18 de agosto de 2017

Capítulo seis

CHOCADO, SHERLOCK ENTROU. O TAMANHO, a disposição, a mobília – tudo lhe parecia familiar mas, ao mesmo tempo, diferente. O espaço, sem a bagunça de sempre, estava muito maior do que em sua memória.
A área de parede exposta o incomodou – Sherlock acostumara-se a vê-la coberta de desenhos e mapas. O reboco estava marcado pelos furos dos alfinetes que antes prendiam papéis, e isso ao menos tranquilizou Sherlock, confirmando que ele estava no chalé certo e que não havia confundido a casa de Amyus Crowe com outra de mesmo tamanho e formato na rua mais adiante.
— Eles devem ter saído às pressas — disse Matty, entrando no chalé atrás do amigo.
— Talvez tenham deixado um bilhete. — Sherlock indicou o térreo. — Olhe por aqui. Eu vejo lá em cima.
— Não tem nada aqui — disse Matty. — Se eles tivessem deixado um bilhete, estaria à vista.
— Talvez não quisessem que o bilhete fosse encontrado por qualquer pessoa que entrasse. Talvez o tenham escondido.
Matty o encarou com uma expressão cética.
— Você está inventando coisas — disse ele. — Reconheça, eles fugiram. Eu mesmo já fiz isso vezes sem conta. Alguém tá cobrando o aluguel, então você desaparece no meio da noite. Junta as trouxas e vai para um lugar novo onde ninguém o conheça. — Ele franziu o cenho. — Mas eu não imaginava que o Sr. Crowe fosse de fugir. Quem tá atrás dele deve ser de meter medo mesmo, para que ele tenha dado no pé desse jeito.
— Você está esquecendo aqueles dois americanos que vi no mercado — observou Sherlock. — Eles disseram que queriam alertar o Sr. Crowe sobre algo.
— Talvez o Sr. Crowe tenha fugido deles.
— Mas ele não teria fugido — protestou Sherlock. — Não sem falar conosco.
Matty deu de ombros.
— Talvez eles não sejam tão bons amigos quanto você pensa — retrucou ele. — Pela minha experiência, coisas como amizade são esquecidas quando a situação aperta e o dinheiro acaba.
Sherlock o encarou.
— Está falando sério?
Matty evitou o olhar do amigo.
— O mundo é cruel, Sherlock. Sempre foi fácil para você. Mas espere até ficar pobre, com frio e fome. Aí você vai ver de que vale a amizade.
— Você é meu amigo. — Sherlock sentia-se como se, de repente, o mundo que ele conhecia estivesse desaparecendo. — Nunca me esquecerei disso. Estou falando sério. Não é mentira!
— Eu sei que você tá falando sério, mas sua barriga tá cheia e você tem dinheiro no bolso. Fale isso de novo depois de perder tudo. — Matty balançou a cabeça. — Olhe, estou indo procurar algum bilhete. Vou ser a pessoa mais feliz do mundo se encontrar.
Enquanto o menino começava a olhar dentro de gavetas e atrás de almofadas, Sherlock subiu a escada estreita de madeira, quase batendo a cabeça no teto baixo. Sentia-se mal, em parte porque seus amigos haviam desaparecido, mas também por causa das palavras de Matty. Seria a amizade assim tão descartável? Matty achava que Sherlock o abandonaria se a situação ficasse difícil para ele?
Será que ele o abandonaria?
Sherlock sentiu um calafrio e enterrou o pensamento lá no fundo da mente. No momento ele tinha questões mais importantes com que se preocupar.
O andar de cima estava tão vazio quanto o térreo. A cama de Amyus Crowe estava arrumada, e seu armário, vazio. O banheiro não tinha sequer uma escova de dentes ou de cabelo.
Sherlock parou na porta do quarto de Virginia, remexendo-se inquieto. Nunca entrara naquele cômodo antes, e, embora fosse óbvio que a menina não estava lá, ele sentia que não deveria entrar. Como se, por alguma razão, fosse proibido.
Não, que bobagem, disse o menino a si mesmo. Era só um quarto.
