18 de agosto de 2017

Capítulo quatorze

SHERLOCK SE AGITOU DESESPERADAMENTE, TENTANDO se soltar, mas os dedos dos agressores permaneceram firmes. Um deles apertou uma faca em seu pescoço. A lâmina estava suja, como se tivesse passado anos enterrada no chão. A mensagem era clara; ele parou de resistir.
As figuras o fizeram se virar. Sherlock percebeu, estremecendo de medo, que as roupas deles estavam esfarrapadas e sujas, como se tivessem passado um bom tempo dentro do solo. Enterradas.
Abaixaram-se e pegaram os pés dele, levantando-o sem dificuldade. Apesar da aparência, os captores eram fortes. Sherlock foi carregado para fora do abrigo como um saco de batatas. Ninguém disse nada, mas o menino de repente percebeu que ouvia as criaturas respirarem. Uma delas chiava como se tivesse asma, enquanto as outras pareciam apenas homens normais carregando algo pesado.
Sherlock disse a si mesmo que homens mortos não precisavam respirar. Aqueles indivíduos não tinham cheiro de mortos. O menino conhecia o odor repulsivo e terrível de carne em decomposição: já vira vários animais abatidos no bosque. Pela aparência de seus captores, era de se esperar um fedor abominável, mas Sherlock sentia apenas cheiro de suor. Então não eram mortos. Aqueles homens apenas pareciam mortos. Mas por quê? E o que eles haviam feito com Virginia?
Sherlock olhou para baixo e viu os próprios braços marcados por aquelas mãos magras. O tecido de seu casaco estava manchado de tinta branca. Maquiagem? Nas mãos? O menino deu um suspiro de alívio. Ele não havia chegado a pensar que fossem pessoas mortas, mas ficou aliviado de corroborar a dedução. Achou que fazia sentido: se a ideia é que as pessoas acreditem que você está morto, é preciso se vestir a caráter. Mãos brancas e rostos brancos indicavam falta de circulação sanguínea. Se eles fossem vistos apenas de longe, como acontecera com Sherlock até o momento, era convincente.
Os sujeitos o levavam colina abaixo, afastando-se de Cramond. De cabeça para baixo e sendo sacudido, Sherlock de vez em quando via rostos de relance. De tão perto, percebeu, apesar da maquiagem branca, que havia barba por fazer nas faces e nos pescoços dos homens. Viu também minúsculos pedaços de papel grudados no rosto deles, para dar a impressão de pele seca e solta, e sombreamentos bem-realizados, que faziam parecer que o osso estava exposto. Em um dos sujeitos, as faces estavam pintadas de um jeito que, visto de longe, pareceria uma caveira sorridente. Era tudo disfarce e mentira. Fantasias.
— Digam-me aonde estamos indo! — exigiu Sherlock.
O “cadáver” à sua direita olhou para ele e sorriu. Os dentes estavam sujos de verde, como se fosse musgo, mas até isso era maquiagem.
— Você vem com a gente — grunhiu o sujeito, como se estivesse falando com a boca cheia de lama. — Vai ver Líder do Clã dos Mortos.
— Vocês não estão mortos — disse Sherlock. — Só estão fingindo.
O “cadáver” continuou sorrindo.
— Tem certeza? — perguntou ele. — Aposta sua vida nisso?
Sherlock ficou sem resposta.
Carregaram-no através de um terreno acidentado durante o que pareceu uma hora. Ele tentava olhar em volta para ver se encontrava Virginia, mas, se ela também estivesse sendo carregada, devia estar mais à frente, fora de vista. Tomara que ela tenha conseguido escapar, pensou ele.
Depois de algum tempo, Sherlock foi jogado no dorso de um cavalo. Seus braços e pernas foram amarrados por uma corda passada por baixo da barriga do animal, e prenderam o cinto do menino na sela para que ele não escorregasse durante a viagem. Um dos “cadáveres” montou no cavalo, e eles saíram a galope.
Sherlock ficou enjoado com o impacto repetitivo do traseiro do cavalo em sua barriga e o cheiro forte do animal. Estava sempre prestes a cair da sela, e se isso acontecesse, as pernas enormes do cavalo o acertariam diversas vezes até esmigalhar seus ossos. Sherlock firmou os membros da melhor forma possível, tentando não sair do lugar.
