18 de agosto de 2017

Capítulo doze

PARA SHERLOCK, AQUELES ÚLTIMOS METROS talvez tenham sido os mais difíceis de sua vida. Ele não sabia que tipo de recepção o esperava – se Amyus Crowe ficaria feliz em vê-lo, se Virginia estaria ali ou escondida em outro lugar, e, acima de tudo, se eles voltariam a Farnham ou deixariam o país.
Sherlock não tinha indícios suficientes para deduzir, e isso o incomodava.
Chegou lá com o coração pulando. Estava fechada. Ele bateu.
— Pode entrar — disse uma voz conhecida.
Sherlock empurrou a porta para abri-la e entrou, seguido de Rufus e Matty. Levou alguns segundos para seus olhos se acostumarem à escuridão do chalé – o que ele supôs ser uma medida intencional.
Quando conseguiu enxergar direito, percebeu que Amyus Crowe estava de pé do outro lado do cômodo. Usava um terno escuro e segurava uma arma.
— Muito bem — disse Crowe. — Você decifrou as charadas. Sabia que ia conseguir.
— Não foi difícil — disse Sherlock, dando de ombros.
— Talvez não para você. — Crowe fitou os companheiros de Sherlock. — Jovem Sr. Arnatt, bem-vindo aos meus aposentos temporários. E o Sr. Stone também. Sintam-se em casa, todos vocês. Se não se importarem, vou ficar perto da janela. Não estou esperando mais ninguém, mas nunca se sabe quando alguém pode aparecer para fazer uma visita. Gostariam de beber algo? Um pouco d’água, talvez?
— Depois dessa trilha — disse Rufus Stone —, uma bebida cairia muito bem. Você não teria cerveja, por acaso? Ou talvez sidra? Uma jarra de sidra seria perfeito agora.
Crowe sorriu.
— Posso ver se acho algo do tipo por aqui. — Ele ergueu a voz: — Virginia, já pode sair. Temos visitas.
Uma porta atrás de Crowe se abriu, e Virginia entrou no cômodo. Seu cabelo parecia brilhar feito fogo na penumbra. Ela olhava para baixo, estranhamente tímida, mas depois de alguns segundos ergueu a vista e encarou Sherlock.
E então a menina correu até ele, envolveu seu pescoço com os braços e o beijou. Ele havia sonhado com esse momento, imaginando como seria beijá-la, mas a realidade era muito mais intensa do que ele pensara. O peso do corpo dela em seus braços, o calor dos lábios dela colados aos seus, o cheiro do cabelo dela... Sherlock se sentiu tomado pela emoção. Sua mente não sabia o que fazer, mas ele logo se deu conta de que o corpo não esperou instruções e já retribuía o beijo.
De repente a menina interrompeu o contato, recuando um passo, mas sem afastá-lo. Sherlock teria visto isso como um gesto de rejeição, não fosse o fato de que ela continuava com as mãos nos braços dele. Virginia o encarou com aqueles olhos violeta profundos, e Sherlock viu que ela estava prestes a chorar.
— Você veio atrás de nós — sussurrou ela.
— Eu tinha que vir — respondeu ele, simplesmente. As palavras saíram do nada, imprevistas. — Não posso viver sem você.
— Por mais que eu deteste interromper o reencontro — disse Amyus Crowe, com uma voz grave — precisamos ter uma boa conversa, e acredito que o Sr. Stone vai acabar perdendo o fôlego aí na porta se eu não lhe der algo para beber. Ginnie, faça a delicadeza de buscar bebidas para nossos convidados.
Virginia apertou os braços de Sherlock por um segundo e então o soltou. Ela se afastou, sem interromper o contato visual. Sherlock sentiu que poderia se afogar naqueles olhos. Era como se ela estivesse enviando uma mensagem, mas ele não sabia qual era. Talvez ela também não soubesse. Talvez o mais importante fosse a existência de uma mensagem, e não seu conteúdo.
A menina baixou os olhos, e Sherlock se sentiu como uma marionete cujas cordas tivessem sido cortadas subitamente. Virou-se para olhar o restante do cômodo e as outras pessoas: o mundo parecia ter mudado. Tudo estava igual, mas diferente. Ele não sabia explicar muito bem.
