30 de agosto de 2017

Capítulo dois

APESAR DE TODO O ESFORÇO do dia anterior, Sherlock acordou cedo. Deitado na rede, balançando suavemente de um lado para o outro na escuridão relativa da área de dormir – que era pouco mais do que uma seção alargada do corredor com ganchos aparafusados de cada lado da parede, onde as redes eram penduradas – ele escutou por um tempo o suave ruído de fundo das tábuas rangendo, as ondas batendo contra as laterais do navio, marinheiros roncando, ou falando durante o sono, e o som dos homens desajeitados que saíam ou entravam em suas redes. O trabalho de vigia no Gloria Scott durava o dia e a noite todos, é claro, e quando o turno de um começava, o outro ia dormir. Sinos tocavam para sinalizar o início e o fim dos turnos, e não seria a vez de Sherlock ainda por um tempo.
Eventualmente ele deslizou para fora de sua rede e vestiu-se com as mesmas roupas do dia anterior, e que foram as mesmas do dia anterior a esse e a todos os dias anteriores até o dia do seu rapto. A sua única lavagem de roupa foi a imersão nas ondas que invadiram pela lateral do navio. Esquivando-se por debaixo das redes que, estranhamente, quase lembravam as velas do navio por seu volume, estando elas ocupadas, ele fez o seu caminho para a cozinha.
Wu Chung estava ausente. Em seu lugar, outro marinheiro – um indivíduo cadavérico chamado Scorby – servia uma mistura de biscoitos duros, mingau de aveia e carne seca.
Sherlock pegou um prato, sentou-se em um banco vago e riu brevemente daquilo. Ele se perguntou o que teria acontecido ao cozinheiro chinês. Da última vez que Sherlock o vira, Wu estava indo em direção às profundezas do navio. Será que ele sobrevivera à tempestade, ou algo lhe tinha acontecido? Talvez ele tivesse batido a cabeça acidentalmente em uma viga baixa quando o Gloria Scott fora virado de ponta a ponta pela mão pesada do vento. Ou talvez ele tivesse ido até os porões – a escuridão, as profundezas inundadas mais próximas da quilha – e de alguma forma caído e se afogado na água estagnada que se infiltrava por baixo.
Sherlock empurrou o prato vazio e se levantou. Seu lugar foi imediatamente tomado por outro marinheiro. Voltando para onde Scorby ainda servia, ele perguntou:
— Onde está o Wu?
— Wu Chung? — Scorby perguntou, como se houvesse outro marinheiro chinês a bordo chamado Wu a quem Sherlock poderia estar se referindo. — Lá no convés, companheiro. Está fazendo alguma espécie de dança estranha.
Sherlock sentiu uma onda de alívio. Wu não era exatamente um amigo, mas era um dos poucos marinheiros que tivera qualquer interesse por ele. Se Wu tivesse morrido, quem mais ensinaria cantonês a Sherlock?
Ele dirigiu-se à escada que levava ao convés. A luz brilhante o fez piscar e apertar os olhos. Depois que eles se ajustaram, Sherlock olhou em volta, checando os danos que a tempestade havia causado. Era como se nada tivesse acontecido. As velas estavam infladas, os mastros e verga estavam intactos, e o convés estava tão seco como sempre esteve. Os marinheiros do turno se moviam ao redor normalmente. Apesar da violência da noite anterior, Sherlock tinha a impressão que tempestades tropicais eram algo que acontecia, eram lidadas e esquecidas.
Para ele, tudo e todos mudaram.
Wu Chung estava de pé no centro do convés. Ele apoiava todo o seu peso na perna direita flexionada. Sua perna esquerda estava estendida sobre o convés à sua frente. O braço direito estava erguido em forma de gancho quase cobrindo a parte de trás da cabeça, e o esquerdo, estendido paralelamente à perna esquerda. Seus dedos estavam unidos em forma de anel, com a palma da mão virada para cima, como se estivesse apontando alguém que se aproximava. A posição parecia sobrecarregar enormemente os músculos da perna direita e das costas, mas ele continuou ali parado como uma estátua por um minuto ou mais antes de mudar lentamente para outra pose.
