18 de agosto de 2017

Capítulo dez

O SACO TINHA UM FORTE cheiro de fumo de cachimbo, e Sherlock começou a sufocar por causa do calor, do odor pungente e da falta de ar. Passava um pouco de luz através das falhas do tecido, mas não era o suficiente para que ele pudesse enxergar à sua volta. A malha de estopa roçava-lhe na testa, nas orelhas e na nuca. Sherlock sentia a pele se esfolar, alguns trechos ficando em carne viva. Ele ia sair dali bastante arranhado.
Se saísse.
Seus pulsos e tornozelos haviam sido amarrados de forma rápida e habilidosa, e com força suficiente para impedir a circulação do sangue. Os braços estavam presos em volta das pernas e do peito. Ergueram-no como se ele fosse um saco de batatas e o levaram às pressas pelo parque antes que alguém visse o que eles estavam fazendo. Provavelmente, o mesmo estava acontecendo com Matty. Sherlock tentou sacudir o pé esquerdo, mas a corda em suas pernas se apertou, e ele mal conseguia se mover um centímetro. Sentia-se preso por tiras de couro. Talvez fosse essa a sensação de morrer esmagado por uma daquelas cobras enormes da América do Sul – sucuris, pítons ou o que quer que fossem.
Sherlock abriu a boca para gritar e pedir socorro, mas levou um soco atrás da orelha. Uma fustigada vermelha agonizante se espalhou por sua cabeça como um raio, deixando um rastro de dor nauseante. Ele estava prestes a vomitar, mas sabia que, se o fizesse dentro daquele saco, precisaria suportar as consequências, então engoliu várias vezes, obrigando o estômago a se acalmar.
Quando abriu a boca, sentiu alguns flocos minúsculos de tabaco grudarem na língua e por dentro dos lábios. O gosto amargo provocou outra onda de ânsia, e Sherlock engoliu mais saliva desesperadamente. Ele sabia que algumas pessoas fumavam e mascavam tabaco. Como aguentavam aquilo?
Seus dedos pareciam grandes e inchados, como linguiças fritando em uma frigideira. Parecia que alfinetes e agulhas o espetavam enquanto o sangue se esforçava para passar pelas cordas que prendiam seus pulsos.
Os homens que o carregavam o reacomodaram nos braços. Por um instante Sherlock se perguntou o que eles estariam fazendo, mas então sentiu a pressão no tórax e nas pernas relaxar, e depois balançaram-no rapidamente para trás, para a frente, e o soltaram. Ele voou pelo ar, impotente, sem saber sequer para que lado ficava o céu e o chão, esperando uma eternidade até atingir... o quê? Grama? Concreto? A superfície de um rio ou um canal?
Achando que talvez acabasse afundando de repente em água gelada, ele quicou em uma superfície macia e rolou até acertar uma tábua vertical. A caçamba de uma carroça, forrada com palha? Era o que parecia. Sherlock ouviu algo atingir a palha a seu lado, e logo em seguida um objeto pesado bateu nele com tanta força que o deixou sem fôlego.
Era Matty.
— Você está bem? — perguntou Sherlock através do saco de estopa, mas, antes que obtivesse uma resposta, algo o acertou nas costelas.
Sherlock sentiu ondas nauseantes de dor se espalharem pelo tórax. Arquejou. Matty, sensato, não falou nada. Talvez nem pudesse. Talvez estivesse inconsciente.
Os homens que os haviam capturado não disseram uma palavra sequer, mas a mensagem era clara: não se mexam, não resistam, fiquem quietos. Qualquer transgressão dessas regras seria castigada.
Apesar de tudo, pelo menos os dois ainda estavam juntos. Isso tinha algum valor. Enquanto permanecesse vivo e em pleno controle dos sentidos e da mente, Sherlock acreditava em sua capacidade de se livrar de quase qualquer situação.
