30 de agosto de 2017

Capítulo onze

— VOCÊ TEM CERTEZA?
— Ah, sim. Está muito claro.
Sherlock rapidamente passou os dedos de círculo a círculo novamente. Cameron estava certo.
— Dê-me outra folha.
Cameron lhe passou a próxima folha. Sherlock pareou o canto superior esquerdo do mapa, mas desta vez os círculos apenas coincidiam ocasionalmente com alguma letra nos nomes de lugares. Ele franziu a testa, pensou por um momento, então deslizou a folha de lado até o canto superior direito do mapa, juntando os dois. Rapidamente ele verificou os círculos. Todos tinham letras dentro.
— Inteligente. É uma boa forma de se trabalhar a ordem das folhas. Começando com superior esquerdo, em seguida, superior direito, então presumivelmente canto inferior direito e inferior esquerdo.
— O que diz a mensagem?
Sherlock deixou seu dedo deslizar ao longo das linhas. Cada vez que ele chegava a um círculo, ele falava a letra realçada. Ele tentou guardá-los em sua mente, mas depois de cinco ou seis, perdeu o controle.
Quando chegou ao último círculo, ele solicitou:
— Certo, o que temos aí?
— Nada que faça algum sentido.
Sherlock considerou por um momento.
— Vamos inverter a ordem. Talvez tenhamos acidentalmente começado com o último círculo em vez do primeiro desta vez.
Cameron anotou uma versão invertida da mensagem abaixo do que já tinha escrito.
— A explosão vai ser atribuída a rebeldes Taiping inocentes — ele leu sem fôlego.
— Os rebeldes Taiping? Eles não são os chineses da etnia han? Seu pai não dizia que eles queriam derrubar os governantes Manchu? — perguntou Sherlock.
Cameron concordou.
— É isso mesmo, eles fazem um pequeno ataque ocasional a uma cidade, ou assumem uma aldeia por um tempo. Eles são mais um incômodo do que qualquer outra coisa. Eles não têm nenhum poder real.
— Mas se as pessoas pensarem que de repente eles explodiram um navio militar norte-americano, vão levá-los a sério — Sherlock apontou.
— Mas por que eles querem explodir um navio militar norte-americano? Quero dizer, por que as pessoas acreditariam que eles querem explodir um navio militar norte-americano, quando todo mundo sabe que eles têm como alvo os Manchu do país?
Sherlock deu de ombros.
— Talvez eles queiram tão desesperadamente a China para os chineses que se ressintam de qualquer influência externa que seja. Talvez pensem que os governantes Manchu são corruptos aceitando suborno do governo americano. Mas as razões não importam – os rebeldes Taiping são um bode expiatório conveniente para quem quer que esteja por detrás do ataque. O imperador chinês enviará o exército para caçá-los como cães. Ele vai ter que enviar.
— Pior do que isso. — Cameron parecia sombrio. — E nem posso imaginar como o governo americano reagirá. Eles enviarão a Marinha.
— Isso pode levar à guerra! — Sherlock falou, horrorizado.
— E onde há uma guerra, há oportunidades de comércio.
Sherlock olhou para Cameron.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que, como a classe dominante, os funcionários Manchu tem atualmente o domínio sobre todo o comércio da China. Tudo flui através de suas mãos – eles podem ditar os preços, chegam até a decidir o que é comprado e vendido. Isso deixava meu pai furioso. Ele queria que houvesse liberdade completa para os comerciantes ocidentais para comprar e vender qualquer coisa, e pudessem competir entre si quando quisessem, sem ter que pagar subornos aos funcionários Manchu. Um mercado livre. Mas se houver uma frota americana inteira esperando na costa, e se o imperador se curvar para o embaixador americano para impedir o início da guerra, então os comerciantes americanos terão uma mão superior. A América terminará por anexar toda esta área e transformá-la em um trigésimo oitavo estado.
— As oportunidades comerciais são o que importam? — Sherlock perguntou, incapaz de acreditar no que ouvia.
— A seda e a prata que saem da China poderiam tornar um comerciante ocidental milionário — Cameron sombriamente. — E cada camponês chinês é um cliente em potencial para os bens ocidentais – vocês britânicos descobriram isso com o comércio de ópio. Os Estados Unidos querem uma parte tão grande disso quanto possível.
