30 de agosto de 2017

Capítulo dezesseis

TRÊS DIAS DEPOIS, SHERLOCK estava sentado em um caixote vazio no cais, olhando para o Gloria Scott. Marinheiros europeus e trabalhadores portuários chineses corriam feito formigas, verificando o equipamento e as velas, carregando barris e caixas pela ponte.
— Ele partirá amanhã — Cameron falou ao seu lado.
— Eu sei — Sherlock respondeu.
— Você estará nele?
Ele assentiu com a cabeça.
— Pensei em ficar, mas há muita gente esperando por mim em casa. Meu irmão, meus amigos...
— E aquela garota — disse Wu Fung-Yi, do outro lado, para Sherlock. — Aquela sobre quem você não fala.
— Então como você sabe que há uma garota? — perguntou Sherlock.
— Porque você está voltando por ela — disse Wu Fung-Yi com uma lógica indiscutível.
Sherlock virou-se para olhar Cameron.
— E quanto a você? Acha que ficará em Xangai?
Cameron deu de ombros.
— Eu duvido — ele respondeu finalmente. — Acho que mamãe quer voltar para a América. Devo admitir, eu gostaria de ver o lugar. Quero ver se é tão grande como todo mundo fala.
— E você vai ficar? — Sherlock perguntou, virando-se para Wu.
O menino chinês assentiu.
— Minha mãe precisa de mim. Eu sou tudo o que lhe resta. Então, ficarei. Talvez eu aprenda a cozinhar, como meu pai. Talvez eu faça outra coisa. Minha mãe quer que eu preste os exames para o serviço público, mas custa muito dinheiro e toma muito tempo.
— Mas se você entrar — Cameron observou — então estará feito na vida. Não terá mais problemas financeiros, nunca mais.
Wu sorriu e acenou com a cabeça.
— Meu pai ficaria orgulhoso se...
— Sim — Cameron disse em voz baixa. — Se.
— Escrevam-me — pediu Sherlock. — Se puderem. Se tiverem a chance. Vou lhes dar o endereço.
Os três rapazes ficaram lá por um tempo em silêncio, cada um com seus próprios pensamentos.
— Teremos algum almoço saboroso? — perguntou Cameron depois de um momento. — Estou ficando com fome.
— Um dos barcos de pesca trouxe lula hoje mais cedo — falou Wu. — Frito no gengibre e molho de soja, é maravilhoso. Vocês não conseguiriam melhor.
— Melhor do que ovos e bacon?
— Muito melhor.
Os dois rapazes se levantaram.
— Você vem? — Cameron perguntou a Sherlock.
— Irei segui-los em um minuto. Deixem algumas lulas para mim...
Os dois meninos saíram, discutindo e se empurrando, e Sherlock os assistiu ir com um sorriso no rosto. Nunca lhe ocorrera que ele encontraria amigos tão bons quanto Matty e Virgínia, como encontrou. Talvez ele sempre os encontrasse, aonde quer que fosse.
Ele pensou sobre o que contaria a Matty e Virgínia sobre suas aventuras quando voltasse para a Inglaterra. Pensou sobre a viagem de vinda; a tempestade e o ataque dos piratas, e pensou nas experiências que teve em Xangai e ao longo do rio Yangtzé. Tanta coisa para contar.
O ataque pirata. Algo o incomodava sobre isso. A maneira como havia encontrado o pirata na cabine do Sr. Arrhenius, aparentemente procurando a mensagem codificada destinada a Malcom Mackenzie. O pirata sabia que ela estava lá, o que sugeria que todo o ataque pirata tinha sido montado para que eles pudessem se apossar dessa mensagem. Mas quem teria o alcance e a influência para organizar o ataque dos piratas chineses ao navio de comércio, para que pudessem se apossar de uma mensagem codificada?
A Câmara Paradol, é claro.
Eles haviam sequestrado Sherlock, em primeiro lugar, e o colocado no Gloria Scott. Sherlock assumira todo esse tempo que eles tinham feito isso por vingança, para puni-lo pela forma como tinha interferido em seus planos, mas talvez fosse mais do que isso. Talvez a Câmara Paradol houvesse descoberto sobre os planos de explodir um navio americano e quisesse detê-lo. Talvez uma guerra entre os Estados Unidos e a China não servisse a seus propósitos, e eles decidiram interferir.
E esse era o verdadeiro motivo de a Câmara Paradol ter colocado Sherlock no Gloria Scott? Será que ele estava, inadvertidamente, trabalhando para eles todo esse tempo? Mas, certamente, com um alcance como o deles, eles poderiam tê-lo impedido de alguma outra forma? Precisariam de um menino inglês e alguns piratas chineses para fazê-lo?
Ele sorriu. Realmente, não importava. Ele, Cameron e Wu tinham salvo vidas e impedido uma guerra. Não importava de quem tinha sido a ideia. Eles tinham feito a coisa certa.
— Com licença.
Ele olhou para cima. Um homem estava de pé na frente dele. Ele vestia roupas típicas de marinheiro, e a julgar pela crosta branca sobre elas, aparentemente sal endurecido, e sua pele bronzeada, ele havia desembarcado recentemente de algum navio. Sherlock olhou de cima a baixo, e rapidamente o caracterizou com base no que pôde ver. Nascido em Yorkshire, mas vivendo em Londres. Casado. Cinco crianças. Mãe viva, mas o pai morrera recentemente.
— Sim? — perguntou ele educadamente.
— O seu nome é Holmes? Sherlock Holmes?
Ele se endireitou.
— Sim. Sim, é.
O homem estendeu um envelope. Tinha sido dobrado e redobrado muitas vezes, e continha manchas de água e cera de vela no papel pardo grosso.
— Isto é para você. Eu trouxe da Inglaterra. Pediram que eu entregasse.
A boca de Sherlock ficou subitamente seca, e seu coração batia mais rápido do que bateu quando lutara com o Sr. Arrhenius.
— Obrigado... — disse ele, estendendo a mão para pegá-la. Sua outra mão mergulhou no bolso. — Aqui, olha, eu deveria...
O homem balançou a cabeça.
— Não se preocupe. Fui bem pago para entregar esse envelope. Trabalho para o seu irmão já por vários anos, viajando ao redor do mundo a seu mando. Ele me disse que não aceitasse nenhum dinheiro de você. Ele disse: “Diga ao rapaz que ele precisa conservar seu dinheiro, se quiser ter alguma esperança de voltar para casa inteiro.”
Sherlock riu. A impressão que o marinheiro tinha de seu irmão Mycroft era impecável.
— Obrigado. Eu aprecio isso.
O marinheiro olhou ao redor.
— Você já está aqui faz um tempo — ele falou. — Alguma dica?
— Aparentemente — disse Sherlock — a lula é muito boa.
O marinheiro franziu a testa, em seguida, acenou com a cabeça e se afastou. Sherlock notou que suas pernas ainda não tinham se habituado à terra seca.
Com as mãos tremendo um pouco mais do que gostaria, Sherlock abriu o envelope. De dentro, ele puxou uma carta e outro envelope menor. Colocou o envelope menor do lado, e começou a ler a carta.

