1 de julho de 2017

Todas as palavras

ACORDO DEVAGAR, languidamente, até me dar conta do que fizemos. Olho para o relógio.
Dormimos por mais de uma hora. Nosso tempo restante é escasso e desperdiçamos parte dele dormindo. Olho para o relógio de novo. Dez minutos para tomar um banho e mais dez para encontrar o ponto perfeito da praia para observar nosso primeiro e único dia juntos chegar ao fim.
Balanço Olly para que ele acorde e se vista correndo. No banheiro, deslizo para dentro do meu vestido tamanho único. Ele é tamanho único porque a saia é larga e a parte de cima tem um elástico, de forma que pode ser esticada para acomodar quase qualquer tipo de pessoa. Abdico do meu prendedor, deixando o cabelo solto, e ele cai cacheado e cheio pelos meus ombros e pelas minhas costas. No espelho, minha pele brilha em um tom de marrom aceso e os meus olhos estão radiantes.
Sou o retrato da saúde.
Olly está sentado no corrimão do último degrau da escada na varanda. Sua posição parece precária, apesar de estar se segurando no corrimão com ambas as mãos. Lembro a mim mesma que ele possui total controle do próprio corpo.
Ele sorri. E sorri mais quando me vê. Ele é o Olly e ao mesmo tempo não é o Olly. Seus olhos focados acompanham a minha aproximação. Estou consciente de cada um dos nervos pulsantes do meu corpo. Como ele consegue fazer isso com apenas um olhar? Será que eu causo o mesmo efeito nele? Paro diante das portas de vidro corrediças e olho para ele de cima a baixo. Ele veste uma camiseta preta apertada, shorts pretos e sandálias da mesma cor. O anjo da morte de férias.
— Venha aqui — ele convida e eu me aninho no V formado por suas pernas. Ele fica imóvel e se prende no corrimão com mais força. Inalo seu perfume fresco e olho para cima. Seus olhos são tão claros, azuis do mesmo tom de um lago no verão do qual não consigo ver o fundo. Encosto meus lábios nos dele. Ele desce do corrimão, me apertando contra uma mesa. Antes que eu me dê conta, pressiono meu corpo contra o de Olly e ele me beija soltando um gemido. Permito que ele continue e nos beijamos até eu perder o ar, até que a minha próxima respiração seja a mesma que ele acabou de inspirar. Minhas mãos estão em seus ombros, atrás do seu pescoço, em seu cabelo. Elas não sabem onde parar. Estou eletrificada. Quero tudo de uma vez só. Ele interrompe o beijo e ficamos ali parados, nossas respirações arrastadas, cabeças e narizes se tocando, as mãos dele apertando com força meus quadris, minhas mãos abertas contra o peito dele.
— Maddy. — Os olhos do Olly são uma pergunta e eu respondo que sim. Porque desde sempre a resposta é sim.
— E o pôr do sol? — ele indaga.
Balanço a cabeça, em negativa.
— Haverá outro amanhã também.
Ele parece aliviado e não consigo conter um sorriso. Ele me empurra pelas portas da varanda até que a parte de trás dos meus joelhos esteja pressionada contra a cama.
Eu me sento. E então ele continua ali de pé. Foi mais fácil pular de Black Rock do que fazer isso.
— Maddy, você não precisa.
— Não. Eu quero. É isso que eu quero.
Ele assente e então estreita os olhos, lembrando-se de algo.
— Tenho que comprar...
Faço que não com a cabeça.
— Eu comprei algumas.
— Você comprou algumas o quê? — Ele não entende o que quero dizer.
— Camisinhas, Olly. Eu tenho algumas.
— Você comprou algumas.
— Sim. — Todo o meu rosto fica vermelho.
— Quando?
— Na loja de suvenires. Custaram catorze e noventa e nove. Aquele lugar tem de tudo.
Ele olha para mim como se eu fosse um pequeno milagre, mas então seu sorriso se transforma em algo mais. E logo estou de costas e as mãos dele puxam meu vestido.
— Tira. Tira — ele pede.
Eu me abaixo até ficar de joelhos e tiro o vestido pela cabeça. Tremo no ar morno.
— Você tem sardas aí também — diz ele, passando as mãos na parte de cima dos meus seios.
Olho para baixo para confirmar essa informação e nós dois rimos.
Ele coloca as mãos na minha cintura nua.
— Você é todas as coisas boas embrulhadas em outra coisa boa.
— Hum... Você também. — Eu me sinto inarticulada. Todas as palavras na minha mente foram substituídas por uma única: Olly.
Ele arranca a camiseta pela cabeça e meu corpo domina o cérebro. Corro os dedos pelos músculos lisos e rígidos do peito dele, mergulho-os nos vales entre eles. Meus lábios seguem o mesmo caminho, saboreando, acariciando. Ele deita de costas, sem se mexer, deixando que eu o explore, e beijo toda a sua geografia até chegar aos dedos dos pés e volto para o ponto inicial. O desejo de mordê-lo é irresistível e eu não me controlo. A mordida o leva ao limite e ele toma conta da situação.
Meu corpo queima onde ele não o toca e queima também quando suas mãos estão sobre a minha pele. Nós nos fundimos até nos tornarmos um. Somos lábios, braços, pernas e corpos entrelaçados. Ele se ergue sobre mim e ficamos sem palavras para logo em seguida nos unirmos, movendo-nos em silêncio. Estamos unidos e eu conheço todos os segredos do universo.