Sherlock olhou para os outros dois diagramas de teia de aranha.
— Nós precisamos descobrir o que essas duas últimas mensagens dizem — ele falou severamente.
Naquele momento os dois meninos já tinham dominado o processo. Levou apenas alguns minutos para decodificar a terceira mensagem. Dizia: “A explosão será em Snake Bite Hill no rio Yangtzé. Evite a área a todo custo. Não viaje no USS Monocacy se for convidado.”
Cameron olhou para Sherlock.
— Quem enviou essa mensagem a meu pai falava de assassinato em massa como se fosse outra tática para fazer dinheiro — ele falou. — Não parecia se importar que as pessoas fossem morrer! Eles falam sobre sacrificar toda a tripulação do Monocacy e qualquer chinês que for pego na explosão também.
Sherlock assentiu.
— Acho que eles pensam ser um preço pequeno a se pagar pelos benefícios comerciais que se seguirão. A única coisa que faria com que a Marinha Americana bloqueasse os portos chineses e fosse para a guerra contra o imperador seria a morte de um grupo de americanos.
— O que você acha que há na última mensagem? — Cameron perguntou.
— Acho que posso até adivinhar — Sherlock murmurou.
A última levou menos tempo ainda: '‘Se prepare para tirar proveito do caos político e econômico para fazer o melhor que puder, para o benefício das empresas norte-americanas. Estamos contando com você.”
— Não posso acreditar que meu pai estava envolvido nisso — Cameron sussurrou. Seu rosto estava sem cor e sua voz estava rouca.
— Se serve de consolo, não acho que ele pretendia prosseguir com isso — Sherlock apontou. — não acho que ele fosse fazer parte disso.
— O que o faz pensar assim?
— Bem, nós sabemos que ele estava esperando a mensagem, mas a julgar pela forma como ele agiu no café da manhã, ele realmente não gostou do conteúdo. Sabemos que foi até a residência do prefeito com uma mensagem urgente. Acho que ele decidiu que não poderia participar disso e queria alertar as autoridades.
— E então ele morreu. — Cameron olhou para Sherlock, e seus olhos estavam vermelhos de tristeza e – raiva. — A morte dele foi acidental, Sherlock?
Sherlock balançou a cabeça.
— Seria uma grande coincidência se fosse. Não, acho que ele foi assassinado para que não pudesse avisar ninguém. — Ele estendeu a mão e apertou o braço de Cameron. — Eu... sinto muito.
— Mas ele já comunicou o prefeito — Cameron lamentou. — Não havia nenhum motivo para matá-lo!
Sherlock balançou a cabeça novamente.
— Acho que a mensagem foi interceptada por aquela... coisa... que o seguia, seja lá o que fosse. Acho que ele viu a mensagem sendo recebida pelo funcionário e de alguma forma entrou na residência e a recuperou. Eu sei que ele parou de seguir seu pai assim que ele passou a mensagem para frente. As chances são de que parou de segui-lo e passou a perseguir a mensagem em seu lugar.
— A mensagem pode ter sido tomada e escondida por alguém de dentro da residência – alguém que tenha sido subornado.
— Um amigo meu me disse uma vez que a explicação mais simples geralmente é a certa. Neste caso já sabemos que algo seguis seu pai. Faz mais sentido então supor que a coisa, então, pegou a mensagem, em vez de inventar um funcionário subornado para fazer o mesmo trabalho.
— Mas como podemos saber que a mensagem foi realmente interceptada antes de chegar ao prefeito?
— Porque — Sherlock disse severamente — se ela tivesse chegado ao prefeito, você teria sua casa cheia de oficiais chineses agora – e, é claro, não haveria motivo em matar seu pai.
— Então... então você acha que meu pai estava tentando fazer a coisa certa?
— Acho que sim. Mais do que isso, acho que ele foi punido por esse motivo.
— Por quem?
— Bem, essa parte é algo que precisamos descobrir o quanto antes.
— Mas quem realmente enviou as mensagens?
Sherlock deu de ombros.
