30 de agosto de 2017

Capítulo oito

— CHEGUEI TARDE! — EXCLAMOU SHERLOCK. Todo o peso da corrida de ida e volta até o barraco de repente caiu sobre ele, ele se sentia fraco e exausto e derrotado.
Cameron negou com a cabeça.
— Não é sua culpa — ele falou sombriamente. — Wu Chung morreu cerca de dez minutos depois que você saiu. O curandeiro veio e nos disse que ele tinha “se juntado aos seus ilustres ancestrais”, que é o que o povo chinês diz quando alguém morre. Você nem sequer deve ter alcançado o jardim quando aconteceu. Não havia nada que você pudesse ter feito. Você poderia ter voado todo o caminho de ida e volta e ainda não teria feito diferença.
Sherlock podia ouvir Cameron falando, mas sova como se as palavras de seu amigo estivessem vindo de muito longe, através de grossas fibras de algodão. Ele descobriu que a enormidade da morte do cozinheiro era mais do que podia lidar. Ele não tinha realmente se preparado para o fato de que realmente poderia acontecer. Que Wu Chung poderia de repente... não estar mais lá.
Ele se sentiu estranho. Desconectado. Sentia como se estivesse flutuando um pouco acima do chão, e que o mundo estava inclinando gradualmente para o lado.
Ele se inclinou, colocou as mãos sobre os joelhos e tomou respirações lentas, tentando se firmar.
Ele tinha visto a morte antes, é claro. Mesmo quando havia acabado de sair da Escola Deepdene para Meninos e se mudado para Farnham, tinha visto um corpo na mata perto da mansão de seu tios, e mais tarde ele vira homens morrerem no forte napoleônico que o barão Maupertuis usara como base. Ele tinha visto Duke Balthassar morrer nas garras e dentes de seus pumas, e também viu o corpo de um homem esfaqueado no Diogenes Club. Houve o marinheiro que tinha caído e quebrado o pescoço no Gloria Scott, e os outros que foram mortos pela tempestade e pelos piratas. Mas tudo isso foi com pessoas que ele não conhecia – ou, pelo menos, mal conhecia. Ele nunca teve que aceitar os termos da morte de um amigo.
Não era como se Wu Chung fosse um amigo próximo, ele tentou dizer a si mesmo. Ele não era como Matty Arnatt ou Amyus Crowe – ou até mesmo, ele pensou com um calafrio, Virgínia Crowe. Não era como se ele fosse um membro da família de Sherlock, como Mycroft, ou sua irmã Emma, mas ainda assim... Sherlock era próximo dele. O chinês havia lhe ensinado muito, fora parte importante da vida de Sherlock, e sua ausência deixaria um buraco impossível de preencher.
— Como Wu Fung-Yi e Tsi Huen estão lidando? — Sherlock perguntou, e ele podia ver que sua voz estava rouca – pouco mais que um sussurro.
— A esposa dele está consideravelmente arrasada — respondeu Cameron. — Deve ser difícil, ter o seu marido longe por tanto tempo, então perdê-lo de novo no momento em que ele volta. O garoto está com uma aparência corajosa. Francamente, não acho que ele saiba muito bem o que está sentindo. Ele é do tipo que é guiado pelo o que sua mãe está fazendo.
Quando Sherlock olhou para a casa, o curandeiro surgiu, ainda apoiado em sua vara. Ele passou por Tsi Huen e Wu Fung-Yi em direção a Sherlock e Cameron. Ele olhou calmamente para a planta que pendia da mão de Sherlock.
— Eu a quero de volta — pediu. — Posso ser capaz de replantá-la. Talvez.
— O que aconteceu? — perguntou Sherlock.
O curandeiro olhou para ele, surpreso.
— Você sabe o que aconteceu. Ele foi mordido por uma cobra. Eu fiz o que pude, mas não foi o bastante. O veneno havia tomado conta de seu corpo. Não havia nada que eu pudesse fazer para ajudar.
