7 de agosto de 2017

Capítulo oito

— SR. CROWE — CHAMOU Sherlock —, o que aconteceu com meu irmão? O que aconteceu com Mycroft?
Era a manhã seguinte depois da aventura no museu, e eles estavam sentados à mesa do café no Hotel Sarbonnier, onde Sherlock se hospedara na última vez que visitara Londres. Crowe havia se levantado e saído antes de Sherlock acordar, mas, quando o menino descera para tomar o café, Crowe estava entrando no hotel.
— A boa notícia é que ele foi solto sob fiança — respondeu o tutor.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que alguém, no caso o Diogenes Club, pagou uma quantia pela liberdade de Mycroft. A corte decide o valor que deve ser depositado, e eles tomam essa decisão com base na soma que seria suficiente para evitar que um suspeito desaparecesse. Caso seu irmão suma antes do julgamento, se é que vai haver um julgamento, o dinheiro será confiscado. — Ele riu. — Afinal, se fossem necessários apenas cinco xelins para sair da cadeia, qualquer criminoso com um pouco de dinheiro estaria livre em meia hora, e a maioria desapareceria.
— Quanto foi necessário para libertar Mycroft?
— Creio que a soma mencionada foi cinco mil libras.
Sherlock fez uma careta.
— E onde ele está agora?
— Conversando com o advogado e tomando café da manhã no Diogenes Club. Mandei um telegrama informando seu irmão de que você está bem e que se hospedou aqui no Sarbonnier. Talvez ele venha nos encontrar mais tarde.
— Como o Diogenes Club levantou essa quantia?
— Parece que eles têm um fundo para o qual os membros contribuem em troca de assistência e orientação legal. — A expressão de Crowe tornou-se mais pensativa. — Estranho, não vejo os empregadores de Mycroft colaborando muito. Estão em total silêncio. Acho que não querem interferir porque fazem parte do Governo e, portanto, são ligados à força policial.
Sherlock pensou um pouco.
— Mas aquele homem que encontramos, o que me atacou na estação de Waterloo, admitiu que Mycroft caiu em uma armadilha. Outra pessoa cometeu o assassinato.
— É verdade, mas vai levar um tempo até a polícia reunir as provas para inocentar seu irmão. O importante é que o advogado do Diogenes Club pode orientá-los na direção certa. — Crowe mudou a expressão. — O que me preocupa agora é que as pessoas que incriminaram o Sr. Holmes ainda estão por aí, e não sabemos quais são seus motivos ou o que podem tentar da próxima vez.
— Acha que eles podem tentar incriminá-lo por outro assassinato?
Crowe não se alterou.
— Não podemos excluir essa possibilidade, mas, tendo sido inocentado de um crime, presumindo que seja, é pouco provável que outra acusação valha de algo. Há um ditado que repetíamos durante a Guerra entre os Estados: a primeira vez é acaso; a segunda é ação do inimigo. Até a polícia vai concordar com isso. Não, acho que precisamos nos preparar para outra coisa. Alguma outra trama.
— Então, o que vamos fazer? Como vamos proteger Mycroft?
Crowe olhou para Sherlock por um instante. Seus olhos azuis pareciam enganosamente serenos, mas Sherlock sabia que analisavam tudo.
— Você é muito leal ao seu irmão, não é? Alguns garotos da sua idade simplesmente deixariam os mais velhos cuidarem dos próprios assuntos, mas você não. Você quer protegê-lo.
Sherlock virou-se para Crowe não ver o brilho das lágrimas.
— Meu pai está na Índia — disse ele depois de um instante —, e minha mãe está doente. E nossa irmã... bem, ela não está em condições de ajudar ninguém. Mycroft é tudo que tenho, e eu sou tudo que ele tem. Temos que cuidar um do outro. — Ele sorriu, apesar de tudo. — E você deve ter notado que Mycroft não é uma pessoa particularmente ativa ou ágil. Precisa de ajuda até para ir de um lado a outro da cidade. — Ele riu. — Ouvi dizer que uma vez ele foi convidado para uma refeição na casa de alguém no interior. Normalmente ele não aceitaria convites para eventos sociais, mas o dono da casa tinha uma adega excepcional e um cozinheiro famoso pela qualidade de suas sobremesas, por isso Mycroft fez um esforço naquele caso em especial. Alugou uma carruagem para ir à estação, lá embarcou em um trem para a viagem de uma hora, e depois conseguiu uma charrete para transportá-lo pelos últimos sete ou oito quilômetros da estação até a casa. O último trecho da jornada era uma breve subida até a porta da frente, mas ele olhou para a encosta, deu meia-volta e pediu ao condutor que o levasse de volta à estação. Mycroft é esse tipo de pessoa. Tem uma inteligência fenomenal, mas não é prático.
