1 de julho de 2017

O quarto branco

LI MUITO MAIS LIVROS QUE VOCÊ. Não importa quantos você já tenha lido. Eu li mais. Tive tempo para isso.
No meu quarto branco, encostadas nas minhas paredes brancas, nas minhas prateleiras brancas reluzentes, as lombadas dos livros são a única cor. Os livros são todos de capa dura e novos em folha. Nada de capas moles de segunda mão cheias de germes para mim. Eles vêm de Lá de Fora, são descontaminados e selados a vácuo. Eu queria ver a máquina que faz isso. Imagino cada um dos livros viajando sobre uma esteira em direção a estações brancas onde braços brancos e robóticos espanam o pó, limpam, jogam um spray e os esterilizam de todas as formas até que possam ser considerados limpos o suficiente para chegar até mim. Quando um novo livro chega, minha primeira tarefa é remover o plástico, um processo que envolve uma tesoura e uma ou duas unhas quebradas. A segunda tarefa é escrever meu nome dentro da primeira capa.

PROPRIEDADE DE: Madeline Whittier

Não sei por que faço isso. Não tem mais ninguém aqui além da minha mãe, que nunca lê nada, e a minha enfermeira, Carla, que não tem tempo para ler porque passa o tempo todo me observando enquanto respiro. Raramente recebo visitas, de modo que não há ninguém que possa pegar os meus livros emprestados. Ninguém que precise ser lembrado de que aquele livro esquecido em sua prateleira me pertence.

RECOMPENSA SE ENCONTRADO (Confira se as regras se aplicam):

Esta é a seção que me toma mais tempo e eu vario de acordo com cada livro. Às vezes, as recompensas são requintadas:

Piquenique comigo (Madeline) em um campo cheio de pólen vindo de papoulas, lírios e um sem-fim de cravos sob um céu azul.
Chá comigo (Madeline) em um farol no meio do Oceano Atlântico no olho de um furacão.
Mergulho com snorkel comigo (Madeline) na ilha de Molokini, para observar o peixe oficial do Havaí — o Humuhumunukunukuapua’a.


Outras vezes, as recompensas não são tão requintadas:

Uma visita comigo (Madeline) a um sebo.
Uma volta pelo quarteirão comigo (Madeline).
Um bate-papo rápido comigo (Madeline) para discutir qualquer coisa que você queira, no meu sofá branco, no meu quarto branco.

Outras vezes, a recompensa é apenas:

Eu (Madeline).


LIMBO DA IDCG
MINHA DOENÇA É TÃO RARA quanto famosa. É um tipo de Imunodeficiência Combinada Grave, mas você a conhece como “doença da criança na bolha”.
Basicamente, sou alérgica ao mundo. Qualquer coisa pode deflagrar um ataque de doenças. Pode ser algum produto químico no líquido usado para limpar uma mesa que eu acabei de tocar. Pode ser o perfume de alguém. Pode ser o tempero exótico de algo que eu comi. Pode ser uma dessas coisas, ou todas elas, ou nenhuma, ou alguma outra completamente diferente. Ninguém sabe o que dá início ao processo, mas todos conhecem as consequências. De acordo com a minha mãe, eu quase morri quando era criança. E assim eu fiquei no limbo da IDCG. Eu não saio de casa, nunca saí de casa em dezessete anos.






