18 de agosto de 2017

Capítulo onze

O CORAÇÃO DE SHERLOCK GELOU, mas, antes que pudesse perguntar a Rufus por que o nome de Virginia estaria escrito na testa do homem calmo, o músico ergueu uma sobrancelha, como se subitamente tivesse acabado de entender algo que fora dito alguns segundos antes.
— Então vocês sabem onde Amyus Crowe está?
— Ele publicou uma mensagem no jornal — respondeu Matty. — Tava em código, mas a gente decifrou.
Sherlock olhou para o menino e ergueu uma sobrancelha pelo “a gente”, mas Matty apenas abriu um sorriso inocente.
— Bom trabalho. — Rufus olhou em volta. — Precisamos sair daqui antes que nosso amigo volte.
Os três desceram a escada e atravessaram o cômodo do térreo, desviando-se dos dois brutamontes que continuavam gemendo e se retorcendo de dor.
Rufus parou e os encarou por um instante. Um brilho em seus olhos sugeria que ele pensava em retribuir um pouco da dor que os dois haviam lhe causado, mas ele se virou e continuou andando.
— Poderíamos interrogá-los — falou, pensativo, como se ainda estivesse tentado pela ideia — mas eles parecem difíceis de dobrar.
— Não sei — disse Matty, acompanhando o olhar dele. — Já parecem bastante dobrados.
Rufus os conduziu para o ar livre. O céu encoberto parecia revestido por uma película metálica, espalhando uma luminosidade sombria sobre a paisagem. Sherlock olhou em volta, curioso. Presumira que tivessem sido levados para uma casa, mas, ao ver o edifício de onde saíram e os outros que o cercavam, percebeu que se enganara. Os prédios, um colado no outro, eram estreitos e tinham seis andares. Os quarteirões eram divididos por becos apertados que pareciam trilhas retas entre penhascos verticais. No nível do térreo havia portas e mais portas, uma ao lado da outra, e nos andares superiores havia janelas, das quais mais da metade estava sem vidro. Os edifícios pareciam vazios e sem alma, mais próximos de formigueiros do que de lugares habitados por pessoas.
— O que são esses prédios? — perguntou Sherlock.
Curiosamente, foi Matty quem respondeu:
— Cortiços — disse ele. — Eu me lembro da última vez que passei por aqui. Tem em todo canto. São lugares baratos onde mora gente pobre, mas a pessoa acaba ficando com apenas dois cômodos, empilhados junto dos cômodos de outras pessoas como se fossem gaiolas de passarinho. Os cômodos são todos iguais: portas iguais, reboco igual, janelas iguais. Quem mora tenta dar uma personalizada, com cortinas, vasos e coisas assim, mas é que nem botar um pedaço de fita para decorar um caixote empilhado com um monte de outros. Só mostra como tudo é sem graça. — Matty fungou. — E cheira a repolho cozido.
— O lugar parece deserto — comentou Rufus. — Uma base de operações perfeita para nossos captores de além-mar. Como será que eles descobriram isto?
— Quando eu vim aqui antes — continuou Matty —, ouvi um boato de que as autoridades tavam tentando tirar as pessoas dos cortiços. Parece que queriam vender o terreno para construir fábricas, mansões ricas ou algo do tipo. As pessoas com quem eu falei me disseram que as autoridades espalhavam um boato de que uma doença, como tuberculose ou a peste, tinha se espalhado pelo cortiço. Eles levavam todo mundo para um abrigo e então demoliam o cortiço e construíam outra coisa no terreno. E nisso eles ganhavam muito dinheiro. — Matty baixou o tom de voz até um sussurro. — Ouvi que, às vezes, se não tinha vaga nos abrigos, eles levantavam um muro para fechar os acessos dos cortiços e deixavam as pessoas lá dentro morrerem de fome, mas não acredito nisso.
— O problema — disse Rufus, pensativo — é que não fazemos ideia de onde estamos, não temos como ir embora daqui e não podemos pedir ajuda a ninguém.
Sherlock olhou em volta. Ainda tinha no bolso o mapa, mas não serviria de nada.
— Acho que nos carregaram até o prédio a partir dali — disse ele, apontando para um beco entre dois edifícios. — Não fizeram nenhuma curva, e esse é o único caminho reto.
