18 de agosto de 2017

Capítulo dois

SHERLOCK SENTIU O FÔLEGO FICAR preso na garganta. Como ela se atrevia a falar com o tio dele daquela forma? A sensação deu lugar a um lampejo súbito de alegria: a governanta jamais sobreviveria àquela afronta. Estaria fora da casa dentro de uma hora, e ninguém lamentaria.
Sherrinford Holmes fechou o punho junto da perna, mas a expressão em seu rosto não era de raiva. Estava mais para frustração e impotência do que para a ira justificada de um homem que flagrou uma criada bisbilhotando seus pertences. Sherlock esperou que o tio explodisse de fúria, demitisse a Sra. Eglantine imediatamente e a expulsasse da casa sem oferecer referências, mas ele apenas balançou a cabeça e bateu inutilmente com o punho na coxa.
— Você não tem esse direito! — gritou.
— Tenho todo o direito — retrucou a governanta. — Tenho todos os direitos que eu quiser nesta casa, qualquer direito que eu decida exercer, porque você e aquela sua esposa insuportável sabem o que vai acontecer se algum dia me irritarem.
— V-você é uma mulher cruel e má — gaguejou Sherrinford Holmes.
Ele parecia incapaz de sustentar o olhar da Sra. Eglantine. O homem encarava o tapete, e Sherlock ficou chocado ao ver que seus olhos estavam se enchendo de lágrimas.
A governanta deu passos muito lentos e calculados pelo corredor, entre as estantes, até parar em frente ao tio de Sherlock. Ela era mais baixa, mas seu porte a fazia parecer imensa diante dos ombros curvados de Sherrinford.
— Seu idiota patético! — exclamou a Sra. Eglantine. Ela levantou a mão e pegou o queixo dele com a ponta dos dedos. Assistindo a tudo das sombras, Sherlock viu, horrorizado, as marcas nas bochechas do tio. — Você fica sentado aqui, dia após dia, escrevendo palavras inúteis para que outros idiotas patéticos e iludidos do país inteiro repitam como papagaios, e você acha, realmente acha que está fazendo algo digno de nota. Isso não quer dizer nada, seu velho. Eu devia fazer tudo cair à sua volta só para lhe mostrar quão pouco o mundo se importaria se você parasse. Eu poderia fazer isso. Com o que eu sei, poderia arruinar esta família.
— Então por que hesita? — perguntou Sherrinford, a voz abafada pelos dedos que apertavam seu rosto.
A governanta ficou em silêncio por um instante; abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu.
— Você não pode — continuou Sherrinford. — Se você revelasse o que sabe, sim, minha família estaria arruinada, mas você perderia acesso a esta casa. E, então, aonde iria? Você passou um ano ou mais vasculhando-a, de alto a baixo, de um canto a outro. Não sei o que procura, mas sei que deve ser muito importante e que você jamais fará qualquer coisa que represente um risco para sua busca.
— Acho que você sabe o que estou procurando — disse ela, com um tom de desprezo, soltando o rosto do homem. — E acho que está aqui, dentro desta biblioteca. É por isso que você fica sentado naquela escrivaninha, dia após dia, como uma galinha velha chocando uma ninhada de ovos que nunca nascerão. Mas já vasculhei todo o restante da casa, e tenho certeza de que está nesta biblioteca.
— Saia — disse Sherrinford —, ou vou dispensá-la, e que Deus me proteja das consequências. Vou dispensá-la, só para encerrar este pesadelo e para saber que a impedi de encontrar o tesouro patético que você acha que deve estar aqui, o que quer que seja.
A Sra. Eglantine passou por ele a passos firmes, em direção à porta. Quando chegou ao final do corredor, virou-se para encarar Sherrinford. Dois pontos de cor intensa brilhavam como brasa no branco glacial do rosto da governanta.
— Você não pode se livrar de mim sem sofrer as consequências — sibilou ela. — E eu não posso dar cabo de você sem perder o tesouro. A pergunta é: quem tem mais a perder? — Ela se preparou para sair, mas voltou a se virar. — Exijo que você se livre daquele seu sobrinho — acrescentou. — Livre-se dele. Mande-o embora.
— Ele a assusta? — perguntou Sherrinford. — Você receia que ele descubra sua verdadeira posição nesta casa e tome alguma atitude?
