8 de agosto de 2017

Bedlam

ERA UM DAQUELES RAROS DIAS EM LONDRES quando o sol brilhava em ruas limpas e o ar não tinha de cheiro de legumes podres e esterco de cavalo. Uma noite de chuva forte lavara as ruas sem, felizmente, sobrecarregar o sistema de esgotos, e as pedras e tijolos da cidade brilhavam orgulhosamente como um homem mostrando seu cabelo recém-cortado e oleado. Sherlock sabia que não duraria muito, mas por um tempo isso fez de Londres um lugar onde ele pensou que poderia viver um dia.
Sherlock e seu tutor, Amyus Crowe, tinham deixado Farnham mais cedo naquela manhã. O irmão de Sherlock, Mycroft, os convidara para almoçar em seu clube – o Diogenes Club. Sua razão, que ele explicou em uma carta que havia chegado no dia anterior, era que ele queria falar sobre a educação de Sherlock. Depois de ter sido desmatriculado da escola Deepdene para garotos e ter sido colocado sob os cuidados do grande americano Amyus Crowe, parecia a Sherlock que Mycroft agora queria saber se tinha feito a coisa certa. O Sr. Crowe era um professor brilhante, mas apenas em determinados assuntos. Sobrevivência na selva, seguir rastros animais, pesca de carpas e trutas, identificar fungos venenosos, um pouco da história política recente e da análise lógica de evidências – estes eram todos os seus pontos fortes. Matemática e latim – nem tanto.
Sherlock preferia muito mais estudar as coisas que Amyus Crowe lhe ensinando porque podia ver o seu valor, mas seu irmão tinha uma estranha consideração para com as áreas do currículo em que Sherlock não conseguia ver nenhum uso real. De vez em quando ele ameaçava trazer outro tutor para complementar as lições de Crowe, e Sherlock tinha que evitar o tópico inteiramente ou tentava mudar de assunto. “Se você quiser ser alguém,” ele dizia, “então precisa aprender línguas mortas, teologia e os fatos mais obscuros da história. Não há alternativa, eu temo.” O fato de Sherlock não ter ideia do que queria ser não exercia influência sobre seu irmão. “Você irá para o Serviço Público, é claro,” ele teria retumbado. “Ou isso, ou será banqueiro.”
A charrete que Sherlock e Crowe tinham tomado na estação de Waterloo deixou-os do lado de fora do Diogenes Club, que se escondia atrás de uma porta comum. Crowe, resplandecente em seu terno e chapéu brancos, jogou uma moeda para o condutor e atravessou a calçada até a porta, mas quando o fez, um homem de terno e chapéu-coco que passava deu-lhe um encontrão. Crowe virou-se para fazer-lhe uma forte censura, mas o homem inesperadamente o empurrou no peito. Crowe cambaleou para trás, esbarrando em dois outros homens que passavam. Dentro de instantes, os quatro discutiam.
Sem saber ao certo o que fazer, Sherlock se afastou da charrete. Ao fazê-lo, ouviu uma movimentação atrás de si. Alguém contornara o veículo por trás e se aproximara de seu ombro. Ele virou a cabeça, mas um líquido foi pulverizado em seus olhos e nariz.
Ofegante, ele levantou a mão para enxugar o rosto, mas seu braço de repente parecia se mover em câmera lenta. Sua atenção se fixou em seus dedos e polegares. Parecia que eles não eram uma parte sua: erguidos, coisas carnudas que se moviam por vontade própria. As linhas na palma de sua mão tomaram a aparência de rios que cruzavam a paisagem, como um mapa visto à distância.
O que estava acontecendo com ele?
Ele sentiu náuseas. Sua cabeça parecia ter dobrado de peso, e conforme ele laboriosamente a girou para olhar para Amyus Crowe, viu que o grande americano olhava para ele com preocupação, mas o rosto de Crowe entrava e saía de foco, e apesar de seus lábios se moverem, Sherlock não conseguia ouvir nada além do que soava como o badalar de um sino distante. A charrete, o céu e a alvenaria dos prédios estavam todos juntos em uma mistura de cores que o fez sentir-se como se estivesse olhando para o mundo através de uma janela de vidro colorido. Ele precisava descansar, sentar e reunir seu juízo, mas quando deu um passo para frente, seus pés se enroscaram um no outro e ele tropeçou. Sherlock caiu, e pareceu levar um tempo muito longo antes de chegar ao chão. Uma mão agarrou seu ombro, mas quando ele olhou para cima, tudo o que pôde ver foi um rosto grotescamente distorcido que pairava acima. Ele golpeou com os punhos, uma e outra vez, batendo ao redor em um mundo de formas e cores misturadas. Alguém estava gritando, e ele pensou ter reconhecido a voz. Ele pensou ser sua própria voz, mas num caminho muito, muito distante.
Então tudo começou a escurecer, e ele teve a sensação de que seus braços estavam sendo segurados. E então houve simplesmente a escuridão.

A percepção de que ele estava deitado em uma cama de palha em um quarto feito de tijolo veio lentamente. Ele não sabia em que ponto entendeu onde estava: chegou um momento, conforme olhava para a parede, que ele percebeu que tinha entendido algum tempo antes, a informação apenas não tinha se ligado às outras ainda.
Ele estava em um quarto feito de tijolos, e estava deitado sobre palha.
Isso era um ponto de partida.
E seu nome era Sherlock. Sherlock Holmes.
O resto fluiu de volta gradualmente, como as ondas do mar sobre a praia com a maré que chega. O Diogenes Club. A charrete. A luta. O líquido que tinha sido pulverizado sobre seu rosto.
Ele checou suas roupas, passando as mãos pelo corpo. Ainda vestia o mesmo casaco, camisa e calças que usava antes. Isso, pelo menos, era algo para se segurar. Elas estavam sujas com poeira e sujeira, mas não estavam rasgadas.
O espaço era como o interior de um estábulo, mas não havia cheiro de animais. A palha era limpa e seca, e tinha sido posta em lajes. A parede feita de tijolos estava bem seca também: sem musgo, sem água escorrendo, e o ar estava frio mas não úmido. A princípio, ele pensou estar em algum tipo de celeiro, mas as evidências sugeriam o contrário. Ele estava no interior de uma casa – o cômodo apenas não era particularmente mobiliado.
Havia uma janela em uma parede, mas era alta e estreita, apenas larga o suficiente para ele passar seu braço, se tentasse. Certamente não grande o suficiente para escapar. Mesmo seu amigo Matty não seria capaz de passar por ela. O vidro parecia sujo, de onde ele estava.
A parede oposta à janela era interrompida por uma porta. Era pesada, e repleta de grandes rebites de metal como pontas de flechas que tinham sido atiradas pelo outro lado. Uma pequena janela no centro da porta estava fechada, e parecia como se uma persiana de madeira tivesse sido fechada em toda ela pelo outro lado.
Conforme a mente de Sherlock começou a acelerar, ele percebeu que não havia dobradiças na porta. Ou, pelo menos, não havia dobradiças do lado de dentro da porta. As dobradiças deveriam estar do outro lado, o que significava que a porta abria-se para fora, não para dentro. Sherlock pensou que nunca tinha estado em uma sala onde a porta abria-se para fora.
Não, isso não era certo. Ele já estivera em uma sala assim: a sala na Delegacia de Polícia de Bow Street, onde ele e Amyus Crowe tinham falado com seu irmão Mycroft alguns meses antes. A porta para aquela sala tinha sido projetada de modo que as pessoas ali dentro não pudessem desmontar as dobradiças e, desse modo, remover a porta, ou se esconder atrás dela quando esta se abrisse e atacar quem estivesse entrando.
Ele estava em uma cela.
Ele se sentou repentinamente, chocado em completo alerta. Estava em uma cela! Certamente ele não tinha sido preso? Agora que o sangue fluía mais rapidamente através de seu cérebro, ele se lembrou de imagens vagas dele si mesmo debatendo-se na rua, acertando as pessoas que estavam perto – mas Amyus Crowe o teria protegido, não teria? Protegido-o de ser preso?
A menos que Crowe tivesse sido preso também. O grande americano estivera à beira de uma briga, depois de tudo.
Ele verificou os nós dos dedos. Eles estavam arranhados e cobertos com sangue seco.
