18 de agosto de 2017

Capítulo cinco

SHERLOCK RESPIROU O AR PURO depois de sair da delegacia, onde apresentara uma versão editada do que havia acontecido. Era como estar coberto de lama e mergulhar em um rio límpido. Ele sentiu os pulmões expelirem os odores terríveis do curtume. Sabia que o ar das ruas não era exatamente fresco, mas, comparado ao fedor do curtume, era o ideal de pureza.
Tendo a sensação de que suas roupas estavam impregnadas com o cheiro, ele decidiu que precisava se trocar assim que possível.
O menino encontrara Matty parado embaixo da janela do curtume. Ele deu um sonoro suspiro de alívio quando viu Sherlock.
— Eu não sabia o que tinha acontecido com você — disse Matty. — Achei que Harkness o tivesse pegado. — O menino franziu o cenho. — O que aconteceu com ele? Você não o... matou, certo?
Sherlock balançou a cabeça, cansado.
— Conversamos um pouco — respondeu ele. — Deixei-o lá e disse à polícia onde ele estava.
Matty deu de ombros.
— Não vai fazer diferença. Quando alguém pesca o peixe grande do lago — disse ele —, o segundo maior assume. É assim que são as coisas.
— Eu sei — respondeu Sherlock —, mas não posso fazer nada quanto a isso. Não agora. Pelo menos tiramos Harkness de circulação e destruímos o material de chantagem dele. Isso vai deixar muita gente feliz. — Ele franziu o cenho, reparando na postura tranquila de Matty, que estava parado no meio do beco. — O que aconteceu com aquele sujeito que mandaram aqui para fora, o Nicholson?
— O cara com uma pança de cerveja? Ele saiu e ficou aqui, parado. Não estava nada feliz. Parecia que ia arrancar a cabeça de alguém assim que pusesse as mãos nele.
— E onde você estava?
Matty apontou para uma pilha de engradados do outro lado do beco.
— Quando ouvi o sujeito se aproximando, eu me escondi ali. Ele não estava exatamente quieto, falou palavrões que eu nunca tinha ouvido antes.
— E o que aconteceu depois?
— Ele ficou ali por alguns minutos, depois o amigo dele saiu.
— Marky.
— É, ele mesmo. O cara pegou o braço do outro e falou alguma coisa. Aí de repente os dois foram embora.
Sherlock assentiu.
— Consegui convencer Marky de que, sem as chantagens de Harkness, a cidade seria bem pouco acolhedora com eles. Acho que decidiram tentar a sorte em outro lugar.
— Para onde vamos agora?
— Para casa — respondeu Sherlock.
— Não tenho casa, só o barco.
— Estava falando da mansão Holmes.
Matty balançou a cabeça, resoluto.
— Não gosto daquela governanta estranha — disse ele —, e ela não gosta nada de mim também. Prefiro ficar aqui fora mesmo, se não se importa.
— Acredito — respondeu Sherlock — que você vai ver a influência da Sra. Eglantine na casa dos Holmes diminuir bastante daqui a mais ou menos uma hora. Com certeza você será bem-vindo na mansão Holmes de agora em diante. — Ele examinou o amigo com um olhar crítico. — Bom, isso se você tomar um banho e pentear o cabelo.

Montado com Matty no lombo de Philadelphia, Sherlock seguia trotando por aquelas estradinhas conhecidas em direção à mansão Holmes.
— Você acha que vão me deixar comer alguma coisa quando a gente chegar lá? — gritou Matty por cima do ombro de Sherlock.
— Acredito que isso possa ser providenciado.
Eles levaram mais ou menos meia hora para chegar à propriedade, e, no momento em que cruzaram o portão principal e por todo o caminho até a casa, Sherlock sentiu Matty ficar cada vez mais tenso.
Os dois ignoraram a entrada principal da mansão e foram direto até o estábulo, onde deixaram o cavalo aos cuidados de um dos cavalariços.
— Vamos — disse Sherlock. — Estou ansioso para encerrar este assunto.
Ele entrou pela porta principal, seguido de Matty. O sombrio corredor parecia vazio, mas as aparências enganam, como ele bem sabia.
— Sra. Eglantine! — gritou Sherlock.
Parte das sombras se destacou e deu um passo à frente. O corredor pareceu ficar uns dez graus mais frio.