— O que ele poderia fazer? É só um menino. Pior: é só um Holmes.
Em seguida ela deu meia-volta e foi embora. Alguns instantes depois Sherlock ouviu a porta da biblioteca se abrir e se fechar.
— Ela tem medo de você — disse Sherrinford em voz baixa.
O menino demorou um pouco para perceber que o tio falava com ele. De alguma forma, Sherrinford sabia que ele estava ali.
— Não entendo — disse Sherlock, indo para o corredor, para a luz.
— Não tem mesmo por que você entender. — O tio balançou a cabeça como se de repente a sentisse muito pesada. — Esqueça tudo o que viu. Esqueça tudo o que ouviu. Afaste isso de seus pensamentos. Faça como eu e finja que não há problema algum nesta casa e que tudo está calmo e sereno, na paz de Deus. Finja que a serpente de satã não rastejou para dentro de nosso convívio.
— Mas, tio...
Sherrinford franziu a testa e ergueu a mão magra.
— Não — disse ele, determinado. — Não tocarei mais nesse assunto. Ele nunca mais será mencionado. — Sherrinford suspirou. — Eu gostaria de lhe perguntar até onde você avançou na catalogação dos sermões, mas estou cansado. Vou repousar um pouco, aqui na paz de meu sanctum sanctorum. — Ele olhou os livros desarrumados nas estantes e no chão. — Depois, botarei um pouco de ordem aqui. Eu normalmente pediria que uma governanta fizesse isso, mas nas atuais circunstâncias...
Sherlock se retirou da biblioteca em silêncio. Ao sair e fechar a porta, ouviu o tio murmurando algo para si mesmo.
A Sra. Eglantine estava no corredor, e o menino permaneceu nas sombras, observando-a. Ela falava com uma das criadas.
— Diga à cozinheira que irei vê-la em breve. O menu desta semana é totalmente inadequado. Precisará ser alterado. Diga-lhe que só ficarei satisfeita quando for revisto por completo.
Enquanto a criada saía apressada e a Sra. Eglantine permanecia imóvel por um instante, pensativa, Sherlock percebeu que seus próprios pensamentos se viravam em uma direção audaciosa. A governanta parecia se sentir à vontade para vasculhar a casa inteira em busca de algo. E se ele fosse vasculhar o quarto dela enquanto ela estivesse ocupada? Talvez conseguisse descobrir alguma pista sobre o que a mulher estava procurando. Se Sherlock achasse algo, e então encontrasse o objeto escondido antes dela, então já não haveria mais motivo para que a governanta permanecesse na casa. Ainda que ele não descobrisse o que a Sra. Eglantine procurava, talvez conseguisse revelar o motivo do poder dela sobre seus tios. Se o menino pudesse libertá-los disso, retribuiria toda a hospitalidade que recebia deles.
A Sra. Eglantine encaminhou-se para os fundos da casa, possivelmente rumo ao que viria a ser uma conversa tensa com a cozinheira. Sherlock sentiu uma pontada de pena. Ele gostava da cozinheira; a mulher sempre lhe oferecia uma fatia de pão com geleia ou um bolinho com creme quando ele passava pela cozinha. Era a única dentre os criados que tinha coragem de enfrentar a Sra. Eglantine. Como seu tio se encontrava na biblioteca e sua tia devia estar bordando na sala de estar, como costumava fazer à tarde, Sherlock sabia que seus parentes provavelmente não o incomodariam. Também sabia que, segundo o horário de trabalho da criadagem, naquele momento as lareiras dos quartos principais estariam sendo limpas. Não haveria ninguém no andar de cima, onde ficavam as acomodações dos empregados e o quarto de Sherlock.
Ele chegou ao andar superior sem ver ninguém. Seu quarto era o primeiro depois da escada. Ao lado havia um cômodo que teria acomodado o mordomo se a família tivesse dinheiro para contratar um. Após a curva do corredor ficavam os quartos da Sra. Eglantine e os dos diversos rapazes e moças que trabalhavam no estábulo e nos jardins, e também a escada dos fundos, que eles usavam para circular pela casa sem serem vistos. Só Sherlock e a Sra. Eglantine tinham permissão para usar a escadaria principal.
