30 de agosto de 2017

Capítulo seis

CAMERON PULOU PARA TRÁS, chocado. Sherlock o segurou antes que ele tropeçasse e caísse.
— Ah, o jovem marinheiro Holmes, não é? — a voz era tão seca e sussurrante como Sherlock lembrava. O olhar de Arrhenius examinava Sherlock de cima a baixo. — Você está melhor vestido do que me lembro no navio. Estou, confesso, surpreso ao vê-lo aqui. Acreditava que este seria um encontro para empresários e pessoas da classe militar. Eu não havia percebido que... meros membros da tripulação seriam convidados.
Sherlock respirou fundo.
— Sr. Arrhenius — ele reconheceu. — É bom vê-lo novamente. — Ele indicou Cameron. — Fui convidado a ficar com o Sr. e a Sra. Mackenzie enquanto o Gloria Scott está ancorado. Este é Cameron, filho deles.
O olhar de Arrhenius se voltou para Cameron, e Sherlock pôde sentir o rapaz se encolhendo.
— Está tudo bem — disse ele baixinho. — O Sr. Arrhenius sofre de um... problema de pele. Não é grave, e não pega.
Agora que ele sabia que o Sr. Arrhenius estava presente no jantar, Sherlock podia ver que os outros convidados lançavam olhares ocasionais para o homem de pele azul. Eles não pareciam nervosos ou preocupados, mas certamente estavam interessados. Era como se houvesse algum magnetismo sobre o homem que atraía sua atenção, mas eles eram educados demais para dizer qualquer coisa, ou seja, fazer um alarido. O que Sherlock achou interessante era que, embora estivessem fascinados, eles não estavam agrupados em torno do Sr. Arrhenius para lhe fazer perguntas. Sherlock realmente não entendia – se ele tinha uma pergunta, então geralmente perguntava.
Cameron Mackenzie, obviamente, tinha a mesma abordagem na vida que Sherlock.
— Dói? — ele perguntou, aproximando-se e olhando fascinado o rosto de Arrhenius. — Parece que pode doer.
— Não, não dói, meu jovem amigo. Na verdade, é exatamente o oposto. A prata coloidal que tenho consumido ao longo dos anos e que dá a minha pele esse... brilho atraente... me protege de doenças – não tive uma gripe, nem mesmo uma dor de garganta todo esse tempo. Não apenas não dói, como impede que eu me fira. Percebe?
Cameron concordou.
— Sim, percebo — respondeu ele, sério. — Deve ser realmente útil. Isso quer dizer que sua pele é valiosa? Se é prata, quero dizer. O senhor não teme que alguém possa sequestrá-lo e tentar arrancar sua pele para vendê-la?
Arrhenius riu, um som parecendo folhas sussurrando ao vento.
— Infelizmente, não. A prata é mantida na forma de óxidos e nitratos. Seria necessário um químico muito inteligente para extrair prata pura da minha pele – e a quantidade não seria suficiente para valer o esforço, temo.
Houve algo sobre o pensamento que, de repente, intrigou Sherlock. Não sobre esfolar o Sr. Arrhenius e extrair a prata de sua pele – o que aliás seria macabro e errado – mas a ideia de que a prata pudesse vir em diferentes formas, como nitratos, óxidos e assim por diante, e que alguém que soubesse o suficiente de química saberia dizer a diferença entre eles, e talvez converter entre um e outro. Era, ele pensou, um pouco como ser capaz de brincar com os blocos de construção a partir do qual tudo, desde pedras e árvores às pessoas, era feito.
Ele percebeu com um choque repentino que a Sra. Mackenzie juntara-se a eles enquanto ele estava distraído com seus pensamentos.
— Sr. Arrhenius, não é? — ela perguntou, tocando na manga de Arrhenius. — Estamos muito satisfeitos que pôde estar aqui.
Arrhenius assentiu.
— E sou muito grato pelo convite — disse ele. — Descobri que minha aparência pode, por vezes, ficar no caminho de eventos sociais. Me acostumei a comer sozinho em minhas viagens.
