7 de agosto de 2017

Capítulo seis

SHERLOCK GELOU. TANTO ESFORÇO, TANTA correria, tantos ferimentos provocados pelos tijolos, e mesmo assim não conseguira escapar. Estava cansado demais para fazer qualquer outra coisa. Não tinha mais energia.
— Como me encontrou? — perguntou ele, sem fôlego.
— Eu não conseguiria passar por aquelas fendas, não é? — disse o homem. — Mas eu sabia que a maioria delas acaba chegando aqui, no campo dos ossos, por isso contornei a área por fora e esperei. Estava quase desistindo quando ouvi você se arrastando até aqui. — Ele fez uma pausa. — Ainda preciso saber por que estava me seguindo — anunciou em tom sombrio. — Depois você vai morrer.
Uma silhueta avantajada saiu em silêncio do espaço entre a locomotiva e o vagão, por trás do homem barbudo armado com o soco inglês. A pessoa usava um chapéu.
Sherlock reconheceu Amyus Crowe no instante em que ele passou o braço esquerdo em torno do pescoço do bandido, segurando o pulso com a mão direita. O pescoço do homem ficou preso na articulação do cotovelo de Crowe, e Sherlock viu o tecido da manga de sua camisa esticar por conta dos músculos enrijecidos.
O homem arregalou os olhos e levantou as mãos para puxar o braço de Crowe, mas não conseguiu removê-lo, por mais força que fizesse. Cansado demais para ficar surpreso, Sherlock viu o rosto do homem se tingir de roxo. Crowe devia estar aplicando força suficiente para impedir sua respiração.
O bandido arriscou dar um chute desesperado para trás com a bota direita, mas Crowe se posicionara com as pernas afastadas uma da outra, e o chute não encontrou seu alvo. Em seguida, o homem afastou as mãos dos braços de Crowe e deu socos para trás, na altura da própria cabeça, esperando atingir Crowe com o soco inglês. Crowe apenas afastou-se da arma e aumentou a pressão no pescoço do outro.
— Estou decepcionado por ter sido descuidado a ponto de deixar este homem perceber que você o estava seguindo — comentou ele em um tom moderado, olhando para Sherlock por cima do ombro do desconhecido.
Sherlock passou a mão suja pelos cabelos.
— Sinto muito — desculpou-se. — Pensei que estivesse bem camuflado.
— Aprenda uma lição — aconselhou Crowe, cordialmente. — Armadilhas podem ser revertidas. Essa é a diferença entre animais e humanos. Coelhos não resolvem de repente caçar raposas, mas homens podem inverter os papéis. A presa pode tornar-se o predador. Procure os sinais. Se sua presa o está levando para algum lugar isolado, então é possível que tenha visto você e queira confrontá-lo.
— Nunca para de dar lições? — perguntou Sherlock, exausto, lembrando-se da lição no lago, quando estavam pescando.
— A vida nos ensina o tempo todo, se estivermos atentos o bastante para entender. — Crowe olhou para o lado, para o rosto arroxeado e os olhos arregalados do homem. — Agora — disse ele, em tom casual —, você e eu vamos conversar. Por que estava ameaçando meu amigo e pupilo aqui? Isso não é civilizado, camarada.
— Ele estava me seguindo — sussurrou o homem, quase sem fôlego.
Crowe olhou para Sherlock e levantou uma sobrancelha.
— Suponho que tenha tido um motivo — disse ele. — Não era apenas um treino de suas habilidades de rastreamento... Embora evidentemente esteja precisando treiná-las.
— Encontrei a gráfica que fez o cartão de visita — esclareceu Sherlock. — O tipógrafo disse que esse homem estava do lado de fora esperando pelo que encomendou a impressão. Os dois foram embora juntos.
Crowe assentiu.
— Imaginei que fosse alguma coisa assim. — Ele voltou a olhar para o prisioneiro. — Então, isso nos leva a perguntar por quê? Por que pagou a um homem pobre e doente para imprimir um único cartão de visita, e por que depois disso o mandou visitar o Sr. Mycroft Holmes em seu clube?
