7 de agosto de 2017

Capítulo dez

A MÃO DO VELHO POUSOU no ombro de Sherlock.
— Tem uma porta nos fundos — sussurrou ele. — Ela dá em uma viela. Vá; você tem minha bênção.
— Ele pode estar lá no fundo — disse a primeira voz.
Sherlock agradeceu com um breve aceno, e o dono da loja arrastou os pés até as prateleiras.
— Está procurando livros, talvez? Sobre boxe, a julgar por suas orelhas. Ou luvas para proteger as mãos?
— Procuramos um menino que entrou aqui — respondeu o de voz mais áspera.
— Não deixo meninos entrarem na loja — disse o velho. — Eles roubam. São ladrões, todos eles.
— Mas eu vi um entrar...
As vozes ficaram para trás quando Sherlock atravessou o apertado depósito atrás da loja até uma porta que se abria para uma viela cheia de lixo perpendicular à avenida do outro lado. Ele olhou para os dois lados. Não havia ninguém. Sherlock correu o mais rápido que foi capaz de volta para Charing Cross Road, com o coração martelando no peito e o estojo do violino batendo em suas pernas.
Bem, isso respondia pelo menos a uma pergunta. Quem havia armado aquela cilada para Mycroft ainda estava interessado neles.
Mantendo-se em meio à multidão e sempre atento às pessoas ao seu redor, Sherlock atravessou Londres de volta ao Hotel Sarbonnier. Quando chegou lá, os pulmões ardendo pelo esforço da corrida, encontrou Mycroft conversando com um homem enorme, que parecia ainda maior por causa do volumoso casaco que usava. Seus ombros, pensou Sherlock, eram tão largos que o faziam parecer um armário. O abundante cabelo vermelho não ficava só na parte de cima da cabeça: transformava-se em exuberantes costeletas, um bigode extravagante e uma vasta barba retangular.
— Ah, esse é o Sr. Kyte — disse Mycroft, interrompendo a conversa. — Ele é gerente e diretor de elenco da Companhia Teatral Kyte. Sr. Kyte este aqui é meu... pupilo... Scott Eckersley.
Ele lançou a Sherlock um olhar de advertência, mas o menino já havia compreendido que ele, e provavelmente também Mycroft, usava um nome falso.
— É um prazer conhecê-lo, senhor — respondeu Sherlock, apertando a mão do homem.
O dorso das mãos do Sr. Kyte era coberto por pelos castanho-avermelhados, e as palmas fizeram cócegas nas mãos de Sherlock, como se também nascessem pelos nelas.
— O prazer é meu, filho. — A voz dele era um chiado profundo. — O Sr. Sigerson aqui me contou que você é muito bom com cordas e cenários.
— Isso eu sou, senhor — respondeu Sherlock, com animação.
Por dentro, tentava descobrir do que o sujeito estava falando. Ele olhou para o rosto do Sr. Kyte. Havia algo estranho nele, uma série de pequeninos cortes em torno dos olhos, nariz e bochechas.
Como aquilo havia acontecido?
— Muito bom. Muito bom mesmo. Bem, apareçam no teatro mais tarde para conhecer o elenco e a equipe. — Ele olhou para Mycroft, ou Sr. Sigerson, como Sherlock agora precisava chamar. — Mais uma vez, obrigado por se juntar à nossa equipe tão variada. Tenho certeza de que será uma aventura digna de contar aos netos!
— Realmente — concordou Mycroft. — É muito improvável que eu tenha netos, mas, por precaução, farei copiosas anotações.
O Sr. Kyte partiu, e Sherlock olhou para Mycroft.
— Sr. Sigerson? O filho de Siger? Não podia ter pensado em um nome melhor?
— Eu estava pensando em pé — respondeu Mycroft. — Não é a posição mais confortável para mim. — Olhou para o estojo do violino sob o braço de Sherlock. — O que é isso?
— É... um violino. Em um estojo.
— Sim, isso eu já percebi. A pergunta foi retórica. Você já estudou retórica nas aulas de grego na escola, não? A questão que ela deveria ter provocado em sua mente era: por que comprou um violino quando devia ter comprado roupas quentes, como falei?
Sherlock pensou depressa.
— Havia dois homens me procurando — disse. — Entrei em uma loja. Eles me seguiram. Precisei sair pelos fundos. Comprei o violino em um impulso porque...