— Bobagem — devolveu a Sra. Mackenzie com um sorriso. — O senhor deveria ver os efeitos que algumas das poções e medicamentos locais têm. Meu marido comprou um remédio para queda de cabelo de um comerciante do mercado há um ano. Ele não me contou, é claro, mas o esfregou seu couro cabeludo todas as noites em segredo. Certa manhã a mistura teve efeito e o cabelo dele se tornou verde brilhante. Não apenas isso, mas ele teve uma erupção cutânea que cobriu sua cabeça, rosto e mãos. Passei o resto do dia fingindo que não tinha visto nada de errado e orientei os empregados a fazer o mesmo. Foi muito divertido!
— E eu a divirto da mesma forma? — indagou o Sr. Arrhenius. Seus lábios estavam curvados em um sorriso, mas não havia humor em sua voz.
— É claro que não — disse a Sra. Mackenzie tranquilizadoramente, tocando em sua manga novamente. — Estamos muito gratos de tê-lo conosco, e estamos ansiosos para ouvir sobre suas viagens. Agora, venha conhecer meu marido...
Ela levou Arrhenius para longe dos dois meninos, ainda conversando com ele. Sherlock notou várias pessoas observando-os.
— Que homem estranho — comentou Cameron. — Me pergunto se eu conseguiria tornar minha pele uma armadura de ferro se o comesse todos os dias.
— Você provavelmente apenas sentiria dores de estômago — Sherlock respondeu. — Isso se tiver sorte.
Ele observou enquanto Arrhenius e a Sra. Mackenzie se aproximavam do pai de Cameron. A Sra. Mackenzie os apresentou brevemente e, em seguida, afastou-se para falar com outra pessoa. Sherlock descobriu o seu olhar fixo em Malcom Mackenzie e no Sr. Arrhenius. Eles não pareciam como homens que tinham sido apresentados há poucos momentos. Eles pareciam, de fato, como homens que já se conheciam – ou, pelo menos, que já sabiam algo sobre o outro.
Enquanto Sherlock observava, o Sr. Arrhenius enfiou a mão no casaco do uniforme e tirou um pacote. Passou-o para o Sr. Mackenzie, que imediatamente o escondeu guardando-o no bolso interior de seu casaco. Foi uma transação perfeitamente inocente, mas havia algo sobre a maneira como ambos tentaram minimizar o tempo em que o pacote ficara visível, e a forma como eles tanto olhavam em volta mais tarde para ver se alguém olhava, que fez Sherlock se perguntar o que exatamente havia no pacote.
Os dois homens conversaram por um momento ou dois. Havia desconfiança ali, e Sherlock detectou raiva também – especialmente na maneira como o Sr. Arrhenius permanecia ali parado. O Sr. Mackenzie parecia na defensiva, mas o Sr. Arrhenius estava definitivamente perdendo a paciência.
— Vamos lá — disse Sherlock abruptamente. — Mostre-me o jardim, não quero mais ficar aqui. Alguém pode tentar falar com a gente, apenas por educação, e odeio ficar de conversa fiada.
Cameron concordou, e liderou Sherlock ao longo dos caminhos que serpenteavam pelo jardim bem cuidado. Eventualmente, ele encontrou um grupo de grandes pedras colocadas em uma área forrada de areia. A areia estava cuidadosamente distribuída em uma série de círculos concêntricos que ondulavam para fora de onde as pedras estavam assentadas. Apesar daquele arranjo cuidadoso, que pareceu a Sherlock bastante artístico, porém bastante inútil também, Cameron atravessou o espaço e se sentou em uma das pedras.
Sendo um pouco mais cuidadoso, mas ainda deixando pegadas, Sherlock sentou-se na frente dele.
— Você ia me falar sobre a América — lembrou Cameron.
— Eu ia — Sherlock respondeu — mas quero te perguntar algo antes. Você mencionou a guerra entre a Grã-Bretanha e a China mais cedo, e seu pai mencionou novamente agora há pouco. O que realmente aconteceu? Não me lembro de ter ouvido nada sobre isso nos últimos tempos, ou ter aprendido sobre isso na escola, e a escola era geralmente bastante eficiente em nos falar sobre guerras.
Cameron deu de ombros.
— Houve na verdade duas guerras — ele explicou. — Ambas bem curtas. Os chineses as chamam de Guerras do Ópio.
