rufus Stone o observava.
— Considerando uma carreira no teatro? — perguntou Stone, apontando para o livro. — Não recomendo, da mesma maneira que não recomendo enfiar a mão na boca de um cachorro e puxar a língua dele. Paga-se pouco, trabalha-se muito e a sociedade não valoriza aqueles que a entretêm. Falo por experiência própria... Já passei mais tempo do que gostaria de lembrar em teatros escuros me apresentando para plateias pequenas e desagradáveis.
— Não sei o que quero fazer quando crescer — respondeu Sherlock com franqueza —, mas gosto da ideia de poder mudar minha aparência para que ninguém me reconheça.
— Para ser sincero — confessou Stone —, houve ocasiões em que foi valioso poder passar despercebido por um senhorio furioso ou uma ex-namorada.
— Você entende de maquiagem artística? — perguntou Sherlock, intrigado.
— Aprendi algumas coisas ao longo dos anos, trabalhando em teatros... ou, para ser mais preciso, passando tempo nos camarins com atrizes jovens e bonitas. E trabalhando para seu irmão também. Existem algumas semelhanças surpreendentes entre atuação e espionagem. — Ele sorriu, mas sem traços de humor. — É claro que morrer no palco, diante de uma plateia hostil, é muito menos doloroso do que morrer no beco de uma cidade estranha, com uma faca cravada entre as costelas.
— Você poderia me ensinar? — pediu Sherlock.
Stone deu de ombros.
— Posso tentar. Mas você vai precisar de um pouco de talento artístico bruto e muito treino... na verdade, mais ou menos a mesma proporção necessária para tocar violino direito. Diga o que já sabe e verei o que posso acrescentar.
Stone passou o restante da viagem ensinando a Sherlock algumas dicas sobre a arte da maquiagem. Deu vida aos fatos inertes do livro de Sherlock, contando histórias divertidas de ocasiões em que vira bigodes falsos caírem do rosto de atores ou vira a maquiagem deles se manchar com o suor de tal modo que eles pareciam um bizarro animal listrado. Sherlock ria, mas ao mesmo tempo aprendia, e o trajeto pareceu correr em um instante.

O menino já estava se acostumando com a estação de Waterloo. O lugar, com seus enormes arcos de ferro e vitrais, era-lhe agora um ambiente familiar, assim como a multidão de gente vestida com todo tipo de roupa, desde fraques pretos a paletós com padrão xadrez vermelho e amarelo.
Rufus Stone conduziu os meninos para fora da estação.
— Precisamos chegar à estação King’s Cross — disse ele. — Fica do outro lado de Londres. Os trens para o norte do país saem de lá.
Sherlock olhou para trás à procura dos americanos, mas, se eles haviam continuado no trem, estavam fora de vista. Talvez tivessem ficado em Guildford para perguntar sobre um americano grande e uma menina que haviam passado por ali um ou dois dias antes.
Havia um cabriolé esperando em frente à estação, ignorando o trânsito que lutava para passar. O condutor balançava a cabeça em negativa para todo mundo que tentava chamá-lo ou abrir a porta da cabine. Sherlock presumiu que o homem esperava alguém importante, e estava prestes a passar direto quando Rufus Stone se aproximou sem hesitar e abriu a porta. Em vez de expulsá-lo ou gritar com ele, o condutor pulou para o chão e pegou a mala de Rufus, e então olhou para Sherlock e Matty com expectativa, evidentemente pronto para pegar as malas deles também.
Mycroft incentivara o irmão a nunca pegar o primeiro cabriolé que aparecesse – podia ser uma armadilha ou algum truque – então a atitude de Stone surpreendeu o menino. Mas o violinista estava tão confiante que Sherlock acabou deixando a mala no chão e entrou também no veículo. Matty fez o mesmo.
Tudo ficou claro quando Sherlock percebeu que se acomodava diante do corpanzil de Mycroft Holmes.
— Ah, Sherlock — disse Mycroft. — Bem-vindo. Por favor, fique à vontade. E o jovem Sr. Arnatt; talvez você possa se acomodar aqui a meu lado. Acredito que haja espaço, se você não se incomodar em se espremer perto da porta. Peço apenas para ter cuidado com minha cartola.
— Você enviou um telegrama para Mycroft — disse Sherlock a Rufus Stone, em tom acusador, enquanto os três se sentavam.
