1 de julho de 2017

Sorvete astronauta

— O SR. WATERMAN ESTÁ chegando — informa Carla do batente da porta. Finalmente dei os toques finais na minha maquete para a aula de arquitetura. Tive de abreviar duas noites de bate-papo com o Olly para terminar a tempo. Não quero que minha mãe fique preocupada de novo. O trabalho era projetar um centro comercial com praça de alimentação ao ar livre no meu estilo preferido.
Escolhi art déco porque os prédios parecem voar mesmo estando bem presos ao chão. A peça central do complexo é uma área gramada a céu aberto repleta de imensas cadeiras de formato estranho pintadas com cores brilhantes em um padrão de zigue-zague. Eu já tinha “plantado” palmeiras de plástico na grama e agora posiciono estrategicamente pessoas de plástico em miniatura segurando sacolas que lhes dão o “vigor da vida”, como diria o sr. Waterman.
Em dois anos de aulas, só encontrei o sr. Waterman pessoalmente duas vezes. Em geral, todas as minhas aulas, incluindo arquitetura, acontecem via Skype. Minha mãe fez uma exceção esta semana.
Acho que ela ainda está se sentindo mal devido à visita da Kara e do Olly há algumas semanas. Eu lhe disse que não tinha sido nada, mas ela insistiu. Receber uma visita é um grande evento porque os visitantes têm de concordar em ter os seus registros médicos checados e passar por um exame físico. Eles também precisam ser descontaminados, o que significa tomar um banho de ar soprado em alta velocidade por cerca de uma hora. Me visitar é sempre uma dor.
O sr. Waterman tem uma aparência alegre e peluda, como o Papai Noel na noite de Natal antes de começar sua longa jornada. O processo de descontaminação deixou-o com frio, de forma que ele esfrega uma mão na outra e as sopra para aquecê-las.
— Madeline — diz ele alegremente, batendo palmas. Ele é meu tutor preferido. Nunca aparenta sentir pena de mim e ama arquitetura tanto quanto eu. Se eu fosse ser alguma coisa quando crescesse, eu queria ser arquiteta.
— Olá, sr. Waterman. — Eu sorrio, sem jeito, pois realmente não sei como é estar com alguém que não é a Carla ou a minha mãe.
— E então o que você tem aí? — Seus olhos cinzentos brilham. Posiciono os dois últimos compradores minúsculos perto de uma loja de brinquedos e dou um passo para trás.
Ele circula ao redor da maquete, às vezes sorrindo de orelha a orelha, às vezes franzindo a testa, enquanto estala a língua, fazendo sons esquisitos.
— Bem, querida, você se superou. Está adorável! — Ele se ergue e está prestes a me dar um tapinha no ombro antes de se conter. Não é permitido tocar. Ele balança levemente a cabeça e então se inclina para examinar um pouco mais.
— Sim, sim, adorável. Há apenas algumas coisas sobre as quais precisamos conversar. Mas, primeiro, por onde anda o seu astronauta?
Sempre que faço uma nova maquete, faço um astronauta de argila e o escondo em algum lugar. Cada figura é diferente da outra. Desta vez, ele veste o equipamento completo de astronauta, com o capacete de ar comprimido e um tanque de oxigênio. O astronauta está sentado em uma das mesas da lanchonete. Há um monte de comida diante dele. Fiz banana splits, panquecas com calda de mirtilo, ovos mexidos, torradas com manteiga e geleia, bacon, milk-shakes (morango, chocolate e baunilha), cheesebúrgueres e batatas fritas, tudo em miniatura. Eu queria ter feito anéis de cebola, mas, como não tinha tempo, optei pelas batatas fritas mesmo.
— Lá está ele! — exclama o sr. Waterman. Ele gargalha diante da cena por alguns momentos e então volta para mim. Seus olhos alegres estão um pouco mais felizes que o normal. — Está simplesmente maravilhoso, minha querida. Mas como ele vai comer toda essa comida deliciosa sem tirar o capacete?


Olho novamente para o meu astronauta. Nunca havia me ocorrido que ele quisesse comer aquela comida.


