30 de agosto de 2017

Capítulo quinze

QUANDO SHERLOCK SUBIU AO CONVÉS, percebeu que estava mais cansado do que nunca estivera em toda sua vida. Cada músculo de seu corpo doía, e seu peito e pernas latejavam com a dor de onde o jacaré o ferira. O que ele realmente queria era deitar e descansar por um tempo, mas sabia que não podia.
Uma ponte levava do píer ao Monocacy. Um grupo de marinheiros uniformizados estava no topo. Um deles acenou para ele subir. Por um momento pensou em pedir que eles descessem – ele não tinha certeza de que suas pernas poderiam aguentar a subida – mas precisava da ajuda deles, por isso era melhor que ele subisse.
Lá pela metade do caminho, suas pernas tremiam. No momento em que chegou ao topo, teve que puxar-se para frente com as mãos.
Um grupo de marinheiros com rifles estava no convés. Os fuzis não estavam diretamente apontados para Sherlock, mas não estavam apontados para longe, também.
Conforme Sherlock recuperava o fôlego, notou que o capitão Bryan se aproximava. Ele verificava seu relógio e falava com um de seus oficiais. Ele parecia estressado.
Olhando ao redor, Sherlock notou que havia chineses no convés.
O partido do governador, obviamente, ainda não chegara, mas a forma como o capitão Bryan olhava para o relógio sugeria que não demoraria a chegar.
As primeiras palavras de Bryan aparentemente confirmaram a dedução de Sherlock.
— Seja rápido, jovem. Estou esperando convidados importantes. Você tem algo a me dizer? — Ele franziu a testa quando olhou o rosto de Sherlock com atenção. — Eu me lembro de você. Eu o vi no jantar na residência Mackenzie, e novamente no cais ontem.
— Sim, senhor. Obrigado por vir me receber. — Sherlock respirou fundo. — Malcom Mackenzie está morto. Ele foi assassinado porque estava indo avisar o prefeito de Xangai sobre uma conspiração para explodir seu navio.
— Por que alguém quereria explodir este navio? — perguntou o capitão Bryan. Ele fez uma careta. — Não, esqueça essa pergunta – posso pensar em uma série de razões. Os Estados Unidos da América não é dos mais queridos nesta parte do mundo.
— Algumas pessoas querem levar a América a interferir militarmente na região — disse Sherlock. — É tudo sobre comércio.
— E não é sempre assim? — Bryan respondeu. Ele olhou da ponte para o cais, e para o relógio novamente. — Maldição, o governador da província de Jiangsu estará aqui a qualquer momento.
— E será quando a bomba explodirá — falou Sherlock. — Um sinal será dado de algum lugar em terra para que se acenda o pavio.
— Onde está a bomba? — Bryan rugiu. Um de seus oficiais pegou em seu braço e murmurou algo em seu ouvido. Bryan balançou a cabeça. — Não importa se acredito na criança ou não — ele retrucou. — Se houver a menor chance de uma bomba estar no navio, então isto precisa ser checado. Além disso, olhe para ele. Ele passou por um inferno para chegar até aqui. Ele obviamente acredita em sua história.
— Penso que esteja próximo à cozinha, disfarçado como barris de água. Mas posso estar errado — Sherlock admitiu. — Pode estar escondida em qualquer lugar.
— Quem a plantou?
— Seu novo cozinheiro chefe — disse Sherlock.
O capitão Bryan abriu caminho para o interior de seu navio e desceu por uma escada. Para um homem que estava no comando de tudo, Sherlock refletiu, ele se envolvia bastante nos detalhes. Ele parecia querer fazer tudo sozinho.
Sherlock o seguiu, e atrás dele vinha um bando de oficiais. Eles marcharam ao longo de um corredor, fizeram uma curva, desceram por outra escada e passaram ao longo de outro corredor. Sherlock tentou descobrir onde eles estavam em relação ao convés e ao píer e decidiu que eles estavam do outro lado do navio, próximos ao casco.