Tentou descobrir quanto tempo esteve inconsciente. Sua garganta e boca estavam secas, mas ele não estava particularmente com fome. Ele não deveria estar apagado por mais do que algumas horas. Ainda era o mesmo dia.
Ele cambaleou até ficar de pé. Seus dedos formigavam como se espetados por alfinetes e agulhas conforme a circulação voltava para eles, e ele arrastou um pé atrás do outro para tentar fazer a dor diminuir. Assim que pôde permanecer de pé, foi até a janela. Ficava acima de sua cabeça, mas pôde alcançar o parapeito e segurar-se com os dedos, e então içar-se, arranhando a parede com os bicos das botas para conseguir se firmar contra a aspereza da argamassa entre os tijolos. Desse modo, conseguiu manter sua cabeça em um nível onde podia ver lá fora.
Do outro lado da parede havia um jardim bem cuidado com grama e arbustos e, além deles, logo do outro lado de um muro, ele podia ver o topo das charretes que passavam. Muitas charretes. Pombos estavam empoleirados ao longo de toda a parte superior do muro. Parecia que ele ainda estava em Londres.
Pelo menos era alguma coisa.
Ele caiu de volta para o chão de pedra, limpando as mãos nas calças, e foi até a porta. Não havia puxador na parte interna. Ele empurrou experimentalmente. A porta não se moveu. Presumivelmente, estava ferrolhada pelo outro lado.
Ele jogou todo seu peso contra a porta, mas ela não se moveu.
Sherlock olhou de volta para a janela. Ele podia estar aprisionado, mas pelo menos não estava no campo, ou mesmo na França. Isso já tinha acontecido antes. Ele estava em Londres. Amyus Crowe o tiraria dali.
Assumindo-se que Crowe não estivesse na cela ao lado.
O pensamento enviou um calafrio de medo através dele. Se ele e Crowe estivessem os dois presos ali, e se Mycroft não soubesse onde eles estavam, então não restava mais ninguém para tirá-los dali. Eles poderiam apodrecer lá para sempre.
— Senhor Crowe! — Ele chamou. — O senhor pode me ouvir? Você está aí?
Nada. Sem resposta.
Não, não era inteiramente verdade. Ele podia ouvir alguma coisa.
Agora que prestava a devida atenção, ele podia discernir uma fraca cacofonia de gemidos e gritos vindo do outro lado da porta. Parecia ter ganhado mais volume quando ele gritou. E ele podia ouvir batidas também: metal contra metal em um ritmo sem sentido regular. Era como ouvir um recital musical no inferno.
A janelinha na porta de repente se abriu. Ele jogou a cabeça para trás, assustado. Um rosto olhava para ele, enquadrado na madeira: olhos desconfiados e pele cicatrizada.
— Afaste-se — disse uma voz áspera. — Volte para o outro lado do cômodo. Esta porta não será aberta até que faça isso.
Sherlock andou arrastando os pés para longe até que suas costas estavam contra a parede, sentindo a palha acumulando-se atrás de seus pés conforme eram arrastados pelo chão.
A janelinha se fechou com um baque. Momentos depois, ele ouviu o clunk sólido de um grande ferrolho sendo desengatado, e então a porta se abriu.
Dois homens estavam ali. Ambos usavam uniformes de tecido azul. Suas mãos estavam sujas e os seus rostos, com barba por fazer. E ambos seguravam tacos curtos de madeira.
— Tente qualquer coisa e você terá que arrancar o seu couro do chão, entendeu? — quem falava era o homem à esquerda. Ele era um pouco mais baixo que seu companheiro, e seus olhos eram azuis. — Diga se entendeu. Fale exatamente agora.
— Entendi — Sherlock respondeu, a voz trêmula. — Onde estou?
O homem virou-se para o companheiro.
— Você ouviu isso? Ele não sabe onde está! — Ele se virou e sorriu para Sherlock. Sua boca era vazia a não ser por três dentes enegrecidos. — Você está em Bedlam, companheiro! Agora venha até aqui, bem devagar. O Residente quer dar uma olhada em você.
Os dois homens se afastaram, deixando um espaço entre eles. Sherlock caminhou devagar para frente, ainda tentando processar o que lhe tinham dito. Onde era “Bedlam”? Quem era o “Residente”?
Os homens recuaram quando ele passou pela porta. Sherlock percebeu que eles mantinham seus porretes preparados, caso ele os atacasse. Era menor do que eles e estava desarmado, mas eles pareciam ter medo dele. Ou, pelo menos, tinham cautela.
Do lado de fora, encontrou-se em uma longa e ampla galeria lotada com portas de um lado e estreitas janelas gradeadas do outro. O chão era de madeira, aparentemente polida por anos de pés arrastando-se ali. O teto da galeria era curvado, com barras de ferro a cada poucos metros fazendo Sherlock sentir que estava dentro da caixa torácica de algum grande animal: uma impressão reforçada pelo brilho abafado emitido por uma lareira a poucos metros de distância. A lareira era coberta por uma gaiola de metal preto aparafusada à parede.
Havia pessoas na galeria. De um lado, quatro homens jogavam cartas em uma pequena mesa. Outro homem, usando terno preto e um chapéu alto, estava apoiado sobre uma das janelas e olhava para fora. A expressão em seu rosto era desesperadoramente triste. Outros homens – e todos ali eram homens, Sherlock reparou – andavam pra lá e pra cá na galeria, alguns lentamente, com as mãos roçando a parede de tijolos, e outros mais rápido, como se tivessem algum lugar urgente para estar.
Um homem passou por Sherlock soltando uma maldição. Ele caminhou por alguns metros, em seguida, parou por um momento e se virou. Ele caminhou de volta, passando por Sherlock novamente como se nunca o tivesse visto antes, e foi na direção oposta.
Enquanto Sherlock observava, ele parou de novo, virou-se e andou de volta para Sherlock mais uma vez.
Agora que estava fora de sua cela, ele podia ouvir a cacofonia de vozes de forma mais clara. Soava como se várias centenas de pessoas estivessem dialogando e argumentando consigo mesmas, ou cantando, ou lamentando, tudo de uma vez, e todas elas na ignorância das outras.
As vozes vinham de detrás das portas alinhadas de um lado da galeria.
Virando-se, viu um quadro negro aparafusado na parede ao lado da porta por onde acabava de sair. Nelas estavam rabiscadas as palavras Garoto desconhecido - loucura aguda, juntamente com a data.
As palavras eram como dardos de gelo fincados em seu coração.
Loucura aguda.
— Aqui é um hospício — disse ele, e ele podia ouvir sua voz beirando o estouro. — É o lugar para onde enviam pessoas loucas.
— Como eu disse — o assistente falou — Bedlam. Ou Bethlem Royal Hospital. Ou hospício, para aqueles que trabalham aqui.
Os olhos aguçados de Sherlock notaram que o ferrolho em sua porta era enorme – provavelmente trinta centímetros de comprimento, ou mais. Era de um design que ele já tinha visto em outro lugar: um cilindro metálico que deslizava para frente e para trás dentro de alguns delimitadores de metal para entrar em um cano de bronze estreito no batente da porta com o objetivo de mantê-la fechada. O cilindro podia então ser girado pela alça para se encaixar em um desses delimitadores da porta, impedindo-o de deslizar de volta a menos que girado na direção contrária. Muito simples, e bastante infalível.
Mesmo que Sherlock pudesse ter escolhido as trancas, o que ele não podia, não havia maneira óbvia de sair da sala. Alcançar o ferrolho estando do lado de dentro da porta seria quase impossível.
Se ele fosse escapar.
— Agora, vá na frente por esse caminho, até o final — disse o assistente, interrompendo sua corrente de pensamentos. — É lá que o escritório do Residente fica. Ele gosta de ver todos os novos detentos. Muito consciencioso, ele.
Ele empurrou o ombro de Sherlock, afastando-se imediatamente caso o garoto resolvesse virar de repente e agarrá-lo.
Sherlock começou a andar. Algumas portas estavam abertas, outras trancadas, com os ferrolhos firmemente apontados para baixo. Quem quer que dirigisse este lugar, gostava de um sistema ordenado, da aparência de controle. Conforme ele passava por cada porta fechada, o ruído do ocupante ficava repentinamente mais alto, em seguida mais calmo. Ele podia ouvir palavras, soluços, gritos, e em um alguns dos casos, o que soava como canções de music-hall.