— Você tem certeza que era a picada de uma cobra? — Sherlock ouviu-se perguntar. Por um momento ele se viu surpreendido com as palavras, até que percebeu que sua boca expressava um pensamento que seu cérebro ainda processava.
O curandeiro assentiu.
— Há uma clara marca de mordida nas costas dele.
— Mas como a cobra entrou no quarto? — perguntou Sherlock. — A única janela fica alto demais para qualquer cobra rastejar até lá, e se ela tivesse entrado pela porta da frente, então teria que atravessá-la, e depois passar por vários outros cômodos antes de chegar a Wu Chung.
— Quem pode prever as ações de uma cobra? — disse o curandeiro, encolhendo os ombros. — Não há dúvida em minha mente – uma cobra o mordeu, e o veneno o matou. Eu já vi esse tipo de coisa antes.
— Na cidade? — Sherlock pressionou. — Em um quarto?
O curandeiro levantou sua sobrancelha branca e fina.
— Você tem alguma ideia melhor?
— Não — Sherlock teve que admitir. — Não, não tenho.
O curandeiro estendeu a mão e pegou a planta da mão de Sherlock. Sherlock observou o velho caminhar lentamente de volta para Tsi Huen. Ainda chorando, ela pegou algumas moedas de uma bolsa e passou-as para ele. Ele abaixou a cabeça, agradecendo, e afastou-se, a planta ainda pendurada em sua mão. Sherlock encontrou-se na esperança de que o curandeiro não tivesse cobrado pela planta que chegou tarde demais.
Wu Fung-Yi estava em pé de um lado, olhando para casa. Sherlock e Cameron andaram até ele.
— Sinto muito — disse Cameron, sem jeito.
— Eu também — Sherlock concordou.
Wu Fung-Yi não disse nada. Ele só olhava para o nada.
— Eu gostaria de poder ver o corpo — disse Sherlock em voz baixa para Cameron.
— O quê?
— O corpo de Wu Chung. Eu gostaria de poder vê-lo novamente.
— Isso é um pouco mórbido, não é?
Sherlock deu de ombros.
— É mesmo? Ele está morto. Tenho certeza de que não vai se importar.
— Talvez sua esposa e seu filho se importem.
Sherlock olhou para eles.
— Suponho que eles não precisem saber.
— Por que você quer olhar o corpo?
— Quero verificar a mordida. Aquela nas costas dele.
Cameron estremeceu.
— Nem me lembre.
— Isso não te leva a pensar que há algo de estranho aqui?
— Como o quê?
Sherlock sacudiu a cabeça, tentando visualizar a ferida que tinha visto antes nas costas de Wu Chung. Parte dele sabia que estava pensando na morte de Wu Chung como se fosse um quebra-cabeça para que não tivesse que lidar com a emoção, mas outra parte sabia que não era realmente um quebra-cabeça.
— Eu não tenho certeza. As marcas das presas, se é isso que elas eram, pareciam ser de tamanhos diferentes. Uma delas era maior que a outra, e a outra era irregular.
— Então a cobra tinha uma presa quebrada. O que isso significa?
— Eu não sei. Mas um velho amigo meu uma vez me disse para olhar para as coisas que parecessem fora do lugar. É isso o que lhe dize que algo interessante está acontecendo, ele dizia.
— E uma cobra com a presa quebrada é interessante?
— Isso depende do que quebrou a presa. — Ele olhou para onde o menino e sua mãe estavam abraçados. — Você acha que se eu pedir ela me deixa entrar?
Cameron olhou para Tsi Huen, então de volta para Sherlock.
— O marido dela morreu. Odeio pensar em como eu me sentiria se meu pai morresse de repente. Como você se sentiria?