O homem tentou afastar o braço de Crowe.
— Está me sufocando! — protestou.
— Que percepção! Eu estou sufocando você.
— Vai quebrar meu pescoço!
— Ainda não. Mais um pouco de pressão e seu pescoço se partirá como um galho podre, é verdade, mas ainda não. Primeiro você vai sufocar.
— Vai me matar!
— Sim — confirmou Crowe. — Creio que sim. Fale depressa.
— Fui pago!
— É claro que foi. Não achei que estivesse fazendo isso por amor à rainha e ao país. A questão é: quem estava pagando?
— Não sei como se chamam! — O homem batia no braço esquerdo de Crowe. — Só me deixe respirar! Por favor!
Crowe diminuiu a pressão um pouco e o homem tomou um fôlego fraco. O cabelo estava emplastrado e o rosto perdeu um pouco da cor de beterraba.
— Eu fui abordado na taverna Shaftesbury uma noite — disse, arfando. — As pessoas sabem que resolvo problemas. Fecho negócios e encontro as pessoas certas para uma barganha, qualquer coisa que quiser. Eu deveria procurar um homem que estivesse à beira da morte e precisasse de dinheiro para a família. Disseram que deveria convencer esse homem a fazer uma última coisa e, se ele a fizesse corretamente, garantiria o conforto futuro da família.
— E você conhecia um homem assim?
— Eu conheço centenas de homens assim! Eles existem aos montes por aqui. Tuberculose, alcoolismo, úlcera... Há muitas maneiras de morrer em Londres.
— E que última tarefa era essa que ele tinha de cumprir?
O homem ficou em silêncio.
Crowe apertou o pescoço dele com mais força.
— Mais um pouco de pressão — murmurou ele —, e o último som que vai ouvir será o de seu pescoço quebrando. Já fiz isso com pumas, já fiz com jacarés, e até com um touro, nos meus bons tempos. Você não vai ser um desafio, acredite em mim.
— Ele precisava ir àquele clube em Whitehall — apressou-se a dizer o homem — e pedir para ver um homem em particular. Sozinho. Um homem chamado Mycroft Holmes. E tinha que entregar a ele o cartão que mandamos imprimir. Um cartão só. E, quando estivesse sozinho com esse homem, era para ele espirrar alguma coisa no rosto do sujeito, um negócio que estaria em um frasco parecido com um de perfume. O camarada ficaria como se estivesse dormindo em pé. Então, ele deveria colocar uma faca de verdade na mão do sujeito e esfaquear a si mesmo com outra faca, feita de gelo. Tipo uma pantomima, é o que era.
— De onde saíram as facas?
— Disseram que um menino iria nos encontrar quando chegássemos ao clube. Ele nos daria uma caixa com as facas. Tinha que ser assim, ou a faca de gelo derreteria, mesmo estando na caixa.
Crowe sorriu.
— Não achou tudo isso meio estranho?
— Já fiz coisas mais estranhas — admitiu ele —, e o pagamento era muito bom.
— O homem que o contratou... Sabe o nome dele? Pode descrevê-lo?
— Eu não disse que era um cara, disse?
Crowe levantou as sobrancelhas, surpreso.
— De fato, não disse. Eu me enganei. Então... foi contratado por uma mulher?
Ele assentiu, tanto quanto era possível com o braço de Crowe em torno do seu pescoço.
— Sim, uma mulher.
— Descreva-a.
— Jovem. Magra. Bem-vestida.
Crowe bufou.
— O rosto, homem. Descreva o rosto.
— Não vi. Ela usava um chapéu grande e um véu.
— Cor do cabelo?
— Não consegui ver embaixo do chapéu.
— Mas você a seguiu, não? Depois que ela o contratou?
Sherlock viu a surpresa nos olhos do desconhecido.
— Como sabe? — chiou ele.
— Conheço você, meu amigo. Ou pelo menos conheço homens como você. Uma mulher com muito dinheiro... É claro que você a seguiu. Queria descobrir onde ela morava, talvez tentar invadir a casa mais tarde e roubar o restante do dinheiro que com certeza havia no local. Homens como você estão sempre em busca de oportunidades. Então... Para onde ela foi?