Talvez as piores fossem as portas por trás das quais ele não podia ouvir ruído algum, mas sentia uma presença maligna, observando e esperando, como uma aranha em sua teia.
Uma mão empurrou Sherlock entre as omoplatas. Ele quase se estatelou no chão.
— Mova-se — o assistente ordenou. — Não temos o dia todo.
Com os dois assistentes atrás de si, Sherlock andou todo o comprimento da galeria, passando por inúmeras portas de madeira e janelas estreitas e ocasionais lareiras protegidas por grades que irradiavam calor ao seu redor. Em uma das grades um interno tinha o empreendimento de segurar uma vara de madeira nas chamas, tostando algo. Por alguns momentos, Sherlock pensou que fosse um pedaço de pão, mas conforme ele se aproximou, percebeu que era um rato, enrolado e enegrecido.
O homem com a vara assistiu Sherlock e os assistentes passarem.
— Eu a vi de novo quando todos estavam dormindo — disse ele em uma voz razoável, calma. — Ela anda bela como a noite.
— Bom — Sherlock respondeu. Era a única coisa que ele podia pensar em dizer.
Um dos assistentes bufou com um riso.
— Sim, procure os fantasmas, rapaz. Certifique-se de fazer suas orações e dormir bem ou não vai gostar do que vê.
Os assistentes empurraram-no para o fim da galeria, onde uma grande grade, como uma ponte levadiça, separava o espaço além. Era uma sala circular de teto abobadado. Um dos assistentes destrancou uma porta na grade com uma chave selecionada de um molho que estava pendurado em seu cinto e a abriu. Ele passou, deixando seu colega atrás de Sherlock, e fez um gesto para Sherlock segui-lo. Os dois obviamente já tinham feito isso muitas vezes antes. Eles tinham todo o processo praticamente estabelecido.
O salão abobadado em que eles levaram Sherlock era opulento: pintado de branco com ornamentos de folhas douradas e belos quadros pendurados nas paredes. Esta área não tinha azulejos no chão: possuía ladrilhos pretos e brancos. À esquerda de Sherlock havia uma grande porta que ele supôs, à partir da posição das janelas ao longo da galeria, que dava para os jardins. À sua direita havia uma pequena porta interna. Não estava trancada ou bloqueada. Presumivelmente, ela levava às áreas administrativas: escritórios, salas de exame, cozinhas, esse tipo de coisa. E à frente dele, espelhando a grade do chão ao teto através da qual acabara de passar, havia outra grade que dava para outra galeria.
Vagamente, ao brilho da lareira vermelha adiante, ele achou que podia ver formas em movimento. Mulheres? Uma galeria para as mulheres, assim como a sua era uma galeria para os homens? Isso era mais que provável.
O assistente desdentado o empurrou para a porta à sua direita.
— Atravesse-a, então entre na primeira porta à sua esquerda. Estaremos esperando do lado de fora. Tudo que o Residente tem a fazer é gritar, e entraremos diretamente. — Ele repentinamente atacou com o seu porrete, acertando Sherlock atrás do joelho esquerdo e enviando um pico de agonia até sua coxa. Sherlock caiu no chão, a perna de repente incapaz de suportar seu peso. Seu cotovelo bateu nos ladrilhos, enviando uma nova onda de agonia através dele. Ele teve que apertar a mandíbula e engolir em seco para se impedir de vomitar. — E se tivermos motivos para entrar, você se lembrará disso por muito tempo. Basta ter isso em mente.
Ele ergueu Sherlock e empurrou-o para a porta. Ela se abriu sob a pressão da mão estendida de Sherlock. Além dela, havia um longo corredor cheio de portas. Assistentes estavam caminhando ao longo dela, tanto quanto os internos haviam caminhado ao longo da galeria, e com a mesma mistura de propósitos e sem propósitos.
Sherlock viu uma porta imediatamente à sua esquerda. Um placa de bronze tinha sido parafusada a ela. As palavras gravadas nela, diziam:

William Rhys Williams, MD, MRCS, MRCPE
Médico Residente e Superintendente

Sherlock olhou para trás, para os assistentes. Eles olhavam para ele com cautela. Ele se perguntou se isso era algum tipo de teste: o que ele faria – bateria educadamente, apenas ficaria ali, ou abriria a porta e entraria sem avisar?
Ele bateu na porta e esperou.
— Entre — uma voz chamou.
Ele girou a maçaneta, abriu a porta e entrou.
A sala interior era acarpetada, com painéis e cortinas. Ela era, de uma maneira estranha, semelhante ao Diogenes Club em seu luxo e tranquilidade. Uma grande mesa estava posta de um lado, em frente a uma grande janela. Estantes ladeando uma janela estavam cheias de volumes encadernados em couro.
Um homem vestindo terno preto, camisa de gola alta e colete listrado estava sentado atrás da mesa, escrevendo com uma pena em um livro. Ele era careca, exceto por algumas mechas de cabelo negro correndo em volta da parte de trás de sua cabeça, como uma pequena cortina.
O homem olhou para Sherlock. Seu olhar correu por todo o rosto de Sherlock, mãos, roupas, tudo. Ele balançou a cabeça como se tivesse acabado de confirmar a conclusão a que tinha chegado antes de Sherlock entrar.
— Fique em frente à mesa — disse ele. Sua voz era fina, sussurrante. — Meu nome é doutor Williams. Eu sou o médico residente nesta instituição. Isso significa que eu tenho a palavra final quando se trata de qualquer decisão a respeito dos internos – dos quais você faz parte. Devo avisá-lo que se você fizer qualquer movimento para dar a volta na mesa ou apresentar qualquer comportamento violento ou injustificado, não terei qualquer hesitação em chamar os meus assistentes. Você entendeu?
— Entendi, senhor — Sherlock respondeu, movendo-se para frente da mesa. — Houve um engano terrível. Eu sou...
— Fique quieto. Responda às perguntas quando eu as fizer. Não dê informações voluntárias, ou terei que removê-lo de volta para seu quarto — Williams fez uma pausa e olhou para o livro sobre a mesa.
Sherlock notou um pequeno sino de bronze ao lado dele.
— Você sabe o seu nome?
— Holmes, senhor. Sherlock Scott Holmes — ele estava prestes a dizer outra coisa, mas pensou melhor.
— A memória parece intacta — Williams murmurou, fazendo uma anotação no livro. — Locomoção e postura são razoáveis para um menino de... — ele olhou para Sherlock. — Quantos anos você tem?
— Quatorze, senhor.
— ... de quatorze anos — continuou ele. Ele recostou-se na cadeira, que rangeu sob seu peso. — Eu fiz um hábito formalizado por entrevistar todos os novos internos. Você foi enviado para cá porque exibiu comportamento maníaco grave em lugar público. A polícia o conteve, e um médico presente na cena certificou sua insanidade. Você ficará aqui até que eu – e apenas eu – esteja convencido de que você tenha se recuperado. Você entendeu?
A cabeça de Sherlock estava girando. Ele estava desesperado para se explicar.
— Eu entendo — disse ele — mas eu não sou insano!
— Ninguém que é insano acredita ser insano — respondeu Williams. — É, ouso dizer, uma das características que definem a insanidade. — Ele acenou com a cabeça. — Eu, como você poderia esperar, não fiz nenhum estudo insignificante sobre a insanidade. Eu fui anteriormente, primeiro médico assistente no Derby County Asylum e depois no Bedfordshire, Hertfordshire e Huntingdonshi County Asylum. Há oito anos, fui designado médico assistente aqui sob o doutor William Hood, a quem sucedi há seis anos como médico residente. Digo isso para que você saiba que não há como você jogar areia nos meus olhos. Posso dizer quando alguém está louco, e posso dizer quando eles são saudáveis.
— Mas, senhor... — Sherlock começou desesperadamente.
Williams continuou falando, como se não tivesse ouvido a interrupção.
— Eu sou da firme opinião de que a insanidade é uma doença hereditária do cérebro. Eu, por exemplo, vi vários casos de bebês nascidos de mulheres – mal posso chamá-las de “senhoras” – que estão internadas aqui no Bethlem. Esses bebês foram mergulhados na loucura enquanto estavam no útero, e os meus assistentes disseram-me que eles têm agido como demônios desde o momento em que nasceram.