Sua cabeça balançava tanto, para cima e para baixo, que ele não conseguia ver por onde passava. Mas percebia vagamente que havia outros cavalos na sua frente e atrás. Estaria Virginia em algum deles? À medida que o desconforto piorava, Sherlock torcia para que ela não estivesse.
O barulho dos cascos do cavalo mudou. Eles não estavam mais cavalgando em chão de terra; era de pedra. Sherlock ouviu ecos, como se estivesse cercado de centenas de cavalos. Estava em alguma espécie de pátio de pedra. O animal diminuiu a velocidade e parou. Sherlock foi impelido para a frente, bateu de lado na parte de trás da sela e perdeu o ar.
Mãos o agarraram. Uma faca cortou as cordas que o prendiam ao cavalo. Ele foi carregado de novo, fraco e enjoado demais para sequer levantar a cabeça. Viu apenas paralelepípedos e um ou outro trecho de parede de pedra.
E sombras irrequietas. O lugar inteiro parecia iluminado por tochas.
Onde ele estava? O menino pensou na silhueta de granito do Castelo de Edimburgo acima da cidade. Eles certamente não haviam cavalgado o bastante para voltar a Edimburgo, não é? Será que havia outros castelos pela região?
Sherlock foi carregado por um corredor e para dentro de uma sala. Ouviu latidos e rosnados. Do outro lado do cômodo havia um espaço cercado. Homens olhavam para dentro dessa área com muito interesse, e alguns trocavam dinheiro. Pelos buracos da cerca, Sherlock viu dois cachorros grandes brigando. Eles pulavam um no outro, mordendo orelhas e arranhando olhos e pele. Sob a luz bruxuleante das tochas, Sherlock viu que havia sangue espalhado no chão. Um pouco daquilo era sangue fresco, mas também havia sangue seco. Cachorros – e provavelmente outras criaturas – lutavam ali havia algum tempo.
O menino foi levado para outra sala. Nessa, não havia área cercada – em vez disso, homens e mulheres se reuniam em volta de um círculo irregular marcado com giz no piso de lajotas. No centro, dois homens cansados fintavam e se encaravam. Estavam sem camisa, o tórax de ambos brilhando como se cobertos de óleo. Um deles tinha marcas de unhas ao longo do torso. O outro deu um pulo súbito para a frente. Agachou-se, pegou o adversário pela cintura, ergueu-o no ar e o jogou no chão.
A multidão foi à loucura, gritando e torcendo.
Depois de alguns instantes, Sherlock foi levado para fora dessa sala também. No cômodo seguinte, uma passarela corria ao longo das paredes, e no centro havia um fosso retangular que parecia uma piscina. Mas não tinha água, e era todo contornado por uma cerca de placas largas de madeira. Sherlock sentiu um cheiro rançoso, bestial.
Algo soltou um rosnado. O menino percebeu que havia algum bicho preso ali dentro. Era evidente que o animal tinha ouvido os homens carregando o menino, porque se jogou na cerca. As placas de madeira estremeceram. O que será que havia ali dentro?
Os homens apertaram o passo para chegar à porta do outro lado do cômodo, obviamente apavorados com aquela fera, qualquer que ela fosse.
Sherlock foi levado para uma sala grande e jogado no chão.
Ficou caído por um tempo, olhando para cima. Sentia como se seus braços e pernas tivessem crescido quase dez centímetros. Sabia que seu corpo estava todo coberto de hematomas. Considerando a situação, pensou, ele não estava em boas condições para enfrentar ninguém.
O teto era revestido de gesso branco em quadrados delimitados por vigas de madeira. Parecia antigo e era um tanto quanto impressionante, mas os cantos estavam cheios de teias de aranha, que pendiam como trapos cinzentos.
Sherlock fechou os olhos e aguçou os ouvidos. Escutou o crepitar de uma fogueira – lenha rachando com o calor – e um murmúrio no fundo que soava como se um grupo de pessoas estivesse aguardando algo – sussurros, risos, pés se deslocando. O som de uma plateia à espera do começo de uma apresentação. Sherlock sentiu o cheiro de suor e de comida, e misturado a tudo havia o odor rançoso do animal no fosso do outro cômodo.
Depois de algum tempo, o menino se sentou e olhou em volta.
