7 de agosto de 2017

Capítulo quatro

O COMANDO CENTRAL DA POLÍCIA e a Corte dos Magistrados de Bow Street ficavam em um prédio monolítico branco situado em uma esquina próxima ao bairro de Covent Garden. Quando se aproximaram, Sherlock observou o prédio, registrando todos os detalhes na memória. Tinha a estranha sensação de que aquele edifício se tornaria importante para ele, e esperava que não fosse por ser o local onde seu irmão seria sentenciado à forca.
As paredes eram revestidas por pedras de diferentes relevos, enquanto o telhado de ameias lembrava mais um castelo medieval do que um prédio oficial. Olhando para as pedras, Sherlock sorriu. Se Matty Arnatt estivesse ali, poderia tê-las escalado como se fossem uma escada até o telhado.
As portas na esquina ficavam no nível da rua, sem degraus separando-as da calçada. Havia lâmpadas brancas do lado de fora. Amyus Crowe mudou a fisionomia ao vê-las e virou-se para o policial.
— Tem certeza de que nos trouxe ao lugar certo? — perguntou ele. — Fui levado a acreditar que as delegacias neste país tinham lâmpadas azuis do lado de fora, não brancas.
— Essa era a regra — confidenciou o policial. — Mas uns sete anos atrás Sua Majestade, a rainha, se opôs às lâmpadas azuis que haviam colocado neste prédio. Aparentemente, o príncipe-regente, que Deus guarde sua alma, morreu em um quarto azul, e desde então ela não suporta essa cor. A rainha vinha muito à Opera House, do outro lado da rua, e passar pelas lâmpadas azuis sempre a incomodava. Então ela pediu para que fossem substituídas. Bem, eu digo que ela “pediu”, mas creio que a rainha ordenou que o comissário de polícia substituísse as lâmpadas, ou ela o substituiria.
— É interessante — respondeu Crowe — que uma mulher tenha tanto poder em um país que nega a suas mulheres o direito de voto e a oportunidade de ter propriedades em seu nome.
O policial os fez entrar no prédio, passando pela grande mesa no saguão de entrada em direção aos fundos do edifício. Homens vestindo uniformes e ternos passavam apressados, cada qual cuidando de algum importante serviço. Seguiram por um corredor, viraram em uma curva e subiram uma escada; depois o policial apontou para uma sala onde havia uma mesa com três cadeiras: duas de um lado, uma do outro. As paredes eram de tijolos, pintadas de um tom de verde deprimente.
— Esperem aqui — ordenou ele. — O sargento virá em um momento. Não saiam da sala.
Assim que ele se retirou, Crowe se deixou cair em uma cadeira. Ela rangeu sob seu peso.
— É melhor ficar à vontade — falou ele. — É capaz de termos de ficar aqui por algum tempo. Ele vai nos fazer esperar, provavelmente contando com a possibilidade de ficarmos incomodados e mais propensos a responder a suas perguntas. — Ele riu com desdém. — É claro que, no lugar do sargento, eu teria nos separado e interrogado individualmente.
— Por quê? — perguntou Sherlock, sentando-se ao lado de Crowe.
— Se nos interrogar individualmente, ele pode verificar se nossas respostas às suas perguntas coincidem. Se apresentarmos versões diferentes, ele vai saber que um de nós pode estar mentindo. Porém, se nos interrogar juntos, você vai ouvir minhas respostas e mudar sua história de acordo com elas, e vice-versa.
Ele se recostou na cadeira, fechou os olhos e puxou o chapéu para bloquear a luz.
Sherlock olhou em volta, mas não havia nada de interessante na sala. O espaço era propositalmente desprovido de decoração e enfeites.
Ele se pegou pensando em Mycroft novamente. Seu irmão podia estar por perto nesse momento, mas devia estar em um lugar bem menos confortável que a sala onde Sherlock e Amyus Crowe eram mantidos.
Depois de uns quinze minutos, a porta se abriu, e o sargento que eles haviam encontrado antes, Coleman, entrou. O oficial carregava um bloco de anotações e um lápis.