— Guerras do Ópio? — Sherlock perguntou, sentindo um leve calafrio. O ópio era um tipo de droga – ele sabia porque tinha sido derrubado em diversas ocasiões por agentes da Câmara Paradol. Eles tinham usado uma solução de ópio dissolvido em álcool chamada láudano. A substância deixara Sherlock inconsciente por alguns minutos, e lhe dera alguns sonhos estranhos.
— O ópio vem das papoulas — Cameron disse. — Pode ser fumado em um cachimbo, aparentemente. Ele faz as pessoas se sentirem em paz, e os faz esquecer de todos os seus problemas, pelo menos por um tempo. Vocês, britânicos, estavam se naturalizando na Índia para cultivar papoula e extrair o ópio, depois seus navios o traziam para a China e o vendia em troca de sedas e outras coisas.
— Mas é a definição de comércio. Você vende e compra coisas, e tenta fazer um lucro.
— O ópio é viciante — Cameron ressaltou. — Uma vez que você o usa, quer continuar a usá-lo. Você não consegue se controlar. Pelo o que tenho ouvido e visto, muitos dos comerciantes e agricultores locais, e até mesmo os funcionários públicos, passavam cada vez mais tempo fumando ópio. Lavouras foram deixadas apodrecendo nos campos, e havia cada vez menos alimentos disponíveis para comprar nos mercados. Chegou a um ponto em que as ruas ficavam vazias a maior parte do tempo, porque as pessoas estavam em suas casas fumando.
— Isso é obviamente uma coisa ruim — Sherlock observou.
— Os Manchu também achavam. Eles emitiram uma lei proibindo a venda ou o uso do ópio.
— Ah — disse Sherlock, que percebeu as implicações do que Cameron estava dizendo. — Então o suporte do mercado para os importadores britânicos se foi. Eles ainda traziam mais ópio da Índia, mas não podiam vendê-lo.
Cameron assentiu com a cabeça.
— Pelo o que meu pai diz, a economia britânica inteira dependia da renda que vinha da venda do ópio.
— Assim como os comerciantes chineses e os agricultores eram dependentes de fumá-lo. — Sherlock pausou. — Então nós fomos para a guerra, de modo que pudéssemos manter a venda desta droga na China, apesar de as pessoas estarem ficando viciadas nela e tendo maus resultados.
Cameron deu de ombros.
— As guerras não acontecem apenas por razões boas — ele apontou. — Elas acontecem por razões ruins também, embora seu governo mascarasse isso dando a entender que o imperador chinês tentava sufocar o livre comércio e os nobres ingleses fizessem o possível para se certificar de que seus comerciantes tivessem uma vida decente. Não havia nenhuma menção de ópio lá.
— Mas ainda assim, isso é errado! Não deveríamos vender essa droga, e certamente não deveríamos ter feito uma guerra para podermos continuar a vendê-la!
— Concordo — disse Cameron. — Mas o que eu sei? Vocês ganharam a guerra. Fumar ópio não é ilegal na Inglaterra, de modo que os comerciantes alegaram que não estavam fazendo nada de errado em primeiro lugar, e o imperador estava exagerando.
— Talvez não devêssemos ter vencido a guerra — Sherlock murmurou sombriamente. Ele não pôde evitar, perguntou-se o quanto seu irmão Mycroft sabia sobre isso. Mycroft trabalhava para o Ministério das Relações Exteriores, o que tinha a ver com relações internacionais. E se ele tivesse se envolvido nessas Guerras do Ópio? E se tivesse aconselhado contra ela, ou à favor dela?
Sherlock fez uma nota mental para perguntar a Mycroft da próxima vez que o visse. Supondo que o veria novamente.
Pensar em Mycroft e sobre ópio o fez lembrar-se das vezes em que foi drogado pela Câmara Paradol – a confusão, e a sensação de leveza que experimentara. Ele estremeceu. Por mais horrível que tivesse sido, havia algo estranho e perigosamente sedutor sobre aquela sensação. Ele nunca quis experimentar de novo, e ainda assim havia uma pitada de saudade da maneira como ele se sentiu. A forma como a droga o fez se esquecer de tudo o que o preocupava.
— Então — Cameron solicitou. — América?