Amyus Crowe o encarava com uma expressão estranha no rosto. Ergueu uma de suas sobrancelhas cheias.
— Para mim basta um aperto de mão, se não se importar.
Sherlock sorriu.
— Fico feliz de saber que você está bem — disse ele. — Fico feliz de saber que vocês estão bem. Quando vimos o chalé vazio, ficamos preocupados.
Crowe assentiu.
— Não tivemos escolha. Ouvi dizer que tinha alguém nas redondezas procurando por mim e minha menina. Normalmente eu teria ido atrás das pessoas que estavam fazendo as perguntas e faria algumas para elas também, mas, quando ouvi a descrição dos sujeitos, decidi que mais valia a discrição que a bravura e dei o fora.
— Eles são tão perigosos assim? — perguntou Stone. — Preciso dizer que o jovem Sherlock aqui lidou muito bem com dois deles: um camarada de cabelo preto que parece ter problemas de audição e um amigo dele com cara de batata.
— Esses são Ned Fillon e Tom Payne. — Crowe pareceu perceber de repente que ainda estava segurando a arma, e a colocou em uma mesa a seu lado. — Eles são os peixes pequenos. É o homem para quem eles trabalham que me deixa tremendo nas bases.
— Acho que o conhecemos — disse Sherlock. — Não consegui ver o rosto dele, mas ouvi sua voz. Ele falava muito baixo.
— Eu o vi — disse Stone —, e queria muito não ter visto. Ele tinha tatuagens no corpo inteiro. Nomes de pessoas.
Ele lançou um olhar rápido para Virginia, mas Crowe balançou a cabeça ligeiramente para alertar Rufus. Apenas Rufus e Sherlock perceberam.
— Bryce Scobell — disse Crowe, com ar grave. — Então ele está aqui. — O americano suspirou. — Eu estava esperando que ele só tivesse mandado seus homens atrás de mim, mas acho que foi otimismo demais da minha parte. Ele está tão louco atrás de mim que veio ele próprio dos Estados Unidos. Você o viu em Farnham, imagino.
— Receio que ele tenha nos seguido até aqui — admitiu Sherlock. — Até Edimburgo.
Mesmo com a iluminação ruim, Sherlock percebeu que o rosto de Crowe pareceu ficar mais pálido e ainda mais rígido que o normal. Os sinais eram bem claros para Sherlock. Seu mentor estava controlando alguma emoção forte. Ele estendeu a mão para a arma sobre a mesa e deu uma olhada na direção da janela, por onde podia ver qualquer um que se aproximasse do chalé.
— Eu esperava — disse o enorme americano, escolhendo as palavras com muito cuidado, como se estivesse pisando em pedras para atravessar um rio perigoso — que você fosse disfarçar seu rastro bem o bastante para que ele não o seguisse. Ele sabe deste chalé?
— Não.
— É apenas uma questão de tempo. — Crowe balançou a cabeça, irritado. — Sherlock, como diabos você pôde ser tão descuidado e deixar que ele o seguisse?
— Ele ouviu Matty e eu conversando sobre Edimburgo antes mesmo de começarmos a viagem — disse Sherlock, nervoso. — Tinha uma espécie de tubo acústico no seu chalé.
— Ah. — Crowe assentiu. — Foi uma atitude muito esperta da parte dele.
— Ele raptou Rufus no trem — acrescentou Matty —, e depois raptou nós dois, mas a gente fugiu.
— Vocês fugiram? — Crowe contorceu o rosto e fez uma careta. — Duvido. Ele os deixou fugir.
Matty ficou ultrajado.
— Sherlock quebrou as pernas daqueles dois sujeitos... Fillon e Payne.
Crowe deu de ombros.
— Scobell consideraria isso um preço baixo, se assim pudesse segui-los até aqui.
— Ele estava me torturando para obter informações — comentou Sherlock. — Teria sido muito mais fácil continuar me torturando até que eu falasse, em vez de abrir mão de dois de seus homens.
