18 de agosto de 2017

Capítulo dezessete

VOLTARAM PARA CASA NO DIA SEGUINTE. Sherlock passou a maior parte da viagem dormindo. Estava mental e fisicamente exausto. Todos os outros pareciam pouco dispostos a conversar. Nas poucas ocasiões em que a mente de Sherlock emergia das profundezas do sono, ele via que seus amigos também estavam dormindo, lendo jornal ou apenas olhando a paisagem passar pela janela, com uma expressão melancólica. Matty saiu correndo do trem quando chegaram a Newcastle e voltou quando a locomotiva estava prestes a partir, trazendo um saco cheio de pãezinhos. Foi o maior acontecimento da viagem.
Quando chegaram a Farnham, despediram-se enquanto, em volta deles, passageiros desembarcavam e carregadores tiravam caixas e engradados do trem.
— Vai ficar por aqui? — perguntou Rufus a Crowe, expressando a dúvida que Sherlock não tivera coragem de expressar.
— Não temos motivo para ir a lugar algum agora — respondeu Crowe. Ele envolvia os ombros de Virginia com o braço esquerdo de forma protetora. Ela parecia pálida. — Não precisamos mais fugir, e não temos por que voltar para nosso país. — Ele olhou para Virginia, e então para Sherlock. — Na verdade, temos bons motivos para ficar. Desde que o chalé ainda esteja inteiro e ninguém o tenha ocupado, acho que ainda vamos nos ver bastante.
— Acredito que falo por todos nós — respondeu Stone — quando digo que estou feliz. A vida seria muito menos interessante sem você por perto, embora eu deva reconhecer que seria também muito mais segura.
Crowe estendeu a mão direita para Stone.
— Vocês nos ajudaram quando precisamos. Para mim, essa é a única definição de amizade que importa. Obrigado.
Pego de surpresa, Stone apertou a mão de Crowe. Fez uma careta ao sentir a pressão do aperto de Crowe em seus dedos ainda sensíveis.
— Eu diria que foi um grande prazer, Sr. Crowe, mas, na verdade, não foi; e eu diria que você não deve hesitar em nos chamar de novo quando precisar de ajuda, mas espero sinceramente que dispense a oportunidade. — Ele sorriu, para indicar que não estava falando sério. — No entanto, independentemente disso... não tem de quê.
Crowe então apertou a mão de Matty.
— Rapaz, você é corajoso e esperto. Com os seus instintos, e o cérebro de Sherlock, vocês são uma dupla imbatível. Obrigado.
— De nada, eu acho — disse Matty, sem graça.
Ele não estava acostumado a elogios nem a ser o centro das atenções.
Crowe se virou para Sherlock. Olhou para ele por um bom tempo e então balançou a cabeça.
— Sherlock, sempre que acho que o conheço, você dá um jeito de me surpreender. Já não sei mais qual de nós é o aluno e qual é o professor. Desconfio que agora seja uma parceria entre iguais, mas não acho essa situação nada desagradável. Não estou velho demais para aprender. — Ele hesitou e engoliu em seco. — O fato é que, se não fosse você, Virginia e eu estaríamos mortos ou ainda em fuga. Estou em dívida, mais do que posso expressar.
Sherlock desviou o olhar, observando a cena agitada no átrio da estação.
— Não gosto de mudanças — murmurou ele depois de um tempo. — Gosto que tudo na minha vida permaneça do mesmo jeito, e preciso saber o lugar de cada coisa. Isso vale tanto para objetos quanto para pessoas.
— Bom, rapaz, você sabe onde nós estamos. Não deixe de nos visitar.
Crowe tirou o braço de sobre os ombros da filha, pronto para ir para casa, mas Virginia se aproximou de Sherlock.
— Obrigada — disse apenas, e o beijou na boca.
Antes que Sherlock pudesse ter qualquer reação além de ficar vermelho, ela já se havia afastado e agora caminhava de braço dado com o pai.
Na estação, o apito do trem soou. Estava pronto para partir.
— Acho — disse Rufus Stone, rompendo o silêncio pesado — que preciso de uma boa dose de rum e uma faixa impregnada de unguento para os dedos. Ou uma boa dose de unguento e uma faixa impregnada de rum para os dedos. Tanto faz. O rum das tavernas de Farnham tem gosto de unguento mesmo. — Ele inclinou a cabeça e olhou para Sherlock. — Não precisamos ter pressa para voltarmos às nossas aulas de violino, tudo bem? Desconfio que seus dedos serão muito mais ágeis que os meus por algum tempo, e detesto passar vergonha.
Olhando para Matty, Rufus ergueu um dedo à testa e fez uma saudação.