— Porque precisava de alguma coisa para mudar seu perfil, para ficar diferente — concluiu Mycroft. Pelo tom de voz, Sherlock deduziu que ele estava em dúvida sobre a história. — Esse é um desenrolar preocupante: significa que ainda estão procurando por você e, portanto, pelo Sr. Crowe e por mim também. Isso torna ainda mais imperativo deixarmos Londres, na verdade, o país, e o mais depressa possível.
Enquanto Mycroft falava, Sherlock começou a se sentir desconfortável. Não havia mentido para o irmão, mas alterara a ordem dos acontecimentos para dar a impressão de que tivera um motivo para comprar o violino, além da paixão imediata pelo instrumento.
— Bem, suponho que possamos fazer uma fogueira com o violino, se necessário for. Quanto custou? — Ele levantou a mão. — Não, não me conte. Prefiro permanecer feliz na ignorância. Vá guardar... isso... no quarto, depois volte para almoçarmos.
— Mas você acabou de tomar café.
— Sherlock, se eu quiser ser repreendido, só preciso voltar para casa e conversar com a senhoria.
Sherlock subiu a escada rapidamente para o quarto que Amyus Crowe havia reservado para ele e deixou o violino em cima da cama. Ao sair, notou que a porta do quarto vizinho, em que Crowe estava hospedado, estava aberta. Sherlock espiou lá dentro, esperando ver Crowe, mas havia uma camareira fazendo a cama. A valise de Crowe havia desaparecido.
— Com licença... O que aconteceu com o homem hospedado neste quarto?
— Ele fechou a conta, senhor — respondeu a camareira, virando-se para se curvar numa mesura.
— Fechou a conta?
— Sim, senhor. Inesperado, é o que foi.
— Ah, obrigado.
Sherlock desceu correndo para avisar a Mycroft, mas Crowe estava no saguão do hotel, com seu casaco e a mala no chão ao seu lado.
— Ah, Sherlock, esperava vê-lo.
— Está indo embora?
— Não tenho o que fazer aqui. Seu irmão está tirando você das minhas mãos. Devo voltar e cuidar de Ginnie.
— Mas...
Sherlock não sabia o que dizer. Crowe estava certo.
— Exatamente. É inútil lutar contra os fatos. Não sou necessário nesta viagem. Está tudo bem, sou um homem crescido. Sei lidar com isso.
— Queria que fosse conosco.
A expressão de Crowe era severa.
— Gostaria de ir também. Tem alguma coisa estranha nessa situação toda. Acho que a mente normalmente infalível de seu irmão foi afetada por ter sido trancafiado como um criminoso comum e porque os problemas estão se aproximando demais. Não consigo deixar de achar que ele cometeu um erro de cálculo em algum lugar, mas também não consigo identificar qual foi. Acredito que essa pequena visita à Rússia é um engano, mas não sei como convencê-lo a desistir. Já conversamos sobre esse assunto mais cedo. Ele está irredutível. Creio que o desaparecimento do agente em Moscou perturbou Mycroft mais do que ele quer admitir. — Crowe balançou a cabeça. — Nunca é fácil perder um membro da equipe. Já aconteceu comigo mais de uma vez. Mesmo assim, não entendo a necessidade de arrastar você junto.
— Mande minhas... lembranças a Virginia.
— Eu mandarei, é claro. — Crowe estendeu a mão. Sherlock a apertou solenemente, e seus dedos desapareceram entre os dele, muito maiores. — Cuide-se, e cuide de Mycroft. Ele não vai estar bem ambientado.
Um carregador do hotel se aproximou para pegar a valise de Crowe, mas ele o dispensou com um gesto.
— No dia em que eu estiver velho demais para carregar minha bagagem, então pedirei ajuda — disse. Em seguida, pegou a valise e a jogou sobre o ombro. — Vá nos visitar quando voltar. Vou querer saber tudo que aconteceu.
— Farei isso.
Sherlock ficou observando Crowe deixar o hotel sem olhar para trás. Era como se um pedaço dele houvesse sido arrancado. Sentia-se vulnerável e sozinho.
Depois de alguns instantes, Sherlock se dirigiu ao restaurante, onde Mycroft estava sentado à mesa com um linguado inteiro no prato. Ele cortava meticulosamente o peixe em filés usando garfo e faca.
