18 de agosto de 2017

Capítulo quatro

SHERLOCK SABIA QUE PRECISARIA USAR as ferramentas à sua disposição para destruir as cartas, as fotografias e os outros documentos. Havia caixas demais para ele e Matty tirarem do curtume, e os dois seriam vistos se tentassem. Não, ele precisaria destruí-las ali mesmo.
Mas como? Pensou em talvez provocar um incêndio. Claro, isso destruiria o material de chantagem no tesouro de Harkness, mas também a casa, e o fogo provavelmente se espalharia para os prédios vizinhos. Havia uma boa chance de que pessoas morressem, e Sherlock não queria carregar esse peso na consciência. Por um instante ele se sentiu paralisado, o cérebro rodopiando enquanto organizava as diversas imagens que vira desde que ele invadira o curtume com Matty, pouco antes. E então se deu conta: os tanques! Ele poderia jogar as caixas nos tanques! Se os papéis não fossem apagados ou dissolvidos pelos químicos alcalinos, ficariam encharcados e se desintegrariam sozinhos. Havia algo de poético em usar parte do ridículo império de Josh Harkness para destruir a outra.
— Certo — disse ele —, vamos lá.
— Graças a Deus — respondeu Matty. — Eu tava quase desmaiando com esse cheiro.
— Não — explicou Sherlock —, eu quis dizer que é hora de destruirmos isso tudo.
Matty apenas o encarou.
— Não podemos deixar Harkness escapar — insistiu Sherlock. — Ele está arruinando a vida das pessoas aos poucos.
— E ele vai arruinar a nossa vida muito mais rápido se fizermos alguma coisa para irritá-lo. — Matty balançou a cabeça, desesperado. — O sujeito é um animal! É mais perigoso que um texugo raivoso encurralado!
Teimoso, Sherlock também balançou a cabeça.
— Não me importo. Não posso sair daqui e depois andar pela cidade sabendo que, de cada três ou quatro pessoas que vejo, uma está pagando para que ele fique de boca fechada. As pessoas têm direito à privacidade.
— Ainda que os segredos deles possam mandá-los para a cadeia se forem revelados? — perguntou Matty, astuto.
— Ainda assim — disse Sherlock. — Se alguém cometeu um crime, existe um processo para isso. É registrado. A polícia investiga. São coletados indícios e provas. Se as provas são suficientes, a pessoa é presa. Josh Harkness não está punindo os criminosos porque se considera um membro informal da polícia... ele está lucrando em cima de consciências culpadas.
Matty fez uma careta.
— Isso aqui ainda são provas — disse ele. — E acho que você tem uma opinião muito cor-de-rosa sobre a polícia. É como eu falei antes, os policiais também tão tirando um dinheiro ou então roubando aqui e ali no tempo livre. Um bandido de uniforme ainda é um bandido.
Sherlock se lembrou da ocasião em que seu irmão Mycroft fora acusado de assassinato, alguns meses antes. O menino precisava admitir que a polícia não havia mostrado muito interesse em procurar indícios na época, mas, ainda assim, o princípio era válido.
— Olhe — disse ele —, reconheço que o sistema não é perfeito. Nem sei como seria um sistema perfeito. Talvez a polícia deva receber melhores salários. Talvez as pessoas precisem ser avaliadas antes de serem admitidas na força policial. Talvez precisem de mais treinamento. Talvez precisem de consultores para ajudá-los a investigar crimes difíceis. Não sei. Só sei que gente como Josh Harkness não é a resposta. Ele não está fazendo nada para impedir os crimes... na verdade, por ele, quanto mais crimes acontecerem, melhor.
— Não vou convencer você a desistir disso, vou?
— Não.
— E você vai fazer com ou sem a minha ajuda.
— Exatamente.
— Então acho que é melhor eu ajudar, no mínimo para que você saia vivo dessa. Minha vida seria muito mais entediante sem você.
— Obrigado — falou Sherlock.
— Não tô falando que isso é bom ou ruim — respondeu Matty. — Só tô falando. — Ele suspirou. — Certo, qual é o plano?
— Vamos pegar essas caixas e jogar tudo que tem dentro nos tanques.
Matty deu de ombros.
— Não sei por quê, mas eu sabia que a gente teria que chegar perto dos tanques. Você sabe que aqueles caras não vão deixar a gente voltar a esta sala mais uma vez, e muito menos duas, né?
