7 de agosto de 2017

Capítulo cinco

— TEM UMA MOEDA, SENHOR? — choramingou Sherlock, tentando parecer menor do que era. — Não como há dias. Só queria uma moedinha para comprar um pão.
— Não banque o caçador de coelhinho — rosnou o homem. — Não vai me convencer.
— Tudo bem — falou Sherlock com sua voz normal, ajeitando-se. — Mas o que é um caçador de coelhinho?
O homem sorriu. Seus dentes eram tocos pretos.
— Você quer saber? Bem, um coelhinho é um animal manso, especialmente se for criado para acabar na panela, porque assim não vai tentar fugir quando você pegá-lo para quebrar seu pescoço. Um caçador de coelhinho é um homem que finge caçar um coelho manso: alguém que faz algo fácil parecer difícil.
— Ah, um trapaceiro — concluiu Sherlock.
— Exatamente. E, agora que já esclarecemos essa dúvida, por que está me seguindo?
— Eu não estava seguindo você! — protestou Sherlock.
O homem levantou uma sobrancelha grossa.
— Lembre, sou capaz de descobrir qualquer invencionice ou fingimento que possa imaginar, garoto. Você começou a me seguir na porta do teatro, e está atrás de mim desde então. O que quero saber é por quê. — Ele mediu Sherlock da cabeça aos pés. — Você não é um trombadinha. — Ele notou a expressão confusa de Sherlock. — Um ladrão de carteira — esclareceu. — Então, está atrás do quê?
— Não estou atrás de nada.
— Você me seguiu pela cidade inteira, passou pela ponte Waterloo e veio até aqui, até os túneis.
— Coincidência — disse Sherlock.
— Não existe isso. — O homem deu de ombros. — Não precisa me dizer agora, se não quiser. Posso arrancar a verdade de você. Eu adoraria. Já faz tempo que não faço um bom estrago em alguém. Tenho seguido ordens, sido discreto. Não vejo o bordô há algumas semanas e estou com saudade.
— Bordô? — perguntou Sherlock, sabendo que não iria gostar da resposta.
— Sangue, garoto. Sangue. — Ele pôs a mão no bolso. Quando a tirou, estava segurando dois objetos de metal que se encaixavam. — Na minha opinião, ou você trabalha para uma das gangues daqui e eles querem saber o que está acontecendo no teatro, ou viu alguma coisa estranha no teatro e espera ter algum papo para vender aos tiras por alguns cobres. — O homem enfiou os dedos da mão direita em um dos objetos de metal. Sherlock teve a impressão de que eram vários anéis grudados e cobertos de espetos que pareciam brotar dos nós dos dedos. — De qualquer maneira, sua curiosidade vai lhe custar caro.
Ele encaixou o outro objeto na mão esquerda, e ergueu os punhos para que Sherlock pudesse ver. A luz fraca brilhava nas pontas afiadas. As mãos dele se haviam transformado em armas mortais que poderiam fatiar o rosto de Sherlock caso se aproximassem.
— Agora, vamos começar, está bem? Não tenho muito tempo. Tenho coisas para fazer, pessoas para ver.
Sherlock começou a recuar, o coração batendo mais depressa. O homem bloqueava a saída sob o arco, mas devia haver outro caminho, alguma passagem atrás dele, na escuridão. Sherlock só precisava encontrá-la.
O homem sorriu com frieza. Ele enfiou a mão no bolso do casaco, e as pontas de metal enroscaram no tecido. Em sua mão, veio um punhado de moedas de prata seguro entre os dedos.
— Meia coroa para o primeiro que me trouxer o garoto — disse ele em voz alta. — Ouviram? Vão poder viver como lordes por um mês com isso, se quiserem. Meia coroa, e nem me importo se alguma coisa estiver quebrada. Basta que ele consiga responder às minhas perguntas.