O menino ouviu o condutor jogar as malas na traseira da carruagem.
O violinista estava com uma expressão impassível.
— Precisei fazer isso — respondeu ele. — Trabalho para seu irmão, e, se ele descobrisse que eu deixei você ir a Edimburgo sem avisá-lo, seria um inferno para mim.
— De fato — confirmou Mycroft. — Orgulho-me de ter ciência de tudo que acontece à minha volta. Se eu soubesse que meu irmão passou despercebido pela cidade, ficaria arrasado.
— Ainda vou a Edimburgo — disse Sherlock, com firmeza.
Mycroft assentiu.
— Indubitavelmente. — Ele ergueu a mão e bateu a bengala no teto da carruagem. — King’s Cross! — gritou.
— O quê?
Com um solavanco, a carruagem se afastou da calçada.
— Você acha que o desaparecimento de Amyus Crowe não me interessa? — Mycroft balançou a cabeça. — Além de ser o mais próximo que tenho de um amigo pessoal, ele é também um homem de habilidades excepcionais, alguém por quem tenho um profundo respeito profissional. Se desapareceu de súbito, com certeza há algum motivo, e desejo saber qual é. A presença desses dois americanos também é perturbadora, visto que não sabemos se eles são amigos ou inimigos. Assim como você, Sherlock, encontro-me confuso, e acho esse estado de espírito particularmente doloroso.
— E você? — perguntou Sherlock. — Virá conosco?
— Receio que meus dias de viajante ficaram para trás — respondeu Mycroft. — Nossa expedição à Rússia me convenceu de que é melhor para mim permanecer em Londres, onde estou confortável, e permitir que outras pessoas saiam atrás de indícios e respostas. Mas farei minha parte: enquanto você procura o Sr. Crowe e sua filha, farei investigações a respeito desses visitantes americanos.
Sherlock sentiu um aperto no coração. A decisão de Mycroft não o surpreendia, mas ele teria sentido muito mais confiança com o irmão a seu lado.
— Ah — continuou Mycroft —, quase esqueci. Parabéns por sua dedução quanto ao destino exato do Sr. Crowe. Não posso criticar sua lógica, embora possa criticar a decisão do Sr. Crowe de escolher uma cabeça de coelho. Certamente havia algo menos ofensivo ao alcance, e algo menos passível de ser roubado por um predador. — Ele passou o olhar pelo interior do cabriolé. — Você acha — murmurou, levando a conversa por uma tangente — que eu poderia mandar estofar, forrar e acarpetar uma carruagem de modo a reproduzir minha sala? Ou o Diogenes Club? Assim eu poderia viajar com absoluto conforto sem o mal-estar resultante do deslocamento.
— Mas quem lhe traria a sua xícara de chá da manhã ou o seu xerez da tarde? — perguntou Rufus Stone, sorrindo.
— Isso pode ser providenciado — respondeu Mycroft. — O cabriolé poderia parar diante de certos estabelecimentos em momentos predeterminados, para que os garçons passassem as bandejas pela janela. Refeições inteiras me poderiam ser entregues para que eu as consumisse em trânsito. Imagine o tempo que eu pouparia!
— Se você pudesse comer e beber aqui dentro — comentou Sherlock —, ficaria tão gordo que jamais conseguiria sair de novo, o que acabaria por anular a vantagem de se possuir a própria carruagem. Você seria um caracol dentro da concha.
Mycroft assentiu.
— Bem lembrado — reconheceu ele.
— Se não foi para nos impedir de ir a Edimburgo — interrompeu Matty —, por que você tá aqui, Sr. Holmes?