Inesperadamente, Sherlock encontrou seus pensamentos de repente empurrados na direção de seu próprio pai, em algum lugar na Índia. Talvez ele estivesse morto. Talvez ele tivesse sido morto em alguma ação do exército britânico contra os nativos e a mensagem não tivesse chegado à Inglaterra ainda. Ou talvez tivesse chegado à Inglaterra, e sua mãe, sua irmã e seu irmão já sabiam, mas não puderam lhe contar. Ele tentou analisar os sentimentos que brotavam dentro dele, mas não conseguiu. Havia algo lá, uma mistura confusa de emoções, mas ele não podia separá-los.
— Às vezes — ele encontrou-se dizendo. — Eu me questiono se meu pai já está morto. É cada vez mais difícil lembrar de seu rosto ou de sua voz, ou de sua risada. Eu costumava ter lembranças dele – agora acho que só tenho lembranças das memórias.
— Isso é terrível — Cameron sussurrou.
— É? — Sherlock olhou para Wu Fung-Yi. — Talvez o terrível seja se importar demais. — Ele se sacudiu. — Olha, eu fiz uma promessa. Falei a Wu Chung que eu falaria ao capitão do USS Monocacy que ele não faria a viagem. É melhor eu ir.
— Acho que eu deveria ir e contar aos meus pais o que aconteceu aqui. Não tenho certeza quanto à utilidade da minha presença aqui.
Sherlock olhou em volta. Ninguém por perto parecia interessado.
— Eu acho que estar aqui é o suficiente. Olha, eu estarei de volta dentro de uma hora, prometo.
— Tudo bem.
Sherlock deixou a casa e se dirigiu pelo declive, em direção ao cais. Sua lateral doía de tanto correr, e ele teve que se curvar para a frente enquanto caminhava para manter a dor sob controle. Ele não tinha notado antes, mas havia lugares onde a vastidão azul da baía era visível através dos espaços entre as casas. Ele podia até mesmo ver os mastros dos navios pulando acima dos telhados, e como ele estava mais perto da beira do mar, de vez em quando via a grande roda do USS Monocacy aparecendo acima de tudo.
Foi só quando passava pelo portão na muralha que corria ao redor da cidade, passando pelos guardas uniformizados, que de repente se perguntou como faria para voltar para dentro. Ele deu de ombros, afastando o pensamento. Ele enfrentaria esse problema mais tarde se necessário.
Sherlock fez seu caminho ao longo do cais em direção à comprida estrutura que era o navio americano. Ainda havia muitos marinheiros e chineses ao redor. Ele manteve-se atento para a gangue de garotos que tentaram roubar seu dinheiro no dia anterior, mas havia muitas pessoas de mesma idade ao redor, e ele não reconheceu nenhum deles. Mais importante, talvez, nenhum deles o reconheceu.
Diversas pontes levavam do cais ao convés do Monocacy. Cada um era guardado por uma dupla de marinheiros americanos armados com uniformes azul-escuros. Os marinheiros mantinham uma vigilância cautelosa sobre as pessoas que passavam por eles.
Sherlock notou que muitos dos habitantes chineses lançavam olhares desagradáveis para o navio e para os marinheiros. De vez em quando alguém gritava um insulto para os americanos. Sherlock entendia as palavras – o seu cantonês melhorava quanto mais ele ouvia – e ele decidiu que era uma coisa boa que os marinheiros não entendessem. Alguns dos nomes de que estavam sendo chamados eram bem desagradáveis, e os marinheiros estavam armados, além de tudo. Insultos, maus temperamentos e armas não se dão muito bem juntos.
Quando chegou perto da ponte, Sherlock viu com preocupação que um pequeno grupo de moradores se reunira a poucos metros de distância. Um deles se abaixou e pegou um repolho podre. Ele o arremessou através do ar. O repolho acertou um americano uniformizado na lateral da cabeça, explodindo em fragmentos de vegetal fedorento e espirrando um líquido. O marinheiro tropeçou, em seguida, virou-se e levantou a arma para a multidão. Seu rosto estava contorcido em raiva e desgosto. Seu companheiro pegou seu braço e o puxou para baixo. Os dois discutiram por um momento, enquanto a multidão zombava.