— E você o ama.
— Ele é meu irmão. É claro que o amo. — Desconfortável com a conversa pessoal sobre sentimentos, Sherlock olhou para Crowe e perguntou: — Você tem um irmão?
O rosto do tutor assumiu a rigidez de uma máscara.
— Não vamos falar sobre isso — respondeu ele, a voz áspera como o atrito entre duas pedras.

Houve um breve silêncio enquanto eles comiam. Depois de um tempo, Crowe olhou em volta e apontou para um jovem garçom que servia uma família em uma mesa próxima.
— Vamos ver quanto você se lembra do que ensinei recentemente. O que pode me dizer sobre ele?
Sherlock refletiu.
— Eu me lembro dele da última vez que estivemos aqui. — Ele observou o rapaz da cabeça aos pés. — O uniforme está um pouco curto nele, e a calça foi remendada várias vezes. É evidente que a usa há um bom tempo sem substituí-la. Ou o salário é baixo, ou ele gasta seu dinheiro com outras coisas. Por outro lado, os sapatos são novos e brilhantes, o que contradiz as evidências do uniforme. — Sherlock olhou com mais atenção para o rosto e o cabelo do garçom. — Ele está usando óleo de Macassar no cabelo. — Farejou o ar. — Sim, sinto cheiro de jasmim, laranja e coco. Óleo de Macassar não é barato, e presumo, portanto, que ele gasta a maior parte do salário com coisas que o tornam atraente para as mulheres, como óleo para cabelo, sapatos e, imagino, as roupas que veste quando não está trabalhando. Tudo isso sugere que não é casado. — Sherlock deu de ombros. — Acho que é isso.
— E se eu disser que ele foi condenado por furto três vezes e já foi preso? — revelou Crowe. — Soube disso pelo porteiro. O gerente do hotel o contratou porque é filho de sua irmã.
Sherlock olhou para o garçom com mais atenção.
— Ele está mesmo passando muito tempo perto do pai daquela família — disse. — Talvez esteja esperando uma oportunidade para roubar alguma coisa de seu bolso.
Enquanto Sherlock observava, o garçom derrubou uma faca. Com um pedido de desculpas murmurado à família, ele se abaixou para pegá-la.
— Veja! — apontou Sherlock com urgência. — Acho que ele fez aquilo de propósito. Enquanto todo mundo se distrai com a faca, vai pegar alguma coisa do bolso do paletó daquele senhor!
— Na verdade — admitiu Crowe —, ele nunca foi condenado por furto. Eu inventei essa história. Ele canta em um coral na Abadia de Westminster, embora seja mesmo sobrinho do gerente.
Confuso, Sherlock olhou de novo para a cena à mesa. O que há momentos parecia suspeito agora era uma atividade perfeitamente inocente. O garçom levantou com a faca na mão.
— Isso é verdade? — perguntou ele.
— Não. Inventei também. Na verdade, ele esfaqueou um homem durante uma briga em uma taverna no ano passado, mas o caso foi encerrado por falta de testemunhas dispostas a depor contra ele.
O mesmo cenário – mesa, família reunida, garçom solícito – agora adquiria um significado completamente diferente para Sherlock. O garçom agora parecia segurar a faca de um jeito ameaçador, aproximando-a do pescoço do cliente.
— Isso também não é verdade, é? — perguntou ele, irritado.
— Não — Crowe respondeu. — A verdade é que não sei nada sobre o garçom, apenas o pouco que se pode observar por suas roupas, pelo cabelo e pelas mãos. Nada sei sobre sua história. O que quero demonstrar é que todos nós vemos alguma coisa diferente dependendo dos rótulos que atribuímos às coisas, e tais rótulos são baseados no que sabemos, ou no que pensamos saber. A mente treinada rejeita rótulos convenientes e age baseada em fatos reais e deduzidos. A mente treinada também tira proveito de como outras pessoas fazem suas deduções a fim de guiá-las em direções específicas e induzi-las a tomar determinadas atitudes.
