18 de agosto de 2017

Capítulo oito

A ESTAÇÃO DE KING’S CROSS era idêntica à de Waterloo – um vasto espaço, cheio de gente esperando no pátio e de pombos empoleirados nas vigas de ferro fundido que sustentavam o teto de vidro – só que menor. Fumaça pairava no ar, e o cheiro acre de carvão queimado era constante. As paredes e vigas estavam cobertas por uma fina camada de poeira negra.
Sherlock olhou em volta, imaginando se valeria a pena perguntar se em algum momento nos últimos dois dias alguém vira um homem grande de terno branco e chapéu acompanhado por uma menina. Não adiantaria nada perguntar às pessoas que pegariam os trens – eram escassas as chances de que elas também tivessem estado ali quando Amyus Crowe e Virginia passaram pela estação –, mas ele talvez pudesse falar com os bilheteiros ou os guardas da estação. Ou, pensou Sherlock enquanto passeava o olhar pelas paredes do saguão de embarque e desembarque, poderia falar com os mendigos e batedores de carteira, que circulavam como fantasmas pela multidão, invisíveis e incógnitos até que se ouvissem gritos ocasionais como: “Já falei, não tenho trocado, e mesmo se tivesse não o daria a você!” e “Minha carteira! Onde está minha carteira?”, que pontuavam seus movimentos. Sherlock desconfiava de que mendigos e ladrões passassem dia e noite ali. Aquele era seu local de trabalho e também sua residência.
O menino desistiu antes mesmo de abordar o primeiro mendigo que visse e oferecer algumas moedas em troca de informações. Amyus Crowe já tentara lhe explicar sobre o problema de se tentar confirmar algo que já era conhecido. Sherlock tinha toda a certeza de que Crowe e Virginia haviam ido para Edimburgo e passado pela estação de King’s Cross. Achar um mendigo que dissesse que realmente vira um homem grande de terno branco e chapéu passar por ali com uma menina não afetaria essa certeza – seria apenas uma informação adicional. Por outro lado, um mendigo que dissesse que não vira ninguém que correspondesse à descrição não significaria que eles não haviam passado por ali. Não se poderia esperar que um mendigo se lembrasse de todas as pessoas que vira no pátio da estação. “O homem sensato”, dissera Crowe, “não tenta confirmar o conhecimento que já possui; ele tenta refutá-lo. Encontrar indícios que comprovem suas teorias não é útil, mas encontrar indícios que as contrariem é inestimável. Nunca tente provar que você tem razão; em vez disso, sempre tente provar que está errado.”
O problema era que, nesse caso, se Sherlock supunha que Amyus Crowe e Virginia haviam passado por King’s Cross, a única maneira de provar que essa teoria estava errada era descobrir que eles haviam passado por outro terminal londrino – e isso significaria perder um dia inteiro conferindo Paddington, Euston, Liverpool Street e as outras estações principais. Não havia tempo para isso.
— Você parece pensativo — disse Rufus Stone, dando-lhe um tapinha no ombro.
— Só estou analisando um problema — respondeu Sherlock. — Estava pensando se valeria a pena perguntar por aí pelo Sr. Crowe, mas acho que isso apenas nos confundiria.
O violinista assentiu, concordando.
— Ainda que ele tenha comprado uma passagem aqui, não foi para Edimburgo. Ele teria despistado seu rastro da mesma maneira que o fez ao sair de Farnham. — Stone olhou ao redor. — Ainda falta um pouco até o trem partir, e meu estômago está achando que minha garganta foi cortada sem que lhe avisassem. Vamos arranjar algo para comer antes de embarcarmos... Eu pago.
Stone assim o fez. Achou um vendedor de castanhas não muito perto da multidão e comprou três saquinhos. Sherlock e ele precisaram assoprar as castanhas para esfriá-las um pouco antes de comer, mas a garganta de Matty parecia revestida de tijolos. O menino simplesmente engolia uma a uma, sorrindo sem parar.