TUDO É UM RISCO
CARLA ESTÁ SORRINDO para mim como se soubesse de algo que eu não sei. Ela está fazendo isso o dia todo quando acha que eu não estou olhando. Ela também está cantando “Take a Chance on Me” do ABBA, definitivamente sua música preferida de todos os tempos. Ela está totalmente fora do tom. Terei de perguntar ao Olly qual é a probabilidade de ela errar absolutamente todas as notas. Será que ela não poderia acertar pelo menos uma ao acaso?
É 12:30 e tenho meia hora para almoçar antes do meu tutor de história ficar on-line. Não estou com fome. Basicamente, não sinto mais fome. Ao que parece, um corpo pode se sustentar apenas de bate-papos na internet.
Carla não está olhando, por isso eu abro o meu Gmail. Treze mensagens do Olly desde a noite passada. Todas foram enviadas às três da manhã e é claro que ele não acrescentou o assunto. Solto uma risadinha e balanço a cabeça.
Quero lê-las, estou louca para lê-las, mas tenho de tomar cuidado quando a Carla está no quarto.
Tiro os olhos da tela e vejo que ela está parada atrás de mim com as sobrancelhas erguidas. Será que ela sabe de alguma coisa?
— O que tem de tão interessante nesse laptop? — pergunta ela. Meu Deus, com toda a certeza ela sabe.
Aproximo a cadeira da escrivaninha e coloco meu sanduíche em cima do computador.
— Nada. — Dou uma mordida no sanduíche. Terça-feira é dia de peito de peru. — Não é nada. Só uma coisa que me fez rir aqui. — Ela se aproxima alguns centímetros. Os cantos dos olhos castanhos se enrugam e um imenso sorriso se abre em seu rosto. — Vídeo de gato — digo com a boca cheia de peito de peru. Opa, falei a coisa errada. A Carla é alucinada por vídeos de gato. Ela acha que a internet só serve para isso.
Ela se aproxima ainda mais, fica parada atrás de mim e ergue os braços para puxar o laptop. Largo o sanduíche, fecho o computador e o abraço junto ao meu peito. Não sou uma boa mentirosa e digo a primeira coisa que passa pela minha cabeça.
— Você não vai querer ver esse vídeo, Carla. É ruim. O gato morre.
Encaramos uma a outra em uma espécie de defensiva chocada por alguns segundos. Estou chocada porque sou uma idiota e não consigo acreditar que falei aquilo. Carla está chocada porque eu sou idiota e não consegue acreditar que falei aquilo. Ela abre a boca de forma cômica, como um desenho animado, seus grandes olhos redondos ficam ainda maiores e mais redondos. Ela se inclina até a altura da cintura, dá um tapinha em um dos joelhos e gargalha como eu jamais a vi fazer. Quem por acaso dá um tapa no próprio joelho enquanto ri?
— Você quer dizer que a única coisa que conseguiu inventar é que o gato estava morto? — Ela começa a gargalhar de novo.
— Então você sabe.
— Bem, se eu não sabia antes, com toda a certeza eu sei agora. — Ela ri ainda mais um pouco e dá outro tapa no joelho. — Ah, você devia ter visto a sua cara.
— Isso não é assim tão engraçado — resmungo, irritada por ter me entregado.
— Você esqueceu que eu tenho uma igualzinha a você em casa. Sempre sei quando a Rosa está aprontando. Além disso, você, Dona Coisinha, não é nada boa em ter segredos. Vi você checando o e-mail e procurando por ele na janela.
Coloco o laptop de volta na mesa.
— Então você não está com raiva de mim? — pergunto, aliviada.
Ela me passa o sanduíche.
— Isso depende. Por que você guardou segredo?
— Eu não queria que você ficasse preocupada com a possibilidade de me ver triste de novo.
Ela me encara por um longo segundo.
— Preciso me preocupar?
— Não.
— Então não estou preocupada. — Ela afasta o meu cabelo dos ombros. — Coma — diz ela.


QUINZE MINUTOS DEPOIS
— QUEM SABE ELE não possa fazer uma visita?
Fico surpresa por perguntar, mas Carla não está nem um pouco chocada. Ela nem mesmo faz uma pausa para espanar uma poeira não existente da prateleira.
— As adolescentes são iguais em todos os lugares. É só lhes dar o braço que elas já querem o corpo inteiro.
— Isso é um não? — pergunto.
Ela ri de mim.


DUAS HORAS DEPOIS
EU TENTO DE NOVO.
— Só por meia hora. Ele pode ser descontaminado do mesmo jeito que o sr. Waterman e então...
— Você ficou maluca?


DEZ MINUTOS DEPOIS
— QUINZE MINUTOS?
— Não.


