7 de agosto de 2017

Capítulo nove

UM SILÊNCIO CHOCADO PAIROU NA mesa.
— Você vai a Moscou? — perguntou Sherlock, perplexo. — À Rússia?
— Receio que sim — respondeu Mycroft.
— Mas você fica com vertigem se passa da Oxford Street!
Mycroft sorriu, mas era um daqueles sorrisos nos quais o humor é só um fino verniz sobre um sofrimento profundo.
— O fato de não desejar ir à Rússia não importa. Eu devo ir. Eu preciso ir. Meu conforto é irrelevante.
— Não entendo — insistiu Sherlock.
— Eu entendo. — Amyus Crowe assentiu lentamente. — Como pode esperar que seus subordinados confiem em você, que sigam suas instruções, se acreditam que vai abandoná-los na primeira vez que tiverem problemas?
— É exatamente isso. Meus agentes do outro lado do mundo precisam saber que não sou apenas um líder quando o tempo está bom. Quando cair a tempestade, e ela inevitavelmente vai cair, estarei com eles na chuva. — Ele estremeceu. — Por mais desconfortável que isso possa ser.
— E você está curioso — arriscou Sherlock.
— Curioso?
— Quer saber a verdade. Quer saber quem tentou incriminá-lo pelo assassinato e qual é a real situação nessa negociação de território.
Mycroft deu de ombros.
— Confesso que quero saber qual é o real estado da situação. Não gosto de incerteza. É como ter uma dor de dente irritante.
Do outro lado do restaurante, a família que Sherlock estivera observando antes deixava a mesa. Ele os estudou por um momento. A mãe verificava se todos os filhos haviam abotoado o casaco corretamente, enquanto o pai esperava, atento. Eles agora iriam visitar pontos turísticos de Londres ou visitar parentes? Talvez tivessem apenas parado em Londres a caminho de outro lugar e estivessem indo diretamente a uma das principais estações para pegar um trem. Quaisquer que fossem os planos, Sherlock sentia inveja. Não conseguia se lembrar de um tempo em que sua família tivesse sido assim, normal, comum. Com o pai fora, a serviço do exército na maior parte do tempo, e a mãe presa à cama, nunca houvera um tempo em que todos se sentaram à mesa para ser apenas... uma família.
— Então, não o verei por um tempo, como também não verei nosso pai — sussurrou ele.
— A menos que venha comigo.
Pela segunda vez em poucos minutos, Sherlock ficou tão chocado que não soube o que dizer.
— Eu? — perguntou ele depois de um tempo. — Ir com você? Para a Rússia?
Mycroft olhava para os restos de comida em seu prato com saudades.
— Talvez possa explicar isso a ele — murmurou, dirigindo-se a Crowe. — Acho que terminei depressa demais.
— Não tenho certeza nem de que eu mesmo entendi. — A expressão de Crowe era severa. — Talvez você possa explicar a situação a nós dois.
— Ah, muito bem. Sherlock já está envolvido na questão. Se eu for à Rússia, a melhor maneira de me distrair, de me fazer voltar ou mesmo de me impedir de ir é ameaçando-o. Se meu irmão fosse raptado, e se um pedaço de sua orelha ou seu dedo mínimo me fosse enviado, então eu me sentiria incapaz de continuar a investigação. Preciso garantir a segurança de Sherlock e, por conseguinte, preciso que fique comigo.
Sherlock tocou uma das orelhas. Não gostava da ideia de tê-la cortada e mandada a Mycroft como um aviso.
— Você não é exatamente um homem de ação — apontou Crowe. — Tem certeza de que poderia lutar contra eventuais agressores?
— Vou recrutar ajuda — disse Mycroft, irritado. — Pretendo levar um de meus agentes comigo para nos proteger. E camuflagem. E nós três viajaremos juntos.
— O que quer dizer com “camuflagem”? — perguntou Sherlock.
Ainda tentava assimilar a enormidade da notícia de que Mycroft queria que fosse à Rússia. Não sabia qual ideia era mais inacreditável: ir à Rússia ou viajar com Mycroft.
— Significa que vamos viajar incógnitos, disfarçados. Um oficial de relativa importância do Ministério das Relações Exteriores não pode simplesmente entrar na Rússia sem aviso, não sem causar um incidente internacional. Não, temos de usar nomes falsos. Precisamos de histórias falsas. Temos de fazer parte de um todo, de um cenário maior, de forma que ninguém preste muita atenção a nós.