Ele dobrou o corredor. O restante do andar estava vazio, claro. A porta da Sra. Eglantine estava fechada, mas não trancada. Isso teria sido uma terrível quebra do contrato implícito entre patrão e empregado. Teoricamente, os tios de Sherlock podiam entrar nos quartos dos empregados a qualquer momento, por qualquer motivo, e, embora esse direito teoricamente valesse também para o menino, ainda assim ele sentiu o coração bater mais rápido e as mãos começarem a suar enquanto se preparava para pegar a maçaneta.
Girou-a sem fazer barulho, abriu a porta e entrou, fechando-a atrás de si em seguida.
O cômodo tinha cheiro de lavanda e talco, e também um leve aroma floral mais marcante, que lembrava orquídeas mortas. O piso de madeira era coberto por apenas um tapete puído no centro do quarto. A cama estava bem-arrumada, e toda a roupa que a governanta tinha estava pendurada dentro de um armário estreito ou dobrada e guardada na cômoda. Tirando uma escova de cabelo no parapeito da janela, um desenho de uma paisagem emoldurado pendurado na parede e uma Bíblia em uma estante perto da cama, não havia qualquer ornamento.
O quarto tinha um aspecto tão impessoal que era difícil acreditar que alguém de fato morasse e dormisse ali todos os dias. Considerando a frieza da Sra. Eglantine e sua imobilidade quase inumana, Sherlock imaginava que ela fosse para seu quarto tarde da noite, ao fim de um dia de trabalho, e ficasse simplesmente parada, como uma estátua, voltando a se mexer apenas quando o sol nascesse e fosse hora de voltar ao serviço. Desligar a falsa humanidade até que fosse preciso fingir outra vez.
O menino afastou essa ideia. A mulher não era uma criatura sobrenatural. Era tão humana quanto ele – só que muito mais desagradável.
Ele apoiou as costas na porta. Ocorreu-lhe que a Sra. Eglantine talvez tivesse feito exatamente o mesmo no quarto dele antes de revistar o cômodo, e isso o deixou irritado. Se ela havia vasculhado a casa inteira, como dissera, então certamente vasculhara seu quarto. Maldita! O que estava procurando, e por que isso a deixava invulnerável a demissões?
Sherlock logo memorizou a posição de tudo o que via: a escova, a Bíblia, até o ligeiro ângulo do quadro que estava torto e a distância entre o lençol de cima da cama e os travesseiros. Levando em conta o detalhismo da Sra. Eglantine, o menino tinha a sensação de que ela perceberia se algo fosse deixado minimamente fora do lugar. Antes de sair, ele precisaria se assegurar de que tudo estivesse de volta à posição original.
Começou pela cômoda, vasculhando rapidamente em meio às roupas de cada gaveta. Reprimiu a sensação de culpa dizendo-se que havia uma grande chance de que a Sra. Eglantine tivesse feito o mesmo com as roupas dele. Não encontrou nada, então passou a mão pelo piso sob a cômoda para ver se algo caíra ali embaixo. Também nada.
Deu as costas para a cômoda, mas então teve uma ideia súbita e se virou de novo. Rapidamente puxou cada gaveta até o fim e passou a mão por baixo, tentando descobrir algum pedaço de papel ou envelope preso ali. Depois, olhou no espaço vazio da cômoda para ver se havia algo enfiado no fundo. Porém, exceto pela poeira, as teias de aranha e um lenço de renda velho, não encontrou nada.
Depois de ter certeza de que a cômoda estava tal como antes de ele chegar, Sherlock voltou-se para o armário, mas um barulho do lado de fora o paralisou. Seu coração batia tão forte que chegava a doer. Aquilo havia sido uma das tábuas do piso rangendo? Tinha alguém do outro lado da porta, tentando escutar o que havia no interior do quarto da mesma forma que Sherlock tentava escutar lá fora? A Sra. Eglantine terminara sua conversa com a cozinheira e voltara ao quarto por algum motivo?
O menino ouviu o barulho de novo: um som de raspagem, difícil de situar. Sherlock procurou desesperadamente algum lugar onde se esconder. Debaixo da cama? Dentro do armário? Deu um passo curto, hesitante, com medo de que o piso rangesse a seus pés e o entregasse.
