30 de agosto de 2017

Capítulo dez

SHERLOCK E A SRA. MACKENZIE OLHARAM assustados para a porta, e então um para o outro. O rosto da Sra. Mackenzie demonstrava ansiedade e surpresa. Sherlock sabia que seu próprio rosto devia ter o mesmo aspecto.
Ele correu para a porta. A Sra. Mackenzie foi apenas alguns momentos após ele, a mão já sobre o coração, como se tentasse impedi-lo de explodir para fora de seu peito.
O escritório de Malcom Mackenzie ficava seguindo pelo corredor, dobrando depois de uma sala de estar. Conforme ele se arremessou para contornar a esquina, Sherlock viu Cameron em pé na porta. Ele parecia congelado no lugar. Segurava o batente da porta com tanta força que Sherlock podia ver o branco dos ossos de seus dedos brilhando sob a pele esticada. Um prato despedaçado e um bolo esquecido estava caído no chão aos seus pés.
Empregados surgiram de ambas as extremidades do corredor, rostos chineses e ocidentais compartilhando as mesmas expressões chocadas.
Sherlock chegou ao seu amigo derrapando até parar. Ele olhou para o rosto de Cameron por um momento, então seu olhar seguiu o de Cameron para dentro do cômodo. A cena que ele viu ali permaneceria com ele pelo resto de sua vida.
A disposição em si lembrou-o do escritório de seu irmão Mycroft. Estantes cobriam as paredes, revestidas com volumes em couro de várias cores. Uma mesinha ornamentada suportava um grande globo terrestre em um canto. A escrivaninha ficava no fundo da sala, era uma grande chapa de madeira escura nativa disposta sobre pernas grossas. De um lado havia uma poltrona confortavelmente estofada com uma pequena mesa ao lado. Um livro estava aberto, virado para baixo, sobre a mesa. Era ladeado por um copo com meia dose de algum líquido cor de âmbar, provavelmente uísque com soda, a julgar pelo leve odor que Sherlock podia detectar no ar.
Atrás da escrivaninha estava uma cadeira de madeira, e atrás dela havia uma grande janela que dava para o jardim interior. A janela estava fechada e o vidro intacto – não havia nenhum fluxo de ar soprando sobre as cortinas que pendiam na frente dela.
Na cadeira atrás da mesa estava sentado Malcom Mackenzie. Suas duas mãos estavam sobre a mesa, como se apertasse os papéis que estavam espalhados sobre ela. Seu rosto estava contorcido em uma máscara de horror absoluto, os olhos arregalados e a boca aberta. Seu cabelo parecia ter-se eriçado com o choque.
Ele não se movia. Seus olhos não olhavam para Sherlock, ou para Cameron, ou para qualquer coisa no escritório. Eles focavam uma área vazia no espaço de um lado da porta. Sherlock deliberadamente seguiu seu olhar, tentando ver o que ele via, mas não havia nada lá. Absolutamente nada.
O coração de Sherlock parecia ter subido bem alto em seu peito, com o perigo de bloquear sua garganta e impedi-lo de respirar, mas a próxima coisa que ele viu ameaçou pará-lo completamente.
Os braços de Malcom Mackenzie estavam estendidos sobre a mesa de modo que as mangas de sua camisa e seu casaco estavam puxadas até a metade de seus antebraços. Em seu antebraço direito havia uma marca que Sherlock pensou por um momento ser uma tatuagem, mas quando seus olhos pousaram sobre ela, ele percebeu a terrível verdade. Era uma marca de mordida, dois furos na pele com uma mancha de sangue coagulando-se.
— Papai? — Cameron chamou novamente.
Sherlock passou por ele, justamente quando a Sra. Mackenzie chegou à porta. Ela engasgou, levando a mão à boca.
Rompendo sua paralisia, Cameron correu até a mesa. Ele e Sherlock chegaram a Malcom Mackenzie ao mesmo tempo.
Sherlock chegou a tocar uma de suas mãos, enquanto Cameron estendeu a mão em direção ao seu rosto. A pele de Mackenzie estava fria, e ele não reagiu ao contato.
