18 de agosto de 2017

Capítulo nove

DEPOIS DE DEIXAR AS MALAS no quarto, Sherlock e Matty desceram a escadaria do hotel e saíram para a cidade. O sol havia sumido no horizonte, e a escuridão da noite foi enfeitada pela iluminação de lâmpadas a gás e por tochas acesas instaladas em suportes nos edifícios de pedra. As ruas já estavam cheias de gente indo de taverna em taverna, aparentemente buscando um lugar onde pudessem se divertir mais do que onde estavam. Fazendo o possível para evitar tumulto, os dois encontraram uma taverna relativamente civilizada, onde puderam se sentar em um canto, comer uma torta de presunto defumado e beber uma cerveja aguada que o taverneiro pareceu não se incomodar em lhes servir.
Porém, quando Sherlock pediu uma jarra de água, o homem só o encarou com desgosto e fez uma careta.
De quando em quando, alguém tentava se sentar ao lado deles e puxar assunto. Às vezes era uma mulher usando mais maquiagem que o necessário e roupas que pareciam não ser lavadas havia algum tempo, mas em geral era algum homem com barba por fazer, usando um terno manchado ou suspensórios com uma camisa cinzenta sem gola. Matty sempre dizia a mesma coisa – “Nosso pai vai chegar logo, e ele não vai gostar de ver você aqui” –, e rapidamente a pessoa ia embora resmungando um pedido de desculpas ou um palavrão. Quando isso aconteceu pela primeira vez, Sherlock apenas ignorou, mas depois da terceira vez ele encarou Matty com uma expressão intrigada.
O menino evitou seu olhar.
— Tem muita gente estranha por aí — murmurou ele. — Qualquer que seja a cidade, alguém sempre vai tentar fazer amizade se você for um garoto e estiver sozinho. Você logo aprende a não se meter com nenhuma dessas pessoas.
Sherlock não perguntou mais nada. Era óbvio que Matty não queria entrar em detalhes, mas ele ficou novamente feliz por estar junto do amigo.
Passaram algum tempo discutindo o que fariam em relação a Rufus Stone. Estava claro que os dois haviam alimentado uma esperança secreta de que o encontrariam no hotel, ou que, pelo menos, receberiam alguma mensagem dele. O fato de que não havia nada os incomodara mais do que gostariam de admitir.
— Poderíamos avisar à polícia — sugeriu Matty. — Dar Rufus como desaparecido.
— O problema é que não sabemos realmente o que aconteceu com ele, então a polícia não poderá fazer muita coisa. Não o vimos ser sequestrado. Vão dizer que ele só perdeu o trem e que vai aparecer amanhã. Ou pior: vão ficar preocupados ao saber que há dois garotos sozinhos em Edimburgo. Vão nos deixar com um guardião ou nos mandar para a casa de algum filantropo até Rufus chegar. E isso não pode acontecer de jeito nenhum.
Matty assentiu.
— Entendo. Mas e o seu irmão? Poderíamos mandar um telegrama para ele, contando o que aconteceu.
— E em uma hora ele enviaria em resposta um telegrama mandando-nos voltar a Londres até ele descobrir o que houve com Rufus. Se ele fizesse isso, eu não poderia desobedecer... já tentei antes, e nunca dá certo. Não, precisamos ficar aqui. É melhor não contarmos para ninguém o que aconteceu.
— O que você acha que aconteceu com Rufus? — perguntou Matty, baixinho, sem olhar para Sherlock.
Sherlock suspirou. Vinha tentando não pensar muito no assunto.
— Não sei. Talvez aqueles americanos o tenham pegado e estejam interrogando-o. Considerando que Rufus não sabe nada que eles já não saibam, provavelmente vão soltá-lo.
Ou matá-lo, pensou Sherlock, mas não expressou esse medo em palavras. Embora Matty tivesse o tipo de conhecimento das ruas que ele nunca teria, era mais novo e precisava ser protegido de certas coisas.
— Ele sabe sobre Edimburgo — comentou Matty.
— Se eles estavam no trem conosco, também sabem sobre Edimburgo. Desconfio que isso não seja mais segredo. — Sherlock hesitou por um instante. — Por outro lado, se for a Câmara Paradol, então não sei o que querem com ele.
Sherlock percebeu que a conversa havia minado seu apetite. Pensar no que podia estar acontecendo a Rufus enquanto eles relaxavam em uma taverna confortável e comiam bem fez seu estômago revirar.
— Não quero deixar você preocupado — sussurrou Matty depois de um tempo —, mas já viu aquele cara ali? — Ele indicou com a cabeça a parede do outro lado da taverna. — Sentado sozinho.