Enquanto Sherlock assistia, Wu Chung fez uma série de poses de estátua intercalados com movimentos lentos. Como Scorby descrevera, era como uma dança, mas era mais do que isso. Sherlock começou a detectar elementos que se repetiam nas poses – defesas e ataques, como se Wu estivesse envolvido em uma luta muito lenta contra um oponente invisível.
Eventualmente ele se endireitou, deixando cair os braços para os lados. Sua respiração estava rápida, mas não demais.
Ele olhou para onde Sherlock estava.
— Você me assistiu praticando, não é? — ele falou em inglês.
— Sim. O que era?
Wu sorriu.
— O que você acha?
— Acho que foi como uma luta, tipo boxe, mas diferente. Acho que é boxe sombra.
Wu meneou a cabeça, e se inclinou ligeiramente para Sherlock.
— Muito bom. A maioria das pessoas diz que estou dançando mal.
— Eu nunca o vi fazer isso antes.
— Você nunca esteve acordado tão cedo antes. Eu faço isso todas as manhãs, por uma hora.
— Por quê? — Sherlock apenas perguntou.
— Ah, essa é uma boa pergunta — Wu parou ao lado de Sherlock. — No seu país, o boxe é algo que os homens aprendem para poderem brigar com outras pessoas e fazê-las sangrar. Em meu país, o Tai Chi Chuan é algo que as crianças aprendem de forma que possam acalmar sua mente e dominar seus corpos.
— Tai Chi Chuan? — Sherlock perguntou.
— Significa “punho do limite supremo”, ou talvez “boxe do último supremo”.
— Conte-me mais — Sherlock pediu.
Wu apontou para uma área vazia em um lado do convés.
— Vamos sentar. Há muito a dizer, e eu não sou tão jovem como fui uma vez — depois que ambos sentaram de pernas cruzadas no chão, ele começou a falar, e Sherlock escutava, fascinado. — Gostaria de começar por dizer-lhe que existem dois estilos diferentes de luta na China. Este é o Shaolinquan, que é sobre — ele agitou os braços ao redor descontroladamente — ação e atividade, envolve o corpo fazendo as coisas, e este é o Wudangquan, onde a mente controla o corpo. — Ele fungou de maneira zombeteira. — Aqueles que praticam Shaolinquan desenvolvem a força e o vigor, mas os que não são bons nesse tipo de treinamento logo perdem o fôlego e ficam esgotados. O Wudangquan é diferente. Nós nos esforçamos para sossegar o corpo, a mente e a iniciativa. Procuramos nos concentrar em nosso interior a partir de onde todas as nossas atividades devem começar.
— Eu não entendo — Sherlock admitiu.
— Bom — disse Wu. — Isso é um começo. — Ele pausou por um momento, reunindo seus pensamentos. — Já lhe contei um pouco sobre a China, mas você deve saber mais sobre os chineses antes de chegar lá. — Ele olhou em volta para os outros marinheiros. — Estes homens são todos tolos. Não se preocupam com para onde estão indo. Querem que todos os lugares aonde vão seja iguais – mesma comida, mesma língua, os mesmos tipos de pessoas. Eles não se interessam em diferenças, só em mesmice. Mas você! Você é diferente. Observa as diferenças e está interessado nelas. Você é mais inteligente do que eles.
— Eu sempre me interessei em aprender coisas — Sherlock admitiu.
— No seu país, boxe e Deus e comida e natureza – eles são diferentes, não é?
— Sim — Sherlock respondeu, não tendo certeza onde Wu queria chegar.
— Na China são todos parte de algo. Acreditamos que tudo está conectado. Mudar uma coisa afeta todo o resto — ele sorriu.
Wu continuou falando, e Sherlock ouvia, mas não estava certo se entendia o que era dito. Mas isso não importava. Wu era, obviamente, apaixonado por suas crenças, e Sherlock encontrou-se encantado com a eloquência de seu amigo. Em certas horas, Wu escorregava para o cantonês quando não sabia quais as palavras corretas em inglês e Sherlock percebeu que conseguia acompanhar a conversa. O que Sherlock entendeu foi que o Tai Chi Chuan era algo entre um modo de meditar e uma forma de luta, e que era um reflexo de um aspecto religioso mais profundo da vida chinesa.
