8 de agosto de 2017

Capítulo quinze

EM POUCOS SEGUNDOS, O CAFÉ foi dominado por uma fumaça preta e suja. Wormersley praguejou e tentou agarrar Sherlock pelo ombro, mas o menino escapou. Sua cadeira caiu para trás e ele caiu no chão. Afastou-se rapidamente, engatinhando à procura de abrigo sob uma mesa desocupada.
Os outros clientes do café – os membros da companhia teatral com que ele havia viajado, com quem fazia suas refeições e em quem confiara – levantaram-se depressa, assustados com o fogo repentino. Mesas e cadeiras caíram no chão.
— Peguem-no! — gritou a Sra. Loran. — Peguem o garoto!
As chamas lambiam a fachada de madeira do café. Vidros explodiam com o calor. A mesa da frente, mais próxima da porta, pegou fogo.
Alguém agarrou o braço de Sherlock e o puxou para longe, em direção aos fundos do café. Ele tentou resistir, mas uma voz com sotaque irlandês falou:
— Se for confiar em apenas uma pessoa em algum momento de sua vida, rapaz, confie em mim agora.
Rufus Stone!
Sherlock se deixou arrastar para trás do balcão perto da parede dos fundos. Um dos capangas de Wormersley – Sherlock acreditava que fosse o Sr. Malvin, mas não podia ter certeza – os viu e tentou alcançá-los, mas Stone o empurrou, derrubando o homem no chão.
Havia uma portinhola escondida atrás do balcão. Stone empurrou Sherlock e fechou a porta depois de passar.
Estavam em um depósito. Pesadas sacas de farinha e engradados de chá formavam pilhas encostadas às paredes. Stone começou a empurrar as pilhas contra a porta. Sherlock o ajudou, com os olhos ardendo por causa da fumaça.
— Como eles vão sair? — gritou o menino.
— Não é problema meu — respondeu Stone. Ele olhou para Sherlock e, vendo a expressão em seu rosto, acrescentou: — Eles podem usar as mesas mais distantes como escudo e abrir caminho até a escada. Se forem rápidos, vão conseguir chegar à rua. As pessoas devem estar tentando apagar o incêndio pelo lado de fora. Não se preocupe, não estamos condenando ninguém à fogueira, por mais que a ideia me agrade!
— Como provocou o fogo?
— Simples. Havia um carrinho de um vendedor de chá do outro lado da rua. Ele usava álcool para aquecer o samovar.
— Aquecer o quê?
— O cântaro de chá... Chama-se samovar. Ele tinha uma garrafa de álcool que peguei emprestada, então espalhei o líquido enquanto estavam concentrados em você e joguei um pedaço de papel em chamas depois. Funcionou bem, modéstia à parte.
Stone levou Sherlock aos fundos do depósito, onde uns degraus de pedra subiam para um pequeno quintal.
— Como me encontrou? — perguntou Sherlock.
— Eu estava a caminho do hotel para conversar com o Sr. Holmes. Vi quando ele foi preso e quando você foi abordado por um desconhecido alto e sombrio. Fiquei intrigado, por isso segui vocês dois até aqui. Estranho o quanto se pode descobrir simplesmente ficando parado ao lado de uma janela aberta.
— Você ouviu tudo?
O rosto de Stone era duro.
— Sim.
O quintal terminava em uma viela estreita que seguia por entre dois edifícios. Stone virou à direita e andou depressa. Sherlock estava quase correndo para conseguir acompanhá-lo.
— Então, o que vamos fazer? — perguntou ele, ofegante.
— Vamos à Embaixada britânica e pediremos ajuda ao embaixador. É isso que vamos fazer.
— Não!
Sherlock parou na mesma hora.
— Vamos. Corremos perigo a cada momento que permanecemos nas ruas — insistiu Stone.
O garoto continuou onde estava: teimoso, rebelde e dolorosamente exausto.
— Temos de ajudar meu irmão — disse ele com a expressão fechada.