— Até a próxima, Sr. Arnatt.
Stone saiu andando, alegre. Sherlock ficou vendo-o se afastar. O menino sabia que aquelas despedidas deviam ter lhe provocado algum sentimento, mas seus lábios ainda formigavam com o beijo de Virginia.
— Vejo você amanhã? — perguntou Matty.
— Acho que sim — respondeu Sherlock. — Agora só consigo pensar em dormir, e muito.
Matty olhou os engradados que haviam sido descarregados do trem.
— Parece que tem alguns petiscos bem bons ali — disse ele. — Acho que vou seguir aqueles engradados por um tempo, só para o caso de acontecer um acidente e um deles se quebrar.
Sherlock sorriu. Matty era irrefreável. Ele sobreviveria, não importava o que acontecesse. Na verdade, Sherlock não ficaria surpreso se, dali a quinze ou vinte anos, algum Matthew Arnatt fosse um empresário extremamente bem-sucedido com atividades pelo país inteiro. Mas ele ainda roubaria salgados de barracas de feira, só para não perder a prática; disso Sherlock tinha certeza.
— As pessoas acham que existe uma linha clara entre ações legais e ilegais — disse ele, baixinho. — Acho que, se aprendi algo desde que vim para Farnham, foi que essa linha não existe. Há um monte de cinza entre o branco de uma ponta e o preto da outra. Só precisamos tomar cuidado com o lugar onde pisamos.
— Desde que eu esteja mais perto do lado branco do que do preto, provavelmente vou ficar bem — respondeu Matty.
Ele abriu um sorriso de repente, e então se virou e saiu correndo.
Sherlock permaneceu ali por um instante, esperando que algo acontecesse. Não sabia bem o que poderia ser, mas tinha a impressão de que a tempestade fizera apenas uma breve pausa, mas não terminara. Depois de um tempo, como ninguém veio falar com ele nem houve qualquer acontecimento digno de nota à sua volta, ele foi embora, sentindo-se um tanto esvaziado.
Voltou à mansão Holmes de carona, na carruagem de um fazendeiro que passava. Saltou diante dos portões e andou pela pista de acesso até a porta principal, carregando sua mala de roupas e artigos de higiene.
A porta estava destrancada; ele a abriu. A luz do sol invadiu o saguão. O espaço que durante tantos meses parecera sombrio e ameaçador agora estava cheio de calor e luz. Parecia uma casa totalmente nova. Ele enfim se acostumara, ou isso teria algo a ver com a partida da Sra. Eglantine? Ela levara consigo as sombras e a escuridão?
Quando ele entrou no saguão, uma figura surgiu da sala de jantar.
— Ah, imagino que seja o Sr. Sherlock — disse uma voz.
O olhar cansado de Sherlock repousou na forma de uma mulher de meia-idade com cabelo cor de palha preso com uma rede em um coque atrás da cabeça. Seu rosto era gentil, e seus olhos eram castanhos e vivos. Embora a mulher estivesse de preto, algo em suas roupas dava a impressão de festas e bailes, não de funerais e enterros.
— Sim — respondeu ele. — Passei alguns dias fora.
— Foi o que o Sr. Holmes disse. Ele mencionou que o senhor chegaria em breve. — Ela sorriu. — Sou a Sra. Mulhill, a nova governanta. Comecei ontem.
— Bem-vinda à mansão Holmes.
— Obrigada. Estou muito ansiosa para trabalhar aqui. — Ela olhou para a mala de Sherlock. — Com certeza o senhor tem aí roupas que precisam ser lavadas. Se quiser descansar em algum lugar, posso levar-lhe uma bandeja com chá e biscoitos. O Sr. e a Sra. Holmes não se encontram no momento, mas voltarão para o jantar.
— Chá e biscoitos — disse ele. — Seria ótimo.
Sherlock deixou a mala aos cuidados dela e foi até a biblioteca. Na ausência do tio, aquele era o lugar onde se sentia mais à vontade. A sala de visitas servia para receber convidados, a sala de jantar era para comer, e ele não estava disposto a subir para o quarto.
Acomodando-se na cadeira de couro do tio, Sherlock inspirou o cheiro dos livros e manuscritos que o cercavam. Na mesa, viu a pilha de sermões, cartas e afins que Sherrinford Holmes lhe havia pedido para organizar antes que Josh Harkness, Gahan Macfarlane e Bryce Scobell invadissem sua vida. Tudo parecia muito distante, no passado.
O sermão diante de Sherlock era um dos que ele já havia olhado – um texto em que um vigário em algum lugar na região central da Inglaterra atacava várias heresias e cismas dentro da Igreja. O olhar de Sherlock encontrou mais ou menos no meio da folha a expressão “Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”, e então foi como se uma luz se acendesse de repente em sua cabeça.