— Jovem Sr. Holmes — disse uma voz, com um tom tão frio que poderia ter congelado o ar. — Como você parece determinado a fazer desta casa um hotel, indo e vindo a seu bel-prazer, talvez deva pagar pelo privilégio de se hospedar aqui.
— Imagino que hotéis contratem governantas consideravelmente melhores que a que trabalha aqui — retrucou ele.
A expressão no rosto da Sra. Eglantine não se alterou, mas Sherlock sentiu o corredor ficar ainda mais gelado.
— Deboche, criança — chiou ela. — Aproveite enquanto pode. Seus dias nesta casa estão contados.
— Se você espera que seu amigo Josh Harkness faça algo comigo, vai ficar decepcionada. O Sr. Harkness está preso, e não vai sair da cadeia tão cedo.
— É mentira sua — respondeu a governanta, entre os dentes, mas Sherlock percebeu que subitamente ela havia assumido uma postura defensiva.
— Eu nunca minto — disse ele, simplesmente. — Deixo isso para gente como você. — Ele fez uma breve pausa, preparando o ato seguinte. — Por favor, avise meus tios que desejo falar com eles na sala de jantar.
— Avise você mesmo.
A voz dela poderia cortar vidro.
— Você é que é a criada aqui, não eu. Encaminhe minha solicitação. Agora. E, por favor, tenha a bondade de pedir também que a cozinheira prepare alguns sanduíches e um jarro de limonada. Meu amigo e eu estamos com fome e sede.
A governanta o encarou; sua expressão indicava que ela estava reavaliando Sherlock, e não gostava do que via. Ela se virou e desapareceu em meio às sombras.
— Venha — disse Sherlock ao amigo. — Vamos nos preparar para falar com eles.
Ele conduziu o amigo pelo corredor até a sala de jantar. Ocorreu-lhe que podia ter escolhido realizar o confronto na sala de visitas, onde os convidados eram recebidos, mas Sherlock queria fazer isso em algum lugar mais formal, menos confortável.
Na mesa no meio da sala de jantar havia apenas dois candelabros e um cesto de frutas. Matty pegou uma pera enquanto Sherlock se sentava em uma cadeira do outro lado da mesa, diante da luz que vinha das janelas. Matty contornou a mesa também e ficou atrás do amigo, comendo a pera.
Sherlock tentou acalmar o ritmo da respiração. Ele sabia o que queria conquistar nos minutos seguintes, mas entendia que estava lidando com pessoas, não peças de xadrez, e as pessoas às vezes faziam coisas inesperadas.
E se a influência da Sra. Eglantine sobre os tios dele fosse maior do que a mera posse de alguma informação incriminatória? Talvez eles defendessem a Sra. Eglantine, apesar do que já havia acontecido na casa. Talvez os três se unissem contra Sherlock.
A porta se abriu e Sherrinford Holmes entrou, seguido de perto por tia Anna.
— É incomum que o senhor do próprio lar seja convocado pelo tutelado — disse ele, em um tom brando.
— Peço desculpas se a Sra. Eglantine deu a entender que eu o estava convocando — respondeu Sherlock, baixinho. — Eu apenas gostaria de conversar com vocês dois sobre um assunto sério.
— Esse assunto tem alguma relação com o que aconteceu na biblioteca hoje? — perguntou o tio. — Se tiver, lembro-me claramente de ter dito que aquilo não seria mais mencionado.
— Quero falar sobre um homem chamado Josh Harkness — respondeu Sherlock — e de sua influência sobre esta família.
Ele pensou em pedir aos tios que se sentassem, mas seria falta de educação. Eram a casa e a sala de jantar deles, e Sherlock não queria parecer arrogante.
Antes que Sherrinford respondesse, a Sra. Eglantine entrou na sala. Vinha seguida por duas criadas; uma trazia um prato de sanduíches e a outra segurava uma bandeja com um jarro e quatro copos. Elas puseram tudo na mesa.
— Por favor — disse Sherlock à Sra. Eglantine enquanto as criadas saíam —, fique aqui um instante. Você tem tanto a ver com este assunto quanto meus tios.
Ela abriu a boca como se fosse dizer algo, mas voltou a fechá-la. Parecia inquieta, insegura. Até mesmo assustada.