Sherlock deslizou o dedo sob o pulso do Sr. Mackenzie e levantou-o da mesa, verificando sua pulsação. Não havia nada. Sem sangue fluindo por suas veias, e seu braço estava tão indiferente quanto o galho de uma árvore. Quando Shelock a soltou, a mão aterrissou com um baque surdo.
— Temo — disse Sherlock, com a voz embargada — que ele esteja morto.
A Sra. Mackenzie soltou um grito. Alguns momentos depois, Sherlock ouviu um segundo baque quando ela desmaiou e caiu no chão.
— Levem-na para um lugar confortável onde ela possa se deitar — disse Sherlock, virando-se para os servos que tinham começado a aparecer na porta. Ele viu o rosto do mordomo, Harris, atrás dos outros. Ele encarava o patrão, branco e chocado. — Harris! — ele chamou. — Cuide bem de sua senhora! Providencie que as criadas a levem para seu quarto! — Quando o mordomo não se moveu, Sherlock estalou os dedos audivelmente. — Depressa! E mande alguém chamar um médico. Não um curandeiro local, mas um médico de verdade – um europeu. Deve haver um em algum lugar de Xangai!
— Há um — Cameron murmurou. — O Dr. Forbes. Ele mora a cerca de cinco minutos daqui.
Sherlock olhou para o mordomo até que o homem de repente pareceu assumir o controle sobre si e começou a emitir ordens para os funcionários. Sherlock deu um tapinha no ombro de Cameron, em seguida, foi até a porta e fechou-a. Ele sabia que Malcom Mackenzie estava além de qualquer necessidade de privacidade agora, mas, mesmo assim, sentiu que o homem deveria ser respeitado, sem espectadores. Além disso, se a cobra ainda estivesse no cômodo, ele não queria dar-lhe a chance de escapar. Ele queria aquela coisa morta.
Quando a porta se fechou, ele se virou para olhar para Cameron. Seu amigo olhava para o rosto contorcido de seu pai.
— O que aconteceu, Sherlock? O que aconteceu com ele?
— Ele foi mordido por uma cobra, pelo que parece — disse Sherlock. Ele se aproximou e indicou a mordida no antebraço de Malcom Mackenzie. — Existe, obviamente, um monte delas por aqui.
— Mas quais as chances de duas picadas de cobra acontecerem num único dia por onde andamos? — perguntou Cameron, atordoado.
— A questão mais interessante é — Sherlock meditou, olhando mais de perto a mordida — quais as chances de a mesma cobra morder duas pessoas diferentes em lugares diferentes, enquanto estamos por perto?
Cameron fez uma careta.
— O que você quer dizer?
Sherlock indicou a mordida.
— Olhe, uma das presas é maior do que a outra. — Ele tirou do bolso o esboço que tinha feito anteriormente, baseado em sua memorização da mordida no ombro de Wu Chung. Ele segurou o esboço ao lado da mordida real. — Eles são exatamente do mesmo tamanho, exatamente a mesma distância entre as marcas, e uma delas parece com a de uma presa quebrada.
Cameron olhou ao redor da sala, o rosto contorcido em uma careta.
— Ela ainda pode estar aqui, não é?
— A janela está fechada. A porta estava fechada quando você chegou aqui?
— Estava.
— E alguém teria visto uma cobra saindo nos últimos minutos, havia muitas pessoas ao redor. Ela ainda deve estar aqui. — Os olhos de Sherlock rapidamente catalogaram todos os lugares escuros e escondidos em volta no cômodo – embaixo das mobílias, em cima dos livros, entre as cortinas. — Vamos ter que procurá-la.
Cameron abriu uma gaveta da escrivaninha de seu pai. De dentro dela ele tirou um revólver.
— Meu pai me ensinou a usar isso — disse ele em voz baixa.
Sherlock agarrou uma bengala que estava encostada no batente da porta – basicamente, era melhor do que nada.
