30 de agosto de 2017

Capítulo nove

FOSSE O QUE FOSSE QUE SEGUIA MALCOM Mackenzie, Sherlock não conseguiu distinguir sua forma. Ele só tinha ideia do seu tamanho, que era próximo a de um cão de grande porte.
Essencialmente ele via seu movimento, algo como um borrão passando em frente a muros e arbustos. Ele mudou de posição, tentando ter uma visão melhor, mas era impossível. O que seguia o pai de Cameron parecia estar sempre atrás de alguma pessoa ou uma árvore ou um carrinho. Ele tinha uma habilidade incrível para ficar escondido.
Sherlock suspeitava que era a mesma coisa que ele tinha vislumbrado no jardim da casa Mackenzie na noite anterior. Talvez não fosse um assaltante, mas observava Malcom Mackenzie por algum motivo, e de longe. Ou talvez fosse um assaltante e ainda o mirava como uma vítima.
Sherlock encontrou-se dividido. Por um lado, queria voltar até Cameron, Wu Fung-Yi e sua mãe, mas por outro, queria saber o que era essa coisa e por que seguia Malcom Mackenzie.
A última opção ganhou. Em vez de ir em frente, ele desviou para o lado, mantendo o pai de Cameron à vista. Ele sabia que se mantivesse os olhos em Malcom Mackenzie, os três acabariam no mesmo lugar. Aonde quer que fosse. Estranhamente, ninguém tomou conhecimento da coisa misteriosa que deslizava por entre eles. Algumas pessoas se viravam, confusas por um momento, quando aquilo passava, mas quando não viam nada lá, elas coçavam a cabeça e voltavam para o que faziam.
Felizmente, Sherlock foi capaz de continuar a seguir o Sr. Mackenzie sem ser visto. Em parte, porque o perseguidor estava concentrado em sua presa enquanto Malcom Mackenzie olhava tristemente para frente, a mandíbula fortemente cerrada, e em parte porque Sherlock estava eficazmente disfarçado. Ele pensou em se livrar da vara de bambu e dos baldes para ficar mais fácil de andar por entre a multidão, mas decidiu mantê-los por hora. Ele sempre poderia se livrar deles depois, se precisasse.
Mackenzie estava indo para cima. Quanto mais próximo do topo, maiores, mais ornamentados e coloridos os edifícios ficavam. Se tornavam mais espaçados também, de modo que cada edifício tinha certa área livre ao redor. Isso tornou as coisas mais difíceis para o perseguidor, já que tinha cada vez menos áreas de sombra para escondê-lo. Duas vezes Sherlock o viu correr por uma área de terreno aberto, mas frustrantemente ele ainda não conseguia distinguir o que era – apenas que parecia correr sobre duas pernas e agachado no chão.
Eventualmente, havia apenas um edifício à frente – um grande, uma extensa construção no topo da colina, com paredes tão brancas que deslumbravam o olhar. Seu telhado era feito de azulejos amarelos e era cercado por cerejeiras. Guardas vestidos de maneira semelhante aos que estavam fora do portão da cidade ladeavam as várias portas e os cantos do edifício. Sherlock presumiu que fosse a residência de alguém importante – talvez o prefeito que o capitão Bryan tinha mencionado.
A multidão havia se diluído também, de modo que as únicas pessoas em volta eram as que iam para o edifício – a residência, Sherlock decidiu pensar que fosse – e que vinham dele.
Do alto da colina, toda a Xangai se estendia abaixo de Sherlock. Ele podia ver as ruas sinuosas e as avenidas largas que as cruzavam. Podia ver as casas quadradas com seus jardins escondidos formando manchas verdes em seu centro. Ele podia ver as muralhas da cidade, mantendo tudo dentro de um abraço apertado. Além das muralhas, podia ver as águas azuis dos mares ao sul da China cintilando ao sol. Vários navios estavam alinhados ao longo do cais – incluindo o Gloria Scott, que ele reconheceu a partir dos mastros e do cordame que se tornaram tão familiares a ele ao longo dos meses. Ele também conseguia ver a longa estrutura cinzenta do USS Monocacy. Suas rodas movidas a vapor giravam, e vapor branco saía de suas chaminés. Ele estava se preparando para deixar o cais e seguir para o rio Yangtzé.