DESEJO D NIVER
— NOITE DE CINEMA, Imagem & Ação em Nome do Outro ou clube do livro? — minha mãe pergunta enquanto infla o manguito do medidor de pressão ao redor de um dos meus braços. Ela não mencionou nossa atividade favorita pós-jantar: palavras-cruzadas fonéticas. Olho para cima para ver que os olhos dela já sorriem na minha direção.
— Fonética — digo.
Ela para de inflar o manguito. Em geral, Carla, minha enfermeira em tempo integral, auferiria a minha pressão e preencheria o meu registro de saúde diário, mas minha mãe lhe deu o dia de folga. É meu aniversário e sempre passamos o dia juntas, só nós duas.
Ela coloca o estetoscópio nos ouvidos para que possa ouvir meus batimentos cardíacos. O sorriso murcha e é substituído por uma expressão mais séria de médica. Essa é a cara que os pacientes dela costumam ver — levemente distante, profissional e preocupada. Fico me perguntando se eles consideram isso reconfortante.
Em um impulso, dou-lhe um beijo rápido na testa para lembrá-la de que sou apenas eu, sua paciente preferida, sua filha.
Ela abre os olhos, sorri e acaricia uma das minhas bochechas. Tenho a impressão de que, se você vai nascer com uma doença que requer cuidados constantes, então é bom que a sua mãe seja também a sua médica.
Após alguns segundos, ela me lança seu melhor olhar do tipo eu-sou-a-médica-e-temo-ter-más-notícias-para-você.
— Este é o seu grande dia. Por que não jogamos alguma coisa na qual você tenha uma chance real de ganhar? Imagem & Ação em Nome do Outro?
Já que o Imagem & Ação normal não pode ser jogado só por duas pessoas, inventamos o Imagem & Ação em Nome do Outro. Uma pessoa desenha e a outra, em seu nome, dá o seu melhor palpite. Se a resposta estiver certa, a outra pessoa marca o ponto.
Estreito os olhos na direção dela.
— Estávamos jogando Fonética e eu estava ganhando — digo toda confiante, apesar de eu não ter a menor chance de vencer. Em todos os anos que passamos jogando Palavras Cruzadas Fonéticas, nunca venci a minha mãe. Na última partida, cheguei perto, mas ela me detonou bem na palavra final, que valia três vezes mais pontos.
— Tudo bem. — Ela balança a cabeça fingindo tristeza. — O que você quiser. — Ela fecha os olhos sorridentes para ouvir o estetoscópio.
Passamos o resto da manhã preparando meu tradicional bolo de aniversário de baunilha com glacê do mesmo sabor. Depois que o bolo esfria, passo sobre ele uma fina e insensata camada de cobertura, apenas o suficiente para cobrir toda a superfície. Nós duas somos pessoas que amam o bolo em si, não a cobertura. Como decoração, desenho com o glacê dezoito margaridas com pétalas e miolos brancos. Nos lados, faço uma espécie de cortina drapeada.
— Perfeito. — Minha mãe espia sobre os meus ombros enquanto termino. — Exatamente como você.
Eu me viro para ela. Ela sorri para mim de orelha a orelha, orgulhosa, porém seus olhos brilham por causa das lágrimas.
— Você. É. Trágica — digo, sujando o nariz dela com um pouco de glacê, o que faz com que ela ria e chore um pouco mais. Sério, ela não costuma ser assim tão emotiva, mas alguma coisa com o meu aniversário sempre faz com que fiquemos chorosas e alegres ao mesmo tempo. E se ela fica chorosa e alegre, eu fico chorosa e alegre também.
— Eu sei — diz ela, jogando as mãos para o ar, impotente. — Sou totalmente patética. — Ela me puxa para um abraço e me aperta, sujando meu cabelo de glacê.
O meu aniversário é o dia do ano em que mais nos damos conta da minha doença. É a noção da passagem do tempo que faz com que nos sintamos assim. Outro ano inteirinho de doença, sem nenhuma esperança de cura no horizonte. Outro ano sentindo falta de todas as coisas que são normais na vida de qualquer adolescente: a carteira de motorista provisória, o primeiro beijo, o baile de formatura, o primeiro coração partido, os percalços de aprender a dirigir. Outro ano em que a minha mãe não faz nada além de trabalhar e cuidar de mim. Em qualquer outro dia, essas ausências são fáceis, pelo menos um pouco mais fáceis, de serem ignoradas.
Este ano está um pouco mais difícil que o anterior. Talvez seja porque eu tenha dezoito anos agora.
Tecnicamente, sou uma pessoa adulta. Eu deveria estar saindo de casa, indo para a universidade. Minha mãe deveria estar penando com a síndrome do ninho vazio. Só que, por causa da IDCG, eu não vou a lugar nenhum.
Mais tarde, depois do jantar, ela me dá um belo estojo de lápis aquareláveis que estava há meses na minha lista de pedidos. Vamos até a sala e sentamos com as pernas cruzadas diante da mesa de centro. Isso também faz parte do nosso ritual de aniversário: ela acende uma única vela no meio do bolo. Fecho os olhos e faço um pedido. Sopro a chama.
— O que você pediu? — ela pergunta tão logo abro os olhos.
Na verdade, há apenas uma única coisa que eu desejo: uma cura mágica que me permita sair correndo, livre, por aí, como um animal selvagem, mas nunca fiz esse pedido porque sei que é impossível. Seria como desejar que as sereias, os dragões e os unicórnios fossem reais. Em vez disso, peço algo mais provável que uma cura. Algo que provavelmente não vai nos deixar tão tristes.
— A paz mundial — respondo.
Três pedaços de bolo depois, começamos o nosso jogo da Fonética. Eu não venço. Não chego nem perto.
Ela usa todas as sete letras e baixa POKALIP ao lado de um S. POKALIPS.
— O que é isso? — pergunto.
— Apocalipse. — Os olhos dela dançam.
— Não, mãe, sem chance. Não posso deixar você levar essa.
— Pode, sim. — Isso é tudo que ela diz.
— Mãe, você precisa de mais um A. Sem chance.
— Pocalips — ela fala para criar um efeito, gesticulando as letras. É claro que serve.
Balanço a cabeça.
— P O K A L I P S — ela insiste devagar, pronunciando cada uma das sílabas.
— Ah, meu Deus, você não tem jeito. — Jogo as mãos para cima. — Tudo bem. Tudo bem. Eu deixo.
Yessss. — Ela soca o ar, solta uma gargalhada para mim e marca o seu agora insuperável placar. — Na verdade, você nunca entendeu este jogo. É uma disputa de persuasão.
Corto outro pedaço de bolo para mim.
— Isso não é persuasão. É trapaça.
— É a mesma coisa — ela insiste e nós duas caímos na gargalhada.
— Amanhã você pode me vencer no Imagem & Ação em Nome do Outro — ela promete.
Depois da minha derrota, vamos para o sofá e assistimos ao meu filme preferido, O Jovem Frankenstein. Vê-lo também faz parte do nosso ritual de aniversário. Coloco a cabeça no colo da minha mãe, ela me faz cafuné e rimos das mesmas piadas do mesmo jeito que fazemos há anos. No fim das contas, não é uma maneira assim tão ruim de passar o seu aniversário de dezoito anos.