Entrou. Assim como no quarto do pai, a cama estava arrumada, e o armário, vazio. Não havia qualquer pertence pessoal na cômoda ou no peitoril da janela.
Sherlock pensou ter sentido um traço do perfume dela no ar. Estranho... ele nem sabia que ela usava perfume, não achava que fosse o tipo de garota que usaria perfume, mas, se fechasse os olhos, conseguia imaginá-la logo às suas costas.
Quando estava prestes a sair, viu de relance algo colorido no travesseiro. Virou-se e se debruçou sobre a cama.
Ali, no travesseiro, havia uma mecha do cabelo cor de cobre dela.
Sherlock sentiu algo envolver seu coração e apertá-lo com força. De repente parecia impossível respirar.
— Encontrou alguma coisa? — gritou Matty do térreo.
— Não — respondeu Sherlock, sentindo o aperto no peito diminuir. Sua voz parecia estridente a seus próprios ouvidos. — E você?
— Nada. Não tem nada nos armários da cozinha nem na despensa. Tá tudo limpo. Isso significa que eles levaram a comida também. Pela minha experiência, isso quer dizer que eles não vão voltar.
Sherlock desceu a escada, abaixando-se para não bater a cabeça no teto de novo. Quando voltou à sala do térreo, observou outra vez os furos no reboco da parede do outro lado. Ele nunca se dera conta de que havia tantos papéis pregados ali.
— Nenhum sinal — disse Matty. — Eles foram embora de vez. Que façam boa viagem, então.
Sherlock balançou a cabeça com energia.
— Amyus Crowe não fugiria assim, sem se despedir. Ainda que tivesse que ir embora às pressas por algum motivo urgente, deixaria uma mensagem. E Virginia... — Ele se interrompeu, sem querer terminar a frase. Ainda não tinha certeza dos sentimentos da menina, embora estivesse cada vez mais ciente do que sentia por ela. — Bom — continuou, sem jeito —, ela também teria falado alguma coisa. Precisamos continuar procurando.
Antes que Sherlock se mexesse, seu maior receio foi expressado por Matty:
— É, podem ter sido aqueles homens no mercado. Eles devem ter vindo aqui e levado o Sr. Crowe e Virginia. Ou então ele soube que os homens viriam e meteu o pé com a filha. Mas por que alguém perseguiria o Sr. Crowe?
Sherlock pensou por um instante, lembrando-se dos pequenos detalhes que Amyus Crowe deixara escapar sobre seu passado nos Estados Unidos: caçando criminosos fugitivos depois da Guerra de Secessão.
— Acho que o Sr. Crowe fez muitos inimigos em seu país natal. Deve ter sido por isso que ele veio para cá com Virginia. Talvez algo do passado dele o tenha alcançado.
— Deve ser algo bem assustador, se ele preferiu fugir em vez de encarar. Você sabe como ele é grande e corajoso. Não imagino o Sr. Crowe se assustando com qualquer coisa menor do que um elefante enlouquecido.
Sherlock o encarou.
— Quando foi que você viu um elefante?
Matty fechou a cara.
— Já vi em figuras, ué.
— Não, com certeza há algo errado. — Irritado, Sherlock deu um soco na própria coxa. — Só preciso descobrir o que é.
— Talvez tenha alguma coisa lá fora — sugeriu Matty.
— Podemos dar uma olhada. Vamos nos limitar às paredes externas ou a até um ou dois metros de distância do chalé, senão vamos acabar explorando o campo inteiro.
Os dois saíram, e Sherlock se virou automaticamente para a direita, enquanto Matty foi para a esquerda. Sherlock analisou as paredes de tijolos e o teto de palha, olhando de cima a baixo enquanto andava. Passou por duas janelas e uma glicínia plantada próxima à parede, mas não viu nada que parecesse deslocado. Pensou se haveria algo enfiado no teto de palha, por dentro ou por fora, mas abandonou a ideia. Se Amyus Crowe tivesse deixado alguma mensagem, seria em algum lugar mais acessível, algum lugar onde ele sabia que Sherlock procuraria.