— Você não me apresentou a seu amigo — disse Sherrinford.
Ele puxou uma cadeira junto à mesa para a esposa. Tia Anna se sentou, e ele também.
— Este é Matthew Arnatt — respondeu Sherlock. — Ele mora em Farnham.
— Um cigano — disse a Sra. Eglantine. — Não vale nada.
— Já falei — respondeu Matty por trás de Sherlock — que não sou cigano.
Sherrinford Holmes deu um ligeiro tapa na mesa.
— Ainda que fosse — disse ele —, os ciganos são um povo antigo e nobre. Além do mais, você tem o nome de um homem que foi discípulo de Jesus Cristo e autor de um dos quatro evangelhos. Você é bem-vindo em minha casa, Matthew.
— Joia — respondeu o menino.
— Está com fome? — perguntou a tia de Sherlock. — Talvez queira um sanduíche e um copo de limonada.
— Eu quero sim, se não for incômodo — disse o menino, estendendo a mão por cima do ombro de Sherlock e pegando alguns sanduíches.
— Então — falou Sherrinford Holmes —, o que é tão importante para que você tenha convocado uma reunião de família, e o que isso tem a ver com esse homem mencionado, um indivíduo cujo nome me recuso a pronunciar?
Sherlock respirou fundo.
— Josh Harkness é um chantagista — disse ele. — Ele reúne informações sobre pessoas, informações que essas pessoas prefeririam manter em segredo, e ameaça revelá-las se não receber dinheiro regularmente.
— Você está sugerindo — respondeu Sherrinford, com um ligeiro tom de advertência — que, de alguma forma, esse criminoso descobriu algum segredo de nossa família? Sou um respeitável estudioso da Bíblia, e minha esposa é um modelo para a comunidade. Que segredos seriam esses capazes de chamar a atenção de tamanho cafajeste?
Sherlock balançou a cabeça.
— Não importa o que ele descobriu ou deixou de descobrir. A questão é que todos os arquivos dele, toda a coleção de documentos e cartas, foram destruídos.
A Sra. Eglantine arquejou e cobriu a boca com a mão.
— Tem certeza? — perguntou Sherrinford Holmes, inclinando-se para a frente. — “Mas a língua, nenhum homem pode domar. É um mal irrefreável; está cheio de peçonha mortal.” Tiago, capítulo 3, versículo 8.
— A gente tem certeza absoluta — interrompeu Matty, enquanto mastigava um pedaço de sanduíche. — Nós dois destruímos tudo aquilo.
— Você viu? — perguntou Sherrinford. — Você viu isso pessoalmente?
— Vi. O conteúdo de todas as caixas ficou ilegível.
Sherrinford Holmes se recostou na cadeira e passou a mão direita pela testa. Estendeu a esquerda e tocou o braço da esposa.
— Então o pesadelo... acabou.
Ele suspirou.
Durante mais ou menos um minuto, o cômodo ficou em silêncio. Nenhum ruído, nenhum movimento, mas algo mudou. Foi como se uma nuvem tivesse saído da frente do sol. A sala pareceu ficar mais clara e aquecida.
— Você fez a esta família, e a muitas outras, um grande bem — disse Sherrinford. — Vejo em você o mesmo traço de caráter de seu irmão, e também de seu pai... meu irmão. Estou em dívida com você. — Ele se virou e encarou a Sra. Eglantine. — E já não estou mais sujeito a você, mulher maligna. Você jamais encontrará o que quer que esteja procurando nesta casa. Faça suas malas. Se não estiver fora desta casa em uma hora, eu mesmo me encarregarei de empilhar todos os seus pertences e atear fogo, e também lhe darei uma surra de chibata. Espero que nunca mais tenha que ver seu rosto ou ouvir sua voz por toda a minha vida. Você não é bem-vinda aqui.
— Ainda sei o seu segredo! — anunciou a Sra. Eglantine, dando um passo à frente. — Não será tão fácil se livrar de mim.
— Ninguém acreditará em você — disse tia Anna. Ela se levantou, e sua estatura diminuta parecia se impor sobre a governanta alta. — A Inglaterra está cheia de governantas rancorosas. Ninguém acredita na conversa delas, e por um bom motivo. É como dizem: “Fofoca e mentira andam de mãos dadas.”