A raiva de Crowe não pareceu diminuir, mas ele afastou a mão da arma.
— Talvez — concordou ele. — Vocês têm certeza de que não foram seguidos até aqui?
— Sim — respondeu Sherlock com firmeza.
— O que esse tal de Scobell tem de tão ruim? — perguntou Matty. — Tirando o fato de que ele gosta de machucar pessoas. Tem muita gente neste país que gosta de machucar pessoas. Não entendo por que ele seria tão pior.
Sherlock assentiu, concordando. As palavras de Matty o lembraram Josh Harkness, o chantagista para quem a Sra. Eglantine havia trabalhado. Harkness era uma figura terrível; seria possível que Bryce Scobell fosse pior?
— Eu poderia dar vários exemplos — respondeu Crowe —, mas vou deixar que apenas um dê conta do recado. — Seus olhos pareciam não fitar Sherlock nem ninguém específico, e sim algo que só ele enxergava. — Scobell era um tenente-coronel do exército confederado. Ele não batia bem da cabeça, mesmo naquela época. Acho que não existe uma palavra para descrever o que ele era, o que ele é. Ele não é exatamente maligno, mas também não tem emoções como culpa, remorso ou vergonha, como todos nós. Ele nem sente coisas como raiva ou felicidade. Parece só seguir pela vida, em completa indiferença a tudo, exceto a própria sobrevivência. Acredita ser ele próprio a coisa mais importante do mundo e que todo o resto existe para fazer com que sua vida seja melhor e mais fácil. — Crowe soltou um longo suspiro. — A primeira vez que ouvi falar de Scobell foi quando ele foi enviado para lidar com uma rebelião de tribos indígenas. Tinham aproveitado a confusão da Guerra entre os Estados e começado a atacar famílias, colonos ou qualquer um que conseguissem cercar e matar. Scobell estava sob o comando do coronel John Chivington na época, e eles levaram uma tropa da força de voluntários para impedir que os arapaho e os cheyenne realizassem esses ataques.
Virginia voltou à sala trazendo uma bandeja com cinco copos e um prato de panquecas de aveia. De tão envolvidos na história do pai dela, ninguém havia visto a menina sair. Ela deu cerveja a Crowe e a Rufus Stone, e então entregou copos d’água a Matty e Sherlock. Todos se serviram das panquecas.
— Isso foi há uns cinco, seis anos — continuou Crowe. — Chivington era pastor, mas sua tolerância pelo próximo não se estendia aos índios. Ele os odiava com uma energia que a maioria dos homens dedica a escorpiões e cachorros sarnentos. Scobell, o subcomandante, não os odiava, mas os considerava seres inferiores que não tinham lugar em seu mundo. Nenhum dos dois oficiais tinha qualquer pensamento solidário. Seguindo as ordens de Chivington e Scobell, os soldados atacaram não só os cheyenne e os arapaho, mas também os sioux, os comanche e os kiowa.
Crowe tomou um gole da cerveja. Ninguém quebrou o silêncio tenso que reinava no cômodo.
— Os índios estavam sendo fortemente atacados — continuou ele —, e decidiram que queriam paz, então combinaram de se reunir com as autoridades. Os índios saíram do encontro achando que tinham fechado um acordo de paz, mas ninguém chegou a assinar nada. Alguns dias depois, um cacique chamado Chaleira Preta acampou com a tribo perto do forte Lyon. Eles não estavam incomodando ninguém... estavam só seguindo os búfalos ao longo do rio Arkansas. Eles viviam dos búfalos, sabem... aproveitavam a carne, faziam roupas, usavam a gordura, tudo.
