8 de agosto de 2017

Capítulo quatorze

— SE VOCÊ VALORIZA SUA VIDA e liberdade, não olhe!
Sherlock olhou em volta. Havia um homem de pé ao seu lado, vestindo um casaco puído fechado até o pescoço e um chapéu de pele que ele mantinha quase tapando os olhos. Sherlock nem conseguia ver sua boca.
— Por que não?
— Porque a Terceira Seção é invisível. Chega, leva as pessoas e ninguém vê. Ninguém vê porque ninguém olha.
— O que vão fazer com ele?
— Se tiver sorte, talvez uma execução rápida — disse o homem. — Se não tiver, então será o knout ou o pleti.
— O que é isso? — indagou Sherlock, horrorizado.
O homem estremeceu.
— São como chicotes, só que piores. Muito piores.
Sherlock percebeu que o homem falava francês, não russo.
— Quem é você?
— Meu nome é Robert Wormersley.
— Mycroft disse que você era... — Ia dizer “agente”, mas trocou a palavra no último instante — amigo dele.
— De fato. — O rosto de Wormersley sob o chapéu de pele era radiante e atento ao encarar Sherlock. — E você é irmão dele. O único irmão. Tem os mesmos olhos. Ele sempre falava de você.
Os olhos de Sherlock seguiram a carruagem, que desaparecia na esquina.
— Ele se foi. O que vamos fazer?
— Vou lhe dizer o que não vamos fazer. Não voltaremos àquele hotel. Não voltaremos ao hotel porque eles devem ter deixado alguém esperando por você. — Wormersley olhou em volta. — Há um bom café não muito longe daqui. Vamos comprar uma bebida quente, porque parece que você está precisando de uma e eu com certeza quero me sentar e descansar um pouco. Podemos pensar em um plano de ação enquanto estivermos lá.
— Tudo bem. — Sherlock estava tão cansado que só queria que tudo isso acabasse. Queria que outra pessoa assumisse o comando. — Vamos lá.
O café ficava a dez minutos de caminhada, no porão de um prédio comercial, ao qual se chegava descendo uma escada de ferro externa. No final da escada havia um pequeno pátio e uma área envidraçada onde funcionava o café.
Wormersley indicou o caminho e conduziu Sherlock a uma mesa rústica. Então andou até o minúsculo balcão e comprou duas xícaras de chá, que foram servidas de um grande cântaro.
Sherlock examinou os outros clientes. Havia homens, mulheres e crianças sentados em duplas ou sozinhos, todos vestindo muitas peças de roupa. A maioria dos homens lia jornais ou livros. Ninguém olhava na direção dele e de Wormersley.
Sherlock observou um homem em especial, um desconhecido usando um pesado sobretudo e comendo uma espécie de panqueca. A pele de seu rosto era vermelha e irregular como uma batata. Nunca o vira antes, mas havia algo de familiar nele.
— Pirozkhi — disse Wormersley, colocando um prato na mesa deles. — Salgados russos: um pouco de carne, alguns vegetais, tudo apimentado.
Ele despiu o casaco, tirou o chapéu e os deixou em uma cadeira vazia. Era magro, de uns vinte anos, calculou Sherlock, com cabelos louros e ralos, grandes costeletas, um bigode estreito e curvo que parecia desenhado com uma pena, e um pequeno e bem cuidado cavanhaque.
Sherlock bebeu de bom grado um gole do chá preto. Olhou novamente para o homem na mesa vizinha, tentando entender por que ele parecia familiar, mas era um desconhecido. Sherlock percebeu que sua mão tremia. Estava nervoso.
— Mycroft achou que você podia ter sido preso — disse ele.
— E ele veio até a Rússia verificar? Mycroft veio até a Rússia verificar? — Wormersley sorriu. — Eu devia me sentir honrado.
— Então, o que aconteceu?