Mais ou menos na metade do caminho até os fundos do chalé, Sherlock quase tropeçou em algo no chão. Por um momento achou que fosse uma cobra, e deu um pulo para trás, mas o objeto permaneceu imóvel, e parecia sujo e marrom demais. O menino se abaixou para analisá-lo. Era um tubo, feito de tecido mas reforçado por dentro com aros para manter a forma. Ia de um buraco na parede do chalé até uma elevação na grama, e ali desaparecia. Seria algum experimento de Amyus Crowe? Sherlock só conseguiu imaginar essa possibilidade, mas o objeto não indicava para onde o Sr. Crowe e Virginia haviam ido.
Ele reencontrou Matty nos fundos do chalé.
— Achou algo estranho? — perguntou.
— Nada. — Matty franziu o cenho por um instante. — Só um coelho morto. Bom, a maior parte de um coelho morto. Tava sem cabeça.
— Onde? Estava caído no chão?
O menino negou com a cabeça.
— Tava do lado de um pedaço de lenha. Parecia ter sido colocado ali de propósito, mas nem imagino por quê.
Sherlock deixou seus pensamentos correrem soltos por um instante.
— Um coelho morto sem cabeça? — disse ele, depois de um tempo. — Preciso admitir, se isso é uma mensagem, é bem difícil de decifrar. — Ele suspirou. — Certo, vamos continuar. Encontro você de novo na porta da frente.
— Mas você já conferiu esse pedaço — reclamou Matty —, e eu já conferi o outro!
— Dois pares de olhos são melhores que um. Você pode pegar algo que eu tenha deixado passar e vice-versa. Vamos, só vai levar mais alguns minutos.
Os dois se separaram e retomaram a busca. Sherlock não viu nada que Matty pudesse ter deixado passar. Parou um instante para observar o coelho morto, caído na grama junto a um pedaço de lenha que Amyus Crowe provavelmente pretendera usar no fogão, mas o animal não revelava nada.
Tirando o fato de que estava sem cabeça e de que as patas dianteiras tocavam a extremidade inferior da madeira, era apenas um coelho morto. Havia muitos espalhados pelo campo.
Matty já o esperava quando Sherlock chegou à porta da frente. Ergueu uma sobrancelha, curioso. Sherlock balançou a cabeça em negativa. Matty deu de ombros, indicando que não havia encontrado nada que o amigo tivesse deixado passar.
— Vi um negócio que parece um tubo — disse —, mas só isso.
Desconsolado, Sherlock voltou a entrar com ele no chalé. Passou os olhos pelo cômodo vazio, com as mãos na cintura.
— Continuo com a sensação de que não estou vendo alguma coisa — disse ele, frustrado.
— Se você não tá vendo, então de jeito nenhum que eu vou ver — respondeu Matty.
— Não se subestime. Você tem um olho bom para detalhes.
Sherlock observou mais uma vez a parede cheia de furos, tentando ignorar os detalhes – cada furo individualmente – e enxergar a imagem inteira.
— Matty — disse —, acho que tem uma mensagem aqui.
O menino olhou para Sherlock e depois para a parede.
— Você tá vendo coisas.
— Sim, estou. Você tem uma caneta?
— E eu lá tenho cara de quem anda com caneta no bolso?
Sherlock suspirou.
— Um lápis, então?
— Também não.
— Uma faca?
— Isso — respondeu Matty — eu posso arranjar. — Ele enfiou a mão no bolso e pegou a mesma faca que havia usado no tanque do curtume. — Aqui. Não quebre.
— Não vou quebrá-la. — Sherlock se aproximou da parede. Observou-a por alguns instantes, tentando recriar mentalmente tudo que estava pregado ali antes. — Havia um mapa grande aqui, não é?
Ele apontou a lâmina para um trecho da parede.
— Acho que sim.
— Certo. — Arranhando o reboco com a faca como se fosse uma caneta, Sherlock ligou quatro furos para formar, de acordo com suas estimativas, um retângulo na posição, forma e dimensão certas. — Este é o mapa. Tinha dois pedaços de papel por aqui, à direita. — Cada vez mais confiante, ele localizou dois conjuntos de quatro furos e também os ligou. Agora havia três retângulos na parede. — Lembro que também havia algumas coisas aqui. Acho que eram retratos.
