30 de agosto de 2017

Capítulo cinco

DE PÉ SOBRE O CAIS, SHERLOCK ficou impressionado com a muralha da cidade que pairava sobre tudo. A pedra estava em óbvio desuso, mas ele também podia ver cicatrizes que pareciam ter sido resultado de balas de canhão que atingiram as paredes e foram repelidas. As cicatrizes pareciam frescas – a pedra por baixo ainda brilhava, não estava escurecida pela idade e não estava coberta de musgo. Era como se tivesse havido algum tipo de combate em volta da cidade em um passado não muito distante. Ele se perguntou o que teria acontecido – e se era provável acontecer de novo, enquanto ele estivesse lá.
Para a direita estava o portão da cidade. Guardas com elmos de metal e uniformes coloridos paravam todos os que queriam entrar na cidade – fazendo perguntas e verificando seus papéis.
Novamente, era uma evidência de que não havia distúrbios no país. Ele esperava que as coisas permanecessem calmas enquanto estivesse ali. Os locais poderiam ter quaisquer guerras e batalhas que quisessem, desde que esperassem até o Gloria Scott partir.
Sherlock observou enquanto várias pessoas passavam por ele. Os chineses em sua maioria vestiam variações das roupas largas e leves que ele vira mais cedo no navio, embora alguns estivessem com combinações de calças largas e uma camisa de gola redonda. Os tecidos eram todos bordados, estampados ou tingidos em cores brilhantes. Era muito diferente do marrom, cinza e preto que ele estava acostumado a ver na Inglaterra, mas descobriu que algumas coisas ainda eram as mesmas. Ele poderia dizer vários ofícios com os sinais que ficavam. Um homem vindo em sua direção, provavelmente na casa dos trinta, tinha mãos que pareciam pertencer a alguém muito mais velho – enrugadas e brancas. Ele provavelmente esteve numa lavanderia, e passou a maior parte de seus dias de trabalho com as mãos na água quente e sabão. Outro homem tinha o rosto e os braços bronzeados, mas as mãos eram de um branco cadavérico. Ele era, possivelmente, um padeiro, e a brancura era causada pela farinha que revestia sua pele. Vários cozinheiros passaram por ele – pessoas que, como Wu Chung, tinham as mãos cobertas por minúsculos cortes. Inúmeros transeuntes tinham rugas e manchas de lama nas calças, e Sherlock provisoriamente os classificava como agricultores que passavam muito tempo ajoelhados plantando ou colhendo legumes.
Lembrando-se do envelope que o Sr. Larchmont tinha lhe entregado, ele puxou do bolso em que havia escondido e examinou seu conteúdo. Era um conjunto disperso de moedas de cobre de vários tipos. Não eram moedas britânicas. A maioria delas tinha buracos quadrados e símbolos estranhos em torno das bordas. Presumiu que fossem chinesas. Supôs que fosse lógico – não havia sentido em pagar a tripulação em libras esterlinas se as lojas locais só tinham moedas locais. Ele não tinha como saber que valor as moedas tinham, ou se somavam um salário justo pelas várias semanas que ele trabalhara a bordo do Gloria Scott, mas descobriu que particularmente não se importava. Dinheiro nunca teve importância para ele. Matty nunca entendera isso a seu respeito.
Antes que ele pudesse decidir o que fazer a seguir, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: uma mão pegou o envelope, e algo golpeou com força a parte inferior de suas costas, mandando-o para frente. Ele conseguiu se virar quando caiu, de modo que sua lateral bateu no chão, em vez de seu peito. Ele podia sentir as pedras contra sua pele.
Três meninos de cabelos escuros se agruparam onde ele estava parado. Eram todos do seu tamanho. Apesar de sua juventude óbvia, aquele que tinha tomado seu envelope possuía um bigode fino e o garoto à direita tinha uma barba rala. O terceiro rapaz estava bem barbeado, mas seu cabelo era longo e gorduroso.
Ao redor deles, as pessoas caminhavam como se nada desagradável estivesse acontecendo. Era como se estivessem em sua pequena bolha, separados do resto do mundo.
— Você não vai precisar disso, não é? — o que segurava o envelope falou em cantonês. Ele segurava o envelope para cima sorrindo. — Basta falar se o quiser de volta.
Os três meninos riram.
