30 de agosto de 2017

Capítulo quatro

OS PICOS DE DOR SUBIAM pelo pescoço de Sherlock e desciam por seu peito. Seu coração batia forte, mas sua visão embaçada foi se estreitando em um túnel de arestas escuras.
Ele ergueu as mãos para os antebraços do pirata e, com toda a sua força restante, atacou-os. O aperto em seu pescoço afrouxou. Ele sugou grandes goles de ar até as mãos serpentearem de volta e começarem a apertar novamente.
A visão de Sherlock ficou restrita a um ponto do tamanho de uma moeda segura por um braço esticado. Sua pele e seus músculos formigavam como se alguém os cutucasse com agulhas e alfinetes em cada centímetro quadrado disponível. Ele mal podia levantar as mãos, as sentia pesadas.
Desesperadamente, às cegas, Sherlock estendeu as mãos para o rosto do pirata. Ele circundou a cabeça do homem com os dedos, e colocou os polegares onde achava que estavam os olhos. Quando sentiu as pálpebras de seu oponente, bem fechados sob a ponta de seus dedos, ele apertou tão forte quanto conseguiu.
O pirata gritou. Suas mãos desapareceram do pescoço de Sherlock. Ele se afastou, deixando o garoto cair para trás.
Sherlock estava vagamente ciente de uma fuga, uma tentativa desajeitada, como se o pirata tentasse ficar de pé para correr pra fora da cabine mas tivesse que correr pela parede da cabine e depois pela moldura da porta. Sherlock rolou e ficou apoiado nas mãos e joelhos e, em seguida, se forçou a ficar de pé. Sua visão estava voltando agora. A cabine estava deserta. Ele colocou a mão trêmula sobre a mesa e apoiou-se ali por alguns momentos até que sentiu que suas pernas podiam aguentar seu peso sem ceder.
Os papéis estavam caídos debaixo da mesa. O pirata não os pegou quando saiu da cabine.
Quando se sentiu forte o suficiente, ele se abaixou e pegou os papéis, trazendo-os para cima. Estava prestes a colocá-los na mesa para dar uma olhada quando notou uma caixa no canto. Ele era o único no navio que tinha visto carregarem os pertences do Sr. Arrhenius. Havia algo ali, e Sherlock olhou ao redor.
Antes que ele pudesse investigar, ele ouviu uma voz vindo do corredor.
— O que pensa que está fazendo?
O Sr. Arrhenius estava de pé na soleira da porta. Ele segurava uma arma e franzia a testa.
— Um dos piratas veio para cá — disse Sherlock, sentindo uma raspar doloroso na garganta. — Eu o segui até aqui e nós lutamos. Ele fugiu. Não sei para onde foi.
— Eu o vi cambalear para o convés — disse Arrhenius. Ele levantou a arma e bateu-a na testa, sob o véu. — Eu... o parei, então vim ver o que ele fazia aqui.
— Ele esteva tentando levar isso — Sherlock explicou, erguendo o maço de papéis.
— Estava? — Arrhenius perguntou. Havia algo de estranho em sua voz, e ele olhava de maneira estranha para Sherlock.
— O que é isso? — Sherlock perguntou, sentindo-se mais ousado agora que tinha tomado fôlego.
— Nada com que você deva se preocupar.
Arrhenius estendeu a mão para os papéis. Sherlock os entregou. Ele ainda queria desesperadamente saber o que eram, mas sabia que o estranho passageiro não contaria.
— O que está acontecendo no convés?
— O capitão Tollaway e o resto da tripulação está virando a maré — declarou Arrhenius. — Parece-me que eles estão a repelir os atacantes. Você deveria se juntar a eles. — Ele olhou ao redor da cabine. — Tenho que ver se alguma coisa está faltando.
Sherlock saiu para o convés. Um corpo jazia caído para um lado. Era o pirata que tinha atacado Sherlock na cabine. Sherlock olhou para ele por um momento, depois se afastou. Não sentia nenhuma dor, ou remorso, ou medo. Na verdade, além da dor na garganta e o pulsar em sua cabeça, ele não sentia nada.