Sherlock tentou olhar disfarçadamente. Ficou preocupado, achando que talvez Matty tivesse visto o Sr. Kyte, mas deu um suspiro de alívio ao ver um sujeito magro desconhecido sentado sozinho a uma mesa. Porém, no instante seguinte, começou a se sentir inquieto. Não havia qualquer sinal de que o homem estivesse interessado neles dois, mas ele tinha algo de estranho, algo que Sherlock não conseguiu definir. Para começar, o homem era extremamente magro, como se tivesse passado semanas sem comer, e sua pele era quase translúcida de tão pálida. Os olhos do homem não podiam ser vistos sob a sombra das cavidades oculares, e os ossos da face e do queixo se projetavam sob uma pele esticada de tal forma que Sherlock achou que o rosto fosse rachar a qualquer momento. Suas roupas também eram estranhas: pareciam um dia ter sido as peças mais elegantes do sujeito, mas agora estavam cobertas de sujeira, e havia uma mancha verde nos ombros e nas mangas do casaco. Ele estava olhando para a frente, mas não parecia observar nada específico. Não havia ninguém sentado perto dele, e, embora o sujeito não tivesse nenhuma bebida na mesa, o taverneiro não parecia disposto a se aproximar para anotar um pedido ou expulsá-lo. O homem estava apenas ali sentado, sem fazer nada.
A taverna encheu, e depois de um tempo Sherlock e Matty não conseguiram mais ver o estranho homem pálido. Os dois terminaram de comer e se prepararam para ir embora. Quando se levantaram, abriu-se uma brecha na multidão. Sherlock olhou na direção da mesa distante. O sujeito não estava mais lá.
— Já ouviu falar dos ressurreicionistas? — perguntou Matty ao saírem da taverna.
Ele parecia tenso.
— Não reconheço o termo — respondeu Sherlock.
— Eram uns caras chamados Burke e Hare. O primeiro nome dos dois era William. Eles eram famosos por estas bandas há alguns anos. Ouvi falar deles quando meu pai tava trabalhando aqui. Eu me lembrei deles quando vi aquele cara lá. Muitos médicos vinham a Edimburgo para estudar, por causa da Edinburgh Medical College, mas eles tinham um problema: como é que iam aprender sobre o corpo humano se não tinham nenhum morto para examinar, abrir, ver onde ficavam todos os órgãos e onde ficava o sangue?
— Achei que as faculdades de medicina pudessem usar o corpo de criminosos executados — disse Sherlock, franzindo o cenho.
— Na teoria, sim — respondeu Matty —, mas a quantidade de cadáveres disponíveis era sempre menor que a de estudantes de medicina querendo examinar algum. E a quantidade de crimes que levavam alguém à forca tinha diminuído muito, então havia muito menos corpos para se usar. Sessenta anos antes, uma pessoa podia ser enforcada por mil e um motivos diferentes. Depois, passaram a ser bem poucos. Então a faculdade só recebia uns dois cadáveres por ano. E foi aí que entraram Burke e Hare.
— Acho que já sei aonde isso vai chegar — disse Sherlock, baixinho, sentindo um arrepio na espinha. — Eles pegavam corpos nos cemitérios e vendiam, não é?
Matty o encarou.
— Não exatamente — disse ele —, mas realmente isso acontecia muito. As pessoas chamavam isso de “roubo de cadáveres”. Era tão comum que o túmulo de um morto recente costumava ser vigiado por amigos e parentes para que ninguém o violasse. Os mais ricos mandavam construir uma jaula em volta do túmulo dos parentes. Antes de perceberem o que tava acontecendo, as pessoas iam visitar algum ente querido e viam que o túmulo tinha sido remexido, como se a pessoa tivesse voltado à vida e se arrastado para fora por conta própria. — Matty e Sherlock abriam caminho pelas ruas movimentadas em direção ao hotel. — Claro, quando as pessoas descobriram, os ladrões de cadáveres tiveram que mudar de tática. Eram bastante criativos, esses ladrões. Usavam pás de madeira, porque faziam menos barulho que as de metal, e cavavam na diagonal para não deixar sinais em cima dos túmulos. Aí eles chegavam a uma das extremidades do caixão, quebravam a madeira e puxavam o corpo com uma corda.
— Certo, mas você disse que esses tais Burke e Hare não eram ladrões de cadáveres. O que eles faziam, então?
