7 de agosto de 2017

Capítulo dois

SHERLOCK CHEGOU A FARNHAM NAQUELA tarde sob uma chuva fina que empoçava as ruas e escorria pela sua nuca, por mais que ele levantasse ou dobrasse a gola do casaco. Ele ia montado no cavalo que “libertara” do barão Maupertuis – o animal para o qual ainda precisava encontrar um nome, se é que um dia aquilo aconteceria.
Na verdade, não conseguia entender por que as pessoas davam nomes aos animais. Os bichos não se importavam com aquilo, não fazia diferença se tinham nomes ou números, ou qualquer coisa que os identificasse, e implicava um nível de empatia e igualdade que não deveria existir. Animais eram animais e humanos eram humanos.
Enquanto o cavalo seguia pelas ruas molhadas na direção do mercado da cidade, Sherlock descobriu-se refletindo sobre a estranha diferença entre animais de estimação e os outros. Se era possível comer bifes de vaca, por que ninguém comia cavalos? Não parecia haver uma razão lógica para não fazê-lo. Até onde sabia, a carne de cavalo não era venenosa ou coisa parecida. Da mesma forma, se cachorros e gatos não constavam no cardápio, por que coelhos não estavam a salvo dos caldeirões? Não fazia sentido. Alguém estabelecera limites arbitrários no reino animal, traçando linhas como se dissesse: “Tudo bem, os que estão do lado de cá podem ser comidos à vontade, mas os do outro lado devem ser levados para passear, afagados, cuidados com carinho e enterrados quando morrem.”
Ele ia se perguntando, enquanto a água se infiltrava por todas as brechas de suas roupas, se outros países tinham as mesmas regras ilógicas. Havia lugares no mundo cujos habitantes comiam cavalos e cachorros, mas talvez considerassem as vacas sagradas? Se havia, aquilo indicava que todas as normas eram subjetivas, se não aleatórias; se todos os países adotavam as mesmas distinções, porém, então podia haver algo nos humanos que os levava a considerar vacas como alimento e cavalos como amigos.
Ele afagou distraidamente o pescoço do cavalo em que estava montado. Seria capaz de comê-lo um dia? Poderia sentar-se para saborear um filé suculento, sabendo que poucas horas antes estivera cavalgando o animal de onde a carne viera? De um ponto de vista lógico, não conseguia encontrar nenhuma justificativa para não fazê-lo, mas, na prática, era capaz de detectar a repulsa provocada pela ideia. Talvez se estivesse morrendo de fome. Talvez se ele e o cavalo fossem surpreendidos por uma nevasca, e sua única chance de sobrevivência fosse cozinhar e comer a carne do cavalo. Aquilo faria sentido.
Enquanto o animal trotava pela periferia de Farnham, um pensamento perturbador passou pela cabeça de Sherlock. Se acreditava que poderia, em tese, comer seu cavalo, por que não os amigos? Se ele e Matty fossem surpreendidos por uma nevasca...
Pensar nisso foi o suficiente para deixá-lo enjoado, e ele afastou rapidamente a ideia, mas restava ainda uma dúvida persistente. É lógico que há uma escala progressiva entre, por exemplo, insetos e humanos, em termos de inteligência e desenvolvimento geral. Peixes e sapos são mais próximos dos insetos, enquanto cachorros e gatos ficam mais perto dos humanos. Não fora aquilo que o Sr. Charles Darwin escrevera recentemente em seu livro A Origem das Espécies – um livro sobre o qual ouvira seu tio Sherrinford reclamar à mesa do jantar algumas semanas antes? Humanos eram apenas outro tipo de animal, de acordo com Darwin, sem nada de especial, nenhuma característica conferida por Deus. Mas, se excluirmos a religião da discussão, se aceitarmos que humanos são apenas animais que conseguem produzir ferramentas e falar, então por que não é permitido comer pessoas como comemos vacas?
Eram muitas perguntas, e a lógica não parecia ajudar muito. A lógica dizia a ele que, se isso era permitido, aquilo também devia ser, mas instintivamente sabia que havia uma diferença. Havia limites. O problema era não saber de onde vinham ou como refletir sobre eles de forma apropriada.