— A carroça já deve ter sumido — comentou Matty, sério. — Aquele cara que tava fazendo as perguntas deve ter ido embora nela.
Rufus balançou a cabeça.
— Ele tinha a própria carruagem. Foi assim que me trouxe para cá. Só ele e um condutor, que ficou esperando por ele dentro do veículo.
— Como os dois homens que nos sequestraram no parque ainda estão no cortiço — concluiu Sherlock —, a carroça ainda deve estar lá.
Os três se entreolharam por um instante, depois seguiram às pressas para o beco que Sherlock indicara. O beco se abria para uma rua de terra batida que levava para longe dos cortiços. Do outro lado da rua, alguns cavalos magros e fracos pastavam em um terreno baldio coberto de mato.
Sherlock não resistiu ao impulso de comparar a cena com o chalé de Amyus Crowe em Farnham: um local bonito e rústico junto a um campo onde Sandia, a égua bem-cuidada de Virginia, pastava feliz.
Ali, porém, tudo parecia uma inversão sombria daquele lugar que ele conhecia: sequências de edifícios idênticos com aspecto de prisões ficavam junto de uma faixa de terreno árido onde alguns cavalos, que pareciam irmãos esquecidos de Sandia, haviam sido deixados para morrer.
Ao olhar para uma das portas dos cortiços, Sherlock percebeu movimento. Estreitou os olhos, tentando ver o que era. Uma cortina balançando ao vento? Um pombo ou uma gaivota se acomodando no ninho?
Algo branco se mexeu na escuridão depois da porta. Dessa vez, Sherlock percebeu rapidamente que era uma caveira. As cavidades oculares profundas, a superfície careca da cabeça, as proeminências marcadas da face e o sorriso sinistro – outro morto o encarava!
A figura recuou para a penumbra antes que Sherlock pudesse chamar a atenção de Matty ou Rufus Stone. O menino observou a sequência de portas desesperadamente. Será que estava mesmo enlouquecendo? A maioria das portas estava vazia, mas... sim, ali! Havia outra figura esquálida e branca nas sombras, observando-o. Mas a figura recuou para a escuridão assim que percebeu que havia sido vista.
Aquelas criaturas tinham alguma relação com os americanos que os haviam capturado ou seriam alucinações, fruto de uma mente fragilizada?
Ele olhou para Matty e viu que o menino também encarava a porta do cortiço. Virou-se para Sherlock.
— Você viu aquilo? — perguntou Sherlock, desesperado.
Matty assentiu.
— Eram os mortos ambulantes, não eram? Eles estão nos seguindo. Eles querem a gente.
— Não acredito que mortos possam andar.
— Por que não?
— Você já viu coelhos mortos em açougues e peixes mortos em barracas nos mercados?
— Já. E daí?
— Eles nunca se mexem. Jamais. Quando alguém morre, a chama vital desaparece. Some. Só resta a carne, e a carne se decompõe. Animais mortos não voltam à vida, então pessoas mortas também não.
Matty não pareceu se convencer.
— Não tenho tempo para discutir com você — disse ele.
— Vamos! — gritou Rufus. — Precisamos sair daqui antes que eles voltem!
Havia uma carroça parada à beira do caminho, o cavalo preso a uma árvore mirrada. O animal parecia em condições muito melhores do que os que pastavam do outro lado da rua.
— Aquilo — disse Rufus — vai nos levar para casa... quer dizer, se ao menos soubéssemos como chegar lá.
— Eu decorei o caminho — respondeu Sherlock. — Posso comparar os tempos e inverter as curvas, e assim refazer a rota até o hotel.
— Mas precisamos cobrir sua cabeça com um saco — murmurou Matty. Ele olhou para Sherlock e sorriu. — Para que seja igual à viagem para cá. Senão, você talvez erre o trajeto.
Os meninos subiram na caçamba da carroça, e Rufus se acomodou no assento do condutor. Ele tentou agitar as rédeas, e o cavalo começou a trotar como se alguém tivesse disparado uma arma. O animal não parecia gostar de estar perto dos cortiços.