— Então vamos ter que distraí-los.
— Com o quê?
— Ainda estou pensando nisso. — Sherlock refletiu por um instante. — Tem que ser algo que atraia todos eles para o mesmo lado do edifício.
— Fogo? — sugeriu Matty.
— Perigoso demais.
— E se eu deixar que eles me vejam e tentem me perseguir?
— Aí terei que dar conta das vinte e seis caixas sozinho.
— Ah. — Os olhos de Matty se iluminaram. — E se esperarmos até o anoitecer para então voltarmos, invadirmos e destruirmos tudo de uma vez, com calma?
Sherlock balançou a cabeça.
— Este lugar é tão importante que Harkness deve ter vigias à noite. Só conseguimos entrar agora porque é dia e tem muita atividade no curtume. À noite, com tudo tranquilo, qualquer vigia vai nos ouvir ou nos ver, então isso exclui a opção de esperarmos escondidos até o sol se pôr. Não, precisamos fazer isso agora. — Ele pensou por um momento. — Talvez — disse, devagar — possamos levantar algumas tábuas do piso. Esta sala foi feita acima do nível do solo. Poderíamos esconder as caixas embaixo do piso. Harkness não saberia o que havia acontecido com elas. — Ele franziu a testa, considerando os problemas óbvios. — Não, seria impossível levantar as tábuas sem deixar lascas e marcas. Ele descobriria na hora.
— Bom, eu não sei o que fazer — disse Matty. — Que tal a gente deixar pra lá, então?
— Não. Tem que haver uma solução. — Sherlock esvaziou a mente, na esperança de que as diversas peças que rodopiavam em sua cabeça formassem alguma imagem com sentido. Aos poucos, elas formaram. — Certo, eis o que vamos fazer. Você vai se esgueirar pelos tanques até o outro lado e abrir um buraco em um deles.
— Com o quê?
— Você tem alguma faca?
Matty enfiou a mão no bolso e tirou um canivete. A lâmina estava dobrada para dentro do cabo.
— Tenho isto.
— Use-a para fazer um furo nas chapas de madeira que formam o corpo do tanque mais afastado, ou enfie a lâmina entre duas chapas e solte-as. Faça isso sem ser visto.
— Tudo bem. Considerando que eu não seja visto, o que acontece depois?
— O líquido dentro do tanque vai começar a vazar. Quando eles perceberem, vão chamar todo mundo para ajudar a fechar o buraco e limpar a sujeira do chão.
— E então vão ficar distraídos por algum tempo. É aí que a gente pega as caixas e joga no tanque mais próximo?
— Isso mesmo. Só que precisamos arranjar um jeito mais rápido de fazer isso. Lembra que, quando entramos, vimos uma calha de madeira encostada na parede?
— Lembro — respondeu Matty, incerto.
— Eles provavelmente usam aquilo para jogar as peles de vaca dentro dos tanques. Não acredito que as ergam por cima dos ombros e joguem uma de cada vez... seria difícil e faria muita bagunça. Acho que eles simplesmente descem tudo pela rampa. Enquanto todos estiverem distraídos, vou pegar a calha e apoiá-la daqui até o tanque mais próximo. E assim podemos despejar as caixas dentro do tanque.
— É um plano — disse Matty. — Não sei se é bom, mas não consigo pensar em nada melhor.
— Certo, vamos lá.
Sherlock foi até a porta e abriu-a ligeiramente. O cheiro de esgoto do curtume ficou mais forte, irritando o nariz dele e fazendo-o lacrimejar. Olhando para fora, ele viu que o lugar continuava vazio, mas ainda ouvia vozes. O que quer que Harkness estivesse fazendo com seus funcionários, estava demorando.
O menino virou a cabeça e olhou para Matty.
— Certo... vá! — sussurrou ele.
Matty passou por Sherlock e se espremeu porta afora. Avançando em silêncio, ele percorreu a plataforma de madeira até uns degraus que desciam na parte central do espaço e passou por outra calha de madeira. Esgueirou-se pela sala, escondendo-se atrás de cada tanque, até sumir da vista de Sherlock.
Os minutos seguintes foram enervantes. Sherlock esperou, quase sem respirar, sem saber se Matty estava mesmo furando o tanque mais afastado. Estaria ele tentando desesperadamente penetrar uma madeira dura demais para a lâmina? Teria sido pego por Harkness ou um dos seus homens?
