7 de agosto de 2017

Capítulo onze

A SEMANA SEGUINTE FOI COMO um sonho febril. Após alguns dias em Londres, integrando-se à companhia teatral enquanto Mycroft providenciava os últimos detalhes da viagem, Sherlock embarcou em um trem na estação de Charing Cross com toda a equipe. Se fosse na estação de Waterloo, ele talvez ficasse mais nervoso, pensando na perseguição pelos túneis sob a estação, mas Charing Cross era um lugar menor que não lhe trazia lembranças ruins. O trem os levou pela familiar área rural da Inglaterra até Dover, onde fizeram a transferência para um barco que atravessou o canal da Mancha em direção à França. Em Dunquerque, o grupo embarcou em outro trem, e em três dias eles estariam em Moscou. Três dias para atravessar a Europa! Incrível!
As acomodações eram relativamente simples. Os assentos quase não tinham estofamento e não havia camas. Em vez disso, o grupo dormia sentado, esticando as pernas sempre que possível em poltronas vizinhas.
Os músicos, a quem Sherlock não fora apresentado, sentavam-se juntos e pareciam dormir ou jogar damas em pequenas mesas dobráveis o tempo todo. Apenas Mycroft e o Sr. Kyte tinham reservados, como era adequado ao status de gerente geral e diretor de elenco da Companhia Teatral Kyte. Eles ficavam a maior parte do tempo sozinhos.
Sherlock passava boa parte do tempo à janela, observando a paisagem passar depressa. Nomes que ele só havia visto nos atlas de repente ganharam vida diante dele: países como Bélgica e Prússia; cidades como Bruxelas, Colônia, Berlim, Varsóvia e Minsk...
Ele estava olhando pela janela, vendo grandes bosques de abetos passarem, quando a Sra. Loran sentou-se a seu lado.
— Você parece solitário — disse ela. — Pensei que gostaria de conversar um pouco.
— Estou bem. Apenas... fascinado com a forma como algumas coisas mudam quando viajamos, como idiomas e comidas, e outras, como plantas e animais, permanecem mais ou menos as mesmas. Há sempre pássaros e gatos, por exemplo.
— E salsichas — comentou ela. — Não acredito que exista um país no mundo que não tenha salsichas. — Ela o observou com simpatia por um instante. — Seu mentor, o Sr. Sigerson, não parece ter muito tempo para você nesta viagem.
— Ele está ocupado — explicou Sherlock, sentindo que devia defender Mycroft.
— Mesmo assim, era de se esperar que, por tê-lo colocado sob sua proteção, ele se disporia a cuidar de você em vez de deixá-lo sozinho. — Ela inclinou a cabeça. — Ele não parece muito interessado no seu bem-estar.
— Ele tem muitas coisas no que pensar. — Incomodado, Sherlock tentou mudar de assunto. — Você atua há muito tempo?
A mulher olhou além dele, para o lado de fora da janela.
— Ah, às vezes sinto que tenho atuado toda a minha vida — murmurou.
A paisagem ia mudando à medida que seguiam cada vez mais para o leste. A pequena parte da França que Sherlock tinha visto e o grande trecho da Bélgica que havia atravessado eram uma mistura de florestas em tom verde-escuro e campos verde-claros. Mas, atravessando a Prússia e ao entrar na Rússia, a paisagem foi ficando cada vez mais alagadiça e a temperatura despencou até que pequenos lagos se congelaram e havia neve cobrindo o solo. As pessoas pareciam menores e mais sombrias, ou talvez as nuvens baixas que pairavam constantemente afetassem sua percepção.
Em certo ponto, Sherlock atravessou o vagão para ver como Mycroft estava. Seu irmão se encontrava sentado no compartimento, recostado em almofadas, e definitivamente não parecia bem. Estava cercado de livros abertos e fazia anotações em um pequeno bloco. Quando Sherlock bateu à porta e a abriu, ele o encarou.
— Sim?
— Queria ver se estava bem.
— Não, não estou. O balanço infernal deste trem perturbou meu sistema digestivo. Estou tentando me distrair com livros, mas eles não ajudam muito.