Ocorreu a Sherlock que qualquer bebê nascido em um lugar como Bedlam, com todos os seus gritos e choros e o bater de portas, provavelmente gritaria e choraria, e que aconteceria independentemente de suas mães serem devidamente capazes de cuidar deles ou não, mas ele manteve o silêncio. Suspeitava que o Dr. Williams não gostava de ser interrompido quando estava argumentando.
— Sob o meu predecessor, o ilustre doutor Hood — Williams continuou — insanidade era tratada – se é que se possa chamá-la assim – com drogas, descanso e isolamento. Esta não é uma abordagem que, creio eu, funcione bem. Prefiro deixar um paciente constantemente amarrado a mantê-lo sempre sob a influência de alguma droga poderosa. Conheci casos de insanidade crônica ter substancial benefício – apesar de não ser curada totalmente, é claro – por um período prolongado de tempo em uma cela acolchoada. Eu também tenho observado vários pacientes que eram destrutivos e agressivos tornarem-se tão mansos quanto cordeiros após várias horas contidos em banhos de água morna. Esta é a minha abordagem, e você experimentará seus benefícios por si mesmo. Espero que com o tempo você venha a se recuperar da loucura que tão obviamente apresenta, e que seja capaz de ser liberado para a sociedade novamente. — Seu olhar encontrou o de Sherlock. — Agora, você tem alguma pergunta?
O cérebro de Sherlock disparou. Como ele poderia melhor convencer o Dr. Williams de que ele não era louco?
— Estou mostrando sinais de loucura agora? — ele perguntou.
— Você parece estar em uma fase plácida de sua insanidade — respondeu Williams. — A loucura vem em ciclos.
— Então como sabe que eu estava mostrando sinais de loucura?
— Tenho os relatórios dos policiais e de outros membros do público no local.
— E se eu não mostrar quaisquer sinais de loucura — Sherlock prosseguiu cuidadosamente, — então quanto tempo passará antes de ser decidido que estou recuperado ou que nunca estive louco, afinal?
— Quanto ao primeiro — Williams falou — eu não posso observá-lo a todo momento. Só porque você não apresenta sinais de loucura agora, não significa que às três horas da manhã de amanhã você não estará delirante em sua cela e batendo com a cabeça contra as paredes. Quanto ao segundo – bem, é claro que você está louco para começar. Caso contrário, por que seria enviado para cá?
Antes de Sherlock poder responder a esta observação obviamente estúpida, Williams tocou o sino que ficava ao lado dos registros.
— Se a loucura é hereditária — Sherlock falou desesperadamente, ouvindo a porta abrir-se atrás dele — então como ela pode ser curada? Certamente por essa definição as pessoas nascem com ela, da mesma forma que elas podem nascer com cabelo ruivo.
Williams olhou para Sherlock como se estivesse decepcionado com ele.
— Ah, uma exibição de argumentação — ele murmurou. — Um sinal clássico da loucura incipiente. — Ele fez uma anotação no livro. — Levem-no daqui — disse ele, sem olhar para cima.
Uma mão peluda se fechou sobre o ombro de Sherlock.
— Não cause nenhum problema — o assistente aconselhou. — Lembre-se do que eu disse.
Sherlock se permitiu ser empurrado para fora da sala até o outro lado do corredor, através da grade e ao longo da galeria. O desespero o acometeu. A menos que algo acontecesse, a menos que Amyus Crowe pudesse buscá-lo, ele poderia ficar preso lá para sempre. Como poderia Sherlock persuadir um homem como o Dr. Williams que ele estava são quando Williams acredita que a insanidade era hereditária, e que mesmo argumentar era um sinal de loucura? Nada do que Sherlock pudesse fazer mudaria sua opinião! Celas acolchoadas. Ser amarrado. Contido em um banho por horas a fio. Era isso que o futuro reservava para ele? Era dessa forma que seria o resto da sua vida?
Não se ele pudesse evitar.
Conforme era levado ao longo da galeria, passando pelas lareiras gradeadas e as janelas entreabertas, cruzando com vários homens que desfilavam para cima e para baixo ou apenas ficavam parados por ali, seu cérebro corria. Se ele não podia contar com a profissão médica para mostrar que estava são, e se não podia contar com Amyus Crowe ou o irmão Mycroft para tirá-lo dali, então estava por conta própria. Ele teria que fugir por si mesmo.
— Você está autorizado a se associar livremente com os outros internos — disse o assistente desdentado. — Até que as luzes se apaguem, então você será trancado em sua cela. Desculpe, quero dizer seu quarto. O seu alojamento palacial. — Ele riu. Sherlock podia sentir o cheiro de algo nojento vindo de sua boca: uma combinação de cárie e tabaco. — Bandejas de alimentos serão distribuídas mais tarde. Se acontecer algum problema – caso você comece uma briga, ou comece a tentar fazer cortes em si mesmo – então o trancaremos mais cedo. Entendeu?
— Entendi — Sherlock respondeu.
— Bom garoto. Acho que você não será um problema no fim das contas, não é? Eu tenho um pressentimento sobre essas coisas. Seja bom e os anos passarão voando.
Ele ainda estava rindo quando chegou à grade no final da galeria. Sherlock olhou ao redor. Havia seis outros internos ali. Dois deles estavam andando pra cima e pra baixo feito brinquedos de corda, três jogavam dados e o sexto estava sentado contra a parede, os braços em volta dos joelhos, balançando-se de um lado para o outro. O homem que estava tostando o rato mais cedo desaparecera de volta para a sua cela, provavelmente para comer o seu banquete com conforto. Havia também dois assistentes: um em cada extremidade da galeria. Eles estavam parados em uma posição em que podiam ter uma linha clara de visão de todo o caminho, mas pareciam entediados. Enquanto uma luta não começasse, Sherlock não achava que eles demonstrariam algum interesse.
Casualmente, ele vagou de volta para seu quarto. Sua cela. No momento em que ficou fora da vista dos assistentes, ele deslizou seu casaco dos ombros. Correu as mãos ao longo das mangas até encontrar um rasgo. Provavelmente tinha sido causado por alguma luta em que ele se envolveu pouco antes de ser levado para o Bedlam.
Cuidadosamente, ele puxou uma linha até que ela afrouxou. Ele seguiu a linha ao longo da manga, puxando-a todo o tempo, até que chegou à outra ponta. Um puxão rápido e ela se soltou: um pedaço de linha com cerca de trinta centímetros de comprimento. A manga do casaco estava repuxada agora, meio fora de sua forma, mas isso não o incomodava muito. Trabalhando rapidamente, mas com cuidado, ele conseguiu soltar mais cinco linhas. Uma vez que tinha todas elas na mão, colocou o casaco de lado e amarrou as linhas de modo que obteve dois longos fios. Cautelosamente, ele deu um puxão. Os nós se mantiveram firmes.
Era um começo, pelo menos.
Se havia alguma coisa o que Sherlock tinha certeza, era que ele não passaria os próximos anos no Bethlem Hospital. De um jeito ou de outro, ele sairia.
Sherlock saiu de seu quarto revestido de tijolos e recoberto de palha, os fios de seu casaco na mão. Ele encostou-se no batente da porta, como se estivesse observando o que se passava no corredor, mas estava esperando por algo. Esperava por uma distração, e tendo em conta que estava em um hospício, tinha quase certeza de que haveria alguma em breve.
Demorou quase meia hora, mas, logo quando ele estava prestes a desistir, um dos jogadores de dados ficou ereto de repente. Sua mão tateava no bolso do casaco.
— Meu relógio — ele rosnou. — Ele se foi! — Ele olhou com raiva para o homem mais próximo. — Foi você, não foi? Você caiu em cima de mim há alguns minutos. Deve tê-lo tomado então! Seu cão sarnento!
A luta começou, os dois homens rolando nos pisos da galeria, tentando arrancar os olhos um do outro, enquanto a galeria rapidamente se encheu de observadores gritando atraídos para fora de seus quartos com o barulho. Os assistentes se aproximavam da extremidade oposta da galeria, brandindo seus porretes, batendo à esquerda e à direita para abrir caminho através da multidão crescente.
Sherlock deslizou para o outro lado de sua porta: o lado de fora.
O grande ferrolho de metal ficava na altura de sua cabeça. Pegou um dos fios e o amarrou em torno da cabeça do manípulo e, em seguida, puxou o fio para cima da porta, pressionando-o em um espaço entre duas tábuas. A ponta solta estava agora do lado de dentro da porta. Quando a porta estivesse fechada e trancada, estaria do lado de Sherlock.