Sherlock deixou a xícara na mesa e provou um dos salgados. O recheio saboroso estava quente: carne moída e cogumelos. O vapor queimou seus lábios.
— Um dia eu encontrei a Terceira Seção revirando meu apartamento. Sabia que era a Terceira Seção por causa dos ternos baratos. Saí de lá antes que percebessem minha presença. Desde então, tenho mudado de lugar constantemente, indo de um hotel ruim para o outro, sem nunca ficar muito tempo no mesmo endereço. Tentei mandar notícias para Mycroft, mas todos os postos de telégrafos são controlados por oficiais do czar. — Ele balançou a cabeça. — Quem poderia imaginar, o velho Mycroft abandonando o conforto de sua poltrona em Londres e vindo até aqui só para ver se estou bem!
— Não é só você — disse Sherlock.
Rapidamente, ele contou a Wormersley o que havia acontecido em Londres e em Moscou.
Wormersley se reclinou na cadeira e bebeu o chá.
— Interessante — comentou. — Interessante e bizarro.
— É como ter parte dos fragmentos de uma porcelana quebrada — comparou Sherlock. — Não tenho ideia de que tipo de objeto os fragmentos comporiam se fossem colados.
Ouvindo o que acabara de dizer, ele tentou compreender por que a comparação com uma porcelana quebrada surgira de repente em sua mente.
— Tudo depende do motivo pelo qual Mycroft foi preso — refletiu Wormersley. — Ele está no país com o nome verdadeiro ou com um falso?
— Ele aqui se chama Sr. Sigerson — respondeu Sherlock. — Veio com uma companhia de teatro para fazer algumas apresentações a convite de um príncipe russo. Iusupov, acho.
Wormersley assentiu.
— Bom disfarce. Ele esteve no meu apartamento?
— Nós dois estivemos.
— Então é provável que seja por isso que ele tenha sido preso. Estavam vigiando o apartamento e prenderam Mycroft, supondo que ele soubesse onde eu estava escondido.
— Isso não faz sentido. — O chá e os salgados estavam ajudando Sherlock a recuperar a capacidade de raciocínio. — Se isso fosse verdade, eles o teriam detido, e também a mim, no apartamento, em vez de esperar até voltarmos ao hotel. E o que você disse não explica por que tentaram me acusar de furto.
Parou por um momento, tentando organizar as ideias e examiná-las, como Amyus Crowe havia ensinado. Tentar vê-las como rastros deixados por algum animal no solo e na vegetação. Para onde foi o animal e de que tamanho era? E quantos animais havia? De repente ele se espantou com um pensamento.
— É quase como se houvesse duas organizações distintas em ação: uma secreta, que atua acusando pessoas de coisas que não fizeram, e outra que prende as pessoas abertamente e as joga em carruagens. Uma não oficial, a outra sim.
Wormersley assentiu com cautela.
— Estou acompanhando seu raciocínio. Continue.
— A organização oficial, que suponho que seja a Terceira Seção, não tinha nenhum motivo para prender o Sr. Sigerson, o inocente gerente de uma companhia teatral. Por outro lado, se sabiam que ele é na verdade Mycroft Holmes, um oficial britânico em Moscou em missão secreta, então teriam todos os motivos para detê-lo.
— Sim, mas quem contaria a eles? — Wormersley assentiu. — A misteriosa e secreta segunda organização de que falou há pouco, presumo. Mas por que desejaria Mycroft preso?
— Para tirá-lo do caminho? — Sherlock refletiu por um instante. — Não, isso não faz sentido. Há maneiras mais simples de se tirar alguém do caminho. Não, eles deviam querer que Mycroft fosse preso. — Pausou por mais um momento para analisar as pistas. — Deviam querer que ele fosse preso pela Terceira Seção, que é controlada por um homem que Mycroft disse conhecer: o conde Piotr Andreievitch Chuvalov. Eles se conheceram na França alguns anos atrás.
Wormersley gesticulou para Sherlock baixar o tom de voz.
