1 de julho de 2017

Tempo

CARLA NOS FAZ ESPERAR uma semana até que possamos nos ver de novo. Ela quer ter certeza absoluta de que estar na mesma sala que Olly não disparou nenhum dos meus gatilhos de doenças.
Apesar de eu concordar com ela que devemos esperar para ter certeza só por uma questão de segurança, a semana parece interminável. Estou meio que convencida que o tempo literalmente, e não apenas de forma metafórica, começou a passar mais devagar, mas esse é aquele tipo de coisa que entraria para a história.



ESPELHO, ESPELHO MEU
DEPOIS DE UMA ÉPOCA, a semana finalmente terminou. Estou me sentindo tonta e tentando não me sentir assim, o que é mais difícil do que se imagina. Tentar não sorrir apenas faz com que você sorria mais ainda.
Carla me observa enquanto luto para escolher o que vestir. Eu nunca liguei muito para essas coisas. Na verdade, jamais pensei no assunto. Meu armário em sua totalidade consiste em camisetas brancas e calças jeans. Os jeans são organizados por tipo — reto, skinny, bootcut, largo, aqueles ridiculamente chamados de “boyfriend”. Meus sapatos — todos Keds, todos brancos — estão empilhados em um canto. Quase nunca uso sapatos em casa e agora não tenho certeza se vou conseguir encontrar um par que ainda caiba em mim. Ruminando sobre a pilha, encontro um pé esquerdo e outro direito do mesmo tamanho. Eles servem, mas por pouco não ficam apertados. Vou para a frente do espelho. A camiseta deve combinar com os sapatos ou será que é a bolsa? Será que branco é a melhor cor para a minha pele acastanhada? Faço uma anotação mental de que preciso fazer compras mais tarde. Vou comprar uma camiseta de cada cor até encontrar alguma que caia melhor em mim.
Pela quinta vez eu pergunto à Carla se a minha mãe já saiu.
— Você conhece a sua mãe — ela diz. — Ela por acaso já se atrasou alguma vez na vida?
Minha mãe acredita na pontualidade como outras pessoas acreditam em Deus. O tempo é precioso, ela diz, e é rude fazer com que a outra pessoa perca o tempo dela. Não tenho nem mesmo permissão para me atrasar para nossos Jantares de Sexta-Feira.
Eu me olho no espelho e troco a camiseta branca com gola em V por uma branca com decote canoa por nenhum motivo específico. Só para ter alguma coisa para fazer enquanto espero pelo Olly.
Desejo mais uma vez contar tudo para a minha mãe. Quero perguntar a ela por que fico sem ar quando penso nele. Quero compartilhar meu estado de total idiotice. Quero contar todas as coisas engraçadas que o Olly diz. Quero contar como não consigo parar de pensar nele por mais que eu tente o contrário. Quero perguntar se era assim que ela se sentia em relação ao meu pai no início.
Falo para mim mesma que está tudo bem. Não fiquei doente depois da última vez que o vi e o Olly conhece as regras — nada de tocar, tratamento de descontaminação completo, nada de visitas se ele suspeitar que está ficando doente.
Falo para mim mesma que não há mal nenhum em mentir para a minha mãe. Falo para mim mesma que não vou ficar doente. Falo para mim mesma que não há mal nenhum em ter um amigo.
Que a Carla está certa e o amor não pode me matar.


