16 de julho de 2017

Prólogo

NA PRIMEIRA VEZ QUE MATTHEW Arnatt viu a nuvem da morte, ela flutuava para fora da janela do primeiro andar de uma casa perto de onde ele vivia.
O garoto caminhava apressadamente pela High Street, na cidade mercantil de Farnham, à procura de frutas ou de cascas de pão que algum transeunte descuidado pudesse ter deixado cair. Seus olhos deveriam estar atentos ao chão, mas ele olhava para cima, para as casas, para as lojas e a multidão ao redor. Tinha apenas catorze anos e, pelo que podia lembrar, nunca estivera em uma cidade daquele tamanho antes. Ali, na parte mais próspera de Farnham, os edifícios mais antigos, construídos com vigas de madeira, debruçavam-se sobre a rua, e seus aposentos mais altos se assemelhavam a nuvens densas pairando sobre todos.
A rua tinha um trecho pavimentado com pedras arredondadas e lisas, do tamanho de um punho fechado, mas pouco adiante elas eram substituídas por terra batida, da qual se erguiam nuvens de poeira quando cavalos e carroças passavam com estrépito. Separadas por alguns metros, pilhas de excremento de cavalo pontilhavam o caminho: algumas recentes e fumegantes, cercadas por moscas; outras, secas e velhas, como fibras de feno ou grama que, postas juntas, tivessem ficado ali, amassadas.
Matthew sentia o cheiro de esterco fumegante e putrefato, mas também o aroma de pão quente e do que poderia ser um porco assando em fogo alto. Quase podia ver a gordura pingando da carne e queimando nas chamas. A fome oprimia-lhe o estômago, e ele quase se dobrou de tanta dor. Já se haviam passado alguns dias desde que comera uma refeição decente. Ele não sabia quanto tempo mais poderia aguentar.
Um dos transeuntes, um homem gordo com um chapéu-coco marrom e um terno escuro que aparentava ter bastante tempo de uso, parou e estendeu a mão para Matthew como se quisesse ajudá-lo. Matthew se afastou. Não queria caridade. Caridade levava uma criança sem família ao abrigo público ou à igreja, e ele não queria percorrer o caminho que conduzia para nenhum dos dois destinos. Estava se saindo bem sozinho. Tudo o que precisava fazer era conseguir um pouco de comida. Quando tivesse alguma coisa no estômago, ficaria bem.
Ele esgueirou-se por um beco antes que o homem pudesse segurá-lo pelo ombro; depois virou em uma esquina e seguiu por uma rua tão estreita, que os andares superiores das casas que ficavam de um lado quase encostavam nos das casas do lado oposto. Uma pessoa poderia passar diretamente de um quarto a outro, que ficasse na casa da calçada em frente, se estivesse disposta a fazer isso.
Foi quando viu a nuvem da morte. Não que ele soubesse o que era, naquele momento. Isso aconteceria mais tarde. Não, tudo o que viu foi uma mancha escura do tamanho de um cachorro grande, que parecia escapar como fumaça por uma janela aberta. Mas uma fumaça que se movia por vontade própria: parou por um momento, depois fluiu lateralmente para uma calha, e então fez uma curva e subiu, deslizando para o telhado. Esquecendo a fome, ele observou boquiaberto enquanto a nuvem flutuava sobre os telhados dos edifícios e desaparecia.
Um grito agudo rompeu o silêncio, um grito que veio da janela aberta, e Matthew se virou e voltou pela rua tão depressa quanto suas pernas malnutridas podiam levá-lo. As pessoas não gritavam daquele jeito quando se surpreendiam. Não gritavam daquele jeito nem mesmo quando sofriam um choque. Não, Matthew sabia que um ser humano só gritava dessa maneira se temesse pela própria vida, e o que quer que tivesse provocado aquele grito não era algo que ele desejasse ver.

3 comentários:

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Boa leitura :)