18 de agosto de 2017

Capítulo quinze

MACFARLANE FICOU UM BOM TEMPO encarando Crowe, como se não tivesse ouvido Sherlock, até que por fim girou a cabeça na direção do menino.
— Continue, rapazinho. Vamos ver se me impressiona.
— Se conseguirmos limpar o nome da sua irmã, mostrar que ela é inocente, você nos liberta. Não nos entrega a Bryce Scobell.
Sherlock ouviu um murmúrio de incredulidade correr pelo salão.
Crowe também se virara para encarar Sherlock. A expressão tranquila, quase serena, de Macfarlane contrastava com a dele, que franzia o cenho como se tentasse imaginar o que Sherlock pretendia com aquilo. Mas o menino precisava reconhecer que também não sabia.
— Deixe-me ver se entendi — disse Macfarlane, devagar. — Você quer... o quê? Investigar o assassinato? Procurar algo que a polícia tenha deixado passar? E acha mesmo que consegue reunir provas suficientes para convencer os policiais de que a pequena Aggie não tem culpa?
Sherlock deu de ombros.
— O que você tem a perder? Se não conseguirmos provar que ela é inocente, você nos entrega a Bryce Scobell e recebe a recompensa. Se conseguirmos, e ela for solta, você recupera sua irmã. De um jeito ou de outro, você sai ganhando.
Macfarlane sorriu como se achasse graça da confiança de Sherlock.
— Você é um pouco novo para ser policial, rapaz.
A mente de Sherlock voou de volta a alguns meses antes, quando seu irmão Mycroft fora acusado de assassinato. A polícia não havia demonstrado interesse em investigar o crime: eles estavam diante de um suspeito e tinham provas suficientes para condená-lo. Fora Sherlock quem encontrara o verdadeiro assassino.
— A polícia só vê o que quer ver — respondeu ele, amargurado. — Eles veem o que é mais fácil. Não me deixo distrair pelo óbvio. Consigo ver o que eles não veem.
Macfarlane o encarou sem falar nada. Sua expressão era uma combinação estranha de desprezo condescendente e fugaz esperança. Algo na voz de Sherlock o estava convencendo.
— Acredito que você consiga — disse ele, depois de um tempo —, mas preciso de algo mais, antes de permitir que você saia para investigar. Isso pode ser uma tentativa de fuga.
— Não quando você ainda está com meus amigos — comentou Sherlock.
O menino olhou em volta, desesperado para encontrar algo – qualquer coisa – que pudesse ser usado para convencer Macfarlane de que era capaz de fazer o que havia prometido.
— Você falou que alguns dos seus homens trabalham nas docas, certo? — perguntou.
Macfarlane assentiu.
— E se eu lhe disser quais deles trabalham nas docas e quais não? Isso o convenceria?
— Só de olhar para eles? Sem fazer nenhuma pergunta? — Macfarlane balançou a cabeça. — Não sei como você vai saber quais são.
— Separe vinte de seus homens — disse Sherlock. — Não me diga nem mesmo quantos desses trabalham nas docas. Eu vou descobrir.
— Vamos dificultar, então — respondeu Macfarlane. — Você também não pode olhar para as mãos deles, caso esteja contando em encontrar marcas de cordas ou algo do tipo.
Sherlock deu de ombros.
— Se isso o deixa mais feliz.
Macfarlane se afastou de Amyus Crowe como se nem se lembrasse de que o americano estava ali. Apontou para diversas pessoas na multidão.
— Você, você e você... para lá, na parede. Dougie, você também. E você, Fergus... Mãos para trás, todo mundo.
Enquanto Macfarlane escolhia os vinte homens, Rufus Stone fez um gesto para Sherlock.
— Tem certeza disso, Sherlock? Você consegue fazer isso?
— Acho que sim — respondeu o menino. — Não sei se temos escolha. Precisamos arranjar alguma moeda de barganha para convencê-lo a nos libertar. Se você tiver alguma ideia melhor...
Rufus deu de ombros.
— Não me ocorre nada.
— Certo — anunciou Macfarlane. — Vejamos seu truquezinho.
Havia vinte homens alinhados na parede, todos com as mãos nas costas. Eles variavam em idade, desde um garoto como Sherlock até alguns homens na casa dos sessenta anos. Todos estavam com sujeira incrustada no pescoço e atrás das orelhas e tinham tatuagens azuis grosseiras no antebraço. Alguns tinham cabelo até os ombros, outros tinham rabo de cavalo e outros, ainda, apenas uma sombra de cabelo na cabeça.
