1 de julho de 2017

Um conto de duas Maddys

— A SUA MÃE QUER saber se percebi alguma coisa de diferente em você ultimamente — diz a Carla do outro lado da sala de estar.
Estou assistindo ao primeiro Missão Impossível com Tom Cruise. Ele faz o papel de um superespião, Ethan Hunt, que vive uma vida dupla, às vezes tripla e até mesmo quádrupla. Está perto do fim e o Ethan acabou de desmascarar a si mesmo, literalmente, para pegar os caras maus.
Carla repete a frase, mais alto desta vez.
— E você contou alguma coisa para ela? — pergunto, pausando o filme bem na hora em que o Ethan arranca seu rosto inacreditavelmente realista para revelar a verdadeira identidade. Inclino a cabeça para um dos lados para ter uma perspectiva melhor.
Carla tira o controle remoto da minha mão, aperta o pause e joga o controle no sofá.
— Qual é o problema? — pergunto, sentindo-me culpada por tê-la ignorado.
— Você. E aquele garoto.
— Como assim?
Ela solta um suspiro e se senta.
— Eu sabia que seria um erro permitir que vocês se vissem.
Ela consegue então atrair toda a minha atenção.
— O que a minha mãe disse?
— Você cancelou uma noite de cinema com ela?
Eu sabia que não devia ter feito aquilo. Ela pareceu tão magoada e desapontada, mas eu não queria esperar até depois das nove para bater papo na internet com o Olly. Nossos papos nunca são suficientes. Eu sinto as palavras transbordarem de mim. As coisas que quero dizer a ele jamais parecem ter fim.
— E ela falou que você passa o tempo todo distraída. E que encomendou um monte de roupas. E sapatos. E ela já quase venceu você em um jogo no qual você sempre ganhava.
Oh.
— Ela está suspeitando de alguma coisa?
— Isso é tudo que preocupa você? Escute o que eu estou dizendo. Sua mãe está sentindo sua falta. Ela fica solitária sem você. Você deveria ver a cara dela enquanto me fazia essas perguntas.
— Eu só...
— Não — diz a Carla, levantando as mãos. — Você não pode mais vê-lo. — Ela brinca com o controle que acabou de jogar no sofá, olhando para todos os lados, menos para mim.
O pânico faz meu coração acelerar.
— Carla, por favor. Por favor, não o tire de mim!
— Ele não é seu!
— Eu sei...
— Não, você não sabe. Ele não é seu. Talvez ele tenha tempo para você agora, mas logo as aulas vão começar. Ele vai conhecer alguma outra garota e vai ser o Olly dela. Você está entendendo?
Sei que a Carla está tentando me proteger, exatamente como eu estava tentando me proteger algumas poucas semanas antes, porém aquelas palavras fazem com que eu me lembre de que o meu coração é um músculo como qualquer outro. Que pode doer.
— Eu entendo — concordo baixinho.
Tenho certeza de que ela já disse essas mesmas palavras para a Rosa.
— Tudo bem. — Ela me passa o controle. Juntas, nós olhamos a tela inerte.
Ela apoia ambas as mãos nos joelhos e se levanta.
— Você tem certeza do que você disse? — pergunto quando ela alcança a metade do quarto.
— Sobre o quê?
— Você disse que o amor não me mataria.
— Ele não vai matar você. Mas pode matar a sua mãe. — Ela se esforça para abrir um sorrisinho.
Prendo a respiração, à espera.
— Tudo bem, está certo. Você pode continuar a vê-lo, mas precisa tomar algum juízo. Entendeu?
Balanço a cabeça, concordando, e desligo a televisão. Ethan Hunt desaparece.
Passo o resto do dia no solário, longe da Carla. Não estou com raiva dela, mas também não deixo de estar. Todas as minhas dúvidas sobre se eu deveria mesmo esconder Olly da minha mãe desapareceram. Eu não conseguia acreditar que o cancelamento de uma noite de filmes quase fez com que eu não visse mais o Olly. Antes, eu estava preocupada por guardar segredos dela. Agora, estou com medo de não conseguir mais ter nenhum segredo. Sei que ela ficou chateada por eu ter comprado roupas novas. Ela ficou aborrecida por eu não ter pedido sua opinião e ter comprado cores pelas quais ela não esperava. Minha mãe ficou aborrecida com uma mudança que ela não viu chegar. Fico magoada e ao mesmo tempo também entendo. Ela precisa controlar todas as coisas para me manter segura na minha bolha.
E ela não está errada. Eu tenho estado distraída quando estou com ela, minha mente passa o tempo todo sintonizada na Rádio Olly. Sei que ela não está errada. Mas mesmo assim isso me magoa. Cortar as amarras não faz parte do processo de crescimento? Será que algum dia eu não teria de experimentar essa migalha de normalidade?
Mesmo assim, me sinto culpada. Ela devotou toda a sua vida a mim. Quem sou eu para jogar tudo isso fora ao primeiro sinal de amor?
Carla por fim me encontra para o nosso check-up das quatro da tarde.
— Será que é possível alguém ter uma esquizofrenia repentina? — pergunto.
— Por quê? Você está tendo isso?
— Talvez.
— Eu estou falando com a Maddy boa ou com a Maddy má agora?
— Não tenho certeza.
Ela dá tapinhas em uma das minhas mãos.
— Seja boa com a sua mãe. Você é tudo que ela tem.