— Para quem seu pai trabalhava?
— Ele não trabalhava para ninguém — disse Cameron. — Quero dizer, ele tinha acordos com várias empresas nos Estados Unidos de quem ele representava os produtos aqui na China, e tinha comissão sobre as vendas, mas ele não se reportava a ninguém.
— Suspeito que alguém de uma dessas empresas o contatou e lhe contou que eles tinham um plano que aumentaria o valor de seus bens em uma centena de vezes. Suponho que eles o envolveram nisso sem dizer exatamente o que ia acontecer. No momento em que ele percebeu a verdade, já era tarde demais. Ele estava nisso até o pescoço.
Cameron de repente parecia confuso.
— Mas o que isso tem a ver com o seu amigo cozinheiro, o Wu Chung? Por que ele foi morto?
— Estive pensando nisso. Ainda acho que foi por que ele conseguiu acidentalmente um emprego como assistente cozinheiro no USS Monocacy. — Sherlock pensou por um momento. — Acho que Wu Chung encontrou algo a bordo do navio que teria revelado os seus planos, e eles tiveram que matá-lo por isso.
— Você se lembra do que ele disse? — perguntou Cameron lentamente. — Ele falou que esteve no Monocacy e notou que o cozinheiro chefe tinha solicitado muitos barris de água. Ele lhes disse que o navio estava indo para um rio de água doce, onde poderiam obter água quando quisessem, então por que teria solicitado tantos barris?
— Você acha que havia algo naqueles barris? — Sherlock franziu o cenho. — Será que havia explosivos dentro deles?
Cameron deu de ombros.
— É necessário uma grande quantidade de explosivos para explodir um navio do tamanho do Monocacy. Havia um monte de barris. Pelo menos foi o que Wu Chung falou.
— Suponho que os conspiradores poderiam fazer algo com os motores a vapor em vez disso — Sherlock meditou. — Você sabe, aumentar a pressão ou algo assim até que ele explodisse.
— Mas haveria engenheiros e outras pessoas em torno dos motores o tempo todo. Eles brincarem com os controles, depois deixarem a pressão aumentar gradualmente levaria muito tempo, e alguém seria obrigado a ver o que acontecia. Não, a solução mais óbvia seria levar explosivos para dentro.
— Disfarçado como barris de água — Sherlock concordou, balançando a cabeça. — Faz todo o sentido.
— Então o que faremos sobre isso?
Sherlock olhou para Cameron. Cameron olhou de volta.
— Poderíamos contar às autoridades de Xangai — Sherlock sugeriu.
— Mas meu pai já tentou isso, e claramente falhou. Mesmo se pudéssemos contar a alguém, eles não acreditariam em duas crianças com uma história maluca como essa.
— Poderíamos mandar uma mensagem para o capitão do USS Monocacy.
— Mas nós não saberíamos, com certeza, se a mensagem chegou a eles a tempo ou não. Mesmo se soubéssemos, por que eles acreditariam em uma mensagem anônima dizendo que o navio iria explodir? Ele amassaria e jogaria fora.
— Então...
— Então... a única coisa que podemos fazer — Cameron respondeu — é subir o rio atrás do Monocacy, entrar a bordo e de alguma forma contar ao capitão nós mesmos. Você o conhece, e ele conhece meu pai. Ele pode nos dar atenção quando não daria a qualquer outro que ele não conhecesse.
Sherlock acenou com a cabeça lentamente.
— Não consigo ver qualquer outra opção. Tem que ser a gente — Cameron respirou lentamente. — Será uma jornada interessante. Já estive no Yangtzé antes, mas não fui muito longe. Meu pai me levou para pescar algumas vezes...
— Como faremos a viagem? — perguntou Sherlock. — A cavalo?
— Lento demais — disse Cameron, balançando a cabeça. — O terreno é pantanoso ao longo das margens do rio. Para alcançá-los em terra firme, teríamos que fazer uma longa volta. O Monocacy faria um tempo melhor seguindo o rio do que nós seguindo a estrada. Não, o melhor seria a barco. Há pequenos veleiros que descem e sobem o rio. Eles são eficientes com a velocidade. O Monocacy é limitado por seu peso. Acho que conseguimos alcançá-lo.