Sherlock foi até a ponta da fila. Em vez de se aproximar e olhar o rosto e as roupas de cada um – o que ele desconfiava que fosse a expectativa de Macfarlane – agachou-se e examinou os sapatos do primeiro homem o mais atentamente possível. Ouviu risadinhas abafadas vindo da multidão de brutamontes e ladrões, mas ignorou-as. Percorreu a fila engatinhando no chão, conferindo sapatos, botas e barras dobradas de calças.
Quando chegou ao fim, levantou-se. Os homens na parede estavam esticando o pescoço, olhando para ele com fascínio, alguns com desconfiança, enquanto o restante da multidão conversava e apontava para Sherlock.
— Certo — disse o menino. Ele caminhou ao longo da fila, apontando para cinco dos vinte homens. — Você, você, você, você e... sim, você. Um passo à frente. — Olhou para Macfarlane, que o observava fascinado. — Esses cincos trabalham nas docas com regularidade. Os outros quinze, não.
— Você tem razão. Tem toda razão. — Ele gesticulou para que os homens voltassem à plateia. — Como soube?
— Eles trabalham perto de água do mar — respondeu Sherlock —, e é isso o que os entrega. Devem se molhar com a água das docas com alguma frequência. Já percebi isso antes. A água do mar faz duas coisas. Quando encharca o couro dos sapatos e seca, deixa algumas marcas brancas, onde o sal ficou depositado no próprio couro. E também, quando gotas d’água caem nas barras dobradas das calças e depois secam, deixam cristais de sal. Esses cinco estão com marcas brancas no couro dos sapatos ou cristais de sal na barra das calças, ou ambos.
— Estou impressionado — reconheceu Macfarlane. — Você parece ser bem esperto, e não posso dizer o mesmo dos policiais que estão investigando o assassinato do qual minha irmã foi acusada. Tudo bem, então: vou aceitar sua oferta. Mas devo dizer que você não tem muito tempo. Agora são — ele conferiu o relógio — nove horas, mais ou menos. Tenho um encontro às duas horas desta tarde, com os homens que estão atrás dos seus amigos americanos. Você tem cinco horas, nem mais, nem menos.
Sherlock olhou para Amyus Crowe, e então para o rosto pálido de Virginia, depois para Matty. O amigo sorriu e fez sinal de positivo com o polegar.
— Se é o que tenho, então é desse tempo que eu vou precisar — respondeu ele, sério, torcendo para que conseguisse dar conta do combinado.
Macfarlane gesticulou para um de seus homens.
— Dunlow, você está por dentro da situação. Leve uma carruagem lá para a frente agora mesmo. Você e Brough vão com o garoto. Levem-no à delegacia primeiro. Se ele tentar fugir, vão atrás dele. Haja o que houver, tragam-no de volta para cá até as duas. Entendido?
Os homens assentiram.
— O mordomo da casa de Sir Benedict Ventham é um... cliente meu — disse Macfarlane a Sherlock. — Diga que você está trabalhando para mim, e ele o deixará dar uma olhada pela casa, embora eu nem imagine o que você vai encontrar a esta altura.
— Nem eu — murmurou Sherlock. Ele começou a sair com Brough, um dos homens de Macfarlane, mas então se virou e sorriu para Virginia. — Vou voltar para resgatar você.
— Eu sei que vai — respondeu ela.

Brough era um sujeito de trinta e poucos anos, magro e com uma careca sardenta. Seus lábios eram retorcidos, como se ele estivesse sempre sentindo algum cheiro desagradável. O homem acompanhou Sherlock pelos cômodos por onde o menino havia sido carregado antes. Enquanto eles passavam, o animal dentro do fosso, qualquer que fosse, farejava algo do outro lado da cerca, mas no cômodo seguinte os homens ainda lutavam, parados bem perto um do outro e trocando golpes lentos, movendo apenas os braços. Pareciam exaustos e tinham o rosto inchado e cheio de sangue. A rinha de cachorros havia terminado, e a multidão em volta do ringue se dispersava. Ainda havia dinheiro trocando de mãos.