Sherlock começou a lhe contar sobre suas experiências em Nova York e a viagem de trem através do deserto americano, mas transformou-se mais em uma narração das aventuras que ele, Matty e Virgínia tiveram. Cameron ouviu, de olhos arregalados. De vez em quando ele questionava um detalhe ou fazia um comentário, mas, em geral, ele deixou Sherlock falar.
Depois de vinte minutos mais ou menos um gongo soou, avisando a todos que era hora do jantar. Cameron e Sherlock dirigiram-se juntos à sala de jantar, onde todos se reuniam. Felizmente, os dois foram colocados juntos, e ainda melhor, os convidados sentados em volta deles na longa mesa passaram o tempo todo conversando uns com os outros e ignoraram os meninos. Quando Sherlock terminou sua história e Cameron tinha acabado de fazer perguntas, eles mudaram para outros assuntos – as experiências de Cameron na China, e as aventuras de Sherlock de volta à Inglaterra.
De vez em quando Sherlock ouvia algum fragmento das conversas acontecendo ao seu redor – o capitão Bryan ou outros oficiais da USS Monocacy falando sobre suas viagens, o Sr. Mackenzie falando sobre a China, ou outros empresários que contavam histórias sobre lugares exóticos a que foram e pessoas estranhas com quem negociaram. A certa altura, ele ouviu Malcom Mackenzie perguntou ao capitão Bryan:
— Será que você será recebido pelo governador enquanto estiver aqui?
O capitão Bryan deu de ombros.
— Devo admitir — disse ele — fiquei confundido pelos vários níveis de dignitários da China. Eu tinha antecipado o envio de minhas credenciais para aquele que governa Xangai, mas meu tradutor me disse que ele é de baixa patente e que não vale a pena tratar com ele.
— Isso é verdade — confirmou Mackenzie. — Apesar de Xangai ser uma grande cidade do nosso ponto de vista, é governada por um prefeito. Ele é subserviente ao governador da Província de Jiangsu, cujo palácio está localizado em Nanjing – um pouco para o interior.
— Ah — disse o Capitão Bryan. — Creio que nos reuniremos com o governador de Jiangsu em algum lugar rio acima, em uma cerimônia especial.
O interesse de Sherlock na conversa – que não era grande no começo – diminuiu quando a comida chegou. Era bastante surpreendente: pedaços de pato suculento servido com um molho feito de ameixas, seguido de fatias de cordeiro apimentado com uma mistura de legumes crocantes e, em seguida, culminou em bolinhos recheados de frutas. A comida era regada com vinho branco doce. Sherlock comeu tanto quanto conseguiu. Os sabores e texturas traziam à sua mente, estranhamente, Wu Chung. Ele se perguntou como a reunião de Wu com sua família tinha transcorrido, e decidiu ir à procura do cozinheiro logo que pudesse no dia seguinte.
Quando o último prato foi retirado, o Sr. Mackenzie sugeriu que os homens se retirassem para a outra sala fumar charutos. A Sra. Mackenzie liderou os dois meninos para fora da sala de jantar.
— Eles falarão por horas — disse ela — e não serão coisas que valham a pena ouvir. A sala ficará tão cheia de fumaça de charuto que vocês seriam capazes de cortar o ar com uma faca. Sugiro que vocês dois deitem suas cabeças no travesseiro. Sherlock, pedi montassem uma cama separada para você no quarto de Cameron. — Ela bocejou de repente, e cobriu a boca. — Oh, nossa. Acho que vou me recolher também. Foi um dia exaustivo.
Sherlock sabia o caminho que atravessava o jardim interior e levava até o quarto de Cameron. Ele foi na frente em silêncio ao longo de uma das trilhas pavimentadas que cortavam a grama, passando pelos arbustos e pela área de areia onde tinham se sentado antes. O céu acima deles estava negro e sem nuvens, salpicado de estrelas. A pequena fatia de lua lançava uma luz prateada sobre tudo, lembrando a Sherlock do Sr. Arrhenius e sua pele azul prateada.
Uma forma escura se moveu entre dois arbustos. Sherlock parou abruptamente.
— Qual o problema? — perguntou Cameron, quase trombando nas costas de Sherlock.
— Pensei ter visto um animal.
Cameron abriu a boca pra dizer algo, mas Sherlock fez um gesto para que ele se calasse. Ele ficou imóvel, tentando detectar algum som de movimento ou respiração, mas não houve nada.