Eventualmente, quando Wu cessou as palavras, Sherlock perguntou:
— Você pode me ensinar?
— Eu já estou lhe ensinando – cantonês. Quer que eu te ensine a cozinhar também?
Sherlock sorriu.
— Não, não cozinhar. Quero que me ensine Tai Chi Chuan.
Wu olhou para ele por um longo momento.
— Você quer que eu te ensine a lutar?
Sherlock reconheceu o truque na pergunta.
— Não — ele respondeu. — Quero que me ensine a controlar meu corpo com a mente.
— Resposta correta — Wu sorriu. — Então lhe ensinarei isso. A luta virá junto.

O clima ficou mais quente à medida que se aproximavam do sul da África – o Cabo da Boa Esperança – e voltavam na direção do Equador. O céu voltou a ser azul puro, e o sol batia no convés e nos marinheiros, secando a madeira a ponto de fazer o primeiro estalar e formar bolhas nas costas do segundo. O mar ficou em silêncio novamente, e botos começaram a acompanhar o navio como haviam feito antes, nadando à frente como uma matilha de cães de caça.
Sherlock às vezes tinha um vislumbre de outras coisas nadando paralelamente ao navio, sob as ondas, formas escuras que pareciam tão grandes, senão maiores, que o próprio navio, mas nunca rompiam a superfície. Eram tubarões? Ou talvez baleias? Ele havia lido sobre as baleias. Ou seriam algum tipo novo de vida a quem ninguém dera um nome ainda? Ele não sabia, mas queria desesperadamente saber.
Os dias passavam rápido. Quando não estava trabalhando ou dormindo, Sherlock praticava violino, aprendia cantonês com Wu Chung ou seguia seus lentos movimentos do Tai Chi Chuan ensaiados no convés todas as manhãs. Sherlock percebeu que adquiriu movimentos graciosos que, acelerados, realmente fariam um eficaz combate defensivo – bloquear socos e, em seguida, retornar golpes tanto com as mãos como com os pés. Ele notou também que, ao praticar os movimentos lentamente, tão lentamente que seus músculos, por vezes, gritavam sob a tensão, ele construía uma memória deles.
Se tivesse a oportunidade de usar esta arte marcial de verdade, então veria que seguiria automaticamente os movimentos que havia memorizado, sem se quer ter que pensar sobre eles.
Por que algo como o Tai Chi Chuan nunca fora desenvolvido na Inglaterra?, ele se perguntou. A coisa mais próxima que a Inglaterra tinha de uma arte marcial era o boxe, e essa coisa que Wu ensinava era muito mais eficaz do que o boxe.
Haveria outros tipos de artes marciais?, ele se perguntou novamente. Será que outros países têm as suas próprias, em diferentes versões?
Quando Sherlock trabalhava, ele se concentrava tanto em suas tarefas que não via nada do que acontecia ao seu redor. Mas nas ocasiões em que tinha algum tempo para si mesmo, às vezes à noite ou no início da manhã, notava o capitão do navio, Tollaway, de pé sobre a plataforma traseira fazendo observações do céu. Ele usava um dispositivo de bronze que parecia um cruzamento entre um pequeno telescópio e um grande conjunto de compassos. Ele parecia observar as estrelas.
Sherlock se lembrou de algo que havia lido uma vez sobre navegação em alto-mar e decidiu que aquilo que o capitão usava devia ser um sextante.
Como o navio só avançava através de ondas e o horizonte era uma linha que separava um tom de azul do outro, era difícil acreditar que estavam fazendo qualquer progresso. Talvez o Gloria Scott estivesse estagnado sobre a superfície do oceano e a impressão de movimento fosse uma ilusão causada pelas ondas e pela sensação do vento em seus rostos. Apena a ondulação das velas indicava que algo realmente os estava impulsionando para frente.
Sherlock encontrou-se cada vez mais indo às canções da noite. Após os marinheiros receberem sua ração de rum aguado – algo pelo qual Sherlock descobriu que estava pegando gosto – eles se reuniam e cantavam as canções de marinheiro. A desenvolvida competência de Sherlock no violino era muito procurada – tanto que um marinheiro a quem todos chamavam de Fiddler, que havia emprestado a Sherlock o seu instrumento, foi relegado a segundo plano. A excelente memória de Sherlock significava que ele poderia se lembrar de todas as palavras logo que as ouvia, e ele descobriu, para sua surpresa, que tinha um bom barítono para cantar.