Sua dedução de que os dois haviam sido jogados em uma carroça foi confirmada quando eles se puseram em movimento. Na posição em que Sherlock caíra, sua cabeça estava voltada para a direção em que a carroça seguia. Ele logo analisou tudo de que se lembrava do último minuto. Estivera de frente para Matty no parque e à sua esquerda havia o portão para a Princes Street. Quando o cobriram com o saco, pegaram-no e o levaram com a cabeça virada para a frente e a direita, para longe do portão e da Princes Street. Ele fora lançado de cabeça na carroça, então isso significava que, com quase toda a certeza, o veículo se afastava da Princes Street e do centro de Edimburgo.
Durante o trajeto, Sherlock tentou registrar todas as curvas que eles faziam – em que direção a carroça virava e o tempo aproximado que havia levado desde a curva anterior. O esforço mental de contagem e memorização o ajudou a conter o pânico, e as informações seriam fundamentais se depois ele precisasse refazer o percurso.
Após algum tempo, a carroça parou. Mãos agarraram Sherlock e o puseram mais ou menos de pé. Ele foi jogado no ombro de alguém e levado embora. Ouvia os passos, deduzindo, então, que a pessoa não andava por grama. Seria pedra ou terra batida? O homem que o carregava tropeçou algumas vezes, então talvez fossem paralelepípedos, e alguns deviam estar soltos. Essa informação também poderia vir a ser útil.
Os dedos de Sherlock pareciam estar pegando fogo por causa da falta de circulação de sangue. Sua mente começou a imaginar a pele escurecendo e caindo. Desesperado, ele tentou se obrigar a pensar em outra coisa. Os passos! Haviam mudado: o homem que o carregava agora andava sobre madeira, e a luz que vazava pelas falhas do tecido estava mais escura, mais suave. Ele estava dentro de alguma construção.
O som dos passos no piso mudou, ficou mais oco. Sherlock percebeu também que estava sendo inclinado, com a cabeça acima dos pés. O homem que o levava subia um lance de escadas.
Quando chegaram ao andar superior, Sherlock voltou a ficar nivelado e ouviu mais alguns passos no piso de madeira. No entanto, o som parecia diferente de antes. O assoalho rangia mais, como se não fosse estável.
O homem que o carregava de repente o largou. O menino teve menos de um segundo para se preparar para a queda. Acertou o chão com o ombro esquerdo e gritou. Mordeu a língua de dor e sentiu gosto de sangue.
Outro impacto a seu lado – Matty, recebendo o mesmo tratamento. Ele não gritou, mas Sherlock o escutou gemer.
Algo afiado de metal passou entre as mãos de Sherlock. Antes que ele pudesse reagir, o objeto fez um movimento rápido e as cordas em seus pulsos caíram. No instante seguinte, fizeram o mesmo com as amarras em seus tornozelos.
Ele ergueu as mãos e tirou o saco da cabeça.
Uma luz cinzenta e pálida o ofuscou, e o menino piscou várias vezes. Estava em um cômodo do tamanho da sala de jantar da casa dos tios, mas as semelhanças paravam por aí. Em vez de coberto por tapetes, o piso era de tábuas, e o reboco nas paredes estava rachado. Uma mancha esverdeada de mofo se espalhava pelos restos descascados do papel de parede. Era possível ver as ripas de madeira pelos buracos do reboco. Faltavam algumas tábuas no piso e fezes de rato se espalhavam pelo chão como minúsculas pedrinhas pretas. O teto estava praticamente sem reboco e as vigas pareciam costelas. O chão tinha poças d’água formadas pelas chuvas que se infiltraram pelo teto esburacado, contribuindo para o aspecto de descaso e decadência do ambiente.
Quando Sherlock tentou se ajoelhar, o jornal caiu do seu bolso sobre o piso apodrecido. Ele viu a palavra Cramond escrita na margem. Olhou para cima, horrorizado. Havia três homens diante de uma janela quebrada. Dois se encontravam de pé, e o terceiro estava sentado no meio deles e tinha as mãos apoiadas em uma bengala na frente do corpo, mas a luz que os envolvia fazia-os parecer bonecos de palito rabiscados com carvão em um papel. Sherlock forçou a vista, tentando enxergar o rosto dos três, mas não adiantou. A luz era forte demais.