O segundo fio ele amarrou igualmente em torno da cabeça do manípulo, mas desta vez ele arrastou o fio na horizontal, na direção das dobradiças. Ele passou o fio através do espaço entre a porta e o batente, deixando-o descansar em uma das dobradiças para que não caísse. Mais uma vez, ele passou o fio até o interior da porta, prendendo-o em um dos rebites que mantinham a porta unida, para que ele não escorregasse.
Ele checou por cima do ombro. Ninguém estava vigiando. Os assistentes estavam se colocando dentro da luta agora, separando as pessoas e rachando as cabeças.
Sherlock se abaixou e esfregou as mãos sobre as lajes, pegando o máximo de sujeira e poeira que podia. Rapidamente, esfregou as mãos ao longo das duas linhas, enegrecendo-as e tornando-as menos visíveis. Imaginou os assistentes deslizando o ferrolho do outro lado, girando a alça para baixo e trancando-o lá dentro para passar a noite. Se tivesse sorte, eles o fariam de maneira automática – desliza, encaixa, trava – e as linhas passariam intactas e despercebidas. E talvez – talvez – esse seria o início de sua fuga.
Terminado por hora, ele se moveu até a galeria para assistir a briga que estava sendo dispersada. Havia sangue nas cabeças, nos porretes e no chão.
— Para suas celas, todos vocês! — Um dos assistentes ordenou. — Agora!
— E quanto à comida? — alguém gritou.
— Sem comida esta noite. Vocês perderam esse privilégio. Nada até o café da manhã para vocês, animais, e vocês vão gostar e se calar!
Conforme os assistentes começaram a empurrar as pessoas para suas celas e trancar as portas, começando pela extremidade da galeria, Sherlock olhou ao redor. Um homem estava parado na porta da cela ao lado. Suas roupas eram surradas: tão empoeiradas que, embora originalmente elas tivessem cores diferentes, estavam se aproximando do mesmo tom de cinza. Sua barba e cabelo eram cinza.
Até mesmo sua pele era cinza.
Ele olhou para Sherlock. Seus olhos não eram cinza: eram desvanecidos, um azul aquoso.
— Estou vendo gente nova no pedaço?
— Correto. Eu sou Sherlock. Sherlock Holmes.
— Meu nome é Richard Dadd. Estou extremamente contente em conhecê-lo.
Ele estendeu a mão para Sherlock. Conforme Sherlock sacudiu-a, ele notou que a mão de Dadd estava manchada em vários tons de verde e azul.
Dadd notou a direção de seu olhar.
— Eles permitem que eu pinte — explicou ele. — Me fornecem telas, óleos e terebintina. Faz com que os dias passem mais rápido. Os dias sem fim.
Sherlock olhou para Dadd.
— Você parece... normal.
Dadd sorriu.
— Você quer dizer que são? — Ele deu de ombros. — Acredito que sou. O doutor Williams acredita que não. Nós temos essa diferença de opinião. Infelizmente, a opinião dele conta mais do que a minha neste estabelecimento.
Os assistentes agora já haviam percorrido metade do caminho entre o fim da galeria e a cela de Sherlock. A cada poucos segundos mais uma porta era fechada com um baque, e o ferrolho era passado, trancando-a. Dentro de alguns momentos, ele estaria trancado também. Sozinho.
Desesperado por uma interação humana, mesmo que fosse com um louco, ele perguntou:
— O que... o que aconteceu... por que você foi trancado aqui?
— É muito simples, e muito triste. Meu pai estava possuído pelo próprio Diabo. Eu o matei em Cobham Park. O esfaqueei até a morte.
Sherlock sentiu como se alguém o tivesse mergulhado em água fria.
— E é por isso que você está aqui? — ouviu-se dizendo.
— É por isso — Dadd admitiu — e pelo fato de que fui apreendido no caminho para assassinar o Imperador Austríaco. É tudo um trágico mal-entendido, mas o doutor Williams se recusa a vê-lo como tal.
Os assistentes estariam com eles em alguns momentos. A galeria foi ficando mais calma e mais silenciosa conforme os internos eram trancados, um por um.
— Siga o meu conselho — disse Dadd urgência.
— Qual conselho? — perguntou Sherlock.
— Cuidado com a dama que caminha à noite.
— A dama? — Sherlock perguntou, confuso.
— Ela caminha pelas galerias até tarde da noite em pés silenciosos — confidenciou Dadd, inclinando-se para Sherlock com uma expressão séria no rosto. — Dizem que era uma serva que se apaixonou pelo filho do homem em cuja casa ela trabalhava. Quando o filho saiu de casa, ele lhe deu um guiné – pressionou a moeda em sua mão como um presente. Entrou num coche e foi embora, mas a próxima coisa que a família soube foi que ela estava correndo atrás do coche, gritando. A família correu atrás dela, mas o choque da partida do garoto lhe roubou os sentidos. Ela foi internada aqui, no Bedlam, e passou vários anos aqui, e todo esse tempo ela se agarrou ao guiné em seu punho e não o deixou ir, qualquer que fosse a remuneração oferecida. Ela morreu com ele ainda na mão, dizem, e seu último pedido foi que ela fosse enterrada com a moeda, mas a história conta que um assistente sem coração se apossou dela a partir de seus dedos gelados. E assim, seu espírito vaga pelos corredores deste lugar medonho todas as noites desde então, sempre procurando a moeda perdida, o presente do homem que ela amava mas que não a amava. Seus dedos vasculham nossas bugigangas no lugar onde ela se perdeu.
— Isso é uma historinha — disse Sherlock, mas ele podia ouvir a incerteza em sua própria voz. Ele não acreditava em fantasmas, mas havia algo sobre a expressão séria de Dadd, e a convicção em sua voz, que fez Sherlock parar.
— Talvez seja — devolveu Dadd. — Talvez seja, mas fique atento. Há coisas estranhas que andam nestas galerias durante a noite. Acredite em mim. O garoto que estava neste quarto antes de você – ele desapareceu. Desapareceu de repente e sem fazer barulho. Minha suspeita é que a dama veio procurar a moeda e ele a viu, então ela o levou em vez disso.
Os assistentes tinham chegado em Dadd agora. Ele acenou com a cabeça para eles com cortesia, e retornou ao seu quarto.
— Senhores — cumprimentou conforme ia. — Boa noite para vocês.
O próximo era Sherlock. Ele voltou ao seu quarto antes de chegarem a ele. O baque da porta se fechando e o ruído metálico do ferrolho deslizando foram os dois sons mais terríveis que ele já tinha ouvido.
Ele esperou até que os assistentes tivessem passado, e esperou até ouvir a porta e o ferrolho do quarto seguinte estremecerem no lugar antes de verificar os fios. Ambos estavam intactos. Ele puxou ambos experimentalmente, eliminando a folga. Parecia estar tudo certo. Talvez, apenas talvez, o seu plano funcionaria.
Mas ele teria que esperar até bem depois da meia-noite para experimentá-lo.
Consciente de que seu estômago estava vazio e que ele não conseguiria nada por pelo menos doze horas, ele se sentou no chão coberto de palha e descansou as costas contra o frio dos tijolos úmidos. Como é que as pessoas sobreviviam ali, noite após noite? Como elas conseguiam se manter... sãs?
No momento em que a palavra surgiu em sua mente, ele encontrou-se rindo. Claro. A maioria delas não estava sã. A maioria delas. Mas Sherlock estava, e ele suspeita que pelo menos um punhado de outras pessoas presas em Bedlam fossem sãs também. Talvez fossem excêntricas, talvez tivessem opiniões que fossem abomináveis aos políticos ou líderes da Igreja, mas isso não as tornava loucas.
Ele deve ter caído no sono enquanto pensava, porque a próxima coisa que sabia era que a única luz que entrava pela janela estreita era a luz branco-pálida da lua. Ele observou como o retângulo distorcido era projetado deslizando para baixo pela parede, como um pedaço de papel preso a os tijolos com melaço.
A próxima coisa que ele sabia é que o retângulo de luz estava no chão. Ele deve ter dormido de novo por um tempo. Seus ombros doíam por causa do frio da parede, e os músculos de suas pernas estavam fracos e formigando.
E alguém estava olhando para ele através da escotilha de madeira na porta.
Ele podia ver na luz a silhueta de uma cabeça, e podia sentir seus olhos, olhos maliciosos, fitando-o atentamente. Ele não se moveu, não falou. Eventualmente, com um chiado suave, a escotilha fechou-se novamente.