Depois de ficarem satisfeitos, Stone conduziu os meninos pelo pátio na direção das plataformas. Ele apresentou as passagens ao guarda, e os três embarcaram. Em todos os aspectos em que Sherlock reparou, o trem era idêntico ao que os trouxera de Farnham.
— Será uma viagem longa — disse Stone, sentando-se em um compartimento pequeno. — Acomodem-se. Durmam um pouco, se puderem. Existem duas coisas que um homem deve fazer sempre que possível: dormir e comer. Nunca se sabe quando ele terá outra oportunidade para isso. — O homem olhou para Sherlock. — Eu devia ter trazido o violino. Poderíamos continuar nossas aulas.
— Nesse caso — disse Matty, com um murmúrio alto o suficiente para ser ouvido —, eu teria pegado outro trem.
Rufus o encarou.
— Imagino — respondeu ele — que seu gosto musical se resume a uma mera flautinha de latão barata e um chocalho qualquer.
— Não fale mal das flautinhas. — Matty balançou a cabeça. — Dá para tocar muita coisa boa com uma flautinha de latão. Com uma dessas e um chocalho já dá para dançar, e é para dançar que a música serve. — Ele lançou um olhar de desafio para Stone. — Não é?
Stone apenas balançou a cabeça, fingindo tristeza, e não falou nada.
— Na verdade — disse Sherlock —, eu queria conversar um pouco mais sobre teatro... sobre maquiagem, disfarces e coisas do tipo.
O violinista assentiu.
— Eu ficaria muito feliz de falar mais sobre isso. Adoro me lembrar de minha época nos tablados, fazendo figuração no fundo de uma cena importante para alguma outra pessoa, ou dos tempos em que eu tocava no fosso da orquestra enquanto os atores exibiam sua arte no palco. — Ele ergueu uma sobrancelha, intrigado. — Você parece ter uma curiosidade muito grande pela arte e pelo ofício da interpretação. Posso perguntar o motivo disso?
Sherlock deu de ombros, pouco à vontade para falar sobre sonhos e preferências.
— Acho interessante — respondeu.
Stone continuou encarando-o, com expectativa, e Sherlock acrescentou, mal-humorado, para quebrar o silêncio:
— Se quer mesmo saber, foi desde aquele café em Moscou. Eu estava lá, sentado no meio de sete ou oito pessoas com quem eu havia passado os últimos três dias, e não os reconheciNenhum deles. — Sherlock sentiu o rosto arder com uma emoção súbita que parecia uma mistura desagradável de vergonha e raiva. Só ao dizer as palavras ele se deu conta do quanto aquele incidente o havia incomodado. — Eu achava que fosse um bom observador — comentou ele. — Amyus Crowe sempre diz que tenho olho para pequenos detalhes, e ainda assim eles me enganaram. Eles me enganaram!
— Eles eram melhores que você — respondeu Stone calmamente. — Mas isso não é motivo para se envergonhar. Não sou o melhor violinista do mundo. Nunca serei o melhor violinista do mundo. Mas sou bom e estou melhorando.
— Quero ser o melhor — disse Sherlock, baixinho. — Quero ser o melhor violinista, o melhor rastreador e o melhor em disfarces. Se não posso ser o melhor, então de que adianta tentar?
— Você vai se decepcionar muito com a vida, meu amigo. — Stone balançou a cabeça. — Muito mesmo.
Houve um período de silêncio tenso na cabine, até que Rufus Stone, talvez para amenizar o clima, começou a contar histórias da época em que trabalhava no teatro e de determinados atores que entravam tão bem no personagem que pareciam mergulhar a própria personalidade na atuação.
— O problema — disse Stone — é que, se você não acreditar que é um velho, uma mulher ou um mendigo, como pode esperar que outra pessoa acredite nisso? Enxergar o personagem é só ver a superfície; o verdadeiro disfarce consiste em ser o personagem.