— Há algo que eu possa fazer?
— Deixe-me sozinho para sofrer em paz — disparou Mycroft. — Não estou com vontade de conversar neste momento.
Sherlock recuou e fechou a porta. Ele ficou do lado de fora do compartimento do irmão por alguns momentos, sem saber o que fazer. Não se lembrava de ter se sentido tão inútil e solitário desde a primeira vez que entrara na casa dos tios em Farnham.
Ele se virou para sair dali, mas algo chamou sua atenção. Era alguma coisa perto da porta do compartimento do Sr. Kyte, ao lado do batente: algo marrom do tamanho e com o formato aproximado de seu polegar, com um pequeno pedaço de barbante preso. O garoto se abaixou para pegar aquilo. Quando seus dedos envolveram o objeto, e ele cedeu levemente sob a pressão, Sherlock percebeu, surpreso, que era um rato. Um rato morto. O que pensou ser um barbante era o rabo. Um rato morto? Imaginava que os trens deviam ter ratos, como as casas. Ele olhou em volta, à procura de um lugar para deixar o animal morto, mas a porta do compartimento do Sr. Kyte abriu um pouco e o homem de porte avantajado e barba ruiva espiou pela fresta.
— Sim? — chiou ele. — O que é?
— Nada — respondeu Sherlock. — Eu fui apenas... visitar o Sr. Sigerson.
Ele enfiou o rato morto no bolso. Por alguma razão que não compreendia muito bem, não queria mencioná-lo para o Sr. Kyte.
— Se está entediado — disse o homem —, vá conversar com os rapazes. Você vai trabalhar com os cenários e objetos de palco junto com eles. Vá conhecê-los.
Ele fechou a porta na cara de Sherlock.
Na verdade, depois de três dias em Londres aprendendo como levantar painéis e mover objetos pelo palco, Sherlock conhecia bem os quatro membros mais jovens da companhia. Para passar o tempo no trem, Sherlock finalmente cedera aos apelos dos garotos para participar de um jogo de cartas. Em um dia aprendera com eles as regras do jogo de copas, canastra e bacará, e com seu dom para matemática – sem mencionar a memória eidética que parecia ser uma herança genética da família Holmes – Sherlock logo apreendeu as sutilezas dos jogos.
Ficara fascinado com a maneira como os gêmeos lidavam com as cartas. Eles manuseavam o baralho como jogadores profissionais, embaralhando com facilidade e distribuindo as cartas com rapidez e precisão. Depois de um tempo, como era inevitável, Sherlock perguntou como eles faziam aquilo, e os gêmeos demonstraram suas técnicas, começando com as diversas formas de embaralhar.
Tudo era uma questão de destreza e prática, disseram eles. Rufus Stone falara a mesma coisa sobre tocar violino, é claro, e assim, depois do jogo, ele pegou o baralho emprestado e passou algumas horas tentando repetidamente dominar as diversas técnicas para embaralhar cartas. Com os dedos finos e a persistência característica, logo conseguiu pegar o jeito e passou a embaralhar e distribuir o baralho quase tão bem quanto Henry e Pauly.
No terceiro dia, olhar pela janela já havia perdido a graça. Sherlock descobriu-se observando cada vez mais os atores – o Sr. Malvin, o Sr. Furness, a Srta. Dimmock e a Sra. Loran. Tentou usar as habilidades que Amyus Crowe o ajudara a desenvolver para determinar alguma coisa sobre a história e a personalidade de cada um, mas não conseguiu. Quando pensava ter chegado a determinada conclusão sobre um deles, alguma coisa acontecia e mudava tudo. Talvez fosse o treinamento de ator – talvez o que via fossem diferentes personagens que se manifestavam neles sem que os atores percebessem.
Em certo ponto, quando o trem percorria um trecho particularmente pantanoso e sem-graça, Sherlock notou que o Sr. Furness – o ator mais velho e mais gordo, com a pele marcada por veias e o nariz de couve-flor – estava com uma caixa no colo e remexia no interior dela. A caixa parecia conter potes de vários tipos. Ao perceber que Sherlock o observava, ele o chamou com um gesto.