— Garoto, não há nada que possamos fazer por ele agora. O melhor é deixarmos o corpo diplomático resolver a situação. É para isso que ele existem: crises diplomáticas urgentes. E para coquetéis, é claro. Se tivermos sorte, os diplomatas podem chegar ao conde antes que Wormersley ou a Sra. Loran o encontrem. — Stone olhou para trás, na direção do café. — Tudo depende de eles conseguirem sair de lá. Talvez já tenhamos acabado com seus planos. — Ele sorriu. — Ou com eles.
— Os planos talvez não dependam deles — argumentou Sherlock. — O Sr. Kyte não estava no café, não poderia ter se disfarçado. Talvez seja ele o mandante da tentativa de assassinato.
Stone olhou para Sherlock por um momento.
— Reconheço essa expressão. Você tem nos olhos o mesmo brilho que vi quando estava tentando dominar escalas e arpejos no SS Scotia. É um garoto teimoso, não é?
Sherlock deu de ombros, momentaneamente constrangido.
— É de família — resmungou.
Stone deu um suspiro profundo.
— Tudo bem — concordou Rufus —, vamos até o prédio onde fica o escritório de Chuvalov. Talvez possamos alertar a segurança, os guardas, ou alguma coisa assim.
— Você sabe onde fica o escritório?
— Praça Lubianka. — Stone sorriu. — O endereço é conhecido em Moscou, embora poucos tenham ido até lá e voltado para contar a história. — Ele deu uma olhada no relógio. — Não temos muito tempo. Se a programação de Wormersley estava correta, Mycroft será levado à presença de Chuvalov em cerca de vinte minutos.
Sherlock olhou em volta.
— Não estou vendo nenhuma carruagem de aluguel!
— Não temos tempo — decidiu Stone. — Vamos chegar lá mais depressa a pé, cortando caminho pelas vielas.
Ele foi na frente, correndo por becos e ruas como se houvesse passado a vida toda em Moscou. Sherlock seguia atrás dele. Prédios passavam depressa: cores diferentes, mas a arquitetura quadrada permanecia semelhante. Pessoas saíam do caminho quando se aproximavam correndo, evitando fazer contato visual. Bandos de pardais levantavam voo quando a dupla passava. O ar estava gelado, e, mesmo com o suor morno escorrendo pelas costas e pelo peito por conta do esforço físico, Sherlock também sentia o rosto formigar quando os cristais de neve levados pelo vento aderiam à pele.
Imaginava as bochechas cobertas por milhares de pequeninos cortes causados pelos cristais. Pensar nisso o fez lembrar do rosto do Sr. Kyte, nos pequenos cortes em torno de seus olhos, nas bochechas e no nariz. O que os provocara? Imaginou que nunca mais descobriria.
Seu coração batia no mesmo ritmo dos passos. Havia participado de provas de corrida na escola, mas elas eram curtas e intensas – só um tiro até a linha de chegada. Agora corria uma maratona, uma prova interminável, quase insuportável.
O impacto dos passos vibrava pelas pernas, reverberando em cada osso do corpo. Havia neve no chão em todos os lugares. Em um certo momento, ao atravessar uma rua e desviar das várias carruagens e carroças, Sherlock escorregou. Por um instante terrível, pensou que iria cair. Seus braços giraram no ar enquanto o corpo se inclinava para frente, tentando manter o equilíbrio. O momento pareceu durar para sempre, mas, por fim, Sherlock esbarrou em uma russa que passava envolta em muitas camadas de roupas e conseguiu recuperar a estabilidade.
— Desculpe! — gritou Sherlock por cima do ombro.
Tentou obrigar as pernas a se moverem mais depressa. Stone já estava bem longe.
O movimento dos pássaros que fugiam quando ele se aproximava se tornou um leve tremor na periferia de seu campo de visão. O mundo parecia fechar-se enquanto Sherlock perseguia a silhueta veloz de Rufus Stone.
Stone reduziu a velocidade depois de um tempo. Percorreu mais uma alameda inteira antes de parar. Sherlock o alcançou, seus pulmões pareciam queimar. Ele inspirou enormes porções de ar e se dobrou para a frente, apoiando as mãos nos joelhos. Era como respirar fogo. Stone se apoiou a uma parede enquanto tossia.
Depois de mais ou menos um minuto, eles se recuperaram o suficiente para falar.