CONTINUA O MESMO
NA MANHÃ SEGUINTE, estou lendo no meu sofá branco quando a Carla entra.
Feliz cumpleaños — ela anuncia.
Baixo o livro.
Gracias.
Como foi de aniversário? — Ela começa a tirar coisas de dentro de sua maleta de enfermeira.
— Nós nos divertimos.
— Bolo de baunilha com glacê do mesmo sabor? — pergunta.
— É claro.
O Jovem Frankenstein?
— Sim.
— E você perdeu naquele jogo? — pergunta.
— Nós somos bem previsíveis, não é?
— Não ligue para mim — diz ela, gargalhando. — Só estou com inveja de como você e a sua mãe são fofas.
Ela pega o meu registro de saúde de ontem, dá uma lida nas medições realizadas pela minha mãe e acrescenta uma nova folha de papel à prancheta.
— A Rosa mal tem falado comigo ultimamente.
Rosa é a filha de dezessete anos da Carla. De acordo com a minha enfermeira, elas eram muito próximas até os hormônios e os meninos tomarem conta da vida da Rosa. Não consigo imaginar uma coisa dessas acontecendo comigo e com a minha mãe.
Carla se senta ao meu lado no sofá e pega a minha mão para colocar o manguito do medidor de pressão. Os olhos dela miram o meu livro.
Flores para Algernon de novo? — ela pergunta. — Não é esse aquele livro que sempre a faz chorar?
— Um dia ele não vai mais causar isso — digo. — E quero garantir que eu ainda estarei lendo-o quando acontecer.
Ela revira os olhos na minha direção e pega a minha mão.
Isso foi um sinal de desaprovação, mas então me pergunto se ela não está certa.
Talvez eu esteja mantendo a esperança de que um dia, algum dia, as coisas mudem.


A VIDA É CURTA®
Resenhas com spoilers por Madeline
FLORES PARA ALGERNON, DE DANIEL KEYES
Alerta de spoiler: Algernon é um rato. O rato morre.