Crowe se calou por um instante e olhou pela janela. Estendeu a mão na direção da arma, mas o que quer que tivesse visto era provavelmente algo inocente – um pássaro, talvez, ou algum animal passando pelas pedras – porque o americano recolheu a mão e voltou a falar:
— Eles se apresentaram no forte Lyon, tal como tinha sido acertado, e montaram acampamento em Sand Creek, uns sessenta quilômetros ao norte. O acampamento ficava em uma depressão, cercada por colinas baixas. Pouco depois da chegada deles, Chivington e Scobell entraram no forte Lyon e disseram ao comandante da guarnição que iam atacar a tribo de Chaleira Preta. O comandante disse que o cacique já havia se rendido, mas Scobell o convenceu de que seria uma oportunidade perfeita para eliminar mais índios do mundo. Ele parecia capaz de ter esse tipo de influência sobre as pessoas. No dia seguinte, Chivington conduziu seus soldados, a maioria bêbada, pelo que ouvi falar, e cercou o acampamento. Seguindo a sugestão de Scobell, Chivington levou quatro canhões.
Virginia sentou-se ao lado de Sherlock. De alguma forma, sua mão encontrou a dele. O menino a apertou, para confortá-la, e Virginia apertou a dele.
— Quando viu as tropas se reunindo à sua volta, Chaleira Preta hasteou uma bandeira branca de paz em cima de sua tenda. Sem qualquer advertência, e sem consultar Chivington, Scobell ordenou o ataque.
Crowe se calou por um instante; o silêncio que pairou no cômodo aquele momento parecia pesado e vivo.
— Foi como se uma tempestade de fogo, morte e destruição caísse do céu em cima deles — sussurrou Crowe. — Homens, mulheres, crianças... todos foram massacrados pelos tiros de canhão e de fuzil. Não tiveram chance de se defender. E quando acabou a munição, Scobell conduziu os homens para o acampamento, e eles mataram todo mundo a coronhadas e facadas. Todo mundo.
— Com certeza alguém fez alguma coisa — disse Sherlock, chocado. — Quer dizer, Chivington e Scobell romperam o tratado de paz.
Crowe deu uma risada fria.
— Que tratado de paz? Não existia qualquer papel assinado para servir de referência. — Sherlock abriu a boca para dizer algo mais, mas Crowe ergueu a mão para interrompê-lo. — Um ou dois anos depois, Chivington foi levado à corte marcial e expulso do Exército. Scobell desapareceu, e tem fugido desde então.
— Mas... crianças? — sussurrou Virginia. — Por quê? Não faz sentido.
— Quando perguntaram, na corte marcial, por que as crianças haviam sido mortas, Chivington respondeu: “Porque o mal se corta pela raiz.” O engraçado é que aposto que dava para ouvir a voz de Bryce Scobell falando pela boca de Chivington. Aposto que Scobell tinha muito mais influência sobre seu superior do que as pessoas pensavam na época.
— E suponho — disse Rufus Stone — que você tenha sido enviado para levar Scobell à Justiça.
— Isso, ou para lhe dar a justiça que eu decidisse — respondeu Crowe, simplesmente. — Recebi a permissão do presidente Andrew Johnson em pessoa. — Ele balançou a cabeça. — Quase peguei Scobell três vezes, em lugares diferentes do país. Perdi vários homens bons em trocas de tiros pelo caminho.
— E o que aconteceu? — perguntou Matty, sem fôlego.
Crowe o encarou.
— Deixe-me dar um exemplo de como Scobell é — disse ele. — Cincinnati, três anos atrás: eu tinha descoberto que Scobell estava hospedado em uma pensão. Cercamos o local e invadimos o quarto. Ele já havia fugido, mas a dona da pensão estava lá, sentada na cama. Tinha uma banana de dinamite em uma das mãos e um palito de fósforo na outra. Quando nos viu, riscou o palito e acendeu a dinamite. — Crowe fez uma pausa, balançando a cabeça. — Quase não conseguimos sair do quarto a tempo. A explosão matou a mulher, é claro. Depois descobrimos que Scobell havia raptado a filha dela e falado que mataria a menina se ela não se fizesse de armadilha viva para nós. E a mulher acreditou.
— O que aconteceu com a filha? — perguntou Matty.
— Ah, ele a soltou. Já não precisava mais da menina. Obviamente, ela ficou sem mãe, mas Scobell não se importava com isso.
Sherlock fitou Amyus Crowe. O americano estava escondendo alguma coisa.
— Por que ele mudou de tática? — perguntou Sherlock. — Você começou perseguindo ele, mas agora é ele quem o persegue. O que aconteceu?