— Estavam inclinados — observou Matty. Sherlock apontou quatro furos que pareciam corresponder à sua memória, mas Matty balançou a cabeça. — Uns dois centímetros para a esquerda — disse. — Não, aí não... um pouquinho para baixo... É, aí mesmo.
Um a um, Sherlock ligou os diversos furos até recriar tudo que havia sido pregado à parede. Alguns itens tinham sido afixados com apenas um alfinete, não quatro, e nesses casos o menino fazia um para indicar o item inteiro.
Recuou para observar o trabalho. O reboco estava coberto com uma série entrecruzada de riscos e X.
— Você esqueceu alguns — indicou Matty.
— Não — respondeu Sherlock. — Não esqueci. Esses furos são novos.
— Tem certeza?
— Certeza absoluta. Observe com atenção.
Matty aproximou-se da parede, estreitando os olhos.
— Não — disse Sherlock —, afaste-se. Tente olhar para além da parede e ignore os furos que marquei.
Matty balançou a cabeça, mas obedeceu. De repente arregalou os olhos, surpreso.
— É uma seta! — gritou.
— Exatamente.
Ele seguiu o olhar de Matty. Furos que não se ligavam a nada antes preso à parede – furos novos que deviam ter sido feitos de propósito – formavam uma seta que apontava para a janela.
Os meninos seguiram a indicação e olharam a paisagem verdejante do lado de fora.
— Será a direção que eles tomaram? — perguntou Matty, incerto. — Se for, acho que isso não ajuda muito.
— É mais perto — disse Sherlock. — Esta é a janela que dá no cercado de Sandia, a égua de Virginia. O Sr. Crowe está nos dizendo para procurarmos no cercado. Ele deixou uma mensagem lá.
— Quanto trabalho. Ele podia simplesmente ter pregado um bilhete na parede.
— Como você disse, se ele tivesse deixado um bilhete, qualquer pessoa acharia — respondeu Sherlock. — Ele deixou uma pista que indica uma mensagem. — O menino estendeu a faca para Matty. — Aqui, obrigado.
Matty deu de ombros.
— Pode ficar — disse ele. — Do jeito que as coisas tão, você provavelmente vai precisar dela mais do que eu.
Os dois saíram juntos do chalé. Sherlock conduziu o amigo até a área cercada que era visível pela janela. Eles pularam o portão.
— Por onde começamos? — perguntou Matty, olhando para o chão. — Não tô vendo nada óbvio.
— Não será algo óbvio — observou Sherlock. — O Sr. Crowe deve ter escondido a mensagem para que ninguém a encontrasse. — Ele pensou por um instante. — Se eu tivesse um rolo de barbante, poderíamos fazer uma malha de quadrados e conferir um de cada vez, e assim teríamos certeza de que exploramos tudo. Sem isso, corremos o risco de que algo passe despercebido.
— Que tal — sugeriu Matty — se começarmos cada um de um lado e andarmos para a frente, olhando o chão, até nos encontrarmos? Damos então um passo para o lado, viramos e vamos até a cerca de novo. Aí viramos, damos outro passo para o lado e recomeçamos mais uma vez. Dessa forma, vamos conferir faixas do cercado e cobrir o espaço inteiro.
— Parece um bom plano. — Sherlock assentiu. — Vamos lá.
Os dois passaram meia hora avançando e recuando pelo cercado, cada um examinando o terreno minuciosamente enquanto andava, conferindo cada punhado de mato, toca de coelho e monte de esterco que a égua de Virginia deixara. Depois de alguns minutos, Sherlock começou a sentir dor nas costas por causa da posição desconfortável em que precisava ficar: encurvado e dando passos curtos. O menino imaginou que, de longe, ele e Matty deviam parecer galinhas ciscando.
— Achei uma coisa! — exclamou Matty.
— O que foi?
O menino pegou algo do chão e o mostrou. Era um garfo.
— É um garfo — disse Sherlock.
— Eu sei que é um garfo. Será que é importante?
Sherlock deu de ombros.
— Deixe-o aí. Se não encontrarmos nada, talvez tenhamos que cavar.