PREVISÃO
OLLY ESTÁ NOVAMENTE na parede quando entro na sala. Dessa vez, ele escalou até o topo.
— As pontas dos seus dedos não ficam cansadas? — pergunto.
— Eu as mantenho sob um regime de exercícios bastante puxado. — Ele sorri para mim. Sinto uma leve pontada no estômago com a qual eu realmente terei de me acostumar, já que esse é um efeito colateral de vê-lo.
Eu estive nesta sala ontem, fazendo o meu dever de casa. Sei que ela está exatamente do mesmo jeito que eu a deixei, só que sua aparência e a sensação que ela causa em mim são bem diferentes. A sala está muito mais viva com Olly dentro dela. Se todas as plantas e árvores falsas ganhassem vida neste momento, eu não ficaria surpresa.
Caminho até o sofá e me sento no canto mais afastado dele.
Olly desce, senta-se no chão, apoia as costas na parede e cruza as pernas.
Dobro as pernas debaixo do meu corpo, ajeito minha massa de cabelo e cruzo os braços sobre o peito. O que acontece quando estou na mesma sala que ele que me faz tomar consciência de todas as partes do meu corpo? Ele faz com que eu me torne consciente até mesmo da minha pele.
— Você está calçando sapatos hoje — ele nota. Olly é definitivamente uma pessoa atenta, o tipo de garoto que saberia se você ajeitou um quadro ou acrescentou mais um vaso à sala.
Olho para os meus sapatos.
— Tenho nove pares iguaizinhos a este.
— E você ainda reclama das minhas escolhas de roupa.
— Você só se veste de preto! Isso lhe dá uma aparência sepulcral.
— Preciso de um dicionário para conversar com você.
— Algo procedente ou relacionado a sepulcro.
— Essa definição não ajudou muito.
— Basicamente você é um anjo da morte.
Ele sorri para mim.
— A Dona Foice me levou, não é mesmo? Pensei que eu conseguisse esconder isso.
Ele muda de posição. Agora está deitado de costas, os joelhos dobrados e as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.
Mudo também de posição sem nenhum motivo, aproximando as pernas do peito e envolvendo-as com os braços. Nossos corpos estão conversando independentemente de nós dois. Será que essa é a diferença entre uma amizade e alguma outra coisa? Essa consciência que eu tenho a respeito dele?
Os filtros de ar continuam a realizar seu trabalho, fazendo um zumbido sob o som do ventilador.
— Como isso funciona? — Os olhos dele inspecionam o teto.
— É industrial. As janelas estão lacradas, de forma que o ar só entra através dos filtros no teto. Nada que meça mais de 0.3 micrômetro entra aqui. E também o sistema de circulação troca completamente todo o ar da casa a cada quatro horas.
— Uau. — Ele se vira para olhar para mim e eu posso vê-lo tentando entender quão doente eu estou.
Olho para o outro lado.
— A indenização pagou por tudo isso. — Antes que ele tenha a oportunidade de perguntar, acrescento: — O caminhoneiro que matou o meu pai e o meu irmão dormiu ao volante. Ele já estava trabalhando há três turnos sem parar. Eles pagaram uma indenização para a minha mãe.
Ele vira a cabeça novamente para o teto.
— Sinto muito.
— É estranho, porque na verdade eu não me lembro deles. O que significa que eu não me lembro de nada. — Tento ignorar o sentimento que surge quando penso neles. É uma tristeza que não é exatamente tristeza e depois vem a culpa. — É estranho perder algo que você nunca teve ou que, de qualquer forma, não se lembra de ter tido.
— Não é assim tão estranho — ele diz. Ambos ficamos em silêncio e ele fecha os olhos. — Você já imaginou como seria a sua vida se você pudesse mudar pelo menos uma única coisa?
Eu não costumava pensar nisso, mas a partir desse momento começo a imaginar. E se eu não fosse doente? E se o meu pai e o meu irmão não tivessem morrido? Evitar imaginar coisas impossíveis foi a forma que eu encontrei para me tornar relativamente zen.
— Todo mundo acha que é especial — ele continua. — Todo mundo é tão único quanto um floco de neve, não é? Somos todos únicos e complicados. Talvez a gente nunca conheça o coração humano, não é o que dizem por aí?
Faço que sim com a cabeça devagar. Com toda a certeza eu concordo com o que ele acabou de dizer, mas tenho certeza quase na mesma medida que vou discordar do que virá em seguida.
— Acho que isso não faz o menor sentido. Nós não somos flocos de neve. Somos apenas reações provenientes de um conjunto de ações.
Paro de concordar com a cabeça.
— Como uma fórmula?
— Exatamente como uma fórmula. — Ele dá um impulso com os cotovelos para se sentar e olha para mim. — Acho que há uma ou duas ações que importam mais. É só descobrir quais são elas que você já conhece a pessoa logo de cara. Você pode predizer qualquer coisa a respeito dela.
— Sério? E agora, o que sobrou para eu dizer?
Ele pisca para mim.
— Você acha que eu sou um bruto, um herege, um...
— Um excêntrico — completo para ele. — Fala sério. Você não acha que nós somos equações matemáticas.
— Pode ser. — Ele se deita de novo.
— Mas como você sabe que uma ação pode mudar as coisas? — pergunto.
Ele solta um suspiro longo e sofrido.
— É, esse é o problema. Mesmo se eu soubesse qual é a ação que muda tudo, o quanto você realmente deve mudar as coisas? E se você não conseguir mudar a questão exatamente da forma que imaginou? E também não é possível prever a nova ação que vai se suceder. Talvez você torne as coisas ainda piores. — Ele se senta de novo. — Imagine então que você pudesse mudar apenas aquelas determinadas ações antes de elas darem errado. — Ele pronuncia a última parte em voz baixa, com a frustração de alguém que está tentando há muito tempo resolver um problema insolucionável. Nossos olhos se encontram e ele parece sem graça, como se houvesse revelado mais do que era a sua intenção.
Ele se deita novamente e cobre os olhos como um dos antebraços.
— O problema é a teoria do caos. Há muitas ações na fórmula e até mesmo a menor delas faz mais diferença do que você é capaz de imaginar. E é impossível medir a importância delas com precisão. Mas, se você conseguir fazer isso, poderá criar uma fórmula que vai predizer o clima, o futuro, as pessoas.
— Mas a teoria do caos não diz que é impossível fazer isso?
— É.
— Então você precisou de um monte de teorias matemáticas para se dar conta de que as pessoas são imprevisíveis?
— Você já tinha descoberto isso, não é?
— Livros, Olly! Eu aprendi isso nos livros.
Ele solta uma gargalhada, vira-se para um dos lados e ri ainda mais. Ele é contagiante e logo estou rindo também, todo o meu corpo responde ao do Olly. Procuro a covinha na qual eu não deveria mais prestar atenção. Quero colocar o meu dedo nela e fazer com que ele sorria para sempre.
Talvez não possamos prever tudo, mas podemos prever algumas coisas. Por exemplo, com toda a certeza eu vou me apaixonar pelo Olly.
E é quase certo que isso será um desastre.