Matty estava encolhido a poucos metros dele. Um saco semelhante ao que cobrira Sherlock continuava preso em volta da cabeça e dos ombros do amigo. Por um instante, Sherlock não percebeu qualquer movimento, e, com um aperto angustiante no coração, pensou se o amigo estaria morto, mas então viu que Matty respirava devagar. Ele estava vivo, provavelmente apenas desmaiara.
Considerando a suspeita de Sherlock quanto ao que aconteceria nos minutos seguintes naquele cômodo, desmaiar parecia uma boa opção.
Ele olhou além de Matty. Havia uma cadeira ao lado dos três sujeitos. Rufus Stone estava amarrado a ela. O homem olhou para Sherlock e sorriu. O gesto teria sido mais tranquilizador se Rufus não estivesse com a testa e as faces inchadas e os dedos ensanguentados. Parecia que haviam sido tratados com alicate.
— Permita-me explicar o processo — disse uma voz baixa, quase delicada. Sherlock achou que pertencia ao homem do meio. O sotaque era semelhante ao de Amyus Crowe; obviamente, o sujeito era americano. — Não sinto qualquer remorso quanto a machucar crianças. Já fiz isso antes, e farei de novo. Não é algo que me agrada, mas, caso necessário, causarei imensa dor a você para obter o que desejo.
— E o que você deseja? — perguntou Sherlock. — Não tenho dinheiro algum.
O homem não riu, mas Sherlock percebeu um toque de humor na sua voz quando ele respondeu:
— Seu dinheiro não me interessa, menino. Tenho tanto dinheiro que nem sei onde gastá-lo. Não, quero informações sobre seu amigo Amyus Crowe e a filha dele, e isso é algo que você tem.
— Não sei de nada — disse Sherlock, tentando demonstrar o máximo possível de convicção.
Ele estreitou os olhos, tentando identificar alguns traços no rosto ou nas roupas do sujeito apesar da luz intensa que o cercava. Só conseguiu ver que a bengala em que o homem apoiava as mãos tinha uma cabeça grande e estranha.
— Então você morrerá em agonia. Simples assim. Você está prestes a sentir muita dor, mas, quanto mais respostas verdadeiras me der, mais tempo viverá e menos dor sentirá. Agora, tenho uma série de perguntas a lhe fazer. São muito simples. Você as responderá com a mesma simplicidade, sem tentar mentir ou esconder a verdade.
O olhar de Sherlock parou no jornal. Ele precisava impedir que o homem o visse.
— O que acontece se eu não souber as respostas? — perguntou, pensando desesperadamente no que fazer.
O menino tirou os olhos do jornal de repente. Ficar olhando para baixo poderia chamar a atenção deles.
— Boa pergunta — concordou o homem —, e já refleti sobre ela em diversas ocasiões no passado. Como você deve imaginar, já realizei muitos, muitos interrogatórios como este. Felizmente, tenho uma solução. Entenda, nós o temos observado há algum tempo. Para várias perguntas que lhe farei, sei que você sabe a resposta. Para várias perguntas que lhe farei, eu já sei as respostas. Você, contudo, não sabe o que eu sei. Não pode correr o risco de mentir... Isto é, a menos que goste de dor. A melhor alternativa é me dizer a verdade. São poucas as chances de você me enganar, porque em algumas perguntas eu saberei, com certeza absoluta, se você mentir, ainda que diga “Não sei”. As regras estão claras?
Sherlock pensou por um instante. A maneira como o homem calmo apresentara o problema era elegante e simples. Se o menino decidisse enganá-lo ou alegar ignorância, havia uma chance estatística de ser desmentido. O que Sherlock não sabia era a quantidade de perguntas que o homem faria e a quantidade de respostas que já conhecia. Se essas quantidades fossem dez e uma, respectivamente, Sherlock talvez tivesse chance de preservar o segredo do esconderijo de Amyus Crowe. Se fossem dez e cinco, a chance seria bem menor.