Sherlock e Brough se dirigiram para a porta principal e emergiram para um dia de luz fraca e desbotada que atravessava pesadas nuvens de chuva. Sherlock se virou para ver o edifício de onde haviam saído. Considerando as lajotas do piso, as tapeçarias, as cabeças de animais empalhadas e as tochas acesas, o menino esperava no mínimo uma mansão antiga, talvez até mesmo um castelo, mas ficou chocado ao descobrir que era apenas um armazém de madeira enorme e indistinto, cercado de outros armazéns. A região parecia deserta. Provavelmente, ficava perto das docas onde aqueles homens trabalhavam. Visto de fora, o armazém parecia um edifício para guardar sacas de grãos, e não a base central de uma gangue criminosa. Mais disfarces, concluiu ele. Qualquer coisa podia ser adaptada para parecer outra, bastando que fosse investida a dose suficiente de esforço.
Dunlow já os esperava do lado de fora. Era mais velho que Brough, e também mais baixo e largo, mas dava a impressão de que tinha mais músculo que gordura. Os dois conduziram Sherlock a uma carruagem preta.
Meia hora depois, pararam diante de um edifício de pedras cinzentas e um telhado comprido de placas de ardósia preta. As janelas tinham grades. Na pedra acima da porta estava escrito Polícia de Edimburgo e Lothian.
— É aqui que a irmã do chefe está presa — disse Dunlow. O som de sua voz era como duas pedras raspando uma na outra. Ele parecia pouco à vontade em estar assim tão perto de uma delegacia. — Deixe-me entrar e ver se vão deixar você conversar com ela.
— Isso é possível? — perguntou Sherlock. — Quer dizer, não sou parente nem nada, e, mesmo se você disser que sou, eles vão perceber que não sou escocês assim que eu abrir a boca.
— Por estas bandas o pessoal costuma deixar que cidadãos paguem um trocado para observar criminosos nas celas — respondeu Dunlow, sombrio. — A classe média gosta de ver os pobres nas mãos da polícia... assim eles dormem mais tranquilos à noite. Vou passar um xelim para o sargento e dizer que você é filho de um lorde inglês em visita ao país. Ele vai deixar você ficar uns dez minutos sozinho com ela, sem perturbar. — Ele viu a expressão de choque de Sherlock e bufou. — O quê, você acha que a polícia é melhor que os bandidos? A única diferença é que eles têm uniforme e a gente, não.
Dunlow entrou na delegacia e voltou cinco minutos depois.
— O guarda na recepção vai levar você às celas — disse ele. — Saia em quinze minutos, ou eles vão querer mais um xelim.
Desconfiado, Sherlock entrou na delegacia. O lugar tinha um cheiro desagradável de mofo. De fato, um guarda uniformizado o esperava junto da porta. Suas suíças acabavam em um bigode farto.
— Por aqui — disse ele de forma ríspida, sem olhar para Sherlock. — Quinze minutos para olhar e falar com ela. Sem gracinhas, ouviu?
— Sem gracinhas — disse Sherlock, sem saber exatamente com o que acabara de concordar.
Eles desceram um lance de degraus de pedra curvos pelo desgaste de várias gerações de pés. A visão das celas trouxe a Sherlock a lembrança desagradável da ocasião em que visitara Mycroft em uma delegacia de Londres. Ele esperava que a visita de hoje tivesse um resultado tão positivo quanto aquela.
O guarda parou diante de uma porta e a destrancou com uma chave grande presa em um aro em seu cinto. Abriu e fez um gesto para que Sherlock entrasse.
— Quinze minutos — avisou ele. — Ela passa a maior parte do tempo chorando, então duvido que vá fazer alguma coisa idiota, como atacar você, mas com essa laia nunca se sabe. Se ela avançar, bata na porta. Estarei esperando aqui fora.
Sherlock entrou. A porta se fechou às suas costas, e o menino ouviu a chave virar na fechadura.
Estava sozinho com uma assassina em potencial.
A assassina em potencial estava deitada em um catre de metal que parecia preso à parede por dobradiças e correntes. A mulher olhou para ele. Tinha aproximadamente trinta e cinco anos, olhos azuis e cabelo que parecia palha. Sua cabeça tinha um formato que lembrava o do irmão, mas ela era menor e mais delicada. Seu rosto estava sujo e marcado por lágrimas, e as roupas, amarrotadas, como se a mulher tivesse dormido com elas – o que provavelmente era o caso.