Pelos dez minutos seguintes os meninos percorreram o cômodo cuidadosamente, procurando pela cobra. Sherlock usava a bengala para cutucar e investigar qualquer lugar provável em que ela se esconderia, enquanto Cameron estava em volta pronto para atirar se alguma coisa atacasse. Sherlock tinha uma ideia de como as cobras se moviam rápido. Sua única experiência com répteis foi com os lagartos gigantes que o Duke Balthassar mantinha como animais de estimação. Eles eram muito lentos e deliberados em seus movimentos, mas ele suspeitava que as cobras pudessem ser bem mais rápidas. Toda vez que ele olhava um lugar escuro e escondido – uma lacuna entre dois livros, ou uma almofada apoiada em uma cadeira com um espaço atrás dela – ele tinha o cuidado de ficar bem para trás enquanto usava a bengala para cutucar pela lateral. Seu coração estava disparado e ele podia sentir o suor escorrendo em seu peito. O pensamento de que, a qualquer momento, uma cobra venenosa podia se arremessar pelo ar em direção ao seu rosto o fez sentir mais medo do que sentiu há muito tempo.
De vez em quando ele olhava para o Sr. Mackenzie. O homem permanecia ali sentado como se de repente fosse se virar e perguntar o que eles estavam fazendo, mas o coração de Sherlock doía quando ele se lembrava, todas as vezes, de que Malcom Mackenzie não faria mais nada. Sherlock tinha gostado dele. Mais do que isso, ele o respeitava. E Cameron, obviamente, o amava.
Eventualmente, eles tiveram que aceitar que não havia nenhuma cobra no cômodo. Todos os possíveis esconderijos haviam sido investigados. Sherlock até mesmo passou a bengala até o topo das cortinas para o caso de a cobra de alguma forma ter subido até lá em cima, mas nada caiu. Ela já se fora.
Cameron tremia com raiva reprimida, e seu rosto estava branco. Ele obviamente queria se vingar da cobra, e se sentia traído.
— Onde ela está? — ele continuava a perguntar. — Onde ela está?
— Ela se foi pelo mesmo lugar em que entrou na casa de Wu Chung — disse Sherlock.
— Você tem certeza de que foi a mesma cobra?
— Oh, eu tenho certeza. Só não sei se a estamos caçando ou ela está nos caçando.
Cameron olhou para ele.
— Como uma coisa dessas pode acontecer? Cobras são estúpidas. Elas não podem pensar por si mesmas.
— De fato — Sherlock murmurou. — Estranho não é?
Ele se sentiu culpado, consciente de que ignorava a tragédia da morte de Malcom Mackenzie e se concentrava no problema mais interessante levantado pela cobra, mas Cameron não pareceu notar.
A porta se abriu de repente e Harris apareceu. Ele introduziu no cômodo um homem pequeno, com uma barba branca pontiaguda e uma juba de cabelos brancos ao redor da cabeça e careca em cima.
— Ah, jovem Cameron — disse ele, vendo o amigo de Sherlock. — Uma tragédia. Uma tragédia de fato. Seu pai era um homem bom. Assim sempre pensei. — Ele inclinou a cabeça para o lado e olhou Sherlock. — Eu não o conheço. Ou conheço?
— Sherlock Holmes. Sou amigo de Cameron.
— Ah, sim. Ótimo. — Ele pareceu notar Malcom Mackenzie pela primeira vez, e cruzou o cômodo até o corpo, verificando-o com cuidado. — Vocês, presumo, viram a serpente? Eu odiaria encontrá-la escondida em uma manga ou algo assim.
— Não está na sala — Sherlock confirmou. Na verdade, ele tinha examinado o corpo do pai de Cameron rapidamente enquanto o amigo estava distraído. A cobra não havia se escondido em seu colo, em suas roupas ou em qualquer outro lugar ao redor do corpo.
— Como está a mamãe? — Cameron perguntou em voz baixa quando o Dr. Forbes puxou um estetoscópio e auscultou o peito do Mackenzie procurando qualquer vestígio de um batimento cardíaco.
— Eu a examinei brevemente — o médico murmurou. — É uma mulher forte. Precisou de um barbitúrico para ajudá-la a dormir. Está obviamente perturbada. — Ele olhou para Cameron. — E você, jovem. Como está se sentindo?
— Chocado — Cameron admitiu. — Confuso. Assustado.
— Todas reações bastante normais.
Sherlock indicou o corpo.
— Eu presumo que....?
Forbes balançou a cabeça.