Ele deu um passo em direção ao arbusto em que a forma escura estivera. Era um animal – um gato ou um cão, talvez? Presumivelmente, eles tinhas cães e gatos na China?
Outro passo. Ainda nada. E se ele tivesse se enganado? Ele deu outro passo, pronto para voltar e ir para a cama. Sherlock soltou a respiração que nem tinha percebido que segurava. Ele provavelmente tinha confundido algum pássaro noturno com algo mais substancial. O cansaço e o estresse de estar em um país estranho o estavam deixando nervoso.
Uma pedra voou para fora do arbusto. Se ela não tivesse resvalado em um galho na saída, o teria acertado bem no meio da testa. Da maneira como foi, ela acertou sua bochecha e ricocheteou para longe. Ele recuou atordoado. Podia sentir algo quente e úmido em sua pele: sangue. A pedra o tinha cortado!
— Ei! — ele gritou, indignado. Antes que Cameron pudesse responder, Sherlock se lançou no arbusto, mas outra pedra voou em direção ao seu olho direito. Ele se abaixou e a pedra passou por cima, raspando em seu cabelo ao passar.
De repente, uma sombra negra rompeu do mato e foi para o gramado. A luz escassa da lua não era suficiente para Sherlock determinar quaisquer detalhes – tudo o que podia ver era algo com cerca de metade do seu tamanho se afastando rápido. Ele não tinha certeza se aquilo corria, flutuava, voava ou rolava. Antes que pudesse se concentrar na forma, ela já tinha desaparecido na escuridão.
Deixando Cameron lá, Sherlock se lançou na perseguição. Ramos arranharam seu rosto enquanto ele corria por entre os arbustos. Pétalas e folhas explodiam para longe dele, espalhando-se no chão. Ele foi parar em uma clareira. À frente, ele pôde distinguir a forma escura subindo pelo tronco cinza de uma árvore que se torcia a partir do chão como fumaça de um incêndio. Sherlock correu a distância que o separava da árvore e somente enquanto corria percebeu que deixava crateras como pegadas na areia suave de outro jardim de pedras.
Ele saltou sobre uma pedra lisa que bloqueava seu caminho. O tronco da árvore estava poucos metros à sua frente agora, e sem abrandar, ele pulou, agarrando com os galhos mais baixos com ambas as mãos enquanto seus pés arrastavam para subir no tronco cinza prateado. Segundos depois ele se içava pela escorregadia casca da árvore. Era como subir pelo cordame do Gloria Scott. À frente, ele podia ver uma sombra negra contorcendo-se através dos galhos maiores. Folhas atacavam o seu rosto, raspando no corte deixado pela pedra. Sangue escorria pelo seu rosto.
Ele emergiu à luz da lua, a cabeça acima da folhagem como um nadador emergindo de um oceano. Além da copa da árvore ele podia ver o telhado da casa dos Mackenzie – telhas vermelhas que se inclinavam levemente para longe dele. Algumas das telhas foram perturbadas, batendo para fora do lugar. Esse foi o único sinal deixado pela sombra que ele perseguia – seja lá o que ela fosse. Ela desaparecera depois do telhado e, presumivelmente, saltara para a rua. Ele nunca a alcançaria agora.
Ele fez seu caminho de volta para o jardim. Seus músculos queixavam-se pela ação inesperada, e seu rosto latejava onde a pedra o atingira. Ele suspeitava também que tinha pequenos cortes e arranhões por toda a face, onde os galhos e as folhas o acertaram.
— Você — Cameron exclamou quando viu Sherlock — parece ter sido usado para varrer as folhas com o cabelo.
— Engraçadinho — Sherlock rosnou.
— O que aconteceu?
— O que você viu?
Cameron deu de ombros.
— Alguma coisa saiu dos arbustos em sua direção. Eu não tinha certeza se eram pássaros, ou o quê.
— Não eram pássaros – eram pedras.
— Tudo bem – eram pedras. Você correu. Eu te segui, mas na hora que cheguei aqui você estava subindo na árvore. Depois você desceu de novo. Se era algum tipo de jogo, então acho que você ganhou, mas você precisa me contar as regras da próxima vez.
— Acho que havia um hóspede não convidado — disse Sherlock, tentando manter a voz calma e o mais nivelada possível. Seu coração, no entanto, ainda estava acelerado.