O homem deu de ombros, mudando um pouco a posição do braço de Crowe.
— Não foi para casa nenhuma. Foi até um museu em Bow. O nome do lugar é Passmore Edwards. Já foi uma grande mansão. Esperei por umas duas horas, mas ela não saiu mais. Não sei se mora ali, ou se havia uma saída nos fundos, mas nunca mais a vi.
— Mais alguma coisa? Algum fato que queira compartilhar conosco?
— Não... Não, juro!
Crowe o soltou de repente, e o homem caiu de joelhos, engasgando e segurando o pescoço.
— Acho que já arrancamos tudo que era possível desse sujeito — disse Crowe a Sherlock. — Se estiver disposto, podemos ir a uma cafeteria comer alguma coisa. — Ele olhou com ar crítico para a calça e as botas enlameadas de Sherlock e para o paletó manchado por causa dos tijolos. — Antes talvez possamos encontrar uma loja de roupas. Não vai causar uma boa impressão nesse estado.
Antes que Sherlock pudesse responder, o homenzinho se levantou de repente do chão e, girando o braço, tentou fazer o soco-inglês chocar-se no rosto de Amyus Crowe. Ele rosnava e seu rosto estava contorcido em uma máscara de fúria.
— Tentou me sufocar, não é? — gritou ele.
Crowe se inclinou para trás, saindo do caminho. O soco-inglês passou bem na frente de seus olhos, a apenas alguns centímetros. Crowe deu um passo para a frente e, então, girou o corpo para a esquerda e deu um chute com o pé direito. A bota atingiu o joelho do homem. Sherlock ouviu um estalo. O homem caiu no chão gritando.
— Vamos — disse Crowe, chamando Sherlock. — Sinto que há um bule de café e um bolo com glacê à minha espera em algum lugar, e pretendo encontrá-los.
Ele foi caminhando na frente, seguido de perto por Sherlock. Os dois se afastaram, deixando o bandido encolhido no chão, segurando o joelho quebrado.
— Não deveríamos avisar à polícia? — perguntou Sherlock. — Esse homem não devia ser preso?
Crowe deu de ombros.
— Se vai se sentir melhor assim, acho que podemos tentar, mas será a palavra dele contra a nossa, e o único dano foi causado por mim. Qualquer policial respeitável me prenderia, em vez de detê-lo. Ou prenderia os dois até esclarecer tudo que realmente aconteceu.
— Mas isso não é justo! — protestou Sherlock.
— Talvez não, mas é a justiça. Se você não conhece a diferença entre as duas coisas, precisa aprender.
Crowe conduziu-o pelo caminho de volta para as ruas, vielas e arcadas da área em torno da estação de Waterloo.
— Como me encontrou? — perguntou Sherlock, caminhando a seu lado.
— Resposta simples: eu estava seguindo você.
— Mas eu não vi você — protestou Sherlock.
— Isso é o esperado quando sigo alguém. Diferentemente de você, sou capaz de permanecer nas sombras, ou na multidão, ou atrás das esquinas.
— Por que me seguiu?
— Depois de verificar aquele endereço no cartão, que, a propósito, era falso, decidi procurá-lo. Fui visitar as gráficas seguindo a ordem inversa, começando pela última da lista. Vi você saindo da segunda onde estive – a terceira que você visitou. Estava tentando alcançá-lo, mas você andava depressa. Depois parou e começou a observar uma taverna. Imaginei que estivesse seguindo algum rastro, e não quis chamar atenção, por isso me abaixei em uma soleira para ver o que estava acontecendo. Depois de um tempo, você começou a seguir aquele homem barbudo, e fui atrás. Vi quando ele o encurralou nas arcadas, mas você fugiu antes que eu pudesse interferir. Então passei uma hora analisando o lado de fora, tentando descobrir por onde você sairia.
— Ah... — disse Sherlock, com mais calma. — Faz sentido.