— Nenhum traço de vida, temo. Olhando para o inchaço e a vermelhidão em torno das feridas, posso dizer que foi uma cobra venenosa. Provavelmente causou um ataque do coração de imediato. Pobre homem.
— Isso não aconteceu com Wu Chung — Sherlock meditou.
Quando viu o Dr. Forbes levantar uma sobrancelha, ele acrescentou:
— Outro homem foi mordido hoje cedo – um chinês. Ele morreu também, mas levou muito mais tempo.
Forbes fez uma careta.
— Poderia ter sido um tipo diferente de serpente. Veneno diferente.
— Pelo contrário — disse Sherlock — nós achamos que não só era o mesmo tipo de cobra, achamos que na verdade era a mesma cobra.
— Então o veneno deveria trabalhar exatamente da mesma maneira.
— Esse é um bom argumento — concordou Sherlock. — Se foi a mesma cobra, então, algo mudou de lá para cá. Eu me pergunto o que foi.
O Dr. Forbes afastou-se da mesa.
— Temo que não haja nada mais que eu possa fazer, meu jovem — ele falou. — Seu pai está morto já há algum tempo. Preencherei o atestado de óbito descrevendo que ele foi mordido por uma cobra venenosa. As autoridades locais terão que ser alertadas, podem querer fazer sua própria investigação... Eu posso fazer isso, se desejar. — Ele fez uma careta. — Eu sinto muito. É trágico. Muito trágico. Seu pai era um bom homem. Pedirei que os empregados levem o corpo para um quarto, onde ele ficará em paz até que os arranjos para o funeral sejam feitos.
Forbes saiu do escritório. Sherlock e Cameron ficaram em silêncio por alguns momentos.
— Eu deveria fazer alguma coisa — disse Cameron. — Eu deveria estar organizando o funeral, ou reconfortando minha mãe, ou organizando os empregados. Afinal de contas, eu sou o homem da casa agora. — Seu rosto pareceu desabar, e ele parecia menor, uma criança vulnerável. — O que vai acontecer com a gente? Com papai morto, os negócios vão acabar.
— Talvez você pudesse voltar para a América — Sherlock sugeriu fracamente. — Tenho certeza que seu pai levantou certa quantia de dinheiro com seu negócio. Sua mãe pode querer voltar para casa, perto de sua própria família, se ela tiver uma. E você sempre quis ver a América.
Cameron balançou a cabeça lentamente.
— Talvez. — Ele se sacudiu. — Vou conferir como está minha mãe, e então me assegurarei de que as autoridades locais saibam o que está acontecendo. Mandarei uma mensagem para o padre católico daqui, também. Tenho certeza que ele pode nos aconselhar sobre o que precisamos fazer para o funeral.
Ele saiu, deixando Sherlock para trás. Momentos depois, Harris e dois empregados chineses homens entraram na sala. Os dois carregavam uma maca – um comprimento de tecido com uma vara de bambu correndo em cada lado – e Harris tinha um lençol dobrada nas mãos.
Harris acenou com a cabeça para Sherlock.
— Fomos instruídos a...
— ... levar o corpo do Sr. Mackenzie para um quarto — Sherlock concluiu para o mordomo hesitante. — Está tudo bem. Vocês precisam de uma mão?
Harris balançou a cabeça.
— Acredito que podemos cuidar disso, senhor. — Ele indicou a maca. — Esteve enfiada em um armário por anos. Ninguém se lembrava porque que estava lá. Mas ainda bem que estava.
Enquanto Sherlock observava, Harris e os dois funcionários levantaram delicadamente o corpo de Malcom Mackenzie da cadeira e colocaram na maca. Uma vez que ele foi ajeitado com as mãos no peito, Harris colocou cuidadosamente o lençol por cima do corpo, escondendo-o de vista. O mordomo fez os dois empregados se posicionarem cada um em uma extremidade da maca, a qual eles levantaram com um pouco de esforço, e Harris liderou o caminho para fora.
Sherlock os assistiu irem, sentindo-se estranhamente inútil. Todo mundo parecia fazer alguma coisa, exceto ele.
Ele olhou ao redor do escritório, esperando ver alguma coisa que chamasse sua atenção. Ele se lembrou da máxima de Amyus Crowe sobre procurar coisas que se destacassem, coisas que fossem incomuns.