CARTÃO DA LIBERDADE



DE CABEÇA PARA BAIXO
AS PESSOAS NORMAIS andam de um lado para o outro quando estão nervosas. Olly fica me encarando.
— Olly! É só uma parada de mãos. Vou me apoiar na parede. Vai dar tudo certo. — Levo uma hora para convencê-lo a me mostrar como fazer aquilo.
— Você não tem força suficiente nos pulsos e na parte superior do corpo — ele resmunga.
— Você já mandou essa. Além disso, sou forte — digo e flexiono um dos bíceps. — Posso erguer o peso do meu corpo em livros.
Ele sorri levemente e depois, graças a Deus, para de andar de um lado para o outro. Ele puxa o elástico ao redor do pulso e os olhos examinam meu corpo, mentalmente analisando minha falta de força física.
Reviro os olhos do jeito mais dramático de que sou capaz.
— Está bem. — Ele suspira acompanhando o meu nível de drama. — Agache-se. — Ele demonstra o movimento.
— Eu sei o que é um...
— Concentre-se.
Eu me abaixo.
Do outro lado da sala ele confere minha posição e me dá instruções para fazer pequenos ajustes: separar as mãos uns trinta centímetros, deixar os braços esticados com os cotovelos pressionados contra os meus joelhos, pontas dos dedos separadas.
Finalmente estou na posição correta.
— Agora — ele continua —, jogue o seu peso levemente para a frente até que os dedos dos seus pés se desprendam do chão.
Jogo o peso rápido demais e caio de costas no chão.
— Hã. — Ele pressiona os lábios tentando conter o riso, porém sua covinha o entrega. Volto à minha posição. — Mais movimento e menos inclinação — ele diz.
— Pensei que eu estivesse me movimentando.
— Não muito. Tudo bem. Agora, me observe. — Ele se agacha. — Mãos afastadas trinta centímetros, cotovelos contra os joelhos, pontas dos dedos separadas. E então, devagar, bem devagar, jogue o seu peso para frente, com os ombros. Tire os dedos dos pés do chão. E então simplesmente se erga. — Ele se inclina para a frente e faz a parada de mãos com sua graça sem esforço de sempre. Mais uma vez, fico hipnotizada pela expressão pacífica em seu rosto quando ele está em movimento. Isso é como uma meditação para Olly. Seu corpo é sua fuga do mundo, ao passo que estou presa dentro do meu.
— Quer ver de novo? — pergunta ele, pondo-se de pé novamente.
— Não. — Mais do que ansiosa, inclino meus ombros para a frente como ele me instruiu, mas nada acontece. Por cerca de uma hora não faço nenhum avanço. A parte inferior do meu corpo continua firmemente ancorada ao chão, enquanto a parte superior dos meus braços queima graças ao esforço. Acabo dando diversas cambalhotas não intencionais. No fim, tudo o que consigo é não gemer enquanto rolo.
— Vamos fazer um intervalo? — ele pergunta, ainda se segurando para não rir.
Rosno para ele, abaixo a cabeça e dou um impulso que acaba em outra cambalhota. Agora Olly está definitivamente gargalhando.
Permaneço um tempo deitada de costas, recuperando o fôlego, e então começo a rir junto com ele.
Alguns segundos depois, eu me agacho.
Ele balança a cabeça.
— Quem poderia imaginar que você é assim tão teimosa?
Eu não. Eu mesma não sabia que eu era assim tão teimosa.
Ele bate palmas.
— Tudo bem, vamos tentar uma coisa nova. Feche os olhos.
Eu os fecho.
— Muito bem. Agora, finja que você está no espaço sideral.
Com os olhos fechados tenho a impressão de que ele está mais perto, como se estivesse ao meu lado e não na outra extremidade da sala. A voz dele desliza pelo meu pescoço, sussurra na minha orelha.
— Vê as estrelas? E aquele campo de asteroides? E aquele satélite solitário que segue sua própria trajetória? Não há gravidade. Você não tem peso. Você pode fazer o que bem entender com o seu corpo. Tudo que precisa fazer é pensar.