Eles voltaram à área na frente da estação. Crowe viu uma pequena alfaiataria e, algumas portas adiante, uma sapataria. Dez minutos depois, eles tinham calça, camisa, botas e paletó novos para Sherlock. Crowe pagou pela compra sem comentários. Sherlock deduziu que ele acertaria as contas com Mycroft depois... se seu irmão algum dia fosse libertado.
Quando saíram da alfaiataria, Crowe indicou o caminho para um salão de chá da Aerated Bread Company perto dali. Eles escolheram uma mesa perto da janela. Sherlock sentia-se estranhamente desconectado da realidade. Menos de uma hora antes estava correndo por túneis escuros para salvar a própria vida e agora estava sentado ao sol esperando para comer um bolo. A vida às vezes era estranha. Na verdade, ele refletiu, a vida era estranha na maior parte do tempo.
— Então, e agora? — perguntou ele quando a bandeja com café e bolos chegou.
— Vamos rever o que sabemos. — Crowe pegou um pedaço de bolo. — Há pelo menos um intermediário entre a pessoa que dá as ordens e a pessoa que as executa.
Sherlock mudou o semblante.
— Como assim, um intermediário?
— Bem, o homem que se matou no Diogenes Club não conhecia a mulher do véu. Ela contratou o homem barbudo, e ele contratou o homem que estava disposto a se matar para garantir o futuro financeiro da família.
— A mulher pode ter sido contratada por outra pessoa. Talvez haja dois intermediários.
— É possível — refletiu Crowe. — Quem está organizando tudo isso é muito cauteloso. Estão se certificando de que ninguém consiga seguir seus rastros. Só chegamos até aqui graças a dois eventos não planejados: o fato de o tipógrafo ter reconhecido o barbudo, e o de o barbudo ter sido ganancioso e imoral o suficiente para seguir a mulher que o contratara até o museu de que falou. Nunca subestime o valor de uma coincidência.
— Mas com que propósito? — perguntou Sherlock. — O que eles pretendem, exatamente?
Crowe deu de ombros.
— O objetivo imediato parece ser desacreditar seu irmão, ou simplesmente tirá-lo do caminho. O objetivo no longo prazo, bem... sobre isso não temos certeza. Precisamos de mais informação.
Sherlock suspirou. Tinha pensado que estava faminto depois de tanta correria, mas os bolos simplesmente não lhe apeteciam mais.
— O que podemos fazer? — perguntou ele.
— Em minha opinião, temos três opções — respondeu Crowe. — Primeira, podemos dizer à polícia o que sabemos e voltar a Farnham com a esperança de que o advogado do clube consiga tirar Mycroft da prisão e limpar seu nome.
— Quais são as chances de isso funcionar? — indagou Sherlock.
— Poucas. A polícia não vai querer investigar um crime para o qual já tem indícios claros contra um homem que já está preso, e nossa história não é exatamente fácil de acreditar, nem com toda a boa vontade do mundo. E nossa prova desapareceu.
— Mas temos o spray de morfina!
Crowe não se importou.
— Pode ser remédio, como disse seu irmão. E não podemos simplesmente mostrá-lo aos policiais. Eles podem alegar que compramos o frasco na farmácia da esquina.
— Qual é a segunda opção?
— Podemos ficar em Londres e falar com os empregadores do seu irmão no Ministério das Relações Exteriores. Tentar convencê-los a entrar em ação para tirá-lo da cadeia.
Sherlock fez uma careta.
— Nem eu acredito que isso possa dar certo.
— De fato. Há uma boa chance de o Ministério deixar seu irmão onde está. A última coisa que quer é constrangimento e publicidade.
— Então, vamos seguir a terceira alternativa — decidiu Sherlock.
Crowe sorriu.
— Você ainda nem sabe qual é.
— Posso imaginar. — Os olhos de Sherlock encontraram o olhar enganosamente manso de Crowe. — Nós mesmos reuniremos provas suficientes para limpar o nome de Mycroft. Iremos ao museu em Bow e tentaremos encontrar a mulher do véu.
Crowe assentiu.
— É mais ou menos isso. E, francamente, não tenho muita esperança. Não creio que tenhamos muitas chances.