Sua mente lógica sondou o problema por todos os lados, tentando encontrar alguma brecha, mas era impossível. O homem que faria as perguntas estava em vantagem. Havia pensado em tudo.
— Você entendeu as regras? — indagou o sujeito. Sua voz estava tão delicada quanto antes. — Não vou perguntar de novo.
— Sim, entendi — respondeu Sherlock, movendo o pé para o lado como se tentasse se ajeitar para uma posição mais confortável.
Ele conseguiu empurrar o jornal para uma das poças d’água formadas pela chuva que havia entrado pelo teto arruinado.
O homem virou a cabeça ligeiramente, de modo a olhar para Rufus Stone, e algo na maneira como a luz iluminou o rosto dele intrigou Sherlock.
— Desnecessário dizer — acrescentou ele — que não vou tolerar interrupções. Está claro?
Stone balançou a cabeça machucada e ensanguentada, mas Sherlock, muito preocupado com o que acontecia ao jornal, não prestou atenção ao amigo. A água começava a encharcar as folhas, mas uma mão ágil poderia tirá-las da poça.
Sherlock arriscou uma olhada. A tinta começara a ficar borrada, apagando as letras que ele escrevera nas margens. Em alguns minutos até a letra impressa seria indecifrável. O menino deu um suspiro de alívio e voltou sua atenção para o rosto do homem calmo, tentando determinar se ele vira algo. Sherlock de repente se deu conta do fato de que havia algo errado com a pele do sujeito. Parecia ser cheia de marcas, mas ele não conseguia distingui-las.
— Então vamos começar.
O homem ergueu uma das mãos que estava apoiada na bengala. Espantado, Sherlock percebeu que a cabeça do objeto era uma caveira dourada brilhando à luz que entrava pela janela, mas só conseguiu vê-la por um segundo, porque logo depois os outros dois homens ficaram na frente. Eles passaram por cima do corpo inerte de Matty, pegaram Sherlock pelos braços e o puseram de pé. As tábuas do piso rangeram e se curvaram sob seu peso.
Cada um segurava uma corda com um nó corredio na extremidade. Um dos homens – o de rabo de cavalo e sem orelha – passou o laço pela cabeça do menino e o apertou no pescoço dele. Jogou a outra extremidade da corda por uma das vigas expostas do teto e puxou com força. Rufus forçou as amarras em protesto, mas o homem que estava mais perto dele lhe deu uma bofetada com o dorso da mão, indiferente. O violinista caiu para trás, gemendo.
Sherlock sentiu a corda se apertar embaixo do queixo, sufocando-o. Por instinto, ficou na ponta dos pés para tentar aliviar a pressão, mas o outro homem – o das marcas de varíola – passou o laço da corda que segurava por baixo dos pés do menino e o apertou na altura dos tornozelos.
— Sugiro — disse o homem calmo, com um tom de voz tranquilo e razoável, o tipo de voz que um vigário usaria ao pedir uma xícara de chá — que você se segure bem na corda acima de sua cabeça. Dentro de alguns segundos, sua vida vai depender de quão firme você conseguirá se segurar. E também, é claro, da sinceridade de suas respostas.
O homem que segurava a corda no pescoço de Sherlock puxou-a de repente. O nó se apertou, tirando os pés de Sherlock do chão. O menino se agarrou desesperadamente na corda acima da cabeça, para tentar não sufocar. As fibras da corda eram ásperas, mas ele sentia as mãos começarem a suar e sabia que, se escorregasse, acabaria pendurado pelo pescoço e se enforcando.
Seus pés balançavam no ar a centímetros do chão. O homem puxou com mais força, e Sherlock subiu mais, agarrando-se na corda. Sua visão estava ficando avermelhada, mas ele ainda pôde ver a silhueta do homem que segurava a corda atravessar o cômodo e amarrá-la em uma ripa exposta.