Antes que pudesse se mexer de novo, ouviu o barulho pela terceira vez, e então o reconheceu com uma onda de alívio. Era uma pá recolhendo as cinzas em uma das lareiras do andar inferior, e o som ecoava pelas chaminés. Sherlock relaxou e voltou a abrir as mãos.
Agora que sua atenção havia sido atraída para a lareira, o menino foi até lá. Passou as mãos pelo carvão frio para ver se algo havia sido escondido ali, e até entortou o pescoço para olhar dentro da chaminé, mas não encontrou nada.
Voltou a revistar o quarto, olhando embaixo da cama, mas achou apenas uma mala vazia. O armário estava ocupado por alguns vestidos pendurados em cabides e dois chapéus em uma prateleira – tudo preto, é claro. Sherlock não sabia ao certo se isso era apenas uma característica de todas as governantas ou se a Sra. Eglantine passava a vida inteira vestida de preto. Ela era uma “senhora”, o que significava que era casada ou viúva, mas Sherlock só conseguia imaginá-la percorrendo a nave da igreja com um vestido de noiva preto. Ele estremeceu e afastou da cabeça a imagem grotesca.
Parou sobre o tapete e olhou em volta. Havia conferido todos os lugares óbvios. O quarto era bem pequeno, e ele podia ver praticamente todos os esconderijos. Não havia nada estranho, nada que ele não esperaria encontrar no quarto de uma governanta.
Se ele quisesse esconder algo em seu próprio quarto, onde o faria?
Com uma ideia repentina, Sherlock deu um passo para o lado e puxou o tapete. Embaixo havia só o piso de madeira. Ele não esperava encontrar nada – a Sra. Eglantine certamente era sagaz, e esconder algo embaixo do único tapete do cômodo era simples e óbvio demais –, mas ainda assim precisava conferir, por via das dúvidas.
Olhando o piso de madeira, Sherlock decidiu testar as tábuas com o pé, para ver se alguma estava solta. Talvez a governanta tivesse levantado uma delas e escondido algo embaixo. Se havia feito isso, então recolocara a tábua bem demais para Sherlock perceber. Ele precisaria de um pé de cabra para erguê-las, e isso deixaria marcas.
O quadro na parede insistia em chamar sua atenção. Sherlock o ignorou por um ou dois minutos, pensando que sua mente ordenada estava apenas incomodada com a inclinação da moldura, mas seus pensamentos insistiam em voltar a ele. Ocorreu-lhe que podia haver algo oculto atrás da imagem.
Com cuidado, ele retirou o quadro da parede e o virou para ver o verso.
Só havia uma anotação de preço feita a lápis.
Ele suspirou e recolocou o quadro na parede, inclinado exatamente no mesmo ângulo.
Com as mãos na cintura, examinou o quarto mais uma vez. Se havia algum segredo ali dentro, estava muito bem-escondido.
Aliás, se é que o segredo estava de fato dentro do quarto.
Movido por um impulso, ele atravessou o cômodo até a janela estreita que dava vista para os jardins atrás da casa. Não viu ninguém, então era seguro. A janela estava ligeiramente aberta. Ele a abriu mais e se inclinou para fora.
Havia algo pendurado em um pedaço de barbante preso por um prego na madeira do batente da janela – um embrulho que pendia a menos de um metro do parapeito. Era tão pequeno que quase não se conseguia ver do jardim, a menos que alguém soubesse exatamente o que procurar.
Sherlock o puxou para dentro e o apoiou no parapeito. O barbante estava coberto de alcatrão, para resistir às intempéries, a coisa estava embrulhada em um oleado. Deixou uma poeira avermelhada na janela, o que deu a Sherlock a impressão de que havia sido coberto com pó de tijolo para que fosse ainda mais difícil vê-lo do lado de fora. Alguém se esforçara muito para esconder aquilo.
Hesitando por um instante, e tremendo de ansiedade, Sherlock desamarrou o barbante e abriu o embrulho.
No interior havia um papel dobrado. Sherlock limpou as mãos com um lenço antes de desdobrá-lo cuidadosamente, registrando mentalmente quais dobras ficavam por baixo e quais ficavam por cima.