Eu me inclino para a frente e de repente estou de cabeça para baixo. No início, não tenho certeza de que consegui. Abro e fecho os olhos algumas vezes, mas o mundo permanece invertido. O sangue corre para a minha cabeça e ao mesmo tempo sinto-a leve. A gravidade faz com que minha boca forme um sorriso e meus olhos se arregalem. Eu me sinto maravilhosamente estranha em meu próprio corpo. A parte de cima dos meus braços começa a oscilar. Eu me inclino, saindo da posição totalmente na vertical, e meus pés tocam a parede. Jogo o peso para trás para mudar de direção e caio abaixada novamente.
— Incrível. — Olly bate palmas. — Você até conseguiu manter a posição por alguns segundos. Logo você não vai nem precisar da parede.
— E agora? — pergunto, querendo mais, querendo ver o mundo do mesmo jeito que ele.
Olly hesita, prestes a começar uma discussão, porém seus olhos encontram os meus. Ele faz que sim com a cabeça e se abaixa para observar.
Eu me agacho, jogo o peso para a frente e fico de cabeça para baixo. Perco a estabilidade quase que de imediato e começo a cair para trás. Logo, Olly está ao meu lado com as mãos na pele nua dos meus tornozelos, me segurando até que meu corpo se estabilize. Todos os nervos do meu corpo migram para o local onde ele toca. A pele sob as mãos dele faísca vida, todas as células são incendiadas pelo sentimento. Sinto como se nunca houvesse sido tocada antes.
— Preciso descer — eu peço e ele gentilmente baixa minhas pernas até que estejam novamente no chão. Espero que ele volte para o canto, mas Olly não faz isso. Antes que eu possa pensar melhor a respeito, eu me levanto e o encaro. Estamos a menos de dez centímetros de distância. Posso estender uma das mãos e tocá-lo se eu quiser. Devagar, movo os olhos até os dele.
— Você está bem? — Olly quer saber.
Quero responder que sim, mas, em vez disso, faço que não com a cabeça. Tenho de me afastar. Ele tem de se afastar. Olly tem de voltar para o lado dele do mundo, mas não o faz, e posso ver nos seus olhos que ele não tem a menor intenção de fazer isso. Meu coração bate tão alto que tenho certeza de que ele pode ouvi-lo.
— Maddy? — Meu nome forma uma pergunta e meus olhos se movem para os lábios dele.
Ele ergue a mão direita e agarra meu dedo indicador esquerdo. A mão dele é áspera, a pele é irregular devido aos calos e é tão quente. Ele afaga a junta do dedo e em seguida o envolve na palma da sua mão.
Olho para a minha mão.
Amigos têm permissão para tocar, não é?
Solto o dedo de maneira que eu possa entrelaçar todos os outros nos dele até que nossas palmas estejam pressionadas uma contra a outra.
Olho novamente para os olhos dele e vejo meu reflexo.
— O que você está vendo? — pergunto.
— Bem, a primeira coisa são essas sardas.
— Você está obcecado.
— Levemente. Parece que alguém salpicou chocolate sobre o seu nariz e as bochechas. — As pupilas do Olly viajam até os meus lábios e depois voltam para os olhos. — Os seus lábios são rosados e ficam ainda mais cor-de-rosa quando você os mordisca. Você faz isso sempre que está prestes a discordar de mim. Você deveria fazer menos isso. Estou falando sobre discordar, não mordiscar. Essa parte de mordiscar é adorável.
Eu devia dizer alguma coisa, detê-lo, mas não consigo falar nada.
— Nunca vi ninguém com um cabelo tão comprido, cheio e cacheado quanto o seu. Ele parece uma nuvem.
— Se as nuvens fossem marrons — retruco, finalmente encontrando a minha voz, tentando quebrar o encanto.
— Sim, nuvens cacheadas e marrons. E então eu vejo os seus olhos. Juro que eles mudam de cor. Algumas vezes, são quase pretos. Em outras, são castanhos. Estou tentando encontrar uma correlação entre a cor e o seu humor, mas ainda não consegui. Mesmo assim, pode deixar que a manterei informada a respeito.
— Correlação não é causalidade.
Ele sorri e aperta a minha mão.
— E você, o que vê?
Quero responder, mas acho que não vou conseguir. Balanço a cabeça e volto a olhar para as minhas mãos.
Ficamos assim, deslizando entre o certo e incerto até que ouço a Carla se aproximando e somos forçados a nos separar.
Estou inteira. Estou em pedaços.