Sherlock se deu conta que havia trechos inteiros de tempo – horas, na verdade – quando ele não pensava em casa, sobre Mycroft e seus amigos – Amyus Crowe, Matty e Virgínia.
Ele estava se conformando com sua situação, perguntou-se, ou era apenas algum tipo de mecanismo mental de autoproteção – sua mente evitando assuntos que eram demasiados dolorosos para pensar?
Sherlock não sabia dizer quanto tempo se passara desde a tempestade, mas em uma manhã o Sr. Larchmont chamou todos à popa do navio, onde se postou na plataforma elevada do convés e olhou para eles.
— Tem sido uma longa jornada, rapazes — ele falou em voz alta — e há mais a percorrer, mas o capitão diz que estamos a apenas um cuspe de distância de Sumatra agora. Ele pretende atracar em Sabang Harbour. Sumatra é controlada pelos holandeses, é claro, o que, pelo menos, significa que a comida será comestível, eles receberão moedas da rainha e nós seremos capazes de nos fazer entender. Alguns de vocês já estiveram lá antes – para aqueles que nunca foram, tudo o que lhes direi é que Sabang é um buraco de rato infestado de todo tipo de doenças tropicais que podem apodrecer os dedos das mãos e dos pés de um homem em questão de um dia. E que é muito melhor permanecer no navio do que ir para a terra. A única coisa pior do que Sabang é a selva que cobre o resto da ilha. Não que eu possa impedi-los de ir para a terra. Estaremos lá por dois dias, pegando uma carga de grãos de café e admitindo um holandês como passageiro.— Ele olhou ao redor da tripulação, que tinha visivelmente se animado com a notícia de que atracariam em terra em breve. — Isso é tudo. De volta ao trabalho, todos vocês, e adiem o sonho daquelas belas donzelas de Sumatra até a terra estar à vista.

No dia seguinte, a terra foi avistada. Tudo começou com uma linha escura fracionada acima do horizonte. Por mais estragos que a tempestade tivesse feito, em vez de correr dela, o Sr. Larchmont ordenou que tomassem curso direto até ela.
Como ele sabia que era terra?, Sherlock se perguntou. À medida que se aproximavam, no entanto, ficou claro que ele estava certo. Logo toda a tripulação pôde ver o que pareciam colinas, mas logo se definiu que eram montanhas cobertas de vegetação verdejante.
Chegaram lentamente a Sabang, acompanhados por uma grande quantidade de crianças acenando desde o cais. Em comparação com Dakar – seu último porto na escala – Sabang era uma massa agitada de pessoas indo em todas as direções em todo tipo de comércios. Os homens usavam o que pareciam ser lençóis coloridos envolvidos em torno da cintura. Alguns usavam casacos para cobrir seus peitos, outros estavam de peito nu. As mulheres usavam o mesmo tipo de lençóis coloridos, mas enrolados em torno de todo o corpo, e não apenas da cintura para baixo. Tudo somado fazia o lugar uma profusão de cores e atividades.
Depois de atracado, a prioridade para o capitão, acompanhado pelo Sr. Larchmont, era buscar sua carga de grãos de café. A tripulação foi autorizada a desembarcar, e dentro de alguns instantes o Gloria Scott estaria vazio exceto por dois marinheiros deixados para trás para guardá-lo, e Wu, que disse que preferia dormir.
Sherlock desceu a prancha com alguma apreensão. Tal como aconteceu com a chegada em Dakar, ele percebeu que fazer a transição para caminhar em uma superfície que não se movia para cima e para baixo era muito complicado. Levou algumas horas para parar de sentir enjoo. Olhando para os homens que passavam por ele no cais e nas ruas, ele podia dizer quais eram os marinheiros que desembarcaram recentemente. Eram os únicos que cambaleavam de um lado para o outro, antecipando ondas que nunca chegavam.