— Para começar, eles eram irlandeses — respondeu Matty. — Vieram para Edimburgo trabalhar na construção do canal Union. Burke acabou se hospedando na pensão da mulher de Hare. Eles se encontravam para beber, e uma noite começaram a conversar sobre formas de conseguir dinheiro. Um deles sugeriu que podiam roubar o corpo de alguém que houvesse morrido de causas naturais na cidade e que não tivesse parentes, e vender para alguém da faculdade usar em aulas de anatomia humana. Pouco tempo depois um hóspede velho da pensão, que devia quatro pratas a Hare, morreu de causas naturais. Os dois encheram de casca de árvore o caixão que ia ser sepultado e venderam o cadáver para um tal de Dr. Knox aqui da cidade, por sete pratas.
— Quanta iniciativa — comentou Sherlock, com cinismo.
— O problema era que não tinha gente suficiente morrendo de causas naturais, então eles decidiram dar uma ajudinha no processo. A primeira pessoa que eles mataram foi um moleiro da região. Embebedaram-no de uísque e depois o sufocaram. A segunda foi outro hóspede da pensão, uma mulher chamada Abigail Simpson. Depois disso... — Matty deu de ombros. — Bom, eles foram em frente. O Dr. Knox pagava um bom dinheiro para cada corpo que eles entregavam, e não fazia perguntas... dez pratas se o cadáver estivesse em boas condições, oito se tinha algum problema. Eles preferiam mulheres e crianças, claro, porque era mais fácil dominar e sufocar.
Sherlock começou a se sentir mal. O que o perturbava era a maneira casual com que Burke e Hare faziam aquilo. Os assassinatos não eram crimes passionais nem incidentes espontâneos “do calor do momento” – eram, na prática, uma série de decisões comerciais. Decisões comerciais que envolviam matar gente.
— Quantas pessoas eles acabaram matando? — perguntou Sherlock, baixinho; estavam virando uma esquina e se dirigindo à entrada do hotel.
— O mais provável é que tenham sido dezessete — respondeu Matty —, ao longo de um ano.
— E ninguém suspeitou? Quer dizer, o médico que comprava os cadáveres deve ter percebido que aqueles não eram criminosos executados. A forca com certeza deixa uma marca visível no pescoço, e aqueles cadáveres não deviam ter nenhuma.
— O Dr. Knox? É, ele sabia sim, mas Burke depois jurou que não. O cara só não queria interromper o fornecimento de corpos. Ele tava ganhando a reputação de ser o melhor professor de anatomia da região, e muitos estudantes queriam ter aula com ele e pagavam bem pelo privilégio. Ele não queria abrir mão disso. — Matty bufou. — Dizem que uma das vítimas de Hare e Burke, um homem chamado Jamie Maluco, era conhecido na cidade. Quando o Dr. Knox mostrou o corpo no auditório, para a aula, alguns estudantes o reconheceram. O médico disse que devia ser outra pessoa, mas começou a dissecação pelo rosto, para deixar o corpo irreconhecível logo de uma vez.
— Como isso tudo terminou? — perguntou Sherlock, abrindo a porta do hotel. — Suponho que eles tenham sido descobertos, caso contrário você não saberia tudo isso.
— Burke e Hare mataram uma mulher chamada Marjory Docherty na pensão, mas não conseguiram se livrar logo do corpo, então o esconderam debaixo de uma cama. Havia algumas pessoas no local, e elas ficaram desconfiadas. Quando Burke saiu, elas foram ao quarto dele e acharam a mulher. Aí, chamaram a polícia. Burke e Hare tiraram o cadáver da pensão antes que a polícia chegasse, mas levaram para a casa do Dr. Knox, onde depois a polícia o descobriu. Hare aceitou testemunhar contra Burke em troca de imunidade. Burke foi condenado à forca, e o corpo dele foi dissecado em público na Edinburgh Medical College... tudo de acordo com a lei, claro.
— E o que aconteceu com Hare?
— Desapareceu. Ninguém nunca mais ouviu falar dele.
— Então ele ainda pode estar na cidade?
Matty assentiu enquanto abria a porta do quarto.
— Pode até ser, mas é mais provável que ele tenha voltado para a Irlanda.

Na manhã seguinte, ainda não havia notícias de Rufus Stone. Deprimidos, Sherlock e Matty comeram mingau de aveia no café da manhã, que fora servido silenciosamente por uma criada silenciosa. O mingau estava tão grosso que poderia ser cortado com uma faca, e tinha gosto de lavagem, mas eles o acharam incrivelmente saboroso e satisfatório.
— Qual é o plano? — perguntou Matty.
