30 de agosto de 2017

Capítulo doze

SHERLOCK FICOU SURPRESO com o quão grande o rio Yangtzé era, especialmente em comparação com os outros rios que já tinha visto, como o Tâmisa, em Londres, ou o Hudson, em Nova York. A outra margem parecia estar a quilômetros de distância. Havia névoa em volta, levantando-se dos campos de arroz e fazendo parecer um pouco com uma terra de fantasia mística. Colinas se erguiam de ambos os lados do rio, deixando o vento passar gradualmente em suas curvas graciosas, o que significava que era impossível ver por mais de um quilômetro e meio para qualquer lado.
— É o terceiro rio mais longo do mundo — disse Cameron, orgulhoso. — Ele começa no planalto tibetano e flui por seis mil e quinhentos quilômetros antes de chegar ao oceano. — Ele olhou de soslaio para Sherlock. — O quê? Eu não deveria me interessar pelo lugar onde moro?
Sherlock podia ver centenas, até mesmo milhares de embarcações no rio. Alguns eram tão pequenos que carregavam apenas um homem e um remo; outros eram tão grandes que tinham três ou quatro velas feito leques e carregavam uma tripulação completa.
Ao longo das margens havia centenas de barcos de fundo chato que pareciam ter casas a bordo. Ou, pelo menos, barracos. Sherlock percebeu que não eram barcos para viajar; eram para morar. Vilarejos foram construídos dentro do rio e então cresceram pouco a pouco.
Os meninos percorreram o rio com os olhos em busca do USS Monocacy, mas não havia sinal dele. Sherlock tinha certeza de que se o barco estivesse lá, eles o teriam visto.
— Ali! — Wu apontou à sua esquerda, em um molhe de bambus finos que se projetava do rio num ponto em que as aldeias de barcos terminavam. Três barcos estavam amarrados ao molhe. — É ali que meu tio mora.
— Então vamos até lá — disse Sherlock.
Os três se dirigiram para baixo, a terra sendo comprimida sob seus pés. Depois de alguns minutos eles passaram pela aldeia de barcos e chegaram ao cais. Wu sinalizou para eles ficarem na margem e dirigiu-se ao local onde três homens chineses trabalhavam em um barco. O homem maior viu Wu quando ele se aproximou e deu-lhe um forte abraço. Ele sorria, obviamente satisfeito por ver seu sobrinho.
Wu começou a falar, e os homens escutavam. Sherlock olhou ao redor. A margem do rio dava diretamente na água bem perto de onde ele e Cameron estavam. Plantas cresciam de dentro da água ao longo da margem toda do rio – algumas se pareciam com arroz silvestre e outras, com bambu. Havia até mesmo flores flutuando na água, e quando Sherlock olhou mais de perto, pôde ver uma rede de hastes que mantinham as flores na superfície.
Tudo parecia tão bonito, com o sol baixo no céu e as montanhas ladeando o rio. Era difícil conciliar essa beleza com o que Sherlock sabia que aconteceria em breve. Em algum lugar rio acima havia um navio tripulado por algumas centenas de marinheiros americanos. Se a bomba a bordo explodisse, eles todos provavelmente morreriam, e esse seria apenas o começo. Os Estados Unidos enviariam a Marinha Americana e haveria um bloqueio, o imperador chinês provavelmente mandaria seus navios para defender o país, e antes que alguém percebesse a América estaria em guerra com a China só para alguns empresários conseguirem um preço melhor por suas importações e pagarem menos por suas exportações!
Sherlock ainda não pensara muito em seu futuro quando regressasse à Inglaterra. Em algum momento teria que conseguir um emprego, supôs, mas nada realmente recorria a ele. Ele não achava que poderia fazer o que o irmão fazia – trabalhar para o governo. Ele não era diplomático o suficiente. Começar um negócio fora uma possibilidade, mas agora, pensando sobre a insensibilidade dessas pessoas que estavam para começar uma guerra a fim de fazer lucro, ele jurou a si mesmo que nunca trabalharia para qualquer empresa que comprasse ou vendesse bens.
O que não deixava sobrar muita coisa, pensou desanimado.
Cameron devia estar tendo seus próprios pensamentos sombrios sobre o USS Monocacy. Ele chamou a atenção de Sherlock em voz baixa.
— Temos que tentar. Pelo menos podemos chegar ao Monocacy com um barco, e, pelo menos, o capitão Bryan nos conhece de vista. Ele pode nos dar tempo suficiente para convencê-lo.