INVASÃO ALIENÍGENA, PARTE 2
ESTOU NA PARTE EM QUE Charlie percebe que o destino do rato pode ser o mesmo dele quando ouço um barulho alto, retumbante, do lado de fora. De imediato, minha cabeça vai para o espaço sideral. Imagino uma nave-mãe gigante pairando no céu acima de nossas cabeças.
A casa treme e os meus livros vibram nas prateleiras. Um bipe constante se junta ao estrondo e logo sei o que é. Um caminhão. Provavelmente está apenas perdido, eu digo a mim mesma, para afastar o desapontamento. É capaz que tenha virado na rua errada em seu caminho para algum outro lugar.
Mas o motor é desligado. As portas são abertas e fechadas novamente. Um momento se passa e depois outro, até que uma voz de mulher grita:
— Bem-vindos à nossa nova casa, pessoal!
Carla olha fixamente para mim por alguns segundos. Sei o que ela está pensando.
Está acontecendo de novo.


DIÁRIO DE MADELINE
5 de agosto
A família da casa ao lado se mudou. O garoto chorou. Ele se escondeu no jardim e comeu terra até que a mãe dele o encontrou, mas não gritou com ele por comer aquilo, como ela geralmente faz.
Está tudo em silêncio do lado de fora agora.
Na noite passada, sonhei que na verdade eles não tinham se mudado, mas sido sequestrados por alienígenas. Os alienígenas não me levaram porque eu sou doente e eles só queriam pessoas saudáveis. Eles levaram a minha mãe e a Carla e ainda a família da casa ao lado. E então eu fiquei completamente sozinha.
Acordei chorando e a minha mãe veio e ficou na cama comigo. Não contei a ela sobre o meu sonho porque isso ia deixá-la triste, mas contei para a Carla e ela me deu um abraço.


O COMITÊ DE BOAS-VINDAS
— CARLA — DIGO —, não vai ser como da última vez. — Eu não tenho mais oito anos.
— Quero que você prometa... — ela começa, mas eu já estou na janela, abrindo as cortinas.
Não estou preparada para o sol brilhante da Califórnia. Não estou preparada para a visão dele, alto, escaldante e branco contra o céu branco-lavado. Estou cega. Mas então a névoa clara que encobre a minha visão começa a se dissipar. Tudo está coberto por um halo.
Vejo o caminhão e a silhueta de uma mulher mais velha rodopiando: a mãe. Vejo um homem mais velho na parte de trás do caminhão: o pai. Vejo uma garota talvez um pouco mais nova que eu: a filha.
E então eu o vejo. Alto, esguio, todo vestido de preto: camiseta preta, jeans preto, tênis preto e um gorro preto de tricô que cobre completamente seu cabelo. Ele é branco com um leve bronzeado da cor do mel e seu rosto é profundamente anguloso. Ele salta de seu poleiro nos fundos do caminhão e desliza pela rua, movendo-se como se a gravidade o afetasse de forma diferente do resto de nós. Ele para, inclina a cabeça para um dos lados e encara a nova casa como se fosse um quebra-cabeça. Depois de alguns segundos, ele começa a elevar os tornozelos. De repente, dispara e corre literalmente dois metros pela parede da frente da casa. Ele agarra um dos parapeitos e fica ali pendurado por um segundo ou dois até voltar para o chão com um agachamento.
— Muito bem, Olly — diz a mãe.
— Você não mandou ele parar com essa coisa? — rosna o pai.
Ele ignora os dois e se mantém agachado.
Pressiono uma das palmas das mãos aberta contra o vidro, sem ar, como se eu mesma houvesse feito aquela maluquice. Meus olhos oscilam entre o garoto, o parapeito e o garoto novamente. Ele não está mais agachado. Está me encarando. Nossos olhos se encontram. Imagino vagamente o que ele vê na minha janela: uma garota esquisita com olhos arregalados que o observa. Ele sorri para mim e o rosto dele não está mais rígido, nem severo. Tento sorrir de volta, mas fico tão confusa que acabo franzindo a testa.


MEU BALÃO BRANCO
NAQUELA NOITE, sonho que a casa respira comigo. Eu exalo e as paredes se contraem como um balão furado, me esmagando quando desinfla. Eu inspiro e as paredes se expandem. Mais uma única respiração e minha vida por fim, finalmente, irá pelos ares.


VIGÍLIA DA VIZINHANÇA
A rotina da mãe dele
6:35 — Vai até a varanda segurando uma caneca com alguma coisa quente, fumegante. Café?
6:36 — Observa o terreno vazio do outro lado da rua enquanto beberica de sua caneca. Chá?
7:00 — Entra novamente na casa.
7:15 — De volta à varanda. Despede-se do marido com um beijo. Observa o carro dele desaparecer na rua.
9:30 — Jardim. Procura, encontra e descarta guimbas de cigarro.
13:00 — Deixa a casa de carro. Vai fazer alguma tarefa na rua?
17:00 — Implora para que Kara e Olly façam suas tarefas domésticas “antes que o seu pai chegue em casa”.