— Por que não há ninguém a quem possamos recorrer? — explodiu Sherlock. — Por que não existe alguém que pode investigar as coisas que a polícia não quer ou não pode investigar? Uma espécie de força independente de detetives, uma consultoria que possa esclarecer as coisas, como a Pinkerton de que me falou, aquela agência nos Estados Unidos?
— Isso exigiria alguém com um conjunto de qualidades interessantes, com certeza — disse Crowe, com uma expressão estranha no rosto. — Mas é um nicho profissional atualmente vago aqui na Inglaterra. — Ele pareceu afastar quaisquer pensamentos que tivesse em mente. — Tudo bem, sugiro que consigamos uma charrete para nos levar ao museu em Bow.

Eles encontraram uma imediatamente, embora Sherlock notasse que Crowe havia deixado passar dois carros vazios, escolhendo o terceiro em cima da hora, quando já os ultrapassava.
— Por que não parou o primeiro carro? — perguntou Sherlock quando embarcaram.
— Porque estamos nos metendo em uma teia tecida por alguém — respondeu Crowe —, e eu queria ter certeza de que o carro foi mesmo escolhido por nós, não por outra pessoa.
— Então, o que havia de errado com o segundo carro?
Crowe sorriu.
— O cavalo era manco. Duvido que pudesse percorrer toda a distância até Bow. E não gostei do bigode do condutor.
Eles se acomodaram no interior do veículo, e o rosto do condutor surgiu na abertura acima deles.
— Para onde, cavalheiros?
— Conhece o museu Passmore Edwards? — perguntou Crowe.
A jornada levou aproximadamente meia hora, e Sherlock passou o tempo todo olhando para fora, para os fragmentos de vida real que iam surgindo: varais cheios de roupas, estendidos entre janelas de lados opostos da rua; homens de rosto endurecido parados nas esquinas; vendedores ambulantes com tabuleiros de doces, frutas e flores; amoladores de faca empurrando seus carrinhos e chamando aos gritos os clientes para afiar suas facas nas pedras movidas por pedais que empurravam.
O museu era um edifício de pedras marrom-alaranjadas com acabamentos brancos nas quinas e uma varanda com colunas ornamentais. Ficava afastado da rua, separado da calçada por uma faixa de grama e uma cerca de metal da altura do joelho. Uma placa de pedra presa à parede da porta havia sido entalhada com as palavras Museu Passmore Edward de Curiosidades Naturais.
— Continue dirigindo — disse Crowe ao condutor. — Pode nos deixar na esquina.
O condutor deteve o cavalo onde Crowe havia mandado. Ele pagou, e os dois desceram do veículo.
— Não olhe diretamente para o prédio — instruiu Crowe. — Vamos ficar aqui conversando por alguns segundos. Temos que recolher todas as impressões possíveis.
— Pode me chamar de burro — disse Sherlock —, mas tenho a impressão de que isso é mesmo um museu. Não parece ser uma fachada para outra coisa.
— Pode ser apenas um ponto de encontro conveniente — sugeriu Crowe. — Uma escolha quase aleatória, em vez do quartel-general de uma conspiração. Se for esse o caso, não vamos descobrir nada aqui, e então ficaremos sem evidências para investigar.
— O mínimo que podemos fazer é dar uma olhada — apontou Sherlock. — Podemos encontrar alguma coisa, ouvir alguma coisa, ou alguém pode se lembrar de ter visto uma mulher usando um véu.
— Bem pensado, muito bom — aprovou Crowe.
Ele seguiu na frente até a porta, para todos os efeitos um pai que passava o dia passeando com o filho. Eles entraram no saguão vazio de onde subia uma escada que se dividia para a esquerda e para a direita. Podia ser a entrada de qualquer grande casa da cidade, não fosse pela enorme vitrine de vidro que ocupava o centro da área ladrilhada. Ali havia uma representação relativamente precisa de uma floresta, povoada por vários animais empalhados: uma raposa, alguns furões, diversos ratos, camundongos e ratos-do-campo, e uma lontra surrada que parecia pertencer a outro lugar. Os animais eram empalhados em poses de alerta e espanto, como se houvessem sido pegos quando investigavam um barulho forte e inesperado. Seus olhos negros vidrados pareciam olhar em todas as direções.