— Estamos na praça Lubianka — arquejou Stone. Ele inclinou a cabeça, indicando o prédio do outro lado da rua. — Aquela é a Base de Operações da Seção Três.
Sherlock olhou para o edifício. Mais parecia uma fortaleza: pequeno, com janelas estreitas fechadas à grade, paredes vermelhas e lisas impossíveis de escalar, torres que eram como minaretes nos cantos do prédio, de onde os guardas tinham uma boa visão das ruas laterais e provavelmente podiam atirar em qualquer eventual invasor.
Do outro lado da rua, havia várias carroças e carruagens paradas perto da calçada. Os condutores descansavam. Deviam estar ali para servir de imediato a qualquer russo importante que saísse do edifício, presumiu Sherlock.
— Qual é o escritório do conde Chuvalov? — perguntou Sherlock com voz rouca.
Os olhos de Stone estudaram as diversas janelas.
— Não vou apontar — disse ele. — Não quero atrair mais atenção do que já merecemos com nossa breve demonstração atlética. Olhe para a torre à esquerda, depois acompanhe a linha do telhado até aquela janela aberta, a que é maior que a outras e fica meio destacada do prédio. O escritório dele é ali. — Ele parou para tossir novamente. — Perceba as grades extras e o fato de não haver acesso a ela a partir dos andares inferiores, pelas laterais ou por cima. Não há parapeitos. O vidro é escuro para que ninguém do lado de fora consiga mirar lá dentro, e se olhar em volta vai perceber que é o prédio mais alto dos arredores. Não existe posição favorável para um atirador. E lá dentro é igualmente difícil: dizem que um visitante precisa passar por seis postos de verificação antes de chegar aos guardas posicionados do lado de fora do gabinete, que são escolhidos a dedo pelo próprio Chuvalov. Não entendo como Wormersley pode achar que vai assassinar esse homem.
Sherlock ergueu os olhos para a janela do escritório e depois olhou para o relógio. Eram quase três horas! Se a Câmara Paradol estava correta – e Sherlock suspeitava de que eles sempre estavam corretos –, Mycroft agora estava a caminho daquele escritório!
Ele olhou em volta, em busca de alguma coisa que pudesse indicar o que aconteceria em seguida.
E notou um detalhe.
— Não há pássaros — comentou Sherlock.
— O quê?
— Não há pássaros. Esta cidade é cheia de pardais e outras aves, mas onde estão agora? Não vejo nenhum.
Stone olhou em volta.
— Tem razão, mas não entendo o que quer dizer com isso.
— O que afugenta pássaros?
O violinista deu de ombros.
— Gatos?
— Gatos, sim, e outras aves. Aves de rapina.
Stone franziu o cenho, depois arregalou os olhos, compreendendo.
— Aquele falcão de que Mycroft falou, o do museu em Londres! Acha que é esse o plano de Wormersley?
— Olhe para a janela do escritório — instou Sherlock. — Ninguém poderia chegar lá, nem por fora, nem por dentro, pelo que você contou. Mas uma ave pode voar até lá!
— E fazer o quê? Um pássaro não pode esfaquear Chuvalov nem atirar nele, e se o atacar com as garras, não parecerá que Mycroft foi responsável pelo ataque.
Os pensamentos de Sherlock se sucediam rapidamente.
— Quando o falcão me atacou no museu, tinha alguma coisa presa às garras, uma espécie de lâmina afiada. Imagine que Mycroft foi levado ao escritório de Chuvalov, passando por todos os postos de verificação. O conde e Mycroft estão sozinhos no gabinete. O falcão treinado de Wormersley entra pela janela aberta e ataca Chuvalov. Ele corta o pescoço do conde com a lâmina presa em suas garras e sai pela janela. Chuvalov grita, talvez, ou Mycroft pede socorro. Os guardas entram na sala e encontram o conde à beira da morte, perdendo muito sangue pelo corte feito em seu pescoço, e Mycroft está lá, na sala onde ninguém mais entrou e de onde ninguém saiu!
— Mas Mycroft não terá uma faca — apontou Stone.
— Não importa. Todas as evidências estarão contra ele. Os guardas vão presumir que ele simplesmente jogou a faca, a navalha ou qualquer que seja a arma pela janela!