— Que tipo de hóspede não convidado? Você quer dizer um ladrão?
Sherlock deu de ombros.
— Eu não pude ver. Poderia ter sido um animal ou uma pessoa. — Ele franziu a testa, tentando imaginar a coisa que ele vislumbrara. — Uma pessoa bem pequena, talvez.
— Ele atirou duas pedras — Cameron ressaltou. — De acordo com você, de qualquer maneira.
Sherlock levou a mão ao rosto. Ela ficou pegajosa com sangue, mas o corte não parecia estar tão ruim.
— Talvez fosse um macaco. Eles podem atirar pedras. Vocês tem macacos na China?
— Há com certeza muitos deles em torno de Xangai. Os marinheiros os trazem e os deixam aqui.
— Vamos ver se há qualquer rastro — disse Sherlock.
Ele liderou o caminho de volta para a areia do jardim de pedras. Se Sherlock esperava ver marcas de garras ou pegadas distintas, então ficou desapontado. Suas próprias pegadas tinham destruído todo o rastro que o intruso tinha deixado.
— Eu deveria contar ao papai — Cameron falou depois de um tempo. Ele parecia indeciso. — Ele pode querer chamar a polícia local.
Sherlock balançou a cabeça.
— Não há motivo para isso. Eu não tenho exatamente certeza do que vi, e o que quer que fosse, agora já se foi. Interromperíamos a festa por nada. Vamos contar a ele de manhã, no café da manhã.
Sherlock checou rosto novamente. O sangramento estava quase parando. Ele seguiu Cameron pelo resto do jardim, mantendo-se atento a quaisquer movimentos nos arbustos.
— Você precisa se limpar — Cameron ressaltou. — Vou pegar um pano e um pouco de água.
Depois de lavar o sangue do rosto e a sujeira de suas mãos, Sherlock despiu-se e subiu na cama baixa que tinha sido preparada para ele. Demorou um tempo para pegar no sono, no entanto. Não era só a emoção e a tensão da perseguição. Ele havia se acostumado a uma rede pendurada entre dois ganchos, balançando com o movimento do mar e o som das ondas chocando-se contra o casco. Uma cama plana, um colchão confortável e o silêncio total excetuando-se a respiração de Cameron o perturbavam de uma forma que não aconteceria a alguns meses.
Eventualmente, porém, ele dormiu, e quase desejou que não o tivesse feito. A bordo do Gloria Scott ele sempre ia dormir cansado demais para sonhar ou, pelo menos, tão cansado que dormia entre os seus sonhos, mas nunca se lembrava deles pela manhã. Aqui no quarto de Cameron, na casa dos Mackenzie, ele se encontrou sonhando com Virgínia Crowe. Ela estava no campo a poucos metros de distância dele, o vermelho de seus cabelos deslumbrantes à luz do sol de Farnham. Sherlock andou até ela, mas ela parecia mover-se dois passos para trás a cada passo que ele dava. Ela ficou mais e mais longe dele, e quanto mais rápido ele se aproximava, mais rápido ela se afastava. Seus lábios se moviam, mas o que ela dizia, a mensagem que tentava transmitir, era tão tênue que ele não podia compreendê-la.
Logo ela era apenas uma mancha escura contra o verde exuberante dos campos e, em seguida, ela se foi.
Sherlock acordou com lágrimas no rosto, mas não estava muito certo a respeito de que estava chorando.

Os meninos se lavaram e se vestiram rapidamente. Cameron tinha algumas peças de roupas chinesas que Sherlock vestiu. Ele gostou da ideia de poder misturar-se.
O café da manhã era o que ele estava acostumado na Inglaterra – bacon, ovos mexidos, salsichas e muitas torradas. As salsichas tinham um gosto estranho, picante, e o bacon estava tão frito que ele o partia com um audível crac, mas era a coisa mais próxima de comida que ele se lembrava, por meses. Havia até café – forte e preto, com muito açúcar. Ele tinha se esquecido quão bom era café.
O Sr. Mackenzie estava sentado à cabeceira da mesa lendo um jornal. Não parecia chinês – Sherlock suspeitou que o USS Monocacy tivesse trazido uma pilha de jornais americanos, e que o pai de Cameron recuperava o atraso nas notícias do ano anterior, mais ou menos. Ele parecia distraído. Virava as páginas e, em seguida, voltava, como se percebesse que não estava entendendo algumas sentenças.