— Mas como eu faço isso? — perguntou Sherlock.
— Se você quer fingir que está triste, tente se lembrar de algum momento de sua vida que o tenha feito chorar. Se precisa parecer feliz, lembre-se de algo que o tenha feito rir. Se precisa ser um mendigo, lembre-se de quando esteve faminto, sujo e cansado... se puder. — Ele deu um sorriso maroto. — Se quer fingir que está apaixonado, pense no rosto de alguém importante para você. Assim, seu rosto e seu corpo vão assumir a postura certa de maneira natural, sem que você tenha que exagerar para reproduzir o efeito. Ah, e sempre aproveite a desatenção das pessoas.
Sherlock franziu o cenho.
— Como assim?
— Em geral, as pessoas veem apenas o que esperam ver. Elas não examinam detalhadamente todo mundo que encontram na rua. — Stone fechou os olhos por um instante e passou a mão pelo cabelo. — Como posso explicar? É como um pano de fundo no teatro. Se você quer que a plateia acredite que a peça é ambientada na China, não vai passar semanas pintando um pano de fundo detalhado com a imagem de um palácio ou um povoado chinês tão realista a ponto de parecer que as pessoas estão vendo a paisagem verdadeira por uma janela imensa. Vai traçar apenas alguns detalhes, como um telhado curvo ou um bambuzal, e deixar que a mente da plateia complete a cena. A mente é ótima para decidir rapidamente o que se vê de relance, com base em alguns elementos que chamem a atenção, e então pegar alguma imagem da memória e colocá-la no lugar do que se está vendo de fato. Se você quer parecer um mendigo, não vai recriar minuciosamente cada detalhe das roupas, do cabelo e do rosto de um mendigo. Isso vai fazer você se destacar. Concentre-se em alguns elementos-chave, e então misture-se ao cenário. Entende o que quero dizer?
— Acho que sim.
Stone deu mais alguns exemplos, e os dois ficaram conversando por algum tempo, mas depois o assunto se esgotou e Sherlock começou a olhar pela janela da cabine.
Cidades iam e vinham, campos passavam muito rápido e aos poucos a paisagem plana e uniforme que Sherlock associava ao sul da Inglaterra foi dando lugar a um cenário mais rústico e descuidado. Até as vacas começaram a parecer diferentes: peludas, marrons e com chifres curvos na frente da cabeça, em vez das malhadas e de pelo curto que ele conhecia. O trem cruzou uma ou duas pontes sobre rios largos, e Sherlock se lembrou da ponte de madeira em cavaletes que ele havia atravessado com Virginia e Matty nos Estados Unidos, quando fugiam de Duke Balthassar.
Virginia. Só de pensar no nome dela seu coração dava um salto. Sherlock não podia negar que tinha algum sentimento forte pela menina, algo que não sentia por mais ninguém, mas não conseguia definir esse sentimento. Não sabia o que era, ou o que significava, e a intensidade o assustava. Ele não estava acostumado à ideia de que mais alguém fizesse parte de sua vida. Sempre fora solitário, tanto na escola quanto em casa. Detestava sentir que dependia de alguém, mas era isso o que sentia agora. Não imaginava uma vida sem que Virginia estivesse nela de alguma maneira.
O trem parou em Newcastle para se reabastecer de carvão e água. Os três aproveitaram a oportunidade para esticar as pernas na plataforma e comprar mais um lanche. Dessa vez comeram tortas de maçã, cozidas a ponto de ficarem quentes feito brasas. O vapor que subia parecia uma réplica em miniatura do que saía da locomotiva.
Depois de algum tempo, Sherlock voltou à cabine, embora ainda faltassem alguns minutos para a partida do trem. Não tinha disposição para ficar andando incessantemente de um lado para o outro da plataforma. Nunca se interessara pela ideia de se exercitar sem propósito. Deixou-se cair no assento estofado e se pôs a encarar a parede em frente. Chegou à conclusão de que viagens de trem eram insuportavelmente tediosas. Viagens por mar eram mais longas, mas havia mais a ser visto, mais a se fazer. Navios dispunham de bibliotecas, salões de jogos, restaurantes e todas as atividades interessantes da vida a bordo. Trens não tinham nada.