PELE
LI EM ALGUM LUGAR que, em média, substituímos a maioria das nossas células a cada sete anos. O que é mais impressionante: mudamos as camadas mais superficiais da nossa pele a cada duas semanas. Se todas as células do nosso corpo fizessem o mesmo, seríamos imortais. Só que algumas outras células, como as do cérebro, não se renovam. Elas envelhecem e fazem com que envelheçamos também.
Em duas semanas, minhas células não terão nenhuma lembrança da mão do Olly na minha, mas meu cérebro vai se recordar. Podemos ter a imortalidade ou a lembrança do toque. Mas não podemos ter as duas coisas.


AMIZADE
Mais tarde, 20:16
Olly: você se logou mais cedo
Madeline: Eu falei para a minha mãe que tinha um monte de dever de casa para terminar
Olly: você está bem?
Madeline: Você está perguntando se eu estou doente?
Olly: estou
Madeline: Até agora, estou me sentindo muito bem.
Olly: você está preocupada?
Madeline: Não. Estou bem.
Madeline: Tenho certeza de que estou bem.
Olly: você está preocupada
Madeline: Um pouco.
Olly: você não deveria se sentir assim. sinto muito
Madeline: Por favor, não sinta. Eu não me sinto nada culpada e não mudaria nada nessa história.
Olly: mesmo assim
Olly: tem certeza de que você está bem?
Madeline: Estou me sentindo nova em folha.
Olly: e tudo isso só porque a gente deu as mãos, hein? imagina só o que um beijo poderia fazer...
Madeline: 
Madeline: Amigos não se beijam, Olly.
Olly: melhores amigos podem se beijar sim


PESQUISA
VINTE E QUATRO HORAS depois, só consigo pensar em beijos. Vejo as palavras imagina só o que um beijo poderia fazer sempre que fecho os olhos. Em algum momento me ocorre que não sei nada sobre beijos. É claro que eu já li a respeito. Já vi muitos beijos em filmes para ter uma ideia. Porém, nunca me imaginei como uma beijoqueira e com certeza menos ainda como uma beijadora.
Carla disse que provavelmente não haveria problema se nos víssemos hoje de novo, mas decidi esperar mais alguns dias. Ela não sabe sobre o toque no meu tornozelo, que demos as mãos e quase compartilhamos o mesmo ar. Eu deveria ter contado, mas não fiz isso. Fiquei com medo que ela impedisse nossas visitas. Outra mentira para acrescentar à minha crescente contagem. Olly agora é a única pessoa na minha vida para a qual não tenho de mentir.
Quarenta e oito horas pós-toque e eu continuo me sentindo bem. Dou umas olhadelas sorrateiras nos meus relatórios de saúde quando a Carla não está prestando atenção. A pressão arterial, a pulsação e a temperatura parecem estar normais. Nenhum sinal de alarme à vista.
Meu corpo se torna um pouco mais descoordenado quando me imagino beijando Olly, mas tenho certeza que isso é só uma consequência de estar apaixonada.