E tudo porque não dera um nome ao cavalo.
— Vou chamar você de Philadelphia — murmurou ele, afagando novamente o pescoço do animal.
Sherlock sorriu. Nomes possuíam muitos significados. Virginia – a filha de Amyus Crowe – dera à sua égua o nome de Sandia, como uma cadeia de montanhas nos Estados Unidos. Então, podia dar ao seu cavalo o nome de uma cidade americana também.
— Está decidido, Philadelphia — declarou ele.
O cavalo relinchou como se entendesse e aprovasse. Mas aquilo, é claro, era apenas sua imaginação.
Agora estavam no centro da cidade, e Sherlock deixou o cavalo – Philadelphia – amarrado ao lado do mercado de grãos e seguiu a pé, passando por baixo da colunata de tijolos para procurar Matty. Agora conhecia os hábitos dele e sabia onde encontrá-lo a qualquer hora do dia ou da noite. O menino parecia ter estabelecido uma rotina. Em vez de viajar em seu barquinho, à procura de novas cidades e oportunidades, ele se estabelecera em Farnham, pelo menos por ora. Sherlock tinha a secreta esperança de o motivo para aquela decisão ser ele e a amizade entre os dois. Gostava de Matty e sentiria falta do amigo quando ele fosse embora – se fosse embora.
Matty estava sentado à margem do rio, aparentemente olhando para o nada, mas Sherlock sabia que ele estava à espera da chegada da balsa vinda da costa que em geral transportava caixas cheias de peixes cobertos de gelo picado. O garoto descobriu que, se uma das caixas caísse e quebrasse, conseguia roubar um ou dois peixes antes que alguém o impedisse. Sherlock às vezes se perguntava se Matty não se colocava no caminho dos carregadores de propósito, fazendo-os tropeçar e derrubar as caixas, mas nunca perguntou a ele. Era melhor não saber.
— Oi — cumprimentou Matty. — Estava aqui pensando se você ia aparecer.
— Vou a Londres amanhã — disse Sherlock. Havia planejado jogar um pouco de conversa fora antes, descobrir onde Matty estivera e o que fizera recentemente, mas era inútil. Não era bom em jogar conversa fora. — Preciso ir à estação comprar as passagens.
— Boa sorte — resmungou Matty.
— Você podia ir também — sugeriu Sherlock, não muito seguro, sem saber se o convite de Mycroft poderia incluí-lo também.
— Para a estação? Obrigado, mas já fui.
— Para Londres! — corrigiu Sherlock, irritado.
— Não vai me levar de volta àquele lugar cheio de fumaça. — Matty balançou a cabeça. — Ainda lembro o que aconteceu na última vez. Depois que você e Ginnie foram raptados por aquele capanga do barão Maupertuis, tive que voltar para Farnham com o pai dela. Ele tentou me ensinar a ler! — A voz dele ganhou um tom ofendido. — Eu disse que não queria ler, mas o homem insistia em me falar sobre como “antes de só se usa m, nunca n”, e outros trecos. E depois tivemos que ir de navio até a França para procurar vocês dois, e ele insistia nessa história. Não desistia nunca.
— Acho que ele gosta de ensinar, só isso — opinou Sherlock. — E você era o único aluno disponível.
— Pois bem, não vou cometer esse erro novamente.
— Você tem visto Virginia? — perguntou Sherlock.
— Não a vejo há alguns dias.
— Quer ir comigo procurá-la?
Matty balançou a cabeça e continuou olhando para o canal.
— Não, prefiro comer.
— Posso comprar um empadão para você — ofereceu Sherlock.
Matty pareceu tentado, mas balançou novamente a cabeça.
— Você não tá por perto o tempo todo — disse. — Não posso contar com outra pessoa para me dar comida. Tenho que me arranjar sozinho, e para isso preciso continuar esperto. Tenho que conseguir pegar uma couve-flor ou um pedaço de presunto sem ninguém notar.
— Não tem problema — insistiu Sherlock em voz baixa. — Não é caridade, é amizade.
— Parece caridade — murmurou Matty. — E eu não aceito isso. Nunca.