— Melhor não mencionar esse nome em público — avisou. — A Terceira Seção tem ouvidos em todos os lugares. Falar o nome dela é o suficiente para atrair a atenção da organização.
Sherlock estava agitado demais para parar. Era como se estivesse diante de peças de um quebra-cabeça e as movesse mentalmente até conseguir descobrir qual era a imagem. Ou, sugeriu o cérebro novamente, como vários pedaços de porcelana que ele reunia em pensamento até formar algum objeto. Agora estava claro para ele que a segunda organização – a secreta – queria que Mycroft fosse preso porque sabia que o conde Chuvalov o interrogaria pessoalmente. Seu irmão era um importante diplomata e Chuvalov o conhecia. Era improvável, pensou Sherlock, que o conde confiasse o interrogatório de um importante diplomata a um subordinado, e provavelmente não iria querer que ninguém mais estivesse presente caso algum segredo diplomático fosse revelado. Seria uma conversa educada entre dois cavalheiros que se conheceram no passado – um encontro que aconteceria no escritório de Chuvalov, porque era lá que ele se sentia mais confortável, mais à vontade. E por Mycroft ser um homem importante, que merecia respeito.
A verdade invadiu a cabeça de Sherlock de repente, tão óbvia, tão monumental, que ele ficou sem fôlego por um momento, surpreso por não tê-la percebido antes. Isso tudo tinha sido armado desde o princípio! Tudo que acontecera em Londres fora planejado para levar Mycroft a Moscou! O assassinato no Diogenes Club não fora uma tentativa de impedir que visse os relatórios no escritório – era um jeito de garantir que ele os veria. Se achasse que tais relatórios eram importantes o bastante para que alguém o incriminasse por assassinato de modo a impedir Mycroft de lê-los, ele então prestaria muita atenção aos relatórios quando voltasse ao escritório! Eles eram a isca no fim da linha de pesca que se estendia até Moscou!
Wormersley encarava Sherlock intensamente, mas os pensamentos do menino se desdobravam rápido demais para ele conseguir dizer alguma coisa. Os pedaços de porcelana se uniam em sua cabeça. Os detalhes iam ficando cada vez mais claros.
A companhia de teatro era uma farsa, deduziu Sherlock, surpreso. Só podia ser. Era outro relatório sobre a mesa de Mycroft – parecia uma coincidência, mas não era. A organização secreta, seja lá qual fosse, queria seu irmão em Moscou para conseguir prendê-lo, e por isso deram a ele uma razão para ir a Moscou e um jeito de chegar lá, tudo pronto e perfeito!
Sherlock via os rostos dos membros da companhia de teatro – Sr. Kyte, Sr. Malvin, Srta. Dimmock, Sra. Loran, sem mencionar o regente, Sr. Eves, e seus músicos. E os ajudantes – Pauly, Henry, Judah e Rhydian? Todos eles faziam parte da farsa? Todos estavam interpretando, até os que não eram atores? A escala dessa empreitada era fantástica!
Pensando em retrospecto, tudo ficou muito óbvio. Essa organização secreta estava contando com o fato de que Mycroft ficaria confuso depois da prisão em Londres e agarraria a primeira boa oportunidade de ir a Moscou. Mas Sherlock e Amyus Crowe também estiveram lá, forçando a organização a encontrar um jeito de tirá-los do caminho. Isso explicava o ataque no museu. A organização reagia rapidamente a eventos inesperados, e era por isso que havia sido tão difícil entender seus planos.
Sua respiração estava acelerada, e Sherlock sentia o entusiasmo de saber que estava certo, uma sensação que inundava seu corpo e estimulava todos os nervos.