O cais estava lotado de guindastes feitos de bambu que eram amarrados com alguma espécie de corda local. Eles pareciam bastante frágeis em comparação com os guindastes mais substanciais que Sherlock vira nas docas de Londres e Southampton. Ele se perguntou quantas vezes eles haviam falhado, e quantos homens se feriram em cada uma dessas vezes.
Sob a sombra dos guindastes ele notou tendas que vendiam todo tipo de alimentos e outros produtos, como roupas, facas, instrumentos musicais e bonecos de madeira. Enjoado e cansado das rações limitadas servidas no navio, Sherlock decidiu olhar o que havia ali em oferta. Lembrando-se do conselho que Mycroft certa vez lhe dera de nunca pegar o primeiro cabriolé, em caso de uma possível armadilha, Sherlock passou as primeiras barracas e parou em uma mais abaixo na fileira.
O homem gerenciando a barraca era pequeno, de pele morena e cabelos escuros. Ele sorriu para Sherlock com uma boca que parecia conter muitos dentes. Ele estendeu um espeto no qual havia alguns pedaços de carne revestidos com um molho marrom.
— Muito bom — ele falou. — Quer experimentar, sim?
Sherlock olhou receoso para o que era oferecido.
— Oque é isso? — ele perguntou.
— Satay Ponorogo. É cabra. Cabra ao molho. — Ele franziu a testa, e virou-se para a vendedora mais próxima dele. Eles falaram no que Sherlock presumiu ser sumatrano, se existisse realmente tal língua, por alguns momentos. O vendedor voltou sua atenção para ele. — É molho feito com amendoim.
Sherlock deu de ombros. Ele nunca tinha comido cabra na Inglaterra, e apesar de toda a preocupação, não foi diferente de comer cordeiro ou carneiro. Ele já havia experimentado amendoim quando esteve em Nova York há um ano ou mais, e gostara deles.
— Tudo bem — ele disse, e entregou uma moeda. O vendedor passou o espeto para ele, junto com o troco.
Sherlock mordeu a carne. Por um segundo, ele sentiu o gosto da cabra e dos amendoins, mas em seguida, seus lábios começaram a formigar. Ele considerou se cuspia ou engolia a carne. No final das contas, ele engoliu, mesmo que apenas para não ofender o vendedor. Ele podia sentir a sensação de queimação descer por garganta abaixo.
— O molho também é feito com pimenta e limão — acrescentou o vendedor com um grande sorriso. — Você precisa beber algo para suavizar a boca e a garganta? O leite de coco é ótimo para isso.
— Obrigado — Sherlock respondeu — mas não, obrigado. E admiro sua técnica para conseguir que os clientes comprem suas bebidas, assim como seus alimentos. Muito bom. Muito inteligente.
Ele seguiu em frente, esperando que a queimação na boca diminuísse. Depois de um tempo ele sentiu um formigamento na parte de trás do seu pescoço. Parecia que alguém o estava vigiando. Ele não acreditava que houvesse um sexto sentido significando que ele podia deduzir que estava sendo vigiado mesmo estando de costas, mas estava pronto para acreditar que poderia ter tido um vislumbre de um observador com sua visão periférica, e que seu cérebro tentava alertá-lo. Ele se virou, fazendo seu olhar vagar em toda a multidão de marinheiros, colonos holandeses e ingleses e moradores locais.
Um homem se destacou. Ele vestia um terno de linho sujo e um chapéu de palha, e sua camisa branca estava amarrotada e manchada de suor, mas o mais óbvio, e estranho, era que seu rosto e cabelo estavam ocultos por um véu de gaze preta, como os que eram usados pelos apicultores. O véu estava enfiado em uma gravata de seda amarrada frouxamente em torno do pescoço. A gravata frouxa com o calor e a umidade. Ele estava apoiado em uma bengala e parecia olhar para Sherlock, embora o véu negro tornasse difícil ver algo além do formato de sua cabeça.
— Posso ajudá-lo? — Sherlock indagou, sentindo um arrepio correr através de si. Ele pensou que era apenas as memórias de quando era observado de longe pelos agentes da Câmara Paradol que o deixaram nervoso, mas quando o homem começou a caminhar para onde Sherlock estava, o sentimento tornou-se mais intenso.
O homem parou a poucos metros de distância.