DICIONÁRIO DA MADELINE
in.fi.ni.to adj. 1. O estado de não saber onde um corpo termina e outro começa. Nossa alegria é infinita. [2015, Whittier]


O MUNDO OBSERVÁVEL
DE ACORDO COM A teoria do Big Bang, o universo surgiu em um único instante — um cataclismo cósmico que deu origem aos buracos negros, às anãs marrons, à matéria escura, à energia e à energia escura. Ele deu origem às galáxias, às estrelas, às luas, aos sóis, aos planetas e aos oceanos. É um conceito difícil de ser compreendido — a ideia de que houve um tempo anterior à nossa existência.
Um tempo antes do tempo.
No início, não havia nada. E então, de repente, havia tudo.


DESTA VEZ
OLLY SORRI. Ele não vai parar de sorrir. Ele me lança todas as variações de sorrisos existentes e eu tenho de beijar seus lábios sorridentes. Um beijo leva a mais dez até que nossos beijos são interrompidos pelos roncos do estômago do Olly.
Corto o beijo.
— Acho que precisamos comer alguma coisa.
— Além de você? — Ele beija o meu lábio superior e então lhe dá uma mordidinha de leve. — Você é deliciosa, mas não mata a fome do meu estômago.
Eu me sento, cobrindo os seios com o cobertor. Ainda não estou pronta para ficar nua novamente, apesar de nossa intimidade. Diferente de mim, Olly não sente a menor vergonha. Ele se levanta da cama com um único movimento e caminha pelo quarto completamente nu. Eu me encosto na cabeceira e simplesmente o observo enquanto se move, repleto de graça e leveza. Não há nenhum resquício do anjo da morte neste momento.
Tudo está ao mesmo tempo igual e diferente. Ainda sou a Maddy. Olly ainda é o Olly. Entretanto, somos ambos mais alguma coisa. Eu o conheço de um jeito diferente. E também me sinto conhecida.
O restaurante fica à beira da praia e nossa mesa tem vista para o mar. Está tarde — nove da noite —, de forma que não consigamos ver o azul da água, apenas a espuma branca das ondas quando quebram na areia. Nós as ouvimos por cima da música e do burburinho ao nosso redor.
— Você acha que eles têm humuhumu no menumenu? — Olly faz piada. Ele havia brincado que queria comer todos os peixes que vimos quando mergulhamos.
— Olha, vou arriscar que eles não servem o peixe símbolo do estado — retruco.
Estamos famintos graças a todas as atividades que realizamos durante o dia, de modo que pedimos todas as entradas do cardápio: poke (atum marinado em molho de soja), bolinhos de caranguejo, camarões no leite de coco, lagosta, palitos de lagosta e porco Kalua. Não paramos de nos tocar durante toda a refeição. Nós nos tocamos entre pedaços de comida e goles de suco de abacaxi. Ele toca um dos lados do meu pescoço, minha bochecha, meus lábios. Eu toco seus dedos, os antebraços, o peito. Agora que nos tocamos com tanta intimidade, não conseguimos mais parar.
Movemos as cadeiras para nos sentarmos um ao lado do outro. Ele segura a minha mão em seu colo, ou eu seguro a dele no meu. Olhamos um para o outro e caímos na gargalhada sem motivo algum. Ou talvez não seja assim, porque talvez a gente ria devido ao fato de o mundo ser um lugar tão extraordinário. Para nós, termos nos conhecido e nos apaixonado está além de qualquer coisa que já tenhamos considerado possível.
Olly pede uma segunda rodada de palitos de lagosta.
— Você me deixa com muita fome — ele cantarola, erguendo as sobrancelhas. Olly toca uma das minhas bochechas e eu fico vermelha ao toque dele. Ele come mais devagar. É a nossa última refeição juntos. Talvez se ficarmos simplesmente aqui sentados, sem nos dar conta do tempo que passa, então este dia jamais termine.
Quando vamos embora, a garçonete nos pede para voltarmos em breve, o que Olly promete que faremos.