O Sr. Arrhenius estava certo – a tripulação parecia estar vencendo os piratas. Um punhado de corpos estava espalhado por todo o convés, contorcidos em várias posições, e alguns dos piratas pareciam se retirar, feridos.
— Basta! — a voz de Larchmont se elevou do outro lado do navio. — Retornem a mim, rapazes!
Sherlock assistiu em confusão enquanto a tripulação do Gloria Scott abandonava suas lutas individuais e recuava para Larchmont através do convés. Eles estavam ganhando. Por que abandonar a luta agora?
A tripulação recuou, e em um instante um caminho se abriu entre Sherlock e o Sr. Larchmont, e ele de repente percebeu o que estava acontecendo. Larchmont estava de pé junto à balaustrada e segurava uma engenhoca estranha. Era um tubo de metal do comprimento do braço de um homem, selado em uma das extremidades e aberto na outra. Estava sendo girado em um botão de metal que estava anexado à grade. O botão de alguma maneira encaixou-se dentro de um rebaixo no tubo. Sherlock vira aquele ressalto de metal antes enquanto trabalhava no convés e se perguntara para que servia. Agora ele sabia. Gittens dissera que eles não tinham um canhão a bordo, mas ele estava errado. Havia um – um pequeno – e Larchmont o manipulava. Ele o apontou para os piratas.
— Acendam — disse ele severamente. Uma mão segurando uma vela acesa emergiu da multidão de tripulantes. O fogo foi colado em um buraco na extremidade selada do canhão.
O caos rompeu pelo convés.
O que quer que estivesse no canhão, não era uma bala. Sherlock deduziu que provavelmente era um pedaço de corrente, junto com pregos e pedaços de sucata.
Os piratas que milagrosamente não foram atingidos pela tempestade de metais viraram-se e correram. Os outros... Bem, Sherlock não queria nem olhar. Haveria um monte de limpeza a fazer mais tarde.
A tripulação soltou um grito ruidoso.
— Muito bom, rapazes! — Larchmont gritou. — Rum extra para todos! Agora certifiquem-se de que aqueles sem mães, filhos do diabo realmente se foram!
Sherlock juntou-se ao resto da tripulação que atravessava o convés. Eles amontoaram-se na grade, assistindo incrédulos. Era verdade – os piratas estavam abandonando as cordas que os prendiam ao Gloria Scott, e seu navio estava se afastando. Aqueles no convés gritavam maldições contra a tripulação do Gloria Scott e agitavam seus punhos, mas a gritaria era muito mais fraca do que fora anteriormente. Havia menos deles também.
Sherlock sentiu-se mal, e suas pernas ficaram fracas de repente. Ele se apoiou na lateral do navio e fixou o olhar no horizonte distante, esperando que a sensação diminuísse.
Por que se sentia assim? Não era como se ele nunca tivesse corrido perigo antes. Nos últimos dois anos ele tinha sido perseguido, ficado inconsciente, fora drogado, trancado em um hospício e atacado diversas vezes por homens, cães, pumas, lagartos gigantes, falcões e ursos. Tinham sido anos bem agitados. Então, por que ele estava reagindo desta forma agora?
Porque, o lado lógico do seu cérebro lhe disse, você está longe de casa. Ninguém surgiria no último momento para salvá-lo – nada de Matty, nem Mycroft, nem Amyus Crowe e nem Virgínia. Ele nunca havia contado com a ajuda deles antes, mas no fundo de sua mente, sempre soube que se sua inteligência e força não fossem suficientes para salvar o dia, um deles estaria lá por ele. Mas não agora. Não aqui. E não por um longo tempo.
O peso total da solidão desceu sobre ele como uma nuvem escura, e Sherlock encontrou seus olhos ardendo com lágrimas quentes.
Se ele morresse aqui, a bordo do Gloria Scott, a milhares de quilômetros da Inglaterra, ninguém jamais saberia. Mesmo os outros marinheiros o esqueceriam dentro de poucas semanas.
— Situação perigosa — disse uma voz ao seu lado. — Estou grato que você a tenha atravessado com vida.