— Se eu fosse o Bom Deus — disse Mycroft puxando assunto enquanto Sherlock sentava-se, desconsolado —, teria feito com que os peixes comestíveis fossem fáceis de comer. Parece uma falha de projeto que algo tão gostoso tenha tantas espinhas. Ou é para comer, ou não é; não devia haver meio-termo. — Ele levantou o olhar. — O Sr. Crowe já partiu?
— Sim.
— Bom. — Mycroft levantou com a faca uma fatia do peixe e a transferiu para o garfo cuidadosamente. — Ele não aprova meu plano de levar você para a Rússia.
— Ele disse que vocês haviam discutido.
— Sim. Ele expressou sua opinião com bastante veemência. É muito protetor com relação a você, como deve saber.
— Enfrentamos várias situações juntos nesse último ano.
— De fato. — Mycroft pôs o pedaço de peixe na boca e mastigou por um momento com os olhos fechados. — Esplêndido. O molho de manteiga negra é requintado. Preciso me lembrar deste lugar. Não fica tão longe do meu escritório, não a ponto de eu não poder vir almoçar aqui regularmente.
— Mycroft, tem certeza de que devemos ir disfarçados à Rússia?
— Já considerei essa questão exaustivamente, e não vejo alternativa. — Ele olhou para o relógio. — O terceiro membro de nosso grupo deve juntar-se a nós a qualquer momento. Mandei um telegrama para ele mais cedo. — Mycroft olhou rapidamente para Sherlock. — Preciso preveni-lo sobre algo. Eu disse que esse homem era um de meus agentes, e que era violinista.
— Sim?
— O que não disse é que você já o conhece.
Sherlock ouviu as palavras, mas não as compreendeu.
— Eu o conheço? Mas não conheço nenhum de seus agentes. Nunca conheci, exceto talvez o Sr. Crowe, mas não creio que ele conte realmente como um agente.
— Sem dúvida, não conta. — A expressão de Mycroft era típica de alguém que se prepara para dar más notícias. — Sherlock — disse ele, olhando além do irmão —, creio que já conhece Rufus Stone.
Sete palavras. Sete palavras que caíram como pedras no poço profundo que era a mente de Sherlock. Sentia as ondas se formando e se alastrando por muito tempo depois da declaração de Mycroft. Ele virou a cabeça para descobrir para onde o irmão estava olhando, mas sua mente lógica e analítica já sabia. A outra parte, o emocional que ainda pertencia a um menino de catorze anos, esperava que não fosse verdade, que a pessoa atrás dele fosse um completo desconhecido.
Mas não era, e o emocional do menino de catorze anos se encolheu um pouco mais do que já estava encolhido.
Rufus Stone estava de pé atrás dele. Rufus Stone, com seus cabelos castanhos e despenteados, a barba por fazer e o paletó de veludo verde. Ele usava uma argola de ouro na orelha e parecia desconfortável, como se quisesse muito estar em outro lugar – qualquer lugar, menos ali. Sherlock certamente queria.
— Sente-se — disse Mycroft. — Está fazendo o lugar parecer bagunçado. Não se incomode com os garçons; não creio que recebam muitos ciganos violinistas aqui. A experiência vai fazer-lhes bem.
— Olá, Sherlock — cumprimentou Stone ao se sentar.
— Você trabalha para meu irmão? — perguntou o menino. — Por que não me contou nada?
— Porque eu disse para não contar — explicou Mycroft. — Quando decidimos que você e Amyus Crowe iriam aos Estados Unidos alguns meses atrás, tive receio de que o Sr. Crowe acabasse envolvido em negócios paralelos ou descobrisse de repente que amava muito sua terra natal e não quisesse voltar à Inglaterra. Tomei providências para que o Sr. Stone embarcasse no mesmo navio, e o instruí para ficar de olho em você. Em Nova York, ele deveria segui-lo e garantir sua segurança. — Mycroft sufocou uma risada irônica. — Essa parte não saiu como eu havia previsto, é claro, graças à sua decisão de seguir os homens que haviam capturado o jovem Matthew Arnatt e embarcar em um trem para sabe-se lá onde.
— Você trabalha para meu irmão! — repetiu Sherlock.
O pensamento era como um obstáculo em sua mente, uma barreira grande demais para ele transpor.
— Tenho de acrescentar — continuou Mycroft — que as aulas de violino não faziam parte das instruções.
— Não, isso foi escolha minha — reconheceu Stone. — E foi um prazer.
— Mas o que você faz para Mycroft? — quis saber Sherlock.