— Vou procurar uma livraria ou biblioteca — disse Sherlock. — Preciso de um mapa da cidade, e tenho que aprender mais sobre o lugar. Sinto que estou perdido aqui, não consigo me orientar. Que tal se você for aos lugares que conhecia e ver se alguém se lembra de você e pode nos ajudar? Vamos precisar de toda a ajuda possível. — Ele ficou em silêncio por um instante, pensando. — Aquele parque, mais acima na rua do hotel... vamos nos encontrar nos portões ao meio-dia.
— Não tenho relógio — comentou Matty.
— Então pergunte as horas a alguém.
Quando terminaram o mingau, os dois se despediram e saíram à rua.
Sherlock encontrou uma biblioteca na avenida principal, próximo dali. O cheiro seco dos livros lá dentro era acolhedor e fez Sherlock se lembrar da biblioteca de tio Sherrinford. O menino sempre se sentia à vontade em meio a livros. Ele foi para a seção dedicada à Escócia, pegou uma braçada de volumes da estante e se sentou a uma mesa para ler.
Após uma hora, Sherlock tinha uma noção muito melhor da geografia e da história de Edimburgo e de sua relação com a história geral da Escócia. Descobriu que a cidade havia sido construída em cima de sete colinas, o que talvez explicasse o fato de que todas as ruas pareciam ladeiras.
Depois de algum tempo, as pequenas letras pretas que Sherlock tentava ler começaram a se misturar. Ele afastou o livro e fechou os olhos por um instante. O problema, concluiu, era que as informações que ele queria não estavam em livros de referência. Aonde as pessoas de Edimburgo iam quando tinham que fugir? O que faziam para se esconder se houvesse alguém procurando por elas? Quem era o mandante da comunidade criminosa da cidade? Essa pessoa preferiria ajudar alguém que estivesse sendo perseguido ou os perseguidores? Esse tipo de coisa Matty teria mais chance de descobrir com seus contatos, mas a informação acabaria se perdendo se não fosse registrada e atualizada de tempos em tempos. Sherlock concluiu que precisava anotar todos os fatos e detalhes que ele e Matty descobrissem pelo caminho. Se pudesse manter um fichamento dessas informações, ele talvez pudesse consultá-las novamente em outra ocasião.
Um pensamento súbito e perturbador lhe ocorreu, fazendo-o estremecer. Não havia muita diferença entre o que ele estava se propondo a fazer e o que Josh Harkness fizera: reunir e guardar informações sobre atividades suspeitas ou ilegais. A única distinção era o fato de que Sherlock não usaria isso para obter lucro.
O menino conferiu o relógio que pendia de uma corrente em seu colete. Onze e meia. Hora de começar a ir ao encontro de Matty.
Enquanto recolocava os livros nas estantes, Sherlock percebeu que havia mapas de Edimburgo à venda por seis pence no balcão da biblioteca. Comprou um, voltou para a mesa onde estava lendo e o abriu. Deu uma olhada rápida nos detalhes: o formato da cidade e os sentidos das vias principais. Localizou a principal linha férrea que vinha de Londres e traçou a rota que o cabriolé havia percorrido. Eles tinham seguido por uma rua chamada Princes – claramente a principal via que cruzava a cidade. Com isso, Sherlock pôde identificar onde o hotel ficava e onde ele próprio estava naquele momento.
Ele dobrou o mapa e seguiu para o parque. Sentia-se mais confiante de que agora conseguiria se orientar.
O sol brilhava acima das nuvens, lançando feixes diagonais de luz pela extensão salpicada de azul e cinza, como se fossem vigas de sustentação do céu inteiro. Sherlock percorreu a Princes Street, vendo partes do castelo cada vez que olhava pelas ruas transversais ao longo do caminho. A construção já não parecia uma nuvem maciça e cinzenta sobre a cidade, mas havia algo nela que desafiava a geometria e a perspectiva. Era como se não fosse possível que houvesse o castelo em cima enquanto a cidade estava ali embaixo.
Ao passar por um determinado beco, Sherlock ouviu algo se agitando nas sombras. Parou, intrigado, e olhou para o lado. Não tentou se aproximar do beco – seria uma estupidez – mas, se alguém o seguia, ele queria saber quem era.
Por um momento viu apenas uma área de sombras, como se fosse escuridão líquida, onde o sol jamais penetraria, mas depois de algum tempo seus olhos se habituaram ao contraste e ele percebeu algo que parecia estar flutuando, como um balão branco. O cérebro do menino precisou se concentrar por um instante até entender o que estava encarando: o rosto de alguém todo vestido de preto e parado no beco, olhando para a rua.