— Maquiagem de teatro — explicou. Seu hálito cheirava a gim. — Já deve ter visto isto antes, não?
— Não de perto — confessou Sherlock. — Normalmente fico nos bastidores.
— Este kit está comigo há anos — confidenciou Furness. — Tenho pinturas faciais feitas com cera de abelha e gordura de carneiro misturadas a zinco, chumbo, fuligem, cochonilha, ultramarino, ocre e azul da Prússia para dar a cor desejada. E tem outras coisas: rolha queimada e fuligem para pálpebras e cílios, papel queimado para fazer sombras, cola para fixar perucas, bigodes e barbas postiços. Use-os de forma apropriada e vai poder mudar todos os traços do seu rosto, pelo menos a distância.
Ao ver a expressão incrédula de Sherlock, ele continuou:
— Veja, se você ilumina as partes salientes do rosto, como o nariz e as maçãs do rosto, com uma cor mais clara, seus traços tornam-se exagerados. Se aplica um pouco de sombra escura nas áreas mais fundas, obtém profundidade. Mudando as partes iluminadas e escurecidas, você pode criar bochechas flácidas, testas enrugadas, olhos inchados e veias salientes. E quando tudo o mais falhar... — Ele tirou uma lata da caixa. — Massa moldável!
— Massa moldável? — repetiu Sherlock, cético.
— Muda o formato do nariz, do queixo... de qualquer parte que não se mexa muito. Massa moldável não é flexível, então se aplicá-la nas bochechas ela racha, mas é incrível quanto um nariz ou um queixo diferente mudam sua aparência. Seu melhor amigo não o reconheceria!
Depois de um tempo, quando Sherlock já havia perdido a conta das horas e a viagem tornara-se uma confusão atemporal, o trem entrou na estação Kursk em Moscou.
Um homem alto vestindo sobrecasaca, sobretudo forrado de pele e cartola pretos esperava depois da bilheteria. Ele tinha uma barba bem aparada e bigode, e a pele pálida como porcelana. O homem parecia estar esperando alguém e, assim que viu o grupo, sorriu e ergueu uma das mãos.
O Sr. Kyte foi o primeiro a passar. Ele estendeu a mão, mas o homem se adiantou e o abraçou calorosamente. Mycroft, que estava logo atrás do Sr. Kyte, recuou apressado.
O homem barbado conversou com o Sr. Kyte e com Mycroft por alguns momentos, depois se dirigiu ao restante do grupo.
— Meu nome é Morodov — apresentou-se ele em francês, com sotaque carregado. — Piotr Ilitch Morodov. É um prazer e meu dever representar o príncipe Iusupov, que patrocina sua visita à nossa pátria mãe, nossa adorada pátria mãe. Podem ter certeza de que nenhum detalhe foi esquecido, de modo a assegurar que a visita seja agradável e artisticamente produtiva. Agora, por favor, sigam-me. Vou levá-los ao Hotel Slavianski Bazar, onde reservei quartos para todos.
Ele estalou os dedos, e carregadores, vestindo uniformes verdes mal costurados e de péssimo caimento, correram para pegar as muitas malas e valises da trupe. O russo seguiu na frente até o lado de fora da estação, onde várias carruagens esperavam em fila. Fazia frio e o chão estava coberto de neve, mas, em vez da lama escura que se formava na Inglaterra quando a neve caía e as carroças e carruagens a misturavam com terra e palha, ali a camada de neve era branca e grossa. Ela rangia sob o grupo, que saía da estação e se dirigia às três carruagens que o levariam ao hotel.