O ar em torno de Sherlock pareceu farfalhar, como se tivesse vida própria. O garoto havia pensado que ele e o homem barbudo estavam sozinhos nas arcadas sob a estação de Waterloo, mas a escuridão se modificou, dividindo-se em cinco, seis, dez pequenas silhuetas. Pareciam brotar das paredes e do chão lamacento. Eram pequenas – menores que Sherlock, menores que seu amigo Matty – e a pele, visível sob as roupas que tinham mais rasgos que tecido, era cinzenta de sujeira e gordura, uma imundície entranhada há tanto tempo que se tornara parte delas. Crianças. Habitantes dos túneis, gente sem família e sem meio de sobreviver além de revirar o lixo procurando pelo que os passageiros deixavam para trás. Seus olhos eram grandes e escuros, como os de ratos, e as unhas das mãos e do que podia ver dos pés eram afiadas e compridas, incrustadas de sujeira. Suas bocas haviam sido destruídas: lábios cortados e cheios de feridas se esticavam por cima de gengivas doentes. Os poucos dentes que restavam eram pretos e rachados, como montanhas antigas. As crianças nem mesmo conseguiam se manter em pé: passavam tanto tempo encolhidas, rastejando pelos túneis estreitos e procurando moedas na lama do chão, que eram corcundas e encurvadas. Os braços e as pernas eram finos e tortos como galhos, mas a barriga era estranhamente inchada. Cabelos imundos emolduravam seus rostos. Ele não conseguia determinar quais eram meninos e quais eram meninas: a sujeira e a fome os tornavam todos iguais. E o cheiro: céus, o cheiro de podre que emanava deles, um cheiro tão intenso que Sherlock quase podia ver o ar tremulando em torno das crianças.
Como pessoas podiam viver desse jeito?, ele pensou ao se afastar. Não havia nada nos olhos daquelas crianças que se moviam em sua direção, nada além de uma fome voraz. Para elas, Sherlock não passava de um meio de assegurar a próxima refeição.
Sua percepção da situação continuava a se alterar. Por um ou dois segundos, eram monstros, criaturas da noite prontas para atacá-lo e destruí-lo, e depois, de repente, eram crianças induzidas a atos desesperados pela fome. Sherlock sentia as emoções oscilando freneticamente entre o horror e a compaixão. Como se deixavam pessoas – crianças – viverem desse jeito? Era errado.
— Não precisam fazer isso — disse ele, ainda recuando. As crianças selvagens inclinaram a cabeça ao ouvirem as palavras, mas Sherlock não sabia com certeza se haviam entendido. Ou, caso tivessem entendido, se estavam interessadas. Tudo que sabiam era que o homem barbudo pagaria caro por Sherlock e, se tivessem de quebrar seus braços e suas pernas para impedi-lo de fugir, por elas tudo bem.
Sherlock tinha a sensação de que eles já haviam feitos coisas piores ali, na escuridão. Virou-se para correr, mas havia quatro, não – cinco – crianças atrás dele. Haviam surgido sem fazer barulho, saídas das sombras.
A mão de uma delas agarrou a manga de sua camisa. Ele se sobressaltou, puxou o tecido dos dedos magros e ouviu o ruído do pano sendo rasgado pelas unhas afiadas.
Estava cercado.
Com a ajuda da luz que vinha da rua, Sherlock conseguiu ver a silhueta do homem barbudo. E ouviu sua risada.
Desesperado, tentou sufocar o pânico que borbulhava em seu peito. Precisava pensar, e depressa.
Outra mão segurou seu cotovelo. O garoto a empurrou. A pele em que tocou parecia flácida. Em uma reação inconsciente, ele limpou a mão no casaco.
Em segundos, eles o atacariam. Sherlock olhou em volta, procurando alguma coisa, qualquer coisa que pudesse usar para escapar.
A parede. Sua única esperança era a parede com os arcos à esquerda. As crianças selvagens agora o cercavam, mas o caminho para a parede estava aberto.
Ele correu para lá e pulou quando estava bem perto. Os pés procuravam vãos nos locais onde os tijolos haviam esfarelado, e os dedos conseguiram se agarrar aos vãos na parede acima. Sherlock continuou a escalar a parede, sentindo o ângulo da curva do túnel aumentar. Ele subiu tão alto quanto conseguiu. A gravidade o puxava para baixo. No chão, as crianças tentavam escalar a parede atrás dele, mas a curvatura do túnel indicava que agora estava mais perto do centro.
Ele empurrou a parede para dar impulso, meio caindo, meio saltando por cima da cabeça das crianças. Sherlock caiu no terreno enlameado no meio do túnel e cambaleou, mas conseguiu continuar de pé. Antes que as crianças pudessem entender o que havia acontecido, Sherlock se virou e correu para a escuridão – a única direção em que podia ir.