Eventualmente Sherlock vagou até a janela, mais por tédio do que por qualquer outro motivo. Ele queria verificar se ela estava realmente fechada, se nada poderia ter conseguido entrar ou sair. Ele passou as mãos em torno das bordas do batente e empurrou o vidro experimentalmente, mas não havia folga nenhuma, não tinha como. A janela estava totalmente selada.
Ele olhou ao redor da sala, deixando seus olhos percorrerem rapidamente sem focar em nada, na esperança de que algo saltaria para ele. E algo o fez. Ele de repente notou uma mancha no chão perto da porta. Por um segundo ele pensou que fosse um rastro de terra deixado no cômodo por ele, ou Cameron, ou o Dr. Forbes, mas a mancha estava à esquerda do batente da porta, perto da parede. Ele se aproximou e se ajoelhou no chão, dando uma olhada mais atenta. Agora que estava mais perto, podia ver que a mancha tinha a forma de uma pegada. Ele podia ver claramente as impressões dos dedos e do calcanhar. Ele teria assumido que era a pegada de uma criança, com exceção das marcas no carpete em frente aos dedos do pé.
As marcas pareciam ter sido feitas por garras – algo afiado que tinha cravado no tapete e puxado as fibras.
Ele se balançou para trás em seus calcanhares, pensando.
Uma criança com garras? Alguma espécie de animal que deixa pegadas, como as de uma criança? Com o que exatamente ele estava lidando aqui?
E lembrou-se da coisa que tinha visto – ou quase visto – no jardim e então perseguido o pai de Cameron por Xangai. Teria aquilo estado no escritório de Malcom Mackenzie? Parecia provável, mas o que era, e o que queria?
Ele procurou em volta, mas não havia outros sinais que pudesse ver em qualquer outro lugar do carpete. Apenas ali. Não havia nenhuma maneira de traçar as idas e vindas da criatura.
Ele se endireitou e estava prestes a sair do escritório quando lhe ocorreu que os papéis sobre a mesa estavam todo esparramados. O resto do espaço estava em ordem, e ele não queria que Cameron ou a Sra. Mackenzie fossem para lá depois um tempo, vissem os papéis espalhados por toda a parte e fossem lembrados de que eles eram as últimas coisas que Malcom Mackenzie tinha tocado. Se Sherlock apenas os colocasse em uma pilha organizada, pelo menos já seria alguma coisa. Ele sentiria que, pelo menos, teria contribuindo para ajudar a família em seu momento de crise.
Ele caminhou de volta para a mesa e pegou um punhado de papéis. Eles estavam de cabeça para baixo. Ele os virou, com base no princípio de que poderia colocá-los em algum tipo de ordenação enquanto os arrumava. Ele certamente não queria lê-los – provavelmente tinham algo a ver com os acordos comerciais de Malcom Mackenzie – mas eles poderiam estar numerados ou algo assim.
Ele olhou para a primeira folha, e seu coração deu um salto.
Era uma das folhas que ele tinha visto na cabine do Sr. Arrhenius, a bordo do Gloria Scott – um dos diagramas que pareciam com uma teia de aranha. Rapidamente ele folheou o restante dos papéis. Eram todos semelhantes – todos os diagramas se pareciam com várias combinações de linhas e círculos cruzando e descruzando. Sherlock os estendeu sobre a mesa, fascinados com eles. O que diabos significavam?
O olhar afiado de Sherlock percorreu os diagramas, à procura de elementos comuns, tentando enxergar como eles eram construídos. As folhas eram grandes, mas o papel era fino – quase translúcido. Se ele levasse um até a janela, a luz o atravessaria facilmente.
Cada folha tinha um grande número de pequenos círculos desenhados em tinta. Os círculos eram do tamanho de uma moeda. Cada círculo tinha duas linhas retas que saíam dela em direções diferentes, e as linhas se entrecruzavam em seu caminho através do papel, formando triângulos, paralelogramos, retângulos e outras formas geométricas mais exóticas. Exceto... não, de repente ele viu que dois dos círculos só tinham uma linha que saía deles, e ver isso o fez perceber que as linhas na verdade formavam um caminho. Se ele colocasse o dedo indicador em um dos círculos que só tinha uma linha, então poderia seguir essa linha por toda a folha até um segundo círculo, em seguida, seguir a outra linha para um terceiro círculo, e assim por diante, até que finalmente acabou no outro círculo que só tinha uma linha saindo dele – ou, neste caso, entrando nele. Era uma jornada, mas o que significava? O que aquilo tentava dizer a ele?