VIDA E MORTE
OLLY NÃO ESTÁ na parede. Nem mesmo está no lado do oposto de onde fica o sofá. Ele está bem no meio da sala, com os cotovelos apoiados nos joelhos, puxando e soltando o elástico em um de seus pulsos.
Hesito na porta. Os olhos dele não abandonam o meu rosto. Será que ele sente a mesma urgência que eu de ocupar o mesmo espaço, de respirar o mesmo ar?
Eu me demoro no batente da porta, sem ter certeza sobre o que fazer. Eu poderia assumir o local onde ele sempre costumava ficar, perto da parede. Podia lhe dizer que eu não deveria brincar com a sorte, mas não consigo fazer nada disso. Mais ainda, eu não quero fazer essas coisas.
— Acho que laranja é a sua cor — ele diz finalmente.
Estou usando uma das minhas camisetas novas. Esta tem gola em V e está bem apertadinha. E, a partir deste momento, se tornou minha peça de roupa preferida. Eu poderia comprar mais umas dez iguais.
— Obrigada. — Coloco uma das mãos sobre o estômago. As borboletas voltaram e não querem ficar quietas.
— Você quer que eu fique em outro lugar? — Ele estica bem o elástico entre o dedão e o indicador.
— Eu não sei — respondo.
Ele faz que sim com a cabeça e começa a se levantar.
— Não, espera. — Pressiono a outra mão contra o estômago e caminho até ele. Eu me sento, deixando uns trinta centímetros entre nós.
Olly deixa o elástico estalar em seu pulso. Seus ombros aliviam a tensão. Não havia percebido o quanto ele estava travado.
Eu me aproximo do Olly, pressiono os joelhos um contra o outro e jogo os ombros para a frente. Torno-me o menor possível, como se o meu tamanho pudesse contradizer nossa proximidade.
Ele tira os braços de cima dos joelhos, estica uma das mãos e começa a balançar os dedos.
Toda a minha hesitação desaparece e a minha mão escorrega para a dele. Nossos dedos deslizam uns para os outros como se houvéssemos passado toda a nossa vida de mãos dadas. Não sei como, mas a distância entre nós diminui.
Será que foi ele quem se aproximou? Será que fui eu?
Agora estamos um diante do outro, nossas coxas se tocam, os antebraços quentes e unidos, meu ombro pressionando a parte de cima dos braços dele. Ele passa o dedão sobre o meu, traçando um caminho da junta até o pulso. Minha pele, cada uma de suas células se acende. Será que as pessoas normais, saudáveis, sentem isso o tempo todo? Como elas sobrevivem a essa sensação? Como elas se controlam para não se tocarem o tempo todo?
Ele puxa a minha mão, ainda que levemente. Isso é uma pergunta, eu sei, e obrigo meus olhos a abandonarem o milagre de nossas mãos para encararem o milagre do rosto do Olly, e os olhos e os lábios dele se aproximam dos meus. Será que eu devo me afastar? Será que é ele quem deve fazer isso?
O hálito do Olly é quente e logo seus lábios estão roçando nos meus, suaves como asas de borboleta. Meus olhos se fecham sozinhos. As comédias românticas estão certas nesse quesito. Você tem de fechar os olhos. Ele recua e os meus lábios estão frios. O que eu fiz de errado? Meus olhos se abrem de imediato e trombam no azul dos dele. Ele me beija primeiro como se tivesse medo de continuar e depois como se tivesse medo de parar. Agarro a camiseta do Olly e aperto o tecido com força.
As borboletas estão fazendo o maior tumulto no meu estômago.
Ele aperta a minha mão, os meus lábios se abrem e logo estamos sentindo o gosto um do outro. Ele tem gosto de caramelo salgado e luz do sol. Ou do que eu acho que é o gosto de caramelo salgado e luz do sol. O gosto dele não é parecido com nada que eu já tenha experimentado, como a esperança, as possibilidades e o futuro.
Eu me afasto primeiro desta vez, mas só porque preciso de ar. Se eu pudesse, eu o beijaria durante todos os segundos de todos os dias de toda a minha vida.
Ele apoia a testa contra a minha. Seu hálito é quente contra o meu nariz e bochechas. E levemente doce. O tipo de doce que faz você querer mais.
— É sempre assim? — pergunto, ofegante.
— Não — diz ele. — Nunca é assim. — Percebo o encantamento na voz dele.
E, assim, tudo muda.