Voltando sua atenção para os edifícios, Sherlock viu o Sr. Mackenzie indo diretamente para a entrada principal da residência, mas o que o seguia parecia ter desaparecido. A entrada era um portão duplo formidável feito de madeira grossa e cravejado com parafusos de metal. Tinha quatro guardas de pé de cada lado. Um oficial chinês estava em frente aos portões. Ele usava um longo manto bordado com mangas grandes e um pequeno chapéu sem abas preto na cabeça. As pessoas iam até ele falar por um momento, e ele as deixava entrar pelas portas ou as mandava embora. A maioria das pessoas era mandada embora, com apenas uma pequena porcentagem entrando.
Sherlock notou que esses poucos que entravam tinham em mãos uma bolsa de moedas para o guardião do portão. As transações eram rápidas e bem escondidas pelas longas mangas do funcionário. Suborno? Talvez.
Além dos habitantes que chegavam e partiam, algumas pessoas tinham bancas onde vendiam bebidas, lanches e chapéus para se proteger do sol. Sherlock passou pelo oficial em frente à entrada principal e encontrou um espaço perto o suficiente para ouvir o que estava sendo dito sem ser observado.
Ele agachou-se e manteve o chapéu baixo sobre o rosto, esperando que qualquer um que o notasse o tomasse por um mendigo.
Malcom Mackenzie era o terceiro na fila. Ele continuava se contorcendo e se movimentando como se houvesse algo incomodando-o.
Sherlock olhou ao redor tão discretamente quanto possível. Procurava pelo misterioso perseguidor. Certamente ele não despareceria! Eventualmente, ele viu – ou, pelo menos, viu algo que pensou ser o mesmo perseguidor – em uma cerejeira com vista para a residência. Era oculto pelas folhas e flores, mas Sherlock podia ver o galho cedendo sob seu peso, e enquanto havia pássaros em todas as outras árvores, aquela estava isenta de vida selvagem. Eles obviamente foram afugentados.
— Meu nome é Malcom Mackenzie — disse o pai de Cameron em cantonês quando finalmente alcançou o oficial. — Preciso falar com o prefeito Chen com urgência.
— O senhor agendou uma audiência? — o oficial perguntou calmamente.
— Não. Mas como eu disse, é urgente.
— Ah. — O oficial tirou as mãos de suas mangas e deu de ombros. — Todo negócio é urgente para aqueles que carregam a notícia, mas o que é urgente para um homem pode ser trivial para outro.
— Eu lhe garanto, esta é uma situação de emergência — falou Mackenzie com uma frustração óbvia.
— Ninguém nunca vem ao prefeito, dizendo “Eu tenho um pequeno problema que não tem real importância e pode esperar” — o oficial apontou, imperturbável.
Mackenzie parecia preparado para praguejar, mas ao invés disso enfiou a mão no bolso e tirou com um punhado de moedas.
— Isso tornará o meu assunto mais urgente? — ele esbravejou, empurrando as moedas debaixo do nariz do oficial.
O funcionário pareceu triste.
— Infelizmente, não.
Sherlock suspeitava que foi a agressividade com que o suborno foi oferecido, e não o tamanho, que foi o problema. Ou talvez apenas o povo chinês pudesse subornar um funcionário chinês.
— Posso saber quando uma audiência pode ser feita? — Mackenzie perguntou por entre os dentes cerrados.
— Para isso, o senhor terá que falar com o secretário dos compromissos do prefeito. — O oficial inclinou a cabeça. — Ele está no Portão das Bençãos Celestiais, que fica do outro lado da residência.
As mãos de Mackenzie se abriam e fechavam.
— Eu poderia então deixar uma mensagem para o prefeito?
— O senhor pode deixar uma mensagem, e posso garantir que esta será passada para o secretário de correspondência do prefeito. Se ele decidir ser importante o suficiente, então ele irá transmiti-la.
— Você — disse Mackenzie — têm um pincel, tinta e papel?