— Só temos alguns detalhes a esclarecer — disse ele, antes mesmo de se sentar. — Não acho que seja um caso particularmente difícil. Parece bastante claro para mim.
Amyus Crowe tirou o chapéu e levantou uma sobrancelha.
— Pode se surpreender — disse ele.
— Os fatos são inegáveis — declarou o sargento. — Corrija-me se eu estiver errado, mas a sala estava fechada e havia apenas uma saída, a porta. Havia dois homens lá dentro. Quando a porta foi aberta, um homem estava morto e o outro segurava uma faca. Esqueci alguma coisa?
— Não havia sangue na faca — lembrou Sherlock.
— O sangue foi limpo na camisa da vítima quando a faca foi removida.
— Os senhores verificaram a camisa em busca de evidências de que a faca tenha sido limpa, ou só estão supondo? — quis saber Crowe.
— Não pode negar que havia sangue na camisa — protestou o sargento.
— Sangue que jorrou do ferimento, sim, mas havia algum indício de que a lâmina tenha sido proposital ou acidentalmente enxugada no tecido? Sangue deixado por uma faca e sangue saído do ferimento deixam manchas bem diferentes.
— Irrelevante — cortou Coleman. — Sangue é sangue, e só havia uma faca na sala. O que preciso saber de vocês, cavalheiros, é por que foram visitar o acusado.
— Ele é meu irmão — respondeu Sherlock em voz baixa. — O Sr. Crowe é um amigo da família. Fomos encontrar Mycroft para almoçar.
— O que me faz concluir que o assassinato não foi premeditado — disse Coleman, fazendo uma anotação no bloco. — Ninguém mata um homem sabendo que alguém vai aparecer para almoçar a qualquer momento. Foi uma reação momentânea.
— Por que motivo? — perguntou Crowe.
O sargento levantou os olhos do bloco.
— Uma transação comercial que não deu certo, uma discussão por causa de uma mulher... Pode ter sido qualquer coisa. No fim, isso é só um detalhe. O importante é que temos um assassinato e um assassino. Isso é tudo que interessa ao juiz. — Ele fez uma pausa. — Agora, se me disserem seus nomes completos e endereços, vou anotar os dados para arquivar.
Crowe forneceu a informação, e Coleman fez as anotações. A julgar pela maneira como apoiava as mãos sobre a mesa, pronto para se levantar, Sherlock deduziu que o interrogatório já chegava ao fim. Sentiu-se como se viajasse em um trem que percorria trilhos predeterminados, e não havia como parar ou mudar de direção.
— Podemos ver Mycroft? — pediu ele. — Só por alguns minutos?
Coleman hesitou.
— Que mal haveria nisso? — perguntou Crowe em um tom calmo. — Eles são irmãos, afinal. E talvez seu prisioneiro se torne mais razoável depois de ver o jovem Sherlock aqui. Mais propenso a confessar.
Sherlock olhou de soslaio para Crowe, chocado, mas o americano grandalhão piscou para ele de forma que Coleman não pudesse ver.
O policial pensou por um momento, obviamente relutante.
— Ah, muito bem — disse ele afinal, sem esconder a má vontade. — Não creio que possa haver algum mal nisso.
Ele foi até a porta e a abriu. Um policial, o mesmo que os acompanhara do Diogenes Club até ali, montava guarda do lado de fora.
— Leve os dois cavalheiros para ver o acusado — Coleman falou. — Dê a eles dez minutos com o detento, depois os conduza à saída. — Ele olhou para Crowe e Sherlock. — Agradeço por seu tempo, cavalheiros. O assunto é desagradável, claro, mas, por favor, lembrem que, se ninguém cometesse crimes, vocês não precisariam de nós, e eu poderia me juntar a meu pai e trabalhar no armarinho da família.
Coleman saiu, e o oficial fez um gesto para que eles o seguissem. O homem os fez atravessar o verdadeiro labirinto de corredores que era o interior do prédio, e desceram vários lances de escada até o porão, onde as paredes eram de tijolos aparentes e poças de água brilhavam sombrias no chão de ladrilhos. Havia portas de metal fechadas ao longo do corredor. O policial caminhou até aproximadamente o primeiro terço do corredor, parou em frente a uma porta, tirou um molho de chaves do cinto e usou uma delas. Ele fez um gesto para que entrassem.