Ele olhou para todas as páginas sucessivamente. As segurou aos pares contra a luz, tentando ver se alguma delas era igual, ou mesmo semelhante, mas eram todas diferentes. Embora todas consistissem em pequenos círculos e linhas longas, todos os círculos e linhas estavam em lugares diferentes.
Aqueles eram definitivamente os diagramas que o Sr. Arrhenius mantinha em sua cabine – os que o pirata procurava. Sherlock tinha razão quando disse a Cameron que era aquilo que o holandês entregara ao seu pai na noite anterior. Mas por quê? Sherlock estava quebrando a cabeça.
Seriam eles algum tipo de mensagem codificada destinada a Malcom Mackenzie – algo que só ele poderia decodificar, e que pareceria apenas rabiscos para quem se deparasse por acidente? Seria a decodificação o trabalho que Malcom Mackenzie tinha falado sobre no café da manhã, quando ele ficou tão irritado e com raiva? Se fosse assim, isso indicava que a mensagem escondida dentro dos diagramas era importante. Tão importante que, quando ele havia decodificado, Mackenzie foi direto para a casa do prefeito contar-lhe.
E então ele tinha morrido. Por acidente? Sherlock começava a pensar que não.
— O que você está fazendo? — Era Cameron, que estava parado na porta e encarava Sherlock.
— Está tudo bem com você?
— É difícil dizer. Sinto como se eu estivesse apenas sendo levado pelo momento, embora eu não tenha certeza do que está me fazendo seguir em frente. E quanto a você?
— Acho que encontrei algum tipo de mensagem codificada — Sherlock explicou. Ele gesticulou para Cameron vir, e rapidamente explicou o seu raciocínio.
Cameron olhou para os diagramas, franzindo a testa.
— Eles não significam nada para mim.
— Seu pai nunca recebeu nada como isso antes?
— Não que eu tenha visto.
— Hmm. — Sherlock olhou para os diagramas. — Deve haver algum tipo de chave que poderíamos usar para decodificá-los.
— O que você quer dizer?
— Bem, existem diferentes tipos de códigos que as pessoas usam. Em alguns códigos você substitui as letras por alguma outra coisa – substitui cada letra “a” pelo número “1”, talvez, ou cada letra “b” pelo número “2”, e assim por diante – exceto que seria muito simples, obviamente não haveria mais do que 26 números, então as pessoas que estivessem trabalhando nele descobririam rapidamente como você o fez. Você pode substituir todos os “a” por um “b”, todos os “b” por um “c” e assim por diante, até “z”, que você pode substituir com a letra “a”. Esse é mais difícil de resolver. — Ele pegou o diagrama no topo da pilha. — Mas este é diferente. Aqui não há qualquer substituição. Aqui não há diferentes combinações de símbolos ou letras, ou imagens.
— Parece ser algum tipo de percurso — Cameron ressaltou. — Percebe como as folhas são quase transparentes? Se as folhas forem colocadas sobre a página de um livro, os pequenos círculos podem acabar sobre certas letras. Se você começar pelo círculo inicial e seguir as linhas de círculo em círculo, talvez as letras dentro deles resultem numa mensagem. Talvez as pessoas que criaram o diagrama usassem algum livro que possuíssem, e ele disse ao meu pai que livro usar.
— Deve ser isso — Sherlock disse — é uma ideia muito inteligente. Exceto pelo fato de que não há muitos livros grandes o suficiente para essas folhas caberem, e não haveria nenhuma garantia de que seu pai teria o mesmo livro, a menos que tenham organizado tudo com antecedência. — Ele pensou por um momento. — Que tipo de livros você poderia garantir que todos teriam? A Bíblia, suponho, e um dicionário. Talvez as obras completas de Shakespeare. Ou algo perto disso.