A rotina da Kara (irmã):
10:00 — Vai até o lado de fora com passadas barulhentas usando botas pretas e um roupão de banho marrom felpudo.
10:01 — Checa as mensagens no celular. Ela recebe um monte de mensagens.
10:06 — Fuma três cigarros no jardim entre nossas casas.
10:20 — Abre um buraco com as pontas das botas e enterra as guimbas dos cigarros.
10:25 — 17:00 — Envia mensagens e fala ao telefone.
17:25 — Tarefas domésticas.

A rotina do pai dele
7:15 — Sai para o trabalho.
18:00 — Volta do trabalho.
18:20 — Senta na varanda com o drinque #1.
18:30 — Entra novamente em casa para jantar.
19:00 — De novo na varanda com o drinque #2.
19:25 — Drinque #3.
19:45 — Começa a berrar com a família.
22:35 — Os berros com a família se tornam mais escassos.

A rotina do Olly
Imprevisível.


EU, ESPIÃ
A FAMÍLIA DELE O CHAMA de Olly. Bem, a irmã e a mãe o chamam de Olly. O pai o chama de Oliver. Ele é quem mais observo. O quarto dele fica no segundo andar, quase na frente do meu, e as cortinas estão sempre abertas.
Em algumas manhãs, ele dorme até meio-dia. Em outras, ele sai do quarto antes de eu começar minha observação. Na maior parte das manhãs, ele acorda às nove horas e escala a parede do quarto, no melhor estilo Homem-Aranha, até o telhado usando as quinas como apoio. Ele fica cerca de uma hora lá em cima antes de se dependurar, passando primeiro as pernas, e voltar para o quarto. Não importa o quanto eu tente, não consegui ver o que ele faz lá em cima.
O quarto dele só não está vazio porque tem uma cama e uma cômoda. Algumas caixas da mudança permanecem fechadas e empilhadas perto da porta. Não há nenhuma decoração além do pôster de um filme chamado Jump London. Dei uma pesquisada e soube que é um documentário sobre parkour, que é um tipo de ginástica de rua, o que explica como ele é capaz de fazer todas essas coisas doidas.
Quanto mais assisto, mais eu quero saber.