— Pensamos ter visto um ladrão noite passada — anunciou Cameron de repente.
O Sr. Mackenzie olhou para cima. Fixou o olhar em Cameron, franzindo a testa.
— O que está dizendo, um ladrão? — perguntou a Sra. Mackenzie, interessada, do outro lado da mesa.
— No jardim — Cameron respondeu, falando mais alto — quando íamos para a cama. Sherlock pensou ter visto algo nos arbustos. Ele foi dar uma olhada, mas quem quer que fosse atirou pedras nele.
— Ou, o que quer que fosse — corrigiu Sherlock. — Não temos certeza se era uma pessoa.
— Cães não atiram pedras — Cameron ressaltou. — Nem gatos.
— Mas macacos sim, e não sei se há outros animais na China que podem atirar pedras.
— Provavelmente era uma criança — disse o Sr. Mackenzie casualmente. — Duvido seriamente que assaltantes jogariam pedras. Eles seriam mais propensos a atirar facas, ou aquelas estrelas de metal com pontas afiadas que já os vi utilizar. Acho que vocês imaginaram demais. Foi uma longa noite. Talvez a excitação os tenha pegado.
Ele levantou o jornal novamente, escondendo o rosto por trás dele, mas Sherlock interessou-se em ver que seus dedos estavam brancos, como se ele estivesse apertando o papel com força. Algo o preocupava.
Depois do café, Sherlock e Cameron perguntaram se podiam dar uma volta na cidade.
— Tenham cuidado — recomendou a Sra. Mackenzie — e estejam de volta para o almoço. Tragam-me algumas laranjas, se puderem. Que estejam bons, sem amassados. — Ela se virou para o marido. — E você, Malcom? Eu esperava que pudéssemos repassar alguns detalhes para o coquetel de amanhã. A cozinha já está em preparação para isso.
O Sr. Mackenzie abaixou o jornal novamente. Sua expressão era taciturna, pensativa.
— Temo não poder – não esta manhã. Estarei em meu escritório, tenho alguns... alguns documentos para cuidar.
— Eles não podem esperar?
— Não — respondeu o Sr. Mackenzie, tão enfaticamente que sua mulher se encolheu-se. — Preciso vê-los hoje.
Por alguma razão, Sherlock se lembrou do pacote que o Sr. Arrhenius tinha entregado ao Sr. Mackenzie no jantar da noite passada. Era a esses “documentos” que ele se referia?
— Oh — disse a Sra. Mackenzie, em voz baixa. — Bem, talvez mais tarde eu possa levar-lhe uma xícara de café e um prato de biscoitos, e poderíamos discutir sobre isso.
— Estarei com a porta trancada — respondeu o Sr. Mackenzie. Sua voz era dura. — Esses documentos são muito importantes. Não posso permitir que ninguém os veja. Não quero ser rude, minha querida — ele disse em um tom mais calmo. — Quando terminar com eles, virei encontrá-la. Poderemos falar então.
— Como achar melhor — devolveu a mãe de Cameron em uma voz neutra, mas seus lábios estavam franzidos e suas bochechas, vermelhas.
Sherlock olhou para Cameron. Seu novo amigo deu de ombros. Ele estava com a testa franzida de preocupação. Obviamente, esse era um comportamento incomum à mesa do café.
O restante da refeição foi conduzido em silêncio. O pai de Cameron parecia envergonhado por sua explosão, e sua mãe parecia não querer começar outra conversa, caso isso provocasse mais raiva. Cameron passou a maior parte do tempo olhando nervosamente de um para o outro, tentando descobrir o que acontecia. Sherlock também tentava. Em particular, ele estava interessado em por que o pai de Cameron tentara dar explicações para o que acontecera na noite anterior. Pela experiência de Sherlock, a maioria dos proprietários de casas que tivessem recebido um visitante para assaltá-la estaria preocupada em impedir que isso acontecesse de novo – não fingiriam que nada tinha acontecido em primeiro lugar.
Depois da refeição, os dois meninos dirigiram-se para cidade. O céu estava azul e sem nuvens, e embora houvesse um vento gelado, aquele prometia ser um bom dia.