— Não sei... E se a janela estivesse fechada?
— Nesse caso, eles provavelmente usariam uma pedra e um estilingue para quebrar o vidro. Na comoção que se seguirá, todos vão imaginar que Mycroft quebrou a vidraça ao tentar fugir. É a Câmara Paradol. Eles pensam em tudo! Faz sentido! Nunca entendi por que fui atacado por um falcão. Quem leva um falcão vivo a um museu de aves empalhadas? Eles devem ter treinado o pássaro lá e usado o museu como quartel-general.
Uma lembrança voltou à sua mente, e ele enfiou a mão no bolso do paletó. Lá, ao lado do frasco de vidro que pegara no Diogenes Club, aquele vindo do bolso do paletó do homem morto, havia o corpo do rato morto que encontrara no trem entre Dunquerque e Moscou. Esquecera completamente aquilo. Ele cabia perfeitamente na palma da mão.
— E isto aqui deve ter escapado do estoque de comida da ave — disse, com urgência. — Encontrei o rato no trem. O Sr. Kyte devia estar cuidando da ave, por isso passou tanto tempo em seu compartimento durante a viagem. Ele a mantinha calma e alimentada, cuidando para que não escapasse.
— Vamos imaginar que você esteja certo — disse Stone, olhando em volta. — De onde ela virá?
— De algum lugar próximo. Um prédio, talvez, se eles tiverem acesso ao telhado ou a um cômodo vazio. — Sherlock estudou o cenário rapidamente. — Ou então algum lugar na rua.
Seus olhos foram atraídos por uma carruagem preta parada do outro lado da rua. Era parecida com as outras que passavam por ali, mas alguma coisa nela chamou a atenção de Sherlock. Talvez fosse o tamanho do motorista, ou a tentativa fracassada de esconder os abundantes cabelos vermelhos sob um lenço.
— Ali — apontou ele, aflito. — Naquela carruagem.
Stone olhou na direção do veículo.
— Aquele é o Sr. Kyte.
— Foi o que pensei.
— Wormersley deve estar lá dentro. Com o falcão, se você estiver certo. — Seus olhos voltaram ao prédio onde ficava a sede da Terceira Seção. — Temos de ir à recepção. Eles precisam mandar um alerta à sala do conde.
— Não temos tempo! — disse Sherlock.
Na carruagem, a janela voltada para o prédio se abria.
Alguma coisa surgiu do quadrado escuro que era o interior da carruagem. Um braço – um braço sustentando uma ave de penas marrons. Talvez fosse o pássaro que o atacara no museu em Londres, talvez fosse outro, mas parecia igualmente letal.
Um assobio baixo cortou o ar: três notas; o mesmo tipo de assobio que Sherlock ouvira no museu.
— Lá bemol, mi, sol menor — murmurou Stone.
O falcão alçou voo, subindo com um impulso das pernas e batidas fortes das asas, uma, duas, três vezes, erguendo-se até o céu. Planou por um momento, orientando-se, depois bateu as asas mais uma vez, ganhando mais e mais altitude. O sol era refletido pelas duas cruéis lâminas de metal presas às pernas da ave, acima das garras.
O homem na carruagem – Wormersley? – assobiou de novo, emitindo notas diferentes, e o falcão ajustou o curso, fazendo uma curva suave para a esquerda e planando. Os assobios o guiavam para a janela correta! Wormersley provavelmente o treinara com uma réplica do edifício, ou alguma coisa pintada da mesma maneira, mas ele não se arriscava. Dirigia a ave para o local exato.
— É tarde demais — disse Stone.
— Não — advertiu Sherlock, e havia tanta certeza em sua voz que até ele se surpreendeu. — Não!
O garoto cerrou o punho que segurava o rato morto e recuou. Equilibrando-se com o braço esquerdo estendido para frente, Sherlock arremessou o rato como um jogador de críquete arremessaria uma bola.