— Não preciso de um padre — disse ela. Sua voz estava fraca mas firme. — Ainda não estou pronta para ficar em paz com Deus.
— Não sou padre — respondeu Sherlock. — Fui enviado por seu irmão.
— Gahan? — Ela se endireitou na cama. Seus olhos demonstravam pânico. — Ele não pode se envolver. Não pode. — A mulher olhou para a porta, com medo de que o guarda estivesse ouvindo do lado de fora. — Se a polícia achar que ele tem alguma coisa a ver com isso, vai persegui-lo por todos os cantos da Terra e não descansará até pegá-lo!
— Não se preocupe — falou Sherlock, para tranquilizá-la. — Ele não está envolvido. Eu pedi para vir vê-la. Quero descobrir o que aconteceu.
— O que aconteceu? — Ela virou o rosto, e seus olhos se encheram de lágrimas. — Sir Benedict está morto, e a polícia acha que eu o matei, senhor. Foi isso o que aconteceu.
— E você o matou?
A mulher olhou para ele de novo, consternada.
— Eu não poderia matar Sir Benedict! Eu trabalhava para ele havia vinte anos. Senhor, ele era como um pai para mim!
O menino assentiu.
— Tudo bem. Então por que a polícia acha que você é a assassina?
Ela apoiou a cabeça nas mãos.
— Porque sou a cozinheira dele. Quer dizer, era a cozinheira dele. Preparava todas as suas refeições. E ele foi envenenado, ou pelo menos é o que estão dizendo. Então, se ele foi envenenado, deve ter sido por mim. É óbvio, não é?
— Mas com certeza outras pessoas tocaram na comida dele, ou a levaram, ou tiveram algum acesso ao que ele comia, não?
Ela balançou a cabeça.
— Sir Benedict era muito... desconfiado. Ele acreditava que seus rivais queriam destruí-lo. Estava convencido de que, se pudessem, atacariam-no ou envenenariam sua comida. A casa estava cheia de guardas para evitar que alguém entrasse ou ateasse fogo em tudo, e ele só saía acompanhado de um dos guardas. Todas as portas e janelas eram trancadas e reforçadas, e a única pessoa em quem ele confiava para preparar e servir a comida era eu. — Ela deu um leve suspiro. — Às vezes aquilo parecia uma prisão, e mesmo assim eu era feliz. Eu trabalhava para Sir Benedict fazia muito tempo, e ele sabia que eu nunca faria nada para machucá-lo. Além disso, ele incluiu no testamento que eu herdaria quinhentas libras se ele morresse de causas naturais. O mesmo valia para o mordomo, as criadas, o jardineiro e todos os guardas. — Ela fungou. — Ele sabia que assim ninguém o machucaria ou entraria na casa usando de suborno. — Ela fungou mais uma vez. — Não que eu fosse fazer ou deixar de fazer qualquer coisa por causa de dinheiro.
— Então a senhora preparava a comida dele sozinha e a servia? Só a senhora?
— Isso mesmo — confirmou ela. — E era eu quem providenciava todos os alimentos também. Comprava todos os temperos e legumes e leite no mercado e pegava a carne no açougue. E também fazia todo o pão dele.
— Então, se a carne ou os legumes estivessem envenenados, outra pessoa na região também teria morrido, e isso não aconteceu.
— É exatamente isso, senhor, e é por isso que estou aqui agora, na fila da forca.
Sherlock conferiu o relógio. O tempo estava passando. Faltavam apenas algumas horas até que Bryce Scobell se encontrasse com Gahan Macfarlane.
— E você só obtinha os alimentos no mercado e nos açougues?
— Sim. — Ela fez uma pausa, hesitante. — Exceto um ou outro coelho. O jardineiro os capturava com armadilhas. Ele os trazia para mim, ainda quentes, e eu tirava as tripas e a pele. Sir Benedict adorava coelho ao molho de creme de mostarda... pedia esse prato várias vezes por semana. — Ela fungou, à beira das lágrimas de novo. — Disseram que foi isso o que o matou. Deram os restos do jantar para um cachorro, que morreu também.
— Interessante. A última refeição dele foi um coelho ao molho de creme de mostarda?
Ela assentiu.
— E você preparou tudo sozinha?
— Sim. Comprei o creme no mercado, assim como as sementes de mostarda. O próprio jardineiro pegou o coelho. Ainda estava quente, então dava para saber que o animal tinha acabado de morrer.