Seguindo com o restante do grupo, Sherlock observava surpreso os diversos meios de transporte que enchiam a rua da estação. Estava habituado às carroças de Farnham, às carruagens de aluguel e aos coches de Londres, mas o que via ali era completamente diferente. Os veículos daquele lugar mais pareciam o equipamento de ginástica que havia na Escola Deepdene do que alguma coisa em que uma pessoa embarcaria por vontade própria: os passageiros montavam em pranchas longas e estreitas como se estivessem em cima de um cavalo, e não sendo puxados por um, e as laterais se inclinavam para fora, formando um suporte para os pés. O conjunto era montado em quatro rodas com amortecedores, e o condutor ia sentado na frente da fila de passageiros. Parecia desconfortável para os homens e inteiramente inadequado para mulheres, em seus vestidos.
O grupo observou os carregadores acomodarem as bagagens na parte de trás das carruagens, e depois todos embarcaram. O trajeto pelas ruas de Moscou foi curto, mas Sherlock ficou fascinado com a imponência e a idade dos edifícios. Tudo ali parecia ser construído em maior escala do que na Inglaterra – o que fazia os habitantes parecerem muito menores, andando sob as sombras dos prédios, com o corpo encurvado contra o frio, como ratos correndo por rodapés. E as cores! Estava acostumado a prédios com a cor da pedra, do tijolo ou da madeira que haviam sido utilizados em sua construção, mas em Moscou quase todos os prédios eram pintados. Alguns eram cor-de-rosa, outros azuis, e outros, verdes, e muitos eram pintados de amarelo, por razões que Sherlock desconhecia. Talvez a Rússia tivesse um excedente de tinta amarela.
Quando chegaram ao hotel e Piotr Ilitch Morodov registrou todos do grupo, despediu-se e partiu, Mycroft e o Sr. Kyte reuniram a trupe no saguão.
— Preparei nosso programa — anunciou Mycroft —, que detalha os eventos programados para os próximos dias. — Ele levou o dorso da mão à boca e tossiu. — Vou distribuir as folhas em um momento, mas permitam-me resumir os pontos principais. Em primeiro lugar, estamos aqui em Moscou a convite do príncipe Iusupov. O príncipe é um renomado patrono das artes e há muito tempo alimenta o desejo de ver a atuação de uma companhia de teatro britânica. O príncipe pôs o teatro Maly à nossa disposição pelos próximos três dias. Trata-se, sem dúvida, do principal teatro de Moscou, o que significa que, por definição, é o maior da Rússia.
— Qual é a capacidade? — perguntou o Sr. Malvin, o primeiro ator. Ele projetava a voz como se já estivesse no palco. — Sou um ator respeitado. Não me apresento para um punhado de pessoas.
— O palco principal tem novecentos e cinquenta lugares; o secundário recebe até setecentos e cinquenta espectadores.
— E em qual deles vamos nos apresentar? — quis saber a Srta. Aiofe Dimmock, a primeira atriz.
— Vamos usar o palco secundário — respondeu Mycroft com a voz tranquila —, mas só porque o palco é menor e mais apropriado às nossas performances mais intimistas.
O Sr. Kyte adiantou-se.
— Não gostaria que sua atuação tão delicada e cheia de nuances se perdesse em uma plateia grande demais — explicou ele.
A Srta. Dimmock assentiu e recuou, com modéstia.
— Quanta gentileza! — exclamou ela. — Obrigada.
— Vou ter de examinar o local antecipadamente — disse Malvin em voz alta. — Seria impossível para mim atuar em um palco no qual nunca pisei antes. Vou ter de analisar a acústica e determinar por mim mesmo como projetar a voz até os cantos mais distantes, para que todos possam me ouvir.
— É claro. Falarei nisso em um instante. — Mycroft parou e olhou para os membros da companhia. — Fomos contratados, como sabem, para três apresentações em três noites distintas. Para a primeira noite, o príncipe Iusupov enviou convites para a crème de la crème da sociedade russa. Este, me garantiram, será o evento social da temporada.
— O czar estará presente? — indagou a Sra. Loran de onde estava, parada ao lado de Sherlock.
— Ah, espero que sim! — Ela olhou para Sherlock e baixou a voz para um tom conspirador. — Quando eu era pequena, meu sonho era casar com um príncipe. Agora é tarde demais, mas ainda posso sonhar.