Cinco minutos depois, foi Sherlock quem descobriu algo.
— Matty, venha cá!
O menino enfiou o garfo no chão e correu para onde Sherlock estava agachado.
— O que foi?
Sherlock indicou um buraco que descia chão adentro na diagonal e cuja boca era contornada por raízes.
— Acho que é uma toca de coelho.
— Parabéns. Já achei umas cinco.
— Mas esta tem algo dentro.
Sherlock enfiou a mão na toca para pegar o que vira. Seus dedos tocaram em alguma coisa peluda e grudenta. Pinçando o objeto, ele recolheu a mão.
Era a cabeça de um coelho, com o pescoço cortado ensanguentado.
— Uma cabeça de coelho dentro de uma toca de coelho — comentou Matty, em tom irônico. — Que descoberta surpreendente. Quer dizer que o Sr. Crowe e Virginia foram capturados por uma raposa?
— Você vê — respondeu Sherlock —, mas não entende. Dê uma olhada no pescoço.
Matty assim o fez, e então assentiu ao compreender.
— A cabeça foi cortada por uma lâmina afiada, não arrancada ou mordida. — Ele pensou por um instante. — Essa deve ser a cabeça do coelho que vimos atrás do chalé. Ainda assim... uma raposa ou um arminho pode ter pegado a cabeça de cima da mesa da cozinha e só ter... largado aqui.
— Acho que não. Se um animal tivesse roubado isto, teria comido uma parte. Haveria marcas de mordida. Mas parece que alguém simplesmente cortou a cabeça e a colocou neste buraco.
Matty se concentrou na cabeça de coelho.
— Está bem recente — reconheceu ele. — Foi morto provavelmente há menos de um dia.
— É uma mensagem — disse Sherlock, pensativo —, mas a pergunta é: que tipo de mensagem? — Ele hesitou por um instante. — Não — continuou —, a pergunta a ser feita é: existe mais alguma mensagem além desta?
Matty olhou em volta e suspirou.
— Quer dizer que precisamos terminar de explorar o cercado?
— Sim. O fato de termos achado algo não significa que não há mais nada a encontrar.
— Eu estava com medo de que você fosse dizer isso.
Sherlock deixou a cabeça de coelho onde a encontrara, e os meninos retomaram a busca, vasculhando o mato à procura de algo que pudesse ter sido largado ou jogado. Depois de uns quarenta e cinco minutos, chegaram ao final do cercado.
— Nada? — perguntou Matty enquanto eles voltavam ao chalé.
— Nada — confirmou Sherlock. — Ou é a cabeça de coelho, ou não há nada ali.
Matty olhou para onde eles haviam deixado a cabeça.
— Não entendo que mensagem pode ser essa, a menos que o Sr. Crowe tenha escrito em um pedacinho de papel e enfiado na boca do bicho. Mas isso seria nojento.
— Não é a cabeça em si — respondeu Sherlock —, ou pelo menos eu acho que não. É mais provável que seja o lugar onde ela estava, ou mesmo sua existência. Acho que o Sr. Crowe não teve tempo de fazer algo complicado, como escrever um bilhete. Só pôde fazer alguns furos na parede para indicar a direção, e então enfiar a cabeça em um buraco.
— Ele teve tempo de caçar e matar um coelho — disse Matty.
— Acho que já tinha o coelho. Provavelmente o pegou antes e estava preparando uma refeição... cortando a cabeça, tirando as tripas e a pele. Acho que algo aconteceu e ele precisou ir embora, e, depois de esvaziar o chalé de tudo que ele e Virginia tinham, só restaram alguns segundos para bolar uma mensagem.
Matty suspirou, frustrado.
— Tá, mas qual mensagem? Acho que ele pensava que fôssemos mais inteligentes do que realmente somos.
— Uma cabeça de coelho e um pedaço de lenha — murmurou Sherlock, tentando fazer a cabeça se agitar e conceber alguma revelação súbita que só poderia ocorrer se ele ficasse repetindo o óbvio.
— Tora — sussurrou Matty, quando eles entraram no chalé.
— Perdão?