Wu acenou para eles a partir do píer. Cameron e Sherlock caminharam ao longo da estrutura de madeira precária, sentindo-o ranger sob seu peso. Na outra extremidade, Wu os apresentou a seu tio e os dois filhos dele.
— Ele disse que podemos levar um de seus barcos para a viagem rio acima — revelou Wu excitado. — Mas primeiro ele quer ter certeza de que sabemos como levantar e abaixar as velas e conduzir o barco.
Sherlock olhou para o barco mais próximo. Rapidamente ele traçou os vários cabos que seguravam a vela em seus pontos de fixação em suas laterais. Usando o conhecimento que tinha tão dolorosamente adquirido com o Gloria Scott, ele calculou quais cordas moveriam a vela. Em seguida subiu no barco, e rapidamente arriou e desfraldou a vela com precisão, economizando movimentos.
O tio de Wu assentiu com aprovação.
— Bom trabalho — ele falou. — Você obviamente trabalhou para conhecer os barcos.
— Em qual direção os ventos soprarão esta noite?
— Rio acima — disse o tio de Wu. — Para o interior. Vocês terão uma brisa constante noturna empurrando-os para lá.
— Posso te perguntar uma coisa? O senhor viu um navio grande com uma roda enorme na lateral? Ele subiu o rio recentemente?
O tio de Wu assentiu.
— Um navio é o que era. Todos comentamos sobre ele. A chaminé danificada. Nunca vi nada como aquilo antes, não em todos os meus dias. Alguém me disse que foi construído por demônios estrangeiros e é alimentado por espíritos malignos. — Ele sorriu. — Sem querer ofender.
— Sem problemas — respondeu Sherlock. — Ele foi construído por demônios estrangeiros, mas é alimentado por motores a vapor.
Os três chineses se entreolharam.
— Eu falei – espíritos malignos — um deles murmurou.
— Há quanto tempo o senhor o viu? — perguntou Sherlock.
O tio de Wu pensou por um momento.
— Três horas atrás? — ele arriscou. — Talvez quatro.
Sherlock praguejou mentalmente. O Monocacy tinha uma boa vantagem sobre eles. Pensando nas mensagens que ele e Cameron tinham decodificado, perguntou:
— O senhor conhece algum lugar chamado Snake Bite Hill?
O tio de Wu olhou para seus filhos. Eles cochicharam por um momento, então o grande marinheiro olhou para Sherlock e respondeu:
— O único lugar que podemos pensar fica perto de Wushan. Deve ficar a uns cinquenta quilômetros daqui.
— Obrigado — disse Sherlock. Ele olhou para Cameron e Wu. — É lá que precisamos chegar. É onde tudo vai acontecer.
Dentro de cinco minutos eles partiram e se fiaram às velas. A brisa empurrou-os para longe do molhe através de ondulações na água. Sherlock manejava a vela enquanto Cameron assumia o leme e Wu sentava à frente, sondando possíveis troncos de árvores e outros obstáculos submersos na água.
Não muito tempo depois eles já estavam no rio propriamente dito, e Cameron ajustava seu curso para levá-los na direção em que precisavam ir. O canal do rio estava congestionado, mas eles conseguiram manejar para o lado externo do canal, conseguindo uma boa velocidade. Não parecia haver qualquer regra em particular – marinheiros dirigiam-se para onde quisessem ir, e desafiavam os outros a saírem do seu caminho.
Quando a noite caiu, algo espirrou água a poucos metros do casco do barco. Sherlock se arrastou pelo convés para dar uma olhada. À luz da lua, ele podia ver um estranho tipo de peixe olhando para ele com olhos que pareciam quase humanos. A pele do peixe era de um cinza emborrachado, ele possuía um nariz longo e fino – quase como um bico. A boca era cheia de dentes bem pequenos, mas muito afiados, e era curvada, parecendo até um sorriso. Ele flutuava na água, olhando para Sherlock. A mente de Sherlock voltou para quando tinha visto peixes no oceano, a bordo do Gloria Scott.
Botos, alguém lhe havia explicado. Seria este um boto também?
Com um arremesso de sua cauda larga, ele foi embora.
— O que era aquilo? — Sherlock perguntou a Wu, que assistia da frente do barco.
— Nós as chamamos de deusas do rio. Ver uma é considerado boa sorte. Você deve considerar-se abençoado.
— Vou tentar.