SINCERAMENTE
Mais tarde, 20:03
Olly: não vai ter filme com a sua mãe hoje?
Madeline: Cancelei. A Carla vai ficar louca da vida comigo.
Olly: por quê?
Madeline: Prometi a ela que ia passar mais tempo com a minha mãe.
Olly: estou bagunçando a sua vida
Madeline: Não, por favor, não pense assim.
Olly: o que a gente fez hoje foi louco
Madeline: Eu sei.
Olly: o que a gente estava pensando?
Madeline: Não sei.
Olly: talvez a gente devesse dar um tempo
Madeline: 
Olly: desculpe. eu estava tentando proteger você
Madeline: E se proteção não for exatamente o que eu preciso?
Olly: o que isso quer dizer?
Madeline: Não sei.
Olly: preciso que você esteja em segurança. não quero perdê-la
Madeline: Mas você mal me tem!
Madeline: Você se arrependeu?
Olly: Por causa de quê? Do beijo?
Olly: com toda a sinceridade?
Madeline: É claro.
Olly: não
Olly: você se arrepende?
Madeline: Não.


ESTERIOR
O UNIVERSO E O MEU subconsciente podem estar conspirando contra mim. Estou na sala de TV jogando Fonética com a minha mãe. Até agora já formei as palavras ESTERIOR, LIBERDADI e SEGREDUS. Esta última me deu até um bônus. Ela franze a testa para o tabuleiro e acho que vai contestar as minhas palavras, mas não faz isso. Ela soma os pontos e, pela primeira vez na vida, estou ganhando de verdade. Por sete pontos.
Contemplo o placar e depois volto a olhar para ela.
— Tem certeza de que você contou certo? — pergunto. Mais do que qualquer outra coisa, não quero vencê-la.
Confiro os pontos para descobrir que minha mãe está certa.
Os olhos dela estão no meu rosto, mas continuo olhando para a folha onde está a marcação dos pontos. Ela tem estado assim a noite inteira, me observando como se eu fosse um quebra-cabeça a ser desvendado. Ou talvez eu esteja paranoica. Talvez seja a culpa por estar sendo egoísta, por querer estar com o Olly até mesmo agora. A cada momento que eu passo com ele, aprendo algo novo. Eu me torno uma pessoa nova.
Ela pega a folha das minhas mãos e ergue meu queixo para me encarar.
— O que está acontecendo, querida?
Estou prestes a mentir quando um grito alto e súbito vem lá de fora. Outro grito se segue e então há uma gritaria indistinta e uma batida violenta. Nós duas nos viramos para olhar pela janela. Começo a me levantar, mas minha mãe aperta o meu ombro e faz que não com a cabeça. Permito que ela me mantenha no lugar, mas outro grito de “PARE” faz com que nós duas corramos para a janela.
Os três — Olly, sua mãe e seu pai — estão na varanda. Seus corpos formam um triângulo de tristeza, medo e raiva. Olly está em posição de briga, com os punhos fechados, os pés plantados no chão, firmes e afastados. Até mesmo daqui posso ver as veias pulando na superfície dos braços, do rosto. A mãe dá um passo na direção do Olly, mas ele diz algo que faz com que ela recue.
Olly e o pai se encaram. O pai está segurando um drinque na mão direita. Ele não tira os olhos do Olly enquanto ergue o copo e termina a bebida com goles profundos. Estende o copo vazio para que a mãe do Olly o pegue. Ela começa a se mover, mas, de novo, Olly fala algo que a detém. O pai então se volta para ela, a mão ainda esticada, rígida, segura o copo. Por um momento, acho que ela talvez não vá atender o desejo do marido.
Entretanto, sua resistência não dura muito. Ela dá um passo na direção dele. O marido a agarra, repleto de raiva e ameaças. Porém, mais que depressa, Olly se coloca entre eles. Ele golpeia o braço do pai, afastando-o e empurra a mãe para o lado.
Ainda mais raivoso, o pai arremete contra ele de novo. Olly o empurra para trás. Ele bate em uma parede, mas não cai.
Olly começa a pular levemente, balançando os braços e os pulsos como um boxeador se preparando para uma luta. Ele está tentando desviar a atenção do pai, para que o alvo deixe de ser a mãe. Funciona. O pai investe primeiro contra um de seus pulsos. Olly desvia para a direita e depois para a esquerda. Ele pula para trás, descendo os degraus da escada bem quando o pai arma mais um soco. Ele erra o alvo e o impulso faz com que tropece escada abaixo. Ele aterrissa, esparramando-se na entrada de carros de concreto e não se move.
Olly fica imóvel. A mãe tapa a boca com ambas as mãos. Minha mãe passa um dos braços ao redor dos meus ombros. Pressiono a testa contra o vidro e agarro o peitoril. Todos os olhos estão no pai do Olly. O momento se estende. Cada segundo em que ele não se mexe é um alívio terrível.