Wu Chung estava ali, olhando para longe através da água com um leve sorriso enigmático no rosto. Um ferimento no ombro sujara seu avental de cozinheiro com sangue, e havia arranhões em seu rosto.
— Você está bem?— perguntou Sherlock.
Wu Chung assentiu.
— Houve uma luta — disse ele. — Eu venci.
— Tai Chi Chuan? — Sherlock perguntou, imaginando Wu Chung em pleno combate, lutando contra um adversário utilizando os movimentos sutis de suas mãos e pés.
Wu balançou a cabeça.
— Não – eu usei uma frigideira. Combate desarmado serviria muito bem, mas se o universo em sua infinita sabedoria fornece uma arma, então seria rude não usá-la.
— Eu fui bem em uma luta — disse Sherlock.
— Posso ver. Seu pescoço parece ter sido amaciado com um martelo de carne, e sua voz está tão rouca quanto a de um homem que fuma tabaco bruto faz anos.
— Usei as habilidades que você me ensinou. Elas funcionaram.
— É claro que funcionaram — respondeu Wu, ainda olhando para longe no mar. — Eu sou um bom professor, não sou?
Ele se virou, ainda sem olhar para o rosto de Sherlock, e caminhou de volta pelo convés. Foi só então que Sherlock percebeu que ele não tinha certeza se eles haviam conversado em inglês ou cantonês.

Sherlock passou o resto do dia em atividades que ele esperava não ter que relembrar por muito tempo – limpando o sangue do convés, jogando corpos de piratas ao mar, usando retalhos de lona das velas para cobrir o punhado de marinheiros do Gloria Scott que pereceram na batalha. No momento em que o sol tocou o horizonte, o navio já estava limpo e havia poucos sinais de que algo desagradável acontecera, se não fosse pela fileira de corpos envoltos em lonas alinhados no convés.
O capitão Tollaway leu um trecho da Bíblia, e os corpos foram jogados no oceano. As mortalhas eram pesadas de modo que afundaram.
Os marinheiros estavam com vontade de cantar naquela noite. O capitão Tollaway ordenou que a ração de rum fosse triplicada, o que tornou os marinheiros mais indisciplinados do que o normal, além do que, obviamente, eles queriam apagar da lembrança o ataque dos piratas de qualquer maneira que pudessem. Sherlock se viu tocando canção após canção no violino rachado que Fiddler lhe emprestara. Ele perdeu algumas notas e, por vezes, pulava de uma canção para outra sem perceber, mas os marinheiros pareciam não notar. Enquanto houvesse rum e música, eles estariam felizes.
Mesmo enquanto arranhava canções no velho violino, cercado por marinheiros bêbados cantando no ápice de suas vozes, a mente de Sherlock recusou-se a parar de pensar. Ele encontrou-se tentando descobrir por que o pirata que invadiu a cabine do Sr. Arrhenius fora diretamente para aqueles estranhos diagramas como teias de aranha. Isso implicava que ele sabia que os papéis estavam lá, e que ele tinha algum motivo para querê-los. Mas também significava que, ou o pirata aproveitara a coincidência completamente acidental de que o seu navio e o Gloria Scott se encontravam no mesmo ponto no oceano, ou que o ataque tinha sido deliberado – os piratas sabiam antecipadamente qual alvo atacariam.
Isso sugeria algum tipo de conspiração acima e além da pirataria normal. Como os piratas poderiam saber que o Gloria Scott era o navio que queriam atacar?
Havia algo muito estranho acontecendo aqui. Ele desejava ter alguém com quem discutir o assunto, mas não queria confiar em ninguém a bordo mais do que o necessário.
O que ele não daria para ter Mycroft, ou Amyus Crowe, ou mesmo Matty por perto.
Um sentimento mal disfarçado de tensão pairou sobre o Gloria Scott pelo restante da viagem. A tripulação continuou lançando olhares preocupados para o horizonte distante, vigiando a aparição de possíveis navios piratas, e tanto o capitão quanto o Sr. Larchmont passaram mais tempo andando para cima e para baixo do que tinham feito antes do ataque, tentando tranquilizar os homens com sua presença. A tripulação estava tendo que trabalhar mais também. No final de cada turno estendido, Sherlock subia exausto para sua rede, tão cansado que tinha sonos sem sonhos até que o sino tocava para seu próximo turno.