— Então é melhor irmos imediatamente. — Sherlock hesitou. — E sua mãe... o que você vai dizer a ela?
O olhar de Cameron tremulou para Sherlock, então desviou. Havia uma expressão triste em seu rosto.
— O médico a sedou. Disse que ela dormirá por horas. Dias, talvez. — Havia um brilho de lágrimas nos olhos. — Ela amava meu pai intensamente. Cada vez que ela acorda e percebe mais uma vez que ele está morto, o médico diz que ele pode ter que sedá-la novamente...
Houve silêncio por um longo tempo.
— E quanto a você? — Sherlock perguntou eventualmente. — De quanto tempo precisará para conseguir lidar com isso?
— Meu pai está morto. Eu sei disso, Sherlock. Ele não vai voltar. Não vou conseguir nada ficando aqui. Eu quero fazer alguma coisa! Quero pegar as pessoas que o mataram! Quero fazer a diferença!
— Eu entendo.
— Você não entende — respondeu Cameron suavemente. — Com todo o respeito, Sherlock, não estou certo se um dia entenderá. Você não é como as pessoas comuns. Não se importa da mesma forma. Mas obrigado por estar aqui, de qualquer maneira, e muito obrigado por me ouvir... Agora, vamos subir o rio Yangtzé e impedir o navio de explodir, ou ficaremos aqui conversando?
— Há mais uma coisa de que precisamos — Sherlock apontou.
— O que seria?
— O filho de Wu Chung – Wu Fung-Yi.
Cameron olhou para ele sem expressão.
— O quê?
— Precisamos de um nativo, alguém que conheça o rio. Até localizarmos e contratarmos um barqueiro, será tarde demais. A única pessoa que conheço que pode nos ajudar é Wu Fung-Yi. — Sherlock pausou. — E lembre-se que mataram pai dele também. Ele tem tanto interesse nisso como nós.
— Você tem razão — disse Cameron. — Como eles conseguiram exatamente introduzir uma cobra no escritório do meu pai e fizeram com que ela o mordesse? Como introduziram a mesma cobra no quarto de Wu Chung e fizeram que o mordesse? Isso me parece uma coisa muito arriscada de se fazer. Deve haver melhores formas de se matar alguém.
— Mas eles não queriam que fosse óbvio que o seu pai foi assassinado. — Sherlock apontou. — E certamente não queriam que fosse óbvio que Wu Chung foi assassinado. Isso faria as pessoas suspeitarem de imediato, e poderia haver uma investigação. Fizeram ambos os assassinatos parecerem acidentes – e pelo o que pude perceber, em um país como este, picadas de cobras são um risco bastante normal, no dia a dia. — Ele franziu o cenho.  — Até mesmo duvido que fosse realmente uma cobra. Você estava certo – seria arriscado demais. As serpentes são animais imprevisíveis, suponho. Eles não tinham como garantir que ela cooperaria. Não, quanto mais penso sobre isso, mais eu suspeito que alguém usou algum tipo de dispositivo que injetou o veneno. O usaram nas costas de Wu Chung enquanto ele dormia. E enfiaram no braço de seu pai enquanto ele estava distraído. Provavelmente continha veneno real que foi coletado de uma cobra de verdade algum tempo antes, mas era uma arma mais controlável. Como uma seringa hipodérmica ou algo assim.
— Isso explicaria como eles entraram no quarto e no escritório — disse Cameron — mas, mesmo assim é um pouco arriscado, não é? Quero dizer, esgueirar-se ao redor da casa das pessoas?
— Isso depende de quem está se esgueirando furtivamente. Se for um funcionário robusto das docas de dois metros de altura, então sim, pode ser notado. Mas se fosse alguém menor...
— Como aquela coisa que você viu no jardim, e depois seguindo meu pai?
Sherlock assentiu.
— Seja lá o que fosse, era do tamanho certo para entrar na casa de alguém e injetar o veneno enquanto não estivessem olhando. — Ele cerrou o punho. — Se eu pudesse descobrir o que é.