Sherlock se preparava para perguntar a Crowe mais sobre essa interessante revelação de que uma pessoa podia manipular o pensamento das outras a partir das palavras que escolhia usar quando uma voz familiar os chamou.
— Sherlock, Sr. Crowe... Posso me juntar a vocês?
— Mycroft! — gritou Sherlock.
Seu irmão se aproximou sem pressa da mesa em que estavam. Mycroft estava imaculadamente arrumado como sempre, com terno e colete bem passados e chapéu escovado à perfeição, mas sua pele estava pálida e os olhos eram os de um homem que recentemente vira coisas que desejava esquecer.
— Sr. Holmes — disse Crowe, levantando-se —, sente-se, por favor. Quer um café, ou talvez um chá?
— Chá seria excelente — respondeu Mycroft, acomodando-se em uma cadeira que parecia absolutamente imprópria para sustentar seu peso. — Um café da manhã seria ideal.
— Pensei que já houvesse tomado o café com seu advogado — comentou Sherlock.
Mycroft olhou para o irmão com ar solene.
— Se existe uma nova lei proibindo o consumo de mais de um café da manhã por dia, eu a desconheço — disse ele. — A bem da verdade, o que tomei nem merece ser chamado dessa forma. A torrada estava úmida, o bacon, mole, e o chouriço, crocante demais. A geleia, nem vou comentar. Ausento-me do Diogenes por um dia e o lugar começa a desmoronar. Aquela comida só serviu para aguçar meu apetite para um verdadeiro café da manhã, o que espero encontrar aqui.
Crowe chamou o garçom e pediu outro prato e um bule de chá. Mycroft seguiu a direção de seu olhar e encarou o garçom por um momento.
— Noruega? — perguntou a Crowe.
— Finlândia.
— Sim, é claro. — Mycroft balançou a cabeça. — O pouco tempo que passei na prisão prejudicou um pouco minhas habilidades dedutivas.
Crowe percebeu que Sherlock o observava.
— Sei que disse não saber nada sobre ele, mas isso também foi uma mentira. A família do rapaz é da Finlândia, dá para perceber pelo corte de cabelo.
— Por que mentir de novo? — protestou Sherlock.
— É um fato estranho da vida — comentou Crowe — que, se um inglês descobre que alguém mentiu uma vez, ou até mesmo duas ou três, ele presume que depois a pessoa dirá a verdade. Tem algo a ver com a imprópria noção de honestidade britânica, imagino. Na verdade, se um homem mentiu uma vez, é provável que minta frequente e repetidamente.
Mycroft olhou para Sherlock.
— Soube que houve um incidente... desagradável — disse ele. — Alguma coisa a ver com uma ave de rapina. Você está bem?
— Estou. E você?
Mycroft deu de ombros.
— Pelo menos agora posso dizer que vi como vivem as pessoas mais pobres, embora não me sinta edificado pela experiência. Meu advogado espera que as acusações sejam retiradas até hoje à tarde.
— Tem alguma ideia de por que foi o alvo disso? — perguntou Crowe.
— Não existem muitas possibilidades — respondeu Mycroft. — É possível que alguém quisesse se vingar de mim por algum motivo, mas não consigo pensar em quem ou o quê. Um cenário mais possível é que alguém tenha tentado me distrair de eventos que estão para acontecer, ou de alguma coisa que me seria apresentada e que me obrigaria a agir. — Ele olhou para Sherlock. — Sabe que trabalho para o Ministério das Relações Exteriores. O Governo tem muitos especialistas em vários campos, mas me considero um generalista. Fatos e especulações de todos os tipos passam por mim, e procuro padrões e conexões entre coisas aparentemente distintas. A política externa se faz frequentemente com base nessas conexões.
— Alguma coisa chamou sua atenção? — perguntou Crowe.
— Eu não devia discutir questões do Governo fora de Whitehall — murmurou Mycroft. — Ah, aí está meu café.