Sherlock deu um passo involuntário para trás. O rosto era branco como giz, e os olhos pareciam tão fundos que as cavidades oculares eram apenas buracos negros. Os ossos das faces eram muito pronunciados, e os lábios – se é que a figura os tinha – estavam recolhidos acima dos dentes, que pareciam sorrir para Sherlock, como se a pessoa estivesse se divertindo com alguma piada particular. Por bastante tempo o menino acreditou que havia um corpo humano em decomposição, quase um esqueleto, parado no beco olhando para ele. Teria sido tirado da cova e deixado ali, apoiado por um pedaço de madeira, para servir de advertência? Mas quem faria algo tão macabro?
A figura ergueu a mão até o lado do rosto e acenou, e então recuou para as sombras até que Sherlock não pudesse mais vê-la. Foi só depois que o sujeito desapareceu que Sherlock, tremendo e com frio, lembrou-se do homem na taverna, o que estava sozinho. Seria o mesmo? A figura parecera ainda mais esquelética, ainda menos viva, mas isso poderia ser efeito da iluminação ruim.
O que estava acontecendo? Sherlock pensou no que seus tios tinham lhe contado. Será que ele estava ficando louco, como o pai?
Por alguns segundos ele teve vontade de entrar no beco e procurar pela figura – procurar pela verdade do que vira – mas recuou. Pela lógica, a explicação mais provável era que aquilo era uma armadilha, que a figura era um engodo para atraí-lo. Mas seria algo aleatório ou alguém sabia que muitas vezes a curiosidade de Sherlock superava seu bom senso? Abalado, o menino se afastou da entrada do beco e não olhou para trás.
O parque ficava só mais alguns minutos de caminhada adiante. Quando ele chegou lá, Matty já o esperava.
— Tá tudo bem? — perguntou o amigo. — Parece que você viu um fantasma.
— Não seja idiota — respondeu Sherlock, grosseiro. — Não existe isso de fantasma.
— Tá bem, não precisa ficar nervoso.
— Descobriu alguma coisa? — perguntou Sherlock.
Matty balançou a cabeça.
— A maioria dos caras e garotos que eu conhecia por aqui se mudou. Ou então morreu. Cheguei a achar algumas pessoas que se lembravam de mim, mas elas não sabem de nenhum americano grande que tenha passado por aqui. E você?
— Agora já sei me orientar pela cidade.
— Bom, já é alguma coisa — disse Matty, com cinismo. — Se a gente tivesse alguma intenção de se mudar para cá, quer dizer.
— Não subestime a importância do conhecimento geográfico.
O amigo o encarou.
— E o que a gente faz agora? — perguntou ele depois de algum tempo.
Sherlock refletiu por uns instantes. Ele também havia pensado no assunto.
— Acredito que possamos voltar à estação e conversar com os cobradores e guardas — disse ele, devagar —, mas eles devem ver centenas de passageiros por dia, e nada garante que vão se lembrar do Sr. Crowe. Além do mais, se ele continuou com a mesma cautela que tinha em Farnham, deve ter saltado em uma estação anterior e talvez contratado uma carroça para trazê-lo a Edimburgo com Virginia.
— Se é que ele tá aqui — comentou Matty. — Afinal, a única coisa que apontou esta cidade para você foi uma cabeça de coelho e uma tora. Não é muito. Ainda acho que podemos ter seguido uma direção completamente errada.
— Mesmo com o desaparecimento de Rufus? — perguntou Sherlock.
Matty deu de ombros.
— Tem razão. A pista provavelmente era boa, mas, agora que a gente tá aqui, o que fazer? Esperar que apareça alguma outra?
— Matty — disse Sherlock, devagar —, já falei isso antes, e vou falar de novo: você pode não ser um gênio, mas desperta a genialidade das pessoas à sua volta.
— Como assim?
— Amyus Crowe deixou uma pista que nos traria a Edimburgo, se a interpretamos corretamente. Por que ele fez isso?
— Porque o Sr. Crowe queria que viéssemos atrás dele — respondeu Matty.
— Exatamente. Ele queria que o seguíssemos. Não estava dizendo apenas “Adeus. Estou indo para Edimburgo”! Queria que soubéssemos exatamente aonde ele estava indo, e o único motivo para isso é que ele queria que o seguíssemos. Ele quer nossa ajuda. Agora que estamos aqui, ele não vai nos deixar à deriva. Vai mandar outra pista, algo que nos leve até onde ele está.
— E ele não podia ter feito isso logo no começo?