— Você está no Gloria Scott? — perguntou ele. Sua voz era fina e esganiçada, como o som de um oboé, ou uma nota alta a partir de um órgão de igreja.
Sherlock assentiu.
— Meu nome é Arrhenius — disse ele. — Jacobus Arrhenius. Serei um passageiro em seu navio. Por favor, me diga onde o capitão pode ser encontrado.
— Ele... ele está atualmente em terra, escolhendo nossa próxima carga — Sherlock falou. — Suponho que ele volte em breve, se o senhor puder esperar.
— Obrigado — disse Arrhenius. — Esperarei na sombra. — Ele olhou para o céu – ou pelo menos, era a direção que sua cabeça havia virado, pois o véu tornava impossível dizer o que ele estava realmente olhando. — O sol e eu não nos damos muito bem. Nem um pouco. — Ele se virou, em seguida olhou para trás para ver Sherlock novamente. — Você sabe o meu nome, porém eu não sei o seu.
— Sherlock. Meu nome é Sherlock Holmes.
— É um prazer conhecê-lo — disse Arrhenius. Ele estendeu a mão direita, que estava envolta em uma luva de couro preto que corria para dentro de sua manga para que nenhuma carne ficasse visível. Sherlock tomou sua mão cautelosamente. Era estranha sob aquele couro macio – não era como uma mão normal. — Eu o verei novamente — Arrhenius falou, antes de se afastar, e Sherlock não tinha certeza se aquilo era uma promessa ou uma ameaça.
Ele observou o homem velado indo, então, quando Arrhenius foi engolido pela multidão, ele seguiu em frente.
Depois de um tempo, Sherlock ficou entediado por entre as barracas. O calor e a umidade pesavam sobre ele. Questionou-se se devia explorar mais a cidade ou voltar para o navio. Eventualmente, ele decidiu voltar. Afinal, não era como se ele fosse morar em Sabang por qualquer período de tempo, e estar de volta a bordo lhe permitiria continuar com sua prática de violino, aulas de cantonês e Tai Chi Chuan em paz por um tempo.
Quando chegou à ponte, ele se virou e olhou ao redor do cais movimentado. Ele podia sentir o mesmo formigamento em sua pele que sentira antes. Em algum lugar, Arrhenius estava olhando para ele de novo. Eventualmente, ele avistou o homem velado nas sombras de uma palmeira. Quando ele viu que tinha sido percebido, Arrhenius inclinou-se ligeiramente para Sherlock.
Poucos minutos depois, o capitão Tollaway e o Sr. Larchmont retornaram de suas incursões em Sabang, e Sherlock assistiu do convés quando o Sr. Arrhenius saiu da sombra para cumprimentá-los. Sherlock não pôde ouvir o diziam, mas nenhum dos dois marinheiros pareceu impressionado pelo véu preto ou pelas luvas que o encobriam. Ou já o tinham visto antes, Sherlock pensou, ou tinham sido avisados com antecedência.
Os três homens subiram a ponte e desapareceram no interior do navio. Sherlock presumiu que tivessem ido para a cabine do capitão. Cerca de meia hora depois, uma carroça parou ao lado do navio, puxado por uma espécie de vaca com chifres grandes. Quando o Sr. Arrhenius apareceu ao lado do navio para checar o conteúdo da carroça sendo levado a bordo, Sherlock concluiu que fosse sua bagagem.
Uma caixa em particular parecia preocupar o holandês. Era feita de madeira e tinha buracos perfurados no topo. Arrhenius desceu a ponte e caminhou atrás dos trabalhadores locais que a carregavam no navio. O vento mudou de direção rapidamente, soprando em direção a Sherlock, e ele sentiu um cheiro estranho, um odor de mofo. A caixa desapareceu por uma escotilha que, presumivelmente, levava à cabine de Arrhenius, assim como o resto de sua bagagem, e o estranho cheiro desapareceu com ele.
Mais carroças começaram a surgir com engradados – maiores desta vez. Em vez de serem carregadas a bordo, as caixas foram presas a cordas penduradas em dois guindastes de bambu mais próximos e, em seguida, erguidas no ar. O Sr. Larchmont tinha mencionado grãos de café mais cedo, e Sherlock assumiu que fossem isso.