— Dez minutos, nem um segundo a mais. Se houver algum problema, estarei aqui fora.
Crowe fez um gesto indicando que Sherlock entrasse na frente e o seguiu.
Mycroft estava sentado muito ereto em um banco encostado a uma das paredes da sala, as mãos unidas no colo. Seus olhos estavam fechados, mas ele os abriu e ergueu o rosto quando Sherlock entrou. A luz entrava por uma janela basculante de vidro protegida por grades no alto da parede oposta, presumivelmente dando para a rua. A cela era tão pequena que os três ocupavam quase todo o espaço. Não havia lugar para Sherlock e Crowe sentarem, por isso permaneceram de pé.
— Muita gentileza de vocês me visitarem — disse Mycroft. — Peço desculpas pelo recinto.
Crowe olhou em volta.
— Aconchegante — disse ele. — Fiquei em acomodações piores quando vim pela primeira vez para a Inglaterra.
— Sim — concordou Mycroft —, mas teve a oportunidade de deixá-las quando o navio aportou.
— Bom argumento — reconheceu Crowe —, mas você não paga nada pela hospedagem. Eu tive de pagar pela cabine.
— Parem com isso! — Sherlock ficou irritado. — Isto é sério.
Mycroft assentiu.
— Sim, eu sei. Estava apenas tentando deixar a situação um pouco mais amena.
— Como você está? — perguntou Sherlock.
— Minha cabeça está latejando, e me sinto meio atordoado. Pode ser resultado do estresse de ter sido arrastado pelas ruas por um grupo de policiais truculentos. — Ele deu de ombros. — Raramente me afasto mais que cem metros do Diogenes Club. Meu escritório e minha habitação estão nesse raio. — Ele olhou para Crowe. — Teve algum progresso investigando as circunstâncias nas quais o assassinato foi cometido? Construí sete teorias distintas, mas não tenho evidências para sustentar nenhuma delas.
Sherlock franziu o cenho. Sete possíveis teorias? Não conseguia pensar nem mesmo em uma.
— O homem que o visitou tinha uma caixa — comentou Crowe.
— Eu lembro.
— A parte interna da caixa tinha um forro de tecido. Dois objetos haviam sido guardados nela. Pelo menos um deles estava úmido ou deixou vazar algum líquido na caixa.
Mycroft franziu o cenho.
— Esse líquido tinha algum cheiro específico? Era pegajoso ao toque?
Crowe balançou a cabeça.
— Cheiro e textura de água.
— E havia alguma poça na sala?
— Sim. Sherlock a encontrou.
— Elucidativo. — Mycroft assentiu. — Isso reduz a solução a uma possibilidade.
— De fato — Crowe concordou com um aceno da cabeça —, mas a evidência desapareceu.
Sherlock cerrou os punhos.
— De que diabos vocês dois estão falando? Que solução?
Os dois se entreolharam. Mycroft fez um gesto indicando que Crowe deveria explicar.
— Vamos estabelecer que não havia maneira de outro homem entrar naquela sala — começou o tutor. — Não havia janelas nem esconderijos, e teríamos visto outra pessoa quando seu irmão abriu a porta.
— Concordo — respondeu Sherlock.
— E seu irmão não matou a vítima.
— É claro que não.
— Portanto, o homem se matou.
Sherlock teve a sensação de que o chão se abriu sob seus pés.
— Ele o quê?
— Ele se matou. Dois homens em uma sala, um deles é assassinado, e sabemos que o outro não o matou. Portanto, ele mesmo se matou.
— Mas... — A voz de Sherlock sumiu por um momento. — Mas Mycroft estava segurando a faca.
— Ele segurava uma faca — corrigiu Crowe. — A vítima entrou na sala com uma caixa que continha dois objetos. Um deles era a faca que seu irmão segurava quando o encontramos. Não havia sangue na lâmina porque não foi ela que causou a morte.
— Mas não havia outra faca! — protestou Sherlock.