Sherlock vasculhou o cérebro em busca de mais alguma pergunta. Nada apareceu. Ele olhou a mulher sentada naquele banco duro de metal, o rosto coberto de lágrimas, uma expressão sofrida mas esperançosa. Ela dependia de Sherlock para provar sua inocência, assim como Amyus e Virginia Crowe, Matty Arnatt e Rufus Stone. O menino não podia decepcioná-los, mas não imaginava como Aggie Macfarlane poderia ser inocente. Se ela dissera a verdade, Sherlock não via forma alguma de a refeição ter sido envenenada. Contudo, se Aggie Macfarlane fosse culpada, ela teria contado uma história que indicasse a possibilidade de outra pessoa ter envenenado a comida, não? Provavelmente seria condenada à forca por conta de sua honestidade.
— Preciso ver a casa — disse ele, abatido —, para conferir a cena do... do crime. Se eu descobrir alguma coisa, aviso.
Sherlock deixou a cela sob o olhar da mulher, um olhar reavivado por uma nova esperança.
Ele disse a Dunlow e Brough que queria visitar a mansão de Sir Benedict Ventham. Os dois ergueram as sobrancelhas, mas partiram sem falar nada.
A viagem levou outros vinte minutos. Sherlock olhou para o relógio pelo menos umas cinco vezes, contando todos os minutos e segundos.
A carruagem saiu da rua para uma pista que fazia uma curva e levava a uma casa grande e pouco receptiva. Em vez de parar na frente, porém, o veículo passou direto e seguiu por um acesso nos fundos.
— Entrada de serviço — explicou Dunlow.
Eles desceram e foram até uma porta nos fundos da casa, Dunlow na frente de Sherlock e Brough atrás. Quando os três chegaram à porta, ela se abriu. Um homem alto e magro, com um bigode fino, encarava-os. Usava calças listradas e paletó preto. Sua face esquerda parecia ligeiramente inchada, e Sherlock se perguntou se o sujeito estava comendo algo antes de eles aparecerem.
— O que em nome de Deus vocês dois estão fazendo aqui? — chiou ele. — Já dei o dinheiro desta semana para o patrão de vocês. Saiam daqui!
— Macfarlane quer que este garoto aqui veja o lugar onde Sir Benedict morreu.
— Isso aqui não é atração turística — disse o homem. — Não oferecemos visita guiada.
— A polícia está na casa?
O mordomo balançou a cabeça em negativa.
— Disseram que já têm tudo de que precisam.
— Então não há motivo algum para você não nos mostrar a sala onde seu chefe morreu e a cozinha onde a refeição foi preparada. Ou quer explicar para meu chefe que você não está disposto a fazer isso?
O mordomo hesitou e encarou Sherlock.
— Apenas o menino, então, e só por alguns minutos. Não mais que isso.
Dunlow olhou para Sherlock.
— Isso deve bastar — disse o menino.
O mordomo o conduziu pela casa, passando da área da criadagem, onde as paredes precisavam de uma nova pintura e o tapete estava desgastado, para a parte principal da residência, onde a tinta estava imaculada e os tapetes eram tão espessos e macios que Sherlock sentia estar andando nas nuvens. O mordomo o levou ao salão principal. Havia um carrilhão junto a uma parede. O tique-taque era alto, contando cada segundo. O mordomo virou para um lado e entrou em uma sala de jantar. Sherlock percebeu que ele mastigava algo.
— Foi aqui que Sir Benedict morreu — disse o mordomo. Ele fez um gesto com a cabeça na direção da ponta da mesa. — Estava sentado ali.
Quando o mordomo falou, Sherlock sentiu um cheiro de tabaco encher o ar. Isso explicava a bochecha inchada – ele estava mascando tabaco.
— Quem trazia a comida? — perguntou Sherlock.
Ele já tinha ouvido a resposta da cozinheira, mas queria conferir se ela havia falado a verdade.
— Aggie Macfarlane. — O mordomo torceu os lábios. — Era muito próxima de Sir Benedict. Próxima demais para meu gosto. Ela veio trazendo o prato como se estivesse tudo normal, mas sabia que a comida estava envenenada.
— O senhor tem certeza de que foi ela quem pôs o veneno?
O mordomo fez uma careta.
— Quem mais poderia ter feito isso?
Era uma pergunta razoável, e Sherlock estava pensando o mesmo.