— E você já decidiu qual todo será esse — afirmou Crowe.
— Sim. Pensei em um plano enquanto estava na carruagem, no trajeto do Diogenes Club até aqui.
— Você alugou uma carruagem? — protestou Sherlock. — Mas são menos de dez minutos a pé! Dois minutos a cavalo!
— Exatamente. Tempo suficiente para pensar um pouco. Se viesse a pé, teria me preocupado tanto em me desviar de outros pedestres, cavalos e outros obstáculos que não teria tempo para pensar em nada.
— E qual é o plano? — perguntou Crowe.
Mycroft espetou um pedaço de salsicha com o garfo.
— Há algumas semanas, recebi um pedido de autorização de uma trupe de teatro britânica para viajar a Moscou e fazer uma série de apresentações para as grandes famílias russas. Shakespeare, Marlowe, Ben Jonson, esse tipo de coisa. Dei permissão aos artistas porque a visita havia sido solicitada por intermédio da embaixada russa, e porque vão melhorar as relações culturais entre nosso país e a Rússia. Bem, pelo menos se as apresentações forem tão boas quanto os relatórios indicam. Na semana passada ouvi dizer que a viagem talvez tenha de ser cancelada, porque o gerente geral da companhia adoeceu e foi hospitalizado para tratar de um problema cardíaco. Além disso, o principal violinista da orquestra foi preso por beber e se comportar mal. Suponho que o trabalho de um gerente geral não seja tão difícil, consistindo basicamente em garantir que todos estejam onde devem estar e que todas as contas sejam pagas pontualmente.
— E o violinista? — perguntou Crowe. — Como vai recrutar um substituto?
— Um de meus agentes sabe tocar violino mais ou menos bem — respondeu Mycroft. Ele parecia estar muito atento ao prato. — Vou recrutá-lo para ir conosco.
— E quanto a mim? — perguntou Sherlock.
— Faz-tudo geral e assistente de coxia. Pelo que ouvi dizer, sempre falta mão de obra nos bastidores quando o grupo está em turnê.
— Mas... — Sherlock não conseguia controlar a rapidez dos próprios pensamentos. — Mas quando? Como?
Mycroft enfiou um pedaço de salsicha na boca e mastigou.
— Com relação ao “quando” — respondeu ele depois de um tempo —, sugiro que partamos assim que todas as providências tenham sido tomadas com a companhia de teatro. Acredito que vão ficar muito agradecidos pelo Ministério das Relações Exteriores ter se empenhado em garantir a turnê providenciando os substitutos necessários. Os planos para a viagem dos artistas já foram feitos. Segundo me lembro, eles planejavam partir daqui a poucos dias, e estavam prestes a mandar uma carta para o anfitrião informando sobre a necessidade de cancelamento. Vamos esperar que ainda não tenham enviado a carta, ou terei de pensar em outra estratégia. E, quanto ao “como”, a intenção é viajarmos até a França e seguirmos de trem de lá até Moscou atravessando o continente. Serão quatro ou cinco dias de viagem, imagino.
Ele pegou uma torrada e passou manteiga nela.
— Informarei a nossos tios que vamos viajar juntos pelo continente por algumas semanas. Tenho certeza de que vão entender. Viajar engrandece a mente. Vou tomar as providências, e sugiro que você, Sherlock, vá até Charing Cross Road e procure alguns livros sobre história e cultura russa. Eles são muito diferentes de nós; mais que os norte-americanos, certamente.
Mycroft olhou para Crowe.
— Mas deixe-me contar alguns fatos que podem ser úteis — prosseguiu. — A Rússia é o maior país do mundo. Se medíssemos sua área em um globo, descobriríamos que ela ocupa quase um sétimo da terra disponível, mas a maior parte desse território é composta por prados congelados, a tundra, como chamam. Estimamos que o czar governe sessenta e cinco milhões de súditos, um número atordoador, especialmente quando pensamos que essas pessoas pertencem a cento e sessenta raças ou tribos distintas, com cento e dez idiomas ou dialetos diferentes e trinta e cinco religiões. A Rússia é, para todos os efeitos, um mundo em si mesma. É para esse lugar que nós vamos.
— Mas... — começou Sherlock. — Mas eu nem falo russo!