O capitão Bryan abriu uma porta e entrou numa sala grande cheia de fornos, pias, bancadas e panelas penduradas. Isso lembrou a Sherlock da cozinha de Wu Chung no Gloria Scott, mas ampliada cem vezes.
A cozinha estava deserta. O capitão Bryan estalou o dedo para dois de seus oficiais.
— Procurem por toda parte — ele ordenou.
Do outro lado da cozinha, uma porta dava para uma área de armazenamento. Bryan foi até ela, com Sherlock e os outros homens logo atrás dele. Ele abriu a porta e entrou.
Ali era, obviamente, uma despensa. Era escuro, iluminado apenas por duas lâmpadas a óleo penduradas. Havia prateleiras por toda parte, com caixas de provisões empilhadas. Frutas e legumes estavam pendurados em ganchos, junto a pernas e peças de porco, cordeiro e boi. Ao longo da parede do fundo, barris estavam alinhados e empilhados em três grupos, com exceção de um espaço em uma extremidade.
— Chequem os barris — disse Bryan aos oficiais. — Vejam quanto pesam. Quebrem a tampa se for preciso. — Ele olhou ao redor. — Onde está esse maldito cozinheiro? Deve estar fora fumando seu cachimbo de ópio, ou algo assim, estou certo disso.
Sherlock e o capitão Bryan observaram pelos próximos cinco minutos, enquanto os oficiais iam de barril a barril, sacudindo-os para ver seus conteúdos, se eram líquidos e sólidos. Algumas tampas tiveram que ser retiradas com os pés de cabra pendurados em alguns ganchos na parede. Eventualmente, cada barril foi checado. Um oficial foi para onde Bryan e Sherlock estavam.
— Nada — disse ele, olhando com desdém para Sherlock. — Os barris contém água, rum, ou carne salgada. Isso é tudo.
O capitão Bryan virou-se para Sherlock.
— Parece que você vendeu um gato por lebre, filho — falou sem ser antipático.
Sherlock sentiu seu coração afundar. Ele sabia que suas deduções estavam corretas, mas não podia ver de que outra forma os explosivos poderiam ter sido escondidos. Se não os encontrassem logo, o sinal seria dado e o navio seria explodido!
— Suponho que o senhor não poderia considerar a evacuação do navio?
Dois oficiais riram alto.
— Baseado apenas em sua palavra? — perguntou o capitão Bryan. — Temo que não, filho. Seria um insulto para o governador, que deve chegar a qualquer momento. Boa tentativa, mesmo assim.
Sherlock desejou poder ver a margem oposta, para o caso de Arrhenius estar lá fora, pronto para dar o sinal. Talvez ver o homem, e o reconhecendo a partir do jantar, fosse suficiente para convencer o capitão de que algo estava acontecendo. Então Sherlock percebeu que não havia nenhuma escotilha na despensa, apesar de, pelos seus cálculos, eles estarem próximos ao casco.
— Não lhe ocorreu — Sherlock observou — que esta despensa é menor do que deveria ser?
Os oficiais e o capitão Bryan olharam criticamente. Eles se entreolharam com expressões intrigadas.
— Agora que você mencionou... — disse um deles, abaixando a voz, confuso.
Sherlock indicou a parede do fundo, contra a qual os barris estavam empilhados.
— Acho que descobrirão que esta parede é falsa. Suponho que os explosivos estejam atrás dela.
Os oficiais olharam um para o outro, então começaram a trabalhar com os pés de cabra. Sherlock estava certo. Levou menos de um minuto para trazê-la abaixo.
Atrás da parede falsa havia um espaço de cerca de seis metros de profundidade. Estava cheio de barris, e desta vez Sherlock pensava que o conteúdo não seria nem água, nem rum, nem carne salgada. Um cabo saía de cada um dos barris, unindo-se em uma trança que corria para uma área livre na lateral. Agachado ali, abaixo de uma escotilha que deixava um facho de luz do lado de fora entrar, havia um chinês vestido num uniforme de cozinheiro. Ele estava com o pavio trançado na mão e uma expressão assustada no rosto. Ao seu lado no chão, havia uma caixa de fósforos.