Enquanto fitava a parede, contando os minutos até deixarem Newcastle, ele aos poucos se deu conta de que estava sendo observado. A conclusão não o alcançou por nenhuma forma sobrenatural, nenhum formigamento na nuca ou calafrio na espinha. Foi algo mais simples e prosaico: uma mancha rosada e vermelha, imóvel em sua visão periférica. Um rosto. Dois olhos azuis fitavam Sherlock sem piscar.
Sherlock tentou captar o máximo possível de detalhes sem ter que virar o rosto de repente e mostrar que havia reparado no seu observador, mas o corpo da pessoa estava parcialmente oculto por trás de uma pilha de caixotes em cima de um carrinho de carga.
Depois de extrair o que pôde sem deixar óbvio que havia percebido a pessoa que o observava, Sherlock decidiu olhar melhor. Virando-se subitamente, olhou para a direita, bem nos olhos de um homem que acreditou reconhecer.
Sentiu o coração vacilar.
O sujeito era a imagem do Sr. Kyte, um homem que lhe fora apresentado em Whitechapel como gerente e ator de uma companhia teatral, mas que demonstrara ser um agente da Câmara Paradol, envolvido em uma conspiração para assassinar um conde russo amigo de Mycroft. O homem era grande como um urso, com um tórax do tamanho e formato de um barril, uma juba ruiva que descia até a gola da camisa e uma volumosa barba da mesma cor, cobrindo-lhe o pescoço e parte do tórax como uma cascata de ferrugem. Da última vez que Sherlock vira o Sr. Kyte, o homem lutava desesperadamente com Rufus Stone dentro de uma carruagem em uma rua de Moscou. Ele escapara, e Rufus ficara ensanguentado, furioso e com desejo de vingança.
Sherlock se lembrou de que a pele na bochecha e em torno dos olhos do Sr. Kyte era cheia de centenas de pequenos arranhões. Na época, o menino achara que pareciam estranhos cortes feitos ao se barbear, mas em lugares onde não costuma crescer barba. Apesar do vidro manchado da janela que separava os dois, Sherlock agora estava perto o bastante para ver os cortes. Não havia dúvida – era o Sr. Kyte.
O homem o encarou por um bom tempo. Não sorriu, assentiu nem fez qualquer sinal de que percebera que fora visto. Alguns segundos depois, recuou lentamente para dentro da sombra de uma estrutura no meio da plataforma – algum depósito. O coração de Sherlock estava a mil, e o ar parecia topar com algum obstáculo no peito sempre que ele tentava respirar.
Ele precisava avisar Rufus Stone! Precisava contar para Mycroft! Não sabia se a presença do Sr. Kyte indicava que a Câmara Paradol estava envolvida no desaparecimento de Amyus Crowe, se eles estavam seguindo Sherlock porque o responsabilizavam pelo fracasso de seus planos, ou se era tudo uma grande coincidência, mas o fato era que o Sr. Kyte estava ali, observando-o, observando-os, e isso significava que a situação havia mudado. Já não era a mesma de apenas dez minutos antes.
O grito de um apito a vapor o arrancou de seus pensamentos. O trem estava prestes a sair.
Percebendo que nem Matty nem Rufus Stone haviam voltado, o menino fez menção de se levantar.
Porém, nesse momento, a porta da cabine se abriu e Matty entrou. Segurava um bolinho de carne.
— Qual é o problema? — perguntou Matty. — Parece que você viu um fantasma.
— Quase isso. Onde está Rufus?
Matty franziu o cenho.