Sherlock se levantou atrás dos ombros de Rufus, segurando-se em uma tábua, e tentou inverter o caminho que eles haviam feito. O menino presumiu que a carroça seguia mais ou menos na mesma velocidade, então só precisava se lembrar das curvas e do tempo aproximado e inverter a sequência e, claro, a direção. Para cada curva que eles haviam feito à direita saindo do centro da cidade para os cortiços, precisariam agora fazer uma à esquerda para voltar.
Ele sentia o pescoço latejar, e seus tornozelos estavam em carne viva por causa da corda. Cada vez que respirava, sentia um aperto na garganta, como se a cartilagem tivesse sido empurrada para dentro. No entanto, pior do que as dores físicas era a sensação de impotência que o tomara quando ele estava pendurado no quarto do cortiço. Ele já havia corrido risco de morte antes, mas sempre acreditara que seria possível fazer algo, lutar de alguma forma. Até se lembrar da faca que trazia no bolso – da faca de Matty – ele estivera completamente à mercê do homem calmo. Estivera a segundos de uma morte lenta e dolorosa.
Se não tivesse ficado com a faca de Matty, se seu amigo não tivesse falado para ele guardá-la, não teria conseguido escapar. Estaria morto.
A sobrevivência podia depender de circunstâncias tão triviais como essa. A ideia o incomodava. Ele olhou para Rufus, que também estava ferido, e se perguntou se ele também pensava nessa questão.
Levaram meia hora, e duas curvas na direção errada, até chegarem ao parque na Princes Street.
— Certo — disse Rufus. — Para onde agora?
Sherlock olhou para Matty.
— Você quer falar? — desafiou ele. — Afinal, a gente descobriu.
— Não. — Matty sorriu. — Pode falar.
— Eles estão escondidos em um lugar chamado Cramond. Já procurei no mapa e sei o caminho. Devemos levar mais ou menos uma hora para chegar lá.
— Vamos comer alguma coisa antes — disse Stone —, e tomar um banho. Não sei quanto a vocês, mas estou faminto.
Depois que eles comeram e se lavaram, Matty surrupiou um cachecol de algum lugar, e Sherlock o enrolou no pescoço para cobrir as marcas. Então, seguindo as direções de seu aluno, Rufus guiou a carroça para fora da cidade. Demorou um pouco até deixarem as casas para trás e entrarem na região rural, e durante mais ou menos meia hora Sherlock sentiu a presença da forma escura do Castelo de Edimburgo se erguendo acima deles, empoleirado em seu imenso monte rochoso. O céu cinzento e pesado refletia o estado de espírito de Sherlock. O que havia começado como uma aventura para encontrar seus amigos agora parecia algo muito mais sombrio e desagradável. Alguém queria ferir Amyus Crowe, com certeza. A pergunta era: por quê? No entanto, qualquer que fosse o motivo, Sherlock parecia ter indicado o caminho até ele sem querer. Agora, o máximo que podia fazer era chegar a Amyus Crowe antes que seus inimigos descobrissem seu paradeiro.
Sherlock olhou para trás na estrada. Queria conferir se havia alguém a cavalo, ou alguma carroça ou carruagem acompanhando-os de longe mas sem nunca ficar muito para trás. Não viu nada, mas achou que precisaria fazer algo mais para identificar um possível perseguidor. Em duas ocasiões, pediu que Rufus guiasse para fora da estrada e escondesse a carroça atrás de um celeiro por vinte minutos enquanto ele próprio observava atentamente cada veículo ou cavaleiro que passava. Não reconheceu ninguém, e nenhum passante demonstrou confusão por ter perdido de vista alguma pessoa que estivesse seguindo.
A certa altura, enquanto o trio esperava, Sherlock inclinou-se para Rufus.
— Achei que você tivesse sido capturado pela Câmara Paradol, lá no trem — disse ele.
— Por que você pensou isso? Não vimos nem ouvimos um pio deles desde Moscou... tirando aquela tentativa de fazer com que você fosse diagnosticado como louco e internado.
Sherlock fez uma careta ao lembrar.
— Acho que vi o Sr. Kyte na estação de Newcastle. Ele estava atrás de um monte de bagagem, olhando para mim. — O menino hesitou, sentindo um aperto no peito. — Achei que a Câmara Paradol talvez tivesse decidido se vingar de alguma forma por termos estragado seus planos. Acho que eles ainda querem acertar as contas comigo, e com você.