Sherlock assentiu.
— Entendo. — Ele olhou em volta. — Vou até a estação. Vejo você mais tarde?
— Depende de quando o almoço aparecer — respondeu Matty, rabugento.
Sherlock se afastou, sem saber ao certo para onde ia. Estava tenso. Queria ir logo para Londres, mas sabia que tinha de esperar até o dia seguinte. Mycroft havia sido bem claro.
Ele caminhou pela High Street por um tempo, passando por tavernas que já estavam bem movimentadas embora fosse pouco depois de meio-dia, por padarias com vitrines cheias de pães trançados e cobertos por sementes, por lojas que vendiam vegetais e frutas, ou ferramentas e grãos, ou roupas feitas do tecido mais áspero ou do mais delicado. Sherlock andava por entre os inúmeros habitantes locais que compravam, ou vendiam, ou apenas se reuniam para conversar e passar o tempo.
— Sherlock! — chamou uma voz.
Ele se virou, surpreso. Por um momento, não reconheceu o homem alto e magro, com longos cabelos negros, que sorria para ele do outro lado da rua. Ou melhor, sabia que o conhecia, mas não se lembrava de onde. Seus olhos analisaram as roupas e as mãos, como Amyus Crowe havia ensinado, à procura de sinais que pudessem indicar sua profissão, mas, com exceção de uma área desgastada no ombro esquerdo do paletó e do pó alaranjado sob suas unhas, não havia outras pistas.
Exceto...
— Sr. Stone! — gritou Sherlock, no mesmo instante em que o cérebro forneceu a informação de que o homem era um violinista sem muita sorte, a julgar pelo estado de suas roupas.
O sorriso de Rufus Stone tornou-se mais largo, revelando o dente de ouro que Sherlock lembrava ter visto nas viagens de ida e volta a Nova York, quando o homem lhe dera aulas de violino para passar o tempo.
— Já disse várias vezes — gritou Stone enquanto começava a atravessar a rua, desviando das carruagens e carroças que passavam e evitando pisar nos montes de esterco deixados pelos cavalos — que só os empregados me chamam de “Sr. Stone”, e nos últimos meses há menos empregados que dentes no bico de uma galinha.
— O que aconteceu com você depois que aportamos em Southampton?
Sherlock tentou banir da voz a nota de superioridade e formular a pergunta como se fosse qualquer outra, mas ele havia imaginado que o violinista seguiria para Farnham depois que atracassem e se instalaria como tutor.
Stone estremeceu.
— Ah, preciso fazer uma confissão. Eu estava decidido a me instalar nesta área do mundo, mas em vez disso me desviei e segui para Salisbury, onde passei algumas semanas. Acho que basta dizer que conheci uma atriz, e que havia uma vaga na orquestra do teatro de Salisbury, em que eu poderia olhar aquele lindo rosto todas as noites enquanto tocava e vê-la atuar com tanto sentimento.
— O que aconteceu? — Sherlock quis saber.
— Ela resolveu compartilhar esse sentimento todo com o ator principal da peça, é claro — respondeu ele, com uma careta. — Como sempre fazem, é claro, apoiadas pelos olhares de admiração dos músicos no fosso. Posteriormente descobri que quase todos entraram na orquestra por causa dela, e que recebíamos salários inferiores à média pelo privilégio de estar ali. — Ele soltou um suspiro bem teatral. — Tudo bem! Vivendo e aprendendo. Então... acha que ainda há boas chances para um professor de violino nesta região de Hampshire?
— Creio que sim — respondeu Sherlock. — Há boas escolas por aqui, e algumas famílias bem importantes, também.
— E você? — perguntou Stone. — Tem praticado?
— Estive procurando um violino barato — admitiu Sherlock. — O que me faz pensar... Onde está o seu?
— Tenho um lugar seguro perto daqui. Deixei minhas posses, poucas que são, e o violino no quarto. O que me faz lembrar que, vim fazer um favor à dona do estabelecimento e preciso garantir sua simpatia. Se não levar uma galinha dentro de uma hora, suspeito que vou parar na rua de novo. Diga-me, onde posso encontrá-lo para continuarmos com as aulas?