Sherrinford confirmou com a cabeça.
— “Tua voz será uma repreensão para o transgressor; e, diante de tua repreensão, que a língua do caluniador cesse sua perversidade” — citou ele, baixinho. — Saia daqui agora, mulher, enquanto ainda pode.
A Sra. Eglantine dirigiu um olhar furioso aos quatro presentes ali: Sherlock, Matty, tio Sherrinford e tia Anna. Abriu e fechou a boca algumas vezes, como se soubesse que tinha alguma coisa a dizer mas não soubesse exatamente o quê. Até que, por fim, deu meia-volta e saiu da sala como se fosse uma sombra sendo expulsa por uma cortina aberta.
— Será que é simples assim? — perguntou Sherrinford.
Ele estendeu a mão e pegou a da esposa.
— Vocês precisarão vigiá-la — respondeu Sherlock. — Ela talvez tente roubar alguma coisa. Pode até tentar se esgueirar para dentro da casa de novo quando não tiver ninguém por perto. Ela quer algo que está aqui, e não acho que vai desistir tão fácil. Mas agora será muito mais difícil. Ela perdeu o poder de influência.
— Mal posso acreditar — disse tia Anna. — A Sra. Eglantine tem sido uma presença maligna aqui por tanto tempo que quase não consigo imaginar como é viver sem ela.
— Vocês têm alguma ideia do que ela tava procurando? — perguntou Matty.
Sherrinford balançou a cabeça.
— Ela nunca disse. Levei algum tempo para perceber que ela estava procurando alguma coisa. Ela se ofereceu para trabalhar como governanta há três anos, e, como suas referências eram impecáveis, contratei-a sem receios. Mas a mulher era rabugenta, e os criados não se afeiçoaram a ela. Depois de algum tempo, pedi para ela ir embora, mas ela revelou conhecimento sobre... certos fatos a respeito desta família que eu não gostaria que fossem divulgados. Então nos obrigou a deixá-la ficar e a lhe dar dinheiro, que era transferido àquele homem detestável, Joshua Harkness. — Ele suspirou. — Um dia, peguei-a vasculhando nosso quarto. Exigi saber o que ela estava fazendo. A mulher falou para eu não me meter em um assunto que não era da minha conta. Respondi que ela estava em minha casa e que saber o que ela fazia era, sim, da minha conta. Ela deu uma risada de desprezo e disse que a casa passara a ser dela.
— Percebemos que ela estava vasculhando todos os cômodos, um a um — continuou a contar tia Anna em voz baixa, quando ficou evidente que Sherrinford não falaria mais nada. — Mas nunca descobrimos o que ela procurava. Não há muitos objetos de valor nesta casa.
— A Sra. Eglantine tem a planta baixa da casa — lembrou Sherlock. — Está em seu quarto, pendurada do lado de fora da janela. Vocês precisam recuperá-la, antes que outra pessoa a encontre.
Sherrinford balançou a cabeça e sorriu. Sherlock não se lembrava de jamais ter visto o tio sorrir.
— Acredito que tenho uma garrafa de vinho madeira, que reservei para uma ocasião especial — disse ele. — Duvido que venha a ter ocasião mais especial que esta na vida. Entendo que vocês dois são praticamente crianças, mas sinto que seus parentes e Deus me perdoarão se eu lhes oferecer uma taça. Uma pequena, é claro.
Sherrinford Holmes deu uma olhada de esguelha para sua esposa e ergueu uma sobrancelha de um jeito inquisidor. Tia Anna assentiu, e ele foi até o aparador para buscar uma garrafa e algumas taças.
— Acho que lhe devemos uma explicação — disse ele enquanto voltava e se sentava. — Com a Sra. Eglantine, sua vida aqui tem sido desagradável, para usar um termo delicado. Depois do que você conseguiu, o mínimo que podemos fazer é dizer o que ela sabia.
Sherlock balançou a cabeça.
— Não precisa — respondeu ele. — Toda família tem o direito de guardar seus segredos.
— Mas este tem a ver com você — disse Sherrinford. — Já o guardamos por tempo demais.
Ele apertou o braço da esposa, que lhe deu um tapinha leve e reconfortante na mão.
Sherlock sentiu como se o chão a seus pés estivesse se abrindo aos poucos. Um segredo que tinha a ver com ele?