O garçom pôs o prato na frente dele e removeu a tampa de metal. O rosto de Mycroft se abriu com um sorriso quando ele viu a seleção de alimentos.
— Esplêndido! — exclamou. — Uma combinação perfeita, perfeitamente preparada. Meus elogios para o chef. — Quando o garçom se afastou, ele continuou: — Sim, como eu estava dizendo, não devia estar discutindo assuntos do Governo fora de Whitehall, especialmente com um homem que é leal a outro país, mas acredito, tomando por base o longo tempo em que nos conhecemos, que posso confiar em você para guardar um segredo, Sr. Crowe. — Ele espetou um cogumelo com o garfo e o levou à boca. — Ah, perfeito. — Ele fechou os olhos e mastigou. — Sim — continuou, abrindo os olhos em seguida —, onde estávamos? Há vários incidentes internacionais que no momento podem estar relacionados a essa questão, mas o que acredito ser mais provável é relativo à recente venda de uma grande extensão de terra para o seu país, Sr. Crowe.
Crowe levantou uma sobrancelha.
— Não tenho conhecimento sobre esse assunto, Sr. Holmes.
— Não me surpreende; a notícia não foi exatamente manchete dos jornais. Deixe-me resumir: em algum momento do ano que passou, uma vasta extensão de terra foi vendida para o governo norte-americano pela soma de sete milhões e duzentos mil dólares, valor a ser pago em ouro. O terreno era tão grande que, segundo meus cálculos, o preço por acre foi aproximadamente dois centavos, o que me parece uma pechincha. A terra fica a noroeste do continente norte-americano, limitada pelo Canadá a leste, pelo oceano Ártico ao norte e pelo Pacífico a oeste e ao sul.
— A quem pertencia esse território antes? — perguntou Sherlock.
— Uma questão muito pertinente. A Rússia, cujo império se localiza do outro lado do estreito de Bering, nome dado àquela parte do oceano Pacífico, era a antiga proprietária, embora houvesse e ainda haja várias tribos indígenas.
— Qual é o nome desse lugar?
— Os russos chamam de Alyeska — respondeu Mycroft —, mas o governo norte-americano parece ter escolhido o nome de Departamento do Alasca.
— Então, temos a venda de um território — resumiu Crowe. — Isso acontece o tempo todo nos Estados Unidos. Eu mesmo tenho um terreno em Albuquerque, que alguns conhecidos administram enquanto estou fora. Qual é o problema?
Mycroft suspirou.
— O problema é que a transação pode não ter sido inteiramente legítima.
Houve um momento de silêncio na mesa, enquanto os outros dois avaliavam a importância do que Mycroft acabara de dizer.
— Como isso é possível? — perguntou Sherlock, finalmente. — Com certeza, os governos russo e americano têm consultores legais para analisar os detalhes dos contratos, não?
— Não é tanto a validade do contrato, mas o fato de nenhum pagamento ter sido realizado até agora, o que torna a venda legalmente dúbia.
— A questão — disse Crowe, pensativo — seria: mais alguém quer o Alasca? Se não quer, isso se torna irrelevante, e os russos vão ter de esperar pelo dinheiro sentados.
Mycroft pôs um pedaço de chouriço em uma fatia de torrada e levou a comida à boca. Por um minuto ele mastigou satisfeito e em silêncio, com um sorriso de felicidade nos lábios.
— É aí que tudo se torna mais complicado e mais pessoal — falou ele finalmente. — Tenho, já há algum tempo, um “homem” em Moscou. Digo que ele é meu homem porque, apesar de ser pago pelo Ministério das Relações Exteriores, ele se reporta diretamente a mim e a ninguém mais.
— Presumo que queira dizer que ele está lá fingindo ser uma coisa, mas, na verdade, fazendo outra? — indagou Crowe.