— Agora — disse o homem calmo —, vamos começar. — Ele pigarreou. — Qual é a natureza de sua relação com Amyus Crowe?
— Não... conheço... ninguém... com... esse... nome...! — respondeu Sherlock, arquejando em meio a preciosas golfadas de ar.
— Ora, sei que isso é uma evidente mentira — falou o homem calmo.
Ele ergueu a mão um centímetro acima da bengala. Quando Sherlock olhou para baixo, viu o homem que prendera sua perna se agachar, estender o braço para trás e pegar das sombras uma pedra do tamanho da cabeça do menino. A pedra estava enrolada em um barbante, e havia um anzol preso na extremidade. O homem ergueu a pedra com a mão e passou o anzol na corda em torno dos pés de Sherlock. E então soltou a pedra.
O peso de repente se transferiu para a corda e, portanto, para os pés de Sherlock, puxando-o para baixo, esticando seus músculos e tendões e aumentando a pressão do nó em seu pescoço. O menino se agarrou com ainda mais força na parte de cima da corda, lutando desesperadamente para não sufocar.
— Partindo do pressuposto de que você seja dotado de uma burrice inata e não tenha entendido as regras — disse o homem calmo —, repetirei a pergunta. A penalidade em caso de mentiras deve estar óbvia agora. Como você com certeza já concluiu, eu sei a resposta a esta pergunta: qual é a natureza de sua relação com Amyus Crowe?
— Professor! — falou Sherlock, arfando.
— Ótimo. Obrigado. — Uma pausa. — Agora, a segunda pergunta: onde Amyus Crowe está agora?
A visão de Sherlock estava se reduzindo a um túnel embaçado. Ele sentia o sangue pulsando nos ouvidos, mas a pergunta ainda reverberava em sua cabeça. Ele não podia respondê-la – definitivamente não podia respondê-la! Mas se não o fizesse...
Ele não tinha escolha. Não podia entregar Amyus e Virginia.
— Não... sei... — disse, arquejante.
O homem calmo suspirou.
— Outra mentira. Você não teria vindo tão longe se não soubesse onde seu professor está. Você é teimoso ou apenas idiota?
Ele ergueu a mão mais uma vez, apenas um centímetro acima do joelho.
Desesperado, Sherlock tentou dar um chute na cabeça do homem agachado, mas a pedra em seus tornozelos era pesada demais. O homem estendeu a mão para as sombras e pegou outra pedra do mesmo tamanho. Esta também estava amarrada com um barbante e um anzol.
A corda já estava forçando o queixo de Sherlock para cima. Seus dedos começavam a ficar com câimbra. Ele não sabia quanto tempo ainda aguentaria sustentar o corpo e evitar a morte.
O homem aos pés de Sherlock prendeu o anzol na corda e soltou. A pedra bateu na que já estava pendurada. Sherlock sentiu como se seu peso tivesse dobrado desde que a corda fora amarrada em seu pescoço. Os músculos em seus ombros e braços tremiam com o esforço. Seu coração batia com força no peito, e sua visão se reduzira a um círculo do tamanho de uma moeda no meio de uma escuridão avermelhada. A corda em seus pés feria sua pele, e o peso parecia prestes a deslocar suas pernas das articulações. O homem agachado aos pés de Sherlock se mexeu, e o menino ouviu o som distinto das tábuas do piso rangendo sob o peso do homem. Da mesma forma, o sujeito que prendeu a corda na cabeça de Sherlock deu um passo para a direita, e mais uma vez Sherlock ouviu as tábuas do assoalho rangerem sob o peso do capataz. Mesmo com a audição prejudicada pelo alucinante pulsar do sangue, Sherlock percebeu no rangido um sinal de que a madeira talvez pudesse se estilhaçar subitamente. As tábuas eram velhas e estavam podres. O menino teve uma ideia.
No entanto, precisaria acertar o tempo exato; caso contrário, não funcionaria.