— Mas — interrompeu Mycroft — havia uma mancha de umidade na caixa e outra no tapete.
Crowe olhou para Mycroft, que deu de ombros.
— Peço desculpas — acrescentou ele. — Não posso evitar me manifestar. — Ele olhou de novo para Sherlock. — Diga-me, a mancha de umidade no tapete por acaso estava fria?
— Sim, estava — lembrou Sherlock, e depois entendeu. — Gelo? A faca era feita de gelo?
— Sem dúvida — confirmou Crowe. — O segundo objeto na caixa era uma faca feita de gelo. O forro impediu que ela derretesse, embora um pouco de água tenha penetrado no cetim. A caixa deve ter sido mantida resfriada antes do uso para garantir que a faca não derretesse.
— O visitante me incapacitou — disse Mycroft, aborrecido. — Como fez isso teremos de deixar para mais tarde. Depois de me deixar sem ação, ele pôs a faca de verdade em minha mão. Depois, sentou-se e esfaqueou a si mesmo com a faca de gelo. Com a força que ainda restava, tirou a faca do peito e a jogou no chão, onde ela derreteu por conta do calor da sala.
— Havia o risco de ele morrer depressa demais e não conseguir tirar a faca — acrescentou Crowe —, mas, nesse caso, o calor residual do cadáver também a teria feito derreter.
— Mas por que usar duas facas? — insistiu Sherlock. — Por que não se matar com a faca de verdade e deixá-la no lugar?
Crowe olhou para Mycroft com expressão solidária.
— Quem arranjou tudo isso queria deixar seu irmão sem saída. Se fosse encontrado na mesma sala que um cadáver com uma faca no peito, poderia alegar que havia encontrado o corpo ali e que ia pedir ajuda. Mas, se fosse encontrado com uma faca na mão, e não houvesse nenhuma outra evidência no cadáver, não conseguiria pensar em uma explicação convincente.
— Um toque de mestre — admitiu Mycroft. — Estou impressionado com quem criou esse cenário.
— Então, por que o homem se matou? — perguntou Sherlock, irritado. — Quais eram seus motivos?
— Isso é algo que só podemos especular — respondeu Crowe —, mas você deve se lembrar do que eu disse: o homem parecia doente. Ele estava magro e pálido, e recebia cuidados médicos. Vamos supor que fosse pobre e estivesse morrendo de alguma doença, como tuberculose ou câncer. Vamos supor que alguém, que no momento não sabemos quem é, o procurou e fez uma proposta. Esse desconhecido pagaria à família uma grande soma em dinheiro se o homem antecipasse a própria morte em algumas semanas, se cometesse suicídio segundo as ordens desse desconhecido. O moribundo concorda e recebe um terno decente, uma caixa contendo uma faca de verdade e outra de gelo e as instruções sobre o que deve fazer.
— O que levanta a questão — interrompeu Mycroft — de como ele me deixou temporariamente inconsciente para colocar a faca na minha mão.
— Do que você se lembra? — perguntou Crowe.
Mycroft fechou os olhos para recordar.
— O homem entrou e pousou a caixa na mesa. Ele tossia. Perguntei se havia alguma coisa que eu pudesse fazer para ajudá-lo. Ele disse que não e explicou que tinha um remédio que o ajudaria a respirar melhor. Então levou a mão ao bolso do paletó e tirou um pequeno frasco. O fecho tinha uma forma estranha, mais como um botão do que como uma tampa. Ele me pediu para ajudá-lo. Fui até ele e... nada. Minha lembrança seguinte é de ouvir vocês batendo à porta. — Ele parou e logo continuou: — E um cheiro. Eu me lembro de um cheiro. Forte e muito amargo.
— Meu palpite — anunciou Crowe — é que a embalagem de remédio era, na verdade, um spray de morfina dissolvida em álcool. Ele espirrou a substância em seu rosto, deixando-o inconsciente por alguns momentos. Sua perda de memória pode ser um efeito desse tipo de droga. Depois disso, ele teve tempo suficiente para criar aquela cena.