Já era um problema o menino estar no quarto dela; Sherlock com certeza não queria que a Sra. Eglantine soubesse que ele havia encontrado e mexido em seus papéis secretos.
Os papéis se desdobraram em duas folhas grandes. A de cima era um conjunto de plantas baixas da mansão Holmes – esquemas de todos os cômodos em todos os andares, tudo em escala. Muitos cômodos haviam sido riscados com tinta vermelha. Na maioria havia anotações ou setas apontando elementos específicos, junto de pontos de interrogação. Ao lado de uma parede particularmente grossa entre a sala de jantar e a de visitas havia a seguinte anotação: “Procurar compartimentos secretos na parede. Com acesso por qualquer um dos lados.”
A segunda folha era ligeiramente menor. Tinha um conjunto de palavras e expressões escritas na mesma caligrafia das anotações feitas nas plantas baixas. Estavam contornadas por retângulos, e esses retângulos estavam ligados por linhas e setas formando uma espécie de trama. Parecia que a Sra. Eglantine – presumindo-se que fosse ela – estava tentando relacionar uma série de elementos, descobertas e pensamentos para formar um padrão coerente – sem sucesso. Sherlock passou o olhar por algumas anotações e viu nomes de integrantes da família Holmes, e também nomes que ele não conhecia, além de lugares dos quais achava que já ouvira falar e palavras que pareciam aleatórias, mas que supostamente tinham algum significado para a governanta. No centro, como uma aranha no meio da teia, as palavras pratos de ouro haviam sido circuladas duas vezes com traços enfáticos.
Pratos de ouro? Era isso o que ela procurava?
Com relutância, Sherlock voltou a dobrar os papéis, tomando o cuidado de usar os mesmos vincos na mesma ordem em que desfizera o embrulho. Ele queria poder guardá-los para analisá-los melhor, mas seria arriscado. E não podia copiá-los – havia informação demais ali, e levaria muito tempo.
Sherlock agora sabia mais do que antes, porém não fazia ideia do que tudo aquilo significava. Ele envolveu os papéis com o tecido, voltou a amarrá-los com o barbante e, depois de conferir se o jardim continuava deserto, baixou o embrulho cuidadosamente.
Por fim, fechou a janela, lembrando-se de deixar uma fresta aberta.
Deu uma última olhada pelo quarto, para ver se algo lhe passara despercebido e também para verificar se deixara algum vestígio. A resposta para ambas as perguntas foi não.
Depois de esperar alguns instantes junto à porta tentando ouvir se era seguro sair, Sherlock deixou o quarto da Sra. Eglantine e seguiu pelo corredor. Por um momento pensou em entrar no próprio quarto, mas ali não haveria nada a fazer a não ser descansar e pensar, e ele tinha outras prioridades. Foi para o térreo.
A pesada porta de carvalho que dava para a entrada e os jardins fechou-se com um baque quando Sherlock chegou ao saguão. Alguém havia acabado de sair da casa. Por uma janela estreita ele viu uma figura de roupas pretas indo até uma carroça, que a esperava. Era a Sra. Eglantine. Ela havia vestido um casaco, o que significava que provavelmente iria à cidade. Devia ter encerrado a conversa com a cozinheira, e Sherlock sentiu um arrepio ao perceber que escapara por um triz. Se o casaco estivesse guardado no quarto, e não na cozinha, ela talvez o tivesse encontrado.
Fazendo barulho, a carroça se afastou, saiu pelos portões e desapareceu pela estrada. O menino virou-se e foi até a cozinha.
— Sr. Sherlock! — gritou a cozinheira quando ele surgiu.
Ela era uma mulher grande, que quase sempre estava com o rosto alegre avermelhado pelo calor dos fornos e as mãos cobertas de farinha, mas agora parecia pálida, e a pele em torno de seus olhos estava enrugada, como se ela estivesse tentando parar de chorar. Ela continuou:
— Acabei de pôr o pão no forno. Volte daqui a uns minutos para comer uma fatia quentinha e deliciosa com manteiga fresca que acabamos de bater!
— Obrigado — disse ele —, mas eu estava procurando a Sra. Eglantine.
O rosto da cozinheira pareceu envelhecer cinco anos em cinco segundos.