— Sim, eu quero de volta — disse Sherlock, também em cantonês, quando ele ficou de pé e tirou a poeira de suas roupas.
Os meninos olharam para ele, surpresos.
— Você fala Yue? — o dos cabelos gordurosos exclamou. — Eu não sabia que os bárbaros brancos podiam aprender a nossa língua!
— Eu posso fazer mais do que falar a sua língua — disse Sherlock sombriamente. — Me devolva.
— Ou o quê? — o jovem de barba zombou.
Ele percebeu que seus pés e mãos assumiram naturalmente as posições defensivas do Tai Chi Chuan.
— Ou eu vou pegar de volta.
O menino olhou para seus amigos.
— Um contra três? Dificilmente justo. Um de nós poderia derrotar três de você, moleque.
— Os números não importam. Eu quero isso de volta mais do que vocês querem mantê-lo.
— E, além disso — disse outra voz em cantonês de um dos lados — não é um contra três – são dois contra três. Dois de nós podem enfrentar três de vocês facilmente.
Os três garotos viraram a cabeça para ver quem falava. Sherlock aproveitou a oportunidade para avançar e arrebatar o seu pagamento do menino que o havia roubado. A cabeça do menino girou de volta, e ele agarrou o envelope, mas Sherlock o tirou do caminho.
Do outro lado dos meninos estava um jovem ocidental da idade de Sherlock e com cerca de sua altura. Ele era magro e usava óculos de aros de metal. Seu cabelo era loiro, quase branco, puxado para trás e comprido o suficiente para cair sobre suas orelhas e pescoço. Suas roupas eram chinesas, mas de alguma forma mais limpa e nova do que os outros usavam.
O jovem de bigode se adiantou para pegar o envelope, ao mesmo tempo em que seus amigos decidiram retirar o recém-chegado da equação. Um deles – o barbado – estendeu a mão para empurrar o ombro do garoto loiro, enquanto o outro – aquele de cabelos oleosos – tentou passar por ele e colocar um pé atrás dele de modo que quando o garoto fosse empurrado, ele tropeçasse e caísse.
Sherlock agarrou o pulso que se aproximava com a mão direita e, em seguida, torceu seu corpo inteiro debaixo dele. O menino foi impulsionado para frente, forçado pela pressão em seu braço. Sherlock olhou para o recém-chegado. O garoto desviou facilmente a mão que se movia em direção ao seu ombro. Ele foi pra frente, em vez de para trás, deixando aquele de cabelo gorduroso fora de equilíbrio. Sua mão direita disparou, dedos curvados de modo que a palma da mão bateu nas costelas do jovem barbado. O jovem dobrou de dor.
Antes que o de cabelos gordurosos pudesse reagir, o loiro recém-chegado atacou com o cotovelo, acertando-o na face. O de cabelo gorduroso recuou, sangue escorrendo de seu nariz.
Sherlock sentiu o menino cujo braço ele estava torcendo tentando se libertar. Ele torceu com mais força. O menino atacou para trás com o pé, mas Sherlock tinha antecipado o movimento e se esquivou. Ele soltou o pulso do jovem, mas antes que o outro pudesse se recuperar, Sherlock o chutou com força no traseiro. Ele se inclinou pra frente e caiu de cara no chão.
— Melhor irmos agora — disse o garoto loiro em inglês. Ele puxou Sherlock para uma corrida. — Foi uma boa vitória, mas há três deles, e eles estudam artes marciais desde os cinco anos de idade.
— Nós não fomos ruins.
— Nós tivemos sorte. Os pegamos de surpresa. — Ele olhou ao redor. — Eles têm amigos nas proximidades. Eu sei como eles são. Apesar de passar a vida falando de comportamento honrado, eles não têm honra quando se trata de estrangeiros. Um grito e estaríamos cercados.
— Bom argumento — Sherlock admitiu.
Juntos, eles percorreram a multidão, fazendo curvas e ziguezagues para o caso de os garotos chineses os estarem seguindo. O menino loiro mudou de direção várias vezes. Eventualmente, ele levou Sherlock atrás de uma barraca que vendia pratos de peixe em algum tipo de molho. Um grupo de caixas havia sido deixado na grama, e ele gesticulou para Sherlock se sentar.
— Obrigado por me resgatar. — Disse Sherlock. — Apreciei sua assistência.