— Seja como for — disse Rufus, dando de ombros —, não vi o Sr. Kyte na estação. Se tivesse visto, teria pegado aquela barba ruiva enorme e a enfiado toda pela goela dele. Um conselho, Sherlock: nunca confie nos ruivos, seja homem ou mulher. Eles nasceram para causar problemas.
— Virginia é ruiva — comentou Sherlock.
Rufus se virou para o menino e o fitou com uma expressão de advertência.
— Nesse caso, meu amigo, você tem um problema.
Pouco à vontade com o rumo que a conversa tomara, Sherlock disse logo:
— O que você acha que essas pessoas querem com o Sr. Crowe?
— O mesmo que você parece achar que a Câmara Paradol quer conosco: vingança.
— Mas o que o Sr. Crowe fez para eles?
— Amyus Crowe é uma fera complicada — respondeu Rufus. — Por um lado, ele é civilizado, justo e muito educado. Por outro... — Ele hesitou. — Digamos assim: acho que, se descobrirmos mais sobre o passado do Sr. Crowe, talvez não gostemos de tudo o que encontrarmos.
— Ele nos disse que foi um espião da União contra os Confederados durante a Guerra entre os Estados — protestou Sherlock. — E depois disso foi responsável por perseguir e capturar criminosos confederados que haviam saqueado cidades civis durante a guerra.
— Sim — reconheceu Rufus —, ele nos disse isso. Mas não detalhou tudo o que fez para capturar esses criminosos, e não falou quantos ele conseguiu levar à Justiça e quantos acabaram morrendo em tiroteios antes que fossem presos. Lembre-se, Sherlock, Amyus Crowe é um caçador de recompensas. Ele caça homens em troca de dinheiro. — Rufus suspirou. — Só que agora parece que está sendo caçado, e não por dinheiro. Esses homens querem dar o troco.
— Você não gosta dele, não é?
Rufus sorriu.
— Ah, deu para perceber? Não, ele não é o tipo de homem que eu convidaria para se sentar à minha mesa em uma taverna, para tomar uma cerveja e fumar um cachimbo. Acho que não teríamos muito assunto para conversar, mas teríamos muitos motivos para discutir. Tenho um enorme respeito pela santidade da vida humana, e acredito que o Sr. Crowe não precisaria de muito incentivo para tirar a vida de outro homem. E o pior: ele não gosta de música.
Sherlock ficou em silêncio por um momento, digerindo o que Rufus Stone dissera. Não encontrou nenhum erro na lógica nem na maneira como ele descrevera Amyus Crowe, mas também não pôde conciliar as palavras duras com o sorriso amigável que já vira no rosto do Sr. Crowe, nem com a forma como o professor o acolhera e cuidara dele. Será que todas as pessoas eram assim – complicadas e difíceis de serem compreendidas? Em caso afirmativo, o que dizer do próprio Rufus Stone? Ou de Mycroft?
Ou dele mesmo?
Sherlock afastou aquele pensamento. Preferia acreditar que as pessoas exibiam na superfície uma imagem do que eram de verdade.
— Quantos americanos você acha que estão aqui na Inglaterra caçando o Sr. Crowe? — perguntou ele depois de um tempo.
— É impossível saber — murmurou Rufus. — Havia três lá no cortiço. Contando o condutor da carruagem do líder, considerando que ele seja parte do grupo e não apenas alguém contratado para o dia, sabemos que restam dois. O problema é que pode haver outros, que não sabemos.
— Tinha dois me carregando — disse Sherlock.
— E dois me carregando — acrescentou Matty.
— Então são no mínimo quatro pessoas ainda à solta. O problema é que, se o líder veio para cá com dinheiro, pode contratar qualquer reforço que precisar, pessoas de qualquer nacionalidade. Em qualquer cidade grande nas Ilhas Britânicas existe gente disposta a matar a própria avó em troca de uma noite de bebida e apostas. — Rufus suspirou. — É muita gente ruim no mundo, e são escassas e preciosas as pessoas boas que as enfrentam.
— Tudo bem — disse Sherlock. — Um homem bom vale por dez ruins.