Estava em um salão de pedra. Nas paredes, tochas incandescentes iluminavam tudo com um brilho avermelhado bruxuleante. Entre as tochas pendiam peças de tapeçaria que pareciam pedaços antigos de tapetes carcomidos por traças. E, em meio à tapeçaria e às tochas, cabeças empalhadas de animais, montadas em placas semelhantes a escudos. A maioria era de veados com galhadas grandes, mas tinha também alguns lobos de boca aberta, expondo as presas, e algo que Sherlock juraria ser um urso. Talvez devesse ficar feliz por não haver nenhuma cabeça humana na parede.
À sua frente havia um tablado, e sobre o tablado, uma cadeira. Parecia ter sido entalhada a partir de um tronco imenso. Na cadeira, estava sentado – esparramado, como um rei no meio da corte – um homem grande como Amyus Crowe, mas, se o americano costumava ser uma sinfonia de branco – cabelo branco, roupas brancas, chapéu branco – esse homem era um concerto de preto. Sua juba, as sobrancelhas cheias e a barba desgrenhada eram da cor da noite. O casaco xadrez e o kilt que ele usava eram também quase todos pretos, com uma ou outra linha branca ou vermelha. Como Crowe, ele devia ter uns cinquenta e muitos ou sessenta e poucos anos, mas, também como o mentor de Sherlock, parecia que o sujeito seria capaz de lutar com vários homens mais jovens ao mesmo tempo e vencer.
Havia diversos homens atrás dele. Pareciam boxeadores ou lutadores – muito musculosos, com nariz achatado e orelhas grossas e retorcidas. Eles também usavam casaco e kilt do mesmo tecido preto xadrez. Cores do clã – não era esse o termo que Matty havia usado? Isso indicava que aqueles homens faziam parte do mesmo clã?
O homem na cadeira olhou para Sherlock e ergueu uma sobrancelha.
— Então — disse ele, com um sotaque escocês mais pesado que um pedregulho —, esse é o outro garoto que os ianques estão procurando. — Ele ergueu a mão e fez um gesto para um dos homens às suas costas. — Traga os amigos do jovem. Vamos fazer uma pequena reunião de família antes da inevitável e trágica separação.
O sujeito assentiu e saiu por um portal em arco. Enquanto todos esperavam, Sherlock aproveitou a oportunidade para olhar em volta. De ambos os lados do tablado, um grupo variado de pessoas observava Sherlock ou o sujeito na cadeira. Havia homens, mulheres e algumas crianças, mas todos pareciam o tipo de gente que ganhava a vida de forma desonesta – olhos sérios e atentos, e pele que havia visto muito sol e muita chuva. Eles não usavam o mesmo padrão xadrez. Suas roupas eram uma mistura de remendos e tecidos surrados. Quando o menino via alguém usando um casaco que combinava com a calça, supunha que devia ser por acaso ou porque as peças haviam sido roubadas juntas. Em meio à multidão aglomerada em torno do tablado, Sherlock percebeu vários daqueles sujeitos esqueléticos de rosto branco. As outras pessoas não pareciam se incomodar com a presença deles – não como os fregueses da taverna. Os indivíduos estavam perfeitamente integrados, conversando com os companheiros; ninguém os evitava. Eles não agiam da forma como Sherlock vira antes, distantes, como se fossem cadáveres. O menino não sabia por que estavam vestidos daquela maneira, mas com certeza havia algum motivo.
A multidão se alvoroçou, interessada, e todos se viraram na direção da entrada em arco. Segundos depois, Crowe, Virginia, Rufus Stone e Matty foram trazidos aos empurrões. Eles olharam em volta para se situar. Crowe foi direto até Sherlock ao vê-lo no meio do salão.
— Garoto — disse Crowe, assentindo enquanto Sherlock se levantava. — Quando vi que eles tinham capturado Ginnie, imaginei que teriam pegado você também.
— Sinto muito por não ter conseguido protegê-la — falou Sherlock.
Crowe balançou a imensa cabeça.
— Não havia nada que você pudesse fazer — respondeu ele. — Esse pessoal é organizado. Pegaram-nos no alto do penhasco e nos trouxeram para cá.
Sherlock franziu o cenho.