Algo se mexeu em um dos lados, atraindo a atenção de Sherlock. Um dos homens vinha pela lateral de um tanque, carregando uma das madeiras com gancho na ponta. Ele parou e começou a enrolar um cigarro com uma das mãos. Sherlock virou os olhos para onde Matty sumira, mas não viu o menino.
O empregado não parecia agir como se algum invasor tivesse sido descoberto, então Sherlock deduziu que o amigo ainda estava em segurança.
Prestes a desviar os olhos, Sherlock viu uma cabeça aparecer por trás de um dos tanques. Era Matty. De onde estava, o garoto não via o sujeito com a trave de madeira, mas, se andasse alguns metros, ficaria no campo de visão dele. Sherlock tentou desesperadamente mentalizar para que Matty olhasse em sua direção, mas seu amigo parecia estar se preparando para correr até a escada.
Estava prestes a fazer algum barulho para chamar a atenção de Matty quando seu amigo o encarou.
Sherlock fez um gesto para que ele não saísse dali. Matty balançou a cabeça. Sherlock indicou com a cabeça o lugar onde o empregado estava e imitou um movimento de caminhada com os dedos. O amigo entendeu e assentiu.
Sherlock voltou a olhar na direção do sujeito. Ele havia acendido o cigarro e agora caminhava para a frente, a madeira apoiada no ombro como um rifle. Mais alguns passos e ele veria Matty se olhasse para a esquerda.
Sherlock não sabia o que fazer. Ele ficaria exposto se atraísse a atenção do homem, mas também não poderia deixar que Matty fosse descoberto.
Alguém berrou do outro lado dos tanques. Pela voz, devia ter sido o sujeito que discutira com Harkness.
— Vazamento! — gritou ele. — Vocês sabem o que fazer! Marky, pegue algumas folhas para limpar o chão. Nicholson, você e eu precisamos botar um pouco de fibra para selar esse buraco logo e prender uma tábua por cima!
O sujeito com a trave de madeira correu para ajudar. Sherlock gesticulou para Matty, que correu até a escada, e então foi rápido até ele.
— Comece a trazer as caixas para fora — disse. — Vou pegar a calha.
Matty sumiu para dentro do depósito e Sherlock correu até a calha, que estava apoiada no corrimão. Era mais pesada do que parecia, e Sherlock precisou de toda a sua força para arrastá-la até o depósito e então empurrá-la do corrimão até o tanque mais próximo.
Quando Sherlock terminou, Matty já havia empilhado quatro caixas. Enquanto ele voltava para buscar mais, Sherlock pegava uma de cada vez e as empurrava pela calha. A inclinação não era suficiente para que as caixas deslizassem por conta própria, mas o menino descobriu que podia usar a segunda caixa para empurrar a primeira, e então a terceira para empurrar as duas. Em menos de um minuto, as quatro caixas estavam na calha e ele forçava a última, tentando fazer as quatro descerem.
A primeira caixa estava balançando em cima do tanque. Sherlock recuou um passo e então correu para a frente, acertando a última caixa da mesma forma que fizera com outros jogadores no campo de rúgbi da Escola Deepdene. A caixa deu um tranco, a força do impacto sendo transmitida para a primeira, que caiu dentro do tanque.
Mas ainda era muito cedo para comemorar. Enquanto Matty trazia as caixas, Sherlock as empilhava na calha e as forçava para a frente. Uma caixa após a outra, todas caíram no tanque. Sherlock viu-as boiando na substância tóxica, para então elas se encherem do líquido e afundarem. Transformaram-se em nada, esperava ele.
Do outro lado dos tanques, dava para ouvir vozes gritando e batidas de martelo. O processo virou uma série de movimentos repetitivos. Pegar caixa. Colocar caixa na calha. Empurrar a caixa com o máximo de força. Pegar outra caixa. Sherlock sentia os músculos doloridos com o esforço.
Com o tempo, ele percebeu Matty a seu lado, ajudando a empurrar as caixas.
— São as últimas — disse Matty.
O amigo parecia exausto. Seu cabelo e seu rosto estavam cobertos de poeira.
— O que...? — gritou alguém.
Sherlock olhou para o meio do salão. Josh Harkness encarava os meninos. Seu rosto era uma máscara de descrença enfurecida.