O pequeno cadáver descreveu um arco no ar na direção da janela aberta. Sherlock assobiou, tentando reproduzir o som dos comandos de Wormersley. O falcão virou a cabeça para ver quem emitia o sinal. O rato morto, que começava sua longa queda para o chão, atraiu seu olhar. A ave descreveu uma curva no ar e mergulhou. O rato caía com a força da gravidade, mas o falcão impulsionou o corpo com duas poderosas batidas das asas e, depois de um instante, as fechou. Cortou o ar em alta velocidade, e sua rota convergiu com a do rato.
O bico se abriu e fechou, e o rato desapareceu, engolido por inteiro.
Novos assobios soavam enquanto Wormersley tentava recuperar o controle sobre a ave, mas a fome vencera o treinamento. Os falcões tinham de ser mantidos com fome, Sherlock sabia, ou perdiam o interesse pelo que os donos queriam que eles fizessem. O pássaro descreveu uma curva ampla voltando para a carruagem. Para a coisa mais próxima de um ninho que o falcão tinha naquele momento: a caixa que Wormersley havia recebido no café.
No quadrado escuro dentro da carruagem, Sherlock viu o rosto de Wormersley flutuando como uma aparição fantasmagórica, uma máscara distorcida de frustração.
Sherlock pensou nos sinais que ouvira no museu: os sinais que mandaram o falcão atacar. Ele forçou o cérebro a lembrar as notas. Sabia tocar violino, mais ou menos. Sabia ler partituras. Certamente seria capaz de identificar uma nota musical se fosse preciso.
O menino assobiou alto, repetindo a sequência de que se lembrava.
Descendo em direção à carruagem, o falcão ouviu o sinal. Em vez de se preparar para pousar no braço estendido de quem o comandava, abriu as garras e as transformou em dois poderosos instrumentos de destruição.
O falcão mergulhou pela janela da carruagem direto no rosto de Wormersley.
Um grito explodiu do interior do veículo, que balançou freneticamente nas rodas enquanto Wormersley lutava contra a ave lá dentro. Sentado no banco do condutor, Kyte virou-se para ver o que estava acontecendo. Assustado, o cavalo que puxava a carruagem empinou, levantando as patas dianteiras.
— Vamos! — gritou Sherlock para Stone. — Você cuida de Kyte... Eu pego Wormersley.
— Mas...
— Vamos!
Não iria deixar a Câmara Paradol escapar, não se pudesse detê-la. Aquelas pessoas tinham muitas mortes nas mãos, muitas explicações a dar. Tiraria Wormersley daquela carruagem e o levaria à presença do conde Chuvalov, obrigando-o a explicar exatamente seus planos.
Ao ver que Stone passara por ele, correndo na direção do preocupado Kyte, Sherlock se jogou na porta mais próxima da carruagem. Quando estendeu a mão para a maçaneta, a porta se abriu com um tranco violento, jogando-o para trás, para o chão. Wormersley saltou do veículo, tirando o falcão de sua cabeça e lançando-o em Sherlock. Seu rosto e a camisa estavam sujos de sangue, e havia marcas de bicadas na testa e cortes no pescoço.
Com uma manobra confusa, o falcão decolou. O treinamento tinha limites: agora, tudo o que o animal queria era liberdade.
Wormersley esfregou a manga do paletó no rosto, espalhando o sangue e criando uma máscara carmesim em torno dos olhos que brilhavam de fúria.
— Seu garoto intrometido! — gritou ele. — Anos de planejamento, e eu teria conseguido se você não arruinasse tudo em instantes!
— Desista — disse Sherlock. Estava preparado caso Wormersley tentasse atacá-lo. — Você não tem como escapar.
— Sempre há como escapar.
Ele se virou e pegou alguma coisa na carruagem. Um aro, aparentemente. Um brinquedo de criança. Mas em seguida Wormersley balançou a mão e o círculo se desfez, transformando-se em uma linha que se desenrolou até o chão.
Era um chicote, mas não como os que Sherlock vira antes. Não como aquele que o Sr. Surd, criado do barão Maupertuis, usara contra ele meses atrás. Não, este parecia ser feito de metal trançado, e na extremidade havia uma garra metálica afiada.
— Lembra-se de quando mencionei o knout russo? — perguntou Wormersley. — Bem, você está prestes a conhecê-lo bem melhor.