— Ela foi à cidade. E já vai tarde! Pelo visto, a qualidade dos legumes e verduras que tenho feito para esta casa não atende às expectativas dela. — A mulher fungou. — Qualquer um acharia que ela é a dona da casa, e não a Sra. Holmes, e que aqui é um hotel grã-fino, e não uma casa de campo.
— Ela é mesmo difícil de agradar — disse Sherlock, com cuidado.
Amyus Crowe lhe ensinara que afirmações genéricas, soltas assim, costumavam incentivar pessoas falantes a falar ainda mais, e a cozinheira era uma das pessoas mais falantes que ele conhecia.
— É mesmo. Nunca vi ninguém com tanto olho para achar defeito, e a língua é afiada como faca de açougueiro. Já trabalhei com centenas de governantas ao longo dos anos, mas ela com certeza é a mais arrogante e desagradável.
— Por que meus tios a contrataram, afinal? — perguntou Sherlock. — Imagino que ela tenha apresentado boas referências de empregos anteriores.
— Se apresentou, nunca vi nenhuma.
— Sempre a vejo pela casa — disse ele. — Parada, sem fazer nada, só vigiando e ouvindo.
— Ela é assim mesmo — concordou a mulher. — Como um corvo, empoleirado em um galho esperando uma minhoca. — Seu rosto agora estava começando a ficar corado de novo. Ela fungou outra vez. — Assim que ela chegou, virou esta cozinha de cabeça para baixo. Levou tudo para o jardim e esfregou as paredes e o chão. Tudo bem, ela fez tudo sozinha. Fechou a porta e trabalhou durante um dia inteiro, foi sim. Disse que já esteve em outras casas que tinham ratos e camundongos, e que queria garantir que não tivesse nenhum aqui. Cara de pau! Como se eu fosse deixar algum rato entrar na minha cozinha!
— Ela é uma mulher estranha — concordou Sherlock.
— Fiz uns biscoitos hoje, mais cedo — confidenciou a cozinheira. — Quer alguns, para enganar o estômago até a hora do chá?
— Eu adoraria — respondeu ele, sorrindo. — Na verdade, ficaria feliz de pular o chá e só comer seus biscoitos.
— É bom ver que alguém gosta do que eu cozinho — disse a mulher, com um sorriso largo. Ela parecia mais alegre agora.
Depois de devorar três biscoitos, Sherlock deixou a cozinha. Ele não sabia se havia feito muito progresso, mas parecia certo que a Sra. Eglantine chantageara os tios dele para poder entrar na casa e que procurava por algo. Seriam os pratos de ouro mencionados em suas anotações? Sherlock imaginava que era possível, mas parecia improvável. Por que seus tios teriam pratos de ouro? Para que eles usariam esse tipo de coisa? Já fazia mais de um ano que Sherlock morava com os tios e nunca vira nenhum prato diferente dos usados no dia a dia e dos de porcelana fina, para os domingos e para quando havia visitas. Nenhum dos dois conjuntos tinha qualquer traço de ouro, nem sequer uma borda folheada.
De repente, Sherlock não conseguia encarar a perspectiva de permanecer em casa pelo restante do dia. Sentia-se oprimido como se usasse um casaco pesado. Precisava sair. Por alguns segundos, pensou em ir até a casa de Amyus Crowe – e Virginia –, mas achou que havia mais a ser feito em relação à Sra. Eglantine. Se ela estava em Farnham, comprando legumes e verduras mais frescos que os da cozinheira, então o menino talvez pudesse encontrá-la e observá-la escondido por algum tempo. Afinal, talvez os legumes fossem apenas uma desculpa. Talvez ela tivesse outro motivo para ir à cidade.
Sherlock saiu pela porta da frente e foi ao estábulo, onde ficava seu cavalo. Ele o considerava seu cavalo, embora na verdade o tivesse roubado do maligno barão Maupertuis, pouco depois de se mudar para a mansão Holmes. Felizmente, o barão não aparecera para recuperá-lo, e o cavalo parecia bastante satisfeito de ficar com alguém que cuidava dele e o levava para cavalgar com regularidade. Sherlock o batizara de Philadelphia, como uma espécie de brincadeira. O cavalo não parecia se incomodar.