Matty bufou, e Rufus o encarou com uma expressão cética.
— Se o mundo funcionasse assim, as coisas seriam muito melhores.
— Quando eu crescer — murmurou Sherlock —, vou fazer com que sejam melhores.
— Quer saber? — disse Rufus, com um sorriso estranho. — Acho que vai mesmo. Tanto você quanto seu irmão, mas de maneiras radicalmente diferentes.
— Mas, ao contrário de Mycroft, não vou trabalhar para o governo.
— Por que não? — perguntou Matty.
— Não gosto de receber ordens — respondeu Sherlock, sério. — De ninguém. Sei que às vezes é preciso, mas não gosto.

Quando voltaram para a estrada, não havia ninguém à vista. Aparentemente, eles haviam saído da cidade sem serem seguidos.
A paisagem era formada por afloramentos rochosos e porções acidentadas cobertas de vegetação rasteira. O terreno era tão irregular que os trechos nivelados da estrada duravam apenas alguns minutos, e Rufus precisava se desviar do caminho para contornar algumas partes rochosas maiores.
Cramond ficava no litoral: um conjunto de chalés de granito com teto de palha. Os blocos de pedra das casas eram entremeados por camadas de mofo de um estranho tom esverdeado; pareciam aglomerações de algum tipo de alga que, trazida por uma tempestade, proliferara em vez de morrer. O ar cheirava a maresia, e gaivotas guinchavam como bebês abandonados.
Quando a carroça contornou uma colina, Sherlock de repente viu o mar se estendendo abaixo deles. O sol tocava a crista das ondas e as fazia brilhar com um tom hipnótico, pontos de luz dançando diante de um pano de fundo cinzento-esverdeado. As ondas mais próximas da costa quebravam em linhas paralelas de espuma branca que apareciam de repente, flutuavam um pouco e voltavam a sumir.
— Bom, aqui é Cramond — disse Rufus quando eles começaram a descer para o povoado. — Alguma ideia de aonde vamos agora?
— Sempre podemos perguntar se alguém viu um americano grandão de terno e chapéu brancos — sugeriu Matty.
— Acho que ele deve ter se desfeito das roupas chamativas — comentou Sherlock. — E nós dois já o vimos entrar em tavernas e outros lugares e fazer perguntas com um sotaque inglês tão bom que era como se ele tivesse crescido a alguns quilômetros de Londres. Não, o Sr. Crowe é um caçador com a habilidade de se adaptar ao ambiente de tal forma que só é possível reparar nele se ele quiser. A esta altura, já deve estar com um sotaque escocês tão perfeito que convenceria qualquer um de que nasceu em Edimburgo.
— Então repito a pergunta: alguma ideia de aonde vamos agora?
Sherlock pensou por um instante.
— Sabemos que ele quer que nós o encontremos, porque nos enviou uma mensagem em código. Então vai deixar um rastro que apenas nós possamos seguir, ou vai presumir que eu consigo descobrir. Não vai ficar no centro do povoado, porque estaria muito exposto. Por mais que ele mude o sotaque e as roupas, não tem como disfarçar a altura. E ele está com Virginia. Então vai arranjar um lugar isolado, e provavelmente vai esconder Virginia. — Sherlock deixou a mente trabalhar livremente nos diversos parâmetros do problema. — Ele não vai alugar um chalé nas estradas principais que entram e saem do povoado — murmurou —, porque seriam grandes as chances de que alguém o visse. Ele preferiria algum lugar alto, para que pudesse ver qualquer um se aproximando de longe, e para que tivesse a vantagem do terreno elevado. Se alguém o encontrasse, teria que se aproximar devagar, subindo, enquanto ele poderia jogar pedras e outras coisas pelo declive. — Sherlock franziu o cenho. — Talvez escolha um lugar no alto de uma colina, para que ele e Virginia possam escapar em qualquer direção se forem atacados, mas isso significa que qualquer pessoa hostil poderia vir de qualquer lado, enquanto ele só poderia vigiar uma direção de cada vez, ou duas, se Virginia ajudasse. Não: é mais provável que ele tenha escolhido algum lugar perto do topo de uma colina, mas em uma fenda, uma depressão ou algo assim, de modo que qualquer aproximação tenha que ser feita pela frente.