— Isso não vai ser problema — assegurou Mycroft. — Fui informado de que a maioria das casas de situação confortável, inclusive a corte do czar, fala francês. Eu falo francês fluentemente, e creio que seu domínio da língua também melhorou desde que chegou aqui. Vamos conseguir nos comunicar.
Sherlock olhou para Amyus Crowe.
— Mas e o Sr. Crowe? Ele não fala francês.
— Não, e seu inglês também é meio suspeito — resmungou Mycroft. Ele olhou para Sherlock sem esconder uma emoção que o menino não entendeu de imediato, mas reconheceu alguns segundos depois como pena. — Receio que o Sr. Crowe não vá nos acompanhar nessa viagem. Seremos apenas você, eu e o violinista que pretendo recrutar.
— Mas por quê?
— Como você mesmo apontou, o Sr. Crowe não fala francês ou russo. Não possui nenhuma habilidade que poderia ser útil em uma companhia de teatro em excursão. Precisaria levar a adorável Virginia, o que aumentaria nosso grupo para cinco pessoas, ou então teria de providenciar que alguém cuidasse dela por várias semanas. Além disso, ele se destaca em uma multidão, e considerando que nossa intenção é nos mantermos incógnitos, isso seria um problema.
— Não se preocupe — disse Crowe —, eu não esperava ir nessa viagem. Vá você e divirta-se.
Sherlock sentiu-se aflito.
— Mas eu quero que você vá conosco.
— O problema é que a vida raramente nos dá o que queremos — disse Mycroft —, e até o que precisamos. Já ouvi dizer que o Senhor não nos dá nada com que não possamos lidar. De acordo com minha experiência pessoal, isso não é verdade, e sim um simples mecanismo que ajuda as pessoas religiosas a aceitarem o inaceitável. A vida é dura, e não temos a esperança de sobreviver a ela.
— Vejo que as lições continuam — Crowe falou em voz baixa.
Mycroft o encarou.
— O menino precisa aprender em algum momento.
Crowe respirou fundo, obviamente ansioso para mudar de assunto.
— E quanto ao museu? Vai haver mais alguma investigação por lá?
— Notifiquei a polícia para que possam cumprir sua obrigação nesse caso, e também iniciei algumas... investigações veladas por meio de certos braços do governo, mas suspeito que não vamos encontrar nada lá. Ou estão usando o museu como um ponto de encontro conveniente, e nesse caso só precisam ir embora para que percamos a pista, ou tinham algum tipo de escritório ali, e nesse caso apagaram todos os vestígios assim que você e Sherlock apareceram sem cuidado algum. De um jeito ou de outro, o museu não vai nos fornecer nenhuma pista. Estamos lidando com um grupo muito profissional.
— Não acha que o museu inteiro pode ser uma fachada para quem tentou incriminá-lo? — perguntou Sherlock.
— Sinceramente, duvido. O museu é uma organização beneficente acima de qualquer suspeita. Não, desconfio de que ou os vilões se encontravam lá, ou algum funcionário é membro da organização. O museu será um beco sem saída. — Ele enfiou na boca o último pedaço de torrada com manteiga, mastigou por alguns momentos e deu um suspiro satisfeito. — Agora sinto que posso começar o dia adequadamente. — Mycroft tirou um relógio do bolso do colete para ver as horas. — Mais ou menos uma hora até o almoço. Será tempo suficiente para que eu comece a preparar nossa viagem. Sherlock, Sr. Crowe, sugiro que voltemos a nos encontrar no Diogenes por volta de uma da tarde. — Levantando-se da cadeira com alguma dificuldade, acrescentou: — Talvez alguém tenha a bondade de providenciar um veículo para mim.
Enquanto Crowe e Mycroft conversavam na calçada, Sherlock afastou-se a pé. Sua cabeça fervia com as possibilidades, e queria um tempo sozinho para analisá-las.
— Ah, Sherlock!
Ele se virou e viu que Mycroft acenava para ele.
— O que é? — perguntou Sherlock, voltando ao local onde os dois homens estavam.
— Pode precisar de dinheiro. — Mycroft lhe passou três moedas. — Aqui estão três guinéus. Guarde-os em segurança e compre roupas de frio, se encontrar alguma.
Sherlock afastou-se sozinho, subiu a Picadilly Circus, passou pela Leicester Square e continuou até o fim da Charing Cross Road. As calçadas estavam cheias de gente, e cavalos, carroças e veículos de descrições variadas ocupavam as ruas. Se já se sentia oprimido em um lugar com algumas centenas de pessoas, como seria em um país com sessenta e cinco milhões de habitantes? E se havia sessenta e cinco milhões de pessoas só na Rússia, quantas havia no mundo inteiro? Pensar nisso o deixava tonto!