— E o prato? — perguntou ele. — O veneno não poderia ter sido colocado direto no prato?
O mordomo pensou antes de falar, e Sherlock percebeu que ele passava o tabaco de um lado para o outro dentro da boca.
— A cozinheira recebera instruções explícitas de sempre lavar o prato logo antes de servir a refeição — respondeu ele após um tempo. — Todo mundo sabia disso. Não faria sentido colocar veneno no prato. — Ele hesitou, pensando. — E ouvi dizer que a polícia deu a mesma comida para um cachorro, e não a tiraram desse prato, mas da travessa que ela havia usado no forno. O cachorro morreu. Com certeza isso significa que o veneno estava na comida, não no prato.
— Sim — disse Sherlock, devagar —, mas significa também que a comida estava envenenada antes de ir para o forno. Por que envenenar a comida e depois assá-la? O veneno poderia ser destruído pelo calor. Faz mais sentido colocar o veneno depois de servi-la no prato.
Sherlock sentiu uma pequena agitação de entusiasmo no peito. Esse era o primeiro indício concreto de que Aggie Macfarlane talvez fosse inocente. Não bastaria para limpar o nome dela, mas sugeria que Sherlock estava no caminho certo.
O relógio no saguão fez um barulho de repente, quando o mecanismo interno se mexeu. Sherlock olhou para os ponteiros: ele tinha que estar no caminho certo.
— Tenho que ir à cozinha — disse ele.
— Venha comigo.
Enquanto voltavam à área da criadagem, Sherlock conferiu o relógio. Dez e meia da manhã. Faltavam duas horas e meia – e meia hora disso seria perdida no retorno ao armazém de Macfarlane. O tempo estava acabando.
A cozinha era praticamente idêntica à da mansão Holmes: uma mesa grande no centro, manchada pelos anos de uso, um fogão enorme com várias portas de forno, um aparador cheio de pratos e louças, um suporte preso no teto do qual pendiam corpos de faisões e coelhos, uma grande pia quadrada... todos os itens tradicionais às artes culinárias. Não havia pratos sujos nem frigideiras com restos de comida – ou Aggie arrumara a cozinha enquanto preparava o jantar, ou não fora presa imediatamente.
Sherlock não ia descobrir nada ali.
— O coelho que estava envenenado — disse ele. — Preciso ver onde ele foi capturado.
— Esse — respondeu o mordomo, fungando — não é o meu departamento. Meu domínio é o interior da casa, não o exterior. Chamarei o jardineiro. — Ele foi até uma porta que dava para a área externa e a abriu. Cuspiu o tabaco, lançando um jato marrom no chão perto da porta, e gritou: — Hendricks! Venha cá! — Então voltou-se para Sherlock. — Hendricks responderá a quaisquer outras perguntas que você tiver. Agora, se me dá licença, preciso procurar um novo emprego.
Ele se afastou, deixando Sherlock sozinho. O menino ficou ali parado na porta da cozinha, olhando para o jardim bem-cuidado e sentindo o cheiro desagradável do tabaco emanando de onde o mordomo havia cuspido. Ficou ligeiramente enjoado com o cheiro. Não entendia qual era a graça do tabaco – fosse para fumar ou para mascar. Eram hábitos asquerosos. Sherlock não tinha a menor intenção de adotar nenhum dos dois quando crescesse.
Uma figura surgiu no final do caminho, passando por uma brecha na cerca viva. Tinha quarenta e poucos anos, cabelo e barba ligeiramente grisalhos, e usava um casaco verde-escuro e calças grossas de algodão.
— Alguém me chamou?
A voz do homem tinha um som escocês marcado, completamente diferente do sotaque estrangulado do mordomo.
— Sr. Hendricks?
— Só Hendricks está bom. — Ele olhou para as roupas de Sherlock. — Senhor — acrescentou. — Como posso ajudar?
Sherlock pensou se deveria tentar explicar quem era e o que estava fazendo, mas logo decidiu dizer ao homem apenas o que queria.
— O coelho que você pegou, o último que Aggie Macfarlane preparou para Sir Benedict. Preciso ver onde ele foi capturado.
Hendricks o encarou por um momento.
— Tudo bem — disse ele, depois de um tempo. — Melhor vir comigo, então.
Sherlock conferiu o relógio. Aquilo estava demorando demais! Seu tempo estava cada vez mais curto, e a vida de seus amigos estava em jogo!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)