— Na verdade, o czar não poderá comparecer por assuntos de Estado. — Mycroft abriu os braços, pesaroso. — Mas tenham certeza de que a plateia será constituída por uma seleção de nobres: príncipes e princesas. Condes e condessas, barões e baronesas, duques e duquesas. A aristocracia russa é vasta, e a maior parte estará presente na noite de estreia, bem como o embaixador britânico da corte do czar e sua esposa.
— Ah, que maravilha! — exclamou a Sra. Loran, com um bater de palmas. Ela se inclinou para Sherlock. — Talvez um deles se apiede de uma dama de meia-idade e faça de mim uma mulher honesta — sussurrou.
Ele sorriu de volta. Desconfiava de que a Sra. Loran poderia muito bem despertar o interesse de algum nobre russo.
Mycroft se dirigiu ao restante da companhia.
— Em cada uma das três noites, vocês apresentarão, pelo que entendi, uma seleção de cenas de dramaturgos britânicos. William Shakespeare, é claro, Ben Jonson, Christopher Marlowe e John Webster. Sr. Kyte — ele olhou para o grandalhão de pé atrás —, soube que vai apresentar as cenas e contextualizá-las para a plateia.
— Essa é minha intenção — ribombou o Sr. Kyte. — Falarei em francês, embora as apresentações sejam em inglês.
— Excelente. — Mycroft voltou-se para os membros mais jovens da companhia: o moreno Rhydian, o pálido Judah e os gêmeos Henry e Pauly. — Com relação aos cenários e adereços, tenho certeza de que o teatro tem variados cenários que podem ser usados para representar tudo, das muralhas do castelo Elsinore à floresta de Arden, e há também diversos móveis e outros objetos que podem ser úteis. Sugiro irmos todos ao teatro amanhã cedo, e, enquanto os atores realizam os exercícios vocais necessários para verificar a acústica do teatro, vocês podem aproveitar para examinar esse material com a ajuda do Sr. Kyte. Decidam o que vão utilizar, e os funcionários do teatro prepararão tudo durante a tarde e explicarão a vocês a maneira de levantar e baixar os painéis do cenário.
— São cordas — disse Henry. — No final, tudo que temos que fazer é puxar cordas.
— Amanhã à tarde, enquanto os funcionários do teatro estiverem organizando o material de cenografia, vocês farão um ensaio geral do qual todos participarão. — Ele olhou para o bigodudo Sr. Eves e para os músicos reunidos atrás dele. Rufus Stone também estava lá. Parecia ter-se entrosado bem com os outros músicos. — Esse ensaio incluirá os diversos números musicais que farão parte da apresentação, por isso os integrantes da orquestra também deverão comparecer.
O Sr. Eves concordou.
— Estaremos todos lá. Não se preocupe.
Mycroft assentiu.
— Tenho certeza de que estarão. — Ele olhou em volta, estudando os membros da companhia. — Na segunda noite, a plateia será formada pela comunidade artística de Moscou, não pelos nobres. Os ingressos da terceira noite serão vendidos para o público em geral. Creio que podemos presumir que vocês se apresentarão para uma seleção representativa da classe média-alta desta bela cidade. — Mycroft parou e cruzou as mãos sobre a barriga proeminente. — Lembrem-se de que são embaixadores da arte de seu país. — Ele bateu palmas uma vez. — Agora vamos jantar e dormir. Voltaremos a nos reunir amanhã para o café, às oito horas, e em seguida iremos para o teatro!
Os membros da companhia seguiram para o restaurante. A matrona Sra. Loran parou ao lado de Sherlock e estendeu a mão para afagar seus cabelos.
— Quer juntar-se a mim no salão do hotel depois do jantar, Scott? — perguntou. — Estava pensando que podia me ajudar a decorar as falas lendo a parte dos outros personagens.
A primeira reação de Sherlock seria aceitar; estava se afeiçoando cada vez mais à Sra. Loran. Porém, antes de responder, ele olhou para Mycroft. Seu irmão obviamente ouvira o convite da Sra. Loran e balançou a cabeça de forma discreta.
— Eu gostaria muito — respondeu Sherlock —, mas preciso ir para a cama cedo e ter uma boa noite de sono.