— Na mansão Holmes — respondeu Sherlock. — Preciso de um ou dois dias para discutir esse assunto com meu irmão e meu tio, mas acho que vão concordar.
Stone sorriu e estendeu a mão.
— É um prazer revê-lo, Sr. Holmes — disse ao apertar a mão de Sherlock. Sua mão estava quente e seca, e Sherlock notou que ele não aplicava muita força no cumprimento. Talvez temesse machucar os dedos. — Vejo você em breve.
Ele se virou e, momentos depois, desapareceu na multidão.
Muitíssimo satisfeito por ter reencontrado Rufus Stone, Sherlock se afastou para buscar seu cavalo.

A estação ficava nos arredores da cidade. Não havia trens com partidas previstas para o início da tarde, por isso o lugar estava deserto quando ele desmontou do cavalo e se dirigiu à bilheteria.
— Duas passagens para Londres para amanhã — pediu ele ao idoso atrás do balcão. — Trem das nove e meia da manhã. Um adulto e uma criança, segunda classe.
O vendedor levantou uma sobrancelha.
— E você pode pagar por duas passagens de segunda classe, é? — resmungou ele. — Ou vai me dizer que paga amanhã, depois de receber sua mesada?
O garoto colocou um punhado de moedas no balcão. Mycroft sempre lhe enviava dinheiro pelo correio e, como não gastava muito, Sherlock tinha conseguido economizar uma quantia bem razoável.
Seu irmão não dera nenhuma orientação sobre como ele deveria pagar pelas passagens nem enviara dinheiro extra no envelope, por isso Sherlock presumiu que Mycroft esperava que ele pagasse com as próprias economias. Mais um pequeno passo rumo às responsabilidades da vida adulta.
— Duas passagens — repetiu o vendedor, carrancudo. — Um adulto e uma criança, segunda classe. — Ele passou dois tíquetes pelo balcão, junto com algumas moedas. — E o troco.
— Obrigado.
Sherlock guardou as passagens em um bolso e o dinheiro no outro, e se virou. Foi então que viu alguém com roupas escuras entrando em uma viela paralela à estação. Parecia uma mulher.
Um arrepio percorreu suas costas. Será que a Sra. Eglantine o estava seguindo, espionando-o? Ele a humilhara a ponto de despertar na mulher o desejo de vingança? Sherlock desceu rapidamente a ladeira na direção do hotel, seguindo pela rua principal em vez de atravessar a viela, caso houvesse alguém esperando por ele ali, mas, quando passou pela esquina do prédio, viu que o lugar estava deserto. Sherlock examinou as paredes, mas não encontrou portas por onde a pessoa pudesse ter passado. Era como se houvesse desaparecido.
Será que tinha sido sua imaginação? O cérebro projetara a imagem do nada? Ou havia uma explicação mais simples, como uma moradora usando um atalho para chegar mais depressa a qualquer que fosse seu destino?
Sherlock entrou na viela e agachou-se para observar o chão. Havia pegadas se afastando. Bico fino e calcanhares pequenos, a julgar pelas impressões que via na lama. Não viu marcas de remendos ou buracos nos rastros das solas, o que indicava que os sapatos eram novos ou bem conservados, ou ambos.
Ele continuou analisando o solo e caminhou mais um pouco na viela, mas não havia nada além daquilo para ver.
Intrigado, ele montou em Philadelphia e partiu para a casa de Amyus Crowe com a intenção de entregar a ele a passagem.
Quando chegou, Sherlock notou que havia movimento no interior do chalé. A égua de Virginia estava na área cercada ao lado da casa, pastando tranquilamente. Ele se sentiu mais relaxado ao desmontar e dirigir-se à porta da frente.
Virginia não estava na sala, mas Amyus Crowe lia um livro sentado em uma poltrona. Ele levantou os olhos da página quando Sherlock entrou, olhando para o menino por cima dos óculos de leitura.
— Comprou as passagens?
— Sim. — Sherlock fez uma pausa. — Encontrei Rufus Stone — acrescentou. — Ele estava em Farnham.