Durante uma pausa, poucos dias depois do ataque, ele estava de pé na amurada olhando para o mar quando percebeu alguém ali ao seu lado. Ele virou a cabeça, esperando que fosse Wu Chung, ou talvez Fiddler. Um arrepio percorreu-o quando ele viu que era o Sr. Arrhenius.
Ele ainda usava o véu preto de apicultor debaixo do chapéu de abas largas. Sherlock podia distinguir a forma de seu rosto logo abaixo. Suas luvas de couro preto circundavam firmemente a grade.
Ele parecia olhar para o mesmo ponto no horizonte que Sherlock.
— Acredito que veremos terra em breve — comentou ele. — De acordo com o capitão, temos um ou dois dias até chegar a Xangai.
— A terra firme pode não aparecer tão cedo — Sherlock replicou em voz baixa. — Esta viagem parece durar para sempre.
Arrhenius assentiu.
— Ela certamente tem sido agitada. — Ele admitiu. Ele ficou em silêncio por um tempo, então disse de repente: — Acredito que lhe devo uma explicação.
— Sobre o quê? — Sherlock esperava pudesse ser sobre os papéis a que o pirata buscava.
— Sobre minha aparência. Entendo que tenha ficado chocado ao ver-me sem o véu quando trouxe a comida em minha cabine. Eu peço desculpas.
Sherlock meneou a cabeça.
— O senhor não me deve nada. Admito que fiquei curioso, mas o senhor não tem que me dizer qualquer coisa se não quiser.
— Ainda assim... sei como marinheiros chegam a ser supersticiosos. Outros têm me visto, em momentos de descuido, sem o véu. — Ele riu tristemente. —Eles provavelmente acham que sou algum tipo de criatura sobrenatural – um demônio, ou um vampiro, talvez. Se eu explicar a minha condição a você, talvez você possa tranquilizá-los.
— Duvido que eles me dariam ouvidos sobre qualquer coisa — Sherlock observou duvidosamente. — Ainda sou praticamente um estranho neste navio. Mas ficarei feliz em dar-lhe esta chance, se é isso o que deseja.
Arrhenius assentiu.
— Eu preciso disso. Obrigado. — Ele fez uma pausa, e Sherlock teve a impressão de que ele procurava as palavras certas. — Minha pele não foi sempre desta cor. — Ele falou finalmente. — Quando era mais jovem, era da mesma cor que a sua. — Ele olhou de soslaio para Sherlock. — Bem, talvez não tão bronzeada. De qualquer forma, assuntos de negócios me faziam viajar para outros locais – África, Egito, América do Sul... se você disser um porto em qualquer lugar do globo, posso garantir-lhe que já estive lá.
— Eu costumava querer viajar — disse Sherlock. — Até que eu tentei. Agora posso ver por que meu irmão prefere ficar em casa.
— Viagens ampliam a mente — respondeu Arrhenius. — Mas têm as suas desvantagens. Países quentes têm tipos específicos de doenças mais virulentas do que qualquer uma existente na Inglaterra, ou na Holanda. Você já deve ter ouvido falar sobre os efeitos terríveis da cólera, febre tifoide ou da peste bubônica, mas os efeitos pouco conhecidos do cancro negro de Formosa são horríveis de se observar, e a quanto à febre de Tapanuli... — ele estremeceu. — Assistir um homem morrer de febre Tapanuli é como ver alguém cuja pele está derretendo lentamente para fora de seu corpo. É verdadeiramente uma maneira horrível de partir.
— O senhor nunca... pegou qualquer uma dessas doenças? — Sherlock perguntou após alguns instantes de silêncio.
— Alguma vez você já ouviu falar da prata sendo usada para prevenir uma doença?
Sherlock balançou a cabeça.