Levou o resto do dia e boa parte do seguinte para as caixas serem levadas à bordo e depois serem baixadas até o porão através de escotilhas do convés. Sherlock assistia o processo em seus intervalos das aulas de violino, Tai Chi Chuan e cantonês. Com poucos marinheiros a bordo e o capitão e o Sr. Larchmont comendo com os habitantes holandeses locais na maioria das vezes, Wu Chung tinha pouco a fazer, assim, acolheu entusiasticamente Sherlock sob sua asa.
Os marinheiros começaram a voltar pouco ao pouco na hora do almoço do terceiro dia. Sherlock supôs que alguma mensagem fora enviada. Alguns Sherlock não reconheceu – aparentemente, o Sr. Larchmont e o capitão recrutaram alguns holandeses e ingleses deixados lá por um navio anterior como substitutos para os homens que morreram na tempestade. No meio da tarde, eles estavam totalmente tripulados novamente, e depois de o Sr. Larchmont ter assinado alguns papéis no cais, o Gloria Scott partiu soltando as cordas que o prendiam ao cais e começou a manobrar para fora das águas cristalinas do porto.
Próxima parada, Xangai, pensou Sherlock.
Havia um sentimento diferente a bordo do navio na última etapa de sua viagem de Sabang para Xangai. Os marinheiros pareciam mais ansiosos, mais felizes. Eles sabiam que estavam perto de seu destino, o que significava que estavam perto do ponto em que o navio viraria e retornaria à Inglaterra, onde a maioria deles possuía família. A presença dos novos marinheiros foi um fator neste novo sentimento, é claro, e eles rapidamente se integraram à tripulação como Sherlock fizera.
E lá estava o Sr. Arrhenius, é claro. Ele parecia passar bastante tempo no convés olhando para o horizonte distante. Uma ou duas vezes, quando Sherlock passou por ele, ele acenou com a cabeça em saudação. Os outros marinheiros, obviamente, o evitavam, e Sherlock ouviu murmúrios nos grupos de canto à noite que ele não era humano, mas um tipo de demônio sob o véu. O nervosismo da tripulação chegou a tal ponto que o Sr. Larchmont teve de convocar uma reunião com todos os marinheiros e tranquilizá-los – em seu tom rude habitual – que o Sr. Arrhenius era tão humano quanto o resto deles, e ele simplesmente sofria de uma doença que havia desfigurado sua pele.
O Sr. Arrhenius sempre fazia as refeições em sua cabine. Wu Chung lhe levava uma bandeja duas vezes ao dia – geralmente algo melhor do que o resto da tripulação tinha para comer. A tripulação viu isso como outro motivo para falatório, mas para Sherlock apenas parecia apropriado – afinal, o homem era um passageiro pagante.
Três dias após deixarem Sumatra, Wu Chung pediu a Sherlock que levasse a comida à cabine do Sr. Arrhenius. A bandeja continha dois pratos, um de guisado de frango e outro de peixe cru. Intrigado, Sherlock fez seu caminho ao longo dos corredores do navio até chegar à cabine perto da proa, onde Arrhenius passava seu tempo. Ele bateu com uma das mãos, equilibrando a bandeja com a outra, e esperou até que Arrhenius abrisse a porta.
A chegada de Sherlock pareceu ter pegado Arrhenius de surpresa. Ele não usava o chapéu, nem o véu. Sherlock viu que seu rosto e couro cabeludo eram sem pelos, mas isso não era a coisa mais desconcertante. Não, o mais desconcertante era a cor de sua pele. Era de um azul prateado, e como a luz das lâmpadas à óleo no corredor brilhavam sobre o homem, Sherlock viu que o branco de seus olhos também eram da mesma cor. Era como se ele fosse uma estátua de metal que ganhara vida, e Sherlock encontrou-se dando um passo involuntário para trás.
— Sim? — sua voz era tão alta e esganiçada quanto Sherlock se lembrava.
— Eu trouxe sua comida, senhor.
Arrhenius apenas olhava para ele.
— Você é o garoto das docas, certo?
— Sim, senhor.
— O cozinheiro, o chinês, geralmente traz minha comida.
— Ele está ocupado, senhor. Pediu que eu a trouxesse.