Tudo havia sido projetado, fato a fato, para garantir um encontro privado entre Mycroft e o conde Piotr Andreievitch Chuvalov, o chefe da Terceira Seção, no escritório dele. Tudo havia levado àquele momento. Mas por quê? Pensando em tudo que havia acontecido, Sherlock concluiu o óbvio ululante. Queriam matar o conde Chuvalov, e queriam colocar a culpa em Mycroft. Esse era o modus operandi da organização – culpavam pessoas por coisas que não haviam feito. Haviam incriminado Mycroft por assassinato e Sherlock por roubo.
Sherlock encarou Wormersley.
— E você é parte disso, não é?
As palavras saíram de sua boca numa torrente repentina, mas ele sabia que eram verdadeiras. Sua mente, uma fração de segundo antes, relacionara todas as provas.
— Você é realmente irmão de seu irmão. Bravo!
O silêncio invadiu o café. Era como se todos os outros clientes tivessem feito uma pausa em suas conversas ou refeições, deixando o momento prolongar-se.
Wormersley assentiu e abriu um sorriso com os lábios finos.
— É claro que sou parte disso. Não me surpreende que você tenha percebido, não mesmo, considerando quem é seu irmão, mas estou interessado em saber o que me delatou.
— Duas coisas — respondeu Sherlock, tentando manter a voz calma. — Sua barba é uma delas, claro. Você disse que está fugindo há mais de uma semana, indo de um hotel ruim para o outro, mas a barba e o bigode estão perfeitamente aparados. Era de se esperar que um homem na sua situação teria em mente coisas mais importantes que a aparência.
Wormersley passou a mão no queixo.
— Um bom argumento. Nunca resisto ao impulso de me apresentar bem. E a outra coisa?
— Seu apartamento. Supostamente foi revistado, mas a bagunça era organizada demais. — Agora ele percebia que era isso que sua mente tentara mostrar quando fez a comparação com pedaços de porcelana. — Se alguém houvesse mesmo revistado o apartamento e quebrado tudo que via pela frente, os objetos estariam espalhados de forma aleatória, mas as peças de decoração menores que foram destroçadas ainda estavam em cima da mobília destruída. Alguém percorreu o lugar de forma metódica, quebrando primeiro as coisas maiores, depois os objetos menores. Isso não é uma revista, é uma cena.
Wormersley assentiu.
— Vou me lembrar disso na próxima vez. Excelente capacidade de observação, Sr. Holmes. Excelente, de fato.
Sherlock olhou em volta.
— Estamos em público, sabe? Não pode me arrastar daqui, esperneando e gritando, sem ninguém reagir.
— Ah, acho que você subestima a capacidade dos russos de não se envolverem em assuntos alheios. — Ele riu de repente. — Mas, só para o caso de querer experimentar...
Ele olhou em volta e estalou os dedos.
Todos no café se viraram em sua direção. Não havia surpresa no rosto daquelas pessoas. A expressão era a de soldados diante de um oficial comandante: de paciência enquanto aguardavam suas ordens.
Sherlock olhou para as duas mulheres do outro lado da sala. Uma era jovem, com cabelos castanhos presos sob um lenço, e a outra de meia-idade, com um chapéu de pele. Srta. Dimmock e Sra. Loran? Ele não conseguiu afirmar com certeza, não até a mulher mais jovem sorrir e, de repente, a fina linha de seu maxilar aparecer sob a maquiagem.
Os homens podiam ser o Sr. Malvin, o Sr. Furness, o Sr. Eves e os vários músicos cujos nomes Sherlock jamais decorara? O regente da orquestra, se era mesmo ele, havia raspado o bigode – ou, o que era mais provável, retirado o bigode falso –, mas um dos homens era alto o bastante para ser ele.
O desconhecido com rosto de batata piscou para Sherlock. Depois, ergueu a mão e puxou a pele irregular. Pedaços se soltaram como massa moldável, e ele tirou vários pedaços até exibir seu rosto verdadeiro: bochechas cobertas de finas veias vermelhas e um nariz de couve-flor. Era o Sr. Furness.