Sherrinford abriu a boca para dizer algo, mas hesitou. Olhou para Matty e franziu o cenho.
— Talvez... — começou — devamos conversar mais tarde. Quando pudermos tratar disso em particular.
Sherlock olhou para Matty.
— Qualquer que seja a história — disse ele, com firmeza —, não quero que continue em segredo. Matty é meu amigo. Quero que ele saiba tudo o que há para saber sobre mim.
Sherrinford não pareceu se convencer.
— Ainda assim, Sherlock, este é um assunto familiar. Não sei se seria adequado se outras pessoas soubessem algo sobre isso. Talvez seu irmão deva ser consultado antes de falarmos diante de outras pessoas.
— Outras pessoas já descobriram. — Sherlock fitou o tio e a tia. — Olhem, uma vez ouvi Mycroft dizer que a luz do sol é o melhor produto de limpeza. Na ocasião, achei que ele estava falando literalmente, que um cômodo fica cheio de poeira e teias de aranha se as cortinas permanecerem fechadas, mas percebi que usava o sentido figurado. Ele queria dizer que a situação só piora quando tentamos esconder algo. Saber a verdade, e deixar que todo mundo saiba, costuma ser a melhor opção.
Sherrinford suspirou.
— Muito bem — disse ele, devagar, servindo o vinho nas taças. — Trata-se de seu pai. Desde a época em que éramos pequenos, Siger, seu pai, era uma criança estranha, mesmo naqueles tempos. Em alguns dias, ele era agitado e cheio de energia, capaz de subir em qualquer árvore e pular qualquer cerca, e engolia a comida e falava tão rápido que as pessoas não conseguiam entender. Em outros, simplesmente permanecia na cama ou ficava à toa em casa, sem disposição nem ânimo. Nosso pai dizia que era uma fase. Nossa mãe não tinha tanta certeza. Ela pediu diagnósticos a vários médicos. Os que vieram quando Siger estava correndo para todos os lados sem parar disseram que ele era naturalmente alvoroçado. Os que o viram quando Siger mostrava completa indiferença a tudo à sua volta disseram que ele era naturalmente sensível e delicado... melancólico. Quando a melancolia ou a agitação se tornaram um fardo pesado demais para nossos pais, ele foi levado a um sanatório, e lá o mantiveram em observação.
— Meu pai era... é... louco? — sussurrou Sherlock.
— Eu jamais o descreveria assim — respondeu Sherrinford, sério. — Ele era... é... meu irmão, e em alguns dias era impossível perceber qualquer problema com ele. — Sherrinford fez uma pausa. — Mas, em outros dias, ficava tão inquieto que chegava a ser perigoso, ou tão deprimido que falava em tirar a própria vida. Eu disse que no sanatório o “mantinham em observação”, e não que “cuidavam” dele, porque certa vez o visitei, e nunca esquecerei o horror abjeto daquele ambiente. Tenho certeza de que aquele lugar o marcou. — Ele ficou em silêncio, olhando para a mesa, mas Sherlock suspeitou de que o tio estivesse relembrando o passado longínquo. — Um médico que veio vê-lo quando Siger morava em casa, entre uma temporada e outra no sanatório, era particularmente erudito. Ele havia ouvido falar de um francês que descrevera uma doença chamada de folie à double forme, ou “insanidade em duas formas”. Bom, esse médico experimentou diversos medicamentos... uma solução alcoólica de heléboro-negro para induzir o vômito, uma decocção de dedaleiras e sumo da cicuta. Houve algum efeito, mas não foi suficiente. A única coisa que ajudava de verdade era morfina.
Morfina! A palavra foi como uma faca de gelo no coração de Sherlock. O menino já havia passado por algumas experiências com essa substância. Os homens do barão Maupertuis o drogaram com láudano, que era uma solução de morfina e álcool, e a Câmara Paradol depois usara uma substância semelhante em Mycroft, o irmão de Sherlock. Será que aquele produto horrível estava misturado à história da família inteira?
— O que é morfina? — perguntou Matty.
— É uma substância derivada do ópio, que por sua vez é a seiva ressecada da papoula. É um produto químico maligno, do qual não mais falarei, mas que ajudou a estabilizar as oscilações emocionais extremas de Siger. — Sherrinford deu uma risada sem ânimo. — O nome da substância foi inspirado no deus grego dos sonhos: Morfeu.