— Você parece realmente incapaz de entender sua situação atual — disse o homem calmo. Sua voz parecia vir de muito longe. — A dor já deve ser imensa, e duvido que você sobreviva a mais uma ou duas perguntas. Admiro muito sua resistência, mas seus amigos valem mesmo o tormento? No fim das contas, eles morreriam por você?
Sherlock precisou obrigar as palavras a passar uma de cada vez pela garganta comprimida.
— Não... importa... o... que... eles... fariam. — Ofegou em busca de ar. — Importa... o... que... eu... faço!
— Ah, um homem de princípios. Uma raridade... inútil. — O homem calmo suspirou. — Perguntarei de novo, e desta vez sugiro que você me dê uma resposta aceitável. Onde Amyus Crowe está agora?
— Não... sei! — grunhiu Sherlock.
O homem calmo ergueu a mão mais uma vez. A cabeça de Sherlock estava tão inclinada pelo peso das pedras a seus pés e pela pressão do laço em seu pescoço que ele não conseguia olhar para baixo, mas ouviu o barulho de atrito da rocha na madeira quando o sujeito agachado pegou outra pedra das sombras. Quantas havia ali?
Um instante de silêncio, enquanto o homem prendia a pedra à corda e em seguida a soltava. A dor súbita do choque foi tão grande que era como se o próprio Amyus Crowe estivesse puxando as pernas de Sherlock. Os braços do menino estavam prestes a serem deslocados do ombro enquanto ele tentava desesperadamente se segurar à corda para evitar que o peso do corpo fosse sustentado pelo laço no pescoço. Mesmo assim, a corda apertava sua garganta com tanta força que ele mal conseguia respirar. O problema era que ele precisava piorar a situação para poder escapar.
Com o último vestígio de energia que lhe restava, Sherlock firmou a mão direita na corda, acima da cabeça, e flexionou os músculos do braço com a maior força possível. E então soltou a mão esquerda.
De repente, o peso inteiro de seu corpo e das três pedras estava sendo sustentado pela sua mão direita e seu pescoço. Antes que seus dedos escorregassem pela corda e deixassem o peso todo recair apenas no pescoço, Sherlock baixou a mão esquerda e a enfiou no bolso da calça. Seus dedos se fecharam em torno do cabo da faca de Matty – o canivete que ele usara para furar o tanque no curtume de Josh Harkness e com a qual o próprio Sherlock ligara os furos na parede do chalé de Amyus Crowe, formando uma seta. Ele tirou a faca do bolso e, com um movimento rápido do pulso, abriu a lâmina. Sentindo – e não vendo – que os homens que o cercavam se aproximavam para impedi-lo de fazer o que quer que ele pretendesse, o menino ergueu o braço e traçou um arco no ar com a faca.
A lâmina atravessou a corda logo acima de sua cabeça. De repente, o laço em seu pescoço ficou menos apertado e ele caiu, sentindo os pulmões se encherem de ar puro e fresco como água de nascente. As pedras bateram no assoalho. Em uma fração de segundo os pés de Sherlock atingiram as pedras. O peso delas, somado ao do seu corpo e dos homens que já estavam junto dele, foi demais para a madeira apodrecida, que rachou e se partiu, abrindo um buraco pelo qual os três caíram até o andar inferior.
Sherlock contorceu o corpo ao desabar, recolhendo os joelhos para cair em cima dos homens. Ao cair, sentiu a madeira do piso ralar sua pele. O barulho dos homens atingindo o piso foi como o de uma explosão. A madeira cedeu com o impacto súbito, fazendo-os cair na terra úmida abaixo.
Assustados pela luz repentina, ratos e baratas fugiram para todos os cantos. Desajeitado, Sherlock puxou a corda no pescoço desesperadamente. O nó afrouxou, e ele conseguiu tirá-la por cima da cabeça e jogá-la de lado.
O menino alternou o olhar entre os homens e o buraco que ele havia criado no andar de cima, mas os sujeitos apenas gemiam e se retorciam de dor, e ninguém apareceu em cima do buraco para olhar para baixo.