MENTEUSE
ACABEI DE ME SENTAR À mesa para jantar. Minha mãe coloca um guardanapo de tecido no meu colo e enche o meu copo e o da Carla. Os jantares de sexta são especiais na minha casa. Carla fica até mais tarde para comer conosco em vez de fazer isso com sua própria família.
Tudo no Jantar de Sexta é francês. Os guardanapos são de tecido branco bordados com flores-delis nos cantos. O faqueiro é antigo, francês e ornamentado. Temos uma miniatura de prata de La Tour Eiffel, saleiros e pimenteiros. É claro que temos de ser cuidadosas com o menu por causa das minhas alergias, mas minha mãe sempre prepara sua própria versão de cassoulet — um ensopado francês com galinha, salsichas, pato e feijão branco. Era o prato preferido do meu pai antes de ele morrer. A versão que minha mãe faz para mim contém apenas feijões brancos cozidos em caldo de galinha.
— Madeline — minha mãe começa. — O sr. Waterman me contou que você está atrasada no seu trabalho de arquitetura. Está tudo bem com você, garotinha?
Fico surpresa com a pergunta. Sei que estou atrasada, mas, como isso nunca aconteceu antes, eu não havia me dado conta de que minha mãe estava acompanhando o meu desempenho.
— O trabalho é muito difícil? — Ela franze a testa enquanto coloca uma concha de cassoulet na minha tigela. — Você quer que eu arranje outro tutor?
Oui, non, et non — respondo a cada uma das perguntas. — Está tudo bem. Vou entregar o trabalho amanhã, prometo. Só perdi a noção do tempo.
Ela faz que sim com a cabeça e começa a cortar e passar manteiga em pedaços de um pão francês cascudo para mim. Sei que ela quer perguntar mais alguma coisa. Até sei o que ela quer perguntar, mas está com medo da resposta.
— São os novos vizinhos?
Carla me lança um olhar penetrante. Nunca menti para a minha mãe. Jamais tive necessidade de fazer isso e não acho que eu saiba como fazê-lo. Mas alguma coisa me diz que é exatamente isso o que eu devo fazer.
— Só ando lendo demais. Você sabe como eu fico quando estou lendo um bom livro. — Faço um esforço para que minha voz soe o mais convincente possível. Não quero que ela se preocupe. Ela já tem muito com o que se preocupar comigo do jeito que as coisas já estão.
Como se diz “mentirosa” em francês?
— Sem fome? — pergunta minha mãe alguns minutos depois. Ela pressiona as costas das mãos contra a minha testa. — Você não está com febre. — Ela deixa a mão ali parada por mais um momento.
Estou prestes a inventar alguma outra desculpa quando a campainha toca. Isso acontece tão raramente que eu nem sei como reagir.
A campainha toca de novo.
Minha mãe meio que se levanta.
Carla se ergue da cadeira.
A campainha toca pela terceira vez e eu sorrio sem motivo.
— Quer que eu atenda, senhora? — Carla se oferece.
Minha mãe faz um gesto dispensando sua gentileza.
— Fique aqui — minha mãe diz para mim.
A Carla vai para trás de mim, as mãos dela pressionam levemente meus ombros. Sei que eu devia ficar aqui. Sei que esperam que eu faça isso. Com toda a certeza, eu também esperava que essa fosse a minha reação, mas, de alguma forma, hoje, eu simplesmente não consigo fazer isso. Preciso saber quem é, mesmo que seja apenas algum pedinte.
Carla toca a parte de cima do meu braço.
— Sua mãe disse para ficar aqui.
— Mas por quê? Ela está simplesmente sendo cautelosa demais. De qualquer forma, ela não deixa ninguém passar do purificador de ar.
Carla cede e sigo pelo corredor com ela atrás de mim.
O purificador é uma pequena sala lacrada em volta da porta da frente. Ela é vedada de modo que as ameaças em potencial não possam entrar na casa quando a porta da frente é aberta. Pressiono a orelha contra a parede. No início, não ouço nada além dos filtros de ar, mas então escuto uma voz.
— Minha mãe mandou um bundt. — A voz é profunda, macia e parece estar definitivamente se divertindo. Meu cérebro está processando a palavra bundt, tentando criar uma imagem da aparência dessa coisa antes de me dar conta que a pessoa que está na nossa porta é Olly.


— A questão é que os bundts da minha mãe não são muito bons. Eles são terríveis. Na verdade, são intragáveis, eles são quase indestrutíveis. Que isso fique apenas entre nós.
Uma nova voz agora. De uma garota. Seria a irmã dele?
— Toda vez que a gente se muda ela nos faz levar um desses para os vizinhos.
— Oh. Bem, isso é uma surpresa, não? É muito bacana da parte dela. Por favor, digam à mãe de vocês que eu agradeço muito.
Não há a menor possibilidade de aquele bolo bundt passar pelas inspeções adequadas e posso sentir minha mãe tentando descobrir como lhes dizer que ela não pode aceitar o bolo sem contar a verdade sobre mim.
— Desculpem, mas não posso aceitar.
Há um momento de silêncio chocado.
— Então você quer que a gente leve o bolo de volta? — diz Olly, incrédulo.
— Bem, isso é indelicado — Kara comenta. Ela soa irritada e resignada, como sentisse um certo desapontamento.
— Desculpe, de verdade — diz minha mãe. — É complicado. Sinto muito mesmo, porque isso é muito legal da parte de vocês e da sua mãe. Por favor, agradeçam a ela por mim.
— A sua filha está em casa? — Olly pergunta quase gritando antes que minha mãe possa fechar a porta. — A gente esperava que ela pudesse mostrar a vizinhança para a gente.
Meu coração se acelera e posso sentir minha pulsação contra as costelas. Ele acabou mesmo de perguntar por mim? Nenhum estranho jamais veio me visitar antes. Além da minha mãe, da Carla e dos meus tutores, o mundo pouco sabe que eu existo. Quero dizer, eu existo on-line. Tenho amigos virtuais e um Tumblr de resenhas de livros, mas não é a mesma coisa que ser uma pessoa real que pode ser visitada por garotos estranhos segurando bolos bundt.
— Sinto muito mesmo, mas ela não pode. Bem-vindos à vizinhança e obrigada mais uma vez.
A porta da frente se abre e dou um passo para trás para esperar pela minha mãe. Ela precisa permanecer no purificador de ar até que os filtros tenham a chance de limpar o ar externo. Um minuto depois, ela entra na casa, e não me nota de imediato. Em vez disso, fica ali de pé, parada, com os olhos fechados e a cabeça levemente abaixada.
— Sinto muito — diz ela sem olhar para cima.
— Estou bem, mãe. Não se preocupe.
Pela milésima vez percebi quão difícil minha doença é para ela. Esse é o único mundo que eu conheço, mas antes de mim ela teve o meu irmão e o meu pai. Ela viajava e jogava futebol. Ela tinha uma vida normal que não incluía ficar enclausurada em uma bolha catorze horas por dia com sua filha adolescente doente.
Eu a abraço e deixo que ela me abrace por mais alguns minutos. Essa decepção está sendo muito mais difícil para ela do que para mim.
— Eu vou pensar em alguma coisa — ela diz.
— Não há nada para se pensar.
— Amo você, docinho.
Entramos de novo na sala de jantar e terminamos de comer depressa e, durante a maior parte do tempo, em silêncio. Carla vai embora e a minha mãe me pergunta se quero vencê-la em uma partida de Imagem & Ação em Nome do Outro, mas peço para deixarmos para a próxima. Eu não estou muito no clima.
Em vez disso, vou para o andar de cima imaginando qual deve ser o gosto de um bolo bundt.