Em poucos momentos, ele foi tragado pelas sombras. Longe, atrás dele, era possível ouvir o barulho de pés descalços batendo o chão úmido. As crianças o perseguiam.
Ele continuou correndo, confiando na sorte para não bater na parede do túnel. Ou seus olhos estavam se acostumando com a escuridão, ou havia alguma fonte de luz em algum lugar lá em cima, ou ainda um musgo fosforescente recobria as paredes do túnel, porque ele percebeu que conseguia vislumbrar os tijolos enquanto corria.
Sherlock viu a forma de um segundo arco de um dos lados – um túnel que se juntava àquele por onde corria. Ele fez a curva, seguindo pelo entroncamento. A única chance de escapar dos perseguidores era confundi-los, fazê-los escolher dentre os variados trajetos possíveis. Se continuasse fugindo em linha reta, certamente seria alcançado e então... Bem, não estava inteiramente certo de que a promessa de meia coroa seria suficiente para controlar a fome do bando ou seu desejo de vasculhar os bolsos de Sherlock em busca de moedas.
O túnel terminava em uma parede preta, e Sherlock quase colidiu com ela. Só uma mudança repentina no ar fétido o fez perceber que havia uma obstrução à frente. Ele parou de pronto e estendeu a mão com cautela. A parede estava a meio metro de seu rosto. Se não tivesse percebido a tempo, teria batido nela e desmaiado, tornando-se uma presa fácil para os selvagens perseguidores.
Teria de voltar e tentar encontrar alguma forma de passar por eles?
Uma brisa soprou em seu rosto, o ar morno e estagnado, mas definitivamente uma brisa. Talvez aquele não fosse um caminho sem saída, afinal. Podia ser uma junção na qual um túnel desembocava em outro.
Ele virou à esquerda e começou a correr, mantendo os braços estendidos à frente para o caso de se chocar com uma parede. Nada. O túnel continuava na direção do novo inferno que o esperava, qualquer que fosse.
Um estrondo repentino acima dele o surpreendeu. Parecia que o som duraria para sempre. Gotas rançosas caíram em sua cabeça. Seria um trem, talvez? Devia estar sob os trilhos que saíam da estação de Waterloo.
Talvez fosse um trem a caminho de Farnham, onde estavam seus amigos. Ele os veria novamente, ou morreria ali, na escuridão, sem nunca ser encontrado?
Ele se engasgou. Em algum lugar lá em cima havia um mundo calmo e organizado em que pessoas bem-vestidas iam de um lado para outro cheias de propósito. Lá havia o céu azul, sólidos muros de cimento, pisos de mármore e lampiões a gás. Lá em cima era o paraíso. Ali embaixo havia construções de tijolos caindo aos pedaços e gotejando água, o chão era mais líquido do que sólido, o ar cheirava à pior combinação possível de piche, excrementos humanos e plantas em decomposição, e crianças desesperadas eram pouco mais que animais. Aquilo era definitivamente o inferno.
Ele sentia que não conseguia mais seguir em frente. Queria sentar, ficar encolhido e torcer para conseguir acordar daquele pesadelo. Porque devia ser um pesadelo, não? Não podiam realmente existir lugares como aquele no mundo organizado em que ele vivia.
Mas era real. Sabia que era real. Não podia desistir. Precisava encontrar uma saída.
Mycroft contava com ele.
Lá em cima, um raio de luz atravessava o túnel na diagonal, até o chão. Devia ser apenas uma rachadura na parede de tijolos, uma fenda pela qual a luz fraca do sol entrava, mas, para seus olhos acostumados à escuridão, era como uma coluna de ouro. Ele cambaleou na direção da luz, esperando que talvez a rachadura fosse grande o bastante para escalar e chegar à estação. Chegar até a segurança e a sanidade.
Não era. A fenda mal e mal acomodava seus dedos, e a luz era apenas um reflexo provocado por um fio de água que escorria. Furioso, ele cavou os tijolos na tentativa de alargar a abertura. Por um momento, a parede resistiu, mas logo se esfarelou, caindo no chão do túnel.
Atrás do tijolo, ele percebeu alguma coisa se movendo: algo duro, preto e brilhante. Sherlock olhou com mais atenção, perguntando-se o que diabos era aquilo, e recuou horrorizado ao perceber que olhava para uma quantidade enorme de besouros, ou talvez baratas, fugindo da luz e do ar, agora que ele havia destruído as paredes de seu esconderijo, seu covil. Em segundos, as criaturas desapareceram, deixando para trás um buraco irregular. Sherlock olhou em volta e sentiu um arrepio.
