18 de agosto de 2017

Capítulo dezesseis

HENDRICKS SEGUIU PELO CAMINHO E passou pela brecha na cerca viva. Do outro lado havia um trecho de bosque, ainda nos limites da propriedade. O homem prosseguiu, avançando a passos seguros, sem olhar para ver se Sherlock o acompanhava.
O menino conferiu o relógio mais uma vez. Quase onze horas, e ele estava apenas caminhando pelo campo. Não ia dar tempo!
O jardineiro parou diante de um barranco coberto de grama. Do outro lado do barranco havia uma depressão natural mais ou menos redonda e sem árvores. Sherlock viu buracos escuros ao longo do barranco – tocas de coelho, presumiu.
De repente, uma lembrança lhe ocorreu: a cabeça de coelho dentro da toca em Farnham. O que dera início à viagem. Parecia ter passado tanto tempo, mas foram apenas alguns dias.
— Foi aqui que coloquei as armadilhas — disse Hendricks. Em vez de olhar para Sherlock, ele preferiu fitar a distância. — Usei uma armadilha de laço ligada a um caule curvado. O coelho passa a cabeça dentro dela e a ativa, e o caule aperta o laço e tira o bichinho do chão. Confiro as armadilhas a cada duas horas, mais ou menos.
O menino olhou para onde a armadilha havia sido instalada, mas não sabia o que ela poderia indicar. Sem pensar, foi até o barranco onde ficavam as tocas de coelho. Abaixou-se para conferir a mais próxima. Não havia sinal dos animais, mas ele viu alguns caules caídos bem na entrada da toca.
Por um momento Sherlock supôs que fossem os restos de uma refeição que os coelhos haviam levado de volta para a toca, mas então se deu conta de que essa não era uma explicação possível. Ele nunca vira coelhos levarem comida de um lugar para outro – sempre comiam onde quer que encontrassem alimento. Sherlock pegou um dos caules. Em uma das extremidades havia flores parecidas com um sino violeta, e a outra havia sido cortada. Aquelas plantas tinham sido postas ali na entrada da toca de propósito. Mas quem faria isso?
— Você reconhece essa flor? — perguntou ele, erguendo o caule para que Hendricks pudesse ver.
— Dedaleira — respondeu o jardineiro, olhando o caule e franzindo o cenho. — Tome cuidado com isso, senhor. Chamam de “Campainhas da Morte”. Você pode morrer só de dar uma mordidinha em uma dessas folhas. Tem gente que diz que dá para morrer só de respirar perto da planta, mas não boto muita fé nisso. Venho andando por este bosque há anos e nunca tive problemas. — Ele franziu o cenho. — Também não vi muitas dedaleiras. São bastante raras por aqui.
— Por que coelhos comeriam plantas venenosas? — perguntou Sherlock. — Animais com certeza evitam plantas venenosas. — Ele revirou o caule na mão. — Aliás, por que alguém colocaria uma planta venenosa em um lugar onde um coelho vai acabar achando?
— Dizem — comentou Hendricks — que os coelhos são imunes à dedaleira. — Ele retorceu o rosto, como se estivesse pensando em algo. — Não sei se isso é verdade, mas se for...
— Se for verdade — disse Sherlock, dando voz aos pensamentos que passeavam por sua cabeça —, então o veneno da dedaleira poderia se acumular na carne do coelho. Isso poderia envenenar qualquer um que o comesse.
Ele ergueu os olhos e trocou um olhar com Hendricks. O jardineiro o encarava, ainda com o cenho franzido em uma expressão grave. Ocorreu a Sherlock que, se o jardineiro tivesse sido a pessoa a deixar as dedaleiras perto da toca, na esperança de que os coelhos fossem comê-las e acumular o veneno no corpo, e se o homem dera o coelho a Aggie Macfarlane sabendo que ela o prepararia para o jantar de Sir Benedict, então ele cometera um assassinato particularmente ardiloso. Talvez tentasse impedir que Sherlock contasse para alguém. O menino ficou tenso, preparando-se para se levantar e correr caso Hendricks fizesse algum movimento suspeito.
Mas não – se ele fosse um assassino, por que diria exatamente o que Sherlock precisava saber para solucionar o crime?