Crowe encarou Sherlock com uma expressão tranquila.
— Você não deixa passar nada, hein, garoto? Tem razão. Aconteceu algo. Falei que perdi alguns homens em trocas de tiros, armadilhas e coisas do tipo. Mas Scobell também perdeu algo. Ele perdeu... — Crowe hesitou e olhou para Virginia. — Nunca contei isso para você, Ginnie. Acho que vai me achar uma pessoa ruim ao ouvir o que estou prestes a dizer, mas não tem jeito. É a verdade, que Deus me perdoe.
Ele respirou fundo, obviamente se obrigando a continuar. Sherlock percebeu que estava prendendo a respiração, na expectativa.
— Bryce Scobell tinha esposa e filho. Não acredito que ele amasse nenhum dos dois. Não acredito que ele seja capaz de amar. Mas acho que eles foram o mais próximo que Scobell chegou disso. Talvez estivesse mais para sentimento de posse... não sei. No entanto, o que aconteceu foi que encurralamos Scobell e seus guarda-costas em uma casa de fazenda em Phoenix. Eles começaram a atirar quando nos viram, e atiramos também. Dois de meus homens morreram no fogo cruzado, e também a mulher e o filho de Scobell. Nem imaginávamos que eles estavam lá. Scobell escapou, como sempre, mas naquele dia jurou que me faria pagar pelo que eu havia feito. — Crowe fez uma careta. — Um mês depois, recebi uma mensagem. Era de Scobell. Ele dizia que mataria minha esposa e minha filha, e que eu seria obrigado a ver minha família morrer. Disse exatamente o que ia fazer. Não era... o tipo de coisa que ocorreria a alguém normal e temente a Deus, mas eu conhecia Scobell... sabia que, quando ele enfiava uma ideia na cabeça, tornava-a realidade. Com a permissão do presidente Johnson, tirei uma licença e vim para cá.
— E agora ele o seguiu — falou Sherlock, quebrando o silêncio que se seguira à confissão de Crowe.
— Como eu disse, quando ele enfia uma ideia na cabeça, essa ideia vira realidade.
— Você podia ter pedido ajuda — comentou Rufus Stone. — Mycroft Holmes com certeza teria colocado guardas para vigiar seu chalé. Ou poderíamos ter recrutado algumas pessoas da cidade para ajudar.
— Por quanto tempo? — perguntou Crowe. — Ainda que o Sr. Holmes nos oferecesse guarda-costas dia e noite, não poderia mantê-los para sempre. Em algum momento eles precisariam ser transferidos para alguma tarefa mais importante. — Ele balançou a cabeça. — Bryce Scobell é um homem paciente. Paciente e muito, muito esperto. Ele teria esperado até que todo mundo ficasse entediado e cansado, e então atacaria.
— Mas você já enfrentou outros homens perigosos — observou Sherlock. O menino estava confuso. Não entendia por que Amyus Crowe não ficara para lutar. Sempre achara que seu mentor fosse o tipo de homem que preferia enfrentar a dificuldade a fugir. Sherlock não disse, mas sentia-se um pouco decepcionado. — Eu estava lá nos túneis abaixo da estação de Waterloo quando você lidou com aquele homem que queria me matar. Você quase quebrou o pescoço dele, e não parecia nem um pouco assustado. O que esse Scobell tem de tão diferente?
— Sim, eu já enfrentei outros homens perigosos — concordou Crowe. — Alguns dos sujeitos mais fortes e cruéis do mundo; mas Bryce Scobell é outra história. — Ele suspirou. — É difícil descrever, mas aquele homem tem algo... inumano. A maioria das pessoas evita se ferir, evita se machucar, e isso serve de vantagem em uma luta, mas ele não. Ele não se importa. Não digo que não sinta dor, porque ele sente, só a ignora. Não se importa. E também não se lembra da dor. Se você der alguns socos no rosto de um homem normal, chega um momento em que ele se afasta para não levar outro, mas Scobell... se você acertar um primeiro golpe, ele vai se lembrar de ter sido atingido, mas não vai aprender com a dor. Ele não tenta evitar o golpe seguinte. Se ele cai, levanta-se de novo, e de novo, e de novo. Ele continua atacando, como uma máquina. — Crowe balançou a cabeça. — Sei que o que estou falando não faz muito sentido, mas enfrentar Bryce Scobell é como enfrentar alguma força sinistra da natureza. Ele é implacável. Já seria ruim o suficiente se ele fosse burro, mas Bryce Scobell é um dos homens mais inteligentes que conheço. Ele antecipa vários movimentos, como se estivesse jogando xadrez, e atrai gente como ele.