Livrarias, brechós e casas de penhor se enfileiravam nas duas calçadas, e ele passou pelo menos uma hora avaliando o conteúdo de caixas empilhadas do lado de fora de vários bazares, bem como as prateleiras e os armários lá dentro. Sherlock deixou a mente vagar, sem guiá-la a uma direção específica.
Encontrou alguns livros sobre o Império Russo, selecionou os dois mais factuais e os comprou. Também se interessou por uma caixa de maçanetas, fechaduras, cadeados e chaves, que, segundo o aviso do proprietário, estavam misturados. Não havia garantia de que qualquer uma das chaves serviria em alguma das fechaduras; o produto era aquele à vista. Sherlock considerou se, tendo diversos cadeados com que fazer experimentos, poderia aprender a arrombar fechaduras. Era um talento que poderia ser útil no futuro. Na verdade, teria sido bastante útil saber fazer isso nos últimos meses.
No fim, ele deixou a caixa de fechaduras para trás. Poderia voltar mais tarde, se decidisse comprá-las.
Continuando pela Charing Cross Road, atravessou o cruzamento de Cambridge Circus e seguiu até o começo da Tottenham Court Road. Havia ainda mais lojas, embora ali as ruas fossem mais largas e tivessem mais espaço para a movimentação de cavalos e veículos. Ele estudou uma loja de penhores sem muito interesse, sabendo que estava quase na hora de voltar, se pretendesse chegar na hora marcada no Diogenes Club. Seu olhar foi atraído por um estojo de violino em uma prateleira nos fundos.
Com cuidado, Sherlock pegou o estojo e soprou a poeira acumulada. Depois levantou a tampa e perdeu o fôlego ao ver o violino dentro da caixa. Era antigo – antigo e belo. O verniz era vermelho-escuro, marcado por uma teia de rachaduras, e as aberturas acústicas pareciam um pouco estranhas, mas havia alguma coisa no instrumento que o tocava. Algo que o chamava. Segurou o violino com a mão direita, fechando os dedos em torno do braço e apoiando o peso na palma da outra mão. O equilíbrio parecia ser melhor que o do instrumento de Rufus Stone, que Sherlock havia tocado no SS Scotia, a caminho de Nova York. Ele deixou o corpo curvilíneo do violino descansar no antebraço e dedilhou as cordas. A loja se encheu de um som tristonho e duradouro. A afinação estava horrível, mas havia alguma coisa no tom, uma complexidade que o encantava. Não era um som puro, de jeito nenhum, mas era amigável e expressivo. Ele deslizou o dedo pela linha entre o topo e a lateral do violino. Parecia veludo.
— Você tem bom olho — disse uma voz seca como poeira vinda do fundo da loja.
Sherlock virou-se. Havia uma prateleira no caminho, e quando ele a contornou viu um velho tão frágil que um vento mais forte poderia carregá-lo. O homem estava sentado atrás de uma escrivaninha cheia de pilhas de livros e outros objetos. Ele usava um gorro preto e olhava para Sherlock pelos óculos equilibrados no nariz e presos por uma corrente em volta do pescoço.
— Perdão?
O homem saiu do canto escuro onde estava e parou sob um raio de sol onde a poeira dançava.
— Eu trouxe esse violino da Cracóvia há muitos anos. Meu pai ganhou-o em um jogo de cartas, acredita? Ele viajou conosco por grande parte da Europa, e agora preciso vendê-lo para comprar comida e lenha, mesmo querendo conservá-lo comigo.
— É um belo instrumento.
— Sim, é belo como minha esposa é bela, e toca como um sonho, ou pelo menos é o que me disseram os que conhecem a arte. Eu toco piano e às vezes acordeão, mas só quando bebo demais.
Sherlock olhou para o estojo.
— Tem um arco?
— Para você, sim. — O homem vasculhou as pilhas na mesa, afastando alguns livros. — Alguns dizem que o arco é tão importante quanto o instrumento. Eu não tenho certeza. O instrumento é uma obra de arte, mas o arco é só crina de cavalo. Talvez a raça do cavalo seja importante, não sei. Ah! — Ele puxou um arco de um canto escondido e o entregou a Sherlock. — Vá em frente, experimente!