— Rápido — disse Sherlock. — Vamos colocar as últimas caixas ali!
— Deixei as mais leves para o final — respondeu Matty. — Deve dar para jogar direto.
Ele tinha razão. Sherlock pegou a caixa com a letra e, equilibrando-se como um arremessador de peso, jogou-a para o tanque.
— Ei! — gritou Harkness. — Parem com isso!
A caixa bateu na beirada, e por um instante Sherlock achou que ela fosse cair para trás, mas felizmente o embalo ajudou a tombá-la para dentro.
— Peguem esses garotos! — berrou Harkness.
Dois dos empregados que Sherlock vira antes vieram correndo do final do salão. Hesitaram por um instante quando viram os meninos, mas a fúria terrível no rosto de Harkness os impeliu adiante. Seguravam as traves de madeira como se fossem lanças.
Sherlock pegou Matty pelo ombro e o puxou pela plataforma, levando-o ao cômodo por onde eles haviam entrado. Atrás de si, ouviu o barulho de passos apressados subindo a escada de madeira.
Matty chegou à porta primeiro. Ele se virou para dizer algo a Sherlock. Antes que pudesse falar qualquer coisa, Sherlock o empurrou para trás e se abaixou. Uma trave de madeira voou por cima dele, e o gancho afiado cravou-se no batente da porta.
— Saia! — gritou Sherlock. — Rápido!
Matty engatinhou para dentro da sala. Sherlock se virou para enfrentar o homem que o atacara. Ele puxava o pedaço de madeira, tentando soltá-lo do batente. Seu amigo estava a uns três metros de distância, aproximando-se com uma expressão violenta no rosto. Harkness pegara uma escada de algum lugar e estava subindo pela lateral do tanque no qual as caixas haviam sido jogadas, obviamente com a esperança de resgatar alguma coisa da bagunça que Sherlock fizera com o material de chantagem.
Por um instante Sherlock fez uma oração silenciosa para que ele caísse no tanque, e então correu para dentro do depósito, atrás de Matty. Bateu a porta, mesmo sabendo que isso lhes daria apenas alguns segundos.
Matty já estava na janela. Ele se virou, viu Sherlock e juntou as mãos para fazer um calço: palmas viradas para cima e dedos entrelaçados.
— Suba você — disse ele. — E me puxe depois.
Atrás de Sherlock, algo bateu na porta, fazendo-a estremecer.
Sherlock atravessou o cômodo em três passos, abaixou-se, pegou as pernas de Matty e o ergueu até a janela.
— Vá! — disse ele. — Eu vou atrás.
Matty parecia disposto a argumentar, mas já estava com metade do corpo para fora. Sensatamente, esforçou-se para sair, e não para ficar.
A porta se abriu de repente. Um homem surgiu sob o batente, e um outro logo atrás.
— Seu moleque! — rosnou o sujeito da frente.
Ele deu um passo adiante, a madeira erguida na mão.
Sherlock pegou uma das traves que estavam agrupadas na parede. Preparou-se, segurando-a na diagonal diante do corpo, os pés afastados, sabendo que ia ter que brigar. Às vezes parecia que, mesmo com toda a lógica do mundo, na maioria das ocasiões ele ainda precisaria brigar.
O sujeito era de altura mediana e tinha barriga, mas as orelhas distorcidas e o nariz quebrado indicavam que ele já fora lutador de boxe – provavelmente lutas clandestinas, em ringues no meio do campo, sem seguir as regras oficiais. Ele avançou um passo, também com a madeira na diagonal, mas com a ponta para baixo. O homem sorria.
— Eu vou ser o João Pequeno — disse ele —, e você pode ser Robin Hood.
— Isto não é brincadeira de criança — respondeu Sherlock.
— Não mesmo.
De repente ele atacou com a madeira, tentando arrebentar o joelho de Sherlock com a ponta sem gancho. O menino se defendeu com o próprio bastão. Quando as madeiras se chocaram, a vibração súbita subiu pelo braço de Sherlock e fez seus dentes doerem.