— Evidentemente. — Crowe comprimiu os lábios. — Estranho que ele tenha aparecido aqui, exatamente onde você mora.
— Eu disse a ele onde moro. E sugeri que viesse a Farnham para dar aulas de violino.
— Muito generoso de sua parte — reconheceu Crowe, seus olhos azul-claros estudando Sherlock. — Posso compreender que proveito você tiraria disso, mas não vejo qual é a vantagem para o Sr. Stone.
— Ele tem de morar em algum lugar — respondeu Sherlock, desconfortável com o evidente descontentamento de Crowe por saber que Rufus Stone estava na região. — E é melhor que ele se instale onde haja pessoas que queiram aprender a tocar violino.
— Como você.
— Como eu.
Crowe deixou o livro sobre as pernas e tirou os óculos.
— Música é uma distração, Sherlock — disse ele em tom ameno. — Não é um bom passatempo para um homem que está tentando preencher a mente com coisas úteis. Pense quanto espaço do seu cérebro será ocupado com o aprendizado de todas as notas de uma música qualquer. Esse espaço poderia ser usado para memorizar as pegadas deixadas por animais, ou o formato da orelha das pessoas, ou os rastros deixados em suas mãos e roupas pelas atividades que praticaram ao longo do dia. Nada de música, filho. Música não tem utilidade para ninguém.
— Não concordo — disse Sherlock, sentindo-se estranhamente desapontado pela atitude desdenhosa de Amyus Crowe com relação a uma coisa pela qual ele se interessava cada vez mais. Lembrou-se dos pensamentos que tivera quando estava a caminho da cidade, sobre as diferenças, ou as similaridades, entre animais e humanos. — Sim, eu poderia memorizar todas essas coisas... poderia aprender quais cogumelos são comestíveis e determinar as condições do casamento de um homem pelas manchas em seu chapéu, mas para quê? Para que serviria tudo isso? Apenas me transformaria em uma espécie de superpredador capaz de rastrear minha presa seguindo sinais quase invisíveis. Sem dúvida, isso deve significar alguma coisa? Imagino que a vida tenha algo mais do que ser apenas uma espécie de animal melhor que as outras.
— E a música é o que nos separa dos animais? — perguntou Crowe, com um olhar cauteloso.
— É uma das coisas.
Crowe deu de ombros.
— Nunca tive muito tempo para isso. Para mim, ser humano significa cuidar das pessoas ao meu redor e de mim mesmo, e tentar garantir que as pessoas cuidem umas das outras. Se isso me faz ser só mais um animal, então é exatamente o que sou.
— Mas para que serve tudo isso? — Sherlock se ouviu perguntar. — Se não há nada que nos faça sentir... — ele se esforçou para escolher a palavra certa — elevados, qual é o propósito de fazer qualquer coisa?
— Sobrevivência — respondeu Crowe simplesmente. — Vivemos para sobreviver.
— E é isso? — perguntou Sherlock, desapontado. — Seguimos em frente para poder seguir em frente? Vivemos para sobreviver e sobrevivemos para viver?
— É mais ou menos por aí — confirmou Crowe. — Como filosofia não fica muito bonito, mas tem a vantagem de não enrolar e ser basicamente inegável. Agora, vai ficar para almoçar ou vai voltar para o seu pessoal?
Sherlock reprimiu os argumentos que estivera reunindo, decepcionado por Crowe ter mudado de assunto tão repentinamente, mas feliz por não ter de entrar em um confronto com o tutor. Gostava de Amyus Crowe e não queria prejudicar o relacionamento com ele por um assunto tão simples quanto aulas de música.
— Virginia está em casa?
— Está lá atrás, pegando água para Sandia. Vá procurá-la, se quiser.
Quando Sherlock virou-se para a porta, a voz de Crowe ecoou firme pela sala.
— Talvez seja de seu interesse saber que Rufus Stone é também o nome de um vilarejo perto de Southampton. Pode ser coincidência... ou talvez ele tenha precisado usar um nome qualquer em algum momento e acabou se contentando com o primeiro que passou pela cabeça, porque o viu em uma placa na estrada em algum lugar. Só um comentário.