— Que alívio! — exclamou ele. — Isto aqui pinica que é um inferno! Maquiagem artística, lembra?
Agora que olhava para aqueles rostos, Sherlock viu que as quatro crianças eram, na verdade, Judah, Pauly, Henry e Rhydian, todos juntos e encolhidos contra o frio, com sujeira cobrindo o rosto, dentes falsos sobre os verdadeiros, enchimento nas bochechas e uma sutil maquiagem alterando as linhas do rosto. Pauly assentiu pra Sherlock; Henry apenas deu de ombros, como se isso fosse uma ocorrência diária.
Embora houvesse compreendido a maior parte do que acontecera com uma série de deduções, Sherlock não havia antecipado essa parte da história.
— E agora? O que vai acontecer? — perguntou.
— Agora — respondeu Wormersley —, vamos ficar aqui sentados, bebendo chá e comendo nossos salgados. O dono do café não vai nos incomodar; ele foi bem pago para não se intrometer. Ficaremos aqui até o conde Piotr Andreievitch Chuvalov estar morto e seu irmão ser preso pelo seu assassinato.
— Mas para que isso vai servir? — indagou Sherlock. — Por que todo esse trabalho para trazer Mycroft a Moscou? Por que você mesmo não matou o conde Chuvalov?
Wormersley deu de ombros.
— Você não imagina como ele é bem protegido. Nunca é visto em público e quando viaja está sempre acompanhado de guarda-costas, homens que o acompanham há mais de vinte anos. Gente de uma lealdade fanática. Quando o conde viaja, envia diversas carruagens em diferentes direções, e ninguém sabe em qual delas o homem está. É uma pessoa importante, a segunda mais importante da Rússia, atrás apenas do czar. Acredite, nós tentamos. Muitas vezes. A única solução foi criar uma situação na qual sabíamos onde e quando ele estaria sozinho.
— Mas o que ele fez a vocês?
— Ele sabe que nós existimos, mas não aprova. E quer nos deter.
— E quem são vocês?
— Somos a Câmara Paradol — anunciou uma voz atrás de Sherlock.
As palavras causaram um arrepio de medo no garoto.
Sherlock virou o rosto. A Sra. Loran, a mulher que sempre o tratara com bondade, havia deixado sua mesa para se aproximar da deles. Ainda sorria com a simpatia de sempre, envolta em roupas que a faziam parecer uma avó russa, mas havia nos olhos dela um brilho duro que Sherlock não notara antes.
— O que é a Câmara Paradol? — perguntou Sherlock. Sua voz instável revelava medo e decepção por, mais uma vez, ter sido desapontado por um adulto de quem gostava e em quem confiava.
— Uma organização — respondeu ela. — Um clube. Um grupo de indivíduos que pensam de forma semelhante. Um estado mental. Talvez até uma nação sem território. Tudo isso e mais. Somos as pessoas que enxergam como o mundo se move e decidiram que não gostavam disso. Somos aqueles que decidiram mudar o curso da história.
— Então, tudo aquilo sobre a venda do Alasca para a América e a possibilidade de os americanos não realizarem os pagamentos, abrindo espaço para a Espanha se manifestar e comprar o território...? Tudo isso era mentira?
Ela riu.
— Não. É tudo verdade. Verdadeiro, mas muito irrelevante. A isca da armadilha. As melhores mentiras são aquelas que, em sua maioria, são verdadeiras. Apenas tiramos proveito de uma situação política real e a usamos como uma isca para seu irmão. Isso, e o desaparecimento do Sr. Wormersley aqui.
— E quanto a Mycroft? Por que ele?
— Foi uma escolha conveniente. Um homem que, mesmo jovem, passou a ser identificado como uma peça central do Governo britânico. Vai ser difícil para o seu Primeiro-ministro alegar que Mycroft Holmes era uma espécie de idealista violento. Não consigo imaginar alguém mais diferente disso que Mycroft Holmes. Não... Quando Mycroft for identificado como o assassino do conde Chuvalov, todos os governos do mundo saberão que a Grã-Bretanha cometeu um assassinato sancionado pelo Estado. A Inglaterra será uma nação pária. Ninguém mais vai ouvir seu país. A influência inglesa sobre os assuntos mundiais deixará de existir.