Um homem de uniforme e quepe azuis aproximou-se deles.
— Quer comprar dois ingressos, senhor? — perguntou ele. — São só dois centavos cada, e podem ficar pelo tempo que desejarem. No momento, tudo está bem tranquilo.
— Obrigado — disse Crowe, entregando ao homem algumas moedas. — Que exposições recomenda?
O guarda pensou um pouco.
— A galeria dos pequenos mamíferos, no andar superior à direita, é sempre elogiada pela veracidade. A galeria dos anfíbios, no andar superior à esquerda, tem várias espécies incomuns que as crianças adoram.
— Vamos nos separar — Crowe falou quando o homem se afastou. — Eu vou ver os anfíbios, você vai ver os mamíferos. Vamos nos encontrar aqui em meia hora e, se não tivermos visto nada de interessante, seguiremos adiante para visitar outras galerias.
— O que chama de algo interessante?
— Como falei no Diogenes Club, qualquer coisa que não se encaixe. Qualquer coisa que se destaque.
— Em um museu de animais empalhados?
Crowe teve a bondade de sorrir.
— Tudo tem a ver com o contexto. Na rua, um cachorro andando não é incomum. Em um museu de animais empalhados, é.
— Tudo bem — respondeu Sherlock, sem muita certeza.
Eles subiram juntos o primeiro lance da escada de mármore e se separaram na bifurcação. Sherlock foi para a direita e Crowe, para a esquerda.
A escada conduziu a um balcão que contornava o espaço superior do saguão de entrada. O balcão era protegido por uma balaustrada de pedra que chegava à cintura. Havia várias portas que presumivelmente levavam a diferentes salas de exposição. Um grande lustre de vidro com velas pendia do teto.
Sherlock caminhou para a primeira porta. Além dela, encontrou uma sala comprida com uma série de armários de vidro paralelos à porta, que o impediam de enxergar o fim da sala. Uma claraboia no teto deixava entrar a luz do sol. Ele ouvia vozes em algum lugar da sala, mas não via mais ninguém.
Caminhando em direção ao fundo da sala, Sherlock foi contornando os armários sempre que necessário e examinando rapidamente os itens que cada um exibia. Como o guarda dissera, aquela era uma galeria de pequenos mamíferos. Um furão, posicionado em um arranjo de grama seca, ocupava uma caixa ao lado de um grande felino marrom com orelhas de pelos longos, sentado sobre uma faixa plana de areia do deserto. Um texugo de listras pretas e brancas emergia, curioso, de uma toca, a poucos passos de uma raposa com orelhas enormes que estava andando para sempre em uma paisagem de gelo e neve artificiais. Aquilo tudo devia fazer sentido para alguém.
Sherlock parou ao lado do texugo por um momento. Olhar para o animal o levou de volta a Farnham, ao texugo morto que ele usara para distrair o cão de guarda do barão Maupertuis. Na época, a situação havia parecido o ponto mais baixo da vida. Se ele soubesse...
Sherlock passou por vitrines de ratos e camundongos variados, gatos e cachorros pequenos antes de chegar ao fundo da sala. Os olhos sem expressão pareciam segui-lo quando passava. O portal no fundo da sala levava a um corredor menor com duas portas. Ele escolheu uma delas ao acaso e entrou.
Uma figura se debruçava sobre ele, os braços erguidos, garras perigosas emergindo das mãos. Ele se jogou para trás e quase caiu antes de perceber que a figura estava em uma vitrine e as mãos eram, na verdade, patas. Não era o homem barbudo da estação de Waterloo. Erguendo-se, Sherlock ajeitou o paletó, constrangido. Era algum tipo de urso, com pelo marrom emaranhado e um focinho que havia sido tratado para parecer molhado. O animal era maior que Amyus Crowe, e isso não era pouca coisa.