— Mas e sobre as diferenças de tempo que levou para Wu Chung e meu pai morrerem? — perguntou Cameron. — Mesmo se for um dispositivo sendo usado para injetar o veneno, então deveria trabalhar da mesma forma.
— Podem haver n diferenças. Nós não sabemos — Sherlock deu de ombros. — Talvez o veneno que eles usaram em Wu Chung fosse de um lote mais antigo, mas eles conseguiram um veneno mais recente para usar em seu pai. Talvez tenha sido uma cobra diferente, com um veneno mais poderoso. Nós simplesmente não sabemos – ainda não, de qualquer forma.
— Eles não tentarão nos impedir? — o rosto de Cameron estava determinado. — Espero que tentem. Quero conhecê-los.
— Acho que, provavelmente, eles estão nos observando — Sherlock confirmou. — Por isso precisamos estar alertas.
Cameron ergueu o revólver de seu pai.
— Estou pronto para eles.
— Vamos ter certeza de que estamos pegando as pessoas certas em primeiro lugar. — Sherlock olhou ao redor do escritório. — Vamos levar as mensagens e o mapa com a gente. Podemos precisar usá-los para convencer o capitão Bryan. Você precisa contar a alguém para onde está indo?
— Deixarei um bilhete. Direi que preciso de um tempo para mim mesmo. As pessoas vão entender. Estará um caos por aqui, de qualquer maneira. Eu ficaria surpreso se alguém notasse que fui embora.
Dez minutos depois, os dois rapazes saíam de casa. O sol da tarde mergulhava em direção ao horizonte. Feirantes começavam a arrumar seus produtos para irem para casa. Sherlock percebeu que ele estava com fome. Ele queria se assegurar de que ele e Cameron teriam algo para comer. Suspeitava que o amigo não devia estar com fome, mas também sabia que tinha que mantê-lo com a energia alta.
Cameron agarrou o braço de Sherlock enquanto atravessavam a estrada.
— Espere — disse ele. — Olha lá.
Sherlock seguiu o dedo indicador de Cameron. De pé a alguns metros de distância havia uma figura pequena, com os cabelos escuros de Wu Fung-Yi. Ele os estava observando.
Depois que percebeu que eles o tinham visto, ele se aproximou. Ele acenou para Cameron.
— Eu ouvi a má notícia — disse ele sombriamente. — Sinto muito por sua perda.
— Obrigado. E... eu entendo a sua perda agora de uma forma que não entendia antes.
— Está acontecendo alguma coisa — disse Wu Fung-Yi, sorrindo tristemente. — Alguma coisa estranha. Vocês já sabem sobre o que é. Meu pai sabia disso, e eu sei agora.
— É por isso que você está aqui? — perguntou Sherlock.
— Eu gostaria de ter alguém com quem pudesse conversar sobre. — Wu Fung-Yi deu de ombros, sem jeito. — Não a minha mãe. Ela acredita que meu pai foi morto por uma cobra, mas eu lembro das coisas que você disse sobre quão difícil teria sido para uma cobra entrar na casa. E sei o quanto trabalhei para preencher todos os buracos nas paredes. — Seu olhar cintilou de Sherlock para Cameron e de novo para Sherlock. Era como se ele quisesse confiar algo a eles, mas não tivesse certeza de como fazê-lo. — Eu vi algo, naquela noite — ele falou mais calmamente. — Eu não disse antes porque pensei que vocês poderiam pensar que eu estava louco. Não contei à minha mãe também. — Ele respirou fundo, obrigando-se a continuar. — Eu estava dormindo, mas fui acordado por um barulho. Pensei que talvez fosse meu pai vagando pela casa. Eu não estava acostumado a tê-lo por lá – ele roncava, e se revirava em seu sono, e fazia todo tipo de sons. Lembro-me de olhar para o lado de fora do meu quarto, e... — ele hesitou. — E havia algo lá. Uma sombra. Era pequena demais para ser minha mãe ou meu pai, e imóvel demais para ser um gato, um cão ou um macaco. Eu não podia ver seus olhos, mas sabia que ele estava me observando, então fiquei parado. Depois de um tempo, ele não estava mais. — ele estremeceu. — Havia algo maligno naquilo. Eu podia sentir o seu olhar em mim, queimando como brasas. Pensei que poderia ser um espírito maligno, mas agora sei que foi a coisa que matou meu pai.