— O que você quer fazer? — perguntou Cameron.
Sherlock se lembrou de seus pensamentos à mesa de jantar na noite anterior.
— Na verdade — respondeu ele — quero procurar um amigo.
— Pensei que você não tivesse amigos em Xangai.
— É o cozinheiro do Gloria Scott. Ele tem família aqui.
Sherlock tentou se lembrar do endereço que Wu Chung lhe dera antes de deixar o navio.
— Ele disse que eu poderia encontrá-lo em Renmin Dong Lu. É o mesmo que East Renmin Street, não é?
Cameron assentiu.
— Eu sei onde fica. Não é das áreas mais bonitas de Xangai. Você tem certeza que quer ir ver esse cara?
— Eu gostaria — Sherlock pausou. — Se você achar que é seguro.
— Se algo acontecer, podemos sempre lutar ou fugir.
Juntos, eles caminharam pelas ruas de Xangai.
Como no dia anterior, havia pessoas por todos os lugares: transportando cestas ou empurrando carrinhos, lavando cavalos ou empurrando ovelhas na frente de si com varas longas. Muitos deles usavam chapéus largos de palha para se proteger do calor do sol. Ao contrário dos chapéus que Sherlock usava na Inglaterra, estes tinham só aba, sem copa: cones rasos que lembravam a Sherlock do telhado inclinado da casa Mackenzie.
Cameron, obviamente, sabia o caminho. O percurso levou-os por vielas estreitas e ruas largas, contornando esquinas e passando por fileiras de lojas e bancas.
Um som explodiu repentinamente, ecoando em toda a cidade, fazendo Sherlock parar. Outras pessoas na rua tinham parado também, e falavam umas com as outras em voz baixa.
— O que foi isso? — perguntou Sherlock.
Cameron fez uma careta.
— Soou como uma buzina de navio. Acho que é o USS Monocacy chamando seus marinheiros de volta, prontos para saírem em sua missão de mapear as voltas e reviravoltas do rio Yangtzé.
Sherlock percebeu que as outras pessoas na rua não pareciam muito satisfeitas.
— Não tenho certeza se os moradores aprovaram — ele observou.
— Isso não foi mencionado ontem à noite – pelo menos, não enquanto estávamos lá – mas você tem que se perguntar por que o governo americano quer ter mapas precisos de um rio chinês a milhares de quilômetros das águas americanas. Duvido que estejam fazendo isso por bondade de seus corações. — Cameron deu de ombros. — A sugestão óbvia é que eles pensam que poderão necessitar de mapas precisos em algum momento no futuro, e há apenas duas razões para isso – uma possível ação militar ou comerciantes americanos navegando rio acima. — Ele indicou os moradores locais, que ainda conversavam em voz baixa. — Eles estão debatendo qual das duas opções preferem.
Eventualmente, depois que dobraram uma rua, Cameron desacelerou até parar.
— Este é o East Renmin Street.
Sherlock assentiu.
— Então vamos perguntar a alguém onde mora a família de Wu.
Cameron sorriu para uma velha desdentada que vendia frutas no acostamento da estrada. Ele disse algo em uma explosão de cantonês rápido demais para Sherlock poder identificar as palavras. Ela disse algo em reposta, e apontou para uma casa em particular, nada diferente das demais, um pouco mais a frente. Tal como as outras que ele tinha visto, era simples e anônima vista do lado de fora: paredes de reboco branco, telhado de telhas vermelhas e uma porta pintada de verde.
Os dois rapazes tinham dado alguns passos em direção à casa quando a porta da frente se abriu e uma mulher saiu correndo. Ela chorava.
— Ele está doente! — ela gritava em cantonês, olhando em volta desesperadamente por ajuda. — Alguém me ajude! Meu marido está doente! Acho que ele está morrendo!
O pânico da mulher era óbvio pela sua expressão desesperada. Ela claramente temia pela vida de seu marido.
Outras pessoas na rua desviavam dela enquanto ela tentava chamar sua atenção. Sherlock avançou. Apesar do fato de ele ser europeu, não chinês, ela moveu-se para ele.
— Meu marido — disse ela novamente. — O nome dele é Wu Chung. Por favor, você pode me ajudar?

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