— E isso é importante para vocês? Tão importante quanto se livrar do conde Chuvalov?
— Somos a Câmara Paradol — a Sra. Loran respondeu simplesmente. — Quando fazemos algo, nunca é por uma só razão. Cada atitude que tomamos atende a muitos propósitos diferentes. É mais elegante assim.
Sherlock olhou para Wormersley com ar crítico.
— Mas por que você? O que envolveu você nessa história toda?
Wormersley olhou para a Sra. Loran como se pedisse permissão para falar. Ela assentiu.
— Já viajei muito — começou Wormersley —, e em todos os lugares em que estive vi pessoas abusando umas das outras, escravizando e ferindo seus semelhantes, sempre em nome da política e da religião. — Sua expressão distante sugeria que ele estava se lembrando de outros tempos e lugares. — O mundo mergulha no caos. Alguém precisa se manifestar e assumir o controle. — Ele sorriu, um sorriso perigoso e sonhador ao mesmo tempo. — Imagine, Sherlock, um governo mundial! Desde o tempo de Alexandre, o Grande, isso não é possível, e agora o mundo é muito maior! Duvido que aconteça durante minha vida, mas posso ajudar a construir esse futuro... trabalhando para a Câmara Paradol.
— Em uma versão mais prosaica — interferiu a Sra. Loran —, Wormersley estava preso no Japão. Os japoneses não gostam de estrangeiros. Ele teria sido torturado e executado. Conseguimos enviar uma mensagem a ele prometendo tirá-lo de lá se aceitasse trabalhar para nós.
Sherlock mudou a expressão.
— Mas há uma coisa que não entendi. Mycroft e o conde Chuvalov vão estar no escritório dele, sozinhos. E então o que vai acontecer? Como Chuvalov morre, e como Mycroft é responsabilizado pelo assassinato? Não vão poder usar o truque da faca de gelo outra vez, sem dúvida. O conde não vai se matar.
— O truque da faca de gelo foi útil e um bom ensaio para algum assassinato futuro, mas você tem razão, não poderemos usá-lo novamente nessa ocasião. Não, temos um plano diferente, melhor.
— Que plano? — quis saber Sherlock.
— Vamos deixar essa parte como uma surpresa, está bem? — disse ela.
Sherlock balançou a cabeça.
— Todos os seus planos são assim complicados? Sei que Mycroft veio até aqui, foi preso e está prestes a ser interrogado pelo conde Chuvalov, mas várias coisas já poderiam ter dado errado a essa altura. Mycroft poderia não ter sido liberado pela polícia, ou poderia ter decidido não vir, ou fazer a visita de forma oficial, com seu nome verdadeiro. Ou talvez Chuvalov tenha deixado alguém interrogar Mycroft no lugar dele ou resolvido realizar o interrogatório em uma cela, enfim... Qualquer um dos elos dessa corrente poderia ter se partido. As chances de esse plano funcionar eram astronomicamente baixas.