A mãe do Olly é a primeira a quebrar toda aquela imobilidade. Ela desce os degraus correndo e se agacha ao lado do marido. Olly faz um gesto para que ela se afaste, mas a mãe o ignora. Ela se inclina para mais perto do pai do Olly bem quando ele se vira para ficar de frente. Ele agarra o pulso dela com suas mãos grandes e cruéis. Com o triunfo estampado no rosto, ergue a mão dela no ar como se fosse um troféu que acabou de ganhar. Ele dá um impulso para se levantar e a arrasta também para cima.
Mais uma vez, Olly corre para ficar entre eles, mas desta vez o pai está pronto. Mais depressa do que eu jamais o vi se mexer, o pai do Olly solta a esposa, agarra o colarinho da camiseta do filho e lhe dá um soco no estômago.
A mãe grita. E então eu grito também. Ele dá outro soco no Olly.
Não sei o que acontece depois porque me solto da minha mãe e começo a correr. Eu não penso, simplesmente me mexo. Voo pela sala e desço até o hall. Atravesso o bloqueio de ar e passo pela porta em um milésimo de segundo.
Não sei para onde estou indo, mas preciso ir até ele.
Não sei o que estou fazendo, mas preciso protegê-lo.
Corro pelo nosso gramado até a parte mais próxima do terreno do Olly. O pai está indo na direção dele de novo quando eu grito:
— PARE!
Os dois congelam por um momento e olham para mim, chocados. O porre do pai do Olly finalmente mostra sinal de vida. Ele sobe os degraus cambaleando e entra na casa. A mãe o segue.
Olly se abaixa segurando o estômago.
— Você está bem? — pergunto.
Ele olha para mim. A dor, a confusão e o medo se alternam em seu rosto.
— Vá. Vá embora — ele diz.
Minha mãe pega o meu braço e tenta me puxar. Tenho uma vaga consciência de que ela está histérica. Ela é mais forte do que eu poderia imaginar, mas a minha necessidade de ver Olly é ainda mais intensa.
— Você está bem? — grito de novo, sem me mover.
Olly se estica devagar, cauteloso, como se algo estivesse doendo, mas ele não deixa transparecer.
— Mads, estou bem. Volte. Por favor. — Todo o peso do sentimento que temos um pelo outro paira entre nós. — Juro que estou bem — ele repete e deixo que minha mãe me puxe.
Estamos de volta ao bloqueio de ar antes que eu me dê conta do que acabei de fazer. Eu fui mesmo Lá Fora? A mão da minha mãe agarra a parte de cima do meu braço como um torno. Ela me obriga a encará-la.
— Eu não entendo. — A voz dela está estridente e confusa. — Por que você faria uma coisa dessas?
— Estou bem — respondo a pergunta que ela não me faz. — Foi só um minuto. Menos de um minuto.
Ela desiste do meu braço e ergue meu queixo.
— Por que você arriscaria a sua vida por um completo estranho?
Não sou uma mentirosa tão habilidosa assim para esconder meus sentimentos dela. Olly está em minha pele.
Ela vê a verdade.
— Ele não é um estranho, é?
— Somos apenas amigos. Amigos de internet — digo. Faço uma pausa. — Desculpe. Não pensei no que eu estava fazendo. Só queria ver se ele estava bem.
Passo as mãos pelos meus antebraços. Meu coração bate tão depressa que dói. A grandiosidade do que acabei de fazer toma conta de mim e começo a tremer.
Meu tremor repentino desperta os questionamentos da minha mãe e ela entra no modo médica.
— Você tocou em alguma coisa? — ela pergunta várias e várias vezes.
Respondo que não, várias e várias vezes.
— Preciso jogar suas roupas no lixo — ela diz depois que saio do banho que ela insistiu para que eu tomasse. Ela não olha para mim. — Teremos de tomar cuidados extras nos próximos dias para nos assegurar de que nada...
Ela para de falar, incapaz de pronunciar as palavras.
— Foi menos que um minuto — insisto, para benefício de nós duas.
— Às vezes um minuto é o que basta. — A voz dela é quase inaudível.
— Mãe, desculpe...
Ela ergue uma das mãos e balança a cabeça.
— Como você pôde? — ela pergunta, com os olhos finalmente encontrando os meus.
Não tenho certeza se ela está perguntando sobre minha ida até o Lado de Fora ou sobre o fato de eu ter mentido para ela. Não tenho respostas para nenhuma dessas perguntas.
Assim que ela vai embora, vou para a janela em busca do Olly, mas não o encontro. Ele provavelmente está no telhado. Vou para a cama.
Eu estive mesmo do lado de fora? Qual era o cheiro do ar? Havia vento? Os meus pés chegaram mesmo a encostar no chão? Toco a pele dos meus braços, do meu rosto. A sensação é diferente? Eu estou diferente?
Durante toda a minha vida, sonhei em estar no mundo. E agora que fiz isso, não me lembro de nada. Tudo que tenho guardado na minha mente é a cena do corpo dobrado, morrendo de dor. A voz dele me dizendo para voltar.