— Prendam esse homem! — gritou o capitão Bryan. — E pelo amor de Deus, retirem os pavios desses barris antes que algo desastroso aconteça!
O cozinheiro chinês tentou correr para a porta, mas dois dos oficiais o agarraram. Eles o levaram para fora da despensa. Outro oficial pegou a caixa de fósforos, enquanto o restante ia de barril em barril arrancando o pavio de cada um.
— Como ele fez para chegar aqui sozinho? — Bryan pensou em voz alta. — E como pretendia escapar depois que tivesse acendido o pavio? Certamente ele não iria sacrificar-se?
— Eu duvido — Sherlock concordou. Ele indicou um canto na área oculta onde o homem estava escondido. — Acho que há uma porta secreta ali. Lembre-se, havia um espaço ali sem barris. Penso que ele esperaria o sinal para acender o pavio, passaria pela porta escondida, pularia na água e nadaria para longe.
— E ele construiu tudo isso sozinho? — Bryan perguntou, olhando para a parede falsa.
— Não precisava ser perfeito — Sherlock apontou. — Estava coberto por barris. — Ele provavelmente a ergueu em partes.
— Filho, eu tenho uma dívida de gratidão com você. Se não fosse por você, este navio seria uma pilha de destroços em chamas e centenas de homens estariam mortos.
— E uma guerra estaria prestes a começar — disse Sherlock calmamente. Ele foi até a escotilha e olhou para fora. Ele podia ver todo o caminho até o outro lado do rio Yangtzé... onde um barco com duas lanternas no mastro estava amarrado à margem, justamente do lado do forte arruinado.
— Capitão — ele falou em voz baixa. — O senhor tem um pequeno barco a remos para me emprestar?
Dez minutos depois, Sherlock descia uma escada presa na lateral do Monocacy e pisava em um barco que tinha sido baixado por cordas. O capitão Bryan queria mandar alguém com ele, mas o governador da província de Jiangsu tinha acabado de chegar com sua comitiva, e todas as mãos foram requeridas para uma inspeção oficial em todo o convés. Assim, enquanto um visitante importante chegava à ponte, Sherlock escapulia secretamente pelo outro lado do navio.
Seus braços ainda doíam, e ele descobriu que puxar o remo através da água do rio forçava seus músculos de uma maneira que enviava picos de dor pelo peito e pelas costas. Ele ia em ângulo reto com o fluxo normal das embarcações, e teve que parar várias vezes para permitir que outros navios pudessem passar. Mesmo assim, havia um monte de gritos e xingamentos direcionados a ele.
Ele continuou olhando ao redor em busca de Cameron e Wu Fung-Yi, mas não havia sinal dos dois. Se eles ainda estivessem procurando o Sr. Arrhenius, então procuravam no lugar errado.
Eventualmente, o barco de Sherlock atingiu a margem do outro lado do rio. Ele saiu e o prendeu.
Relutantemente, se arrastou até pela margem do rio lamacento e parou na frente das ruínas de pedra do forte. Ele realmente não queria fazer isso. Cada músculo de seu corpo parecia prestes a desistir, e os cortes em todo seu peito, onde o sangue havia coagulado, abriram-se novamente e começaram a sangrar enquanto ele remava. Sua cabeça doía onde a menina o chutara, e ele estava ficando com uma sensação oscilante nos cantos de sua visão. Mas ele sabia que precisava fazer isso. Se não fizesse, então Arrhenius fugiria, e isso não era certo. Não depois dos assassinatos do amigo de Sherlock, Wu Chung, e do pai de Cameron.
Às vezes, ele pensou, fazer o certa era mais difícil do que fazer a coisa errada. Às vezes, fazer o certo era a coisa mais difícil do mundo.
Nada ansioso para o que encontraria, ele contornou a parede em ruínas do forte até que chegou à entrada em arco que levava para dentro.