— Ele sabia apenas que estava vindo com Virginia para Edimburgo. Quando chegasse aqui, arranjaria algum lugar para se acomodar em paz, algum lugar onde não pudesse ser encontrado. Ou seja, não seria um hotel. É mais provável que seja algum chalé alugado na periferia da cidade. Quando ele tivesse um endereço, daria um jeito de nos avisar.
— Mas ele não sabe onde estamos — comentou Matty.
— Então ele deixaria uma mensagem em algum lugar para que pudéssemos encontrar em qualquer lugar da cidade. — Sherlock pensou no jornal que tinha lido no trem. Lembrou-se especificamente da página de classificados que tanto o havia fascinado: mensagens de uma pessoa para outra, ou de uma pessoa para todo um grupo, tanto em palavras claras quanto em código. — Ele vai publicar um anúncio no jornal da cidade — disse, confiante. — Ele sabe que deduziu um dos lugares onde eu procuraria.
— Mas e se tivermos perdido o anúncio? E se ele publicou a mensagem ontem?
Sherlock balançou a cabeça.
— Ele não tinha como saber que dia estaríamos aqui. Pelo que conheço de Amyus Crowe, ele deve ter pagado para publicarem o anúncio a semana inteira.
Matty assentiu. Ou ele achava que o que Sherlock dissera fazia todo o sentido, ou estava disposto a confiar no amigo.
— Então vamos comprar um jornal local. Vamos comprar todos.
— Quantos são? — perguntou Sherlock, pensando se os dois teriam que vasculhar dez ou doze jornais ou se Amyus Crowe teria colocado o anúncio em todos.
— Três — respondeu Matty. Ele se virou para começar a andar, mas depois voltou a olhar para Sherlock. — Você vai ter que ler os anúncios — comentou —, porque eu não sei ler. E tô sem dinheiro nenhum, então você também vai ter que comprar os jornais.
Viram um jornaleiro em frente ao parque e compraram um exemplar de cada um dos três jornais de Edimburgo, a edição daquele dia, e então voltaram ao parque e se sentaram em um banco para que Sherlock pudesse lê-los. Ele percebeu de imediato que a matéria sobre o assassinato em Edimburgo – a que ele havia visto no exemplar do Times no trem – estava na capa dos três. O primeiro – o Edinburgh Herald – dava o tom geral dos outros:

Hoje pela manhã a polícia de Edimburgo prendeu uma mulher suspeita do assassinato por envenenamento do excêntrico empresário Sir Benedict Ventham. Fontes próximas à polícia relataram que a pessoa em questão chama-se Srta. Aggie Macfarlane, cozinheira do falecido Sir Benedict e, conforme apuramos, irmã de Gahan Macfarlane, famoso líder da gangue criminosa Saqueadores Negros. Acredita-se que ela tenha posto veneno na comida de Sir Benedict por motivos até o momento conhecidos apenas por ela.

Saqueadores Negros? O nome da gangue perturbou Sherlock. Soava perigoso, até sinistro. O menino estava prestes a passar à seção de classificados do jornal quando viu outra ocorrência do nome, em uma reportagem logo abaixo do texto sobre o envenenamento de Sir Benedict Ventham.

INCÊNDIO DESTRÓI QUITANDA LOCAL
Ontem à noite, o local onde funcionava a quitanda dos senhores MacPherson e Cargill, na Princes Street, foi consumido por um incêndio de proporções apocalípticas. Durante quase três horas transeuntes usaram baldes para combater as chamas com água retirada do rio próximo, sem muito sucesso. Não se registrou nenhuma morte, pois o incêndio aconteceu durante a noite. A quitanda de MacPherson e Cargill foi uma instituição na cidade por mais de cinquenta anos. Diversos indivíduos da comunidade local, que desejam permanecer anônimos, informaram à reportagem que os quitandeiros haviam atraído recentemente a atenção dos Saqueadores Negros – infame gangue criminosa que atua em Edimburgo extorquindo empresários (...)

Sherlock seguiu para a seção de classificados. Não era tão grande quanto a do Times – ocupava pouco mais de meia página. Quase todos os anúncios pareciam ser de lares à procura de criadas, cozinheiros ou mordomos (“imprescindível apresentar referências”), e um punhado de avisos de achados e perdidos (“Encontrado na King’s Street um broche feminino – esmeraldas em base de ouro. Possíveis donos devem encaminhar uma descrição completa por escrito do item para que possa ser providenciado o retorno”). Não havia nada que parecesse ter sido escrito por Amyus Crowe.