— Excelente pergunta, meu jovem, e que vai direto ao cerne da questão. Estou aqui para ver meu irmão mais novo, é claro, pois não o vejo há muito tempo, e também para avisar a vocês três para tomar cuidado. Suponho que lhes tenha ocorrido que algo capaz de fazer Amyus Crowe fugir em vez de lutar provavelmente é maior e mais perigoso do que imaginam. Sempre considerei o Sr. Crowe um homem destemido. Descobrir que existe algo capaz de assustá-lo é como descobrir que o outro lado da Lua é inteiramente oco, como se o satélite fosse uma vasilha e não uma bola como a Terra. — Ele suspirou. — Também sou levado a entender que Edimburgo é uma cidade excepcionalmente sombria e violenta. Os próprios escoceses são uma raça celta, o que significa que seu estado de espírito tende a oscilar da depressão apática à raiva súbita. Não pensem que a Escócia será como Farnham ou Londres. Vocês não chegarão a transpor mares, apenas o rio Tyne, e as pessoas falarão inglês, ou algo próximo a isso, porém vocês deverão tratar a Escócia como um país estrangeiro. — Mycroft estendeu um envelope. — Tomei a liberdade de providenciar os preparativos para sua viagem. Aqui estão suas passagens e o endereço de um hotel com uma reserva em seu nome. Mantenham-me informado de suas descobertas. Lamento dizer que não tenho agentes em Edimburgo, ou teria pedido a eles que procurassem Amyus Crowe e sua filha, e também que protegessem vocês três.
— Obrigado — disse Sherlock, pegando o envelope. — Mycroft...
— Sim, Sherlock?
O menino hesitou antes de falar.
— Acho que você precisa saber que a Sra. Eglantine não trabalha mais na casa de tio Sherrinford e tia Anna.
Mycroft fitou o irmão por um bom tempo.
— Não? — murmurou ele, enfim. — Devo concluir que o repentino infortúnio daquela mulher extraordinariamente desagradável teve algo a ver com você?
— Teve tudo a ver com ele — disse Matty, orgulhoso. — E comigo também!
— Você me contará essa história na volta. — Mycroft continuou fitando Sherlock. Havia uma expressão estranha em seus olhos, como se ele visse alguém muito familiar e ao mesmo tempo completamente desconhecido. — Você tem meu talento para ver a semente em vez de só observar a flor — disse ele depois de alguns instantes —, mas também tem algo que me falta: um apreço pelas flores e uma aversão por ervas daninhas. Admiro-o, Sherlock. Admiro-o imensamente.
O menino desviou o olhar, sentindo um súbito nó na garganta. Ficou observando os edifícios passarem pelas janelas do cabriolé até conseguir controlar as emoções.
— Escreverei para nossa mãe — anunciou Mycroft, de repente. — Pedirei que ela convide nossos tios para passar alguns dias com ela. Já há muito que essa disputa familiar passou do ponto em que deveria ter sido esquecida. Quando nosso pai voltar da Índia, quero que isso esteja superado.
— Nossa mãe está... bem? — perguntou Sherlock, hesitante.
Mycroft tensionou os lábios de forma quase imperceptível.
— Ela tem dias bons e ruins, mas acredito que esteja se recuperando.
— E Emma?
— Nossa irmã está... bom, ela está como está — disse Mycroft, misterioso. — Digamos apenas assim.
A carruagem de repente se aproximou da calçada e parou. Sherlock ouviu o condutor descendo. Um instante depois, a porta se abriu.
— King’s Cross — anunciou Mycroft. — Se bem me lembro dos horários, o próximo trem com destino a Edimburgo sairá dentro de uma hora.
— Obrigado por nos receber — disse Stone. — E pelas passagens e reservas no hotel.
— Cuide de meu irmão — respondeu Mycroft. Ele encarou Matty e ergueu uma sobrancelha. — E, se não se incomodar, cuide desse aí também. Acho-o curiosamente divertido, e é evidente que meu irmão gosta dele.
— Você é um sujeito engraçado — disse Matty, alegre. — Obrigado pelo passeio.
Mycroft voltou o olhar para Sherlock e estendeu a mão.
— Enviem-me um telegrama quando lhes for conveniente — disse ele. — Enderece ao Diogenes Club. Avisem-me do progresso de sua busca. E tomem cuidado. Muito cuidado. Tenho um mau pressentimento, e não acredito que se trate da gota que receio estar começando a desenvolver.
Os três – Sherlock, Matty e Rufus Stone – saltaram da carruagem. O condutor fechou a porta e subiu com agilidade de volta em seu assento. Sherlock ouviu Mycroft bater a bengala no teto e gritar, com a voz abafada:
— Arco do Almirantado, meu bom homem!
E então o cabriolé se afastou da estação.
— A gente agora tá por conta própria — disse Matty.

Um comentário:

  1. ESTOU AMANDO LER ESSE LIVRO, NÃO CONSIGO PARAR DE LÊ , MUITO BOOOOM :)

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Boa leitura :)