Mato crescia entre as pedras. Não havia teto, e os restos da parede mal passavam da cabeça de Sherlock. Havia lacunas em vários pontos, onde o tempo e o clima fizeram a argamassa que segurava as pedras ruir.
Dois soldados chineses estavam deitados no chão do primeiro cômodo que provavelmente fora um grande salão. Sherlock agachou-se perto deles. Ambos estavam inconscientes; ambos tinham cortes sangrentos em seu couro cabeludo. Ele suspeitava que tais homens fossem designados para guardar a ruína, ou talvez fossem parte da comitiva parada ao longo da margem do rio em preparação à chegada do governador. Fosse qual fosse a razão de sua presença, foi má sorte para eles. Nenhum deles estava armado, o que preocupava Sherlock. Presumivelmente Arrhenius tomou suas armas após dominá-los.
Tendo a certeza de deixar os dois soldados inconscientes ao menos confortáveis, ele moveu-se para o próximo cômodo ao passar por uma porta.
Esta sala era tão grande quanto a primeira. O Sr. Arrhenius estava ali, de pé em uma janela sem vidro que dava para o rio. Ele segurava uma lâmpada, pacientemente abrindo e fechando o obturador em uma sequência regular, enviando flashes de luz através do rio para o USS Monocacy.
Onde nada acontecia.
— Presumo que tenha conseguido alertar a tripulação do navio quanto à presença dos explosivos — disse Arrhenius em sua voz estridente. Ele não virou a cabeça. — Também presumo que a tripulação tenha descoberto a localização dos explosivos, apesar da maneira meticulosa como estavam escondidos, e apreendido o agente que esperava para acender o pavio. Presumo tudo isso por causa da óbvia falta da explosão, apesar do fato de que posso ver a comitiva do governador no convés e eu esteja sinalizando para o agente faz cinco minutos. — Ele colocou a lanterna no parapeito de pedra da janela e virou-se para Sherlock. — O agente achava que o pavio queimaria por cinco minutos, dando-lhe tempo para sua fuga — ele continuou. — Na verdade, ele queimaria por apenas trinta segundos. Em cinco minutos alguém poderia descobri-lo e impedir tudo.
— Receio que não seja mais um problema.
— Aparentemente, não. — Arrhenius suspirou. — Você é realmente um jovem impressionante. Você não acreditaria na quantidade de tempo, esforço, frieza e o dinheiro vivo que foi dispendido para este plano. Aí você vem e o sabota apenas por... — ele dá de ombros — apenas por observação e dedução. Realmente muito impressionante.
Ele colocou a mão para trás, onde Sherlock viu algo encostado contra a parede.
— Impressionante e problemático. Acho que salvarei o mundo do incômodo de lidar com você no futuro, eliminando-o agora. Dessa forma, eu, pelo menos, terei feito alguma coisa hoje.
Ele trouxe a mão para frente. Arrhenius segurava um bastão de madeira comprida, Sherlock viu, mas que terminava em uma lâmina de metal com uma forma estranha. Parecia muito afiada. Ele deve tê-la tomado de um dos soldados inconscientes.
— Por favor — Arrhenius pediu — tente resistir. Tente fugir. Isso fará com que o processo seja muito mais divertido para mim.
— O que aconteceu com a garota? — Sherlock perguntou, dando um passo para o lado.
Distrair Arrhenius, atrasar seu ataque, era decididamente sua melhor opção. Sua melhor opção entre um grupo de opções bastante insatisfatórias, sua mente não pôde deixar de acrescentar.
Arrhenius girou lentamente para acompanhá-lo, segurando a arma branca a sua frente, como um carrasco em repouso.
— A minha filha? Ah, presumo que ela ainda esteja lá fora, em algum lugar ao longo do rio.
— E você não se importa?
— Quanto mais velha fica, mais teimosa ela se torna. Eu estava começando a perder o controle sobre ela. Era só uma questão de tempo antes que ela me deixasse. A única questão em minha mente era se ela tentaria me matar primeiro, ou simplesmente desapareceria. Ao abandoná-la – com sua ajuda, é claro – eu simplesmente antecipei e controlei um resultado inevitável.