— Não entendo os nomes tatuados na pele dele — disse Virginia, de repente. Ela havia ficado em silêncio até então. — Por que ele faria isso? O que quer dizer?
— É uma fixação dele — respondeu Amyus Crowe, grave. — Ouvi falar que, quando ele entrou para o exército confederado, tinha apenas três nomes tatuados no braço. Alguém perguntou o que eram. Ele disse que eram os nomes dos homens que ele havia matado. — Crowe fez uma pausa e balançou a cabeça, triste. — Ele tinha só dezoito anos. Havia mandado gravarem para sempre na pele dele os nomes e as datas. Disse que queria garantir que os nomes jamais fossem esquecidos. — Crowe deu de ombros. — É claro que na guerra a gente raramente sabe o nome dos homens que mata, então ele deixou um espaço no corpo e fez o possível para descobrir quem eram e de onde vinham a partir do regimento a que pertenciam. Depois que a Guerra entre os Estados acabou, ele gastou muito dinheiro tentando descobrir o nome de todos os soldados da União que haviam morrido em determinados lugares e momentos. Tentou até descobrir o nome dos índios que havia matado. Tatuou o nome de Chaleira Preta bem na nuca. É uma obsessão dele.
— E os nomes em vermelho? — perguntou Rufus Stone. — Como se eu já não soubesse a resposta...
Crowe o encarou com uma expressão severa. Sherlock presumiu que o americano estava dando um aviso tácito para que Rufus não mencionasse o nome de Virginia.
— São de pessoas que ele quer matar mas ainda não conseguiu — respondeu ele, devagar. — Planejando o futuro, acho. Está deixando claro que algumas pessoas têm seus dias contados. Quando as pessoas morrem, ele tatua em preto por cima. — Crowe olhou para fora mais uma vez. — Ouvi dizer que ele tatuou meu nome em vermelho no antebraço, bem onde ele possa ver todos os dias.
Rufus Stone tinha o cenho franzido.
— Para um homem supostamente inteligente — murmurou ele —, esse Bryce Scobell parece ter escorregado feio. Quer dizer, ele está fugindo de você, está fugindo de todo o governo dos Estados Unidos, e faz questão de se fazer cada vez mais reconhecível. Se fosse eu, tingiria o cabelo de louro e ficaria escondido, em vez de tatuar um monte de nomes na pele.
— É uma compulsão — explicou Crowe. — O homem não consegue se conter. E é incrível o que luvas e um pouco de maquiagem artística no rosto e no pescoço podem fazer.
— Então qual é o plano? — perguntou Matty. — O que a gente faz?
— Não fazemos nada — respondeu Crowe. — Ginnie e eu vamos sair do país. Vamos para outro lugar. Mudar de nome. Mudar nossa aparência o máximo possível. Vocês três vão voltar para Farnham e tentar nos esquecer.
Sherlock sentiu as palavras atingirem-no como socos. Olhou para Virginia.
— Acho que não conseguiremos fazer isso — disse ele, baixinho.
Rufus Stone franziu o cenho.
— Não entendo. Por que você deixou pistas para que viéssemos a Edimburgo se não queria nossa ajuda?
Crowe fechou os olhos por um instante.
— Porque eu queria me despedir apropriadamente — respondeu ele. — E porque queria explicar cara a cara por que estava fugindo. Queria que vocês entendessem a dimensão do que estou enfrentando. Scobell vai nos perseguir até nos encontrar. E mesmo que eu tente virar a mesa e caçá-lo, ele é esperto demais. Vai apagar os rastros e se esconder até eu parar de procurar; ou, pior, vai me atrair para uma armadilha.