— Alguém deixou as dedaleiras aqui de propósito, para os coelhos comerem? — perguntou o homem. — Para que, se eu pegasse um coelho, a carne dele já estivesse envenenada?
Sherlock assentiu.
— Quanto tempo levaria para o veneno se acumular?
— Uma semana — respondeu Hendricks. — Talvez duas. Mas... quem faria algo assim? Algo tão bárbaro?
Em vez de responder, Sherlock olhou o chão. A terra era dura – dura demais para preservar qualquer pegada de sapato ou bota. Ele podia saber como o crime havia sido realizado, mas essa informação não valia de nada sem saber quem o cometera.
Queria olhar mais uma vez o relógio, mas se conteve. Saber quão pouco tempo faltava não o ajudaria a pensar mais rápido.
Passando o olhar pelo barranco das tocas, procurando algo, qualquer coisa que pudesse ser importante, ele de repente percebeu que havia algo estranho no chão. Era marrom e seco e se parecia vagamente com uma minhoca, comprida e reta. Sherlock encarou aquilo por alguns instantes, perguntando-se por que uma minhoca morta ficaria reta daquele jeito, e então se deu conta.
Não era uma minhoca. Era a marca deixada por alguém que havia cuspido um bocado de tabaco e saliva.
O menino olhou para Hendricks. O jardineiro seguiu seu olhar e fitou a marca de tabaco.
— Você masca tabaco? — murmurou Sherlock.
— Nunca adotei o hábito — respondeu ele. — Não masco tabaco e não fumo. Mas sei quem masca.
Sherlock se lembrou do mordomo e de sua boca cheia de tabaco, e também de quando ele alegara que o jardim e o bosque não eram seu departamento. Se isso fosse verdade, por que ele fora até ali, tão longe da casa?
— Você precisa ir à polícia — disse Sherlock. — Diga a eles o que encontrou.
— O que você encontrou — respondeu o jardineiro, contrariado. — Eu devia ter visto isso tudo, mas não vi.
Sherlock balançou a cabeça.
— A polícia não vai me escutar... Sou um garoto; além disso, não sou escocês. É mais provável que eles acreditem em você. Se quer que Aggie Macfarlane seja solta, precisa lhes contar tudo.
— Certo. Vou contar. — Um canto de sua boca se curvou para cima. — Sempre tive um carinho especial por Aggie. Vou fazer o possível para soltá-la. Mas e quanto a você?
Naquele momento, Sherlock conferiu o relógio.
Uma e dez. Ele tinha menos de uma hora para voltar e convencer Macfarlane de que poderia limpar o nome de Aggie.
— Preciso correr — disse ele. — Preciso chegar logo a um lugar.
E ele correu. Correu até a casa, onde Dunlow e Brough o esperavam. Antes mesmo de chegar à carruagem, já estava gritando:
— Rápido! Precisamos voltar!
Ao subir na carruagem já em movimento, Sherlock olhou mais uma vez para a mansão. Pensou ter visto o mordomo observando-o de uma janela no térreo, mas a carruagem sacudia muito e ele não pôde ter certeza. Enquanto se afastavam, Sherlock não pôde deixar de pensar na Sra. Eglantine. Todos os empregados responsáveis por administrar residências eram assassinos em potencial?
Ficou segurando o relógio enquanto a carruagem avançava pelas ruas, pistas e vielas de Edimburgo. Seu coração estava pulando, e o menino sentia pressão nos ouvidos e nas têmporas.
Queria saltar da carruagem e correr, mas isso não seria lógico. Não adiantaria nada. A carruagem já estava indo mais rápido do que suas pernas seriam capazes de levá-lo.
Sherlock detestava esperar. Detestava depender de outras pessoas. Queria fazer alguma coisa.
Olhou pela janela pela milésima vez. Muros, janelas, placas e postes de luz passavam correndo, uma massa amorfa e indistinta. Sherlock tinha certeza de que Edimburgo era um lugar maravilhoso, mas naquele momento detestava a cidade.
Quando começou a ver mais armazéns do que casas normais, o menino percebeu que estavam chegando. A carruagem desacelerou até parar, e ele saltou e correu na direção do armazém que havia visto antes. A base de Macfarlane.