Ele afrouxou o nó em torno dos pés. A corda apertada fizera sua pele inchar, e ele desconfiava de que o mesmo acontecera no pescoço, mas não se importava. Estava livre!
Ele se levantou, mas logo em seguida caiu. Suas pernas não aguentaram o peso. Ele sabia, no entanto, que não podia ficar ali no chão, então tentou outra vez. E mais uma. Era apenas uma questão de força de vontade, Sherlock dizia a si mesmo. Seu corpo faria o que ele mandava, não o contrário.
Na quarta tentativa, as pernas ficaram mais ou menos firmes, exceto pelo tremor dos músculos. O menino respirou fundo e cambaleou pelo cômodo até a escada. Nem pensara em fugir da casa. Matty e Rufus estavam lá em cima, indefesos e vulneráveis. Ele precisava resgatá-los, por maior que fosse o risco.
Subir a escada talvez tenha sido a parte mais difícil. Seus músculos berravam por causa do esforço, e ele quase desmaiou duas vezes. Quando chegou ao topo, estendeu a faca na frente do corpo e entrou no cômodo onde havia sido torturado, pronto para lutar, mas o homem calmo havia ido embora. Desaparecera. Sherlock não entendeu como ele havia saído – a janela estava fechada e o único outro acesso era a escada por onde ele havia acabado de subir – mas o sujeito fugira. Só restavam Rufus Stone e Matty.
Matty continuava encolhido, com a cabeça coberta. Sherlock olhou para Rufus – ensanguentado, mas sorridente – que apontou com a cabeça para Matty.
— Cuide dele antes, rapaz — disse. Sua voz saía como se sua boca estivesse cheia de castanhas, o que Sherlock supunha ser o resultado da surra recebida. — Sinto como se tivesse lutado vários rounds com um pugilista sem luvas e, acredite em mim, já passei por essa experiência, mas estou bem. O menino não se mexeu desde que foi jogado ali. Talvez precise de ajuda. — Ele balançou a cabeça em admiração. — Foi uma improvisação incrível aquela, aliás. Se eu chegar aos cem anos, o que, a propósito, tenho grande intenção de fazer, duvido que volte a ver algo semelhante.
Sherlock foi até Matty e se ajoelhou. Preocupado com o que poderia encontrar, estendeu as mãos com cautela e puxou o saco de cima da cabeça do amigo. Os olhos cinzentos e azulados de Matty o encararam, impressionados.
— Você está bem — sussurrou Sherlock.
— Eu sempre tô bem.
— Achei que... você não se mexia, então...
Matty sorriu.
— Aprendi que, em situações como esta, o melhor a fazer é imitar um porco-espinho: se encolher todo e esperar as coisas se acalmarem. Se isso não der certo, então imite um texugo: ataque tudo loucamente, mordendo e arranhando o máximo possível.
Sherlock o ajudou a se levantar, e os dois libertaram Rufus das amarras. Sherlock estava preocupado com a quantidade de sangue nas mãos, no rosto e na camisa de Rufus, mas o violinista não se inquietou.
— Já fiquei pior caindo de telhados — disse ele —, mas terei que ficar algum tempo sem tocar violino com pizzicato. O que aconteceu com aqueles dois brutamontes? Eles devem voltar?
Sherlock se aproximou cuidadosamente do buraco no chão, ciente de que o restante do piso poderia desabar a qualquer momento, e olhou para baixo. Os homens continuavam caídos no buraco que o corpo deles havia criado. Eles gemiam, mas parecia que não sairiam dali tão cedo.
— Estou vendo os dois — respondeu Sherlock —, mas acho que não precisamos nos preocupar. Pelo menos não por enquanto.
— Tudo bem. Sherlock, minha admiração por você é infinita.
— O que aconteceu, Rufus? — perguntou Sherlock. — Perdemos você em Newcastle.
Rufus fez uma careta.