— Ele está lá como jornalista, e é um bom jornalista, mas, além desse trabalho, também me envia informações sobre o que o czar e sua corte estão fazendo. — Mycroft suspirou e empurrou o prato. — Hoje cedo, analisando as mensagens recentes, que chegaram enquanto eu estava na delegacia de Bow Street, encontrei duas relacionadas a esse homem. A primeira foi enviada por ele e relatava que o embaixador espanhol na corte do czar Alexandre II havia feito uma contraproposta pelo Alasca de mais de dez milhões de dólares americanos, a serem pagos de pronto, em ouro, mediante a assinatura de um tratado. A segunda mensagem era de um membro da equipe diplomática britânica em Londres. Informaram-me que meu homem, meu agente, havia desaparecido. — Ele levou a xícara de chá aos lábios, depois a pousou novamente. — O czar tem uma polícia secreta também, além da força policial normal. Ela é conhecida como a Terceira Seção da Chancelaria Particular de Sua Majestade Imperial; não é um título muito atraente, mas é bastante russo. O homem no comando é o conde Piotr Andreievitch Chuvalov. Eu o conheci na França há alguns anos, nós nos demos bem. Mas não importa; o Departamento Um da Terceira Seção lida com crimes políticos e o Departamento Três, com estrangeiros. Suspeito fortemente de que meu agente tenha caído nas mãos de um desses departamentos e tenha sido levado no meio da noite.
— Czar — repetiu Sherlock no silêncio que se seguiu. — É como um rei ou imperador?
— De certa forma — respondeu Mycroft, abandonando os pensamentos sombrios. — Porém, é uma palavra impossível de traduzir. Deriva, por mais estranho que pareça, do latim Caesar. — Ele balançou a cabeça. — Os russos são muitíssimo formais com relação a títulos e assuntos assim, mais ainda do que nós, ingleses. A última correspondência diplomática que vi da corte do czar começava com, se bem me lembro... — Ele fechou os olhos. — “Nós, Alexandre Segundo, pela graça de Deus, imperador e autocrata de todas as Rússias, de Moscou, Kiev, Vladimir, Novgorod, czar de Kazan, czar de Astracã, czar da Polônia, czar da Sibéria, czar de Quersoneso Táurico, czar da Geórgia, lorde de Pskov e grão-duque de Smolensk, Lituânia, Volhynia, Podolia e Finlândia, príncipe da Estônia, Livônia, Curlândia e Semigola, Samogícia, Belostok, Carélia, Tver, Yugra, Perm, Vyatka, Bulgária e outros territórios; senhor e grão-duque de Níjni Novgorod, soberano de Chernihiv, Riazan, Polatsk, Rostov, Iaroslavl, Beloozero, Udoria, Obdoria, Kondia, Vitebsk, Mstislavl e todas as regiões setentrionais; soberano de Iveria, Kartalinia e das terras dos Kabardinos e dos territórios da Armênia; hereditário senhor e governante da Circássia e das montanhas Princes e outras; senhor do Turquestão, herdeiro de Noruega, duque de Schleswig-Holstein, Stormarn, Dithmarschen, Oldemburgo, e assim sucessivamente, e assim sucessivamente, e assim sucessivamente.” — Mycroft abriu os olhos de novo e respirou fundo. — A saudação era mais longa que o restante da carta. Não é surpreendente que a maioria dos diplomatas não goste de ser enviada a Moscou. Eles precisam decorar tudo isso.
— Você decorou — ressaltou Sherlock.
— Sim — concordou Mycroft, surpreso —, mas eu sou Mycroft Holmes.
— Vamos direto ao ponto — interrompeu Crowe. — Quais serão as consequências se a venda do Alasca para os Estados Unidos não der certo e a Espanha ficar com o território? Por que isso nos interessa?
— Isso desestabiliza a região — disse Mycroft simplesmente. — O Canadá é um país novo e frágil. A França já exerce forte influência na região de Quebec, e a Grã-Bretanha tem o controle da Colúmbia Britânica. Se a Espanha conquistar o controle do Alasca, estaríamos reproduzindo em outro continente todos os problemas que já vivemos aqui na Europa. Pense nas guerras que aconteceram entre França, Inglaterra e Espanha nos séculos XVI e XVII. A última coisa que queremos é que isso ocorra novamente. Quer saber o que vai acontecer se a Espanha conseguir o controle do Alasca, Sr. Crowe? A resposta é guerra, e uma guerra que vai dividir os Estados Unidos pela necessidade de decidir a quem se aliar!
Crowe assentiu devagar.