Na água o som viajava de maneira diferente, Sherlock percebeu. A cada poucos momentos ele ouvia uma voz dizer: “Cuidado!” ou “Calma aí, seu idiota!”, e ele olhava em volta, esperando ver um barco indo diretamente de encontro a eles, apenas para descobrir que a pessoa que falava estava a centenas de metros, conversando com alguém próximo.
Um súbito crash e um solavanco quando seu próprio barco trouxe a atenção de Sherlock de volta para o presente. Uma voz chinesa áspera gritou:
— Que os espíritos das profundezas do rio amaldiçoem seus descendentes, seus tolos desajeitados!
Eles tinham colidido com outro barco. O proprietário – um chinês idoso de cabelos brancos – apontava para Cameron e o amaldiçoava.
Sherlock agarrou um remo do chão e empurrou o outro barco para afastá-lo, sorrindo em desculpa enquanto fazia isso.
— O que aconteceu? — ele perguntou enquanto o outro barco se afastava, seu proprietário ainda sacudindo o punho para eles.
— Desculpe — disse Cameron. Ele parecia confuso. — Acho que adormeci por um momento.
— Olha, foi um dia longo — falou Wu Fung-Yi. — Muita coisa aconteceu a todos nós. Se continuar assim, teremos um acidente grave.
— Precisamos continuar — disse Sherlock. — Temos que encontrar o Monocacy antes que a bomba exploda!
— Se batermos em alguma coisa e afundarmos, não ajudaremos ninguém — Cameron ressaltou. — Mas já lhe ocorreu que o Monocacy pode ancorar para passar a noite? Continuando na escuridão, eles poderiam se chocar diretamente com outro barco e afundá-lo, ou então poderiam bater nas pedras na margem do rio e abrir uma fenda em seu próprio casco. Se eles pararem e nós continuarmos, poderíamos passar diretamente por eles sem perceber, e então nunca seremos capazes de avisá-los.
Sherlock teve que admitir que a lógica dele era convincente. Além disso, percebeu que ele mesmo estava exausto.
— Tudo bem — disse relutantemente. — Vamos mais para a margem dormir um pouco. Mas partiremos ao amanhecer.
Os outros dois assentiram.
— De acordo — respondeu Wu.
Cameron usou o leme para orientá-los para a margem mais próxima, enquanto Wu observava a profundidade da água e Sherlock preparou-se para recolher a vela antes que eles encalhassem. Com os três trabalhando juntos, eles conseguiram guiar o barco em segurança. Sherlock saltou para a margem do rio com uma corda e amarrou o barco em uma árvore torcida que crescia meio na diagonal.
Olhando para a escuridão do rio, ele notou um barco com duas lanternas – uma verde e outra amarela. Eles pareciam ir para a margem um pouco à frente deles. Presumivelmente, quem estava no comando havia decidido parar para a noite também.
Sherlock saltou de volta para o barco, sentindo-o balançar sob o seu peso. Cameron buscava cobertores no barracão assentado nos fundos do barco, enquanto Wu parecia desembrulhar algo em uma trouxa de pano que estava debaixo de um assento. Ele entregou um pacote para Sherlock.
— Comida. Meu tio me disse que havia aqui. Ele guardava para comer depois, mas decidiu que precisávamos mais do que ele.
Sherlock olhou para o pacote que recebera enquanto Wu passava outro para Cameron. Parecia uma folha grande enrolada em torno de algo pegajoso e amarrado com barbante.
— O que é isso?
— Arroz grudento e camarão seco envolvidos em folhas de lótus.
Cameron já havia desembrulhado a folha de lótus e colocado o recheio de arroz e camarão seco em sua boca com os dedos.
— É ótimo — ele falou, com a boca cheia.
Sherlock experimentou. Embora o arroz estivesse frio e grudento, ainda sim era saboroso, e salgado, o gosto do camarão trazendo um sabor especial. Era realmente muito bom.
Depois de terem comido e lavado as mãos no rio, os três se acomodaram para dormir envolto nos cobertores. Sherlock de repente percebeu o quanto estava exausto.
— Algo me ocorreu — a voz de Cameron saiu da escuridão. — Não temos um nome para o nosso barco.
— O nome de um barco é algo sério — disse Wu FungYi. — Tem que ser feito corretamente, com uma cerimônia apropriada. Além disso, meu tio pode já ter dado um nome a ele.
Cameron não deixaria isso passar.