— Garoto — gritou Dunlow —, espere por nós!
Sherlock disparou a toda pela porta. Os homens que montavam guarda tentaram segurá-lo, mas o menino conseguiu se esquivar de suas mãos. Deixou para trás um rastro de gritos e alertas enquanto seguia em frente pela sala com as rinhas de cães e pela outra onde os dois homens estavam lutando antes.
— Consegui! — gritou ele ao correr para dentro do salão da corte de Macfarlane. Viu Amyus Crowe, parado junto de Virginia de forma protetora, e também Rufus Stone e Matty. Os quatro olharam para ele, impressionados, enquanto o menino corria e parava diante do tablado de Macfarlane. — Consegui! — repetiu ele. — Eu sei quem matou Sir Benedict Ventham, e não foi sua irmã! Foi o mordomo. Não sei por quê, mas sei que foi ele.
— Excelente notícia — disse Macfarlane. Sua voz parecia séria, e o bom humor de antes havia evaporado. — Estou em dívida com você, rapazinho, como havíamos combinado. O problema é que não estou em posição de pagar, e você não está em posição de cobrar.
Sherlock estava a ponto de perguntar o que ele queria dizer, de argumentar que eles tinham firmado um acordo, mas de repente percebeu que a maioria dos olhares no salão não estava voltada para ele nem para Macfarlane, mas para algum ponto atrás do menino, na direção da porta. Ele se virou, já sabendo o que veria.
Havia dez homens dispostos ao longo da parede, ocultos para qualquer um que estivesse fora do salão. Nove deles apontavam bestas para Macfarlane e seus homens, e também para Sherlock. O décimo estava um passo à frente dos outros, tranquilo. Tinha uma estatura mais baixa que a média, e seu cabelo cuidadosamente penteado cobria-lhe a testa. Suas roupas tinham um caimento perfeito. Ele apoiava as mãos em uma bengala preta de madeira, cuja ponta estava no chão, entre seus pés. O punho da bengala era uma caveira dourada. Sherlock percebeu tudo isso em um relance, mas sua atenção se fixou no rosto e nas mãos do sujeito. Não havia um único centímetro quadrado de pele sem algum nome tatuado. De onde estava, Sherlock viu “Alfred Whiting”, “Cb Bill Cottingham”, “Winnie Thomas” e “Paul Fallows”. Estavam todos em preto, mas na testa dele, destacando-se em vermelho, ele leu “Virginia Crowe”.
— Bryce Scobell — disse Sherlock calmamente.
— Eis que voltamos a nos encontrar — disse Scobell, com sua voz curiosamente precisa e delicada. — Peço desculpas. Sei que nosso encontro estava marcado para mais tarde, mas eu simplesmente não consegui esperar. O Sr. Crowe e sua linda filha ocupam meus pensamentos, e minha pele, há bastante tempo. — Ele fitou Sherlock. Seus olhos eram tão pretos que o menino não distinguia a pupila da íris. — Você me causou problemas consideráveis ontem. Suas ações incapacitaram dois de meus homens.
Sherlock olhou pela fileira de capangas de Scobell, mas não viu ninguém engessado ou com curativos.
— Ah, você não os verá agora — continuou Scobell. Ele tinha um ligeiro sorriso no rosto. — Eu mando sacrificá-los quando eles se ferem; como fazemos com cavalos.
— Então por que os outros continuam trabalhando para você? — perguntou Sherlock. — Se eu fosse eles, não correria o risco.
Enquanto falava, Sherlock observava todo o corpo de Scobell, procurando algo – qualquer coisa – que pudesse servir de vantagem se fosse preciso lutar, ou qualquer coisa que ele pudesse usar para influenciar o homem, mas não havia nada. A figura de Scobell não oferecia pista alguma. Era como se ele fosse um manequim ambulante e dotado de fala.
— Eles temem o que lhes acontecerá se fugirem, é claro — respondeu Scobell —, e eu lhes dou recompensas suficientes para que o risco valha a pena. Algo que descobri sobre os seres humanos: ninguém acredita na própria morte. Sim, as outras pessoas à sua volta podem morrer, mas cada um se acredita invencível.