Depois de selar Philadelphia da maneira como aprendera com o cavalariço que trabalhava para a família Holmes, Sherlock saiu a trote pelo portão da propriedade e seguiu pela estrada que levava a Farnham. Ao longo dos últimos meses ele aprendera a cavalgar bastante bem, desde aquela viagem turbulenta que fizera com o irmão à Rússia.
Enquanto o cavalo trotava calmamente por entre as árvores altas da floresta Alice Holt, Sherlock lembrou a si mesmo que aquela viagem tivera a ver com a misteriosa Câmara Paradol – a gangue criminosa internacional que também estivera envolvida nas tramas colossais do barão Maupertuis.
Não se ouvia falar deles desde que o plano de assassinar o chefe do serviço secreto russo e incriminar Mycroft, irmão de Sherlock, fracassara, mas Sherlock sabia que eles continuavam agindo em algum lugar. O menino às vezes perguntava a Mycroft sobre eles, mas o irmão alegava estar igualmente intrigado quanto às atividades do grupo. A única certeza era de que, em algum canto do mundo, eles estavam em atividade.
Sem que Sherlock se desse conta, a periferia de Farnham o cercou: os barracos com teto de palha que margeavam a estrada desde a mansão Holmes deram lugar a construções de tijolos vermelhos e telhas. Em vez de trotar até o centro e correr o risco de ser visto pela Sra. Eglantine, ele amarrou o cavalo em um estábulo que conhecia, na entrada da cidade, e pagou algumas moedas ao cavalariço para que desse comida e água ao animal. Seguiu o restante do caminho a pé.
Se a Sra. Eglantine falara a verdade sobre os legumes, então estaria no mercado. Sherlock seguiu na direção dele, à sombra de um edifício de dois andares cercado de colunas. A área do mercado estava abarrotada de barracas oferecendo todo tipo de comida, de frutas a ervilhas frescas, de carne defumada a frutos do mar.
Sherlock não via a Sra. Eglantine em lugar algum, mas notou Matty parado junto a uma barraca de legumes. Parecia estar esperando que algo caísse perto dele.
Matty viu Sherlock e acenou. O menino reparou que Matty voltou a olhar de relance para a barraca, por um instante fez uma expressão indecisa e, então, se aproximou de Sherlock.
— Esperando pelo almoço? — perguntou o menino.
— Não costumo separar a comida em “refeições” — admitiu Matty. — Como sempre que dá.
— Muito sábio. Você viu a Sra. Eglantine por aí?
— A governanta? — Matty estremeceu. — Tento ficar longe dela. Aquela mulher é do mal.
— Sim, mas você a viu?
Matty fez um gesto com a cabeça na direção de um comerciante vendendo trutas frescas dispostas no chão.
— Ela tava ali faz alguns minutos. Disse que o peixe tava muito pequeno.
— Você viu para que lado ela foi?
O menino deu de ombros.
— Desde que ela vá para longe de mim, não me interessa. Por quê? O que foi?
Sherlock pensou se devia contar a Matty sobre o confronto entre seu tio e a Sra. Eglantine, mas decidiu não falar nada. Era assunto particular da família – pelo menos por enquanto.
— Só preciso saber onde a Sra. Eglantine está — respondeu ele. — Acho que ela está planejando algo.
— Não deve ser muito difícil achar aquela mulher — disse Matty. — Ela se veste como se todo dia fosse domingo, e ainda por cima como se alguém tivesse morrido...
À medida que os meninos andavam pelo mercado, passando pelos vários vendedores, fregueses e curiosos que lotavam o lugar, Sherlock escutava fragmentos de conversas vindo de todos os lados.
“... e eu falei que, se ele voltasse sem aquilo, eu ia embora...”
“... você me deu sua palavra de que o negócio estava fechado, Bill...”
“... se eu vir você com aquele sujeito de novo, menina, vou lhe dar um tabefe tão forte que sua cabeça vai ficar girando por uma semana...”
Uma voz em particular chamou a atenção de Sherlock. Tinha sotaque americano. Ele reconheceu o sotaque de suas conversas com Amyus Crowe e do tempo que passara em Nova York. Virou a cabeça, achando que talvez fosse Crowe, mas o rosto que viu era mais jovem, liso e anguloso. O cabelo do homem estava preso em um rabo de cavalo apertado, e no lado direito da cabeça parecia faltar a orelha. Só o que o menino conseguia ver era que no lugar da orelha havia apenas uma cicatriz escura. As roupas estavam empoeiradas e surradas, e ele conversava com um sujeito louro de cabelo curto e rosto cheio de cicatrizes redondas, como se tivesse tido uma varíola grave.