— Talvez amanhã, então, depois do café — sugeriu ela com um sorriso, antes de se afastar.
Mycroft chamou Sherlock e Rufus Stone para se juntarem a ele.
— Peço desculpas por ter estragado sua noite — disse ele a Sherlock —, mas, quanto mais tempo passarmos socializando com essas pessoas, maior será a probabilidade de deixarmos escapar alguma coisa, e eles então podem perceber que não somos o que parecemos. O melhor a fazer é ser educado, mas reservado. — Seus olhos buscaram os de Stone, depois voltaram para Sherlock. — A viagem foi cansativa — disse —, e não vejo motivo para nos cansarmos ainda mais esta noite. Descansem. Amanhã, quando o restante da companhia seguir para o teatro, Sherlock me acompanhará até o apartamento de meu agente aqui em Moscou. Quero descobrir exatamente o que aconteceu com ele. — Mais uma vez Mycroft olhou para Stone. — Receio que você tenha de ir ao teatro com os outros. Como principal violinista, sua ausência seria notada.
— Pode precisar de mim, caso haja algum problema — ponderou Stone.
— Se houver algum problema, suspeito que nada nos ajudará — disse Mycroft, sério. — Estamos em um país estrangeiro em que a livre expressão de qualquer pensamento que contrarie o czar é implacavelmente suprimida pela polícia oficial e por suas forças secretas. Mas faremos o que for necessário.
— Então, por que levar Sherlock? — insistiu Stone. — Se a situação é perigosa, ele deveria ir ao teatro comigo.
Mycroft balançou a cabeça.
— Reconheço a lógica de seu pensamento, mas posso precisar do olhar aguçado de Sherlock, de seu raciocínio rápido e de suas habilidades atléticas. Talvez seja necessário entrar no apartamento por uma janela, e nesse caso eu seria totalmente inadequado à tarefa. Lá dentro, ele pode localizar alguma pista que eu não perceba. No mínimo, pode ficar vigiando enquanto eu estiver investigando e me avisar caso a polícia apareça. E, se acontecer alguma coisa, ele pode voltar e avisá-lo.
Stone assentiu relutante.
— Muito bem. Era só isso?
Após o assentimento de Mycroft, Stone se afastou na direção do restaurante.
Mycroft olhou para o irmão com ar crítico.
— Você está pensando em algo, pelo que vejo.
Sherlock deu de ombros.
— Não é importante.
É importante. Está descontente comigo porque não contei que Rufus Stone trabalhava para mim, e está descontente com Rufus Stone porque ele não disse que estava a meu serviço. Acredita que foi enganado e que não pode confiar em nós.
Sherlock manteve o olhar distante, recusando-se a encarar o irmão.
— Sherlock, mesmo que não goste disso, tomar conta de você é minha responsabilidade. Delegar a Rufus Stone a missão de cuidar de você quando eu não podia fazê-lo é parte disso.
— Pensei... — começou Sherlock, para sua surpresa. — Pensei que ele fosse meu amigo.
— As pessoas podem ser várias coisas ao mesmo tempo — argumentou Mycroft. — Sou seu irmão, mas também sou um oficial do Governo britânico. Amyus Crowe é um caçador de recompensas, mas também é seu tutor. O Sr. Stone é violinista, e às vezes trabalha como meu agente. Isso não o impede de ser seu amigo também. — Ele apoiou a mão no ombro de Sherlock e apertou de leve. — Se serve de consolo, quando voltou dos Estados Unidos, o Sr. Stone me disse que sentia por você algo muito próximo de uma afeição fraternal. Ele apreciou sua companhia. Perguntou se eu achava que isso poderia ser um problema, e eu respondi que não. Prefiro que ele cuide do seu bem-estar porque quer, não só por eu ter ordenado.
Alguma coisa que havia estado presa no peito de Sherlock por vários dias se tornou menos pesada. Não desapareceu por completo, mas melhorou.
— Agora vamos experimentar as delícias da gastronomia russa — falou Mycroft. — Fui levado a crer que os chefs russos são quase tão bons quanto os franceses.