— Fala-se tora, não lenha. Tora é um tronco cortado, e lenha é quando a tora vai para uma fogueira. Normalmente é você quem gosta de saber as palavras certas... precisa aprender essas coisas, então.
— Cabeça de coelho e uma tora — corrigiu-se Sherlock. A ideia fugidia em sua cabeça finalmente começou a se agitar. — Um coelho decapitado e uma tora. Matty, você é um gênio!
— Sou? — perguntou o menino, surpreso.
— Bom, tecnicamente não, mas você tem uma capacidade extraordinária de despertar a genialidade dos outros. É tão óbvio!
— É?
— Lembra quando os homens de Duke Balthassar sequestraram você e o levaram a Nova York, e nós o localizamos?
Matty assentiu, confuso.
— Lembra quando eu o encontrei naquele prédio? Que você tentou me dizer que eles o levariam de trem para a Pensilvânia?
Matty sorriu.
— É, aquilo foi esperto, não foi?
— Você apontou para a cabeça e apertou os olhos, como se pensasse, e depois indicou uns vândalos na rua. Levei algum tempo para juntar as peças, mas consegui.
— Sim, eu me lembro, mas e daí?
Sherlock suspirou, exasperado.
— Não está vendo? Foi isso o que Amyus Crowe fez aqui. Uma cabeça decapitada e uma tora. Ele e Virginia estão indo para Edimburgo, a capital da Escócia!
Matty franziu o cenho.
— Isso não faz o menor sentido — disse ele, desconfiado. — O que isso tudo tem a ver com Edimburgo e a Escócia?
— Faz todo o sentido — respondeu Sherlock. Ele sentia a chama pura e fria da vitória se espalhar pelo corpo, consumindo o cansaço e a dor nos músculos. Ele conseguira! Decifrara o código! Sabia que era aquilo! — Eu não diria que é a melhor pista do mundo, mas o Sr. Crowe precisou usar os recursos que estavam ao seu alcance. Podia usar os furos na parede para nos indicar o lado de fora do chalé, tinha o corpo do coelho e as toras lá atrás. Combinou os ingredientes para formar uma pista, e então levou Virginia a Edimburgo porque era o único lugar para o qual ele podia apontar com uma mensagem!
— Mas por que ele nos indicou que foi para Edimburgo? — perguntou Matty.
— Deve querer que o procuremos lá. É o único motivo. Se não quisesse ir embora sem se despedir, poderia ter deixado um bilhete dizendo apenas “Adeus”. Não faria diferença para quem o encontrasse. Mas é evidentemente importante que ninguém saiba que ele foi para Edimburgo. Acho que ele corre perigo. Acho que quer nossa ajuda.
— Vamos atrás dele, não é? — disse Matty, alegre.
— Bom — respondeu Sherlock, hesitante —, temos outras opções. Talvez devamos contar ao meu irmão.
— Quanto tempo isso vai levar? E o que ele vai fazer? Pelo que sei do seu irmão, duvido que ele vá pegar o próximo trem para a Escócia. Vai só enviar um monte de telegramas, mandando gente procurá-lo, mas as pessoas não vão reconhecer Virginia nem o Sr. Crowe.
Sherlock balançou a cabeça.
— Nunca fomos a Edimburgo — disse ele. — Não sabemos nada da cidade. Como poderemos ajudá-los se nós mesmos nos perdermos?
— Eu já fui a Edimburgo — retrucou Matty, animado. — Meu pai levou minha mãe e eu para lá de balsa. Demoramos semanas para chegar. Ficamos por um mês e tanto, enquanto ele procurava trabalho.
— Ainda assim... nós, dois garotos, sozinhos na Escócia?
— Você foi aos Estados Unidos. E à Rússia.
— Nos Estados Unidos eu estava com o Sr. Crowe.
— Até que você e Virginia fugiram sozinhos.
— Não foi de propósito — protestou Sherlock. — Não conseguimos descer do trem antes que deixasse a estação. E Mycroft foi à Rússia comigo.
— Até ele ser preso.
— Mas isso não fazia parte do plano. De qualquer forma, estávamos com Rufus Stone. Ele ajudou. — Uma luz intensa pareceu se acender na cabeça de Sherlock. — E se pedirmos para Rufus ir conosco?