— Eles estavam nos seguindo desde Farnham — respondeu. — Pelo que ouvi, encontraram o chalé de Amyus Crowe vazio e deixaram alguém de vigia para o caso de o homem voltar. Foi aquele camarada de rabo de cavalo e sem orelha.
Sherlock franziu o cenho.
— Não o vi lá. E olhe que vasculhamos a casa toda.
— Ele estava escondido em algum lugar do lado de fora. Havia feito um buraco na parede e ligado um tubo acústico do chalé até seu esconderijo, passando por baixo da terra. Ouviu tudo que vocês disseram.
— Um tubo acústico? — perguntou Matty, confuso.
— Algo como o que o comandante de um navio usa para conversar com a sala de máquinas: um tubo de tecido reforçado e encerado. Se você falar em uma das entradas, alguém na outra ponta ouve claramente a centenas de metros de distância.
— Quem diria? — murmurou Matty, mas Sherlock estava se recriminando.
Ele vira um tubo assim saindo do chalé de Amyus Crowe, mas não dera importância àquilo na ocasião. Agora, jurou nunca mais ignorar qualquer coisa que parecesse deslocado ou estranho.
— Ele os ouviu na casa — continuou Rufus —, depois saiu atrás de vocês e os escutou falando de Edimburgo. — Rufus balançou a cabeça em lamentação. — Depois de avisar a seus compatriotas, só precisaram nos seguir até a estação de King’s Cross e pegar o mesmo trem. Decidiram capturar um de nós em Newcastle para descobrir onde exatamente Amyus Crowe estava escondido em Edimburgo, se é que você havia acertado e ele estava de fato na cidade. — Rufus olhou para as próprias mãos ensanguentadas; tinha uma expressão triste no rosto. — Eles descobriram que eu não sabia nada além do fato de que ele estava em algum lugar por aqui, então me mantiveram em silêncio e me trouxeram junto caso pudessem me usar contra vocês. Estávamos no mesmo trem que vocês, mas o líder, o que fez as perguntas, havia reservado uma cabine inteira, para que não fôssemos incomodados, e eles esperaram até a plataforma ficar vazia para desembarcar. Quando chegamos a Edimburgo, arranjaram um lugar para montar a base de operações e deram um tempo para que vocês entrassem em contato com o Sr. Crowe, ou ele com vocês. Hoje de manhã resolveram raptá-los para descobrir se vocês sabiam mais do que eu. E, pelo visto, não sabem.
— Na verdade — disse Sherlock —, sabemos sim. — Ele olhou para o jornal no chão, agora uma massa encharcada. Mas não tinha problema: ele havia decorado a mensagem. — O que ainda não sabemos é por que eles estão atrás do Sr. Crowe. — Sherlock fitou as mãos de Rufus. — Você... você vai poder voltar a tocar violino?
— Preocupado com suas aulas? Nada de reembolso, camarada. — Rufus ergueu as mãos diante do rosto e tentou dobrar os dedos. Fez uma careta de dor, mas continuou flexionando-os. — Os músculos e tendões estão intactos. Os cortes e inchaços vão sarar com o tempo. Não vou arriscar nada de Paganini tão cedo, mas o restante do repertório está à minha disposição.
Sherlock olhou em volta.
— O que aconteceu com o homem que fazia as perguntas? O que tinha a bengala com uma caveira dourada?
Rufus franziu a testa.
— Ele não passou por você? Achei que tivesse descido pela escada.
— Não o vi. — Sherlock se lembrou da mão do sujeito, iluminada pela luz da janela, e acrescentou: — Qual era o problema da pele dele?
— Ah, você percebeu? — Sherlock assentiu, e Rufus explicou: — Ele tinha tatuagens no corpo inteiro. Rosto, pescoço, mãos, braços... tudo.
— Que tipo de tatuagens? — perguntou Sherlock.
— Nomes — respondeu Stone. — Nomes de pessoas. Alguns em tinta preta, outros, em vermelho. Na testa havia um maior que os outros, em vermelho. — Ele ergueu o olhar para Sherlock. — Era o nome de Virginia Crowe.

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