Eles entraram no restaurante, que tinha teto alto e arqueado. As paredes eram cobertas por pinturas exibindo soldados em uniformes de cores brilhantes – azul, verde e vermelho – montados em cavalos e trocando golpes com sabres.
Mycroft percebeu para onde Sherlock olhava.
— Ah, a Guerra da Crimeia — disse. — Inglaterra, França e Turquia de um lado, Rússia do outro. Um conflito curioso e um tanto inútil. E aqui estamos nós, apenas doze anos mais tarde, jantando na capital do território inimigo. A diplomacia cria estranhos companheiros de cama. — Ele fez uma pausa, e um tremor percorreu seu corpo grande. — Sherlock, acho que esta será a última vez que deixarei a Inglaterra. Pode ser a última vez que deixo Londres. Viajar serve para expandir a mente, mas os jornais e os livros de referência fazem o mesmo, e podem ser lidos do conforto de uma poltrona e na companhia de uma boa garrafa de conhaque. No futuro, deixarei que as coisas venham a mim, em vez de ir atrás delas.
— Deve ter um desejo muito forte de descobrir o que aconteceu com seu agente, para ter vindo até aqui — observou Sherlock em voz baixa.
O maître d’hôtel ergueu os olhos do livro de reservas quando eles se aproximaram.
— Uma mesa para os cavalheiros? — perguntou ele, em um francês perfeito.
— Por favor — respondeu Mycroft. Enquanto o maître os conduzia pelo restaurante, ele sussurrou: — O nome do meu agente é Wormersley, Robert Wormersley. Estudamos juntos em Oxford. Dividíamos um dormitório, e à noite falávamos sobre nossas esperanças e sonhos para o futuro. Quando saímos de Oxford, seguimos caminhos distintos: eu fui para o Ministério das Relações Exteriores, ele se aventurou pelo mundo e escreveu ótimas matérias turísticas para jornais, mas continuamos a trocar cartas. Depois de um tempo, nossos caminhos voltaram a se cruzar, e ele se tornou meu mais confiável agente no exterior. — Uma pausa. — Éramos amigos, Sherlock. Melhores amigos. Conhecidos são fáceis de acumular, mas não são muitas as chances de construir amizades como a nossa ao longo da vida. Quando esses amigos aparecem, devem ser valorizados. Por isso preciso de você aqui. Devo isso a ele.
— Entendo — disse Sherlock quando se sentaram. — Pelo menos acho que entendo.
— É claro que entende. Você foi até Nova York para resgatar o jovem Matthew Arnatt. Vejamos — disse Mycroft quando pegou o cardápio oferecido pelo maître. — O que quer comer? Soube que os frutos do mar nesta cidade são particularmente bons.

A refeição foi excelente – boa o bastante para satisfazer até Mycroft, que autorizou Sherlock a beber uma taça de vinho no jantar. Eles falaram sobre amenidades – os diferentes tipos de uvas utilizadas para a produção de vinho, a maneira como conhaque, xerez e porto eram produzidos por destilação ou pela fortificação do vinho, e o fato de o espumante ter sido produzido pela primeira vez por monges beneditinos no século dezesseis.
Sherlock percebeu que seu ressentimento ia perdendo intensidade durante a refeição. Ainda estava zangado com Mycroft e Rufus Stone por terem agido pelas suas costas, mas percebia que parte da raiva era voltada contra si mesmo por não ter percebido nada.
Ele resolveu aprender uma lição com esse acontecimento: nunca mais acreditaria apenas nas aparências.
Ao final do jantar, enquanto Mycroft relaxava com um cálice de conhaque e um charuto, Sherlock falou:
— Vou para a cama. Até amanhã.
Mycroft assentiu.
— Durma bem. Amanhã será um dia difícil. — Ele franziu o cenho. — Tenho a sensação de que não estou reparando em algo óbvio. Não é uma sensação confortável. Se estivesse em Londres, na segurança do Diogenes Club, tenho certeza de que perceberia tudo em um instante, mas aqui, com todas essas distrações...? — Ele suspirou. — Talvez uma boa noite de sono em uma cama confortável ajude. Boa-noite, Sherlock.