Ele estalou o chicote. A ponta zuniu, cortando o ar. Sherlock encolheu-se para o lado e o gancho de metal passou bem perto de sua orelha.
Ele enroscou em seu paletó quando Wormersley o puxou de volta.
O corpo de Sherlock foi puxado para frente, e ele perdeu o equilíbrio, caindo de quatro no chão coberto de neve.
Wormersley colocou-se atrás de Sherlock e prendeu o knout em torno de seu pescoço. Puxou com força, interrompendo a passagem de ar.
O mundo ficou vermelho diante de seus olhos. Sherlock tentou desesperadamente inspirar, mas nada passava pelos elos de ferro do knout em contato com sua pele. Atacou o chicote com os dedos, tentando colocá-los sob o metal, mas Wormersley o puxava com tanta força que não havia espaço para isso.
A bruma vermelha que preenchia seu campo de visão começou a ficar negra. O mundo tornou-se uma confusão abafada de luzes e sons.
Sherlock chutou para trás com o pé direito, mas Wormersley havia afastado as pernas, inclinando-se para a frente no movimento de enforcá-lo. Enfiou os nós dos dedos com força contra a nuca do garoto.
— Morra! — sibilou ele, aproximando a cabeça da orelha esquerda de Sherlock. — Apenas morra!
Tentando encontrar algum apoio no chão, qualquer coisa que servisse de alavanca para conseguir se levantar, Sherlock tocou na parte externa do bolso de seu paletó. Sentiu um objeto duro e cilíndrico lá dentro – o spray que havia encontrado na sala do Diogenes Club. O que fora utilizado para drogar Mycroft.
Com a visão escurecida e ouvindo apenas o eco de sua pulsação, Sherlock usou o restante das forças para pegar o frasco. Seus dedos se atrapalharam ao tentar levantar a tampa com o polegar.
Nem sabia para onde estava apontando, mas segurou o frasco acima da cabeça e apertou a válvula desesperado.
Atrás dele, Wormersley engasgou. Suas mãos perderam a força. Sherlock caiu para a frente, puxando o ar até os pulmões pela boca e pelo nariz. Ele se virou de costas, levantando os braços para se defender de Wormersley caso fosse atacado novamente, mas pela névoa avermelhada Sherlock viu seu atacante paralisado, olhando para o nada, com uma expressão atordoada no rosto.
Sherlock fechou os olhos e relaxou a cabeça nas pedras do calçamento.
Mãos o agarraram e levaram dali. Por um momento, ele pensou que fosse o Sr. Kyte, mas outra pessoa soltou o metal e a tira de couro do knout de seu pescoço. Virando a cabeça, Sherlock viu-se cercado por soldados vestindo uniforme azul e cinza. Um deles o segurava enquanto outro retirava o knout. Um terceiro soldado estava com Wormersley, cujo rosto coberto de sangue estava inchado e quase irreconhecível. Mais um soldado tirava Rufus Stone da carruagem. Ele perdia sangue por um corte no braço, um corte que havia penetrado o tecido do paletó e a carne.
Não havia sinal do Sr. Kyte.
Os minutos seguintes foram confusos. Sherlock e Rufus Stone foram levados ao prédio na praça Lubianka e meio empurrados, meio arrastados por corredores escuros e lances de escada acima.
Sherlock não sabia mais em que parte do prédio estavam. Por fim, foram levados para além de uma barreira de guardas uniformizados até uma série de escritórios interligados.
No último cômodo, dois homens os esperavam de pé.
Um deles vestia um uniforme militar em uma versão muito mais ornamentada que a dos soldados com um manto por cima. Devia ter uns quarenta anos, tinha cabelos grisalhos curtos e um bigode que se encurvava nas pontas. O outro tinha pouco mais de vinte anos e vestia terno preto e colete listrado.
— Ah, Sherlock — cumprimentou Mycroft em um tom calmo. — Esta é Sua Excelência, conde Piotr Andreievitch Chuvalov. Conde Chuvalov, permita-me apresentar meu irmão, Sherlock.
Chuvalov encarou Sherlock. Depois olhou para Mycroft.
— Sim — disse ele, com um inglês excelente. — Presumo que ele tenha puxado à família de seu pai.

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