8 de agosto de 2017

Capítulo dezesseis

O RESTAURANTE DO DIOGENES CLUB era silencioso como uma catacumba, razão pela qual Mycroft tomara providências para que a refeição fosse servida na Sala dos Visitantes. Ao menos ali os quatro poderiam manter uma conversa decente.
Mycroft estava sentado à cabeceira da mesa, com Sherlock à esquerda e Amyus Crowe à direita.
Rufus Stone estava na frente de Mycroft.
Olhando em volta, Sherlock sentiu dificuldade em lembrar que fora naquele mesmo lugar que começara toda aquela aventura. Ele verificou o carpete em busca de manchas de sangue, lembrando-se do pobre desafortunado cujo desespero para deixar um pouco de dinheiro para a família o levara ao suicídio, comandado pela Câmara Paradol só para fazer com que Mycroft fosse à Rússia. Ou alguém havia feito uma limpeza caprichada ou todo o carpete fora trocado.
Mycroft e Crowe discutiam o que o governo norte-americano faria com o Alasca, agora que finalmente pagara pelo território. Sherlock voltou a se concentrar em seu jantar. Garçons silenciosos vestidos de preto serviram tigelas de sopa.
Crowe olhava indeciso para o líquido cremoso avermelhado.
— Isso não deve ser apropriado para consumo humano — comentou ele. — Parece uma mistura de leite com sangue de vaca.
— É borscht — explicou Mycroft. — Uma sopa russa feita de beterraba com smetana, ou coalhada. Achei que seria apropriado compartilhar com você uma pequena recordação de nossas aventuras. O chef foi muito prestativo. Singularmente ousado, na verdade. Eu não acreditava que ele sequer tentaria preparar alguma coisa além de sopa Brown Windsor, mas ele ficou entusiasmado com o desafio.
— Por falar em desafios — disse Stone —, temos alguma notícia sobre o Sr. Kyte?
Sua mão esquerda tocou o outro braço, no qual o curativo escondia um corte profundo. Havia em suas palavras uma entonação que, aos ouvidos de Sherlock, sugeria que Stone ainda tinha assuntos inacabados para resolver com o ruivo grandalhão.
Mycroft balançou a cabeça com pesar.
— Nem uma palavra. Ele parece ter sido tragado pela terra. Presumo que a Câmara Paradol o esteja protegendo em algum lugar, se é que eles são do tipo que perdoa, é claro.
— E sobre o restante da Companhia Teatral Kyte? — perguntou Sherlock.
— Todos desapareceram como o Sr. Kyte; supostamente estão escondidos. — Seu rosto era grave. — Ter estado tão perto da Câmara Paradol, ter me aproximado tanto da Sra. Loran, que agora acredito ser um de seus membros mais importantes, e não ter percebido... Isso me atormenta, Sherlock. Minha mente foi afetada pela acusação de assassinato e pelo período de confinamento, mesmo que ele tenha sido breve. Eu devia ter percebido que havia algo estranho naquela companhia. Devia ter percebido que éramos vítimas de uma farsa desde o início.
— E Wormersley?
— Ah, para isso tenho uma resposta. Por razões compreensíveis, o conde Chuvalov não permitiu que o trouxéssemos conosco. Ele ficou detido em uma cela na praça Lubianka. Irônico, considerando que fomos a Moscou porque era lá que eu acreditava que ele estava. — Mycroft suspirou. — Ele mudou. Não era o homem que eu pensava que fosse. Mas suponho que viajar pelo mundo tenha esse efeito sobre as pessoas, razão pela qual pretendo viajar o mínimo possível pelo resto de minha vida.
— Fiquei surpreso por Chuvalov ter acreditado em você tão prontamente — comentou Crowe. Ele ainda olhava indeciso para a sopa, na qual mergulhou a colher em um gesto experimental.