O homem fez um gesto com a cabeça, reconhecendo a manobra inesperada de Sherlock. Ele atacou uma segunda vez com a extremidade inferior da haste, mas estava apenas fintando. Mudou a direção do golpe de repente, descendo a extremidade superior em direção à cabeça de Sherlock. O menino ergueu a própria trave com as mãos para evitar que a arma do sujeito o derrubasse e provavelmente rachasse seu crânio, mas, antes que as barras de madeira se tocassem, o homem revertera o golpe de novo, acertando a virilha de Sherlock. O menino se retorceu, mas a barra o atingiu no quadril direito.
Ele dobrou um dos joelhos e se abaixou bem a tempo de ver o gancho da madeira passar dois centímetros acima de sua cabeça.
Sherlock tentou se levantar desesperadamente, ignorando as ondas de dor que se espalhavam do seu quadril até o joelho. Com o homem desequilibrado, Sherlock estendeu a madeira e prendeu o gancho no calcanhar do sapato dele. Quando puxou, o sujeito caiu de costas e soltou um palavrão. Seu corpo atingiu o chão com um baque, e o piso de madeira vibrou todo.
O outro homem passou por cima do companheiro caído. Ele era mais cuidadoso, agitando a barra de madeira de um lado para o outro, tentando evitar que Sherlock previsse de onde viria o golpe seguinte. Fintou uma, duas vezes, e então puxou a barra e atacou Sherlock como se estivesse usando uma lança em vez de um cajado. Sherlock deu um pulo para trás e percebeu que o gancho afiado na extremidade poderia ser tão mortal quanto a ponta de uma lança.
O sujeito recuou a madeira mais uma vez. Em vez de atacar Sherlock, porém, ele virou a cabeça ligeiramente e falou com o companheiro:
— Levante-se, idiota! Vá lá para fora. Pegue o outro garoto se ele ainda estiver por lá. Se não estiver, não deixe que este aqui saia pela janela.
O homem balançou a cabeça enquanto se levantava sofregamente. Sua expressão era um misto de mau humor e fúria.
— Quero esse aí, Marky. Eu realmente quero esse aí. Você viu o que ele fez.
— Vi você cair de bunda no chão — debochou Marky. — Agora vá lá para fora. Agora não é hora de músculos feridos e egos feridos. O chefe vai querer falar com esse menino, e, do jeito que conheço você, sei que vai cortar a garganta do garoto, porque ele o fez de idiota, e então o chefe vai descontar em nós dois.
O sujeito – provavelmente Nicholson, considerando os nomes que Sherlock ouvira antes – recuou e se virou para a porta da rua. Lançou um último olhar cruel para Sherlock e então saiu.
— Você não quer sair pela janela — disse Marky, sorrindo para Sherlock. — Se Nicholson o pegar, você já vai estar morto antes de pisar no chão, apesar do que eu falei para ele. Nicholson não gosta de passar vergonha. Não gosta nem um pouco.
— Então, qual é a alternativa? — perguntou Sherlock, fitando os olhos de Marky fixamente em busca de algum sinal de que o homem estava prestes a atacar com o gancho da trave.
— A alternativa é você largar essa madeira e vir comigo. O chefe quer falar com você, só isso. Só quer ter uma conversinha.
Sherlock balançou a cabeça.
— Considerando o que eu fiz, acho que tenho mais chance com seu amigo lá fora do que com Josh Harkness. Pelo menos vou morrer rápido.
Marky deu de ombros.
— Entendo seu ponto de vista, de verdade. É uma situação difícil, não é? Se sair pela janela, você morre logo em seguida, mas rápido. Se vier comigo, continua vivo por um pouco mais de tempo, mas sua morte será mais lenta e dolorosa. — Ele baixou o tom de voz, tentando fazer Sherlock relaxar. — Sabe, garoto, se eu fosse você...
De repente ele atacou, tentando cravar o gancho no ombro de Sherlock e puxá-lo para si, mas o menino havia percebido que as pálpebras de Marky se abriram ligeiramente, o que significava que ele estava prestes a fazer algum movimento. Fora um dos ensinamentos de Amyus Crowe: como prever, a partir de gestos mínimos, o que as pessoas fariam. Ele chamava isso de “linguagem corporal”. Sherlock agitou a madeira para a esquerda e a direita à sua frente, bloqueando a arma de Marky e desviando-a para o lado.
— Então é assim que você quer — disse Marky, recuando de novo. — Um impasse, certo? Só que, quando o chefe chegar, vão ser dois contra um, e você não vai ter nenhuma chance.
— Sempre há uma chance — respondeu Sherlock, com o máximo possível de petulância.