Sherlock balançou a cabeça.
— Não sei se entendi. Meu pai estava doente, e essa substância o deixou melhor. Qual é o problema?
— O problema — respondeu Sherrinford — é que nossa sociedade não vê com bons olhos as pessoas com... problemas mentais. Sendo medicado com morfina, Siger cresceu e ficou forte, e ninguém fora da família jamais soube que havia algo errado. Casou-se com uma mulher de boa família e alistou-se no Exército. Se alguém descobrisse que ele tinha uma doença na cabeça, Siger seria expulso do Exército na hora. Seus amigos e vizinhos se afastariam. A família seria maculada pela vergonha... Não me importo tanto com isso, mas ele e sua mãe perderiam tudo. Além do mais, o estigma perseguiria seu pai, sua mãe, você e seu irmão. Vocês seriam taxados como filhos de um louco. As pessoas presumiriam que vocês também provavelmente enlouqueceriam.
— Como a Sra. Eglantine descobriu isso? — sussurrou Sherlock.
— Ela trabalhava no sanatório — respondeu tia Anna, baixinho. — Quando jovem. Deve ter visto Siger algum dia, um grande acaso, quando ele estava mais velho e de farda. Percebeu o escândalo que a família enfrentaria se o mundo soubesse que ele havia passado algum tempo em um sanatório e que dependia de remédios para permanecer são, e começou a nos chantagear.
Sherlock franziu o cenho.
— É isso que não entendo — disse ele. — Por que vocês? Por que não chantageou meu pai, minha mãe ou Mycroft?
— Talvez ela tenha chantageado — respondeu Sherrinford. — Nunca perguntamos.
Uma ideia surgiu na mente de Sherlock. Ele hesitou antes de falar, pensando várias vezes nessa ideia, examinando-a de todos os ângulos só para confirmar se não havia esquecido nada. Era uma ideia grave, e ele queria ter certeza de que fazia sentido para não dizer algo constrangedor.
— Pelo que vocês nos contaram — falou ele cuidadosamente depois de um tempo —, o segredo que vocês guardavam se referia a meu pai e à família dele. Entendo que, se o segredo fosse revelado, a vergonha da família não atingiria vocês. Nós, sobretudo ele, é que teríamos problemas.
Tia Anna sorriu para Sherlock e estendeu a mão por cima da mesa para tocar na dele.
— Meu querido Sherlock — disse ela. — Não podíamos permitir que isso acontecesse a Siger. Ele é da família. Cresceu junto com Sherrinford. Não podíamos cruzar os braços e deixar que ele sofresse tamanha vergonha. Eu me lembro de como Siger estava orgulhoso ao entrar para o Exército. Seria muito errado tirar isso dele.
— Mas a vida de vocês foi prejudicada pela presença da Sra. Eglantine nesta casa.
— Em alguns momentos na vida, nosso Bom Senhor nos impõe alguma provação — disse Sherrinford. — Ele nos testa, e não podemos demonstrar fraqueza.
— O que mais poderíamos ter feito? — perguntou tia Anna, mais pragmática. — Responder àquele detestável Sr. Harkness que não pagaríamos nada e então assistido a nossos parentes serem humilhados em público? Não seria correto.
Sherlock encarou os tios. Percebeu que tinha passado a vê-los de uma forma diferente. Os dois já não pareciam ser relíquias antiquadas e obsoletas, vindas de uma época esquecida; eram pessoas vivas, com emoções, sentimentos e preocupações. Ele tentou imaginar o tio Sherrinford e seu pai brincando quando pequenos. Tentou imaginar sua tia mais jovem, vestindo suas melhores roupas, talvez comparecendo ao casamento de Siger Holmes com a mãe de Sherlock. Por um instante o garoto percebeu que conseguia imaginar todas essas coisas.
— Obrigado — disse ele apenas. — Em nome dos meus pais, que por motivos diferentes não podem agradecer pessoalmente, obrigado.
— Era o mínimo que podíamos fazer — disse Sherrinford.
— Não era — respondeu Sherlock. — E por isso foi um gesto tão nobre e altruísta.