— Nós podemos chamá-lo de Hudson. Como o rio Hudson, em Nova York.
— Este não é um bom nome — disse Wu. Houve silêncio por alguns instantes, em seguida, ele acrescentou: — O que acha, Sherlock? Alguma ideia?
— Acho que devemos chamá-lo de Virgínia — disse ele em voz baixa.
Ninguém argumentou. Depois de alguns minutos, Cameron começou a roncar, assim Sherlock assumiu que havia conseguido ter a última palavra.
Alguma coisa respingou nas proximidades. Um peixe? Uma das “deusas do rio”, talvez? Sherlock de repente considerou que não sabia nada sobre a vida selvagem local. Haveria alguma coisa perigosa? Ele se levantou sobre um cotovelo para perguntar, mas desistiu e deitou-se novamente sem dizer nada. Wu os teria alertado se houvesse qualquer perigo. Ele devia confiar no menino chinês e descansar um pouco.
Sherlock percebeu, agora que estava ali, como isso era difícil. Ele nunca tinha realmente confiado em qualquer pessoa – e não ajudava o fato de Mycroft alertá-lo constantemente sobre os perigos de fazê-lo.
Ele assumia que sabia mais, mas aqui, em um país no qual não estava familiarizado, tinha que confiar em Wu Fung-Yi para levá-los aonde precisavam ir.
Não era um pensamento particularmente agradável com o qual ir dormir.
Estrelas brilhavam na noite negra. Fiapos de nuvem passavam por entre elas como teias de aranha sopradas pelo vento. Por um tempo, ele tentou identificar as constelações e estrelas familiares, mas tudo ali parecia diferente. Sherlock perguntou-se por um momento se Virgínia olhava para as mesmas estrelas, mas depois percebeu que ela não poderia. Ela estava quase do outro lado do mundo. Qualquer que fosse o céu que ela estivesse olhando, agora estaria azul e ensolarado, não negro e estrelado.
Ele gradualmente caiu no sono sem sequer perceber, e seus sonhos eram uma miscelânea confusa de memórias e rostos. Matty estava em algum lugar, assim como Amyus Crowe, porém eles aplaudiam do lado de fora enquanto ele corria em algum tipo de corrida; o problema era que ele não sabia onde ficava a linha de chegada, ou em que direção deveria estar indo.
Ele acordou algum tempo depois. Ainda estava escuro. Se perguntou o que exatamente o tinha acordado – o ronco de Cameron, talvez, ou Wu falando enquanto dormia?
Alguma coisa atingiu a lateral do barco. Parecia a mão de alguém, ou o pé, roçando contra a madeira.
Cada nervo de Sherlock ficou subitamente em alerta. O barco balançava como se, o que quer fosse aquilo, estivesse subindo a bordo. Eram ladrões – piratas, talvez? Moradores locais que tinham decidido ver se conseguiriam arrancar qualquer alimento ou dinheiro dos três meninos? Era um animal esgueirando-se à bordo? Uma cobra, talvez? Sua imaginação corria selvagemente, pintando todo tipo de cenários terríveis. Sherlock sentiu, mais do que ouviu, algo pairando sobre ele, observando-o. Ele tentou respirar profundamente e de maneira uniforme, tentando parecer adormecido. Podia sentir o olhar fixo na parte de trás de sua cabeça como brasas. Era a sensação mais estranha.
Eventualmente, ele ouviu o intruso se afastando. Sherlock bocejou alto e virou-se, mantendo os olhos fechados firmemente supondo que o intruso estaria olhando para ele para ver se ele estava acordando.
Silêncio por alguns instantes e, em seguida, o intruso começou a se mover novamente. Sherlock gradualmente abriu os olhos. Por um momento tudo estava embaçado e escuro, mas depois ele começou a distinguir as formas – o mastro, a borda do casco, o barracão na parte de trás do barco e a forma do leme.
E algo que não estava no barco antes. Parecia uma pessoa, mas menor. Sherlock podia ver ombros e uma pequena cabeça, uma silhueta contra o céu noturno. Que estava debruçada sobre Cameron.
— Ei! — ele gritou, sentando-se ereto.
Seja lá o que fosse, de repente virou-se para encará-lo. As nuvens dispersaram naquele momento descobrindo a face da lua, e foi como se alguém tivesse de repente virado um holofote sobre o convés.
Era uma criança, mais jovem do qualquer um deles três; uma menina. E ela segurava algo contra a garganta de Cameron.

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Boa leitura :)