— Duas vias de fuga — observou Marky —, e ambas estão bloqueadas. A menos que você seja um mago capaz de atravessar o chão, não tem como escapar.
— Tenho, se... — Sherlock se conteve para não falar o nome de Matty — ... se meu amigo tiver fugido antes que Nicholson chegasse à janela. Ele irá direto à polícia. E os homens chegarão em questão de minutos.
Marky balançou a cabeça em desprezo.
— Os polícia daqui não vão se atrever a fazer nada contra o chefe. Ele sabe muita coisa sobre todo mundo.
— Mas como ele vai provar? — retrucou Sherlock. — Todo o material de chantagem acabou de ser destruído.
Marky franziu o cenho, pensativo.
— Quando os policiais descobrirem que todas as cartas, todos os documentos que Harkness usava para ameaçá-los desapareceram nos tanques do curtume, vão entender que ele não terá mais como chantageá-los. E o que vão fazer depois? — Sherlock percebeu a expressão perturbada de Marky e continuou, com um tom mais urgente: — Em primeiro lugar, eles vão vir aqui para confirmar se é verdade, e depois vão retribuir toda a “gentileza” de Harkness. Quando ele tiver perdido o poder, será exatamente como qualquer agricultor ou cervejeiro de Farnham... só que todo mundo o odeia. Com muita sorte ele chegará inteiro à cadeia.
Pela maneira como Marky curvou os ombros, Sherlock viu que acertara em cheio.
— Como ele vai pagar a você? — perguntou ele. — Todo o material que ele tem usado para chantagear as pessoas desapareceu, um dos tanques está contaminado e outro está vazando. Um dos empreendimentos dele está arruinado e o outro está com problemas. Se eu fosse você, começaria a procurar outro emprego. — O menino fez uma breve pausa. — A menos que ele também saiba algo sobre você. Mas, se for isso, então a prova está naquele tanque, junto com todas as outras. Josh Harkness só tem a palavra dele, mas não vai chegar muito longe com isso. Ninguém vai acreditar em uma história sem provas.
— Você é um garoto esperto — reconheceu Marky. Ele assentiu, pensativo. — Tem razão... Harkness já era. Se a polícia não o pegar, então não vai demorar até alguns donos de terra daqui, que têm sido chantageados por ele, resolverem fazer justiça com as próprias mãos. Em pouco tempo Harkness vai acabar virando adubo em alguma plantação. — Ele relaxou e largou a madeira. — Se alguma coisa acontecer... se eu for pego... fale bem de mim. Fale para os polícia que eu deixei você fugir. — Ele fez um gesto decidido com a cabeça. — É hora de mudar de profissão — concluiu Marky, e então se virou e sumiu pela porta.
Sherlock mal podia acreditar no que havia acontecido. Tinha imaginado que precisaria lutar para fugir. Ficara falando com Marky para distraí-lo, para ganhar tempo e pensar em um plano de ataque, mas pelo visto ele se livrara na base da conversa.
Ele olhou para a janela. Era tentador, mas o outro sujeito – Nicholson – provavelmente já estava ali embaixo, e, depois do que acontecera, Sherlock duvidava que ele estivesse disposto a discutir.
Com relutância, o menino foi até a porta e voltou ao salão central do curtume. Olhou em torno, tentando encontrar Josh Harkness, mas não o viu. O único indício de que ele estivera ali era um amontoado de papel úmido e manchado e de caixas de papelão ao lado do tanque mais próximo, no meio de uma poça de líquido marrom. O cheiro estava pior do que antes – provavelmente porque Harkness agitara o conteúdo dos tanques ao tentar recuperar seu material de chantagens. Com apenas um rápido olhar, Sherlock concluiu que aqueles papéis não serviriam para mais nada. O pouco que restava de texto impresso ainda visível nas folhas manchadas estava borrado e incompreensível.
O menino contornou a plataforma, indo na direção de onde a porta principal provavelmente ficava, torcendo para que Harkness já tivesse ido embora.
Ele estava errado.
O chantagista surgiu de trás de um dos tanques. Seu cabelo estava todo emaranhado, e seus olhos pareciam arregalados a ponto de quase saltarem do rosto. Harkness segurava uma faca em cada mão. A luz se refletia ameaçadoramente nas lâminas curvas e afiadas.