A atenção de Sherlock se voltou para a caveira dourada no alto da bengala. As cavidades escuras dos olhos pareciam encará-lo. O menino pensou ter visto algo em cima da caveira, uma espécie de fenda, mas, antes que ele conseguisse identificar o que era, Scobell levantou a bengala e apontou a extremidade inferior para o rosto de Sherlock. O homem fez um ligeiro movimento com o dedo e apertou a cavidade ocular esquerda da caveira, ao que uma lâmina estreita pulou da bengala por essa extremidade. A ponta ficou parada no ar, a um centímetro do olho direito de Sherlock.
O menino sentiu o suor brotando na testa.
— Infelizmente — disse Scobell, ainda com aquele tom terrivelmente delicado —, não tenho tempo para conversar e trocar gentilezas. Estou com o horário apertado e preciso cumprir uma promessa que fiz a mim mesmo há anos. A vingança, dizem, é um prato que se come frio, mas já esperei tanto que a minha congelou no prato. — Ele olhou para Crowe. — Você me deve. Você me deve pela morte de minha mulher e meu filho.
— Deixe os garotos irem embora, Scobell! — gritou Amyus Crowe de cima do tablado. — Eles não fizeram nada contra você. Sou eu quem você quer.
— Pelo contrário — respondeu Scobell. — Eles me custaram vários de meus melhores homens. Realizarei minha vingança sobre eles mais tarde, mas primeiro cuidarei de sua linda filha, que não será tão linda depois que eu terminar. E então cuidarei de você.
Gahan Macfarlane deu um passo à frente.
— Esta é minha casa — rosnou ele —, e você é um convidado. Eu é que dou as ordens aqui.
Devagar, Scobell apoiou a extremidade da bengala no chão. Ele empurrou a caveira dourada, e a lâmina se retraiu para dentro.
Sherlock ouviu um clique quando ela travou algum mecanismo de molas que voltaria a liberar a lâmina quando necessário. A atenção do menino continuava concentrada na fenda em cima da caveira. Para que aquilo servia?
Scobell olhou tranquilamente para Macfarlane.
— Estou com todas as cartas na mão — comentou ele. — Você não fez nada contra mim... ainda não. Mas, se quiser viver para ver o sol se pôr, continue assim.
— Você não — rugiu Macfarlane — dá ordens na minha...
Antes que Macfarlane terminasse a frase, Scobell ergueu a mão livre. Um dos homens atrás dele fez um ligeiro movimento com a besta e apertou o gatilho. Com um barulho súbito, a corda foi liberada e lançou uma seta pelo ar. Dunlow foi atingido no meio do peito. Ele a encarou por um instante, horrorizado, e então caiu de joelhos. Olhou para Macfarlane e tentou dizer algo, mas tombou de lado no piso de lajotas.
— Dou ordens sempre que eu quiser e onde eu quiser — disse Scobell, sua voz tranquila como se ele estivesse comprando jornal.
Sherlock olhou em volta, atento a tudo que via, calculando o que poderia ser usado para mudar a dinâmica da situação. Mas, com os homens de Scobell em vantagem, Sherlock não via escapatória. Em questão de minutos ele perderia Virginia e Amyus Crowe. E minutos depois estaria morto também, junto com Matty e Rufus Stone. Ele precisava fazer alguma coisa.
Seu olhar encontrou o de Gahan Macfarlane, que o encarava. O escocês então olhou para a sala anterior, depois de novo para Sherlock. E assentiu.
O que ele estava tentando dizer?
Sherlock se lembrou do fosso no centro daquela sala, da criatura presa ali dentro. Era isso que Macfarlane queria indicar? O menino não sabia qual era a criatura, mas, considerando a rinha de cães e a luta de boxe nas outras salas e as várias cabeças empalhadas nas paredes do salão onde estava agora, concluía-se que Macfarlane gostava de ver animais e pessoas brigando. O que estava atrás daquelas placas de madeira, fosse o que fosse, devia ser grande e assustador. Macfarlane com certeza fazia aquilo enfrentar cachorros, ou talvez até pessoas, e as apostas eram não sobre a possibilidade de vitória sobre o animal, mas sobre quanto tempo seu adversário levaria para morrer.