Pratos de ouro. A Sra. Eglantine vinha procurando pratos de ouro porque ouvira tio Sherrinford falar sobre isso. Ela ficara obcecada com a ideia de que, escondido em algum lugar da casa, havia um conjunto de pratos de ouro – algum tesouro – mas nunca os encontrara.
Havia um tesouro, mas não era o que ela havia imaginado.
Sherlock relembrou o que havia lido sobre a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – também conhecida como Mórmon – na biblioteca do tio. O movimento começara na América, uns quarenta anos antes, liderado por um homem chamado Joseph Smith Jr. Ele se dizia em posse de um texto sagrado chamado Livro de Mórmon, que afirmava ser um suplemento da Bíblia. Quando perguntaram de onde esse livro sagrado havia saído, Smith alegou que, quando tinha dezessete anos, um anjo chamado Morôni lhe falara que um conjunto de escritos antigos, gravados em placas douradas por profetas ancestrais, havia sido enterrado em uma colina perto de Nova York. Os escritos falavam que Deus conduzira uma tribo de judeus desde Jerusalém até a América seiscentos anos antes do nascimento de Cristo.
Placas douradas.
Sherlock sentiu o peito se encher com uma vontade de rir. A Sra. Eglantine provavelmente ouvira Sherrinford Holmes conversar com tia Anna sobre as placas douradas da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Teria ele mencionado a palavra “tesouro” também? Teria sido o caso de ele dizer algo como “Esta carta é um tesouro, minha querida, pois me fornece tudo de que preciso para defender que as placas douradas dos mórmons nunca existiram”, e a Sra. Eglantine, escutando por trás da porta, entender “pratos dourados” e chegar a uma conclusão completamente equivocada?
Sherlock jamais teria como saber sem perguntar a ela, e o menino tinha a sincera esperança de nunca mais voltar a vê-la, mas só podia ser isso. O tesouro que ela havia procurado tão arduamente era uma quimera. Uma completa ilusão.
Sherlock deu outra risada. Contaria ao tio assim que ele voltasse, claro, mas era improvável que Sherrinford fosse lamentar a notícia de que não havia tesouro algum. Ele não se importava muito com os bens materiais.
Enquanto ria, Sherlock sentiu um cheiro doce. Era um odor familiar, vagamente medicinal. Ele o conhecia de algum lugar, mas não conseguia se lembrar de onde. Por um momento, achou que a Sra. Mulhill havia voltado com a bandeja de biscoitos prometida, mas não havia mais ninguém na biblioteca.
Sherlock tentou se levantar, mas sua visão começou a ficar desfocada. Estendeu a mão para a mesa, para se firmar, mas não a alcançou. Caiu para a frente, batendo a cabeça no mata-borrão, mas não sentiu o impacto. Não sentiu nada além de um delicioso esgotamento. Uma névoa acolhedora se fechou à sua volta, e ele dormiu.
Visões indistintas, como uma colagem de retratos, preencheram sua mente. Uma carruagem preta. Cordas. Um lenço com um cheiro doce enjoativo. O céu. Um rosto, de barba ruiva e olhos arregalados, que Sherlock reconhecia mas não conseguia identificar...
Quando acordou, tudo estava diferente.
Ele se viu coberto por um emaranhado de cordas grossas e alcatroadas, dentro de um cômodo pequeno. As paredes, o chão e o teto eram feitos de tábuas grosseiras. Sua cabeça latejava, e seu estômago estava se revirando. O chão parecia se mexer a seus pés, mas só quando ele tentou afastar as cordas e se levantar ficou claro que o problema era realmente o cômodo, e não seu equilíbrio. O chão estava se mexendo.
Sherlock abriu a porta e saiu, ainda se segurando no batente para não cair. Encontrou-se olhando para um convés de navio. Para além do guarda-corpo, viu um mar cinzento encrespado e cheio de espuma branca. Não havia terra à vista.
Um marinheiro apareceu a um lado e parou de repente ao ver Sherlock. Deu um longo suspiro e se virou para trás.
— Chamem o Sr. Larchmont — gritou ele. — Temos um passageiro clandestino! — O homem se virou para Sherlock e balançou a cabeça. — Você escolheu o navio errado para viajar escondido, garoto.
— Por quê? — perguntou Sherlock. — Aonde estamos indo?
— Não é um cruzeiro turístico pelo Mediterrâneo — respondeu o marinheiro. Ele sorriu, revelando um punhado de dentes manchados de tabaco. — Este é o Gloria Scott, e estamos navegando rumo à China!

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