— Acho que eles não trabalham para Bryce Scobell — disse ele. — Parecem ser daqui; parecem escoceses.
Crowe assentiu.
— Desconfio que sejam uma gangue criminosa dos arredores de Edimburgo. Parece que caímos nas mãos deles, embora eu não saiba muito bem o motivo, nem o que querem.
O homem que havia ido buscá-los deu um passo na direção de Crowe.
— Nada de conversa — rosnou ele, levantando a mão para dar um tapa na orelha de Crowe.
Tranquilo, Crowe pegou a mão dele e a torceu, fazendo o sujeito gritar e ficar de joelhos.
— Não aprecio ser tratado com grosseria — disse ele, baixinho —, e já estou farto disso. Ficaria grato se você pudesse parar.
O sujeito no chão se levantou com dificuldade, e dois brutamontes que estavam atrás do homem barbudo na cadeira avançaram para Crowe, mas o líder levantou a mão.
— Deixem-no, por enquanto. Ele tem coragem. Admiro isso em um homem. — O sujeito assentiu para Crowe. — Acalme-se, Sr. Crowe. Eu poderia mandar todos os meus rapazes para cima de você ao mesmo tempo, o que com certeza seria divertido de se assistir. Como você está vendo, gostamos de ver boas lutas aqui... e também de fazer apostas. O problema é que você causaria estragos a alguns dos meus homens, e preciso deles para outras coisas.
Crowe o encarou.
— Você está em vantagem em relação a mim, senhor. Sabe meu nome, mas creio que não fomos apresentados.
O homem se levantou. Era ainda mais alto do que Sherlock havia imaginado, e seu tórax era largo como um barril de cerveja.
— Meu nome é Gahan Macfarlane, do Clã Macfarlane, e tenho uma pequena proposta de negócios para você.
O nome “Macfarlane” ecoou na mente de Sherlock. Ele havia ouvido esse nome não muito tempo antes. Mas onde?
Crowe sorriu, mas sua expressão não mostrava muito humor.
— Você não me parece um homem de negócios — respondeu. — Está mais para bruto e bandido.
Macfarlane retribuiu o sorriso.
— Palavras fortes para um homem em desvantagem numérica. Existem muitos tipos de negócios, meu amigo, e muitos tipos de homens de negócios. Nem todos usam fraque e cartola.
— Então que tipo de negócio é a sua área de atuação?
— Ah, minha cartela de atividades é uma beleza. — Macfarlane passou o olhar pela corte, ao que todos riram, obedientes. — Digamos apenas que trabalho com seguros.
— Seria — respondeu Crowe, grave —, suponho, o tipo de seguro em que comerciantes da região lhe pagam certa quantia toda semana para garantir que não haja... acidentes?
— Correto — reconheceu Macfarlane. — E você ficaria surpreso com a frequência com que acidentes acontecem logo depois de algum comerciante decidir que já não pode mais bancar o tipo de seguro que ofereço. É um mundo perigoso. Lojas pegam fogo o tempo todo, e comerciantes são espancados por bandos de vagabundos sem qualquer motivo. Na minha opinião, ofereço um serviço público ao protegê-los desses perigos.
Crowe se virou para Sherlock.
— Extorsão — disse apenas. — Comerciantes esforçados e inocentes pagam para que esse homem não mande os capangas darem uma surra neles, destruírem as mercadorias ou incendiar as lojas. É um ganha-pão bastante desonesto.
Macfarlane deu de ombros.
— É a natureza, nua e crua — disse ele. — Todos os animais têm medo de alguma coisa, algo que possa matá-los e comê-los. Não é diferente em Edimburgo. As pessoas daqui fogem dos impostos sempre que possível. Os comerciantes vendem cerveja e pão, mas diluem a bebida com água e põem serragem no pão para economizar farinha. Eu apareço e pego a minha parte. É a vida, meu amigo. — Ele sorriu. — Somos chamados Saqueadores Negros — disse, com orgulho. — E somos conhecidos e temidos daqui até Glasgow.
Sherlock se lembrava de ter lido o nome nos jornais de Edimburgo. Os Saqueadores Negros eram aquela gangue tão temida.
— Então do que você tem medo? — perguntou o menino, ousado. — Quem pega uma parte de vocês?
Macfarlane virou a cabeça barbada para Sherlock.