PIÈCE DE REJECTION
DE VOLTA AO MEU QUARTO, vou imediatamente para a janela. O pai voltou do trabalho e alguma coisa está errada porque ele está irritado e a cada segundo irrita-se ainda mais. Ele pega o bolo bundt das mãos de Kara e joga com toda a força em cima do Olly, só que Olly é muito rápido, muito gracioso. Ele desvia e o bolo cai no chão.
Incrivelmente o bundt permanece intacto, mas o prato se estilhaça no meio da rua. Isso apenas deixa o pai com mais raiva.
— Você vai limpar essa bagunça. Você vai limpar isso agora. — Ele entra na casa batendo a porta.
A mãe vai atrás dele. Kara balança a cabeça para Olly e diz alguma coisa que faz com que ele dê de ombros. Olly fica lá em pé olhando para o bolo por alguns minutos. Ele desaparece dentro da casa e volta com uma vassoura e uma pá de lixo. Ele não tem pressa, leva mais tempo do que o necessário, varrendo os cacos.
Quando ele termina, escala a casa até o telhado, levando o bundt, e depois de uma hora ele se pendura no parapeito e escapole para o quarto.
Estou escondida no meu lugar de sempre atrás da cortina quando de repente eu não quero mais me esconder. Acendo as luzes e volto para a janela. Nem mesmo me dou ao trabalho de respirar fundo. Não vai ajudar. Abro as cortinas para ver que Olly já está na janela do quarto dele, olhando diretamente para mim. Ele não sorri. Não acena. Em vez disso, ergue um dos braços e fecha a persiana.