— Sem problemas — respondeu o menino. Ele tirou os óculos e poliu-os com um lenço que tirou do bolso. — Meu nome é Cameron. Cameron Mackenzie.
— Sherlock — Sherlock respondeu. — Sherlock Scott Holmes.
— Você é do navio que acabou de chegar — disse Cameron. Não foi uma pergunta – ele parecia já saber. — Mas você não é um marinheiro comum. É mais jovem do que a maioria deles, e não foi direto para as tabernas como eles fazem. — Ele riu – uma rápida bufada de ar, foi assim que Sherlock o ouviu. — Eles ganham seu dinheiro quando saem dos barcos e geralmente o gastam no momento em que chegam às portas da cidade – de outra maneira, os guardas não os deixariam entrar. Xangai ainda é uma cidade em isolamento. — Ele falou em inglês, embora houvesse um sotaque em sua voz que Sherlock achava familiar.
— Você obviamente vive aqui. — Disse Sherlock em troca. — Seu cantonês é excelente. Mas você é originalmente americano, não é? Eu reconheço o sotaque.
Cameron concordou.
— Bem, meu pai é. Viemos pra cá quando eu tinha cinco anos. — Ele enxugou a testa com o lenço e colocou seus óculos novamente. — Meu pai é um agente de transporte local. Ele compra cargas dos navios que atracam aqui e depois as vende para os empresários chineses com lucro. Foi assim que eu soube que seu navio tinha atracado. Eu te vi descer a ponte mais tarde que todos os outros. Também vi que você devia ter a minha idade, então pensei em dizer “Olá”. Depois aqueles primatas tentaram tomar o seu dinheiro, então decidi dar uma mão. Espero que não se importe.
— Não — Sherlock respondeu. — Acho que você passa bastante tempo aqui no cais, olhando os navios que chegam e partem.
Cameron concordou. Ele desviou o olhar, aparentemente um pouco embaraçado.
— Eu não me lembro muito da América — falou finalmente. — Na verdade, acho que até mesmo as coisas de que me lembro são apenas sonhos, ou coisas que inventei ou li em algum lugar. Gosto de conversar com os recém-chegados para saber se estiveram na América, e se podem me dizer algo sobre ela.
— Eu fui para Nova York. — Disse Sherlock. — Só por uma semana, mais ou menos, depois fui para o interior. Você quer ouvir algo sobre?
Cameron assentiu ansiosamente.
— Meu pai é de Chicago, mas Nova York vai servir. É outra grande cidade. — Ele fez uma pausa, pensando. — Já sei – em vez de ficarmos sentados aqui no escuro, você não gostaria de vir até a minha casa? Tenho certeza de que meus pais não vão se importar que você jante com a gente.
— Se você tem certeza que estará tudo certo...
— Tenho. — Cameron olhou criticamente para as roupas de marinheiro de Sherlock. — Embora, conhecendo minha mãe, ela vá insistir para que você se vista com algumas das minhas roupas velhas. Ela é defensora de vestir-se adequadamente para o jantar.
— Nós somos do mesmo tamanho — Sherlock estimou.
— Tudo bem. Vamos então.
Cameron liderou o caminho de volta para a estrada, e depois para os portões da cidade. Olhando para trás, Sherlock notou o navio branco baixo e longo que tinha visto anteriormente, a partir do convés do Gloria Scott.
— O que é aquele navio? — perguntou ele. — Você conhece todos os que chegam.
Cameron seguiu com o olhar para onde Sherlock apontava.
— Esse é um navio de guerra americano. É o chamado USS Monocacy. Atracou ontem.
— Um navio de guerra? — perguntou Sherlock, lembrando das marcas de bala canhão nas paredes da cidade. — Não vai ter uma guerra aqui, vai?
— Agora não. É uma visita de paz. O capitão do Monocacy está pedindo permissão para subir o rio Yangtzé. Ele diz que suas ordens são para fazer mapas melhores da região. Ele já fez uma visita de cortesia a meu pai, como o americano mais importante na área.
— O que aconteceu com a chaminé? — Sherlock perguntou.
— Você percebeu? Ouvi o capitão dizer ao meu pai que eles a perderam em uma tempestade, mas que fizeram reparos em um porto do Japão.