Por via das dúvidas, Sherlock conferiu também as páginas de cartas. A maioria parecia ser reclamações sobre fatos incorretos em edições anteriores do jornal ou comentários sobre a falta de modos das classes inferiores, mas uma das cartas chamou a atenção do menino. Ele a leu em voz alta para Matty:

Senhor,
Escrevo em referência à recente onda de relatos sobre homens e mulheres em toda a cidade que só poderiam ser descritos como “falecidos mas ainda se mexendo”. Tais eventos são uma afronta a Deus e atestam a fragilidade moral da população desta cidade. Peço a atenção dos leitores em relação às seguintes passagens da Bíblia:
Isaías 26:19: “Os teus mortos viverão, os seus corpos ressuscitarão; despertai e exultai, vós que habitais no pó; porque o teu orvalho é orvalho de luz, e sobre a terra das sombras fá-lo-ás cair.”
Apocalipse 20:13: “O mar entregou os mortos que nele havia; e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e foram julgados, cada um segundo as suas obras.”
Peço que todos reflitam: isso não indica que o Armagedom está próximo e que Deus logo nos julgará? Arrependam-se de seus pecados antes que seja tarde demais!
Com a graça de Deus, George Thribb, Esq.

A carta fez Sherlock pensar nas duas figuras esqueléticas que tinha visto – na taverna, na noite anterior, e na rua, apenas meia hora antes. Seria a isso que a carta se referia? Havia uma onda de pessoas que pareciam cadáveres andando pelas ruas? Se sim, o que isso significava?
Sherlock afastou esses pensamentos. Por mais interessantes que fossem tais especulações, não ajudavam na tarefa do momento: encontrar Amyus Crowe e Virginia, ou Rufus Stone.
No Edinburgh Star, os classificados eram mais voltados para anúncios sobre festas (ou “cèilidhean”, como pareciam ser chamados), animais de estimação perdidos e cavalos à venda. Um anúncio em particular chamou a atenção de Sherlock: “Papagaio perdido, sabe recitar texto completo de Hamlet e poemas de Tennyson. Paga-se recompensa pelo retorno.” Um pássaro que sabia recitar Hamlet inteiro? Sherlock não podia acreditar.
Foi no Edinburgh Tribune que ele encontrou o que procurava. Em meio à variedade habitual de anúncios, um se destacou imediatamente.

Hotel sigerson
Encontre o lugar perfeito para descansar e relaxar. Basta nos dizer quais são seus sonhos, e nós os transformaremos em realidade. Dois dias em nossas instalações farão maravilhas, e todos os seus desejos serão realizados.
Nós, os respeitáveis Cramond, estamos perto de Kirkcaldy, em Fife.

— É isso — disse Sherlock, apontando para o anúncio.
— Eu não sei ler — repetiu Matty, com paciência.
Sherlock o leu em voz alta para Matty, que franziu o cenho.
— Meio cansativo — disse ele —, e também um pouco esquisito. Não parece um lugar que hospede gente normal.
— Não é um hotel de verdade — respondeu Sherlock.
— Como você sabe?
O menino indicou as duas primeiras palavras.
— Hotel Sigerson. Meu pai se chama Siger, Siger Holmes. Como eu sou o filho de Siger, esse anúncio foi escrito para mim.
Matty parecia incerto.
— Pode ser coincidência. Talvez exista um hotel Sigerson.
— É possível — reconheceu Sherlock —, mas o preço desses anúncios é calculado por palavra. Tem muitas palavras aqui, mais do que seria necessário para dizer às pessoas como o hotel é bom. No entanto, há palavras suficientes para conter uma mensagem secreta.
— Então o Sr. Crowe e Virginia estão em Kirkcaldy. — Matty fez uma careta. — Isso fica a quilômetros daqui. Achei que eles viessem para Edimburgo.
— A referência a Kirkcaldy é uma armadilha. Eles não estão lá.
— Estão onde, então?
Sherlock deu de ombros.
— Não sei. Preciso decifrar a mensagem.
Ele observou o texto mais uma vez. Se o anúncio fosse um conjunto aleatório de letras ou números, ele tentaria uma criptografia de substituição conforme Amyus Crowe lhe ensinara. Esse tipo de criptografia se baseava no princípio de substituição de um elemento por outro – por exemplo, trocar as letras a pelo número 1, as letras b por 2 e assim sucessivamente. Para decifrar esse tipo de código sem saber qual havia sido a estratégia de substituição era preciso conhecer a frequência com que determinadas letras apareciam na escrita normal. A mais comum era a, seguida de e, o, s, r e i. Então era preciso apenas procurar a letra ou o número mais frequente e substituí-lo por a, depois seguir com a lista. No entanto, para que houvesse boas chances de se decifrar o código, era necessário um texto codificado bastante longo. Só que, ao analisar a mensagem, Sherlock percebeu que não era uma criptografia de substituição. Em primeiro lugar, o texto fazia algum sentido, por mais estranho que fosse. Parecia uma propaganda. Trocar as letras de uma frase ou de um parágrafo produziria um conjunto de palavras completamente embaralhadas e sem significado. Então o código devia ser outro.