— Isso restringe as opções — disse Rufus. — Podemos perguntar a alguém se há chalés assim por aqui.
— Tem um jeito melhor — disse Matty.
— Como?
— Garotos da minha idade. — Matty apontou para o próprio peito com o polegar, para dar ênfase. — Tem garotos como eu em qualquer cidade ou povoado. Eles vão para todo canto e veem tudo. Não tem como segurá-los. É só acharmos um e darmos uns trocados. Ele vai saber onde o Sr. Crowe tá escondido.
— Melhor ainda — acrescentou Sherlock —, o Sr. Crowe provavelmente está lhes pagando. Ele sabe que esses moleques — o menino lançou um olhar de desculpas para Matty — vão para todo canto e veem tudo. Vai dar um trocado para todos ficarem de olho no caso de alguém desconhecido aparecer. E vão ficar de olho em nós também.
Animados por essa estratégia, eles avançaram para o centro do povoado. Sempre que passavam por um garoto sozinho ou em grupo, com cabelo bagunçado e roupas sujas, Matty pulava da carroça e ia abordá-lo. Sempre voltava balançando a cabeça, dizendo que não conseguira nada, mas Sherlock percebeu que, cada vez que os três se afastavam, o garoto solitário ou alguém do grupo ia embora.
Todos iam mais ou menos na mesma direção.
— Devemos seguir algum deles? — perguntou Rufus depois de um tempo.
A carroça estava parada em uma rua de terra perto do centro do povoado.
— Não — responderam Sherlock e Matty juntos.
— Eles devem ter ido avisar algum outro garoto, um mais velho, que centraliza as mensagens — explicou Sherlock.
— E esse vai mandar alguém falar com o Sr. Crowe — acrescentou Matty. — Se a gente chegar perto desse garoto mais velho, só vamos conseguir fazer com que ele dê no pé, e aí voltaremos à estaca zero.
— Considerando a extensão do serviço de inteligência do Sr. Crowe — disse Sherlock —, é melhor esperarmos aqui. Quando ele receber as mensagens, vai mandar alguém ao nosso encontro.
De fato, passado algum tempo, um menino sujo e desarrumado se aproximou deles. Estava descalço, os pés quase pretos de sujeira.
— Tarde! — disse Rufus, tocando a testa.
— Tenho umas perguntas para fazer a vocês — disse o menino, com um sotaque escocês carregado.
— Vá em frente.
— Qual é o nome do cavalo da guria?
— Guria? — perguntou Sherlock.
— A garota — explicou Matty. — Virginia.
— Ah. — Sherlock falou mais alto. — É Sandia.
— Certo. E qual é o nome do seu cavalo?
Sherlock sorriu. Isso acabara virando uma piada entre ele e Virginia.
— Ele ficou um bom tempo sem nome, mas no final batizei-o de Philadelphia.
— Certo — confirmou o menino. — E qual é o seu sobrenome do meio?
— Scott — disse Sherlock. — Sou Sherlock Scott Holmes.
— Vamos lá então. Vou levar vocês até onde querem ir. — Quando Rufus agitou as rédeas para fazer o cavalo andar, o menino acrescentou: — Melhor deixar a carroça aqui. Vamos subir ladeira.
Ele conduziu os três por uma trilha fora da estrada e colina acima, pulando de pedra em pedra e de montinho em montinho. Sherlock, Matty e Rufus seguiram-no da melhor forma possível. A trilha era íngreme, e o corpo castigado de Sherlock teve dificuldade para acompanhar o ritmo. Depois de alguns minutos, ele ofegava e sentia algo raspar no fundo do peito. Os tornozelos começaram a doer no ponto onde a corda havia apertado, e em dez minutos as fisgadas se estendiam pelos músculos da panturrilha. Mas ele continuou andando. Não tinha escolha. Percebeu que Rufus estava penando também.