— A prata teve alguns usos medicinais se voltarmos alguns séculos — Arrhenius continuou. — Hipócrates, o filósofo grego que se diz ter sido o pai da medicina, escreveu que a prata pode prevenir doenças e ajudar na cicatrização de feridas. Os fenícios, que navegaram o mundo muito antes do seu país ou o meu terem uma marinha, supostamente armazenavam água, vinho e vinagre em garrafas de prata para impedi-los de estragar. Tenho ouvido falar de pessoas colocarem moedas de prata em garrafas de leite para evitar que o leite azede, acredite ou não.
— E o senhor tem se tratado com prata? — perguntou Sherlock, fascinado.
— Parecia... lógico. — Disse Arrhenius. — Pareceu-me, com base em tudo o que pesquisei, fazer sentido. Prata previne doenças. Assim, todos os dias durante os últimos dez anos tenho tomado uma bebida coloidal de prata – isto é, de pó de prata suspenso em óleo de rícino. Em todo esse tempo, não fiquei doente. Nem uma única vez.
— Mas... — Sherlock começou.
— Sim, há sempre um “mas”. Nesse caso, ao longo do tempo as partículas de prata foram absorvidas por meus tecidos – mais intensamente pela minha pele e meus olhos. Os especialistas que consultei me disseram que essa condição é chamada de argiria. Aparentemente, é bastante rara. — Ele riu de repente. — Que irônico eu evitar tantas outras doenças para cair nesta.
— Isso dói? — perguntou Sherlock.
Arrhenius balançou a cabeça.
— Nem um pouco. Só... qual é a palavra? A desfiguração, nada mais. Não machuca, e não sofro nenhuma outra mudança por efeitos secundários, exceto a cor da minha pele. Para ser franco, se eu soubesse na época o que sei agora, teria tomado a mesma decisão. Minha aparência é estranha, lamentavelmente, mas nunca sofro de qualquer doença, nem mesmo um resfriado... o que é algo que realmente vale a pena.
— O que acontece se o senhor parar de tomar a prata? Será que sua pele voltará ao normal?
Arrhenius pareceu ter balançado a cabeça por trás do véu.
— Infelizmente não. As partículas ficaram incorporadas em minha carne. Não há como voltar atrás. Não que eu o gostaria.
Aparentemente não havia nada que Sherlock pudesse dizer quanto a isso, e os dois ficaram ali por um tempo, olhando em silêncio para o oceano. Eventualmente Arrhenius foi embora, deixando Sherlock com seus próprios pensamentos.
Ingenuamente, Sherlock esperava que houvesse um momento em que a terra fosse avistada como uma mancha escura no horizonte, acompanhado, provavelmente, por um grande ânimo da tripulação e a abertura de mais garrafas de rum. Na verdade, uma primeira pequena ilha, pouco maior do que o navio, foi vista à distância. Depois outra. Depois de algumas horas, havia dez ou vinte ilhas de cada lado, e o Sr. Larchmont ordenou que as velas fossem reduzidas para diminuir a velocidade o Gloria Scott e dar a ele mais controle no leme. Eles fizeram seu caminho lentamente entre as ilhas. O continente parecia deslocar-se sobre eles. Por um tempo, pareceu ser uma ilha maior. Depois ficou claro que era mais do que isso, colinas distintas eram visíveis no interior após as enseadas e portos.
Eles haviam chegado a Xangai. Chegado à China. Os sentimentos de Sherlock ficaram misturados. Em parte, ele estava cheio de entusiasmo com ideia de experimentar um país novo, uma nova cultura, onde nada seria igual ao que ele já experimentara (“Exceto”, ele ouvia a voz de Amyus Crowe no fundo de sua mente, “a natureza humana”). Ao mesmo tempo, ele ficou cheio de tristeza, sabendo que estava no momento tão longe de casa e tão longe de seus amigos quanto jamais estivera.
Este era o fim de sua jornada o exterior. Com sorte, e talvez um pouco de planejamento cuidadoso, ele poderia ficar no Gloria Scott e fazer parte da tripulação na longa viagem de volta para casa.
Será que seu lar seria o mesmo quando voltasse?