Encontraria a mesma coisa atrás de cada parede, de cada tijolo do túnel? Havia um mundo oculto de besouros cegos vivendo em cada cavidade e em cada canal, alimentando-se do que quer que as crianças selvagens deixassem para trás?
Ouvindo com atenção, ele teve a impressão de escutar o ruído dos besouros se movendo à sua volta. Cercando-o. Enterrando-o.
Com um grito inútil de medo genuíno, ele começou a correr.
Dez passos depois, alguma coisa caiu, vinda da escuridão, em cima dele.
Sherlock gritou, tentando arrancar aquela coisa que se agarrava ao seu rosto. Já imaginava uma multidão de besouros trabalhando em conjunto, ou talvez uma barata gigante, do tamanho de sua cabeça, mas, quando seus dedos conseguiram segurar quem o atacava, ele descobriu que segurava farrapos e pele grudenta. A pessoa tentou agarrar seu pescoço embaixo do queixo. Era uma menina!
Uma das crianças selvagens que o perseguiam nos túneis! De algum jeito, ela conseguira ultrapassá-lo e ficou à sua espera, colando o corpo à parede de tijolos para pular em Sherlock quando ele passasse. O garoto a segurou pelo pescoço no mesmo instante em que sentiu que a boca com os restos de dentes tentava morder seu rosto. Ela era pequena e fraca, e apesar de se debater e contorcer, Sherlock conseguiu segurá-la também pela perna, ou talvez fosse o braço. Hesitou por um momento, lembrando que aquela era uma criança, uma menina, consciente de que pessoas civilizadas não machucavam meninas, mas as unhas dela arranhavam dolorosamente sua pele. Não tinha escolha.
Com um movimento repentino, Sherlock a afastou e a jogou do outro lado do túnel. A garota caiu no chão enlameado e rolou para longe. Na luz fraca do túnel, ainda era possível ver seus olhos brilhando. Ela sibilou e voltou rapidamente para as sombras, mas Sherlock sabia que não fora muito longe. A garota ainda estava ali, observando e esperando por outra chance.
Sua razão vacilou outra vez, ele sentiu o estômago se contrair e pensou em Matty, sobrevivendo com sua esperteza e nunca tendo certeza da próxima refeição. O que seria necessário para forçar Matty a uma vida como aquela? Não muito, ele desconfiava. Eram crianças, pelo amor de Deus! Não vampiros!
Sherlock seguiu em frente, ouvindo um barulho nas sombras quando a garota o acompanhou. Lá atrás, em algum lugar, ele ouviu um grito sem palavras das outras crianças que o procuravam.
Crianças ou vampiros, não fazia diferença. Ele iria morrer. Não havia como escapar. Sentia o coração batendo com força, os pulmões desesperados para recuperar o fôlego, os músculos das pernas ardendo ao se mover com dificuldade. Não iria conseguir.
— Um centavo por sua vida — cochichou uma voz ao lado dele.
— Tudo bem — respondeu ele, ofegante. — Um centavo.
— Preciso ver o dinheiro agora — insistiu a voz.
Sherlock procurou no bolso e tirou um punhado de moedas.
— Pode ficar com tudo isso se me tirar daqui vivo.
A criança na escuridão respirou fundo.
— Nunca vi tantas antes! — sussurrou ela. — Você deve ser rico!
— Não que isso vá me servir de muita coisa se eu morrer aqui embaixo — disse Sherlock com urgência, consciente dos sons de pessoas à sua procura na escuridão. — Leve-me de volta ao local por onde entrei!
— Não posso. Eles estão olhando e esperando. Tem que ser pelo outro caminho.
Sherlock engoliu em seco.
— Por onde?
— Vem comigo.
Uma sombra apareceu ao lado dele, como se houvesse se destacado da parede. A criança – um menino? – mal alcançava a altura do peito de Sherlock, mas alguma coisa nos olhos dele o fazia parecer muito mais velho. Aquela criança vira coisas que Sherlock esperava jamais ver.
— Qual é seu nome? — perguntou Sherlock, vendo o menino deslizar como um peixe pela escuridão.
— Não tenho nome — sussurrou ele.