Um silêncio preencheu o cômodo enquanto todos tentavam assimilar o que Crowe estava dizendo.
— Há dois problemas nesse pensamento — disse Sherlock depois de um tempo.
Crowe ergueu uma sobrancelha.
— Ah é, é?
— O primeiro — continuou Sherlock, sem se abalar pelo tom de Crowe — é que esse homem, Bryce Scobell, não vai parar de persegui-lo. Se ele é assim tão esperto e dedicado, vai encontrá-lo onde quer que você esteja, mais cedo ou mais tarde.
— Você tem razão — disse Rufus Stone, assentindo com a cabeça.
— E o outro problema? — perguntou Matty.
— É que você está tratando a situação como se fosse uma caçada qualquer. — Sherlock ficou quieto por um instante, tentando organizar os pensamentos. — Pelo que você me ensinou, sei que, em uma caçada, devemos tratar as pessoas como animais. Se estiver caçando alguém, devemos observar os hábitos dela para tentar prever suas ações e procurar sinais de sua presença, sinais que ela deixa sem perceber, exatamente como os animais deixam rastros.
— Sempre acreditei que o ser humano é só um tipo diferente de animal — concordou Crowe —, e muitas vezes tirei vantagem desse fato. Aonde você quer chegar?
— Bryce Scobell não é um animal. Ele virou a mesa. Está tratando você como o animal, está rastreando você, e isso o assustou. A maneira como você costuma lidar com as situações não vai funcionar. O jogo se inverteu.
— Está dizendo que ele é mais esperto que eu? — questionou Crowe, encarando Sherlock sob suas fartas sobrancelhas grisalhas.
— Sim — respondeu Sherlock, tranquilamente. — Então, se o jogo se inverteu, vamos mudar as regras. Se Scobell é melhor que você como caçador, vamos fazer com que isso não seja uma caçada. Se ele é melhor que você como jogador, vamos fazer com que isso não seja um jogo. Não deixe que ele escolha a luta. Mude as regras.
— É mais fácil falar do que fazer, meu jovem — murmurou Crowe, mas a expressão em seu rosto sugeria que o menino o surpreendera.
— Se ele está procurando você — disse Sherlock —, então não se esconda. Não faça o que ele espera. Fique exposto. Ele vai se perguntar o que você está fazendo. Vai achar que é uma armadilha e recuar.
— E depois? — questionou Crowe.
— Depois ele vai cometer algum erro, e será a sua vez de virar o jogo.
Crowe assentiu devagar.
— Quando o jogo é uma caçada e você está perdendo, mude as regras.
— Quando você está enfrentando alguém mais esperto e mais cruel — concluiu Sherlock —, cuide para que o jogo não precise ser vencido por esperteza ou crueldade.
Crowe sorriu e abriu a boca para dizer algo, mas ouviu-se um baque repentino no teto do chalé.
Ele olhou para cima, já com a mão na arma, e então voltou a olhar pela janela. Sherlock seguiu seu olhar. A trilha estreita que descia a partir do chalé estava vazia, deserta, mas o ar tinha algo de diferente. Um cheiro. Algo... queimando.
— Fumaça! — exclamou Sherlock. — Sinto cheiro de fumaça.
Amyus Crowe avançou rapidamente até a janela.
— Não tem nada lá fora.
Sherlock olhou a porta que se abria para o restante do chalé. Era imaginação sua, ou havia uma leve névoa ali?
— É Scobell — disse ele. — Ele ateou fogo ao chalé!
— Mas como? — gritou Rufus. — Ninguém chegou perto! E como diabos ele nos encontrou?
— Eles não precisavam chegar perto — respondeu Sherlock. — Está no topo do penhasco acima do chalé e jogou algo em chamas no teto de palha! Isso é palha seca... vai queimar em segundos!

Um comentário:

  1. Aaah, espero esse beijo desde o primeiro livro. Que ela não morra, pelo Anjo!! Ainda tem livros pela frente, não vou ler se Sherlock estiver sofrendo.

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Boa leitura :)