1 de julho de 2017

O presente

UMA SEMANA DEPOIS, minha mãe bate em minha porta. Permaneço no sofá no mesmo lugar onde estava. Ela bate com mais insistência e o meu ressentimento aflora. Não tenho certeza se nosso relacionamento será recuperado algum dia. É difícil para mim perdoá-la quando ela não consegue entender toda a gravidade de seu crime.
Abro a porta com violência quando ela está prestes a bater de novo.
— Não é uma boa hora — digo.
Ela se encolhe, mas eu não ligo. Quero feri-la muitas e muitas vezes. Minha raiva está sempre por perto. Espero que diminua com o passar do tempo, mas ela ainda está bem ali, à espreita.
Minha mãe respira fundo.
— Tenho uma coisa para você. — A voz dela é baixa e confusa.
Reviro os olhos.
— Você acha mesmo que presentes vão ajudar em alguma coisa?
Sei que acabei de machucá-la novamente. O presente treme em suas mãos. Eu o pego apenas porque quero terminar com a conversa o mais rápido possível. Quero me trancar no meu quarto, onde ela não pode entrar, e não ter de sentir pena, empatia, compaixão, nada.
Ela se vira para ir embora, mas então para.
— Eu ainda a amo, Madeline. E você ainda me ama. Você tem toda a vida pela frente. Não a desperdice. Me perdoe.


O FIM É O COMEÇO É O FIM
ABRO O PRESENTE da minha mãe. É um telefone. Abro o aplicativo da previsão do tempo da semana: sol e calor todos os dias.
Preciso sair de casa. Vou para o lado de fora, sem saber para onde estou indo até chegar lá.
Felizmente, a escada continua ali onde Olly a deixou. Subo até o telhado da antiga casa dele. O sistema solar mecânico continua ali e continua lindo. O sol, a lua e as estrelas de papel-alumínio balançam, se torcem nos fios que os prendem e refletem os raios de sol de volta para o universo mais vasto. Dou um peteleco em um dos planetas e todo o sistema começa a rodar devagar. Compreendo porque o Olly o construiu. É tranquilizante ver o mundo inteiro de uma vez só — ver as peças e saber como elas se encaixam.
Nossa, já se passaram mesmo cinco meses desde que estive aqui pela última vez? Parece que faz uma vida que não piso neste sótão. E a garota que esteve aqui? Era mesmo eu? Será que tenho algo em comum com a velha Maddy além de uma forte semelhança física e o mesmo nome?
Quando eu era mais nova, uma das minhas atividades preferidas era imaginar versões de mim em universos alternativos. Às vezes eu era uma menina de bochechas rosadas que adorava ficar ao ar livre, comia flores e fazia trilhas sozinha, subindo quilômetros e mais quilômetros montanha acima. Ou eu era uma paraquedista, piloto de corrida, uma jovem destemida, movida a adrenalina. Ou uma caçadora de dragões de cota de malha e espada sempre em punho. Era divertido imaginar essas coisas porque eu já sabia quem eu era. Agora, não sei de mais nada. Não sei quem devo ser neste novo mundo.
Continuo tentando determinar o momento em que tudo mudou. O momento em que minha vida tomou esse rumo. Será que foi quando o meu pai e o meu irmão morreram? Foi quando eles entraram no carro no dia do acidente? Foi quando o meu irmão nasceu? Ou quando os meus pais se conheceram? Talvez não tenha sido em nenhuma dessas ocasiões. Talvez tenha sido quando um motorista de caminhão decidiu que não estava cansado demais para dirigir. Ou, antes de qualquer outra coisa, quando ele decidiu se tornar motorista de caminhão. Ou quando ele nasceu.
Ou qualquer outro conjunto de momentos que levaram a este que enfrento agora.
Então, se eu pudesse mudar um único momento, qual eu escolheria? E quais resultados eu quereria? Será que eu ainda seria a Maddy? Será que eu viveria nesta casa? Será que um garoto chamado Olly teria se mudado para a casa ao lado? Será que teríamos nos apaixonado?
Segundo a teoria do caos, até mesmo a menor das mudanças na condição inicial pode levar a resultados amplamente imprevisíveis. Uma borboleta bate as asas e um tornado se forma no futuro.
Ainda assim.
Acho que, se eu pudesse localizar esse momento, eu o destruiria em pedacinhos, molécula por molécula, até que ele se reduzisse ao nível atômico, até que atingisse a parte essencial e inviolável.
Se eu pudesse destruí-lo e compreendê-lo, então talvez eu pudesse fazer exatamente a mudança certa. Eu poderia dar um jeito na minha mãe para que ela jamais se sentisse devastada.
Eu poderia entender como acabei sentada neste sótão no início do fim de tudo.