Sherlock ficou nervoso quando se aproximaram das muralhas da cidade, lembrando-se dos guardas que tinha visto antes, mas os guardas obviamente reconheceram Cameron e acenaram para ele entrar. Eles ignoraram Sherlock completamente – presumivelmente se ele estava com alguém autorizado a entrar, ele estava autorizado também.
— Este é o “Portão do Dragão que pula” — Cameron explicou quando eles passaram. — Há quatorze portões no total. — Ao entrarem na cidade, Cameron virou-se para Sherlock. — A cidade foi aberta aos estrangeiros apenas nos últimos anos. Antes disso, tínhamos que viver especialmente em áreas fora das muralhas da cidade. Se quiséssemos seguir com os negócios, as pessoas tinham que vir até nós. Não éramos autorizados a ir até elas.
— O que causou a mudança? — perguntou Sherlock.
Cameron sorriu.
— A Grã-Bretanha entrou em guerra com a China e forçou o país a abrir-se e permitir que os estrangeiros entrassem.
— Nós, obviamente, vencemos — Sherlock admitiu. — Não me lembro de ouvir sobre isso, no entanto.
— Vocês tiveram a vitória. Meu pai provavelmente vai querer agradecê-lo pessoalmente.
Sherlock pensou em seu irmão, que tinha algum tipo de trabalho importante para o governo britânico.
— Passarei seus agradecimentos adiante — disse ele.
Cameron riu – o mesmo fungo rápido que ele tinha dado antes.
— É claro, mesmo que as autoridades chinesas nos deixem entrar na cidade, eles ainda se certificam de que todos os estrangeiros sejam agrupados em uma mesma área, e há patrulhas regulares da polícia para ter-se certeza de que não vaguem para muito longe. Eles também não gostam de nos ver em roupas chinesas. Sempre que reparam em mim, me criticam.
Os edifícios da cidade eram diferentes de tudo o que Sherlock já vira antes. A maioria deles tinha apenas um ou dois andares de altura, e em vez de serem no meio de jardins, como os edifícios ingleses, pareciam ser construídos em torno dos jardins. Os telhados das casas eram surpreendentemente ornamentados, cobertos com azulejos coloridos e, geralmente, curvados para cima nos cantos, e muitas das residências tinham pequenas estatuetas do lado de fora, em sua maioria homens calvos e bem-humorados de cera, mas Sherlock deduziu que havia mais sobre eles do que aparentava à primeira vista. Em esquinas e em pequenas áreas cobertas entre as casas, também havia estatuetas que Sherlock assumiu serem de animais míticos. A maioria parecia um cruzamento entre cães e lobos, mas alguns tinham chifres e outros, asas.
— Bixie, Qilin e Tianlu — explicou Cameron, percebendo seu interesse. Sherlock não reconheceu as palavras, e Cameron não entrou em detalhes.
A residência da família Mackenzie não era longe dos portões da cidade. Do lado de fora parecia como todas as outras casas.
Cameron bateu à porta da frente. Um homem idoso em um terno escuro a abriu.
— Mestre Cameron – sua mãe estava começando a se preocupar. — Sua voz era baixa e seca.
Cameron passou por ele.
— Eu estou bem, Harris. Estou sempre bem. — Ele se virou e indicou Sherlock. — Este é um amigo meu. Seu nome é Sherlock – Sherlock Holmes. Ele vai ficar para o jantar.
— Muito bem — Harris acenou com a cabeça ligeiramente para Sherlock, e manteve a porta aberta para que ele pudesse entrar. — Notificarei a cozinha. Presumo que o senhor avisou seus pais?
— Farei isso agora — Cameron indicou a Sherlock para segui-lo. — Vamos lá, eu vou apresentá-los.
Sherlock não sabia como o interior de uma casa chinesa tradicional seria, mas o interior da casa Mackenzie era surpreendentemente similar a de seus rios. Tinha semelhantes painéis de madeira escura, semelhantes azulejos no piso do salão, tapetes semelhantes nas principais salas e uma seleção da mesma arte aleatória espalhada ao redor. A única diferença era que as obras de arte na mansão Holmes eram paisagens e pinturas de cavalos, ao passo que as obras de arte na casa Mackenzie eram principalmente pequenas estatuetas de dragões e pinturas de idosos chineses com longas barbas brancas.