— Facas de esfolar — disse ele, em tom casual, embora a expressão em seu rosto não indicasse nenhuma casualidade. — Usadas para arrancar o couro da carcaça das vacas. Muito afiadas. Muito afiadas mesmo. Como você está prestes a descobrir.
— Não vai adiantar nada me matar — observou Sherlock, com uma voz tranquila apesar da aceleração repentina das batidas de seu coração.
— Não vai adiantar nada — concordou Harkness —, mas pelo menos vou dormir um pouco melhor hoje à noite. Você arruinou minha vida. Roubou meu ganha-pão e tirou o teto de sobre a minha cabeça.
— Salvei muitas pessoas da ruína e do desespero — respondeu Sherlock. — Acho que é uma troca bastante justa.
— Ninguém perguntou nada. — Harkness se movimentou. — Há menos de meia hora, eu estava satisfeito com o que tinha. Agora, não tenho mais nada. Precisarei começar do zero.
— Se as pessoas daqui deixarem. — Como quem não queria nada, Sherlock desceu os poucos degraus que levavam até o meio do salão. Ele estava muito vulnerável na plataforma. — Quando descobrirem que você já não tem poder sobre elas, algumas vão vir atrás de você. Sua melhor opção é fugir.
— Nisso você tem razão. — Harkness assentiu. — Mas vou arrancar o máximo possível de sua pele para levar comigo, e, quando conseguir me instalar em algum lugar, vou curti-la e transformá-la em um colete, para que todo mundo possa olhar para mim e ver o que acontece com quem deixa Josh Harkness furioso.
Antes que Sherlock pudesse dar qualquer resposta, Harkness ergueu a mão direita acima do ombro e, de repente, agitou-a para a frente, arremessando uma das facas na direção da cabeça do menino. A lâmina pareceu girar lentamente no ar. Sherlock se abaixou, e a faca ficou cravada na madeira do tanque mais próximo.
Harkness balançou a outra faca, jogando-a da mão esquerda para a direita.
— Você não pode fugir para sempre, garoto. Mas, por favor, tente. Vai ser muito mais divertido para mim.
Sherlock se virou e tentou arrancar a faca do tanque, mas estava presa. De repente, seu instinto o fez inclinar a cabeça para o lado, e no mesmo instante a segunda faca passou voando junto a seu rosto. Essa acertou o tanque pelo cabo, rebateu e caiu no chão. Sherlock se abaixou para pegá-la, mas Harkness já corria em sua direção, os braços estendidos, e o menino deu impulso e rolou pelo chão para se esquivar.
O chantagista pegou a faca do chão e puxou a outra do tanque com uma força extraordinária. Ele se virou para Sherlock.
— Quanto mais você resistir — rosnou ele —, melhor aquele colete vai ficar em mim.
— Vá sonhando — respondeu Sherlock. — A única roupa que você vai ganhar é um uniforme de prisioneiro.
Ele estendeu a mão para o lado, na direção da escada que Harkness havia usado para subir na beirada do tanque. Puxou-a pelos degraus de cima e a girou para apontar a outra extremidade para Harkness. O homem arregalou ainda mais os olhos. Ele recolheu a mão direita de novo, preparando-se para jogar uma das facas, mas Sherlock correu e o acertou com o primeiro degrau da escada, empurrando-o para trás. Pego de surpresa, Harkness cambaleou, balançando os braços. Antes que pudesse se equilibrar e reagir, seu calcanhar direito ficou preso na massa de papel e papelão que ele havia tirado do tanque. O homem escorregou e caiu. Sua cabeça bateu no piso de madeira, fazendo um barulho alto. Seus olhos se reviraram nas órbitas.
Antes que ele se recuperasse, Sherlock jogou a escada para o lado e pulou em cima do tórax dele, prendendo seus braços com os joelhos. O menino pegou as facas das mãos inertes de Harkness e as ergueu, firmando-as com a ponta voltada para o rosto do homem. Harkness ficou horrorizado. Antes que ele se libertasse, Sherlock baixou as facas de repente, uma de cada lado do pescoço do chantagista. As lâminas ficaram cravadas no piso de madeira, prendendo também o tecido do casaco dele.
Sherlock levantou-se e encarou o homem.
— É aqui que a polícia vai encontrá-lo — disse ele. — Lembre-se de que às vezes os coelhos reagem.
O menino então se virou e correu para a porta.

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