— Achei que ele já tivesse voltado. Tava um pouquinho na minha frente. — Ele jogou o bolinho para cima e voltou a pegá-lo. — Vi um monte destes em uma barraca fora da estação. O cara que tava vendendo se distraiu com uma mulher que passava. Foi o tempo de eu surrupiar um.
— Mas... — começou Sherlock, e então se interrompeu.
Não era hora de conversar. Ele passou por Matty e saiu da cabine para o corredor que seguia ao longo do vagão. Em cada extremidade havia uma porta para a plataforma. Sherlock correu até a mais próxima e olhou pela janela.
Em toda a plataforma, passageiros voltavam a bordo, mas não havia sinal de Rufus Stone.
O apito do trem soou mais uma vez. Em poucos instantes restava apenas o guarda da estação na plataforma, olhando de um lado para o outro ao longo do trem, esperando para agitar a bandeira.
Sherlock olhou da esquerda para a direita. Rufus Stone não estava à vista. O menino queria saltar do vagão e procurar o amigo, mas o trem sairia a qualquer momento. E se Rufus tivesse apenas entrado por outra porta e agora estivesse andando pelo trem? Se fosse esse o caso e Sherlock saísse, ele seria o desaparecido. Esquecido em uma estação na qual a Câmara Paradol o observava.
Mas e se a Câmara Paradol tivesse capturado Rufus Stone? Com certeza havia assuntos pendentes entre Stone e o Sr. Kyte.
Com um solavanco, o trem começou a se mexer. A locomotiva se afastou da plataforma, puxando os vagões. Em pouco tempo a estação se distanciou e o trem saía da cidade rumo ao campo.
Sherlock voltou à cabine, mas ficou parado no corredor, olhando de um lado para o outro, torcendo para que Rufus Stone aparecesse, andando tranquilamente com aquele seu jeito insuportável. Depois de cinco minutos, Sherlock precisou reconhecer que Stone não apareceria. Ele ainda estava na estação de Newcastle, provavelmente nas mãos da Câmara Paradol.
— E então? — perguntou Matty quando Sherlock voltou para a cabine. Suas pernas estavam cheias de farelo. — Cadê o Sr. Stone?
— Acho que ele ficou para trás — respondeu Sherlock, com uma expressão grave.
— O que aconteceu? Ele topou com alguma garota? Se foi isso, é bem a cara dele. Aquele lá não pode ver um rabo de saia.
Sherlock balançou a cabeça.
— Não, acho que ele topou com a Câmara Paradol.
Matty contorceu o rosto, sem acreditar.
— Como assim, as pessoas para quem aquele barão francês trabalhava?
— E que incriminaram Mycroft de assassinato e tentaram matar o amigo dele em Moscou.
— O que eles tavam fazendo na estação?
— Devem ter nos seguido — respondeu Sherlock. Ele se sentia impotente, sem a menor ideia do que fazer. — Não temos como saber. Só podemos especular, e a especulação é pior do que a falta de informação, porque nos leva na direção errada.
— Então o que a gente faz?
Depois de pensar por um instante, Sherlock respondeu:
— Vamos seguir para Edimburgo. Se um guarda do trem aparecer, podemos dizer que nosso amigo ficou em Newcastle e que estamos preocupados com a possibilidade de ele ter sofrido um acidente. Quando chegarmos à Escócia, iremos para o hotel que Mycroft providenciou para nós. Se Rufus conseguir escapar da Câmara Paradol ou de quem quer que o tenha capturado, ou se houver algum motivo inocente que explique por que perdeu o trem, ele sabe que estaremos lá.
Sherlock se acomodou melhor no assento, cruzando os braços e apoiando o queixo no peito. Matty encarou-o por um instante, depois se virou e ficou olhando pela janela. Apesar de estar com o amigo, Sherlock nunca se sentira tão desesperadamente sozinho.
— A gente poderia voltar para casa — disse Matty depois de um tempo, em voz baixa.
A ideia já havia ocorrido a Sherlock, mas ele a rejeitara.