Morfina dissolvida em álcool, também conhecida como láudano – a mesma substância que o barão Maupertuis usara para drogar Sherlock e levá-lo da Inglaterra para a França. Sherlock ainda se lembrava da profunda inconsciência, dos sonhos e da perda de memória provocados pela droga. E a estranha, quase agradável, sensação de indolência. Sherlock afastou as recordações. Não era um bom momento para reminiscências.
Crowe continuou:
— Se a polícia ou legista encontrassem o frasco, deduziriam que o homem morto carregava a substância para uso próprio. Talvez para amenizar a dor provocada pela doença que o matava.
— O que aconteceu com esse recipiente? — perguntou Mycroft.
— Sherlock o pegou. — Crowe deu de ombros. — Melhor isso do que a polícia perdê-lo.
Mycroft concordou com um aceno e pensou por um instante.
— Um spray que pode deixar as pessoas momentaneamente inconscientes. Interessante. Consigo pensar em várias utilidades oficiais e extraoficiais para isso.
— Tudo bem. — Sherlock parou, tentando organizar os pensamentos. — Sabemos como a situação talvez tenha se desenrolado. Temos uma teoria que acomoda todos os fatos. A pergunta agora é: por quê? Por que fizeram isso?
Mycroft sacudiu os ombros mais uma vez.
— Quanto a isso, estou envolvido em várias negociações complicadas com governos estrangeiros. Talvez um deles queira me tirar do caminho para obter vantagens. Ou talvez se refira a trabalhos que desenvolvi anteriormente, que muitas vezes terminaram com tratados assinados com determinado país, não com outro. É possível que algum país preterido tenha se aborrecido com minha decisão e decidido se vingar. — Uma ideia lhe ocorreu. Uma ideia importante, a julgar pela expressão em seu rosto. — A não ser que...
— A não ser que o quê? — perguntou Crowe.
Em vez de responder, Mycroft levou a mão ao bolso do paletó.
— Ainda tenho o cartão que o homem morto entregou a Brinnell. Havia algo escrito nele. Algo que despertou meu interesse.
Ele tirou o cartão do bolso interno.
— John Robertshaw — leu Mycroft —, e um endereço em Chelsea, na Glassblowers’ Road. Deve ser falso, inventado apenas para conferir autenticidade ao cartão.
— Mas, mesmo assim, vale a pena verificar — insistiu Crowe.
— Sem dúvida. Não quero perder uma pista porque a consideramos indigna de atenção. — Ele virou o cartão. — Meu nome, manuscrito, para Brinnell saber quem deveria procurar. E duas palavras.
Ele levantou a cabeça. Seus olhos encontraram os de Sherlock.
— Câmara Paradol — disse ele em tom austero.
Em choque, a mente de Sherlock voltou para o tempo que havia passado em poder do barão Maupertuis. O barão mencionara esse local. Ele não dissera o que era, mas se referia ao lugar como se trabalhasse para lá, ou seguisse suas ordens. Como se fosse alguma coisa importante e secreta.
— Agora eu lembro — continuou Mycroft. — Vi as palavras e pensei no que você disse sobre ter ouvido o barão Maupertuis usando a mesma expressão. Mandei Brinnell levar o homem à minha presença com a intenção de interrogá-lo. Mas este cartão foi a isca da armadilha.
— E você caiu nela — observou Crowe com tranquilidade.
— Devo dizer em minha defesa — protestou Mycroft — que estava em território familiar e não esperava um ataque.
— Mas o ataque aconteceu. — Crowe acenou com a mão. — Não importa. Temos que seguir em frente. Vou providenciar um advogado para você. Sherlock, você ainda tem o nome e o endereço fornecidos pelo criado do Diogenes?
Sherlock assentiu e entregou o pedaço de papel que havia guardado no bolso da camisa.
— E você, Sherlock — continuou Crowe —, vai investigar o cartão de visitas.
Ele lhe entregou o cartão que Mycroft havia tirado do bolso do paletó. Sherlock o virou de um lado para o outro e leu as sinistras palavras, Câmara Paradol, com um arrepio.
— Como devo fazer isso? — perguntou Sherlock.
— Cheire o cartão — instruiu Crowe.
Sherlock o levou ao nariz. Havia um odor leve e singular.