— Essa é outra ironia — respondeu Mycroft. — Eu conhecia Chuvalov bem menos do que conhecia Wormersley, mas, no final, foi essa a relação que sobreviveu e se mostrou digna de confiança, diferentemente da outra. Pensamos de maneira parecida. Quando foi informado sobre minha prisão, o conde ordenou de imediato que eu fosse levado a sua presença. Tomamos chá e conversamos de maneira muito civilizada. Ele se desculpou por qualquer tipo de comportamento rude de seus homens e eu pedi desculpas por ter entrado em seu país sem o aviso apropriado. É assim que as relações internacionais devem ser conduzidas: de maneira polida e com os devidos acompanhamentos, e não com falcões treinados agindo como armas.
— E ele acreditou em toda essa história maluca?
— Quando Sherlock contou sua história, ficou óbvio que as evidências a sustentavam. As pessoas viram o falcão, com suas garras de metal, voar para dentro da carruagem e presenciaram também a luta entre Sherlock e Wormersley e a luta entre o Sr. Stone e o Sr. Kyte. Chuvalov já havia recebido relatórios sobre minha prisão aqui em Londres pela acusação de assassinato. Ele tem os próprios agentes em Londres, é claro, como eu tenho, ou tinha, na Rússia. — Pensativo, ele fez uma pausa. — Embora seus agentes provavelmente não trabalhem em segredo para a Câmara Paradol, o que é um ponto a favor dele em nosso jogo atual.
— Jogo? — repetiu Sherlock.
— A contínua batalha estratégica entre a Rússia e a Grã-Bretanha pelo controle da Ásia Central: Afeganistão e Índia. Nós chamamos de o Grande Jogo.
— Nosso pai está na Índia — apontou Sherlock. — Ele está lutando lá. Não é um jogo, Mycroft.
Mycroft teve a elegância de se mostrar constrangido.
— Você tem razão, meu caro irmão. Não é um jogo, muito menos um grande jogo. Aqui em Londres, sentado em uma poltrona confortável, é fácil perder de vista a realidade. Talvez o tempo que passei na Rússia tenha servido para me ensinar uma coisa: as peças que movemos tão alegremente no tabuleiro são pessoas de verdade, com sentimentos de verdade. Essa é uma lição que não vou esquecer. — Ele deu um sorriso hesitante. — Mas você acaba de me lembrar de que ainda não lhe mostrei a carta que nosso pai enviou da Índia, a que você veio de Farnham para ler. Estou com ela aqui. Deixarei que você a veja mais tarde.
Amyus Crowe pigarreou.
— Então, qual é o plano agora? — perguntou ele, obviamente tentando mudar o assunto para questões mais amenas. — O que vamos fazer? De minha parte, pretendo passar algum tempo com minha filha.
— Eu pretendo voltar aos meus aposentos e para o meu trabalho — respondeu Mycroft.
— Acho que vou voltar para a mansão Holmes, para meus tios e para a maravilhosa Sra. Eglantine — declarou Sherlock sem entusiasmo.
Ele olhou para Rufus Stone. Por um momento, pensou em Farnham, na mulher vestida de preto que o espionara e desaparecera em um beco. Na ocasião imaginara que fosse a Sra. Eglantine, mas agora não tinha tanta certeza. Talvez fosse a Srta. Aiofe Dimmock estudando o irmão de Mycroft antes de a Câmara Paradol pôr em prática seu plano complexo. Ou talvez fosse mesmo a Sra. Eglantine. Sherlock decidiu que, quando voltasse à mansão Holmes, esclareceria esse mistério e descobriria que tipo de poder a mulher tinha sobre sua família.
— E quanto a você, Sr. Stone? — perguntou Mycroft, interrompendo os pensamentos de Sherlock.
Stone sorriu e olhou para o menino. Um dente de ouro no fundo da boca brilhou, refletindo a luz do candelabro.
— Soube que tem um bom violino — disse ele. — Esperava que me desse o prazer de ouvi-lo tocar. Duas vezes por semana, uma hora por dia. Terças e quintas seriam dias convenientes para você?
— Perfeitamente — respondeu Sherlock.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)