— Bíblias são grandes — Cameron apontou. — Pelo menos, aquelas que são lidas na igreja todos os domingos. Aquelas coisas são enormes.
Sherlock olhou ao redor da sala.
— Acho que podemos passar por todas as prateleiras e fazer uma pilha de todos os livros grandes o suficiente para que um desses diagramas possa cobrir a página e, em seguida, trabalhamos com todos eles, página por página, um após o outro... — ele sentiu os dedos se contraindo em punho de frustração. — É esse o problema real: mesmo se soubéssemos que livro usar, não sabemos em quais páginas ir para cada uma dessas folhas. Não há nada neles para nos dizer.
— Talvez haja uma chave separada que mencione qual o livro e quais as páginas? — sugeriu Cameron. — Talvez essa chave tenha tomado um caminho diferente e chegado algum tempo depois.
Algo na mente de Sherlock lhe dizia que Cameron havia dito algo importante. Várias coisas importantes. As frases estranhamente se repetiam: “Pode ser algum tipo de percurso”, “Se você começar pelo círculo inicial e seguir as linhas de círculo em círculo”, “Talvez essa chave tenha tomado um caminho diferente”.
Percurso. Linhas. Caminho.
— O que mais a maioria das pessoas têm? — perguntou Sherlock. — Mapas! Toda família, toda casa tem um mapa-múndi! E há alguns mapas que são geralmente considerados melhores do que todos os outros – Ordnance Survey para mapas ingleses, e Admiralty para mapas do mundo. Onde seu pai guarda os seus mapas?
— Onde ele guardava seus mapas? — Cameron corrigiu suavemente.
Sherlock estremeceu.
— Desculpe, isso foi embaraçoso.
Cameron deu de ombros.
— Vai levar um tempo. — ele apontou para uma prateleira em que não havia nenhum livro, mas continha uma quantidade de papéis enrolados. — Estão lá.
— Ajude-me a procurar.
Rapidamente os dois desenrolaram os papéis, um após o outro. Todos eram mapas – alguns da China, alguns da área de Xangai, mas alguns eram do mundo. Sherlock rapidamente focou no mapa mais detalhado e colorido – que também mostravam rotas atualizadas e as áreas mais rasas do mar, bem como as massas de terra. O texto na parte superior identificou-o como um mapa almirantado.
— Certo, vamos colocá-lo sobre a mesa.
Sherlock esticou o mapa sobre a mesa enquanto Cameron pegou alguns pinos de marcação de uma gaveta e os colocou em um canto mais abaixo. Então Sherlock pegou a primeira folha com os diagramas de teia de aranha e colocou-a em cima do mapa.
Ele era menor.
— Onde se encaixa? — perguntou Cameron. — Podemos deslizar a folha por todo lugar.
Sherlock moveu a folha coincidindo o canto superior esquerdo dela com o canto superior esquerdo do mapa.
— Vamos tentar a opção mais simples.
Ele rapidamente localizou um dos círculos que só tinha uma linha que saía dele.
— Aqui, vamos começar com esse primeiro.
— Está justamente sobre uma cidade da Ásia — Cameron ressaltou. — Ulan Bator.
— Tudo bem, vamos seguir a linha para o próximo círculo.
— Ainda está na Ásia. — Cameron não soou muito impressionado. — Esta é outra cidade... Singapore, ou Cingapura.
— U-S — Sherlock murmurou. — É difícil dizer se isso é o início de uma mensagem ou apenas um par aleatório de letras.
— Scotland – Escócia — leu Cameron, traçando com seu dedo ao longo da linha para o terceiro círculo.
— U-S-S — disse Sherlock. — Estou começando a ter uma ideia de onde isso vai dar. Rápido – escreva o que eu for dizendo.
Ele correu com o dedo através do mapa de círculo a círculo, lendo o nome das cidades, vilas, rios, nomes de países e oceanos que iam sendo revelado nos interiores dos círculos. Às vezes eles circulavam as letras iniciais, às vezes estavam encravados em algum lugar no meio do nome.
— Certo — disse ele finalmente. — O que temos aqui?
Cameron não disse nada. Seu rosto estava triste, e seus olhos, assustados enquanto ele lia:
— USS Monocacy vai ser explodido no Rio Yangtzé!

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