Outro vegetal saiu voando de entre a multidão e caiu no chão entre os dois guardas. Eles olharam para Sherlock como se não tivessem certeza se recuavam até a ponte, tomavam alguma ação ou fingiam que nada estava acontecendo.
A crescente tensão foi quebrada quando alguém começou a atravessar ponte em direção ao cais. Era o homem que Sherlock vira na noite anterior no jantar dos Mackenzie – o capitão Bryan. Era uma visão impressionante, em seu uniforme completo e sobrecasaca, e ele era seguido por dois oficiais subalternos e um homem chinês em vestes ornamentadas – um tradutor, possivelmente. Sherlock pensou ter reconhecido os oficiais subalternos do jantar também.
Mesmo a essa distância, Sherlock podia ver que os olhos azuis brilhantes de Bryan tomavam tudo o que acontecia à sua frente. Ele chegou ao final da ponte e os dois marinheiros pararam de conversar. Sem parar, ele foi até a frente da multidão.
— O que significa isso? — ele explodiu em inglês. O tradutor apressadamente traduziu.
Os vários membros da multidão se entreolharam. Ninguém parecia disposto a falar por eles.
— Somos visitantes aqui — continuou o Capitão Bryan. — Somos, como fui levado a acreditar pelo seu Governador, convidados de honra. — Ele fez uma pausa enquanto o tradutor terminava. — A palavra da hospitalidade do Império Chinês se espalhou. Estou desapontado ao ver que essas palavras aparentemente eram falsas. — Mais uma vez ele pausou, e Sherlock notou que alguns membros da multidão pareciam envergonhados. — Onde quer que esse navio tenha atracado ao redor do mundo, ele foi recebido com a mão da amizade. Não deixem que este porto seja diferente. Não desonrem seus antepassados e seu imperador com esta zombaria mesquinha.
Conforme o tradutor corria para transmitir suas palavras na língua nativa da multidão, o capitão Bryan deixava seu olhar pousar sobre as várias pessoas ali. Nenhuma delas podia olhá-lo nos olhos. Ele esperou por alguns momentos após o tradutor ter terminado, então se virou abruptamente e caminhou de volta para a ponte, aparentemente ignorando a possibilidade de que alguém pudesse arremessar outro repolho em suas costas. Seus oficiais subalternos esperaram alguns segundos, em seguida, viraram-se e seguiram-no. O tradutor olhava nervosamente para a multidão. Quando percebeu que estava sozinho, ele rapidamente correu para se juntar a eles.
Sherlock ficou impressionado ao ver a multidão começar a se dispersar. Os moradores pareciam como velas de barco sendo atingidas pelo vento, cada um seguindo seu caminho. Sherlock repentinamente percebeu que perderia sua chance se não agisse rapidamente. Ele disparou à toda na direção do capitão Bryan.
Ouvindo seus passos, os dois oficiais subalternos se viraram para encará-lo. Ao pé da ponte, os dois marinheiros armados giraram seus fuzis em direção a Sherlock, temendo que ele fosse mais uma ameaça local. Ele diminuiu para uma rápida caminhada e ergueu as mãos.
— Eu sou britânico — disse ele. — Meu nome é Sherlock Holmes. Tenho uma mensagem para o capitão.
— Você estava no jantar dos Mackenzie na noite passada — percebeu o capitão Bryan, virando-se. — Eu lembro de você. Nós não tivemos a chance de conversar.
— O senhor estava muito ocupado e eu sou de pouca importância para incomodá-lo — disse Sherlock. — Mas obrigado por fingir que poderia querer falar comigo.
Bryan sorriu.
— Você é refrescantemente honesto, filho. Nenhum de meus oficiais se atreveria a dizer qualquer coisa que soasse como discordância, e esse país parece apressar-se em dizer uma coisa na sua frente e outra às suas costas. Agora, você diz ter uma mensagem?