A trilha passava diante de vários chalés espalhados pela encosta da colina, com vista para a cidade abaixo e o mar. De quando em quando, Sherlock olhava a paisagem por cima do ombro. O mar parecia um lençol levemente ondulante – cinzento agora, visto do alto, e não verde como quando ele o vira ao chegar ao povoado – e era possível ver áreas mais escuras onde, Sherlock supôs, havia depressões súbitas na areia abaixo da superfície. A água tocava a terra ao longo de um cais de pedra, onde havia uma série de barcos de pesca ancorados, os mastros balançando ao sabor das ondas. De maneira geral, era uma paisagem extraordinariamente pacífica. Apesar da dor nas pernas e no peito, Sherlock sentiu o aperto no coração relaxar de algum modo. Matty parecia sentir o mesmo.
Passaram por uma capela de pedra e um cemitério – o ponto mais alto da área do povoado. Depois disso, começaram a escalar, pelo mato alto e cardos. Os gritos das gaivotas os acompanhavam. Ao olhar para trás, para o mar, Sherlock percebeu que haviam subido tanto que as gaivotas agora voavam abaixo deles.
Depois de vinte minutos de escalada intensa, chegaram a um ponto onde a colina se elevava à direita e à esquerda. Seguiram então por uma garganta estreita no meio, com um aclive ligeiro, cercada de penhascos rochosos imensos pelos dois lados. Olhando por cima do ombro, o menino disse:
— Subida difícil mais adiante. Preparem-se.
Ele tinha razão. Depois de uns trinta metros de aclive constante, por entre os penhascos cada vez mais próximos, os quatro chegaram a um trecho onde o terreno à frente era uma subida íngreme de uns três metros. Não era tão vertical quanto os penhascos de ambos os lados, mas ainda assim era bastante íngreme. A única possibilidade era escalar usando tanto as mãos quanto os pés. Quando chegaram ao topo, Sherlock olhou para trás. Ficou impressionado com a altitude em que estavam. Lá longe viu a linha escura onde o céu cinzento encontrava o oceano, também cinzento.
O caminho continuou cada vez mais estreito até uma curva abrupta à direita, de modo que o final da garganta – se algum dia chegassem lá – ficava oculto. Seguiram escalando, exaustos de tanto esforço.
Depois de alguns minutos, Sherlock olhou para trás mais uma vez. Viu a beirada do trecho que eles haviam escalado com as mãos e os pés, mas, fora isso, não havia mais nada além do céu. A descida era muito íngreme.
Enfim, quando terminaram de contornar a curva na garganta, viram um chalé isolado. Feita com o mesmo granito cinzento e afetada pelos anos de tempestades, a construção parecia ter brotado da colina. Estava encravada em uma fenda em V, onde a garganta terminava de repente, e o chão entre a curva e a fenda estava cheio de pedras variadas que haviam caído dos penhascos ao longo dos anos.
Dos dois lados, paredões rochosos se elevavam até o topo da colina. Se aquele era o esconderijo de Amyus Crowe, tinha a aprovação de Sherlock. A única via de acesso era uma subida, pela frente. Por toda a volta, um paredão rochoso erguia-se pelos lados e por trás. Qualquer pessoa que tentasse descer por ali arriscaria a própria vida.
O menino que os conduzia parou diante das janelas do chalé. Esperou ali, enquanto Sherlock, Rufus e Matty se juntavam às suas costas, e então uma das janelas se abriu e se fechou. Um sinal de que eles podiam se aproximar. De repente, Sherlock imaginou Amyus Crowe sentado dentro do chalé, apontando uma arma grande para a janela. Se alguém se aproximasse sem esperar para ser identificado ou receber o sinal para seguir em frente, Sherlock não tinha dúvida de que ele abriria fogo.
O menino escocês se virou e falou:
— O homem grande diz que vocês podem entrar.
— Obrigado — respondeu Sherlock. Por impulso, ele enfiou a mão no bolso e pegou uma moeda. — Agradecemos a ajuda — acrescentou, estendendo a moeda.
O menino olhou para o dinheiro com uma expressão triste.
— O homem grande nos paga bem — disse ele, mantendo as mãos junto ao corpo. — Ele diz que quem aceita dinheiro de dois senhores não merece a confiança de nenhum.
Sherlock assentiu e recolheu a mão.
— Bom conselho — disse ele.
O menino desceu a colina assoviando.
— E agora? — perguntou Matty.
— Agora vamos descobrir o que é que está acontecendo — respondeu Sherlock, indo na direção do chalé.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)