Ele seria?
A temperatura e a umidade subiram drasticamente à medida que eles se aproximaram da terra. A brisa do mar que empurrava o navio ao mesmo em que refrescava a tripulação havia morrido, deixando um silêncio pesado no ar. Sherlock podia sentir o suor descer em cascata sobre seus ombros cada vez que se movia.
Felizmente, a profusão de ruídos, cores e movimento no porto de Xangai foram o suficiente para distraí-lo de seu desconforto. Barcos de design incomum seguiam para todas as direções, geralmente na mesma velocidade, e todo mundo gritava com todo mundo. Isso lembrou a Sherlock das vezes em que ele chegava de trem na Estação de Waterloo em Londres e via as pessoas cruzando o saguão, de alguma forma evitando trombar uns nos outros sem, aparentemente, desviar ou diminuir a velocidade.
Sherlock reparou que vários dos navios no porto eram juncos chineses. Ele sentiu sua pele arrepiar, lembrando-se do ataque dos piratas, mas disse para si mesmo que o design era comum a quase todos os navios chineses. Ele tinha certeza de que os piratas estavam muito longe agora.
O Sr. Larchmont ordenou que todas as velas fossem recolhidas. Sherlock teve trabalho a fazer quando o navio parou gradualmente em uma área livre no centro das águas. O Sr. Larchmont ordenou que a âncora fosse baixada.
Por um tempo eles apenas esperaram, mas Sherlock percebeu que um punhado de pequenos barcos de fundo chato vinha em sua direção. Presumivelmente haveria algum tipo de inspeção ou, pelo menos, uma entrevista com os administradores locais antes que eles fossem autorizados a atracar.
Sherlock olhou além para o porto. Uma série de cais e paredões fora construído ao longo de sua curva, com torres de vigia em cada extremidade de crescente. Atrás deles Sherlock podia ver uma séria de armazéns, todos aparentemente construídos com a mesma estrutura. Olhando para outro lado, à distância sob a névoa, estava a cidade de Xangai. Ela era cercada por um muro que Sherlock estimou ter cerca de cinco vezes a altura de Amyus Crowe. A presença do muro e das torres sugeriu a Sherlock que a cidade fora sido sujeita a muitos ataques através de sua história, porém o muro estava desmoronando em vários lugares, e as torres estavam surradas pelo tempo – quase caindo. Fossem quais fossem as coisas ruins que aconteceram no passado, Xangai agora parecia segura e complacente, como um velho e sonolento gato com cicatrizes no rosto e um pedaço do focinho faltando.
Além dos juncos chineses, havia alguns navios no porto que eram mais parecidos com o Gloria Scott. Comerciantes ocidentais eram, obviamente, bem-vindos pelos chineses. Um navio em particular chamou sua atenção. Era longo e baixo na água, pintado de branco – ou, pelo menos, fora branco um dia, agora era uma espécie de cinza cremoso. Tinha dois mastros – um na frente e outro atrás – e entre eles havia uma chaminé. Esta ladeava uma espécie de gaiola que sobressaía-se para os lados do deque, era uma enorme roda de pás. Lembrou a Sherlock do navio em que ele viajara para a América há cerca de um ano. Aquele tinha uma máquina à vapor para alimentar um par de rodas de pás. A ideia era que, se o vento diminuísse, o motor poderia ser acionado e o navio se moveria pela rotação das pás na água.
A chaminé parecia mais nova do que o resto do navio. Ele se perguntou se teria havido algum tipo de acidente. Talvez o navio tivesse sido danificado, e a chaminé tenha sido reparada e pintada de novo.
Seus pensamentos foram interrompidos por um barulho atrás dele. O capitão Tollaway aparecera no convés, o Sr. Larchmont um passo atrás. Ele vestia um uniforme novo e parecia até mesmo tentar sorrir.