Meu caro Sherlock,
Esta é uma das várias cartas que enviei por várias mãos para muitos destinos diferentes ao longo do percurso, na esperança de que, pelo menos, uma delas chegue até você. Se receber mais de uma, então, por favor, não perca energia lendo as outras – todas dizem a mesma coisa. E antes que pergunte, sim, eu escrevi todas estas cartas de próprio punho, em vez de tê-las redigido por um secretário. Foi um grande esforço, mas senti que deveria, pelo menos, fazer alguma coisa em reconhecimento das duras experiências que você tem, sem dúvida, passado.
Seu tutor, o Sr. Crowe, sua tia e tio, e seus amigos Matthew e Virgínia tem todos me intimidado a passar seus melhores cumprimentos a você. Virgínia, em especial, me pediu para anexar uma carta especificamente dela. Sinto que eu deveria prepará-lo para o conteúdo. Você esteve fora por algum tempo – talvez mais do que imagina – e as coisas mudaram.
Amyus Crowe foi forçado a assumir outros alunos a fim de ganhar a vida, e Virgínia tornou-se particularmente próxima de um deles – o filho de um empresário americano que trabalha em Guildford. Seu nome é Aaron Wilson Jr., e ele pediu Virgínia em casamento. Lamento dizer-lhe que ela aceitou...

Sherlock baixou a carta. Sua mão tremia. Ele pegou o segundo envelope. A escrita na frente era delicada, feminina. Um minuto atrás, sabendo que era uma mensagem de Virgínia, nada poderia tê-lo impedido de lê-la. Agora, depois de ter visto a mensagem de Mycroft, a última coisa no mundo que queria fazer era abri-la. Mas já era tarde. A mensagem tinha sido transmitida. O gênio tinha sido liberado da garrafa.
Ele engoliu em seco e olhou para o Gloria Scott, que estava sendo preparado para a viagem para casa. Como poderiam algumas palavras mudar o seu mundo tão completamente? Como poderia ser coração ser tão rapidamente quebrado por alguém assim, longe?
Lentamente, ele amassou a carta lida pela metade de Mycroft e o envelope fechado da Virgínia, enquanto assistia sem ver o cais movimentado.

2 comentários:

  1. Ahhhhh não,Virgínia como se apaixou por alguém assim? Como pode já esquecer o Sherlock?

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  2. ...
    Virginia, porque...

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Boa leitura :)