Sherlock balançou a cabeça.
— Mas... sua própria filha?
Arrhenius deu de ombros.
— Oh, eu não tenho sentimentos paternais pela menina. A mãe dela morreu no parto. Seu próprio desenvolvimento foi afetado pelas grandes quantidades de prata coloidal que tomei, e com que a alimentei enquanto ela crescia. Ela nunca foi normal como as outras crianças. Nunca teria crescido feliz, eu temo. — Ele deu um passo a frente, balançando a lâmina na direção das pernas de Sherlock. — Assim como você não crescerá, de maneira nenhuma!
Sherlock pulou para trás, contra o piso. A lâmina assobiou pelo ar, errando-o por centímetros. Ele tentou pôr-se de pé, erguendo seu corpo com os cotovelos, mas Arrhenius correu para ele mais uma vez, trazendo a lâmina para baixo na direção da cabeça de Sherlock. Ele rolou para o lado. A lâmina bateu no chão, fazendo faíscas e fragmentos de pedra explodirem. Sherlock os sentiu voar em seu rosto, tirando sangue, enquanto rolava.
Arrhenius pareceu momentaneamente em choque com as vibrações do impacto da lâmina contra a pedra. Seu rosto se contorceu de dor. Sherlock teve sua chance de se levantar e cambalear para longe.
Segurando a coisa como uma lança, Arrhenius se virou e pulou em Sherlock, a lâmina apontada diretamente para o coração do menino. Com apenas um momento para descobrir o que fazer, Sherlock decidiu que a sua melhor opção era mergulhar aos pés de Arrhenius, enrolando-se em uma bola enquanto fazia isso. Arrhenius tentou saltar sobre o menino, mas tropeçou e caiu sobre o corpo enrolado. Sherlock ficou de pé antes de Arrhenius pudesse reagir e engatinhou para longe.
Ele estava junto à parede agora, que possuía um buraco no meio com vista para o rio. No chão, perto de onde Arrhenius estava parado, Sherlock podia ver uma espada. Arrhenius deve tê-la tomado do segundo soldado inconsciente. Sherlock a pegou, segurando-a experimentalmente. A lâmina era de uma forma estranha em comparação com as espadas europeias a que estava acostumado, mas as coisas estavam desesperadoras e ele não tinha muita escolha.
Espada na mão, coração batendo, Sherlock avançou.
Arrhenius de repente girou o bastão e atacou várias vezes, tendo o peito de Sherlock como alvo. Assustado, Sherlock se defendia com a espada, arrancado pedaços da madeira, mas um dos golpes atingiu o seu esterno. Ele pensou que seu coração havia parado, de tão duro que foi o impacto. Sherlock cambaleou para trás, tentando desesperadamente recuperar o fôlego.
Arrhenius balançou o bastão abruptamente, baixando a lâmina na direção da testa de Sherlock. Sherlock podia ouvir o silvo do ar conforme a lâmina cortava até ele. Ele trouxe a espada para cima, segurando-a com as duas mãos para interceptar a lâmina. O impacto o deixou de joelhos.
Usando cada última gota de sua força, ele forçou a se levantar, empurrando a lâmina de Arrhenius para cima. Por um longo momento os dois ficaram ali, congelados como estátuas. Os músculos de Sherlock gritavam com o esforço.
Gradualmente Arrhenius empurrou sua espada cada vez mais perto do rosto de Sherlock. Sherlock podia ver a luz brilhando na borda afiada da lâmina. O rosto de Arrhenius se contorceu em um grunhido, os lábios enegrecidos puxados para trás sobre os dentes que brilhavam como metal. Suas íris eram tão escuras que eram quase pretas.
— Acho que você foi levado à loucura por toda a prata que bebeu — Sherlock resmungou. — Acho que ela está entupindo a sua mente, como uma espécie de lodo metálico. Você não pensa mais como um ser humano. Não se importa com as pessoas, assim como sua filha não se importava.
— Tenho novidades para você — Arrhenius sibilou. — Eu nunca tive. Emoção não paga as contas. Só a prata faz isso.