— Há, sem dúvida, alguém por aqui vendendo esses itens — respondeu o oficial polidamente. — E por um valor adicional o vendedor certamente será capaz de formular a mensagem de uma forma que agarrará o ouvido do prefeito.
Mackenzie assentiu.
— Obrigado — ele retrucou, embora estivesse claro que ele gostaria de ter dito mais alguma coisa.
Sherlock observava enquanto Mackenzie se virava e procurava por alguém que pudesse escrever uma mensagem para ele, ou fornecesse os meios com os quais ele poderia escrever sua própria mensagem. Uma tenda perto do canto da residência parecia ter o que ele queria. Ele se dirigiu para ela. Infelizmente, poucas pessoas estavam nessa extremidade da parede, e Sherlock suspeitava que se tentasse segui-lo, seria visto pelo pai de Cameron, com disfarce ou sem.
Sherlock virou a cabeça para olhar para a cerejeira. O galho que antes estava curvado, agora voltara à sua posição natural, e havia aves empoleiradas nos galhos mais altos. O misterioso perseguidor havia se movido na árvore, ou a abandonara de vez.
Quando Sherlock voltou sua atenção para a banca do escritor de cartas, o vendedor enrolava um papel em cima da mesa e o selava com uma gora de cera vermelha. Entregou-o a Mackenzie com um floreio. O pai de Cameron o arrebatou de sua mão e praticamente correu para o funcionário na frente dos portões principais, ignorando a fila de moradores chineses que já estavam lá. Ele tentou entregar a carta ao homem diretamente, mas o funcionário negou com a cabeça, com uma expressão triste no rosto.
— Por favor volte para o fim da fila. Eu a pegarei no momento correto.
— Isto é realmente urgente! — Mackenzie protestou.
— O que é urgente hoje, é de interesse passageiro amanhã — disse o funcionário, como se estivesse citando alguma coisa. — Nuvens passam em frente ao sol e então elas se vão.
Mackenzie olhou para ele por um longo momento, então relutantemente foi para o fim da fila, que por esta altura consistia em cerca de dez pessoas. Impaciente, ele esperou que todos fossem atendidos um a um, batendo a mensagem contra a perna. Eventualmente, ele estava na frente do funcionário novamente.
— Pois não? — perguntou o oficial.
Mackenzie olhou para ele, incrédulo.
— Eu preciso que o prefeito veja isso. Existe alguma maneira d ele ver isto?
O funcionário pegou o pergaminho.
— Vou passá-lo ao secretário de correspondência do prefeito. Depois disso, o assunto ficará nas mãos dos deuses. — Ele deslizou o rolo para uma de suas volumosas mangas, então bateu palma duas vezes. Um funcionário jovem, igualmente vestindo um manto, atravessou os portais de dentro da residência. O funcionário passou para ele o pergaminho com uma enxurrada de instruções em uma linguagem que Sherlock não reconheceu. Era esse o idioma mandarim que ele tinha ouvido falar – a linguagem reservada aos funcionários e os governantes Manchu? O jovem partiu – desaparecendo no interior da residência novamente.
— Está feito — disse o oficial a Malcom Mackenzie, curvando-se. — Que bênçãos caiam sobre você como flores de cerejeira.
— E que a sua honra e riqueza aumentem de forma constante, como um filete de água que se torna um fluxo e, em seguida, um rio — respondeu Mackenzie.
Era com certeza uma saudação ensaiada, algo esperado em conversas com a classe alta chinesa. Ele olhou para o oficial por um longo momento, obviamente na dúvida se devia ou não acrescentar alguma coisa, mas, eventualmente, ele se virou e foi embora, mãos cerradas em seus lados. Passar a mensagem não tinha, obviamente, aliviado suas preocupações.
Sherlock deu-lhe alguns minutos de dianteira, então recolheu seus baldes e sua vara de bambu e dirigiu-se colina abaixo. Tendo o misterioso perseguidor ido embora, ou se ocultado, não havia nenhum sentido em permanecer por ali, e o pai de Cameron quase certamente, voltaria para casa, desapontado, então não haveria nenhum motivo em segui-lo.