— ... vai nos esfolar vivos e usar nossa pele para fazer chapéu — dizia o homem sem orelha. — Precisamos achar Crowe e a filha dele. Os dois são nossa única chance!
— Bom, sabemos o que vai acontecer conosco se não os encontrarmos. Você se lembra de Abner?
— Sim. — O rosto do homem de cabelo escuro se contorceu ante a lembrança desagradável. — Só fica olhando para a parede agora, depois do que o chefe fez com ele. É como se não tivesse mais nada dentro da cabeça, só o necessário para respirar e comer...
Os sujeitos andavam em uma direção, Sherlock e Matty em outra, e o menino só conseguiu escutar isso antes que os dois se afastassem demais. Mas parecia sério. Sherlock decidiu que iria ver o Sr. Crowe assim que possível. O americano precisava saber que alguém o estava procurando.
Quando terminou de pensar no assunto, ele e Matty já haviam chegado ao outro lado do mercado.
— Espere aqui um minuto — disse Matty.
Ele saiu correndo, indo em direção ao edifício de dois andares com colunas. Matty desapareceu nas sombras, e Sherlock o perdeu de vista. Estava prestes a se virar e observar a multidão à procura de uma mulher de preto quando a cabeça do amigo apareceu acima do parapeito, correndo pelo alto do edifício. Ele acenou para Sherlock, que acenou também, impressionado com a rapidez com que Matty subira ali. O barqueiro magricela passeou o olhar aguçado pela multidão. Em poucos segundos já apontava para algo.
Sherlock perguntou sem emitir som, esperando que Matty entendesse as palavras com sua habilidade de ler lábios: É a Sra. Eglantine?
Bolo de carne!, respondeu Matty. Sherlock não sabia se ele estava fazendo algum som, mas o movimento de seus lábios era claro o bastante. Brincadeira!, gesticulou ele. Ela está ali!
Sherlock fez um sinal de positivo com o polegar, e a cabeça de Matty sumiu do parapeito.
O menino se enfiou na multidão de compradores e comerciantes, seguindo na direção para a qual Matty apontara. Ele observou a cabeça das pessoas a sua frente, procurando o peculiar penteado repuxado da Sra. Eglantine. Depois de alguns instantes, vira praticamente todas as variações possíveis de cabelo, cabeça e chapéu: escuro, ruivo, louro, grisalho, branco e careca; cacheado, rabo de cavalo e aparado; cabeças descobertas, toucas, cachecóis, bonés, chapéus-coco... tudo menos uma mulher de cabelo preto preso tão apertado que parecia pintado na cabeça. E enfim ele a viu. A governanta estava em uma das últimas barracas, de costas para o menino. Conversava com um homem baixo de cabelo comprido e oleoso penteado para trás nas laterais e dividido no meio. O sujeito tinha a pele marcada, e seu casaco estava coberto de sujeira e gordura nos ombros, nos cotovelos e punhos. Não era o tipo de homem com quem Sherlock imaginaria a Sra. Eglantine tendo algum tipo de relação.
O menino se aproximou, tomando o cuidado de olhar para outro lado a fim de que eles não percebessem que alguém os ouvia.
Ao chegar mais perto, escutou o homem dizer:
— O tempo tá andando, querida, e ainda não vi nenhum sinal daquele negócio. Você tem certeza de que tá na casa?
— Só pode estar lá — respondeu a Sra. Eglantine, com sua voz calculada e fria. — E você não precisa me lembrar há quanto tempo eu trabalho naquele lugar.
— Tem algo que eu possa fazer para acelerar as coisas? — perguntou o homem.
— Você pode se livrar do Sherlock, aquele pivete — retrucou ela. — Ele vive bisbilhotando por aí e é esperto demais para o meu gosto.
— Quer um sumiço temporário ou do tipo permanente?
— Tão permanente — sibilou a mulher — que quero que ele seja picotado e espalhado por uma área tão grande que ninguém jamais conseguirá encontrar todos os pedaços.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)