Um comentário que Sherlock considerou inquietante. Achou também que havia sido mesquinho da parte de Amyus Crowe tocar nesse assunto.
Ele encontrou Virginia fora do chalé. Ela havia levado um balde com água para Sandia, que bebia com entusiasmo.
— O que seu pai tem contra Rufus Stone? — perguntou ele.
— E olá para você também. — Virginia o olhou de soslaio. — Está mesmo dizendo que não sabe?
— Realmente não sei — admitiu Sherlock.
Ela balançou a cabeça.
— Já disse isso antes e vou repetir: para um garoto esperto, você às vezes consegue ser bem estúpido.
— Mas não faz sentido! — protestou ele. — Pensei que seu pai ficaria contente por eu ter novos amigos e novos interesses.
Virginia o encarou e pôs as mãos na cintura.
— Vou lhe fazer uma pergunta: se seu pai ainda estivesse neste país, e não na Índia, o que ele pensaria do meu pai? Eles se dariam bem?
Sherlock franziu o cenho e pensou um pouco.
— Duvido — respondeu finalmente. — Eles são de classes sociais diferentes, para começar, e...
Sherlock parou, sem saber como traduzir o pensamento em palavras.
— E o quê? — pressionou Virginia.
— E, de certa forma, seu pai está fazendo o que meu pai faria se estivesse aqui. — Era estranho fazer essa afirmação. — Ensinando coisas para mim, levando-me a lugares, dando-me conselhos.
— Certo. Ele está agindo como um pai para você.
Sherlock lançou a ela um sorriso inseguro.
— E você não se incomoda com isso?
Virginia também sorriu.
— É bom ter você por perto. — Ela desviou os olhos por um instante antes de encará-lo outra vez. — E tem razão, seu pai ficaria enciumado se você passasse tanto tempo com alguém que o tratasse como um filho. Especialmente se essa pessoa ensinasse a você coisas que ele não poderia ensinar.
A luz da compreensão pareceu explodir como uma estrela na cabeça de Sherlock.
— E seu pai está com ciúme de Rufus Stone porque acha que Rufus está agindo como um pai para mim? — Esse pensamento era tão grandioso, tão impressionante, que parecia preencher sua mente. — Mas isso é uma estupidez!
— Por quê?
— Porque Rufus não tem nenhuma semelhança com um pai. Ele parece mais um irmão bem mais velho, ou um tio ainda jovem, ou algo assim. Além do mais, estudar violino com Rufus não significa que aprecio menos as aulas com seu pai. São duas coisas completamente distintas. Isso é... ilógico!
Ela o fitou e balançou a cabeça.
— As emoções não são lógicas, Sherlock. Não seguem regras.
— Então não gosto de emoções — declarou ele, com rebeldia. — Elas só causam confusão e sofrimento.
As palavras pairaram no ar entre eles por um longo instante, vibrando como um sino.
— Algumas emoções valem a pena — disse ela com a voz suave enquanto se virava. Depois se abaixou e pegou o balde. — Pelo menos eu acho que sim, mesmo que você pense diferente.
Virginia se afastou, seguindo para o terreno atrás da casa. Sherlock a observou até ela desaparecer atrás do chalé. Tinha a sensação de que algo importante acabara de acontecer, mas não sabia ao certo o quê.
Depois de um tempo, foi buscar seu cavalo. Ainda nem havia contado a Virginia que batizara o animal de Philadelphia, pensou desanimado. Talvez não fosse muito bom com emoções, mas sabia o suficiente para suspeitar que esse não era o melhor momento para voltar e contar a ela.
Ele voltou à mansão Holmes, a cabeça girando com ideias sobre Amyus Crowe, Virginia, Rufus Stone e seu pai, agora tão longe. Não gostava dessas conjecturas. Eram complicadas, adultas e ilógicas. Emocionais.