A sala cuja entrada o urso guardava continha vitrines ainda maiores. Além do urso, havia um alce com chifres enormes como galhos, vários javalis de pelo áspero e presas em uma pose familiar, e o que parecia ser uma vaca coberta por pelos marrons tão longos que Sherlock nem conseguia ver seus olhos.
A porta no fundo se abria para mais outra sala. Sherlock começava a ter a sensação de que estava em algum tipo de labirinto. Além das vitrines de vidro ao longo das paredes, havia outras no centro. Cada uma continha um tipo de ave e, pelo que Sherlock podia ver, eram todas aves de rapina.
A vitrine mais próxima continha uma águia solitária em pose nobre. O cenário de madeira fora pintado para representar montanhas distantes e um céu azul sem nuvens. Sherlock continuou andando pela sala. Ouviu alguma coisa se movendo – o arrastar de um sapato no piso. Havia alguém na sala com ele, embora não pudesse ouvir vozes. Talvez fosse um visitante solitário.
Ele passou por diversas vitrines contendo corujas de vários tipos. Estavam sobre galhos – reais, talvez, ou feitos de gipsita; Sherlock não conseguia determinar. As garras envolviam os galhos: afiadas armas mortais envoltas em pele escamosa, projetadas para penetrar no corpo da presa e carregá-la, para então poderem voar para o ninho e lá se alimentar.
Enquanto caminhava, ele pensou ter visto um movimento com o canto do olho. Virou-se rapidamente para olhar naquela direção. Todas as aves o encaravam. Mas não estavam voltadas para a porta quando entrara? Agora as aves estavam olhando para o centro da sala. Ou havia nas corujas alguma coisa que tornava difícil determinar para onde elas olhavam?
Alguma coisa agitou-se do outro lado da sala. Havia um pássaro de verdade preso ali? Um pardal, um pombo ou alguma coisa assim?
As vitrines seguintes continham uma variedade de aves de rapina. Sherlock reconheceu falcões, águias, e havia vários outros pássaros que ele não conseguiu identificar.
Mesmo estando mortos e empalhados, havia alguma coisa sinistra nos pássaros, mais do que nos pequenos mamíferos e nos animais maiores. Talvez penas parecessem mais reais do que pelos quando o que havia por baixo não era carne e osso. Ou havia alguma coisa na forma dos crânios e na ausência de gordura corporal que fazia com que o processo de empalhamento os deixasse como se pudessem virar a cabeça a qualquer momento e começar a limpar as penas, ou abrir as asas para alongar os músculos. Embora os olhos também fossem feitos de contas de vidro, Sherlock acreditava poder detectar certa frieza neles, uma ameaça perigosa. Os ratos e ratazanas pareciam ver os visitantes como predadores; as aves nessa sala observavam-nos como se fossem presas.
Estava imaginando coisas outra vez. E isso não o ajudava em nada. São só aves empalhadas!, disse a si mesmo. Não são reais. Não podem se mover.
Ele ouviu outro movimento súbito no fundo da sala. Passos, talvez. Roupas arrastando na moldura de madeira da vitrine. Não tinha importância: acabaria encontrando outros visitantes em algum momento.
E então ele se assustou com um estrondo. Por um momento, ficou surpreso, tentando imaginar o que era, e então compreendeu que a porta no fundo da sala havia sido fechada com força. Talvez o vento a houvesse batido.
Sherlock contornou uma vitrine que estava no meio do caminho. Na frente dela, uma caixa maior continha um abutre – a cabeça desprovida de penas, o bico cruel e encurvado, as asas abertas que pareciam querer impedir sua passagem.
Ele olhou para cima. Havia outro pássaro: um falcão, pensou Sherlock. Mas esse não estava atrás de um vidro. Estava bem em cima da caixa, como se houvesse acabado de pousar ali.
Um assobio triste de três notas musicais flutuou pelo ar.
Sherlock ainda estava olhando para o falcão quando o pássaro virou a cabeça para enxergá-lo com nitidez e se inclinou para frente, como se estivesse preparado para saltar da caixa e mergulhar direto para o seu rosto.

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