Sherlock pegou uma caneta do bolso e rabiscou na margem do jornal as iniciais das palavras, mas logo nas primeiras – e o l p p d e r... – percebeu que aquilo não estava certo. Pensou então que talvez fossem as últimas letras. Rabiscou outra série: e o r o a r e r... Não, isso também não parecia certo.
Talvez ele devesse partir do final, e não do começo. Tentou as duas opções de novo – iniciais e últimas —, mas só achou f e k d p e c r o n... e e m y e o s d s s s... A menos que Amyus Crowe tivesse resolvido complicar as coisas e escrever em outro idioma, Sherlock definitivamente estava no caminho errado.
Podia tentar as palavras, em vez das letras. Experimentou listar as primeiras palavras de cada frase – encontre basta dois nós – depois as segundas – o nos dias os. Com a ressalva de que a primeira série lembrava um poema pessimamente escrito, também não fazia sentido.
Sherlock suspirou e mordeu a parte interna do lábio, ciente de que Matty o observava atentamente. Suas ideias estavam se esgotando. Talvez o código fosse complicado demais para ele.
O menino sentia algo perturbando-lhe a mente. Tentou se obrigar a relaxar, a parar de pensar, para que o raciocínio pudesse afluir à superfície. Ele havia tentado as primeiras palavras das frases, e as segundas palavras. E se... e se ele tentasse a primeira palavra da primeira frase, a segunda da segunda frase e assim sucessivamente?
A essa altura, Sherlock já havia decorado o anúncio; podia escrever as palavras sem nem relê-lo.
Encontre nos em Cramond
— Consegui! — sussurrou ele.
— O quê?
— Eles estão em um lugar chamado Cramond.
Matty parecia desconfiado.
— Achei que você tivesse dito que Cramond era o nome do pessoal do hotel.
— O hotel não existe — repetiu Sherlock. — É um código. O Sr. Crowe tinha que colocar o nome do lugar aqui, mas fez com que parecesse outra coisa, o nome de uma pessoa, e então disfarçou fazendo referência a um lugar de verdade: Kirkcaldy.
— Certo... Mas onde fica Cramond?
Sherlock pegou o mapa que havia comprado na biblioteca. No verso do de Edimburgo havia um dos arredores. No canto superior direito havia um índice referente à grade de letras e números ao longo da margem. Sherlock examinou o índice até achar Cramond – com um breve sentimento de orgulho –, depois procurou pela grade de referência do mapa.
— Fica no litoral — disse ele. — Só a alguns quilômetros daqui. Talvez possamos arranjar uma carroça para nos levar até lá.
Ele dobrou o mapa e o jornal e os guardou nos bolsos. Sentiu-se tomado de alívio e esgotamento. Ele conseguira! Encontrara Amyus e Virginia Crowe!
Agora viria a parte difícil: descobrir por que eles haviam fugido e convencê-los a voltar.
Um movimento acima do ombro de Matty chamou a atenção de Sherlock para um lugar atrás do amigo. Havia dois homens se aproximando. Um trazia algo nas mãos: parecia um saco vazio.
Sherlock levou um instante para reconhecer o americano com marcas de varíola que ele vira em Farnham e na estação de Guildford. Sentiu um calafrio, e seu coração se acelerou de repente. Virou os olhos ligeiramente para o rosto de Matty. Estava prestes a mandar o amigo correr quando percebeu que ele também olhava por cima de seu ombro. Seus olhos estavam arregalados e assustados.
Devia haver mais homens se aproximando por trás de Sherlock – entre eles, provavelmente, o sujeito de rabo de cavalo e sem orelha. Sherlock estava prestes a empurrar Matty para a esquerda e pular para a direita quando o homem atrás de Matty percebeu que o circo fora notado, correu e jogou o saco em cima da cabeça do garoto. Sherlock estendeu as mãos para arrancar o saco, mas algo pesado caiu em sua cabeça e cobriu seu rosto; o mundo se apagou. Ele sentiu mãos o agarrarem e o derrubarem no chão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)