Não era um dos assistentes: disso ele tinha certeza. Eles não teriam se incomodado em ser silenciosos. Teriam apenas aberto a porta, dado uma olhada e, em seguida, fechado novamente.
Quem estava assistindo Sherlock através da escotilha não queria que ele soubesse disso.
A coisa mais sensata seria esperar por um tempo antes de fazer a sua jogada, mas ele estava queimando de curiosidade agora. Ele queria saber quem estava interessado nele.
Silenciosamente, ficou de pé e foi até a porta. Ele tateou cautelosamente, buscando as duas linhas que deixara lá mais cedo, arrastando a partir da alça do ferrolho. Elas eram frágeis, finas, e ele estava preocupado que elas pudessem ter sido movidas pela abertura da escotilha, mas depois de alguns momentos tateando ele encontrou a primeira, e então a outra.
Ele tinha que dar o próximo passo com muito cuidado. Não havia lugar para erros: ele só tinha uma chance.
Da forma como o ferrolho tinha sido projetado, ele tinha que ser girado em torno de si mesmo um quarto de volta antes de o manípulo poder deslizar nos delimitadores. Uma das linhas – a que ele tinha colocado por sobre a porta – poderia ser usada para girar a alavanca. Se tivesse sorte. A outra ele poderia usar para puxar a alavanca para trás, fora de seu travamento.
Experimentalmente, ele puxou um pouco o fio que corria para cima por sobre a porta. Ele gradualmente esticou. Ele então aplicou certa tração. Nada. Ele sentiu uma frustração crescente se agitando em seu peito. Ele queria puxar com força, mas se fizesse isso, o fio poderia se partir, ou o nó poderia ceder. Talvez tivesse se prendido em algum rebite, ou uma lasca, ou algo assim. Poderia até ter ficado preso entre a porta e o batente, quando a porta se fechou. Forçando-se a se concentrar, Sherlock sentiu o nó apertado em torno de seu peito afrouxando ligeiramente. Ele deu puxão no fio novamente. Desta vez, sentiu algo ceder, e do outro lado da porta, ele ouviu um rangido. Em sua mente, ele podia ver o fio puxando a alça do ferrolho, mas com os delimitadores impedindo-o de se mover e com o deslocamento da alça, a única liberdade de movimento que ele tinha era o ferrolho girando em torno de seu próprio eixo longitudinal.
Então, com relutância, ele fez isso.
Sherlock tinha que julgar a quantidade de rotação muito cuidadosamente. Se rodasse o ferrolho demais – se ele terminasse com a alça apontada diretamente para cima – então ela não abriria. O único caminho livre que a alça tinha era quando estava apontada para fora à noventa graus da porta. Se ele puxasse muito além, então não haveria nenhuma maneira de voltar o ferrolho novamente. Esta era sua única oportunidade para a liberdade.
Sherlock parou de puxar enquanto ainda havia alguma folga no fio. Ele queria puxar mais, mas sabia que não deveria. Era hora de tentar o outro fio agora, e rezar para que funcionasse.
Mantendo a tensão no primeiro fio, ele puxou o segundo, que correu horizontalmente em torno da borda da porta. Se ele tivesse trabalhado as coisas corretamente, então este deveria puxar o ferrolho ao longo da porta, fazendo-o sair do cano que o envolvia. Se ele tivesse trabalhado as coisas corretamente.
Houve alguma resistência, mas o fio se moveu, e ele pôde sentir um aumento de tensão no primeiro fio, o vertical. Do outro lado da porta, ele podia ouvir o raspar de metal contra metal conforme o ferrolho deslizava para trás. O entusiasmo o encheu. Ele parou de respirar, para o caso de o movimento de seu peito perturbar o delicado equilíbrio dos fios.
Depois de um minuto ou por volta disso de movimento gradual, o fio estava estirado. O ferrolho não se movia mais. Se Sherlock estivesse certo, então ele tinha sido puxado completamente para trás, e a porta estava destrancada.
Ele fez pressão contra a madeira.
Nada. A porta não se moveu.
Ele empurrou de novo, com mais força.
Desta vez, a porta deslocou ligeiramente. Ele tinha esquecido como era pesada! Ele jogou todo o seu peso contra ela, e a porta se abriu alguns centímetros.
Ele apoiou suas botas contra um espaço entre as lajes de sua cela e empurrou com o ombro.
A porta se abriu.
Ele a segurou antes que ela pudesse ir longe demais, e deslizou pela abertura e para dentro da galeria.
Luz de fogo cintilava ao longo de seu comprimento. As janelas eram retângulos estreitos de escuridão. Silêncio, exceto pelo crepitar das brasas.
Uma figura se moveu silenciosamente pelo corredor, para longe dele.
Era uma mulher, toda vestida de preto. Sua cabeça estava coberta por um xale, e conforme ela passava em cada porta, ela fazia uma pausa e olhava pela janelinha, em seguida, movia-se para baixo na galeria. Ele não podia ver seus pés; ela parecia deslizar silenciosamente pelo chão.
Sherlock percebeu que ela estava deslizando na direção oposta da grade que fechava o espaço entre a galeria e o hall de entrada. Ele suspeitava que, se ia sair, então ela tinha que voltar para trás, em direção à entrada. Parte dele queria desesperadamente seguir a mulher de preto – o fantasma de preto, parte de sua mente dizia – mas a parte mais sensível queria ir para a liberdade. Ele não tinha um plano para conseguir passar pela grade, mas pelo menos tinha conseguido sair de sua cela. Este era um feito por si só.
Com um último olhar pesaroso ao longo da galeria, onde a mulher de preto tinha parado do lado de fora de uma das celas, Sherlock se moveu na direção oposta.
Ele podia ouvir uma mistura de sons provenientes das celas enquanto se movia rapidamente pelo caminho. De algumas delas vinham roncos pesados, de outras soluços abafados e do restante ou o silêncio ou vozes rezando. Ele desejava poder fazer algo por eles, mas não estava em posição de liderar uma tentativa de fuga em massa, e mesmo que estivesse, não estava em posição de distinguir entre a sanidade e a loucura. Ele tinha que salvar a si mesmo.
Ele chegou à grade no final da galeria. O salão à frente estava nas sombras. Ele tinha uma vaga ideia de como seria capaz de arrombar a fechadura, ou tirar a porta de suas dobradiças, ou até mesmo se esconder atrás de um dos enormes vasos até de manhã e esgueirar-se por trás das costas dos assistentes, mas ficou surpreso ao ver que a grade estava aberta. Ele olhou ao redor, à espera de uma armadilha, mas ninguém saltou nele. Ele abriu a porta e saiu para o hall.
Liberdade.
Quase.
Ele se manteve nas sombras ao redor das bordas do hall, em vez de cruzar a extensão de azulejos do centro, até chegar às portas duplas que levavam para fora. Nervosamente ele as abriu, esperando que a qualquer momento um alarme fosse soado, ou que alguém gritaria atrás dele, mas nada aconteceu.
O ar do lado de fora era mais fresco do que ele conseguia se lembrar de já ter respirado. Era como beber a água límpida e fria de um córrego.
Ainda era noite, e a estrada do outro lado do muro estava em silêncio. Ele olhou ao redor, tomando sua posição. Se pudesse ir até a estrada, então ele poderia chamar um coche de aluguel e persuadir o condutor a levá-lo... para onde? Amyus Crowe não os hospedara em um hotel, e ele não sabia para onde o homenzarrão fora.
Ele supôs que poderia ir para o Diogenes Club. Era o único lugar que Crowe poderia pensar em usar como ponto de encontro.
Ele desceu os degraus até o caminho que levava para longe de Bedlam.
— Opa!
A voz era alta, soava ofendida. Ele queria correr, desordenadamente, no caminho para a liberdade, mas alguma coisa o fez virar.
O assistente desdentado estava de pé sobre os degraus, o porrete em uma mão e um apito na outra.
— Você vai voltar agora mesmo filho, ou terei que chamar os tiras, se chamarei. Se vier agora, prometo que não lhe quebrarei nenhum osso. Se eu tiver que chamar a polícia para trazê-lo de volta, isso refletirá mal sobre mim, e isso significa que vou descontar em você. E então garanto que você andará torto pelo resto de sua curta vida.