Ele recou abruptamente, puxando sua lança para trás e, em seguida, balançou-a para baixo, tencionando acertas as pernas de Sherlock. Sherlock se defendeu. O som estridente das lâminas se chocando ecoou por entre as paredes de pedra do forte.
Arrhenius deu dois passos para trás. Ele não parecia respirar pesadamente – na verdade, seus lábios cinzas enegrecidos estavam torcidos em algo próximo a um sorriso – mas os pulmões de Sherlock queimavam com o esforço de puxar o ar.
— Desista, filho — Arrhenius falou com calma. — Você pode lutar, e depois eu o mato, ou você pode largar a espada agora, e aí eu o mato. Você morrerá de qualquer forma, mas pode evitar sentir bastante dor e estresse durante esse meio tempo.
— Você matou meu amigo — Sherlock disse por entre os dentes cerrados. — E matou o pai de outro amigo.
— Eu não matei nenhum deles, não diretamente, embora possa confirmar que tramei suas mortes. — Ele fez uma pausa, considerando. — Acho que jamais matei alguém diretamente. — Ele sorriu. — Até agora, pelo menos. Esta será minha primeira vez. Devo dizer que estou ansioso por isso. Será interessante descobrir como realmente é... tirar outra vida. Obrigado por me dar essa oportunidade.
— De nada — disse Sherlock. — Mas não espere que seja fácil.
— O que vale a pena nunca é — Arrhenius fez um pequeno movimento com a sua lâmina. — Agora, vamos acabar com isso? Com o fracasso do plano de explodir o USS Monocacy, fiquei sem centenas de dólares em pagamentos. Precisarei começar a construir pontes diplomáticas com meus empregadores se quiser continuar a trabalhar.
Sherlock abriu a boca para dizer algo sem sentido e adiar o inevitável, mas Arrhenius virou abruptamente a sua arma, trazendo a lâmina para o rosto de Sherlock. Sherlock ergueu a espada, bloqueando o golpe, mas o impacto o derrubou de lado, fazendo-o girar. Seu ombro bateu na parede. A espada caiu de seus dedos entorpecidos, fazendo barulho no chão.
— Adeus, mestre Holmes — falou Arrhenius.
Ele chutou a espada para longe. Ela deslizou pela laje. Arrhenius ergueu seu bastão e apontou a lâmina feito uma lança. A ponta visava o coração de Sherlock. Sherlock sentiu a pedra fria e dura contra suas costas. Ela parecia sugar seu calor, até mesmo a vida, dele.
Sherlock deixou as mãos caírem para o lado. Era isso. O jogo tinha acabado.
Seus dedos roçaram algo no bolso de sua mão direita; era duro, com pontas, um objeto de metal. Ele enfiou a mão dentro do bolso e fechou os dedos sobre ele, sentindo as arestas.
Sentindo um súbito ímpeto de esperança.
— Adeus, Sr. Arrhenius — despediu-se ele.
Ele puxou o objeto para fora e ergueu-o para o seu rosto. Com um movimento do polegar, Sherlock operou o mecanismo de mola. As mandíbulas estalaram abertas. Seu polegar encontrou o bulbo de borracha dentro e espremeu-o com força.
Um spray de veneno de cobra foi lançado através dos poucos centímetros entre Sherlock e Arrhenius. Este último gritou, deixando cair seu projeto de lança e apertou o rosto com as mãos. Ele cambaleou para trás, ainda gritando.
— Pelo amor de Deus! — Arrhenius chorou. — A dor! A dor! Me mate! Me mate agora! Eu lhe imploro, mate-me agora!
— Não a sangue frio — disse Sherlock calmamente. — Eu não sou esse tipo de pessoa.
Arrhenius caiu de joelhos enquanto se contorcia, gritando e caiu para frente, de modo que ficou deitado com o rosto escondido sobre as lajes de pedra que formavam o piso do forte arruinado. Eventualmente Arrhenius parou de se mover. Só então Sherlock se virou e foi embora.

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