— Sim, senhor. — Sherlock respirou. — O senhor recentemente contratou um assistente de cozinheiro. Lamento dizer-lhe que ele morreu hoje. Suas últimas palavras para mim praticamente foram que ele queria que o senhor soubesse disso, que não pensasse que ele tinha se esquecido ou recebido uma oferta melhor.
O capitão Bryan fez uma careta. Um de seus oficiais subalternos inclinou-se para frente e sussurrou em seu ouvido.
Ele balançou a cabeça e voltou-se para Sherlock.
— Nós subiremos o rio Yangtzé dentro de uma hora — revelou ele. — É tarde demais para arrumar outro assistente de cozinheiro. Teremos que nos virar sem um, suponho, o que é irritante, uma vez que acabamos de substituir nosso cozinheiro principal por um homem local. Mas aprecio o esforço que fez a fim de transmitir esta mensagem.
Ele balançou a cabeça e voltou-se para o USS Monocacy. Depois de um momento, ele olhou para Sherlock.
— Você conhecia este homem?
— Conhecia.
— Era um bom homem?
Sherlock assentiu.
— Eu estava com ele no Gloria Scott.
— Então, minhas condolências. Bons homens são difíceis de encontrar. Bons cozinheiros ainda mais. Como ele morreu?
— Foi mordido por uma cobra.
O capitão Bryan balançou a cabeça tristemente.
— Picada de cobra, hein? Deve haver um monte dessas por aqui. Nosso próprio cozinheiro chefe foi mordido por uma cobra e morreu há poucos dias. Você não encontraria cascavéis no meio de uma cidade americana, eu garanto.
Assim que o capitão reembarcou no navio, um apito soou em algum lugar no convés. A dupla de marinheiros armados na parte inferior de cada ponte olhou para cima e correu rapidamente a bordo. Enquanto Sherlock observava, as pontes foram puxadas até o convés por mãos invisíveis. Dentro de alguns momentos apenas cordas ligavam o navio à terra. Aquele era agora um mundo a parte. Um mundo americano.
Sherlock esperou por um tempo, mas o navio não se moveu.
Presumivelmente estavam armazenando vapor, ou verificando suas cartas, ou se preparando de outra forma.
Eventualmente, ele se virou e partiu para a muralha da cidade.
Ao se aproximar do portão e ver os guardas em seus uniformes amarelos e vermelhos e seus elmos de metal feito baldes, ele se lembrou de repente de seu temor anterior de não conseguir retornar à cidade. O que ele faria?
Ele olhou para suas roupas. Felizmente, havia selecionado peças no armário de Cameron que o faziam parecer, pelo menos razoavelmente, um chinês. Seu rosto era outra história. Um olhar para seus olhos e sua pele seria suficiente para denunciá-lo.
Sua mente corria. Ele tinha que fazer algo para se disfarçar.
Olhando ao redor, ele viu um mendigo idoso ao lado da via. Ele usava um chapéu de palha largo para proteger o rosto do sol, e olhava para cada pessoa que passava com uma expressão de súplica no rosto e com a mão estendida. Sherlock atravessou a rua até ele. Seus olhos brilharam quando viu a abordagem de Sherlock.
— Uma moeda de cobre, jovem mestre? — pediu ele. — Uma moeda de cobre para que eu possa beber uma xícara de chá e comer um prato de macarrão?
— Duas moedas de cobre — disse Sherlock — pelo seu chapéu.
O mendigo examinou Sherlock.
— Três.
— Isso dá um monte de chá e macarrão.
O homem sorriu, revelando uma boca com mais dentes do que teria um mendigo propriamente dito.
— Eu tenho um grande apetite — disse ele, acariciando o estômago.
Sherlock colocou a mão no bolso e pegou três moedas de cobre, junto com um estranho pedaço de metal que ele não pôde identificar imediatamente. Ele jogou as moedas para o mendigo.
— Aqui, e tente não comer tudo de uma vez. Ou terá uma indigestão.