FUTURO PERFEITO #2
Para: usuariogenerico033@gmail.com
De: madeline.whittier@gmail.com
Assunto: Futuro Perfeito #2
Data de envio: 10 de março, 19:33
Quando você ler isso, já terá me perdoado.


DECOLAGEM



PERDÃO
OLHO PELA JANELA do avião e vejo quilômetros e mais quilômetros de campos verdejantes separados em quadrados perfeitos. Dezenas de piscinas azul-esverdeadas, misteriosas, jazem, brilhantes, lá embaixo. Daqui do alto, o mundo parece organizado, fruto de uma equação.
Mas sei que é mais do que isso. E menos. Ele é estruturado e caótico. Belo e estranho. O dr. Chase não ficou feliz com a minha decisão de viajar de avião assim tão depressa. Mas qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento. A segurança não é tudo. Há mais na vida do que se manter vivo.
Para seu próprio bem, minha mãe não tentou me impedir de viajar quando eu lhe dei a notícia na noite passada. Ela engoliu todo o medo, todo o pânico, apesar de ainda não acreditar por completo que não estou doente. Seu cérebro de médica luta para conciliar o que ela acreditou por tantos anos com todas as evidências de tantos outros colegas, todos os exames. Tento me colocar no lugar dela, pensando não nas causas e nos efeitos, mas nos efeitos e nas causas. Dou voltas e mais voltas e termino sempre no mesmo lugar.
Amor.
O amor torna as pessoas loucas.
A perda do amor torna as pessoas loucas.
Minha mãe amava o meu pai. Ele era o amor da vida dela. E ela amava o meu irmão. Ele era o amor da vida dela. E ela me ama. Eu sou o amor da vida dela.
O universo levou o meu pai e o meu irmão embora. Para ela, isso foi um Big Bang às avessas: tudo se tornou um nada.
Consigo entender isso.
Quase.
Estou tentando entender.
— Quando você voltará para casa? — ela perguntou.
Contei a ela a verdade.
— Não sei mais se isto aqui ainda é um lar.
Ela chorou, mas ainda assim me deixou ir, e isso tem de valer para alguma coisa.
Por fim, o cobertor de nuvens se torna muito espesso para que eu possa ver o que quer que seja.
Relaxo no meu assento e releio O Pequeno Príncipe. E, exatamente como em todas as outras vezes, o sentido muda.


A VIDA É CURTA®
RESENHAS COM SPOILERS POR MADELINE
O PEQUENO PRÍNCIPE, DE ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY
Alerta de spoiler: Tudo vale a pena por amor. Tudo.

6 comentários:

  1. Bommm a primera a comentar😁 eles sao tao fofos e td me lembra a como eu era antes de vc... e o final pode parecer insatisfatorio(n sei c escrevi certo e to poco me lixando c n 😉)mais ce vc ve pelo lado de vida real e mtu lindo e super emocionante esse e um dos meus romances favoritos adoro o Olly

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  2. O livro foi transcrito igual ao físico ou foi resumido?

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  3. Quem não adora o Olly

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  4. eu acho que ela foi 1 pouco cruel com a mae dela ;-;
    ela so fez isso porque tinha medo de perder ela e ficar sozinha.

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  5. Será que o caminhoneiro que matou o pai dela, é o pai do Olly?😮

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Boa leitura :)