— Será que ele iria? — perguntou Matty, desconfiado. — Achei que ele e o Sr. Crowe não fossem com a cara um do outro.
— É verdade — reconheceu Sherlock. — Os dois são como cão e gato, mas... — Ele pensou por um instante. — Tenho quase certeza de que meu irmão está pagando Rufus Stone para ficar em Farnham e cuidar para que eu não arranje problemas. Mycroft ainda acha que a Câmara Paradol vai tomar alguma atitude contra mim. Se eu disser a Rufus que você e eu iremos a Edimburgo, ele vai ter que nos acompanhar, não? Se ele precisa me manter longe de problemas, não terá escolha.
— Ele não pode só impedir que você pegue um trem?
Sherlock sorriu.
— Você conhece Rufus Stone. Sabe como ele é. Se tiver que escolher entre me impedir de ir à Escócia e ir comigo para uma aventura, o que acha que ele vai preferir?
— Faz sentido — concordou Matty. — Quando falaremos com ele?
— Vamos reunir um pouco mais de informações primeiro. Quero dar uma olhada na estação de Farnham. Se Virginia e o Sr. Crowe foram para a Escócia, não devem ter ido a cavalo ou de carroça. Ficariam muito vulneráveis. Não, eles foram de trem.
Matty franziu o cenho, pensando cuidadosamente no que o amigo dissera. Sherlock o observou, tendo uma sensação súbita de companheirismo. Matty se tornara parte de sua vida de uma forma que ele nunca imaginaria. Em muitos sentidos, o menino era o contrário de Sherlock – seguia o instinto, enquanto Sherlock seguia a lógica; era emotivo, enquanto Sherlock era frio; agia por impulso, enquanto Sherlock preferia sempre pensar em todas as opções antes –, mas era esperto e incrivelmente leal. Era o mais próximo que ele tinha de um melhor amigo. Sherlock se perguntou se seria sempre assim.
— Se o Sr. Crowe comprou duas passagens para Edimburgo na bilheteria da estação de Farnham — disse ele, devagar —, deixou rastros. Se os americanos estão atrás dele, podem ir direto à bilheteria e perguntar aonde ele foi. Ele não é de passar despercebido.
— Não é mesmo — concordou Sherlock. — Então o que ele faria?
Matty deu de ombros.
— Sei lá.
— O Sr. Crowe provavelmente vai comprar duas passagens para uma estação intermediária, como Guildford, por exemplo, mas pode saltar do trem com Virginia antes disso, talvez em Ash Wharf. E lá pode comprar duas passagens para Edimburgo. Se tiver alguém atrás deles, irá de Farnham direto para Guildford e perderá o rastro, porque ninguém na bilheteria se lembrará do Sr. Crowe.
— Isso seria esperto — reconheceu Matty.
— Na verdade — continuou Sherlock —, se eu fosse ele, compraria duas passagens para Guildford, saltaria em Ash Wharf, compraria duas passagens para Londres e, quando chegasse lá, compraria outras duas para Edimburgo. Dessa forma, o rastro ficaria ainda mais confuso.
— Tem certeza de que ele faria isso?
Sherlock assentiu.
— Ele é um caçador. Sabe quais rastros uma presa pode deixar, e vai tomar cuidado para não fazer o mesmo.
— E agora, fazemos o quê?
— Vamos para Farnham.
Os dois se afastaram do chalé e cavalgaram até o centro de Farnham, e Sherlock não podia deixar de sentir uma ponta de culpa. Ele detestava deixar o chalé vazio e desprotegido. O que aconteceria com a casa até Amyus Crowe e Virginia voltarem? Eles voltariam, Sherlock tinha certeza. Ele faria de tudo para voltarem.
O bilheteiro da estação – um idoso alto com suíças cheias e brancas – confirmou que um sujeito grande de terno branco e chapéu, acompanhado de uma garota com roupas de menino, comprara duas passagens no dia anterior. Sherlock ficou feliz de saber que as passagens eram para Guildford. Até aí, havia acertado na mosca.