Sherlock sentiu-se deslocado com suas roupas de marinheiro. Ele mudava de posição, inquieto, mas Cameron não pareceu notar. Puxou Sherlock ansiosamente para uma sala ao lado.
— Mamãe, papai, eu trouxe um amigo para o jantar. Está bem?
O cômodo era obviamente uma sala de estar – com cadeiras confortáveis, mesas laterais e uma sensação de relaxamento. Havia um homem em uma das cadeiras, lendo um jornal. Ele estava, provavelmente, na casa dos quarenta e poucos anos, Sherlock estimou, tinha cabelo curto que era preto na parte de cima, mas grisalho nas têmporas. Ele fumava um cachimbo.
Uma mulher estava sentada perto dele, costurando. Ela usava um vestido que parecia a Sherlock da moda local – seda escarlate bordada com folhas verdes. Seu cabelo era vermelho acobreado, e Sherlock notou que seus olhos eram verdes. Ela estava vestida de modo a acentuar sua tez. Ela olhou para cima com um sorriso quando Cameron entrou.
— Querido, estávamos pensando onde você estava. Não nos importamos que traga amigos para o jantar, desde que não seja um desses chineses, e desde que nos avise com um pouco de antecedência. — Ela avistou Sherlock. — Oh. Olá.
Sherlock inclinou a cabeça. Parecia a coisa educada a fazer.
— Sinto muito por me intrometer — falou. — Conheci Cameron há pouco. Ele me ajudou quando estava em apuros. Meu nome é Sherlock. Sherlock Holmes.
O pai de Cameron levantou-se e pôs o jornal de lado. Ele estendeu a mão para apertar a de Sherlock.
— Prazer em conhecê-lo. Eu sou o Sr. Mackenzie, e esta é minha esposa. Bem-vindo à nossa casa. Não há muitos garotos ocidentais por aqui para fazer amizade com Cameron, por isso estamos mais do que satisfeitos em tê-lo aqui. — Ele olhou criticamente para as roupas de Sherlock. — É de um algum navio, eu presumo. O Gloria Scott?
Sherlock acenou com a cabeça, envergonhado.
— É uma longa história — ele começou a dizer, mas a Sra. Mackenzie o silenciou.
— As histórias ficam para mais tarde. Cameron, leve Sherlock lá para cima e permita que ele experimente algumas de suas roupas. Você também tem que se vestir para o jantar. O capitão e os oficiais superiores do USS Monocacy jantarão conosco esta noite. — Ela torceu o nariz para Sherlock. — Normalmente não seríamos tão formais, mas você sabe como os capitães de navio são.
Ele voltou a pensar no Capitão Tollaway.
— Sim — ele respondeu com cuidado. — Sr. Mackenzie... Sra. Mackenzie... Eu não quero causar-lhes qualquer problema. Seria errado da minha parte intrometer-me entre seus convidados para o jantar. Provavelmente é melhor eu ir embora.
Ele tentou ignorar o rosto de Cameron, que era quase cômico em sua combinação de descrença e decepção.
O Sr. Mackenzie deu tapinhas no ombro de Sherlock.
— Ótimas maneiras — disse ele. — Exatamente o que eu esperaria de um britânico. Não se preocupe com isso, filho – nós temos comida e cadeiras o suficiente, e garanto que você comerá melhor aqui do que em qualquer outro lugar a que possa ir. Assunto encerrado.
— Malcom... — A Sra. Mackenzie começou. O marido olhou para ela. Ela olhou para Sherlock, depois de volta para ele. Ela estava, obviamente, tentando transmitir uma mensagem.
— Filho, onde está hospedado? — Malcom Mackenzie perguntou.
Sherlock abriu a boca para responder, em seguida, percebeu que realmente não tinha uma resposta.
— Eu... suponho que ficarei no navio — ele falou, hesitante. — No Gloria Scott.
A Sra. Mackenzie ficou olhando para seu marido. Após alguns segundos, ele disse:
— Bobagem. Você ficará aqui, conosco, durante o tempo em que estiver no porto. Cameron, obviamente, gosta de você, e isso é uma coisa boa. Ele não costuma andar com outros garotos.
— Aparentemente sou muito crítico — Cameron disse em voz baixa. — O que significa que falo para as pessoas o que eu acho, ao invés do que elas querem ouvir.