— Nós a vimos também — Sherlock confirmou. — Não sabemos o que é, mas sabemos que tem algo a ver com o que está acontecendo. — Sherlock olhou para Cameron, depois de volta para Wu Fung-Yi. — Vamos falar enquanto andamos — sugeriu ele. — Precisamos pegar logo um barco para subir o rio. Você pode nos ajudar?
— Isso vai ajudar a explicar a morte do meu pai?
Sherlock assentiu.
— Vai.
— Então me contem.
Enquanto atravessavam a cidade, Sherlock e Cameron explicaram para Wu Fung-Yi exatamente o que eles achavam que estava acontecendo. Sherlock percebeu que eles estavam saindo de Xangai em uma direção em que nunca foram antes.
— Pensei que estivéssemos indo para o porto. Não é onde o rio Yangtzé começa? Quero dizer, o rio tem que fluir para o mar, não é?
— Isso é verdade — disse Wu Fung-Yi por sobre o ombro. — Mas o rio se alarga consideravelmente lá, e as correntezas são traiçoeiras. Se você quiser subir o rio, então faz mais sentido cortar caminho e enfrentá-lo um pouco mais acima. Confie em mim, eu sei o que estou fazendo.
Depois de um tempo, Sherlock notou que eles estavam se aproximando da muralha da cidade. Havia outro portão ali, mas este era guardado por apenas um guarda e ele simplesmente observava as pessoas que entravam e saíam. Presumivelmente, o risco de haver estrangeiros ali era menor do que na zona portuária.
— Este é o Portão da Fênix Virtuosa — explicou Cameron, sussurrando enquanto se aproximavam. — Se nos separarmos por qualquer razão, nos encontraremos de novo aqui.
Eles saíram sem problemas. Além da cidade uma comprida estrada de terra levava para a zona rural montanhesca da China. Os três meninos partiram em direção ao rio Yangtzé.
— Qual o plano? — Sherlock perguntou enquanto caminhavam.
— Meu tio tem vários veleiros — disse Wu Fung-Yi. — Tenho certeza que ele cederá um para nós se eu pedir. — Ele suspirou. — A notícia sobre meu pai não chegou a ele ainda. Terei que contar a ele.
A paisagem fora dos muros da cidade era montanhosa, tornando difícil ver muito longe. A estrada serpenteava, mas Sherlock percebeu que quanto mais longe de Xangai, gradualmente aumentava o declive. Era larga, e usada por muitas pessoas. Carroças iam em ambas as direções, para a cidade e para longe dela. Estavam carregadas com feno, vegetais, madeira e todo tipo de coisas, inclusive alguns que Sherlock não reconheceu. Havia outras coisas na estrada que deixaram Sherlock surpreso. Alguns agricultores locais empurravam carrinhos de mão com uma única roda na frente e um mastro erguido na parte de trás, onde havia uma tela de tecido vermelho: os agricultores aproveitavam as fortes brisas que sopravam em todo o campo para ajudá-los a empurrar os carrinhos de mão. Era uma ideia tão óbvia que Sherlock não conseguia descobrir por que ninguém na Inglaterra tinha feito isso antes.
Enquanto caminhavam, o chão sob seus pés tornou-se encharcado. Nos campos que margeavam a estrada haviam plantas que cresciam até a altura de um homem. O solo fora alagado, e Sherlock podia ver grupos de tubos de bambu trazendo água do rio para os campos, e comportas que eram abertas ou fechadas para inundá-los.
— O que está plantado aqui? — ele perguntou a Wu Fung-Yi.
— Arroz — disse o menino. — Estes são os chamados campos de arroz. Nós os mantemos inundados, assim cresce mais arroz do que qualquer outra coisa. É a base da nossa alimentação.
— Igual a batata na Inglaterra — Sherlock murmurou.
Finalmente a estrada fez uma curva ao redor de uma última colina, e ali estava uma grande extensão de água azul salpicada de cristas de ondas brancas.
— O rio Yangtzé — disse Wu Fung-Yi. — Agora o trabalho duro começa de verdade.

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