Seu senso de direção sempre foi muito bom, e ele rapidamente encontrou o caminho de volta para a rua transversal que ele sabia que o levaria de volta para a casa da família Wu na East Renmin Street.
Dentro de dez minutos ele estava do lado de fora da casa. A rua estava vazia com exceção de um punhado de transeuntes. Deixando sua vara de bambu e baldes na beira da rua, Sherlock cautelosamente caminhou até a porta e bateu no batente da porta.
Cameron surgiu na entrada. Ele parecia cansado, exaurido.
— O que está acontecendo? — Sherlock perguntou a ele.
Em vez de responder, Cameron saiu da casa e juntou-se a Sherlock.
— Alguns amigos e parentes vieram das redondezas — explicou ele. — Estão falando tão rápido que eu quase não consigo acompanhar. Um sacerdote taoísta está aqui, e o corpo está sendo preparado para o enterro.
Sherlock assentiu.
— Como estão Tsi Huen e Wu Fung-Yi?
— Qual é aquela expressão? “Da maneira como se espera” — Ele deu de ombros. — É assim nos trópicos. Pessoas morrem o tempo todo aqui. É... esperado. Ou pelo menos, não é incomum.
— Isto é — Sherlock murmurou.
— O que você quer dizer?
— Eu só não acredito que uma cobra iria até o quarto de Wu Chung e depois sairia novamente sem auxílio e sem ser vista. A distância era muito longa, e não havia janelas, e Wu Fung-Yi tinha certeza de ter tapado todos os buracos nas paredes e no chão.
— O que você está sugerindo? — o rosto de Cameron a imagem da curiosidade.
A voz de Sherlock estava sombria.
— Estou sugerindo que a cobra foi introduzida ali deliberadamente. Acho que Wu Chung foi assassinado!
— Mas por quê? — perguntou Cameron, obviamente atordoado.
Sherlock deu de ombros.
— Talvez tenha sido algo a ver com o fato de ele ter acabado de voltar. Talvez houvesse alguém aqui que o odiava o suficiente para matá-lo. — Ele fez uma pausa, correndo entre todas as possibilidades. — Ou talvez tenham se ressentido do fato de que ele começou a trabalhar com os norte-americanos e quiseram puni-lo. Há, obviamente, um grande descontentamento local.
— Não me leve a mal, mas ele era um cozinheiro. Um cozinheiro assistente.
— Era um cozinheiro, sim, mas trabalhando para um navio militar norte-americano — disse Sherlock. As palavras de repente desencadearam sua memória. — O capitão Bryan me disse que o cozinheiro chefe do Monocacy morreu depois de ser mordido por uma cobra. Isso não pode ser coincidência, não é?
— É uma teoria interessante — concordou Cameron, inclinando a cabeça para um lado e olhando para Sherlock. — Mas não há nenhuma evidência. Tudo o que você tem é uma história que se encaixa nos fatos, mas eu poderia lhe dar outra história tão plausível quanto.
— Por exemplo?
— Dê-me um minuto e eu pensarei em uma.
Sherlock hesitou por um momento, perguntando-se se diria as próximas palavras ou não.
— Olha, Cameron... eu vi seu pai agora há pouco, quando voltava do cais. Ele se dirigia à residência do prefeito, e estava com pressa. Ele queria uma audiência. Ele não pôde entrar, então escreveu uma mensagem e deixou com um funcionário para levá-la para ele. Ele ressaltou que era urgente. Cameron... acho que ele sabe o que está acontecendo. Aquela coisa do jardim ontem à noite o estava seguindo!
— Você seguiu meu pai — disse Cameron em voz baixa. Seu tom era calmo e firme. Sherlock não sabia dizer se ele estava com raiva, surpreso ou intrigado. Ou, talvez, fosse uma mistura de todos os três.
— Sim — respondeu Sherlock. — Segui. E você faria a mesma coisa se o tivesse visto.
Cameron olhou para Sherlock por um longo momento.
— De fato, você tem razão — ele falou finalmente. — Eu provavelmente o teria seguido. — Ele suspirou e desviou o olhar. — Ele tem agido de maneira estranha recentemente, irritável, discutindo por nada e facilmente distraído. Você viu como ele estava no café da manhã. Até mesmo minha mãe está preocupada com ele. Acho que tem alguma coisa errada. — Sua boca torceu de repente, e Sherlock percebeu com surpresa o quanto Cameron estava preocupado com seu pai, e quão difícil estava sendo para ele tentar esconder isso.