— Se você puder lidar com isso — completou o Sr. Mackenzie. — Então será bem-vindo aqui. — Ele verificou o relógio que pendia em uma corrente de seu colete. — O jantar será em uma hora. Vocês dois podem ir lá para cima, se lavar e se vestir. E estejam no seu melhor comportamento – o capitão Bryan é um homem importante.
Cameron levou Sherlock ao andar de cima – até onde Sherlock podia dizer, nem havia um andar de cima – mas havia, e eles seguiram por um longo corredor e, em seguida, atravessarem uma porta que dava em uma área central quadrada que ficava a céu aberto. O paisagismo ali era lindo, com pedras e árvores pequenas, e bancos onde as pessoas poderiam se sentar. Lanternas de papel de cores vivas estavam penduradas nos cantos, lançando um caleidoscópio de luz nas beiradas do caminho, mas deixando o meio em relativa escuridão. Um pássaro ocasional voou pela noite com um bater de asas.
Cameron atravessou para o outro lado. O quarto de Cameron era cheio de modelos de navios e fotos que Sherlock assumira serem cenários das ruas americanas, com cavalos e carroças. O menino loiro abriu um armário e apontou para as roupas penduradas lá dentro.
— Encontre algo inteligente. — Disse ele. — Blusa e calça. Meu pai estará vestido com um traje de noite, e minha mãe usará um vestido, mas eles não esperam que estejamos todos vestidos assim. Se estivermos com aparência inteligente, estaremos bem.
Sherlock olhou para a variedade de roupas com espanto. Ele tinha esquecido sobre como era ter mais de um conjunto de roupas, as graças sociais, como vestir-se para um jantar e usar corretamente os talheres.
— Vou pedir à camareira para preparar dois banhos para nós — disse Cameron, interrompendo seus pensamentos. — Olhando para você, eu diria que você não tem um banho quente há algum tempo.
Depois de tanto tempo gasto atravessando o oceano, Sherlock não tinha certeza de que queria ver água novamente, mas após alguns instantes olhando para a banheira e à espera de algum tipo de reação emocional, ele entrou cautelosamente na água. Estava quente, e pareceu envolvê-lo e acariciá-lo enquanto ele estava ali, sentindo seus músculos relaxarem e as camadas de sal e sujeira que tinham se acumulado desde a Inglaterra começarem a se dissolver.
Quando ambos estavam vestidos, eles se dirigiram para fora do quarto. Sherlock podia ouvir as vozes elevadas em conversa.
Malcom Mackenzie e sua esposa davam as boas-vindas aos seus convidados no jardim. Empregados chineses circulavam com bandejas de bebidas. O mordomo – Harris – estava de pé em um canto, olhando para certificar-se de que todos os convidados estivessem satisfeitos.
Os convidados do USS Monocacy vestiam uniformes: casacos azul-marinho com duas fileiras de botões dourados que corriam de cima a baixo, calça azul-marinho e quepes brancos com correntes de ouro ao redor. Havia também um ou dois homens em trajes sociais que Sherlock assumiu serem conhecidos de negócios do Sr. Mackenzie. A Sra. Mackenzie era a única mulher ali, mas aparentava não estar embaraçada com este fato. Pelo contrário, ela movia-se facilmente entre os convidados, certificando-se de que todos tivessem uma bebida e alguém pra conversar.
— Eu odeio essas reuniões — Cameron falou melancolicamente. — Eu sempre acabo falando com a pessoa mais chata presente. O problema é que eu tenho o costume de lhes dizer isso.
— Você está falando comigo — Sherlock apontou.
— Sim, mas esta noite é diferente — Cameron fez um gesto para um servente que passava, que se aproximou com uma bandeja contendo taças de champanhe. Cameron pegou dois copos, passando um para Sherlock. — Aqui, isso deve fazer com que a noite passe mais rápido.
O capitão Bryan era facilmente reconhecível. Era o homem mais velho lá, e a quantidade de fios de ouro e o número de estrelas douradas em seu uniforme era difícil de perder. Ele também tinha uma voz alta, e Sherlock ouviu quando ele contou a história de como a chaminé do Monocacy se rasgou como papel de seda por conta de uma tromba d'água que varrera o navio ao largo da costa do Japão.