Sherlock teve uma ideia, mas precisaria chegar lá primeiro.
— Está na hora — disse Scobell. — Os nomes em minha testa e meu antebraço estão vermelhos há tempo demais. É hora de cobri-los de preto.
Quando Scobell deu um passo à frente, Sherlock fixou o olhar mais uma vez na caveira dourada da bengala. Uma lâmina na extremidade inferior era ativada por uma das cavidades oculares. Mas a caveira tinha duas cavidades oculares...
Sherlock estendeu a mão e enfiou o indicador na cavidade direita da caveira.
Uma lâmina emergiu da fenda e atravessou a mão de Scobell. Ele gritou: um barulho estridente e consternado que paralisou todo mundo no salão, menos o próprio Sherlock. Ele então passou por Scobell e correu para a porta que levava à outra sala – onde ficava a fera, dentro do fosso. Os capangas de Scobell se recuperaram e tentaram mirar enquanto o menino corria, mas ele já havia passado pela porta quando as setas foram disparadas. Ouviu as setas voarem atrás de si, e gritos quando algumas encontraram um alvo. Os homens de Scobell estavam atirando uns nos outros sem querer.
O salão de onde ele saíra ficou um caos, gritos, berros e o barulho de gente correndo, mas Sherlock estava mais preocupado com o que havia a sua frente: o fosso, que mais parecia uma piscina, contornado pelas placas de madeira que chegavam à altura da cintura.
A criatura dentro do fosso rugiu. Sherlock ouviu patas e garras batendo no chão à medida que a fera corria para a beirada.
Ele pegou uma das placas e a puxou para cima. Ligeiramente presa no chão, a madeira resistiu por um instante, mas, com a força de seu desespero, Sherlock conseguiu arrancá-la. Ele não podia se dar ao luxo de falhar. A placa devia ter uns quatro metros e meio de comprimento e um de largura, e era tão pesada que não foi fácil manuseá-la, mas de alguma forma Sherlock conseguiu virá-la e jogá-la dentro do fosso, de modo a deixar uma das extremidades em cima da borda a seus pés.
Pronto: uma rampa para que o animal pudesse sair dali de dentro.
Foi a única ideia que lhe ocorreu para tentar compensar a desvantagem da situação em que estava.
Com um rugido, uma silhueta imensa se ergueu do fosso e parou acima de Sherlock, estendendo braços peludos para os lados e abrindo garras que pareciam facas. Era um urso – um urso-pardo – e devia medir uns três metros da ponta do rabo até o focinho. Seus olhos pareciam vermelhos de fúria e loucura. Só Deus sabia onde Macfarlane conseguira aquele animal. Provavelmente o tinha desde que era filhote. Com certeza o urso havia passado anos preso, sendo provocado e fustigado, obrigado a brigar, e agora estava livre.
O animal atacou Sherlock com sua imensa pata. O menino se jogou no chão e rolou por baixo da fera, e os homens restantes de Scobell apareceram pela porta procurando por ele. O urso se esqueceu de Sherlock. Viu os homens, e viu as bestas. Lembrou-se de toda a dor que havia sofrido.
E atacou.
Sherlock rolou pela beirada do poço. Enquanto caía, ouviu os homens de Scobell gritarem e o urso soltar rugidos apavorantes.
Ao atingir o fundo do fosso, o menino perdeu o fôlego de uma só vez. Sua visão se encheu de pontos luminosos. Ele levou um minuto para se recuperar. Virou-se no chão e se levantou com cuidado, olhando em volta. O fosso tinha uns quatro metros e meio de profundidade, e os cantos estavam cheios de ossos. Alguns eram velhos, mas havia outros recentes e ensanguentados. Sherlock poderia jurar que alguns eram humanos.
Ele subiu a rampa cuidadosamente. O urso tinha entrado no salão principal de Macfarlane, mas havia cinco ou seis dos homens de Scobell caídos perto da porta. Pelo estado deles, era difícil determinar quantos homens havia exatamente.
Com cuidado, o menino passou pela porta.