Rufus Stone deu de ombros.
— Na maior parte do tempo, viajo livre como um pássaro, pobre como um, também. Posso me movimentar sem ser verificado ou impedido por vários países da Europa Central. Ninguém incomoda um violinista itinerante como eu. Ouço rumores e escuto coisas em tavernas e lugares do tipo, e depois passo todas as informações para o Sr. Holmes aqui.
— Em geral, é possível fazer um julgamento melhor sobre o estado da economia de um país ouvindo o que os fazendeiros conversam enquanto bebem cerveja do que lendo os jornais — explicou Mycroft. — Tenho muitas pessoas, em vários lugares do mundo, cuja única tarefa é colher as informações do povo, peneirá-las e mandar para mim as sementes da verdade.
— E a mudança para Farnham? — As mãos de Sherlock tremiam, e ele teve de segurá-las embaixo da mesa para impedir que os outros percebessem. Sentia-se traído. — De quem foi essa ideia?
Stone olhou para Mycroft. Quando o irmão de Sherlock permaneceu em silêncio, ele disse:
— Quando voltei à Inglaterra, o Sr. Holmes pediu para que eu ficasse no país por um tempo, para tentar descobrir alguma coisa sobre a situação daqui. Sugeri começar por Hampshire. — Ele parou, constrangido. — Queria ver como você estava se saindo com o violino.
— Comprei um violino novo — contou Sherlock.
A voz dele soou baixa até para os próprios ouvidos.
— Gostaria de vê-lo.
Mycroft tossiu.
— O Sr. Stone vai nos acompanhar na viagem à Rússia. Ele já foi para lá antes, e é claro que precisamos de um violinista para completar o disfarce da companhia teatral. — Ele parou por um momento, depois prosseguiu com a voz mais macia. — Sherlock, acredite em mim, eu nunca teria feito nada disso se não fosse para seu bem, e não teria permitido que você descobrisse o que fiz se não fosse completamente necessário.
— Isso não faz com que seja correto — retrucou Sherlock. E se levantou. — Vou sair.
— Esteja no King’s Theatre em Whitechapel às quatro da tarde — instruiu Mycroft. — Vamos conhecer nossos companheiros de viagem.
Sherlock foi embora sem responder. Atrás dele, ouviu Mycroft dizer:
— Não, deixe-o ir. Ele vai acabar entendendo, com o tempo, que o que fiz foi inteiramente lógico e para a proteção dele.
Sherlock saiu do hotel para a rua. Começava a chover, e ele sentia os pingos frios no rosto, mas não parecia se importar. Tudo à sua volta era cinza e desinteressante. Sem significado.
Virou à esquerda e começou a andar sem se importar com a direção em que seguia. Estava sufocando os pensamentos, impedindo reflexões sobre o irmão, Rufus Stone ou aquela viagem aos Estados Unidos, que agora descobrira ter sido, em sua maior parte, uma ficção. Apenas andava; andava e observava. Como uma espécie de máquina calculadora ambulante, ele analisava os fatos que o cercavam e deixava a mente reuni-los. O homem com o lenço de estampa vermelha envolvendo o pescoço naquela soleira contraíra uma enfermidade, provavelmente na Índia, e morreria dentro de uma semana, a julgar pelo estado de sua pele. O relógio que o cavalheiro de cartola examinava não era dele: provavelmente o roubara de alguém, e o roubo havia acontecido recentemente. O mendigo na esquina, aquele no carrinho de mão com a placa no pescoço anunciando que era paralítico, na verdade caminhava vários quilômetros por dia, considerando o desgaste recente dos sapatos. Tudo isso Sherlock deduzia a partir do que observava, e nada tinha importância para ele. Nada importava.
Ele perdeu a noção do tempo enquanto caminhava, mas, quando consultou o relógio e descobriu que eram quase quatro horas, notou que já estava perto de Whitechapel. A mente o guiara na direção certa sem que ele percebesse.
O teatro ficava escondido em uma rua secundária que saía de uma via de grande movimento. A frente do prédio era de tijolos vermelhos e colunas brancas; quatro degraus conduziam ao portão principal. Sherlock subiu a escadaria com dificuldade e entrou. Não havia ninguém no saguão, e a bilheteria estava fechada, mas ele quase podia sentir a essência do público que ocupava o lugar regularmente: um resto de fumaça de cigarro, água de colônia e perfume, absorvidos pelo gesso esculpido das paredes e do teto.