Os tripulantes perto de Sherlock ajudavam três homens a subir a bordo. Eles escalaram por uma escada de corda que descia até seu barco de fundo chato. Dois deles envergavam túnicas largas de seda estampada e chinelos acolchoados. O terceiro homem usava uma túnica semelhante, mas com uma jaqueta preta solta por cima. Todos os três usavam chapéus pretos. Estes tinham laterais retas, topos lisos e sem abas. O efeito era uma estranha mistura de ostentação e reserva. Eles cumprimentaram o capitão efusivamente, curvando-se repetidamente. O capitão inclinou-se de volta, parecia desconfortável.
O homem com a jaqueta preta parecia ser um tradutor. Quando os dois administradores falavam em cantonês, ele ouvia, em seguida, repetia a mensagem de volta para o capitão em um forte sotaque inglês. Quando o capitão respondia, ele fazia o mesmo no sentido inverso.
Fosse qual fosse a discussão ou negociação que estava acontecendo, ela foi concluída a contento de ambas as partes. A reunião finalizou-se com mais curvas, e os três homens foram escoltados para fora do Gloria Scott novamente.
O Sr. Larchmont falou com o capitão, em seguida, virou-se para a tripulação que prestava atenção.
— Atracaremos logo em Xangai. — Ele anunciou. — A intenção do capitão é ficar aqui por uma semana enquanto vendemos nossa carga e trocamos por algo novo em nossa viagem para casa. Vou lhes entregar o salário em moedas locais, o cash, lá embaixo, na sala da tripulação, durante a próxima hora. Se quiserem seu cash suado, precisam estar lá para pegá-lo comigo, senão os gastarei em vestidos e joias para minha patroa de volta em Lambeth. — Ele sorriu para as risadas e assobios que se seguiram a seu comentário. — Essa é a minha história rapazes, sou gamado nela. Darei uma lista antes de aportarmos, e quero que todos vocês a leiam e a sigam. Este navio está constantemente com a equipe reduzida, e não temos homens suficientes para descer e subir a carga. — Ele fez uma pausa. — Foi uma viagem difícil, e nós perdemos alguns companheiros. Vocês merecem um tempo, mas mantenham uma mão em suas carteiras e um olho nas leis locais. Se forem pro xilindró, não garanto ser capaz de tirá-los de lá!
Levou quase a tarde inteira para o Gloria Scott ser rebocado para uma seção vaga no cais por uma esquadrilha de barcos menores. No momento em que o navio foi ao preso por cordas grossas e um passadiço foi colocado do convés até o cais, o sol estava mergulhando sob as colinas.
Meia hora após ser atracado, o navio estava quase deserto. Todos os membros da tripulação que não haviam sido escalados para trabalhar saíram. Até mesmo o Sr. Arrhenius, vestido com seu véu de apicultor e suas luvas pretas, tinha deixado o navio. Ele acenou para Sherlock enquanto caminhava em direção à ponte. Talvez tenha sorrido um pouco, mas o véu tornava difícil saber. Os marinheiros deram-lhe um amplo espaço enquanto ele passava, e nenhum deles colocou o pé no passadiço enquanto o homem estava nele.
Eventualmente, quando o céu passou de azul para vermelho, Sherlock parou no topo do passadiço, olhando para a cidade. Ele queria explorar, mas estava nervoso. Não sabia nada sobre os costumes locais, poderia se meter em apuros.
Uma grade mão tocou seus ombros.
— Você pode vir comigo — Wu Chung falou em voz gentil atrás dele. Ele falava em cantonês, mas Sherlock conseguia entender perfeitamente. — Você precisa conhecer a minha família. Eles cozinharão ostras, caranguejos e águas-vivas para você. Será uma festa como nunca viu antes.
Sherlock sorriu, mas balançou a cabeça.
— Não, esta é sua hora — respondeu ele. — Vá lá reencontrá-los. Ponha as fofocas em dia. Conte-lhes sobre suas aventuras. Eu não quero que eles se distraiam com um estrangeiro e precisem ser hospitaleiros.
— Você é um homem sábio — comentou Wu. Ele apertou os ombros de Sherlock. — Se quiser me ver, vá para Renmin Dong Lu e pergunte pela família Wu. Todos sabem onde moramos. Você será sempre bem-vindo.