A maioria dos homens de Macfarlane fugira. O próprio, no entanto, continuava ali no tablado, perto do trono, cercado de Rufus Stone, Matty, Amyus Crowe e Virginia. Todos assistiam horrorizados ao que acontecia no centro do salão.
Os outros homens de Scobell tinham sido destroçados pelas garras do urso. Era óbvio que eles haviam tentado impedi-lo: as bestas tinham disparado, e várias setas estavam cravadas na pele da fera, mas isso não servira de nada. Tendo matado os capangas, o urso agora se erguia junto a Bryce Scobell. O animal era quase o dobro do tamanho dele. No rosto de Scobell não havia qualquer traço de medo. Também não havia traço de dor, apesar do sangue que jorrava de sua mão direita, a que fora atravessada pela lâmina da bengala.
— Saia da minha frente — disse ele, com apenas um toque de irritação na voz. — Tenho negócios a tratar.
O urso lhe deu uma patada letal. As garras afiadas o acertaram no peito, erguendo-o como se ele fosse um boneco de pano. Ele foi arremessado pelo salão e atingiu a parede. Sherlock viu o corpo dele deslizar até o chão, quebrado e inerte. A expressão em seu rosto era tão tranquila e indiferente, como sempre, e agora permaneceria assim pela eternidade.
O urso então farejou as pessoas no tablado. Abaixou-se até ficar nas quatro patas e foi na direção delas. O rosnado que emergia de seu peito reverberava por todo o piso.
Sherlock foi atrás do animal. Ele sabia que precisava impedi-lo, mas não sabia o que fazer. Uma das bestas que os homens de Scobell haviam derrubado estava a seus pés. Não tinha sido disparada ainda. Ele se abaixou e a pegou. O couro do urso já estava com cinco ou seis setas, mas talvez Sherlock acertasse em algum ponto vulnerável. Será que ursos tinham pontos vulneráveis?
Gahan Macfarlane deu um passo à frente, mas Amyus Crowe pôs a mão em seu ombro. Macfarlane olhou para o americano e franziu o cenho. Crowe passou por ele e desceu do tablado. Foi em direção ao urso. Matty e Rufus Stone estavam paralisados. O urso corria na direção de Crowe, rosnando.
Sherlock viu Virginia erguer a mão à boca. Sua expressão era de choque, os olhos arregalados. Ela veria a morte do pai acontecer bem à sua frente.
Sherlock ergueu a besta e mirou na nuca do animal. Talvez ele conseguisse romper a medula espinhal do urso. Sabia que tinha poucas chances, ainda mais com as mãos tremendo daquele jeito.
Mas precisava fazer algo.
O urso se ergueu nas patas traseiras ao alcançar Crowe, estendendo as patas dianteiras e as garras. Levantando o focinho no ar, soltou um rugido ensurdecedor.
E então Amyus Crowe fez a coisa mais impressionante que Sherlock já vira. Ele abriu os braços, levantou a cabeça e também rugiu. Sua voz ecoou pelo salão. Com seu tórax imenso e seus braços e pernas muito musculosos, ele de repente parecia invencível. Era também um urso, mas branco em vez de castanho – um urso-polar, em vez de urso-pardo.
O urso baixou a cabeça e olhou para ele. Fungou, desconfiado.
— Já dei conta de ursos maiores que você com um pé nas costas — disse Crowe, sem vacilar. — Volte para o lugar de onde veio, amigo. Viva mais um dia.
Era inacreditável, mas o urso deixou cair o corpo, voltando a ficar nas quatro patas. Mesmo nessa posição, porém, sua cabeça chegava à altura de Crowe. Ele o farejou por um bom tempo, depois se virou e saiu correndo do salão, voltando para o fosso. Passou por Sherlock sem nem levantar a cabeça.
— Isso sim — disse Macfarlane, quebrando o silêncio — é algo que as pessoas pagariam para ver. Posso lhe oferecer um emprego, Sr. Crowe? Duas lutas por semana, ordenado a combinar?
Crowe olhou para Sherlock. Viu a besta ainda nas mãos do menino e assentiu.
— Parei de lutar com ursos faz alguns anos já — respondeu ele. — Prefiro ser professor. É um trabalho que oferece mais desafios.

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