— Todo mundo tem um nome — insistiu Sherlock.
— Aqui embaixo, não. Nomes não ajudam em nada.
Sherlock percebeu vagamente que a criança voltava à câmara curva de onde ele viera. O menino se aproximou da parede de tijolos, onde havia uma fenda que ia do chão até a altura de sua cabeça: não era uma rachadura, e sim um espaço regular, aberto artificialmente. Talvez fosse um canal de ventilação ou uma abertura com algum outro propósito. Sherlock ouviu um arrastar lá dentro. Respirando fundo, ele seguiu o menino.
Os cinco minutos seguintes foram os piores da vida de Sherlock. Apertado entre dois paredões verticais de tijolos úmidos e velhos, ele conseguia ouvir, ou talvez sentir, os insetos cegos que rastejavam pelas paredes a alguns centímetros de seu rosto, e foi se embrenhando mais e mais no desconhecido. Os tijolos ásperos arranhavam seu rosto e suas mãos. Teias de aranha, estendidas de lado a lado, prendiam-se no cabelo. Coisas caíam das teias dentro de sua camisa, e Sherlock precisava conter o impulso quase incontrolável de bater nas próprias roupas para matar as criaturas que procuravam um lugar para se esconder. De vez em quando, ao tatear o caminho, encontrava alguma coisa úmida escorrendo pelas paredes. Imaginava que fosse água, mas, no escuro, não podia ver o que era, e se fosse água, nunca tinha sentido um cheiro como aquele antes. Mais parecia algo pegajoso e vivo, como se seguisse mais e mais profundamente na garganta de um grande e antigo dragão, e estivesse sentindo sua saliva corrosiva. Percebia que o chão – se fosse chão aquilo em que pisava, e não uma língua – cedia enquanto caminhava e tinha a horrível sensação de que, se parasse, submergiria lentamente na lama, afundando até os joelhos, depois o quadril, o pescoço, e então, se os pés ainda não tivessem encontrado nada sólido, o lodo cobriria sua cabeça e o sufocaria.
O menino selvagem diante dele parecia estar escalando, não caminhando. Dedos das mãos e dos pés encontravam rachaduras na parede, e ele seguia por cima do chão lamacento. As unhas raspavam os tijolos e faziam um ruído áspero que fazia Sherlock querer gritar. Era evidente que o garoto havia aprendido a se movimentar pelos túneis e arcos de um jeito que Sherlock não era capaz.
De repente, o corredor ficou tão estreito que Sherlock precisou virar de lado para passar, e as paredes apertavam seu peito e suas costas. Ele expirou, tentando reduzir a circunferência do tórax.
Foi se espremendo até onde conseguiu, mas, em determinado trecho, um tijolo saliente comprimiu suas costelas, e ele soube que não conseguiria continuar.
Não conseguia respirar. Não adequadamente, pelo menos. O vão era tão pequeno que não conseguia inspirar mais que uma pequena porção de ar.
O pânico cresceu dentro dele, sombrio e corrosivo. Ele tentou voltar, mas alguma coisa na estreita passagem havia mudado. Talvez eles tivessem deslocado alguns tijolos ao passarem. O que quer fosse, era como se o corredor tivesse ficado mais estreito. Quando tentou voltar, Sherlock descobriu que algo comprimia sua coluna. Não conseguia ir para a frente nem para trás. Estava preso!
Queria gritar, mas não conseguia inspirar ar suficiente para tanto. Uma névoa vermelha pareceu encobrir seus olhos. O coração disparou, batendo com força e descompassado, como se tentasse escapar do peito tão desesperadamente quanto ele tentava escapar da fresta.
Alguém agarrou seu pulso e puxou com força. Os tijolos esfolaram a pele das costas e do peito, mas a argila começou a esfarelar, provocando uma chuva de areia e insetos que voavam em desespero. Sherlock disparou como uma rolha de uma garrafa, passando para uma área maior.
O menino selvagem agora estava diante dele. Fora ele quem libertara Sherlock.
— Você podia ter me deixado lá — comentou Sherlock, ofegante. — Podia ter me deixado sufocar e tirado todo o dinheiro dos meus bolsos.
— Ah... — murmurou o garoto, com uma expressão indecifrável. — É. Acho que podia ter feito isso. — Ele se virou, depois olhou para Sherlock por cima do ombro. — A gente tem que continuar andando. Eles não estão longe.