SOBREVIVÊNCIA
— POR QUANTO TEMPO VOCÊ vai ficar assim deprimida pela casa? — Carla pergunta. — Você já está assim há uma semana.
— Não estou deprimida — retruco, apesar de estar mesmo um pouco deprimida. A rejeição do Olly me fez sentir como uma garotinha novamente. Fez com que eu me lembrasse por que parei de prestar atenção no mundo antes.
Porém, tentar voltar à rotina normal é difícil quando eu ouço todos os sons do mundo exterior. Percebo coisas nas quais eu prestava menos atenção antes. Ouço os pássaros fofocando pela manhã. Vejo os retângulos de luz do sol que deslizam pelas persianas e abrem caminho pelo quarto ao longo do dia. Dá para marcar o tempo só por meio deles. Quanto mais eu tento deixar o mundo do lado de fora, ele parece cada vez mais determinado a entrar.
— Você está lendo as mesmas cinco páginas daquele livro há dias. — Ela balança a cabeça na direção do meu exemplar de O senhor das moscas.
Bem, esse livro é terrível.
— Pensei que fosse um clássico.
— É terrível. A maioria dos garotos são horríveis e todos eles falam sobre caçar e matar porcos. Nunca senti tanta vontade de comer bacon na minha vida.
Carla solta uma gargalhada, que soa no máximo desanimada. Ela se senta no sofá ao meu lado e coloca as minhas pernas no seu colo.
— Diga-me — ela começa.
Abaixo o livro e fecho os olhos.
— Eu só queria que eles fossem embora — confesso. — Era mais fácil antes.
— O que era mais fácil?
— Eu não sei. Ser eu. Ser doente.
Ela aperta a minha perna.
— Agora você me escuta. Você é a pessoa mais forte e corajosa que eu conheço. É melhor você acreditar nisso.
— Carla, você não tem que...
— Shhh, me escuta. Andei pensando nisso. Eu vi que essa coisa nova está pesando sobre os seus ombros, mas sei que você vai se sair bem.
— Eu não tenho assim tanta certeza.
— Está tudo bem. Eu posso ter certeza por nós duas. Estamos juntas nesta casa há quinze anos, por isso sei do que estou falando. Quando comecei, pensei que seria apenas uma questão de tempo até que a depressão tomasse conta de você. E então houve aquele verão em que a depressão chegou perto, mas não chegou a atacar. Todos os dias você levanta e aprende uma coisa nova. Todo dia você descobre alguma coisa para deixá-la feliz. Todo dia, sem exceção, você tem um sorriso para mim. Você se preocupa mais com a sua mãe do que consigo mesma.
Não acho que a Carla já tenha dito tantas palavras assim de uma só vez.
— A minha própria Rosa — Carla continua, mas logo para. Ela reclina as costas no sofá e fecha os olhos, tomada por alguma emoção que não compreendo. — A minha Rosa poderia aprender uma coisa ou outra com você. Ela tem tudo que posso lhe dar, mas sempre acha que não tem nada.
Eu sorrio. Carla reclama sobre a filha, mas posso dizer que ela a mima o quanto pode.
Ela abre os olhos e o que quer que a estivesse incomodando desaparece.
— Você vai ver. Logo aquele sorriso vai surgir de novo. — Ela afaga a minha perna. — A vida é difícil, querida. Todo mundo encontra um caminho.


A VIDA É CURTA®
Resenhas com spoilers por Madeline
O SENHOR DAS MOSCAS, DE WILLIAM GOLDING
Alerta de spoiler: Os garotos são selvagens.

18 comentários:

  1. Eu com certeza vou chorar. Pq mundo cruel?!

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  2. por enquanto, simplesmente amando <3
    e esse pai do Olly >:(

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  3. primeira a comentar? kkkkkk... tô gostando vai...

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  4. HUM.. ESSE LIVRO ESTÁ COM CARA QUE VAI SER BOM, JÁ AMEIII O PRIMEIRO CAPITULO..

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  5. AAAAAAAA, amei esse livro♥

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  6. Primeira a comentar nãaaaaaaaaaaaaaaooooooo!







    Quantos spoilers ��������������

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  7. Karina , eu queria saber se essa historia é mesmo um livro ou uma Fanfic.
    de qualquer forma é muito bom

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    1. É o livro Tudo e todas as coisas. As fanfics do blog são indicadas como "Fanfic" no título, além de possuírem o marcador "fanfic"

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  8. Meu pai...tadinha. Já é difícil conviver com meus problemas de saúde bem comuns até, imagine tendo alergia a tudo.
    N. A.

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  9. eu sinto em informar que:a gente vai sofrer muito!

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  10. Sinceramente, estou amando!!! Obrigada por este blog, vocês são demais!

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  11. estou vendo que eu vou chorar nesse livro. Acho q ele n é clichê

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  12. MDS, eu fui para esse livro por causa da minha irmã e tô simplismente amando, toma ae o me AMEI!

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  13. ESTOU AMANDO ESSE LIVRO, eu vim ler esse livro pr causa da minha irmã,toma ae meu AMEI!

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  14. GENTE QUE TRISTEZA MANO :(
    slc ... Já sei que vou sofrer com esse livro .

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  15. Tenho a intuiçao que esse livro e uma liçao de vida ja to amando

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  16. Eu assisti o filme quando lançou no cinema agora estou louca pra saber um pouco mais sobre o Olly e a Made

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  17. Karina você poderia criar um aplicado que pocibilitaria o acesso dos livros por ele, seria muito bom,assim como o blog <3

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Boa leitura :)