— Possivelmente seria uma coisa boa — resmungou o mendigo. Ele tirou o chapéu da cabeça e atirou-o para Sherlock. — Tome conta dele.
Sherlock parou por um momento, olhando para o objeto de metal em sua mão. Era a coisa que ele pegara no deque do navio perto da cabine do Sr. Arrhenius. Ele ainda não sabia o que era. Por alguns segundos, pensou em jogá-lo fora, mas ele detestava um mistério, mesmo um tão pequeno. Ficaria com ele até que soubesse o que era.
Sherlock arrumou o chapéu na cabeça e inclinou-se para frente para esconder seu rosto. Olhando em volta, ele viu uma vara de bambu abandonada na beira da estrada. Perto dele havia dois baldes quebrados. Ele os pegou, espanou a sujeira deles e pendurou-os nas extremidades da vara de bambu, então equilibrou a vara cuidadosamente em seu ombro direito, de modo que um balde ficou pendurado na frente e outro, atrás. Então, com um profundo suspiro, ele partiu para o portão.
Ele conseguiu entrar junto de um grupo de trabalhadores que voltava de algum lugar da área do cais. Eles estavam resmungando, e empurrando uns aos outros, e ele percebeu que se ficasse na parte de trás e curvasse as costas para disfarçar sua altura, estaria bastante bloqueado da visão dos guardas.
— Ei, você! — um dos guardas chamou. — Você com os baldes!
Sherlock manteve a cabeça baixa. Se mostrasse o rosto, os guardas saberiam que ele não era oriental. Se ele sequer abrisse a boca para falar, eles saberiam pelo seu forte sotaque.
Um dos guardas entrou pela via na frente do grupo de trabalhadores. Sherlock tentou desesperadamente pensar em alguma história convincente que explicaria por que ele estava tentando esgueirar-se para a cidade disfarçado como um trabalhador chinês. Ele olhou para cima, pronto pra dizer alguma coisa, mas o guarda levava uma chinesa para a frente do grupo. Ela tinha dois baldes equilibrados em uma vara por cima do ombro também. Eles estavam cheios de algo que parecia leite. Talvez fosse leite – Sherlock não saberia dizer.
— Nós estamos com sede — disse um dos guardas. — Dê-nos um pouco ou não a deixaremos passar!
Sherlock deu um suspiro de alívio. Embora sentisse pena da mulher, estava feliz que os guardas o tivessem ignorado. Ele passou por eles, a cabeça inclinada, enquanto os homens bebiam ruidosamente dos baldes dela.
Uma vez dentro da cidade, ele deu um suspiro de alívio.
Estranho, pensou, como ainda ontem o Gloria Scott era sua casa e Xangai era um território desconhecido, mas agora em Xangai ele se sentia em casa. As multidões, os cheiros, mesmo as casas... talvez tudo simplesmente estivessem imergindo nele ao longo do dia, mas as coisas pareciam familiares.
E Farnham? Era como outro mundo agora. Como um sonho.
Ele seguiu em frente rapidamente. Ele não tinha certeza do que o esperava na... na casa de Tsi Huen... mas sentia a obrigação de voltar lá. Cameron esperava lá por ele, claro, mas ele tinha gostado do filho Wu Chung nas poucas horas que passou na companhia do garoto. Ele tinha uma silenciosa dignidade sobre ele, e Sherlock queria ter certeza de que daria tudo certo.
Um rosto ocidental passou por ele, indo na mesma direção, e Sherlock teve que olhar duas vezes antes de reconhecer o pai de Cameron – Malcom Mackenzie. A razão pela qual foi tão difícil reconhecê-lo era que seu rosto estava torcido no que Sherlock pensou primeiramente ser uma careta, mas depois reconheceu como uma carranca de preocupação e inquietação.
Sherlock estava prestes a encarar isso como um encontro casual e continuar em seu próprio caminho quando percebeu que Malcom Mackenzie estava sendo seguido. Algo deslizava por entre a multidão atrás dele.

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