— Agora — disse tia Anna —, preciso sair e contratar outra governanta. Esta casa não vai se administrar por conta própria, e as criadas são tão avoadas que precisam que alguém fique vigiando-as o tempo todo, senão nem consigo imaginar o que poderia acontecer.
— E eu preciso arrumar a biblioteca — disse tio Sherrinford. — Isso talvez tome algum tempo.
Os dois se levantaram. A tia de Sherlock deu um último sorriso, o tio acenou distraidamente mais uma vez, e os dois saíram da sala de jantar.
— Gente boa — comentou Matty.
— Boa não chega nem aos pés deles — respondeu Sherlock.
— Então, o que você quer fazer agora?
O menino refletiu por um instante.
— Eu estava pensando em ir ao chalé de Amyus Crowe. Acho que ele precisa saber o que aconteceu. E provavelmente também devemos lhe contar sobre aqueles americanos que o estavam procurando no mercado hoje. Os sujeitos mencionaram o nome dele.
Matty deu de ombros.
— Ele pode nos dar algum conselho para o caso de Josh Harkness decidir ficar na cidade e tentar vir atrás de nosso couro para compensar o prejuízo do curtume — disse Matty. — E acho que seria bom rever Virginia.
Sherlock o encarou, mas Matty olhou para ele com ar inocente.
— Você não precisa vir — disse Sherlock, em tom neutro. — Achei que Albert talvez precisasse ser alimentado.
— Ele é um cavalo — respondeu Matty, dando de ombros. — Está cercado de comida em qualquer lugar em que eu o amarre. É como me deixar em uma padaria. Ele vai comer grama até se empanturrar e depois vai dormir.
— Você acha que cavalos ficam entediados? — perguntou Sherlock. — Afinal, eles passam o tempo todo parados no meio do mato.
Matty ergueu uma sobrancelha.
— Nunca pensei nisso. Acho que eles não se importam. Talvez fiquem pensando coisas profundas sobre o mundo e tudo que há nele, ou talvez não pensem em nada muito além do próprio focinho. — Ele franziu o cenho e encarou Sherlock. — Você pensa demais. Alguém já lhe disse isso?

Os dois saíram para o sol do fim de tarde. Sherlock pegou um cavalo emprestado no estábulo, e os dois seguiram na direção da casa onde moravam Amyus Crowe e a filha. No caminho, Sherlock percebeu que seus pensamentos se alternavam entre dois extremos: nervosismo diante da ideia de rever Virginia e incerteza sobre seus sentimentos em relação ao pai: um homem que, para Sherlock, sempre parecera uma força da natureza, com sua risada forte e seu amor pelo ar livre, mas que agora o menino via que era muito mais complexo.
Sherlock não conseguia deixar de imaginar se a folie à double forme de que seu pai sofria era hereditária, como uma marca de nascença, ou apenas uma doença contagiante, como gripe.
Ao se aproximarem do pequeno chalé, Sherlock reparou que a égua de Virginia não estava no cercado.
— Não vejo Sandia — observou ele. — Virginia não está aqui.
— Quer sair para procurá-la?
Sherlock o encarou, irritado.
— Vamos entrar — respondeu ele, mal-humorado. — Faz uma meia hora desde a última vez que você comeu. Já deve estar com fome de novo.
— Provavelmente — concordou Matty.
Eles desmontaram e prenderam os cavalos à cerca na frente do chalé. Enquanto caminhavam até a porta, algo incomodava Sherlock, e ele levou alguns instantes para entender o que era. O amontoado de objetos que ficava do lado de fora do chalé – machados, botas enlameadas e outras coisas assim – havia sumido.
A porta estava fechada, o que não era normal. Sherlock bateu, com um pressentimento estranho de que havia algo muito errado. Seus pensamentos voltaram à conversa entreouvida no mercado. Ele presumira que os americanos quisessem a ajuda do Sr. Crowe. Será que se enganara?
Nenhuma resposta veio do interior do chalé.
O menino bateu mais uma vez. Ainda sem resposta.
Ele olhou para Matty, a seu lado. O amigo o encarou, franzindo o cenho.
Sherlock abriu a porta.
No interior não havia qualquer objeto pessoal. Amyus Crowe e Virginia não estavam ali, tampouco havia qualquer sinal de que algum dia tivessem estado.

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