Alguns metros adiante, o corredor terminava em uma escadaria estreita. Sherlock subiu os degraus atrás do menino até chegar a um espaço cavernoso, e o que ele viu o fez ofegar, incrédulo.
Estavam no que parecia um enorme depósito, tão cheio de caixas empilhadas que Sherlock não conseguia ver as paredes. Mas podia ver o teto. Era feito de vidraças sujas presas a uma moldura de ferro, e a bendita luz do sol passava por elas, uma luz tão brilhante que ele, habituado à escuridão, teve de franzir os olhos para enxergar alguma coisa. Grandes vigas de ferro cruzavam o espaço. Em algum lugar lá em cima, ele ouviu o bater de asas de pássaros.
Mas foram as caixas que chamaram sua atenção. Eram compridas, com mais ou menos dois metros de um extremo ao outro, e estreitas, mas as laterais não eram retas. Elas se alargavam, chegando à largura máxima em um quarto do comprimento, depois voltavam a ficar estreitas. Por alguns segundos, Sherlock olhou para as caixas sem reação, tentando entender o que eram, e depois percebeu. Na verdade, sabia desde o primeiro momento em que pusera os olhos nas caixas, mas sua mente se recusara a aceitar a horrível verdade.
Eram caixões.
— Que lugar é este? — perguntou Sherlock, chocado.
— É onde eles guardam os corpos prontos para mandar para a Necrops.
— Necrops?
Sherlock nunca ouvira essa palavra antes.
— É, você sabe, para onde são levadas as pessoas mortas.
Sherlock pensou depressa.
— Está falando do cemitério? — E de repente tudo fez sentido. — Você quis dizer necrópole.
As aulas de grego que tivera na Escola Deepdene ainda não haviam sido esquecidas: uma necrópole, uma cidade dos mortos.
— Sim. Lá em Brookwood. É para lá que vão os trens.
Brookwood? Esse lugar ficava perto de Farnham, onde moravam seus tios. Onde ele estava hospedado. De repente lembrou-se de algo que Matty Arnatt dissera quando se conheceram, algo sobre não querer ir a Brookwood de bicicleta. Na época, ele não quis dizer por quê, e Sherlock não havia insistido. Agora ele sabia. Devia haver um grande cemitério em Brookwood: um lugar para onde corpos eram enviados.
— Por que não enterram essas pessoas em Londres? — perguntou ele.
— Não tem espaço — respondeu o menino, sem rodeios. — Os cemitérios daqui estão cheios. Os corpos estão empilhados uns em cima dos outros. Se vem uma chuva mais forte, os caixões são levados pela enxurrada e ficam à vista para quem quiser ver.
Sherlock olhou em volta, para as pilhas de caixões, notando que todos tinham um número anotado com giz na lateral. Presumia que os números correspondessem a registros mantidos em algum lugar, de forma que um caixão específico estivesse associado a determinado funeral.
— E todos eles estão... ocupados?
O menino assentiu.
— Cada um deles. — E parou. — Coisa boa.
— Como assim?
— Às vezes os caixões caem. Quebram. E as pessoas costumam ser enterradas com suas coisas; relógios, anéis... E roupas, também. Tem gente que paga bem por um belo paletó. E não se incomoda com quem estava usando antes.
Sherlock ficou enjoado. Aquele era um mundo inteiramente novo, e ele não queria fazer parte dele. Mas, mesmo contra sua vontade, não conseguia deixar de fazer perguntas. Precisava saber.
— Como os caixões chegam a Brookwood?
— De trem, por ferrovias especiais. — O menino apontou para um ponto distante. — Estrada de Ferro Necrops. Os trilhos seguem por ali.
— Existe uma ferrovia só para os mortos?
— E para as pessoas que eles deixam para trás. — O menino sorriu, revelando uma boca em que só restava um dente podre. — Há viagens de primeira, segunda e terceira classe só para os caixões.
— Viajar com estilo quando morrer, dá para fazer. — Ele abriu os braços. — Ainda bem que as pessoas não veem como seus entes queridos são tratados antes de entrar no trem, não é?
Sherlock olhou em volta de novo, para os caixões em pilhas apertadas e mais altas que ele. Todos contendo mortos. Estava cercado por cadáveres em número suficiente para povoar uma pequena cidade. Assustador.