— Entendo — disse ele. — Aperte vários países na mesma região dessa maneira, e você terá problemas. É como ter três ou quatro famílias morando juntas em uma casinha. É claro que haverá desentendimentos.
— Estabilidade é algo que nos interessa — comentou Mycroft. — E, quando digo que nos interessa, refiro-me a você e a mim. Estados Unidos e Grã-Bretanha. Como deve ser claro, a Grã-Bretanha vem se desfazendo de várias colônias ao longo da última década. Nossas colônias no Canadá tornaram-se um país, e espero que a Colúmbia Britânica seja libertada para se juntar a elas no futuro próximo. Estamos fazendo o melhor que podemos para construir estabilidade na região. Se Espanha, França ou qualquer outro país interferir, haverá perturbações que vão afetar a paisagem política e geográfica por centenas de anos.
— Tudo isso — disse Crowe — está fora do meu alcance. Não sou político e não tenho nenhuma intenção de ser.
— É melhor não — murmurou Mycroft. — Já vi você negociar. Punhos não são considerados armas da diplomacia.
— Ah, não sei — ponderou Crowe. — Clausewicz não disse que a guerra é uma continuação das relações políticas?
— Sim — reconheceu Mycroft, contrariado —, mas ele era alemão.
— Então, o que tudo isso significa para nós? — perguntou Crowe. — Acredita que as pessoas que tentaram incriminá-lo são agentes da Espanha?
— É possível, mas improvável. — Mycroft balançou a cabeça. — Por que a corte da Espanha desejaria esconder o fato de ter feito uma contraproposta, a menos que as negociações estivessem em um estágio particularmente delicado? Não consigo vê-los cometendo um assassinato por isso. Poderiam ter sido os próprios russos, mas, novamente, por que desejariam esconder que as negociações estão em curso? — Ele pensou por um momento, enquanto coçava o queixo. — A menos que o czar não queira que o governo norte-americano saiba que está em contato com os espanhóis, considerando que a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos pode de repente aprovar a liberação dos sete milhões de dólares em ouro e, assim, prejudicar os planos de obter mais dinheiro com outro comprador. Tudo isso se baseia no fato de o acordo original estar, na melhor das hipóteses, incerto até o pagamento ser feito.
— Há outra possibilidade — murmurou Crowe.
— Sim — confirmou Mycroft —, há. Elementos de seu próprio governo podem estar tentando evitar notícias da incerteza na compra do território até que o acordo seja concluído, até que o ouro seja transferido para o czar.
Crowe deu de ombros.
— Não vou defender meu governo. Sei que já tomou decisões muito estranhas ao longo dos anos.
— Ou — interferiu Sherlock, sentindo que tinha de dizer alguma coisa — pode ser outra pessoa.
— Uma terceira parte? — perguntou Crowe.
— Quarta — corrigiu Mycroft. — Além de russos, norte-americanos e espanhóis.
— Quinta — corrigiu Sherlock. — Você também está envolvido, o que significa que a Grã-Bretanha também está.
— Entendo por que a diplomacia é tão complicada — comentou Crowe sorrindo. — Mas tudo isso é irrelevante para nós, com certeza. Você percebeu o que está acontecendo e vai adotar uma atitude diplomática. É pouco provável que haja outro ato contra você, Sherlock, ou até mesmo contra mim. Quem tentou incriminá-lo terá de perceber que você voltou ao seu escritório, viu os relatórios e chegou às conclusões acertadas.
Mycroft balançou a cabeça devagar.
— Não é tão simples. Para começar, meus superiores não estão propensos a aceitar minha palavra em uma questão de importância tão grande. Eles vão verificar tudo, o que pode levar meses ou anos. E perdi minha principal fonte de informação na Rússia. — Ele ficou melancólico. — Tenho de descobrir o que aconteceu, devo isso ao meu agente. Se ele está preso em uma cela da Terceira Seção, posso ao menos tentar tirá-lo de lá. Se está morto, posso tentar levar os assassinos à justiça, ou ao que a corte do czar chama de justiça.
— Você deve ter mais agentes em Moscou, não? — perguntou Crowe. — Eles podem cuidar disso.
— Não tenho ninguém de minha confiança em Moscou. Terei de ir pessoalmente até lá, assim que as acusações contra mim forem retiradas.

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