Vamos do restaurante iluminado para a escuridão da praia. No céu, as nuvens escondem a lua. Tiramos as sandálias, caminhamos até a beira da água e afundamos os dedos na areia gelada. As ondas noturnas quebram com mais intensidade e estrondo que as do dia. Quanto mais andamos, menos pessoas vemos, até que começamos a ter a impressão de que deixamos o mundo civilizado para trás. Olly nos conduz até a areia seca e encontramos um lugar para sentar.
Ele pega uma das minhas mãos e beija a palma.
— Meu pai nos pediu desculpas depois que bateu nela pela primeira vez — Olly fala a frase de uma vez só, sem parar para respirar. Levo um segundo para me dar conta sobre o que ele fala. — Ele estava chorando.
A noite está tão escura que acabo sentindo mais do que vendo-o balançar a cabeça.
— Eles se sentaram junto com a gente e o meu pai disse que sentia muito. Ele falou que aquilo jamais aconteceria de novo. Lembro que a Kara estava com tanta raiva que não conseguia nem olhar para o nosso pai. A minha irmã sabia que ele era um mentiroso, mas eu acreditei, assim como a nossa mãe. Ela nos pediu que esquecêssemos aquilo tudo. Falou que o nosso pai estava passando por muitos problemas. Que ela o havia perdoado e que nós devíamos fazer o mesmo. — Olly devolve a minha mão. — Ele não bateu mais nela por um ano. Ele bebia muito. Berrava com ela. Berrava com todos nós. Mas ele não bateu nela de novo por um longo tempo.
Prendo a respiração por um momento e libero a pergunta que há tanto tempo quero fazer:
— Por que ela não se separa dele?
Ele bufa e seu tom se torna duro.
— E você acha que eu já não perguntei isso a ela? — Ele deita na areia com as mãos unidas atrás da cabeça. — Acho que se ele houvesse batido nela de maneira que as coisas ficassem realmente feias, ela o teria deixado. Se ele talvez fosse alguma coisa um pouco além de um babaca, talvez pudéssemos finalmente dar no pé. Mas ele sempre pede desculpas e a nossa mãe sempre acredita nele.
Coloco uma das mãos sobre a barriga dele. Preciso de algum contato. Acho que Olly talvez também precise, mas então ele se senta, encosta os joelhos no peito e descansa os cotovelos sobre eles. Seu corpo forma uma gaiola na qual não consigo entrar.
— O que a sua mãe diz quando você pergunta isso?
— Nada. Minha mãe não fala mais sobre o assunto. Ela costuma dizer que vamos entender quando formos mais velhos e tivermos nossos próprios relacionamentos.
Fico surpresa com a raiva na voz dele. Jamais imaginei que Olly sentisse raiva da mãe. Do pai, sim, mas não dela.
Ele bufa novamente.
— Ela diz que o amor deixa as pessoas loucas.
— Você acredita nisso?
— Sim. Não. Talvez.
— Você não deve usar todas as respostas — reclamo.
Ele sorri na escuridão.
— Sim, eu acredito nisso.
— Por quê?
— Eu vim até o Havaí com você. Não é fácil para mim deixá-las sozinhas com ele.
Enterro minha culpa antes que ela possa despertar.
— Você acredita nisso?
— Sim. Com toda a certeza.
— Por quê?
— Eu vim até o Havaí com você — repito as palavras dele. — Eu jamais deixaria a minha casa se não fosse por você.
— Então... — Ele abaixa as pernas e pega uma das minhas mãos. — O que a gente vai fazer agora?
Não sei o que responder. A única coisa de que tenho certeza é que isto, estar aqui com o Olly, ser capaz de amá-lo e ser amada também, é tudo.
— Você deve deixá-los. Não é seguro para você continuar lá. — Falo isso porque Olly não faz a menor ideia do perigo que corre. Ele está aprisionado pela lembrança do amor, de tempos melhores, de quem é a mãe dele, e isso não é suficiente.
Descanso a cabeça no ombro dele e observamos juntos o oceano quase negro. Observamos a maneira como as ondas vêm e vão, quebrando contra a areia, tentando carregar consigo todos os grãos. E mesmo que não consigam fazer isso, as ondas retrocedem e voltam a quebrar mais uma vez, infinitamente, como se não houvesse uma última nem uma próxima vez e apenas este tempo fosse o tempo que importa.


ESPIRAL



Um comentário:

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Boa leitura :)