DICIONÁRIO DA MADELINE
ob.ses.são s.f. pl.-ões 1. interesse profundo (e completamente justificável) em algo (ou alguém) profundamente interessante. [2015, Whittier]


SEGREDOS
MEUS BATE-PAPOS constantes com Olly pela internet estão me consumindo. Caí no sono durante não apenas uma, mas duas noites de filme com a minha mãe. Ela está começando a se preocupar com a possibilidade de haver alguma coisa errada, que o meu sistema imunológico esteja comprometido de alguma forma. Digo a ela que é mais simples que isso. Só não estou dormindo bem. Acho que entendo por que, dada a nossa situação, seu cérebro de médica logo imagina o pior. Ela me fala o que eu já sei, a falta de sono não é nada boa para alguém nas minhas condições. Prometo que vou melhorar. Naquela noite, só converso com Olly pela internet até as duas da manhã e não até as três, como costumávamos a fazer.
Eu me sinto estranha por não contar nada para a minha mãe, não contar sobre alguém que está se tornando tão importante para mim. Minha mãe e eu estamos nos distanciando. E não é porque o Olly está ocupando o lugar dela. Estamos nos distanciando porque pela primeira vez na vida tenho um segredo.


OBRIGADA POR COMPRAR CONOSCO

3 comentários:

  1. Conta logo pra mamãe... Aproveita que ela não é como a minha, que sairia ligando pra todo mundo ou pior, colocaria no Facebook com foto, vídeo e tudo que tem direito, falando que a filha ta apaixonada por um gatinho kkkkk
    Nunca da certo esconder nada da mãe.
    N. A.

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  2. Eu estou amando o livro. Definitivamente estou apaixonada por Olly!

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  3. Estou achando que a mãe dela que inventa toda essa doença ;x sei lá.... por: Bianca

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Boa leitura :)