Escadas subiam a partir dos dois lados do saguão, presumivelmente para os assentos da plateia, mas nas paredes do outro lado havia um par de portas que ele imaginava levarem direto para as primeiras fileiras de poltronas. A porta ao lado da bilheteria devia dar passagem para os bastidores: camarins, vestiários e o próprio palco.
Sherlock ficou parado por um momento, percebendo os aromas do teatro, os suspiros do prédio, os velhos cartazes emoldurados atrás de vidros pendurados nas paredes. Havia algo quase vivo naquele lugar. Ele já estivera em vários prédios públicos, mas esse era o único que parecia ter absorvido alguma coisa boa das pessoas que passaram por suas portas. A Escola Deepdene para Meninos fedia a desespero, e o Diogenes Club dava a impressão de ser inquieto e irritável, mas o King’s Theatre era como um lar em que nunca havia estado.
Ele caminhou até a porta principal da plateia e a abriu.
O espaço interno era menor do que esperava. Fileiras de assentos cobertos por veludo verde descreviam uma curva dos dois lados e iam para baixo no centro. A parte inferior do círculo de assentos acima dele era como uma nuvem escura e baixa. Era sustentado por colunas de ferro que haviam sido forjadas de maneira artística e pintadas de marrom, vermelho e verde, como árvores esguias com folhas e flores. Camarotes delimitados por cortinas ficavam nas paredes dos dois lados, contendo números reduzidos de assentos privativos para quem tivesse dinheiro para pagar por eles.
Assim os ingressos eram cobrados, Sherlock sabia: a plateia era a área mais barata, a parte superior vinha em seguida, e os camarotes eram os mais caros, embora “caro” fosse provavelmente um termo relativo para um teatro pequeno e isolado como esse. Corredores interrompiam a sequência de assentos da plateia e levavam até o palco.
No palco havia um grupo de pessoas, inclusive seu irmão. Mycroft estava resplandecente de sobretudo, cartola e uma bengala. Por um momento, Sherlock olhou para ele e conseguiu vê-lo como uma pessoa, não como seu irmão. Para ele, Mycroft tinha uma autoridade natural; irradiava importância e poder.
Rufus Stone estava ao lado, um pouco atrás. O homem ruivo e peludo como um urso que Sherlock havia conhecido mais cedo, Sr. Kyte, estava de pé ao lado de Mycroft, ainda vestindo o enorme casaco, e do outro lado havia um grupo de pessoas que Sherlock presumia serem os atores e a equipe. Os atores vestiam figurinos de época: vestidos de veludo ornamentados para as mulheres, camisas de renda e calças bufantes para os homens.
— Ah, Scott — falou Mycroft. Sua voz retumbou pelo auditório. — Venha juntar-se a nós.
Sherlock desceu por um dos corredores. A passagem para o palco era bloqueada por uma área cercada que Sherlock supôs servir para acomodar uma pequena orquestra para os musicais. Ele olhou para a esquerda e para a direita. Duas escadas de cinco degraus levavam do chão ao palco, uma de cada lado. Sem motivo, ele decidiu subir pelo lado direito.
Quando chegou ao palco, surpreendeu-se ao descobrir que o piso era meio inclinado, aproximadamente trinta centímetros mais baixo na frente que no fundo. Ele deduziu que a inclinação servia para dar aos espectadores uma visão melhor, especialmente àqueles que ficavam nos assentos mais baratos, dos quais talvez até tivessem de olhar para cima para ver os atores. A beirada do palco era delimitada por lamparinas a gás atrás de refletores, e havia um alçapão no centro.
Ele atravessou o palco e se aproximou de Mycroft, sentindo que todos o observavam.
— Já apresentei Rufus Stone, que vai tocar violino no poço — anunciou Mycroft imponente. — Permitam-me, então, apresentar meu pupilo, Sr. Scott Eckersley. Com a bondosa permissão do Sr. Kyte, Scott vai se juntar à companhia como faz-tudo. — Ele olhou para Sherlock. — Scott, quero que conheça o elenco e a equipe. — Ele apontou um homem alto com longos cabelos louros escovados para trás em uma testa larga. Vestia um figurino. — Esse é o Sr. Thomas Malvin. Ele é o ator principal da companhia.
Malvin assentiu para Sherlock, quase sem olhar em sua direção.