AINDA MAIS TARDE
— POR FAVOR, CARLA...
Ela me interrompe:
— E eu aqui pensando que você estava bem.
— Eu estou. Eu estou muito bem. Eu só queria conhecê-lo...
— Nem sempre podemos ter o que queremos. — Só pelo tom seco eu sei que essa é uma frase que ela usa com a Rosa o tempo todo. E tenho certeza de que ela se arrependeu de dizê-la para mim, mas mesmo assim a Carla não fala mais nada.
Ela está indo para casa, já passando pela porta do meu quarto quando resolve parar.
— Você sabe que eu não gosto de dizer não para você. Você é uma boa menina.
Mais do que depressa aproveito essa brecha.
— Ele pode se descontaminar e sentar do outro lado da sala, bem longe de mim e só por quinze minutos. Meia hora no máximo.
Ela faz que não com a cabeça, mas não sinto nenhuma firmeza nesse gesto.
— É muito arriscado. E a sua mãe jamais permitiria.
— A gente não precisa contar para ela — falo sem pensar.
Ela me lança um olhar cortante, desapontado.
— Vocês acham mesmo que é fácil mentir para as suas mães?


PARA AQUELES QUE ESPERAM
CARLA NÃO FALA NADA sobre o assunto até depois do almoço, dois dias depois.
— Agora, você vai me escutar — ela diz. — Nada de tocar. Você vai ficar no seu lado da sala e o garoto no dele. Já falei a mesma coisa para ele.
Entendo as palavras que saem dos lábios da Carla, mas não entendo o que ela quer dizer.
— Como assim? Você está falando que ele está aqui? Ele já está aqui?
— Você fica no seu lado e ele no dele. Nada de tocar. Entendeu?
Não entendi, mas, de qualquer forma, faço que sim com a cabeça.
— Ele está esperando você no solário.
— Descontaminado?
O olhar no rosto dela quer dizer alguma coisa do tipo: por que você acha que eu estou aqui?
Eu me levanto, volto a me sentar e me levanto novamente.
— Ah, senhor — ela diz. — Vá se ajeitar depressa. Você só tem vinte minutos.
Meu estômago não se revira apenas, mas faz piruetas de trapezista sem rede de proteção.
— O que fez você mudar de ideia?
Ela se aproxima, pega o meu queixo nas mãos e me encara bem nos olhos por tanto tempo que começo a ficar impaciente. Posso ver que ela está repassando tudo que gostaria de dizer.
Por fim, o que ela diz é:
— Você merece uma coisinha.
É assim que a Rosa consegue tudo o que quer. Ela simplesmente pede para a mãe, que tem um coração grande demais.
Corro para o espelho para “me ajeitar”. Quase me esqueci da minha aparência. Não gasto muito tempo me admirando. Não há a menor necessidade de fazer isso quando não tem ninguém para ver você. Gosto de pensar que sou exatamente a mistura do meu pai e da minha mãe. Minha pele levemente morena é o que dá quando se combina a pele pálida, cor de oliva dela com o marrom profundo e bem mais encorpado do meu pai. Meu cabelo é longo, cheio e ondulado, não tão cacheado quando o dele, mas também não tão liso quanto o da minha mãe. Até mesmo os meus olhos são a combinação perfeita: nem asiáticos, nem africanos, mas algo entre os dois.
Desvio os olhos do espelho, mas logo volto a olhar para ele, tentando me pegar de surpresa para conseguir uma imagem mais fiel, tentando ver a mesma imagem que Olly veria. Tento dar uma gargalhada e depois sorrio, mostrando os dentes e escondendo-os. Tento até mesmo franzir a testa, embora espere não precisar usar essa expressão.
Carla observa as minhas caretas no espelho ao mesmo tempo divertida e perplexa.
— Quase me lembro de quando eu tinha a sua idade.
Eu não me viro. Em vez disso, falo com a Carla vendo seu reflexo no espelho.
— Você tem certeza sobre isso? Você não acha mais que é arriscado?
— Você está tentando fazer com que eu desista? — Ela vai até o espelho e coloca uma das mãos no meu ombro. — Tudo é um risco. Não fazer nada é um risco. A decisão é sua.
Olho ao redor para o meu sofá branco e as prateleiras brancas, minhas paredes brancas, tudo tão seguro, familiar e imutável.
Penso no Olly, com frio por causa da descontaminação e à minha espera. Ele é o oposto de todas essas coisas. Ele está em movimento constante.
Ele é o maior risco que eu já encarei.

4 comentários:

  1. tô amando, mas acho q tinha q ter falado pra mãe dela...

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  2. Amando cada capitulo... s2

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  3. Respostas
    1. Não! Tentanos criar um, mas a conta foi excluída

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Boa leitura :)