— O que é isso? — perguntou ele.
— Tinta de impressão — respondeu Crowe. — O cartão foi feito há pouco tempo; somente um, é mais provável, só para fazer com que o homem conseguisse entrar no clube. Nenhum clube de respeito admitiria um homem sem cartão, afinal. Ele não tinha cartões próprios, considerando as condições em que vivia, e seu misterioso empregador não forneceria um dos seus. Não, o cartão foi impresso recentemente, o que significa que o serviço foi feito por aqui. — Ele olhou para o irmão de Sherlock. — Sr. Holmes, quantas gráficas existem na vizinhança?
Mycroft pensou por um momento.
— Consigo pensar em quatro, todas na área de Chancery Lane. Vou lhe dar os endereços.
Ele pegou um pedaço de papel e uma caneta no bolso e começou a escrever.
— Verifique cada uma das gráficas — instruiu Crowe. — Veja se reconhecem o cartão. Veja o que podem dizer sobre o homem que encomendou a impressão.
— Certo.
— E me encontre, hum, na porta do Hotel Sarbonnier, daqui a duas horas. Lembra-se de onde fica o hotel?
— É aquele onde nos hospedamos na última vez que viemos a Londres? Sim, eu lembro.
— Ótimo.
A porta se abriu enquanto Crowe falava.
— O tempo acabou — anunciou o policial. — Os cavalheiros precisam ir embora.
— Não se preocupe, Mycroft — disse Crowe. — Vamos tirar você daqui.
— Só espero que isso aconteça antes do jantar — respondeu Mycroft com um sorriso fraco. — Perdi o almoço, mas não estou certo de que a comida daqui estará à altura dos meus padrões.
Ele estendeu a mão para Sherlock.
— Tente não pensar em mim desse jeito — disse.
— Aqui, no clube ou em qualquer outro lugar — observou Sherlock, apertando a mão de Mycroft —, você é meu irmão. Você cuida de mim. Agora é minha vez de cuidar de você... se eu puder.
— Você pode — falou Mycroft. — E vai. Sei que, quando você decide fazer alguma coisa, não desiste até tê-la feito. Essa é uma característica que nós dois herdamos de nosso pai.
O policial tossiu, e Sherlock, relutante, seguiu Amyus Crowe para fora da cela.
O som da porta de metal se fechando atrás dele fez Sherlock se encolher. Odiava pensar no que aquele mesmo ruído provocava em Mycroft.
— Para onde agora? — perguntou ele quando chegaram ao ar livre em Covent Garden.
— Você vai para Chancery Lane, que fica naquela direção — Crowe acenou vagamente. — E eu vou para... — ele parou e leu o cartão — Glassblowers’ Road, Chelsea. Voltaremos a nos encontrar mais tarde.
Crowe se virou e partiu sem olhar para trás, e Sherlock ficou onde estava, observando-o, inquieto. Estava sozinho em Londres – de novo. Não podia deixar de pensar no que acontecera na última vez.
Depois de um tempo, ele começou a caminhar na direção que Crowe havia indicado. Passou por tavernas e lojas, barracas de feira e esquinas nas quais se vendiam mercadorias em tabuleiros. E passou por muitas pessoas – pessoas de todo o tipo, de cavalheiros em finos trajes a moleques de rua maltrapilhos. Londres era realmente um caldeirão fervilhante de gente.
Ele estava quase perguntando a alguém o caminho para Chancery Lane quando viu uma placa na rua em que estava. Ele entrou no local indicado. A área era mais agradável; a julgar pelas placas de latão nos prédios, tratava-se de um bairro ocupado principalmente por escritórios de advocacia e consultórios médicos.
Depois de aproximadamente cinco minutos, encontrou a primeira gráfica. A localização fazia sentido agora: os advogados da área com certeza precisavam muito de serviços de impressão.
Nervoso, ele empurrou a porta e entrou.
O cheiro no interior da loja era uma versão mais intensa do que sentira no cartão: seco, bolorento e penetrante. O que Sherlock não esperava era o barulho. O tumulto de várias impressoras funcionando no fundo da loja tornava quase impossível ouvir a própria voz ao dizer:
— Com licença!