— Eu estava me perguntando — a Sra. Mackenzie interrompeu quando ficou claro que o capitão poderia falar a noite toda sem parar — qual o significado do nome da embarcação? Monocacy soa como uma forma de governo em que apenas um pode governar!
— Madame, o rio Monocacy é um afluente do poderoso rio Potomac — respondeu o capitão, mudando a direção da conversa com um charme gracioso. — O nome vem do idioma original Shawnee do rio Monnockkesey que, segundo me disseram aqueles que conhecem, é traduzido como “rio de muitas curvas”. — Ele olhou ao redor para sua plateia, e continuou: — A Batalha de Monocacy Juncion foi travada durante a guerra entre os Estados, seis anos atrás, e nosso bom navio foi nomeado em homenagem a essa batalha, ao que, caso contrário, seria esquecida...
A menção da guerra entre os Estados lembrou Sherlock de seu tempo em Nova York, e de seu confronto com o bizarro Duke Balthassar. O homem estivera do lado Confederado – o lado perdedor – e planejara a criação de uma nova Nação Confederada no Canadá. O que quer que tivesse acontecido na América, aparentemente deixara cicatrizes profundas.
— Que esplêndido — disse a Sra. Mackenzie, invadindo seus pensamentos. — Temo que estejamos longe de nosso país natal por tanto tempo, e as notícias nos chegam tarde aqui, que nós só tenhamos uma ideia grosseira do que aconteceu com os Confederados e a União. — Ela descansou a mão no antebraço do capitão. — Foi... muito terrível? — perguntou em uma voz mais serena.
Ele deu batidinhas tranquilizadoras na mão da Sra. Mackenzie.
— Madame, nunca é fácil ou agradável quando o país tenta rasgar a si mesmo, quando pai é confrontado com o filho e irmão precisa enfrentar irmão. Mas devemos lembrar que a América é um país jovem, e composto por diversas partes, mas que tem certos desentendimentos com outras partes. Disputas são previsíveis.
— Não são apenas os países jovens — disse Malcom Mackenzie, juntando-se ao grupo. — A China é um país antigo, mas há elementos rebeldes dentro dela mesma agora, e lutas irrompem de tempos em tempos.
Sherlock lembrou-se das cicatrizes de bala de canhão na muralha da cidade. Isso explicaria o que aconteceu – tinha sido algum tipo de batalha pelo controle da cidade entre diferentes elementos. Ele se aproximou para ouvir mais.
— A maior parte da população local é conhecida como “Han” chinês — Mackenzie continuou — e eles tem vivido aqui há centenas de anos. O problema é que os governantes são descendentes de uma força invasora conhecida como “Manchu”, que vieram do norte. A Dinastia Qing que controla a China é inteiramente composta de chineses Manchu, e os Han são os governados.
— Presumo que os Hans não estão felizes com isso? — perguntou o capitão Bryan.
— Na verdade, a maioria deles não se importa, desde que possam viver suas vidas em paz — Mackenzie respondeu. — Mas houve uma pequena e persistente rebelião por elementos do Han contra o Qing 20 anos atrás. É conhecido localmente como a Rebelião Taiping porque foi onde começou. De vez em quando há contendas em alguns lugar, ou uma cidade é tomada pelos rebeldes e em seguida, libertada. A própria Xangai caiu nas mãos de um grupo chamado Sociedade das Pequenas Espadas em 1853, mas foi retomada pelos Qing dentro de algumas semanas. Entre 1860 e 1862, os rebeldes de Taiping atacaram a cidade duas vezes e destruíram subúrbios no leste e no sul, mas não conseguiram realmente capturar o lugar. Seu objetivo é fazer com que os invasores Manchu saiam, mas a Dinastia Qing não se considera mais invasora, e os rebeldes não tem um plano claro para fazê-los sair. Então eles continuam fracassando continuamente.
Cameron puxou a manga de Sherlock.
— Vamos sair daqui, isto está chato. Vamos encontrar um lugar no jardim onde possamos nos sentar e falar sobre a América.
Ele se virou para sair, obviamente na certeza de que Sherlock o seguiria, mas ele esbarrou em um homem que passava atrás dele. O homem estava vestido com roupa de noite, e o branco do colarinho e dos punhos contrastava claramente com o azul prateado da pele do rosto e das mãos.
Era o Sr. Arrhenius.

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