25 de julho de 2017

Prólogo

JAMES HILLAGER PENSOU QUE ESTIVESSE tendo uma alucinação quando viu pela primeira vez a sanguessuga gigante.
A floresta de Bornéu era tão quente e tão úmida que caminhar por ela era como estar em uma sauna. As roupas de James estavam ensopadas, e o ar era tão úmido que o suor nem evaporava: apenas pingava da ponta dos dedos e do nariz ou escorria pelo corpo e era absorvido pelas roupas onde elas tocassem a pele. Suas botas estavam tão cheias de água que ele podia ouvir o chapinhar a cada passo que dava. O couro apodreceria em poucas semanas, se continuasse assim. Nunca se sentira tão infeliz e desconfortável em toda a vida.
O calor fazia sua cabeça girar, e era isso – e o fato de estar desidratado e de não se alimentar bem havia dias – que o fazia pensar que estivesse delirando. Há algum tempo começou a ouvir vozes nas árvores que o cercavam; vozes que sussurravam, falavam e riam dele. Parte de sua mente dizia que era só o som do vento nas folhas, mas outra parte queria gritar em resposta a elas e ordenar que se calassem. E talvez, depois, atirar nelas, caso não obedecessem.
Já vira animais que o fizeram pensar que estava maluco. Talvez fossem reais; talvez fossem alucinações. Vira macacos com enormes narizes inchados; sapos do tamanho de seu polegar e de um tom laranja vibrante, vermelhos ou azuis; um elefante adulto totalmente desenvolvido cuja estatura não ultrapassava seu ombro e um animal que parecia um porco, com pelos escuros e um focinho longo, pontudo e flexível. Quantos deles eram reais e quantos eram produtos de seu cérebro febril?
A seu lado, Will Gimson parou e curvou-se, e com as mãos nos joelhos tentava sorver o ar úmido com avidez.
— Preciso parar por um tempinho — ele disse, ofegante. — Mal consigo me mexer.
Hillager aproveitou a oportunidade para enxugar a testa com um lenço que devia estar mais molhado que seu rosto. Talvez estivesse delirando por causa de algum tipo de febre tropical. As florestas de Bornéu eram cheias de doenças estranhas. Ouvira falar de homens que tinham sido encontrados depois de semanas de desaparecimento com o rosto coberto de pústulas ou com a pele literalmente soltando dos ossos.
Ele olhou em volta, nervoso. Até as árvores pareciam zombar de sua situação. Os troncos eram antigos, retorcidos e irregulares, e plantas menores e trepadeiras brotavam deles como parasitas. As folhas cresciam tão próximas umas das outras que ele não conseguia ver o céu, e a única luz que penetrava por entre elas era esverdeada e difusa.
Apesar do calor, ele sentiu um arrepio. Não estaria naquele lugar horrível se não temesse ainda mais seu patrão.
— Vamos encerrar o expediente — ele sugeriu. Realmente não queria passar nem mais um segundo naquela floresta. Queria apenas voltar ao porto, embarcar os animais que já tinham capturado e voltar para a civilização. — Não está aqui. Já pegamos animais suficientes para deixá-lo satisfeito. Deixe esse para lá. Ele nem vai notar.
— Ah, vai notar, sim — Gimson respondeu com seriedade. — É o que ele mais quer.
Hillager preparava-se para argumentar quando Gimson acrescentou:
— Espere! Acho que estou vendo um!
Hillager aproximou-se do colega. O homem ainda estava curvado, mas agora olhava para a base de uma das árvores.
— Veja — ele disse, apontando.
Hillager olhou para onde o dedo de Gimson apontava. Ali, em uma poça d’água entre duas raízes, havia o que parecia ser um vermelho e brilhante coágulo de sangue do tamanho de sua mão. Ele brilhava à fraca luz do sol.
— Tem certeza? — ele perguntou.
— É como Duke disse que pareceria. Exatamente como ele disse que pareceria.
— Então, o que vamos fazer?
Em vez de responder, Gimson estendeu o braço e pegou a coisa entre o polegar e o indicador. Tentou levantá-la, mas ela caiu, molenga. Hillager observava, fascinado.
— Sim — disse Gimson, virando e examinando a estranha coisa com atenção. — Veja, aqui está a boca, ou o sugador, ou como quiser chamar. Três dentes em torno da abertura. E a outra extremidade também tem uma ventosa. É assim que a coisa se segura... prendendo-se pelas duas pontas.
— E suga seu sangue — Hillager acrescentou, sombrio.
— E suga o sangue de qualquer coisa que passe bastante devagar para que o parasita se grude a ela — Gimson explicou. — Aqueles pequenos elefantes, aquele bicho que parece uma anta, com o focinho pontudo, qualquer coisa.
A sanguessuga mudava de forma diante de seus olhos, tornando-se mais fina e longa. Quando Gimson a pegara, ela era quase circular, mas agora se parecia mais com uma minhoca grossa. Seus dedos ainda estavam segurando o parasita por um terço do corpo, abaixo da cabeça – caso a ponta com a boca pudesse, de fato, ser chamada de cabeça.
— O que ele faz com essas coisas? — Hillager perguntou. — Por que envia pessoas até aqui para capturá-las?
— Ele afirma que ouve essas coisas o chamando — Gimson respondeu. — E quanto ao que faz com elas quando as recebe... você não vai querer saber. — O homem debruçou-se um pouco mais sobre a criatura, estudando-a com cuidado. A sanguessuga ondulou às cegas em sua direção, consciente, de alguma maneira, da existência de sangue quente na vizinhança. — Esta aqui não se alimenta há algum tempo.
— Como sabe?
— Está procurando alguma coisa a que se prender.
— Devemos deixá-la? — Hillager especulou. — E procurar por outra amanhã? — Esperava que Gimson dissesse não, porque realmente não queria mesmo passar mais tempo naquela floresta.
— Esta é a primeira que vemos em uma semana — Gimson retrucou. — E pode demorar ainda mais até vermos outra. Não, temos que levar esta mesmo. Precisamos levá-la conosco.
— Vai sobreviver à viagem?
Gimson deu de ombros.
— Provavelmente... Se a alimentarmos antes de partimos.
— Muito bem. — Hillager olhou em volta. — O que sugere? Um macaco? Uma daquelas coisas parecidas com porcos?
Gimson não disse nada.
Hillager virou-se e viu Gimson olhando fixamente para ele com uma expressão estranha. Em parte era piedade, mas a emoção predominante era desgosto.
— Eu sugiro — Gimson falou — que você arregace a manga da sua camisa.
— Você está maluco? — retrucou Hillager.
— Não, eu sou guia e rastreador — ele explicou. — Que papel você pensou que teria nesta expedição, exatamente? Agora, levante a manga. Este horror precisa de sangue, e tem que ser agora.
Lentamente, sabendo qual seria a reação de Duke se soubesse que ele havia deixado a sanguessuga morrer em vez de alimentá-la, Hillager começou a dobrar a manga da roupa.

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Boa leitura :)