Ele tirou a mão do ombro de Sherlock, mas permaneceu onde estava por alguns momentos. Parecia relutante em partir.
Sherlock se virou para olhar para ele. O grande cozinheiro olhava melancolicamente para além na cidade.
— Eu me pergunto se eles se lembrarão de mim — falou em voz baixa.
Antes que Sherlock pudesse dizer qualquer coisa, Wu Chung partiu ponte abaixo. Observando-o ir, Sherlock considerou o quanto aprendera com o cozinheiro. Não só como defender-se usando os movimentos do Tai Chi Chuan, mas também como se comunicar com os locais em cantonês. Ele dera sorte com os professores que conhecera nos últimos anos – Amyus Crowe, Rufus Stone e Wu Chung. E Mycroft, é claro, embora seu irmão raramente desse a impressão de que estava ensinando algo a Sherlock, tudo o que dizia continha lições de algum tipo.
Sherlock questionou-se com um leve e súbito bater de coração aonde seus amigos e familiares pensavam que ele estava agora. Quando estava prestes a desembarcar, ele ouviu uma voz atrás dele:
— Eu sempre quis ter um tripulante que recebesse ordens sem reclamar, que trabalhasse duro sem fingir e, em seguida, fosse embora do navio sem ser pago. Me diziam que eu era louco, mas eu respondia, “Esperem só, um dia encontrarei um tripulante justamente assim.” E aqui está você, rapaz. Aqui está você.
Sherlock se virou. Ele já tinha reconhecido a voz. Era o Sr. Larchmont, e ele estava olhando para Sherlock com uma expressão confusa no rosto. Ele ergueu o envelope – áspero, marrom e com marcas de dedo.
— Você quer o seu salário, ou devo doá-lo para o Centro de Caridade Navio Jim Larchmont?
— Desculpe — disse Sherlock, estendendo a mão para o envelope. — Eu quase me esqueci.
— Você é um bom marinheiro, rapaz — disse Larchmont enquanto o entregava. — Continuo me esquecendo que você começou como um clandestino. Você merece o pagamento – mais do que alguns inúteis que fui obrigado a empregar. — Ele fez um pausa. — Vai voltar, espero? Não vai ficar por aqui para fazer sua fortuna, ou ver um pouco mais do mundo?
— Eu vou voltar — confirmou Sherlock. — Quero ir para a minha casa na Inglaterra.
Larchmont fitou-o por alguns instantes.
— Há alguns navios nas docas que partirão mais cedo do que nós, e de volta para a Grã-Bretanha — disse ele em voz baixa. — Se quiser, posso dar uma palavrinha com um ou dois capitães para você. Talvez haja uma vaga.
— Obrigado, mas prefiro esperar alguns dias e partir com o Gloria Scott. — Ele deu de ombros. — Nunca pensei que diria isso, mas me sinto em casa nesse navio.
— Sim — Larchmont murmurou. — Isso realmente acontece. — Ele fez uma pausa e, em seguida, disse em tom mais alto: — Você tem que ir agora, antes que o sol se ponha e os ratos saiam de seus buracos. Fique longe dos jogos de cartas, bebidas fortes e qualquer mulher que tente se aproximar antes de você ter falado com ela.
— Sim, senhor! — Sherlock saudou, em seguida, se virou e se dirigiu para o passadiço. Enquanto andava, deslizou o envelope que o Sr. Larchmont lhe dera em um bolso de sua jaqueta. Antes que pudesse puxar os dedos para fora, encontrou outra coisa – uma peça de metal lisa e curva. Ele a puxou para fora, curioso para saber o que era. Demorou um momento antes de reconhecer como o objeto que pegara no deque do lado de fora da cabine do Sr. Arrhenius alguns dias antes. Ele olhou para o objeto, confuso.
— Mais quinze segundos, rapaz, e você terá que ficar e será presenteado com os crustáceos do lado de fora do casco! — O Sr. Larchmont gritou.
— Sim, senhor! — Sherlock gritou de volta. Ele deslizou o objeto de metal de volta para o bolso junto ao envelope de cash e correu para o passadiço em direção ao cais de Xangai.

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