Sherlock estava prestes a mandar o assistente ir para o inferno e correr, mas alguém gritou de dentro do corredor. O assistente se virou para responder.
— Está tudo bem – eu o peguei aqui fora! — ele gritou.
Ele se virou novamente, o apito chegando até a boca, mas ele olhou para Sherlock e a mão segurando o apito lentamente caiu para o lado novamente. Sua expressão era uma máscara de confusão.
— Se algum osso há de ser quebrado por aqui — disse uma voz profunda e enganosamente calma — então creio que tenho prioridade nisso. E, a propósito, uma experiência considerável também.
Sherlock não teve que virar a cabeça para saber que Amyus Crowe estava bem atrás dele, perto o suficiente de modo que se Sherlock recuasse, sabia que esbarraria nele.
— Este é um louco escapando! — O assistente exclamou.
— Eu acho que não — Crowe observou. — Eu tenho em meu bolso um papel assinado por três médicos diferentes, todos confirmando a sanidade desse menino. Acho que um erro foi cometido, um erro grave, e se não quiser que ele venha a refletir sobre você, então você deve apenas deixar-nos ir embora agora.
— Nós não podemos — disse Sherlock calmamente.
— Por que não?
Ele suspirou.
— Há algo que tenho que fazer. Lá dentro. Tenho que falar com o médico residente.
— Filho, há momentos em que a vida lhe oferece uma oportunidade — a voz de Crowe era urgente e insistente. — Este é um desses momentos. Se nos afastarmos agora, você estará seguro. Se entrar, não poderei garantir o que vai acontecer. Eles podem encontrar uma maneira de mantê-lo aí.
— Eu sei, mas há coisas mais importantes em jogo aqui. Preciso ver o médico residente.
Desta vez foi Crowe quem suspirou.
— Tenho que dizer, a vida como seu tutor nunca é entediante — ele ergueu a voz. — Você – o homem com o porrete e o uniforme inadequado. Eu quero ver o médico residente. Diga-lhe que estarei esperando em seu escritório para uma explicação do por que ele achou apropriado aprisionar um garoto perfeitamente são. — Sussurrando agora, enquanto o assistente estava inexpressivo e boquiaberto diante deles, disse a Sherlock: — Mostre o caminho, filho. Vamos deixá-lo nos encontrar em seu escritório comigo sentado atrás de sua mesa. Isso vai tirá-lo de equilíbrio.
Sherlock conduziu Crowe passando pelo assistente, que então passou correndo por eles para o corredor e atravessou a porta que dava para os escritórios e a área administrativa. Ele parou por um momento, parecendo prestes a barrar o caminho, mas ao invés disso ele saiu correndo pelo corredor.
— O médico residente dorme no local — Crowe retumbou conforme Sherlock liderava o caminho para o escritório revestido de carvalho. — Isso é algo que descobri sobre esta instituição. — Ele olhou em volta. — Um belo lugar. Ele obviamente é bem pago.
— Quem o paga? — perguntou Sherlock. — Quem financia esse lugar?
— Pelo que entendi, as famílias pagam por seus entes queridos para que sejam “bem cuidados”, quer eles precisem quer não. Há rumores de mulheres sendo enviadas para cá porque não queriam se casar, ou queriam se casar com alguém inadequado, ou que haviam se casado, mas não amavam seus maridos. Sinal evidente de insanidade, tenho certeza de que você concordará.
— Mas há muitos aqui que são realmente loucos, não é? — perguntou Sherlock.
— Há sim — Crowe concordou — mas eu não apostaria que os médicos daqui possam reconhecê-los, a menos que eles pulem neles e lhes deem uma mordida no nariz — ele franziu o cenho. — O que, sendo insanos, eles provavelmente fariam.
— Então — disse Sherlock, seus pensamentos de repente aproximando-se do que fora dito: — quem pagou para eu ficar preso aqui?
— Esta é a pergunta de seis mil dólares — Crowe foi até o outro lado da mesa e sentou-se. — A resposta é, eu não sei, mas alguém o fez. Você provavelmente viu que me envolvi em uma briga. Você começou a agir estranhamente, mas antes que eu pudesse me livrar da minha situação, você tinha sido levado embora. Quem fez isso tinha uma carruagem e um médico pronto e esperando. Venha e junte-se a mim aqui atrás. Aguarde perto de meu ombro.
— Então o que aconteceu? — perguntou Sherlock, movendo-se para ficar atrás de Crowe. — O que eu fiz?
— Você enlouqueceu, atirando-se no chão e gritando sobre fogo, pássaros e coisas assim. Estava fora de controle. Nunca vi nada assim na minha vida – exceto uma vez, quando Ginny e eu estávamos no barco vindo para cá e um passageiro correu pelo convés, gritando que não podia mais suportar as ondas e o céu olhando para ele. Ele se atirou por cima da balaustrada. O capitão retornou para tentar encontrá-lo, mas ele tinha sumido. Tinha se afogado.
Sherlock sentiu sua respiração ficar presa na garganta.
— O que me fez agir assim?
— Suspeito que algo foi adicionado à sua bebida, ou pulverizado em seu rosto. Lembra-se daquela substância no bolso do morto no Diogenes Club há algum tempo – o spray que achamos ter causado um apagão em seu irmão enquanto estava de pé? Acho que você descobrirá que o que foi usado em você foi algo similar, mas projetado para causar alucinações temporárias, em vez de apagões.
— Mas por quê?
— Eu não sei bem, mas minha aposta vai para a Câmara Paradol. Você se pôs em seu caminho duas vezes até agora e conseguiu parar suas atividades criminosas internacionais – uma vez com o barão Maupertuis, outra vez na Rússia. Penso que eles querem tirá-lo do caminho.
Sherlock estava prestes a perguntar como Crowe o encontrara quando a porta se abriu e o Dr. William Rhys Williams entrou apressado. Ele vestia um roupão bordado sobre uma camisa de dormir, e tinha um gorro de veludo na cabeça. Ele estava furioso, o rosto vermelho e os olhos arregalados.
— O que em nome de Deus que você acha que você está fazendo, facilitando a fuga de um interno desta instituição? Eu deveria chicoteá-lo!
— Este é um procedimento médico aprovado? — Crowe retumbou. — Ou apenas algo que você gosta como uma atividade recreativa?
— Saia da minha mesa! — Williams gritou.
— Não será sua por muito mais tempo — Crowe calmamente disse.
— O que você quer dizer?
— Eu sei que o Conselho Geral de Medicina não tem estado por perto já há algum tempo, mas duvido que eles vejam com bons olhos um de seus membros admitindo pessoas sãs em um asilo de loucos em troca de dinheiro.
— Esta criança não é sã — Williams disparou. — Eu o examinei pessoalmente.
— Tenho três médicos que dizem que ele é — Crowe respondeu, erguendo um envelope. — Eu ficaria feliz em colocá-los contra você num tribunal de justiça e ver quem sai na frente, mas antes de fazer isso, meu amigo aqui tem algo a dizer. — Ele olhou para Sherlock. — É todo seu, filho.
— Eu vi alguma coisa — disse Sherlock, tentando controlar sua respiração. Era como se o rosto corado de Williams o fizesse sentir-se doente. Apenas algumas horas atrás, este homem tinha dito que Sherlock era, obviamente, louco.
— Viu o quê? — Williams perguntou. — Isto é um hospício. Todo tipo de coisa que acontece aqui não acontece no mundo exterior.
— Eu vi um fantasma — Sherlock falou calmamente.
Williams olhou para Crowe e levantou uma sobrancelha, como se quisesse dizer “eu te disse”.
— Um fantasma? — ele repetiu em uma voz razoável. — Por favor, conte-nos mais. Será que ele atravessava as paredes?
— Não — respondeu Sherlock — e isso é o que me fez perceber que não era realmente um fantasma. Foi concebido para se parecer com um – todo vestido de preto, sendo supostamente o espírito de uma pobre garota que morreu aqui – mas que fantasma precisaria que deixassem uma porta aberta para que ela pudesse se mover por aí, ou precisaria usar uma escotilha para olhar alguém dentro de sua cela?
— Você acha que era alguém fantasiado? — Crowe perguntou a seu lado, o rosto em alerta. — Por quê?