— Tudo bem — disse ele. — Vamos.
O menino balançou a cabeça.
— Daqui para frente você tá sozinho, parceiro.
— Tudo bem. — Sherlock entregou ao garoto um punhado de moedas do bolso. — Obrigado.
Ele assentiu.
— Você é muito bacana. — Dando um passo para trás, o menino levou os dedos à boca e assobiou tão alto que os ouvidos de Sherlock doeram. — Ele tá aqui! Tá fugindo! — gritou com toda a força.
— Pensei que você estava me ajudando — protestou Sherlock.
— Eu tava. — O garoto balançou a mão que segurava as moedas. — Já fechamos nosso acordo. Agora tô ajudando eles. Talvez deixem eu ficar com seus sapatos.
Sherlock ouviu o barulho na passagem estreita de onde saíra, o som de unhas compridas arranhando tijolos. Olhando para a escuridão, viu o brilho de olhinhos refletindo a luz.
Ele se adiantou e agarrou o garoto pelo pulso. Torcendo seu braço, empurrou-o para a passagem.
— Ele está com meu dinheiro! — gritou. — Está com as moedas na mão!
O menino o fitou horrorizado por um momento antes de ser puxado para as sombras por várias mãos pequeninas. Sherlock ouviu seu grito, e depois nada além de ruídos de luta e roupas se rasgando.
Ele correu. Enquanto as crianças selvagens estavam distraídas, tinha uma chance de escapar.
Ainda ofegante, ainda sentindo o ardor nos pulmões e nos músculos, ele se moveu o mais rápido que pôde, correndo entre as pilhas de caixões. Em poucos instantes, estava livre e em espaço aberto.
Diante dele havia três trens a vapor. Estavam nos trilhos, mas no fim da fila. Eram como o trem que o trouxera para Londres com Amyus Crowe, exceto pela pintura: tanto a locomotiva quanto os vagões eram pretos. Cada vagão tinha um crânio branco pintado na frente e no fundo. Sob os crânios havia o desenho de ossos cruzados.
Sherlock presumiu que os trens só circulavam depois do anoitecer. Ver algo como aquilo durante o dia seria uma experiência perturbadora para qualquer pessoa.
Por outro lado, vê-lo aparecer envolto em uma nuvem de fumaça no meio da noite, a caldeira brilhando vermelha com o calor do carvão em brasa, também seria uma experiência bem aterrorizante.
Ele olhou para trás, para as pilhas de caixões. Nas sombras que os cercavam, acreditou ver o brilho de olhos seguindo seus movimentos, mas não tinha certeza. O importante era que não estavam vindo atrás dele. Não se exporiam à luz do dia, e ele com certeza não voltaria para a escuridão.
Tinha acabado. Por enquanto.
Ele se virou e deu um passo à frente. Alguma coisa quebrou sob seus pés. Sherlock olhou para baixo e viu um osso brotando do chão; havia pisado nele e o partira em dois. Às vezes os caixões caem, dissera o menino. Quebram. Parecia que o conteúdo era deixado onde caía. Toda aquela pompa e circunstância para os mortos – trens especiais, uma necrópole em Brookwood – e mesmo assim os restos mortais eram simplesmente deixados para apodrecer onde caíam se os caixões quebrassem. Era como se o espetáculo tivesse mais importância que a realidade. Os pranteadores não sabiam, ou talvez nem se importassem, se o familiar que havia morrido estava no caixão a ser enterrado.
Além dos trens, os trilhos seguiam para o lado de fora. Uma brisa soprava, dissipando o cheiro das catacumbas pelas quais Sherlock havia sido perseguido e nas quais quase perdera a vida. Ele caminhou, cansado, em direção à pálida luz do sol. Em algum lugar lá fora, no mundo real, Mycroft ainda enfrentava uma acusação de homicídio, e Sherlock precisava ajudar a limpar o nome do irmão.
Estava exausto e dolorido, mas isso não tinha importância. Mycroft precisava de ajuda.
Estava tão perdido nos próprios pensamentos que levou alguns segundos para perceber que o homem de cabelos grudentos acabara de sair de trás da locomotiva de um dos trens.
— Não vai escapar, garoto — ameaçou ele e levantou as mãos. A luz se refletiu no metal pontiagudo do soco-inglês. — E ainda economizei meia coroa com esse negócio.

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