— Muito bem. — Arrhenius parecia irritado, embora Sherlock não soubesse dizer o porquê. O holandês esticou os braços na direção da bandeja.
— Quer que eu a deixa na mesa? — perguntou Sherlock.
— Não, apenas passe-a para mim.
Sherlock entregou a bandeja do vão da porta. Ele se virou para ir embora, mas quando o fez, viu algo se movendo com o canto do olho – uma forma aproximadamente do tamanho de um cachorro, deslizando rapidamente para fora de vista nas sombras atrás de Arrhenius. Conforme a coisa se moveu, Sherlock pôde ouvir um ruído. Ele se voltou para Arrhenius para perguntar-lhe o que era, mas o holandês o encarava com uma expressão que indicava claramente que ele queria que Sherlock saísse. Confuso, Sherlock recuou. A porta se fechou em seu rosto.
Fiddler passava enquanto Sherlock estava parado ali, pensando. Sherlock o pegou pela manga.
— Será que o nosso passageiro tem alguma espécie de bicho de estimação? — perguntou ele.
Fiddler fez uma careta.
— O quê, aquela criatura diabólica? — ele balançou a cabeça. — Não que eu saiba. Mas se tiver, será alguma espécie doméstica das profundezas do inferno!
— Muito obrigado — falou Sherlock. — Ajudou muito.
Enquanto se afastava, seu pé prendeu em alguma coisa e ele acidentalmente a chutou contra a parede. A coisa fez um barulho. Por um momento, ele pensou que fosse um dente que caíra da boca de alguém – algo comum entre os marinheiros que ele conhecera – mas aquilo posssuía um brilho prateado, como a pele do Sr. Arrhenius. Ele a pegou. Era um cone pontiagudo, ligeiramente curvado, e parecia ter um buraco atravessando-o. Ele não tinha a menor ideia do que pudesse ser, por isso o colocou no bolso a fim de examiná-lo mais tarde.
Se alguém tivesse perdido, então ele poderia devolver – e descobrir o que era aquele objeto.
Mais tarde naquele dia, um dos tripulantes viu algo no horizonte e enviou um alerta urgente para o Sr. Larchmont.
— Velas! — ele gritou de sua posição no cordame. — Velas no horizonte!
Sherlock trabalhava ao lado de Gittens no momento, desfiando cordas e separando em pedaços que seriam colocados entre as tábuas do navio para ajudar a mantê-las à prova d´água. Ele olhou para o rapaz de rosto sujo.
— Qual é o problema? — perguntou ele. — Não há vários tipos de navios que navegam pelo oceano? Nunca tivemos um aviso desse antes.
— Nós estamos nas águas do sul da China! — respondeu Gittens severamente. — Há piratas chineses por aqui. Eles saqueiam todo navio que encontram, e raptam qualquer passageiro que pareça ser importante.
— E quem não parece importante?
— Ouvi uma história, certa vez — Gittens confidenciou — de um velho marinheiro. Ele esteve em um navio que foi abordado por chineses. Eles estavam saqueando o local e acreditavam que o capitão tinha escondido algumas joias deles, então amarraram uma corda bem apertada em torno do polegar direito e outra no dedão do pé direito, e o penduraram por essas cordas entre dois mastros. Aí eles se revezavam sentando em cima dele como se fosse um balanço.
— Ah — disse Sherlock simplesmente, mas por dentro ele estava enojado com a brutalidade casual com que Gittens descrevera.
Gittens sorriu, revelando uma boca cheia de dentes enegrecidos.
— Eles normalmente começam com o mais novo. Você, então.
— E depois você — Sherlock ressaltou.
Ele olhou para onde o Sr. Larchmont estava junto ao parapeito, observando através de uma luneta. Larchmont se virou, e sua expressão era tão sombria quanto fora no dia da tempestade da qual eles tinham escapado tão recentemente.
— Velas no horizonte — ele confirmou. — São piratas. Rapazes, estamos indo para um confronto!

2 comentários:

  1. Estou começando a gostar cada vez mais da vida no navio

    ResponderExcluir
  2. Se essa era a vingança dos caras, erram feio, erraram rude. Só estão fazendo com que ele tenha mais experiências e habilidades pra usar contra eles eventualmente. Trouxas.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)