Sherlock pensou nas aulas que tivera com Rufus Stone. Não praticava desde que voltara dos Estados Unidos porque não tinha um violino, mas sentia falta da disciplina das escalas repetitivas e de como a ebulição constante de sua mente se acalmava com a simplicidade da música.
Ele afinou o violino rapidamente, dedilhando as cordas algumas vezes e girando as cravelhas na extremidade do braço até obter notas corretas. Depois apoiou o instrumento no ombro e repousou o queixo nele. Parecia natural. Parecia que seu lugar era ali.
Posicionando o arco, tocou uma nota firme em uma corda de cada vez: sol, ré, lá, mi. As notas soavam como uma voz cantando no céu. Ele tentou algumas escalas e se surpreendeu com a rapidez com que os dedos pareciam lembrar o que fazer.
Quando baixou o violino, Sherlock se espantou ao ver lágrimas nos olhos do homem.
— Há muito tempo que esse violino não era tocado — disse ele. — Tive medo de que os anos e a distância houvessem embotado o som, mas ele soa mais belo que nunca. Isso é mais do que posso dizer sobre minha linda esposa, que canta como uma gralha.
— Como é possível que diferentes violinos possam soar tão... diferentes? — perguntou Sherlock. — Quer dizer, todas as carroças são iguais. Todas têm quatro rodas e se movem quando são puxadas. É difícil escolher entre elas. Mas violinos... todos parecem ser mais ou menos iguais, mas não têm o mesmo som.
O homem deu de ombros.
— Faça a mesma pergunta a três violinistas, e terá quatro respostas diferentes. Alguns dizem que tem a ver com a madeira de que são feitos. Quanto mais densa a madeira, melhor, dizem. Outros afirmam que a madeira puxada por barcos pelo mar Adriático passando por Veneza confere um tom mais doce. Há ainda os que dizem que não tem nada a ver com a madeira, mas sim com o verniz e os ingredientes secretos que os criadores do violino misturam a ele. Eu acho que tem a ver com amor. Um instrumento feito pelo dinheiro vai soar — o homem balançou a mão de um lado para o outro de maneira expressiva — aceitável, mas um instrumento feito pelo simples amor de produzi-lo... esse terá um som lindo.
— Sabe quem fez este aqui?
— Não. Ele chegou à minha família sem apresentações ou propaganda. Mas há muito amor nele, junto com a madeira, a cola e o verniz, isso eu posso dizer.
— Quanto... — Sherlock parou e engoliu em seco. — Quanto custa?
— Setenta xelins — respondeu o velhinho prontamente. — Mas, como você aprecia um bom instrumento, vendo por sessenta e cinco.
— Posso lhe oferecer quarenta e cinco xelins — respondeu Sherlock, nervoso, sabendo que tinha no bolso três libras e três xelins, que somavam sessenta e três xelins, portanto. Mas queria ficar com algum dinheiro, caso algo inesperado acontecesse.
O homem inclinou a cabeça para o lado.
— Eu mencionei a comida e a lenha que preciso comprar para minha família?
— Sim. Quarenta e cinco xelins — repetiu Sherlock com firmeza.
— Você é um menino com coração de pedra. Cinquenta e sete xelins, não menos.
— Cinquenta — disse Sherlock. Estava ofegante.
O homem suspirou.
— Talvez eu deixe a lenha para outro dia. Hoje à noite podemos comer carne e sopa fria. Cinquenta e cinco.
— Fechado.
Eles trocaram um aperto de mão solene, e Sherlock devolveu o violino ao estojo. Depois entregou-lhe três moedas de um guinéu. O velhinho devolveu cinco xelins de troco.
— Cuide bem dele — recomendou o homem —, e se conseguir descobrir mais alguma coisa, volte para me contar. Eu gostaria de saber.
— Farei isso.
A porta da loja se abriu, e uma sombra se desenhou no chão. Uma prateleira escondia a entrada do fundo da loja, por isso Sherlock e o proprietário não conseguiram ver quem havia entrado. Porém, antes que o velhinho pudesse dizer algo, Sherlock ouviu uma voz falar:
— Ele entrou aqui! Juro que entrou!
— Devia ter entrado na hora e pegado o garoto — respondeu outra voz mais profunda, soando como tijolos sendo friccionados. — Não devia ter me esperado.
— E se não fosse ele?
— Então outra família ficaria de luto esta noite.

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