— Há pessoas aqui que têm privilégios. Suspeito que os presos de longo prazo comecem a mobiliar suas celas e usar suas próprias roupas. Penso que esses presos de longo prazo, que não são obviamente perigosos, podem estar bastante confortáveis aqui. E acho que um dos assistentes está roubando deles – entrando em suas celas enquanto eles dormem e roubando suas coisas, como relógios, ou moedas. — Ele fez uma pausa, lembrando-se da briga entre os jogadores de dados. — Estive aqui apenas um dia e tenho notado que os internos estão perdendo suas posses. Eles são como patinhos – vulneráveis, fáceis de se tirar vantagem.
— Por que diabos alguém se vestiria como um fantasma ladrão? — perguntou o Dr. Williams com desdém.
— Se alguém que é diagnosticado como louco diz que um fantasma roubou as coisas deles, quem vai acreditar? —Sherlock simplesmente retrucou.
— E há alguma outra coisa estranha acontecendo? — perguntou Crowe.
Ele estava falando com Sherlock, mas seu rosto era severo enquanto ele olhava para Williams.
— O garoto que estava na minha cela antes de eu chegar morreu — disse Sherlock. — Disseram que ele viu o fantasma, mas acho que ele na verdade descobriu toda a farsa.
— Ele descobriu? — o olhar de Crowe estava fixo em Williams. — Ou há algo pior do que roubo acontecendo aqui? — Ele se levantou abruptamente. — Com sua licença, doutor Williams. Acho que você pode esperar uma visita do Conselho Geral de Medicina e da polícia em um futuro próximo. Penso que você pode esperar que eles procurem por todas as mortes inexplicáveis que ocorreram aqui – especialmente dos jovens. E acho que se não cooperar plenamente com eles, então será posto junto com quem é realmente responsável – assumindo é claro, que você não é a pessoa vestindo o traje de fantasma e espreitando por estes corredores à noite.
— Não sei nada sobre isso — disse Williams, mas seu rosto estava branco como se ele próprio tivesse visto um fantasma. Talvez, Sherlock pensou, ele tenha vislumbrado uma visão de seu próprio futuro e não gostou do que viu.
— Isto irá parar — Crowe disse conforme saía de detrás da mesa de Williams e passava pelo médico. — Isto vai parar agora.
— Você acha que as coisas lá dentro vão mudar? — Sherlock perguntou enquanto caminhavam para fora do prédio e para o ar fresco da noite.
— Me certificarei que sim — Crowe respondeu. — É triste dizer, filho, mas coisas como esta continuam por todo o lugar. Onde quer que haja pessoas que estão em uma posição de poder e outras que são vulneráveis, há roubo e abusos, ou até pior. — Ele balançou a cabeça. — Não está dentro do homem o dom para mudar o mundo. Tudo o que ele pode fazer é mudar as coisas que ele vê ao seu redor. Se pessoas suficientes fizessem isso, então talvez o mundo mudasse de alguma maneira. — Ele olhou para Sherlock. — Falarei com seu irmão. Ele pode mover uns pauzinhos e fazer com que o local seja verificado oficialmente. Vou me certificar de que eles saibam o que estão procurando.
Sherlock assentiu.
— Obrigado.
Eles caminharam em silêncio por alguns momentos.
— Essa foi uma boa solução, de qualquer forma — disse Crowe.
— O quê?
— A coisa sobre o fantasma – raciocinando que apenas pessoas vivas precisam de portas abertas.
Sherlock sorriu.
— Apenas me pareceu óbvio. Um fantasma que não pode atravessar paredes ou barras, não é um fantasma de todo. E é por isso que eu não acredito em fantasmas, por sinal.
Crowe levantou uma sobrancelha de curiosidade.
— Vá em frente – sou todo ouvidos.
— Bem, assumimos que os fantasmas podem atravessar paredes, mas aparentemente, ainda necessitam de chão para andar. As pessoas dizem ter visto fantasmas em escadas ou em quartos de primeiro andar, ou qualquer outro lugar. Não faz qualquer sentido. Se as paredes não barreira para os fantasmas, então pisos não deveriam ser também – eles deveriam apenas cair diretamente através deles. Ou melhor, eles não deveriam ser capazes de subir escadas em primeiro lugar. Talvez, logicamente, haja algo sobre o chão que significa que eles não possam atravessá-lo, o solo sendo natural, mas se eles podem se mover através de barreiras verticais, como paredes, então podem se mover através de barreiras horizontais, como pisos, e se não podem se mover através de barreiras horizontais, então eles não podem ser fantasmas.
Crowe pensou por um momento.
— Gosto do seu estilo de pensar. A maioria das pessoas argumenta a favor ou contra a existência de fantasmas com uma base espiritual. Você está aplicando lógica rigorosa. Tem feito isso para tudo em sua vida?
— Pouco a pouco.
— Tente não voltar sua atenção para a religião por enquanto. Lembre-se, você ainda tem que viver na casa de seu tio, e suspeito que seu coração não suportaria essa pressão, se tentasse persuadi-lo logicamente que Deus não existe.
Crowe caminhou até uma carruagem que estava esperando pacientemente por eles. Sherlock ficou pra trás.
— É confiável? — ele perguntou incerto.
— Tanto quanto podemos confiar em alguma coisa — Crowe retumbou. — Esta é a carruagem que tomei para chegar até aqui. Para ser mais seguro, esperei que três passassem antes chamar esta — ele colocou a mão no ombro de Sherlock. — Você está assustado, filho, e isso é natural. A Câmara Paradol tem atirado em você, e um tiro explodiu em seu rosto. Não acho que eles tentarão alguma coisa por um tempo. Além do mais, isto foi um aviso. Querem que você saiba que estão de olho, e eles não querem que você interfira em seus planos novamente.
Sherlock sentiu algo enrijecer dentro de sua mente.
— Então eu não tenho escolha, tenho? — perguntou.
Crowe apenas levantou uma sobrancelha.
— Se eu quiser andar com segurança nas ruas — disse Sherlock severamente — então tenho destruir a Câmara Paradol. Tenho que esmagá-los para que eles nunca mais ameacem alguém novamente.
Crowe assentiu.
— Penso que sim — respondeu ele — este é um curso lógico de ação a tomar.


Nota do autor
O texto que forma a maior parte desta história foi originalmente escrito para a terceira aventura de O Jovem Sherlock Holmes – Gelo Negro. Era  uma seção independente logo após Sherlock ter sido atacado por um falcão com garras de aço no Museu Passmore-Edwards e pouco antes de ele dirigir-se para a Rússia. Foi removido porque diminuía o ritmo da história, e porque não tinha muito a ver com o resto da trama. Eu sempre lamentei sua perda, então resolvi apresentá-la aqui como uma pequena história em seu próprio direito. A ação ocorre agora entre o final de Gelo Negro e o início da quarta aventura do Jovem Sherlock Holmes, Tempestade de Fogo.
O breve aprisionamento de Sherlock no hospício conhecido como “Bedlam” (ou, mais corretamente, Bethlem Royal Hospital) é tão preciso quanto pude fazê-lo. Na verdade, eu poderia ter colocado muito mais detalhes, mas eu não estava certo de que uma descrição completa de um hospício de Londres da década de 1860 fosse inteiramente apropriado para uma história como esta. Estes não eram lugares agradáveis. De qualquer forma, os livros que utilizei para a investigação foram:
- Bedlam: London and Its Mad by Catharine Arnold (Simon & Schuster, 2008)
- Bedlam: London’s Hospital for the Mad by Paul Chambers (Ian Allan Publishing, 2009)

Richard Dadd, o artista que se envolve em uma conversa com Sherlock no asilo, foi de fato um paciente em Bedlam por um número de anos. Ele foi, em certo momento, transferido para o recém-inaugurado Broadmoor Criminal Lunatic Asylum, mas estou assumindo nessa história que ele foi transferido de volta para Bedlam por um tempo – possivelmente por bom comportamento.
O prédio ocupado pelo Bethlem Hospital é hoje o Museu Imperial da Guerra no sul de Londres. Minha avó morava de esquina com ele, e eu tenho memórias distintas como uma criança de ser levado através daquelas terras, passando pela construção, e olhando para ela nervosamente, sabendo que uma vez tinha sido habitada por lunáticos.
Aparentemente, o pessoal do museu ainda não gosta de ir para o porão. Dizem que há uma “sensação” sobre o lugar. Sherlock não acreditaria em “sensações”, mas e eu? Eu não tenho tanta certeza...

Andrew Lane

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)