Um homem se virou e olhou para Sherlock. Ele vestia camisa de mangas curtas, mas usava um chapéu-coco. Tinha um bigode abundante que cobria não apenas a boca, mas também boa parte do queixo.
— Não temos vagas — disse ele. — Já tenho todos os aprendizes de tipógrafos de que preciso. Fora daqui!
— Preciso fazer uma pergunta — falou Sherlock.
O homem o encarou com desconfiança.
— O que é?
Sherlock entregou-lhe o cartão de visitas.
— Você imprimiu isto?
Ele o examinou de maneira crítica.
— Não. Agora fora.
Sherlock recuou enquanto o homem voltava ao trabalho. Se todos os tipógrafos fossem grosseiros como esse, a tarefa estaria terminada em poucos minutos, e sabe-se lá como passaria o tempo até a hora de encontrar Amyus Crowe outra vez.
O segundo tipógrafo era mais simpático. Dessa vez Sherlock conseguiu ver os fundos da loja, onde cilindros cobertos por pequenas letras de metal eram girados por garotos mais novos que ele, que empurravam com toda a força grandes alavancas. Os cilindros pressionavam longas tiras de papel que eram puxadas para trás, e assim surgiam letras impressas no papel. Os meninos também estavam cobertos de manchas de tinta, a pele branca pintada de preto.
Sherlock fez a mesma pergunta, mostrou o mesmo cartão, mas, apesar da simpatia e da prestabilidade do tipógrafo, a impressão também não havia sido feita ali.
Sherlock acertou na terceira gráfica.
O homem era alto e magro, com suíças que pendiam como fitas de suas faces magras. Olhando para ele e pensando no que Amyus Crowe dissera no trem sobre cada homem exibir as marcas de sua profissão, Sherlock começou a ver os sinais típicos de um tipógrafo: a tinta sob as unhas e nas articulações das mãos, os sulcos nas pontas dos dedos criados pelo esforço de remover os tipos das máquinas, os longos cortes retos nas palmas deixados pelas bobinas de papel. Todos os sinais estavam ali para quem quisesse ver.
— Ah, sim — disse o homem, assentindo. — Eu me lembro disso. Trabalho esquisito. Normalmente as pessoas pedem quatrocentos ou quinhentos cartões, porque eles são para se deixar com os outros, certo? Quero dizer, você não entrega seu cartão para alguém e depois pega o negócio de volta, não é? Mas esse camarada queria um cartão só. Ele me entregou um pedaço de papel com as informações anotadas. — O homem deu de ombros. — Liguei a máquina e imprimi esse único cartão. Disse que poderia fazer um cento por mais um xelim, mas ele disse que não queria. — O homem pensou por um momento. — Na verdade, ele não disse que não; saiu para falar com outro camarada lá fora, depois voltou e disse que não.
— Esse outro homem... Pode descrevê-lo?
— O engraçado — disse o tipógrafo — é que eu o reconheci. Ele não me reconheceu. As pessoas não se lembram de quem trabalha para elas.
— Eu não sou assim — garantiu Sherlock. — Eu vou lembrar.
— Então você é um homem melhor do que os outros. Eu trabalhava em uma gráfica na Drury Lane antes de comprar esta loja. Fazia muitos trabalhos para os teatros: programas, cartazes, pôsteres, esse tipo de coisa. Esse sujeito, o que ficou do lado de fora, aparecia às vezes. Tinha ligações com uma das tavernas da área. Trabalhava como segurança, jogava na rua as pessoas que bebiam demais ou que não tinham dinheiro para pagar a conta, ou quem brigava no teatro. Acho que era a Shaftesbury. Nós imprimíamos os cardápios, cartazes e coisas assim para eles.
— Pode descrever esse homem? — pediu Sherlock, prendendo a respiração.
O gráfico deu de ombros.
— Pequeno, como um cachorro whippet. Cabelos compridos e oleosos. Barba preta. Usava um casaco felpudo. De astracã, acho que é o nome. Não lembro como o sujeito se chama.
— Obrigado — respondeu Sherlock. — Se algum dia precisar de uma gráfica, vou me lembrar de você.