— Estou no topo da cadeia alimentar por estas bandas, rapazinho — respondeu ele, sério. — Não tenho medo de ninguém. — Ele voltou a olhar para Crowe. — E sejamos justos: não me meto com prostituição, chantagens, sequestros nem nada disso. Aliás, nada que afete crianças. Deixo isso para bandidos de categorias inferiores. Tenho meus critérios. — Ele deu de ombros. — Às vezes uma ou outra carteira roubada ou casa invadida. Ou de vez em quando alguns homens nas docas deixam algum caixote cair e quebrar e pegam algumas coisas. Não organizo os crimes, nem os executo, mas os ladrões me dão uma parcela pelo privilégio de atuar em meu território.
— Um criminoso com moral — debochou Crowe. — Que comovente.
— Um criminoso com uma postura prática — corrigiu-o Macfarlane. — A polícia fica mais agitada com sequestros, chantagens e assassinatos do que com roubos e extorsões. Tento não chamar a atenção deles.
— Então existe alguém acima de você na cadeia alimentar — comentou Sherlock.
O homem fez uma careta.
— Até o urso evita atiçar o vespeiro — retrucou.
Interessante, pensou Sherlock. Esse era um ponto sensível para o sujeito.
O menino passou o olhar pela corte de Macfarlane, todos bandidos e ladrões. E, claro, pelos “cadáveres” espalhados pela multidão.
— Mas por que fingir que você controla pessoas mortas? — continuou Sherlock. — Quer dizer, está tudo muito bem-feito, muito convincente, mas não entendo a finalidade.
— Eu governo pelo medo, rapazinho — respondeu Macfarlane. — As pessoas aceitam ser extorquidas porque têm medo do que vai acontecer se não pagarem. Descobri que sou mais temido se todo mundo achar que tenho poderes que ninguém entende. Às vezes alguém tenta enfrentar meus homens, tenta fazê-los recuar ou lhes dar dinheiro, mas como ameaçar ou subornar um cadáver? Se as pessoas acreditarem que posso controlar os mortos, terão um medo mortal de mim e continuarão me pagando. — Ele riu. — Alguns já não nos chamam mais de Saqueadores Negros... chamam-nos de Ressuscitadores Negros, pois ressuscitamos os mortos!
— Mas são apenas pessoas fantasiadas e maquiadas para parecerem cadáveres — observou Sherlock. — Ninguém percebe?
— As pessoas acreditam no que querem acreditar. Edimburgo é um lugar sombrio. As pessoas daqui querem acreditar que os mortos podem andar. Depois de Burke e Hare, das partes na cidade que foram enterradas e de todas as histórias de fantasmas envolvendo o castelo, não tive muito trabalho.
— Por mais fascinante que seja — disse Crowe —, não vejo bem o que temos a ver com o seu belo empreendimento. Não somos ladrões e não somos comerciantes. O que exatamente estamos fazendo aqui?
— Ah — exclamou Macfarlane. — Esta é uma pergunta interessante. Ouvi falar que alguém novo na região estava procurando um grupo. Estava procurando um homem grande de cabelo branco e um sotaque estranho que viajava com uma menina de cabelo ruivo vestida com roupas de menino. Na verdade, disseram que a menina talvez até estivesse disfarçada de menino, mas que ela poderia ser reconhecida pela cor incomum dos olhos. — Ele fez um gesto na direção de Crowe e Virginia. — E aqui estão vocês... um homem grande de cabelo branco e um sotaque estranho, e uma menina de olhos da cor da flor do tojo. Quando me disseram que vocês tinham sido vistos perto de Cramond, decidi dar uma olhada pessoalmente. Queria ver o que vocês tinham de tanto valor.
— Valor? — perguntou Crowe.
Ele tinha uma expressão grave no rosto. Parecia saber o rumo daquela conversa cheia de lacunas, e Sherlock também já imaginava.
— Ah, não comentei? Dizem que existe uma recompensa pelo homem e pela menina que descrevi. Vivos, é claro. Falou-se de quinhentas libras. É uma quantia considerável por estas bandas. Não há recompensa se estiverem mortos. Na verdade, falam de uma ameaça específica caso eles sejam mortos sem querer. — Ele sorriu para Crowe. — Não sei quem vocês são nem quem irritaram, mas tem alguém muito ansioso para encontrá-los. Não que seja importante, mas poderia me dizer por que querem tanto vocês?