17 comentários:

  1. ai meu coração! agora fiquei preocupada...
    tô me sentindo mto sozinha aqui gente... cadê os comentarios de todo mundo?

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    1. Pois é....também to me sentindo sozinha :(
      mas a historia ta legal...apenas fiquei sem respirar esse capitulo inteiro rsrsrs...

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  2. Salve!

    Realmente, Laynha, tá muito quieto aqui... Cadê o povo?

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  3. Aiiiii... Amando o livro..louca pra vê o filme!!!!

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  4. Tão fofos. Adoro!!😍😍😍😍😍💑💑
    Primeiro 💏💏💏👄👄👄. Primeira loucura por amor!!! 💕💓💘💖.

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  5. Affsss meu Deus !!! Preocupada aqui tbm laynha

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  6. Que capítulo foi esse?!?!

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  7. Nossa, a adrenalina rolou solta aqui agora 😅😅 mas uma hora ou outra, a bolha sempre estoura.

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  8. Nossa......eu como mãe só penso na mae hhahaha

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  9. Vou ter um troçooooo 😍 to com medo, preocupada, não quero que a mãe dela descubra sobre as visitas 💔

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  10. OMG...De tirar o fôlego esse capítulo.

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  11. Meu Deus que livro é esse. Cada capitulo fico mais ansiosa com falta de ar aqui kkkk.
    Nao tem como respirar e ler ao mesmo tempo #SOCORRO

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  12. Q livro é esse senhor? Tô amandooo!!! N consigo parar de ler... Doidinha para assistir o filme.
    Definitivamente odeio o pai de Olly.
    Definitivamente estou apaixonada por Olly.

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  13. Só eu estou achando a mãe dela muito suspeita???

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    1. ahhhhhh eu também, pensei a mesma coisa, posso estar errada, mas acho algo muito estranho nessa "proteção" toda dela.

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  14. Não sei o que dizer! É difícil identificar meus sentimentos com relação a este capítulo! 😄

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Boa leitura :)