— E essa — continuou Mycroft, mostrando uma bela mulher de pele clara, olhos verdes e cabelos negros que sorriu para Sherlock — é a Srta. Aiofe Dimmock. Ela é a atriz principal para os papéis românticos e contracena com o Sr. Malvin.
Sherlock retribuiu o sorriso. Aiofe devia ser dez anos mais velha que ele, pelo menos, mas havia algo naquele sorriso e nos olhos verdes que fez seu coração parar.
Desviando o olhar de Aiofe Dimmock, Sherlock direcionou a atenção para onde apontava Mycroft.
— O Sr. William Furness e a Sra. Diane Loran são valiosos coadjuvantes, que colaboram bastante com os dois atores principais — disse ele.
William Furness era um homem corpulento com cabelos pintados de preto formando uma coroa na parte de trás da cabeça. Seu nariz era inchado e redondo, e as faces exibiam veias vermelhas típicas de alguém que bebe demais. As veias deviam ser cobertas pela maquiagem nas raras apresentações que o incluíam, mas não havia muito que pudesse disfarçar o nariz de couve-flor, exceto a distância. Ele levantou dois dedos e tocou a testa em uma continência debochada. A Sra. Loran era uma matrona com cabelos pintados de vermelho e presos em um coque. Ela dava a impressão de que estaria mais à vontade em uma cozinha do que no palco. A mulher sorriu afetuosamente para Sherlock e, se estivessem mais próximos, ele suspeitava de que a mulher poderia tê-lo abraçado.
— Com o Sr. Kyte — disse Mycroft —, que frequentemente aparece em cena com o Sr. Malvin e a Srta. Dimmock, além de administrar a companhia, esses quatro são os atores principais. Os outros que você vê aqui participam das cenas que exigem maior número de pessoas e desempenham papéis menores quando não estão cuidando dos cenários. Da esquerda para a direita, temos Rhydian, Judah, Pauly e Henry.
Sherlock cumprimentou com acenos de cabeça os quatro rapazes mais ou menos da sua idade, que permaneciam atrás dos atores principais. Rhydian era magro e moreno, com queixo pontudo e sobrancelhas grossas. Judah também era magro, mas seu cabelo era tão claro e fino que parecia quase branco e flutuava em torno da cabeça, e os olhos estavam avermelhados. Pauly e Henry eram gêmeos: ambos musculosos e de olhos castanhos. A única diferença era que Pauly (Sherlock imaginou que fosse Pauly, porque estava mais perto de Mycroft) havia perdido o dedo mínimo da mão esquerda.
Alguém tossiu na lateral do palco. Sherlock olhou para as sombras e conseguiu vislumbrar um homem alto cuja boca era encoberta por um grosso bigode preto. Ele parecia estar quase inclinado para trás, com as mãos nos bolsos, e olhava para as pessoas no palco. Seus olhos brilhavam na escuridão.
— Ah, sim, quase esqueci — disse Mycroft. — O restante da orquestra vai se juntar a nós mais tarde, mas aquele é o Sr. Eves. Ele é o maestro e compositor.
— Sr. Eves — cumprimentou Sherlock.
— Sr... Eckersley — respondeu o maestro. A voz dele soou seca e lacônica. — É um prazer conhecê-lo, tenho certeza.
— Sr. Kyte, senhoras e senhores — Mycroft, ou melhor, Sr. Sigerson, como Sherlock sabia que deveria ser conhecido de agora em diante, proclamou —, agradeço por depositarem em nós sua confiança e por nos terem acolhido em sua companhia, e, espero, em seus corações. O Sr. Kyte já viu minhas referências e sabe que sou confiável, que servirei a vocês como já servi a outras companhias teatrais anteriormente. Assumo o cargo de gerente geral e me comprometo a desempenhar minhas funções da melhor forma que puder, e assim levá-los sempre à frente e além. Para isso, minha primeira responsabilidade é assegurar que a viagem a Moscou ocorra sem incidentes. Meu objetivo é garantir que todas as transações sejam concluídas rapidamente e sem transtornos, de forma que vocês possam se concentrar em seus esforços artísticos. Confiem em mim, e eu não os desapontarei.
Aplausos escassos seguiram suas palavras.
— E, com isso — manifestou-se o Sr. Kyte —, sugiro que voltemos ao ensaio. Pausa de cinco minutos, pessoal, e depois disso quero todos no palco. Lembrem-se, partiremos para Moscou em três dias!

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