Crowe encarou Macfarlane.
— Todo mundo tem medo de alguma coisa — murmurou.
Macfarlane assentiu.
— Palavras corajosas — disse ele. — Mas você está aqui e não parece muito assustador. Mandei uma mensagem ao homem que estava oferecendo a recompensa por sua captura. Ele chegará em breve. E então veremos o que acontece.
— E os meninos? — perguntou Crowe, fazendo um gesto com a cabeça na direção de Sherlock e Matty. — Você disse que nunca machuca crianças. Eles se envolveram nesta história por acaso. Eu agradeceria se pudesse considerar a possibilidade de libertá-los. Não existe recompensa por eles, e dou-lhe minha palavra de honra de que causarei menos problemas se você os soltar.
Macfarlane refletiu por um instante.
— É verdade que não sou de aceitar violência contra jovens — disse ele, pensativo.
— Eu não vou embora! — gritou Sherlock.
Crowe o repreendeu:
— Você vai se eu mandar, garoto — chiou. — Não sabe do que Bryce Scobell é capaz.
— Mas...
Crowe ergueu a mão.
— Não discuta. É melhor que sejamos só nós dois enfrentando Scobell do que todos os cinco. Eu ficaria mais tranquilo se soubesse que você e o jovem Matthew estão em segurança. — Ele se virou para Macfarlane. — E então? Temos um acordo?
Macfarlane o encarou por um tempo.
— Por um lado, você tem razão... não existe nenhuma recompensa específica pelos garotos. Por outro, eles são sagazes, e acho que, por mais que você diga que não, talvez esteja mais disposto a cooperar se eu os deixar aqui. Então, não, não temos um acordo. Estou com todas as cartas na mão e não vejo motivo algum para me desfazer de nenhuma tão cedo.
Algo ainda pipocava nas profundezas da mente de Sherlock, algo sobre o nome “Macfarlane”. Ele tentou dar liberdade para que o pensamento brotasse, para que ficasse mais à vista. Algo que ele havia ouvido aqueles dias? Não, algo que ele havia visto.
— Aquele assassinato! — disse ele de repente, quando a lembrança emergiu de seus pensamentos. — De Sir Benedict Ventham. — Ele tentou pensar nas imagens dos jornais: o que ele lera no trem de Farnham para Londres e o que lera no parque da Princes Street. — A mulher que prenderam... o nome dela era Macfarlane, e o jornal dizia que havia alguma relação entre ela e os Saqueadores Negros.
Foi como se um silêncio de repente cobrisse todo o salão. O rosto de Macfarlane pareceu assumir uma expressão de fúria.
— Minha irmãzinha — rosnou ele. — Que isso tenha acontecido com ela! Ela nem tem culpa! Não faria mal a uma mosca!
— Ela é parente do líder de uma gangue criminosa — disse Crowe, nervoso. — Suponho que a polícia tenha dado uma olhada na árvore genealógica e a jogado na cadeia.
Macfarlane se levantou, desceu do tablado e foi até Crowe. Os dois ficaram cara a cara, nariz com nariz. Tinham a mesma altura e eram igualmente enormes e cabeludos. A única diferença era que o cabelo de Gahan Macfarlane era todo preto, não branco.
— Ela não é culpada de crime algum — disse Macfarlane, bem baixo, as palavras caindo no silêncio tenso do salão como pedras em uma poça imóvel de água. — Ela sempre detestou esse ramo em que comecei a atuar. É uma moça temente a Deus, e nada jamais mudaria isso.
— Às vezes coisas estranhas acontecem — disse Crowe, também em voz baixa. — Talvez esse Sir Benedict Ventham a tenha atacado, e ela tenha precisado se defender.
— Ela escreveu para mim. — Macfarlane não piscava. Encarava Crowe, desafiando o americano a continuar procurando motivos para que sua irmã pudesse ser culpada. — Jurou para mim, pela Bíblia, que não fez nada que pudesse ter resultado na morte dele, e que lamentava isso como lamentava a morte do nosso próprio pai. Acredito nela.
— Nesse caso — disse Sherlock, alto —, eu tenho uma proposta de negócios para você.

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Boa leitura :)