O quarto de Sherlock era pequeno, em um andar alto, mas não tinha importância. Era mais confortável que seus aposentos na mansão Holmes, e ele dormiu instantes depois de se despir. Se chegou a sonhar, não se lembrava de nada.
O dia seguinte amanheceu claro e frio. Ainda havia neve no chão, mas o sol brilhava no céu azul e sem nuvens. Sherlock lavou-se, vestiu-se e voltou ao mesmo restaurante onde ele e Mycroft haviam jantado.
Mycroft estava sentado com o Sr. Kyte. Ele acenou para Sherlock ao vê-lo entrar, e retomou a conversa em seguida.
Sherlock olhou em volta. O Sr. Malvin e a Srta. Dimmock comiam juntos, e a Sra. Loran estava sentada sozinha. Ela olhou para Sherlock e sorriu, e o menino retribuiu o sorriso. Gostava dela; tinha a impressão de que o tratava mais e mais como um filho postiço. Ele se perguntou onde estaria o ausente e nunca mencionado Sr. Loran. Havia morrido, fugira com outra mulher, ou estava em casa, esperando por ela?
Os quatro ajudantes – Rhydian, Judah, Pauly e Henry – dividiam uma mesa e trocavam provocações. Os músicos estavam espalhados por mesas diferentes, separados de acordo com seus instrumentos: cordas em uma, metais em outra, e sopros em uma terceira. O regente, Sr. Eves, estava sozinho.
Apesar de fazer parte dos instrumentos de cordas, Rufus Stone também estava sozinho. Ele acenou para Sherlock ao vê-lo, indicando a cadeira vazia. Por um longo momento, Sherlock se perguntou se não devia ir procurar uma mesa desocupada, mas, no final, se juntou a Stone.
— Dormiu bem? — perguntou o violinista.
— Nada mal — respondeu Sherlock.
— O hotel é bem impressionante. Falando como um homem que está mais habituado à palha como cobertor e ao céu noturno como telhado, a cama era confortável demais para o meu gosto. Quando acordei, descobri que havia afundado no meio de um colchão tão macio que faria um marshmallow ficar com vergonha. Levei cinco minutos lutando para conseguir chegar à beirada da cama. Juro que, se tivesse dormido mais meia hora, teria afundado sem deixar rastros.
Sherlock não respondeu.
O silêncio imperou por alguns momentos, depois Stone prosseguiu em voz baixa:
— Na Inglaterra você comentou que havia comprado um violino.
— Sim, comprei.
Sherlock tinha a sensação de que devia acrescentar alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada para dizer.
— Suponho que a compra seja uma indicação de que ainda deseja dominar a musa da música.
O menino deu de ombros.
— Sherlock — disse Stone —, entendo o que está sentindo. Gostaria que as coisas fossem diferentes. Sendo a vida como é, coisas ruins acontecem com mais frequência do que as coisas boas. O truque é conseguir ver o sol brilhando atrás das nuvens escuras. — Ele fez uma pausa. — Sherlock, se tiver de acreditar em uma só coisa do que digo, acredite nisto: gosto da sua companhia e, se amanhã seu irmão me informar que meus serviços não serão mais necessários, eu ainda desejaria ser seu professor de violino.
Sherlock sentiu um aperto incomum na garganta. Ele desviou o olhar por um segundo, depois encarou Stone.
— Eu ficaria feliz — declarou, hesitante.
— É claro que as aulas vão precisar esperar até que esta missão em particular esteja encerrada — avisou Stone. — Se eu não for cuidadoso, ter de acompanhar o nível desses músicos vai acabar prejudicando minhas capacidades. — Ele olhou em volta e baixou a voz. — Tenho um mau pressentimento quanto a tudo isso — disse. — Não sei dizer o quê, mas há alguma coisa errada aqui. Alguma coisa muito errada. — Ele olhou para Sherlock. — Tome cuidado hoje. Muito cuidado.

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