Quando chegou, Sherlock foi procurar seu tio Sherrinford e contou a ele sobre a carta de Mycroft. Não pediu permissão para ir a Londres, mas também não disse com todas as letras que iria independentemente do que o tio dissesse. Apenas deixou a impressão de que já era um fato consumado. Felizmente, o tio estava ocupado redigindo mais um dos sermões religiosos que vendia a vigários de todo o país por alguns centavos, e sua distração significava que não se importava em deixar Sherlock fazer o que quisesse, desde que fosse o que Mycroft quisesse também.
Na manhã seguinte, quando acordou, o sol brilhava pouco acima da copa das árvores e o céu estava completamente azul. As preocupações da noite anterior pareciam sem importância sob aquele sol radiante. Ele se vestiu depressa e, depois de um desjejum apressado com mingau e torradas, perguntou se uma das carroças poderia levá-lo até a estação. Era melhor do que deixar o cavalo amarrado por horas enquanto estivesse em Londres.
Amyus Crowe esperava por ele na plataforma, impressionante e quase monumental em seu terno e chapéu brancos. Ele assentiu para Sherlock.
— Acho que ontem à tarde nos despedimos de maneira meio tensa — observou ele. — Peço desculpas se pareci um pouco ríspido e irascível.
— Está tudo bem — respondeu Sherlock. — Se você acredita em alguma coisa, é melhor falar o que pensa. Não fazer isso é hipocrisia.
Crowe pigarreou.
— A mãe de Ginnie gostava de ópera — disse ele em voz baixa. — Adorava um alemão chamado Wagner. Depois que ela morreu, nunca mais consegui ouvir uma orquestra nem a voz de um cantor.
— Entendo — disse Sherlock baixinho.
— Então, você é mais sábio que eu.
Felizmente, o trem chegou antes que a conversa pudesse ficar ainda mais desconfortável.
Os dois viajaram sozinhos em um compartimento bastante razoável. Os assentos eram estofados e confortáveis. A fumaça da locomotiva passava pela janela como se fosse uma nuvem, e Sherlock vislumbrava a intervalos a área rural que passava do lado de fora.
Um coletor verificou os bilhetes pouco depois de Woking. Quando ele saiu do compartimento e fechou a porta de correr, Crowe indagou:
— O que achou do homem que acabou de sair?
Sherlock sabia como a mente de Crowe funcionava, por isso já esperava uma pergunta como essa.
— Os sapatos dele foram engraxados recentemente — disse —, e a camisa foi passada. Ou ele tem uma criada ou é casado, e como não acredito que um coletor de passagens tenha dinheiro para manter uma criada, presumo que seja casado.
— Muito bem — aprovou Crowe.
— A esposa é mais velha que ele — arriscou Sherlock.
— Como chegou a essa conclusão?
— Ele tem trinta e poucos anos, mas usa colarinhos antiquados. Como os de meu tio. E o colarinho não está puído, então não é como se o usasse há anos. A pessoa que cuida de suas roupas deve preferir um estilo antigo, logo, se é a esposa dele que cuida da casa, deve ser mais velha que ele.
— Você se esqueceu de considerar a possibilidade de ele ser casado com uma mulher mais jovem educada de forma antiquada, mas sua explicação é a mais provável — admitiu Crowe.
— E ele é meio cego do olho direito — concluiu Sherlock, triunfante.
Crowe assentiu.
— Realmente. Como percebeu?
— Ele barbeou o lado esquerdo do rosto e do pescoço com cuidado, mas o lado direito ainda tem alguns pelos visíveis. Deduzi que ele tem dificuldade para enxergar com o olho direito.
— Excelente. Está desenvolvendo muito bem a habilidade de observação.
— Perdi alguma coisa? — perguntou Sherlock, sorrindo.
Crowe deu de ombros.
— Várias coisas, na verdade. O homem já foi casado antes, mas a esposa morreu. Casou novamente, mas não tem filhos do casamento atual, o que perturba a esposa. Ah, e acredito que ele esteja desviando dinheiro da companhia ferroviária, mas isso já é um palpite.
Sherlock não conteve o riso.
— De onde tirou tudo isso?
— Prática — respondeu Crowe, sorrindo. — Isso e talento natural. Um dia você também vai conseguir.
Sherlock balançou a cabeça.
— Duvido — disse, com uma gargalhada. — Duvido muito.

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