Ele se retirou triunfante. Consultou o relógio e viu que ainda faltava uma hora e meia para o encontro com Amyus Crowe. Haveria tempo suficiente para visitar a taverna Shaftesbury, talvez? Assim pelo menos poderia dizer a Crowe que, além de identificar o homem que havia contratado o morto, também o localizara.
Sherlock perguntou a uma mulher que passava onde ficava a Drury Lane, para então seguir na direção indicada. A caminhada levou apenas dez minutos.
A Drury Lane era uma rua cheia de teatros e tavernas. Alguns teatros eram obviamente mais baratos, oferecendo diversos números de variedades, como malabaristas, cantores e ilusionistas. Outros eram mais elegantes e exibiam peças clássicas. Alguns poucos apresentavam recitais de música, e Sherlock pensou em como sentia falta de tocar violino quando viu que uma mulher chamada Wilma Norman-Neruda (uma violinista!) estava em cartaz em um dos teatros.
Ele encontrou a taverna Shaftesbury descendo a rua, ao lado de um teatro que anunciava uma ópera cômica de F. C. Burnand e A. Sullivan chamada Cox and Box. Não parecia muito convidativo. Sherlock sentou-se na soleira da porta de uma taverna do outro lado da rua e se preparou para esperar. Curvou o corpo para o lado e apoiou a cabeça no batente para dar a impressão de que dormia, mas o tempo todo atento a um homem pequenino com cabelos longos e oleosos.
Aproximadamente quarenta e cinco minutos depois, um homem que correspondia àquela descrição saiu da porta da frente da taverna Shaftesbury. Vestia-se exatamente como na descrição do tipógrafo. O homem olhou para os dois lados da rua e depois seguiu para o lado direito.
Sherlock o seguiu. Talvez o homem o levasse ao local onde morava. Seria algo a dizer para Amyus Crowe!
O garoto seguiu-o descendo a Drury Lane, passou por um lugar chamado Seven Dials e continuou na direção da Trafalgar Square. Sherlock agora começava a reconhecer partes de Londres e tentava registrar na memória o maior número possível de informações. O homem virou à esquerda quando chegou à Trafalgar Square, passando pela ornamentada fachada marrom da estação de Charing Cross e pelo hotel Charing Cross. Ele andava depressa, e Sherlock tinha de correr para acompanhá-lo.
Em Aldwych, ele virou à direita, e Sherlock percebeu que seguiam em direção ao Tâmisa, para a ponte Waterloo. O homem parou em um guichê na extremidade da ponte e entregou algumas moedas.
Sherlock pensou depressa: deveria segui-lo ou seria melhor voltar e encontrar Amyus Crowe? Mas o que diria ao mentor? Que encontrara o homem que procuravam e então o perdera outra vez? Não, precisava continuar, tinha de ir pelo menos até o outro lado da ponte e ver em que direção ele seguiria.
Sherlock vasculhou os bolsos, à procura de algumas moedas. A passagem custava apenas um penny. Ele pagou e passou correndo pelo cobrador, aproximando-se de sua presa.
O homenzinho continuava andando sem olhar para trás ou para os lados.
Do outro lado da ponte, ele continuou na direção da estação de Waterloo, mas, em vez de entrar, virou à esquerda. Sherlock o seguiu, tentando esconder-se atrás de outras pessoas para não ser visto caso o homem se virasse.
Ele não se virou, mas fez uma curva repentina para a direita, entrando em uma passagem arqueada.
Quando Sherlock alcançou a arcada, parou e espiou com cautela pela abertura no dilapidado muro de tijolos. Estava escuro do outro lado, e ele não conseguia ver o homem.
Sherlock deu um passo adiante, depois outro, até estar com meio corpo nas sombras e a outra metade ainda sob o sol. Não havia nenhum sinal do homem.
Sherlock virou-se, pronto para voltar e encontrar Amyus Crowe.
O homenzinho com longos cabelos oleosos estava parado atrás dele.
— Você estava me seguindo — disse ele. — Quero ouvir você dizer por quê. E depois, só para me divertir, quero ouvir você gritar.

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