— Olhe — disse Matty, apontando para o outro lado da rua.
Em um espaço triangular pequeno junto a um estábulo havia um cavalo pastando. Estava amarrado a uma cerca por uma rédea comprida.
— Aquela é Sandia — disse Matty.
— Tem certeza? — perguntou Sherlock.
— Absoluta.
— Pelo menos sabemos que ela está bem. Virginia provavelmente pagou alguém na estação para ficar de olho nela. Se houve tempo para isso, eles não foram levados à força. Devem ter descoberto que havia gente atrás deles. Pelo que conheço do Sr. Crowe, ele conseguiu se manter um passo à frente.
De repente Sherlock se sentiu muito melhor.
— Vamos para Ash Wharf agora?
O menino pensou por um instante. Chegava o momento em que o acúmulo de indícios apenas confirmava o que ele já sabia. Estava bem confiante em suas deduções.
— Não, vamos falar com Rufus Stone. Precisamos lhe dizer o que vamos fazer, e depois temos que conversar com meus tios. — Sherlock se lembrou do que havia acontecido mais cedo naquele dia. — Acho que os ânimos ainda estão favoráveis para que eles não me proíbam de viajar por alguns dias, ainda mais se souberem que Rufus Stone irá conosco.
Matty virou-se para ir, mas Sherlock estendeu a mão e o segurou. O amigo voltou-se para ele, intrigado.
— O que foi?
Sherlock hesitou, pensando em como formular a pergunta. Pensando se deveria perguntar.
— Aquilo que você disse antes, sobre a amizade acabar quando a situação aperta e o dinheiro acaba... você falou sério mesmo?
Matty desviou o olhar. Apertou os lábios por um instante, e então respondeu:
— Já tive amigos — disse baixinho. — Não tenho mais. Eles foram embora, um por um, quando acharam conveniente. Então aprendi que é assim que as coisas são.
— Não comigo — respondeu Sherlock. — E não com Amyus Crowe e Virginia.
Matty assentiu, relutante.
— Pelo menos você me convenceu de que eles não queriam ir embora. É um começo. Agora vamos. O tempo tá passando.

Encontraram Stone onde Sherlock havia imaginado: em suas acomodações, tocando sozinho no sótão. Os meninos ainda estavam na rua quando ouviram a melodia, algo que parecia uma música dançante agitada. À medida que subiam a escada, o som foi ficando cada vez mais alto, até que eles entraram no sótão e a música pareceu preencher o espaço inteiro, girando e rodopiando em torno da figura magricela de Rufus Stone, que movia o arco loucamente sobre as cordas. Ele não deu qualquer indicação de que havia escutado os meninos chegarem. De olhos fechados, Stone tocou notas cada vez mais intensas no instrumento até terminar com um último floreio. Por uma fração de segundo o ar pareceu estremecer como gelatina, e então tudo voltou ao normal.
— É uma baita música — disse Matty, satisfeito.
— Muita gentileza sua — respondeu Stone, virando-se e sorrindo para os dois. — Mas preciso admitir que ela soa melhor se for tocada à luz de uma fogueira no meio da floresta à meia-noite. O problema é que, à medida que vou envelhecendo, prefiro cada vez mais o conforto de uma casa seca e quente. — Ele fitou Sherlock e Matty. — Aconteceu alguma coisa, não foi? Contem-me.
Os dois relataram tudo para Rufus Stone: Sherlock apresentava os fatos e Matty completava com descrições vívidas. O homem foi ficando mais e mais sério à medida que os meninos falavam. Quando Sherlock terminou descrevendo o que exatamente os dois planejavam fazer, Stone ficou parado por um instante, pensando.
— Vocês pretendem mesmo ir a Edimburgo? — perguntou, enfim.
— Sim — respondeu Sherlock.
— E não há nada que eu possa dizer para fazê-los mudar de ideia?
— Não — respondeu Matty.
Stone suspirou.
— Então ainda bem que eu sempre deixo uma maleta pronta perto da porta. Não vai ser a primeira vez que preciso ir embora de repente.
— A diferença — disse Sherlock, baixinho — é que vamos voltar. Trazendo mais duas pessoas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)