— Poderíamos — respondeu ele —, mas isso não ajudaria o Sr. Crowe, Virginia nem Rufus. Além do mais, a Câmara Paradol sabe onde moramos. Nossa melhor opção é nos escondermos em Edimburgo até resolvermos toda essa confusão. Esperar a poeira baixar.
— Como Virginia e o Sr. Crowe — disse Matty. — Eles também escaparam e se esconderam.
— Eu sei. — Sherlock não olhou para Matty. — Eu sei. Mas eu queria saber por quê. Nem imagino o que poderia assustar o Sr. Crowe a ponto de fazê-lo fugir em vez de ficar e se defender.

Em algum momento, o trem passou da Inglaterra para a Escócia, mas Sherlock não viu se havia um sinal para indicar a fronteira.
As estações passaram a se suceder com uma frequência maior, e os nomes pareciam diferentes dos que havia nas placas das plataformas inglesas. A paisagem era mais acidentada e selvagem – colinas irregulares e escuras, em vez de montes suaves. Até o céu parecia mais encoberto.
Depois de algum tempo, um cobrador apareceu, e Sherlock explicou que seu amigo não havia voltado ao trem. O homem ficou bastante irritado e disse que falaria com o chefe da estação seguinte para ver se haviam recebido alguma mensagem ou se seria possível enviar alguma a Newcastle.
Sherlock sabia que isso não seria suficiente e que era tarde demais. Dificilmente produziria algum resultado.
O tempo pareceu se arrastar. O cobrador voltou mais tarde para dizer que não havia notícias de Rufus Stone, e Sherlock ficou ainda mais soturno. Pouco depois, olhando pela janela, ele percebeu que o trem passava por uma concentração maior de casas. Não eram feitas de tijolos, mas de pedaços grandes de pedra cinzenta. Tinham um aspecto severo, permanente. O sol, que estava próximo ao horizonte, lançava sobre as construções uma luz alaranjada. O trem começou a reduzir a velocidade até por fim parar, com um chiado, ao longo de uma plataforma que parecia ter quilômetros de comprimento. As placas na plataforma diziam Edimburgo.
— Chegamos — disse Matty.
Eles saíram do trem segurando suas malas. Levaram a de Rufus também. Sherlock puxou Matty para um canto e parou. Queria observar enquanto os outros passageiros saíam, só para ver se reconheceria alguém – como o Sr. Kyte ou, quem sabe, Rufus Stone.
A estação era uma massa fervilhante de gente vestida com uma enorme variedade de roupas, como cartolas, paletós felpudos de tweed e calças remendadas. Havia até mesmo – e Sherlock precisou reprimir uma exclamação ao ver tal coisa – homens de saia.
Matty reparou na reação do amigo.
— É — disse ele —, me desculpe... acho que eu devia ter comentado antes. Também fiquei surpreso quando vim aqui alguns anos atrás.
— Homens de saia? Bom, talvez você tenha achado que eu não perceberia.
— Não são saias — respondeu Matty com firmeza. — São kilts.
— Kilts — repetiu Sherlock, experimentando a palavra desconhecida.
— São uma roupa tradicional usada pelos clãs escoceses. — Matty fungou. — Pelo que eu sei, “clã” é uma palavra chique para família. Enfim, os clãs costumavam estar sempre em guerra uns com os outros, até que todos resolveram se juntar e odiar os ingleses, e aparentemente era mais fácil lutar de kilt. Ou algo assim. De qualquer modo, eles são pintados de cores diferentes de acordo com a família a que a pessoa pertence.
— Presumo — disse Sherlock — que fosse para ter certeza de que a pessoa está lutando com um homem de outro clã e não com um primo de terceiro grau.
— Deve ser — respondeu Matty.
Sherlock arquivou a informação no cérebro. Kilts de cores diferentes para famílias diferentes – isso merecia mais estudo. Em Londres, às vezes a única maneira de se descobrir o nome de alguém na rua era perguntando, mas, se em Edimburgo dava para ver um homem e saber no mesmo instante que ele se chamava MacDonald, bom, isso poderia ser útil.