— Eu realmente acho que ele sabe o que está acontecendo — Sherlock repetiu. — Ou, pelo menos, ele tem alguma ideia. — Ele sentiu seu pulso batendo forte com a excitação de colocar os fatos em conjunto para formar um muro de tijolos com as evidências que começavam a ser levantadas por ele. — Você viu que o Sr. Arrhenius entregou a seu pai um pacote ontem à noite? Acho que sei o que era. Eu vi um conjunto de diagramas na cabine dele, no Gloria Scott. Pareciam teias de aranha. Acho que foi o que o Sr. Arrhenius entregou a seu pai. — Ele lembrou-se de repente do ataque dos piratas. — E acho que existem pessoas que querem se apossar destes diagramas. Piratas atacaram o Gloria Scott e um deles se infiltrou na cabine do Sr. Arrhenius, à procura de algo. Então havia aquela coisa no jardim ontem... possivelmente procurava os diagramas também.
Os olhos de Cameron piscaram com interesse.
— O que era? Você viu?
— Ele se movia rápido demais — disse Sherlock. — E permanecia escondido nas sombras. Eu não consegui ter uma linha clara de visão.
— Então o que faremos? — Cameron suspirou. — Suspeitamos que haja algum tipo de conspiração em andamento envolvendo o USS Monocacy, mas não sabemos o que é. Suspeitamos que meu pai está envolvido, mas não sabemos como. Suspeitamos que esses diagramas de aranha sejam importantes, mas não sabemos porquê. É um resumo justo?
— Muito justo. — Sherlock coçou a cabeça. — Acho que de qualquer modo, podemos perguntar ao seu pai o que está acontecendo. Ele pode nos dizer.
— Possível, mas não provável. Pode ser melhor tentar encontrar os diagramas de aranha que você falou. Elas podem nos dizer muito mais.
— Tudo bem. Vamos fazer assim.
Os dois garotos olharam um para o outro por um momento, um esperando o outro dar o primeiro passo. Eventualmente, Cameron quebrou o impasse.
— Vamos então — ele falou bruscamente. — Vamos terminar com isso.
À medida que se afastavam, Sherlock se perguntou se voltaria a ver Wu Fung-Yi e sua mãe novamente. Será que ele até mesmo se lembraria de seus rostos em um ano ou dois, ou apenas os seus nomes? Parecia desperdício ter fragmentos de memórias, como que flutuando dentro de sua cabeça, desconectados de qualquer coisa real ou de importância. Ele desejou que pudesse se lembrar perfeitamente de tudo o que já tinha visto, lido ou ouvido, ou que tivesse a capacidade de apagar as memórias de que não precisasse mais. Da maneira como era, ele ainda lembrava dos apelidos e rostos dos meninos que haviam estudado com ele na Escola Deepdene para Meninos, e provavelmente nunca precisaria dessas memórias novamente.
Os dois fizeram seu caminho de volta para a casa da família Mackenzie pelas agora familiares ruas de Xangai. Era o meio da tarde, e o sol brilhava em um céu de azul esmaltado. Cameron parou abruptamente em certo ponto quando passavam por uma barraca que vendia macarrão. Ele jogou algumas moedas para o vendedor e saiu com duas tigelas de bambu com macarrão e pedaços de carne cobertos por molho.
— Aqui — ele disse, entregando uma delas. — Coma isso. Passou um bom tempo desde o café da manhã.
— Suponho que sim — respondeu Sherlock de repente, percebendo que estava faminto.
Ele pegou a tigela de bambu que veio acompanhada por dois palitos de madeira e usou os palitos para levar o macarrão à boca enquanto caminhavam. O molho era doce e picante, e a coisa toda tinha um sabor maravilhoso. Por que a comida na Inglaterra era tão suave?, ele se perguntava.
No momento em que chegaram à casa de Cameron, há tinham terminado o macarrão. Cameron jogou as tigelas fora.