— Não pense nisso como uma corrente — explicou Wormersley. — Pense no plano todo como uma... ah, não sei... uma rede de pesca. Cada nó é uma decisão, mas há muitos caminhos para ir de um lado ao outro da rede. Por exemplo, se Mycroft não tivesse sido solto, teríamos conseguido orientação jurídica para ele, contratado um advogado usando um conhecido benfeitor. Teríamos plantado pistas e indícios que levariam a polícia a concluir que Mycroft era inocente, embora não muito facilmente. Ficamos surpresos quando você e o americano grandalhão se envolveram, mas isso nos poupou muito trabalho. — Ele deu de ombros. — Tivemos de tentar tirá-los do nosso caminho no museu, e depois adaptamos os planos quando ficou claro que Mycroft não viajaria sem você. Se Mycroft não houvesse mordido a isca e vindo a Moscou, teríamos arriscado um pouco mais. Eu poderia enviar a ele uma mensagem pedindo socorro. De uma maneira ou de outra, e havia muitas maneiras planejadas, Mycroft teria vindo a Moscou e, uma vez aqui, informaríamos a Terceira Seção para que fosse detido. Dizem que a genialidade é a capacidade infinita para controlar detalhes, e a Câmara Paradol conta com vários gênios a serviço de seus propósitos. E assim, inevitavelmente, tudo converge para um único ponto hoje, às três da tarde, quando Chuvalov receberá Mycroft Holmes em seu escritório e morrerá.
— Mas como sabe que isso vai acontecer às três da tarde? — perguntou Sherlock, impotente.
O garoto considerava-se inteligente, mas estava perplexo com a incrível paciência e capacidade de planejamento demonstradas pela Câmara Paradol.
— Temos acesso à programação do conde — informou a Sra. Loran. — Subornamos um secretário do baixo escalão. Ele nunca vê Chuvalov nem se aproxima dele o suficiente para poder assassiná-lo, mas tem conhecimento de sua rotina. Chuvalov tem um intervalo de meia hora entre as 15h e as 15h30 de hoje. Antes, ele estará em uma reunião no Kremlin; depois, deve apresentar-se para uma audiência com o czar. Se acontecer hoje, será às três da tarde. Se não for hoje, saberemos quais são os intervalos em seus horários até o fim da semana.
— E o que vai acontecer comigo?
Wormersley olhou para a Sra. Loran mais uma vez.
— Ah, você sabe demais — disse ela, em voz baixa. — Por isso Wormersley o interceptou na porta do hotel e trouxe você para cá. Tínhamos de determinar o que você sabia e o que poderia deduzir a partir dessas informações. A resposta foi que você sabe demais e que é tão astuto quanto seu irmão. O barão Maupertuis já nos dissera isso, mas precisávamos ter certeza. Não podemos deixá-lo vivo. Você será levado a uma área rural da Rússia e eliminado. Os ursos e os lobos limparão os vestígios por nós.
Um arrepio percorreu o corpo de Sherlock. Olhando em volta, não conseguiu ver nenhuma saída. Estava cercado por agentes da Câmara Paradol. Se tentasse correr, eles o alcançariam em segundos.
E Mycroft? Pobre Mycroft, prestes a ser acusado de um assassinato que não cometera... outra vez.
Mas dessa vez não haveria ninguém para provar sua inocência.
Poderia haver uma guerra, uma guerra entre a Rússia e a Inglaterra. Um incidente diplomático de tal magnitude poderia alterar o curso da história. Mas não era exatamente isso o que a Câmara Paradol queria?
— Leve-o — falou a Sra. Loran ao Sr. Furness por cima do ombro. — Certifique-se de que o corpo nunca seja encontrado.
O Sr. Malvin aproximou-se dela, segurando uma caixa de madeira. Sherlock notou que havia alguns buracos na tampa, mas não conseguiu imaginar por quê.
— Isso — disse ela a Wormersley, apontando a caixa com um gesto casual — é para você. Tome cuidado. E lembre-se, três da tarde, em ponto. — Ela se virou para Sherlock. — Por favor, entenda, nada disso é pessoal. Não temos nenhuma antipatia por você, apesar do que aconteceu com o barão Maupertuis. Você é apenas uma pedra no caminho, uma pedra que precisamos remover antes que o carro da história siga em frente.
— Vamos — ordenou Wormersley enquanto se levantava. — Vou levá-lo a um lugar muito perigoso.
Mil estilhaços de vidro se partiram nos degraus do lado de fora. Sherlock ergueu os olhos e viu o pátio explodir em chamas.

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