— Mais alguma coisa que eu deva saber? — perguntou ele.
— Aquela bolsinha pendurada na frente do kilt chama-se “sporran” e é usada para guardar coisas pequenas, como dinheiro. Ah, e se um escocês estiver de kilt, é bem capaz que tenha uma adaga enfiada na meia.
— Entendi. Obrigado.
Sherlock continuou olhando em volta, e escutando. Havia muita gente conversando perto deles, mas as palavras eram pronunciadas com sotaque, difíceis de entender. Claro, Sherlock estava acostumado com sotaques locais – as pessoas em Farnham falavam de um jeito diferente das de Londres, e os vários americanos que ele conhecera falavam de forma diferente de qualquer pessoa da Inglaterra – mas não imaginara que em um lugar relativamente próximo de Londres houvesse um sotaque tão carregado a ponto de ser quase incompreensível. Com Matty esperando a seu lado, paciente, Sherlock passou mais ou menos um minuto prestando atenção, analisando as conversas das pessoas à sua volta, até entender o básico. Quando seus ouvidos ficaram habituados, o sotaque pareceu se misturar ao ambiente, permitindo que as palavras se destacassem.
— Certo — disse o garoto depois que os últimos passageiros passaram pelas portas da estação, deixando a plataforma sem ninguém —, acho que já me adaptei. Vamos descobrir onde fica o hotel.
Eles saíram e pegaram o segundo cabriolé que viram. O condutor parecia indeciso quanto ao risco de levar dois garotos desacompanhados, mas Sherlock tirou um punhado de moedas do bolso e o homem assentiu. Desde que os garotos pudessem pagar, ele não se importava com a idade dos dois.
Sherlock já havia olhado o que tinha dentro do envelope que Mycroft lhes dera, então gritou para o condutor o nome do hotel.
O trajeto levou uns vinte minutos; passaram por conjuntos de altos edifícios geminados também feitos de blocos de pedra cinzenta e por grandes galerias e mansões cercadas por gramados enormes e cercas de metal. Vendo de perto, Sherlock percebeu que a pedra cinzenta tinha traços de outras cores – laranja, amarelo, azul, verde – e que até muitas pedras de fato cinzentas eram riscadas com tons mais escuros.
O cabriolé passou ao longo de um parque, virou de repente à esquerda e à direita e entrou em uma avenida larga cheia de lojas e hotéis. Era comparável a tudo que Sherlock havia visto em Londres, Nova York e Moscou. Ele já percebia que Edimburgo era uma cidade antiga e imponente.
O veículo virou de repente à direita e parou. Enquanto Sherlock e Matty saíam, o condutor tirou as malas deles do compartimento às suas costas e as jogou no chão. Obviamente achava que não deveria descer da carruagem por causa de crianças. Sherlock resistiu à tentação de jogar o dinheiro aos pés do condutor. Em vez disso, estendeu a mão até um pouco abaixo do alcance dele, de modo que o homem teve que se inclinar de forma desajeitada para pegar.
Eles haviam parado diante de um alto edifício geminado; a placa dizia “Hotel Frazer”. O cabriolé se afastou e fez uma curva, voltando para a avenida principal, e parte do cérebro de Sherlock percebeu que eles estavam no alto de um aclive. O restante de seu cérebro estava ocupado admirando o castelo que apareceu quando o cabriolé foi embora: era enorme e sombrio, mas o fato de ser construído em uma colina parcialmente imersa em névoas fazia-o parecer uma gigantesca nuvem de tempestade pairando acima da cidade.
— E agora? — perguntou Matty.
Sherlock sentiu o grande peso da ausência de Rufus Stone. Sem o violinista, ele estava vulnerável, inseguro. Dois garotos sozinhos em Edimburgo. O que poderiam fazer?
— Não sei — respondeu ele.

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