— Mamãe não gosta que eu coma na rua — ele falou em tom de desculpa. — Ela acha que vou pegar alguma doença terrível.
— Talvez você esteja se protegendo de doenças ao comer a comida local e brincar com as crianças daqui — sugeriu Sherlock. — Talvez as pessoas que ficam dentro de casa o tempo todo e se isolam de tudo são os que pegam a primeira doença que encontram, em vez de evitá-la.
Cameron olhou para ele.
— Você sabe que pensa demais, não sabe?
Quando eles entraram, não havia ninguém por perto. A porta do escritório do Sr. Mackenzie estava fechada – possivelmente ele estava lá dentro, fazendo o importante trabalho sobre o qual comentara no café da manhã. Será que envolviam os diagramas de teia de aranha?, Sherlock se perguntou. A Sra. Mackenzie não se encontrava em nenhum lugar óbvio da casa, mas Cameron disse que muitas vezes ela ia e se deitava por um tempo.
Nenhum dos meninos queria abrir a porta do escritório de Malcom Mackenzie para tentar encontrar os diagramas. Em vez disso, deslocaram-se para o quarto de Cameron. Enquanto Cameron atirou-se para sua cama e ali ficou, um braço sobre os olhos, Sherlock encontrou um caderno de notas e esboçou nele o que conseguia se lembrar da picada de cobra nas costas de Wu Chung.
Havia algo na picada de cobra que ainda o incomodava. O melhor que pôde, ele desenhou as duas marcas de presas diferentes – o que parecia ser uma marca de mordida normal e aquela irregular que parecia como se tivesse sido feita por uma presa quebrada. Ele também tentou obter o espaçamento correto entres as marcas. Não sabia por que era importante manter um registro, mas ele queria ter a certeza de que o teria em mãos caso precisasse.
Assim que obteve o esboço do jeito que queria, registrando com precisão a ferida que tinha visto nas costas de Wu Chung, ele ouviu um gongo sendo tocado em algum lugar lá fora.
— Esse é o sinal para o chá da tarde — disse Cameron, tirando o braço do rosto. — Acho que perdemos nossa chance de procurar o escritório do meu pai.
— É uma bravata falar nisso —, disse Sherlock. — Acho que nenhum de nós pensou realmente em fazer isso.
Rapidamente eles lavaram os rostos e as mãos, e se vestiram com camisas limpas. Cameron liderou o caminho através do jardim de pedras e areia para as áreas principais da casa.
A Sra. Mackenzie já estava na sala de estar, onde bules de chá e café e uma série de pequenos bolos haviam sido postos.
Ela sorriu para os meninos.
— Vocês tiveram um bom dia?
Cameron deu de ombros, mas Sherlock sorriu para ela.
— Sim, obrigado. Cameron é um ótimo guia da área.
Ela estendeu a mão e bagunçou o cabelo de Cameron. Ele se afastou, envergonhado.
— Sim, ele é ótimo em muitas coisas — disse ela orgulhosa. Ela olhou para a porta. — Malcom vai perder todos os bolos se não se apressar. Cameron, seja bonzinho e vá chamar seu pai.
Cameron pegou um prato e um bolo e, apesar do olhar de desaprovação de sua mãe, saiu da sala de jantar segurando um e comendo o outro. Sherlock atravessou a mesa.
— Gostaria que eu enchesse uma xícara de chá para a senhora? — perguntou.
— Seria amável — disse a Sra. Mackenzie.
Lá fora, do outro lado do corredor, Sherlock ouviu Cameron batendo na porta.
— Papai? O senhor está perdendo os bolos e o chá! — Não houve, obviamente, resposta, porque Cameron bateu novamente. — Papai? O senhor está aí?
Sherlock tomou conhecimento de que a Sra. Mackenzie estava sentada perfeitamente imóvel, ouvindo o que acontecia com uma expressão preocupada no rosto.
— Papai? — Cameron bateu novamente. Momentos depois, Sherlock ouviu o som da porta sendo aberta.
A próxima coisa que ele ouviu foi um grito de pura angústia
— Papai! — e som de um prato se quebrando no chão.

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